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O Bom, o Mau, o Feio e o Bebé

por Rei Bacalhau, em 24.04.16

Estão os três em casa. Estão os três com o bebé.

 

- Agora somos supostos adormecê-lo ou algo do género?

- Isso não ficou explicíto nas instruções que nos foram dadas. "Aguentem-no aí um bocado" parece-me particularmente vago, na verdade.

- Bom, se é para entreter, a televisão não dá, que está sem sinal, sei lá porquê. Caraças para eles.

- É trágico, de facto. Proponho que sigamos para o computador, sempre nos podemos distrair colectivamente.

- Ah 'pera, se calhar vou buscar um brinquedo, vai andando.

Era tarde demais, pois o Feio já os seguia com um boneco chiador.

- Ah, boa, ainda bem que te lembraste. 'Bora.

O Mau, que segurava o bebé, já estava a ler notícias silenciosamente no computador. O bebé olhava contorcendo-se para todo o lado excepto o monitor, o que irritava o seu carregador.

- Pronto, esta notícia tem um vídeo, pode ser que seja suficientemente apelativo para não te mexeres tanto.

Inicialmente o jovem até prestou atenção, mas rapidamente resumiu a sua exploração visual do escritório.

- Olha lá, pá, achas que ele está interessado nessas tretas? Ele quer é cenas alegres e chamativas e tal.

- Deveras? Crês que consegues mantê-lo quieto durante mais de cinco segundos? Permito que o tentes, se transpiras tal confiança.

- Pá, não sei, mas mostrar-lhe notícias sobre legislação de drones não deve ser o que ele quer.

- Óptimo, vou tomar isso como um sim. - disse rispidamente. - Peço-te que o segures.

O bebé trocou de mãos repentinamente, e o Bom deu por si sentado na cadeira com um infante a olhá-lo expectantemente. Fez-lhe uma careta, que o pequeno respondeu com um largo sorriso e um pequeno gritinho. O Mau sentou-se no cadeirão a ler um livro qualquer.

O bebé atacou o teclado que tragicamente estava no seu alcance braçal.

- Ai não, não! 'Pera lá pequeno, não podes fazer isso.

- Da!

- Pois claro, percebo, claro, mas não pode ser! Vá, larga lá. Olha, se gostas tanto, tenho aqui um outro teclado para mexeres, que não funciona.

- Da.

- Mas és russo ou 'tás a gozar comigo? Vá, toma lá, destrói à vontade.

O pequeno explorou adequadamente o teclado obsoleto que lhe havia sido dado, adicionando-lhe o seu toque pessoal onde achava necessário, marcando-o com uma boa quantidade de saliva.

Uma voz aparentemente desinteressada avisou.

- Eu diria que a mãe dele poderia não gostar muito de o ver a digerir um teclado cheio de germes como esse deve ter. Mas que sei eu, não é verdade?

- Sim, 'tá bem, já t'entendi, vou tentar outra cena.

Digitou no teclado funcional: "youtube". Pensou um bocado. Decidiu-se e teclou: "mike oldfeild william tell". A plataforma de vídeo online, prestável como sempre, sugeriu rapidamente uma sugestão de correcção de "oldfeild" para "oldfield", apesar de ter simultaneamente tomado a liberdade de fazer a sua pesquisa com a palavra correcta, assumindo a azelhice do utilizador.

O utilizador azelha nem deu conta do seu erro, pois clicou imediatamente no primeiro resultado que lhe apareceu.

 

A música começou instantaneamente, não mostrando o anúncio do costume, surpreendendo todos os presentes. A melodia de Rossini, ressucitada por Mike Oldfield teve o efeito esperado no pequeno, pois este esboçou um sorriso ao olhar para o monitor e para os vários clones do músico multi instrumentalista. Infelizmente, a meio da música, perdeu totalmente o interesse e voltou para o que ele achava que era a sua refeição de plástico.

- Ah, é com música que o esperas ganhar? Porquê a versão do Mike Oldfield e não uma orquestral a sério? Porque não a ópera inteira, já agora?

- Não 'tás a perceber, isso demora muita tempo. Ainda lhe dava um fanico pelo aborrecimento. Tem de ser alguma coisa mexida.

- Ah, compreendo. Nesse caso devo dizer que se calhar está na altura de começarmos a mostrar ao jovem algumas peças a sério, e nada dessas porcarias mais populares. Deixa-me sentar aí de novo, e iniciarei a educação dele em coisas mais dignas.

O bebé trocou de mãos de novo. Nova digitação: "conan the destroyer theme".

- Oi? 'Pera lá, que raio vais mostrar-lhe?

- Acalma-te, compreenderás já de seguida, não tenho assim tão pouco senso comum ao ponto de ir mostrar cenas do filme. Pronto, aqui está, este vídeo só tem som.

 

Foi com um imenso espanto quase tenebroso que o jovem mirou a imagem intimidadora do Schwarzenegger no monitor. A música era "mexida", de facto, mas talvez não fosse apropriada toda aquela fanfarra épica que só é verdadeiramente apreciável em idades culturais mais avançadas.

O bebé não apreciou os esforços do Mau. Começou a rabujar mesmo quando a música estava a atingir o clímax. Esfregava os olhos e gemia ligeiramente, visivelmente aborrecido.

- Essa agora, é um ultraje! Ouve-me jovem, é quase inadmissível que essa possa ser a tua reacção a uma música tão poderosa como esta. Vou voltar uns segundos atrás e irás apreciar totalmente, pois vê.

- Pá, não podes fazer isso, esse tipo de coisas não é para ele, ele quer é brincadeira, dá-mo aí.

O bebé trocou de mãos mais uma vez. O Bom começou a dançar com ele no meio do escritório, elevando-o acima e abaixo, saltando e cantando. Mas ele não estava para aí virado. Desatou a chorar, desesperadamente.

- Pronto, já acabou a brincadeira, não é verdade? E agora o que é fazemos? Que propostas tens para o controlar? Considero-te responsável por esta explosão emocional que temos o prazer de assistir e principalmente ouvir.

- Também não ajudaste nada, lá com os Conans e os Rossinis e essa cambada!

- Quem introduziu o Rossini foste tu, se bem me lembro, por isso não posso aceitar tal acusação, e muito menos lidar com a consequência directa que tens nos braços.

- Olha, s'ele não 'tivesse aqui, mandava-te p'a um certo sítio.

- Acho que podes, não me parece que ele consiga berrar e ouvir ao mesmo tempo.

A discussão não convergia para uma solução, antes pelo contrário. Felizmente, esta veio de outra origem.

O Feio, até agora silencioso e imóvel, ergueu o boneco que trouxera. Este captou a atenção do pequenito. Gesticulou ao Bom que queria segurar o bebé. 

O bebé trocou de mãos. As mãos que o receberam não eram fortes e cruéis como as do Mau, nem rápidas e desajeitadas como as do Bom. Eram suaves e preocupadas, e manipulavam aquele corpo de 10 quilos com uma destreza lenta, mas diligente. O Feio apertou o pequenito contra si, agitando ainda o boneco à sua frente. Já parara de chorar. Pediu com um gesto ao Mau que saísse da cadeira. Este aquiesceu, intrigado.

O Feio navegou nas pastas do computador até à colecção de videojogos. Procurou durante algum tempo até encontrar o que queria. O pequenito parecia confuso, especialmente depois de o monitor ficar preto. Começou um som estranho, mecânico e algumas letras apareceram, que indicavam a empresa responsável pelo videojogo.

Depois, começou.

 

O pequenito não reagiu, provavelmente por esquecimento. Fixou os olhitos esbugalhados na magia que lhe ocorria à frente, com a boca perpetuamente aberta. Estava perante o menu inicial do videojogo Rollercoaster Tycoon, um simulador de um parque de diversões feito ainda nos anos 90, em Assembly. Este clássico dos clássicos tinha a particularidade de que o seu menu principal mostrava uma quantidade de parques de diversões já criados (e era portanto essencialmente a simulação já a correr), ao ritmo de uma musiquinha embalante e charmosa apropriada para um videojogo do género.

O plano do Feio nem era jogar, era simplesmente manter-se naquele menu, pois ele próprio tinha gasto tanto tempo a apreciar a beleza profunda daquela obra prima. Não a música, não a simulação, mas o jogo na totalidade das suas partes.

Escusado será dizer que poucos minutos depois o pequenito estava hipnotizado e já se tinha aninhado no ombro do Feio, ainda a olhar de relance para o monitor.

E adormeceu ternamente.

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