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O Cidadão - Parte I

por Rei Bacalhau, em 14.08.15

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Àquelas horas tardias, a rua estava deserta, fria e escura. A Lua estava numa luta constante com as nuvens para poder observar o seu domínio nocturno. Os postes de iluminação curvavam-se tristemente pela estrada fora, contemplando o alcatrão, esperando pelo menor sinal de movimento. Eis que surgem dois homens, e não poderiam ser o oposto um do outro de forma mais marcante.
O primeiro, um preto, de cara alegre e pouco enrugada, confiante no seu passo como se todas as preocupações do mundo conturbado em que vivem fossem inexistentes. Era de estrutura magra, mas atlética, e mais baixo que o seu companheiro de viagem.
Este segundo era um branco idoso, de cabelos brancos bem definidos pela sua calva. Era alto, enorme, barrigudo, e bafejava nervosismo ao andar, claramente desconfortável pelo seu passeio.
O velho aparentava seguir o preto, pelos múltiplos olhares hesitantes que lançava em redor, e pelo facto de parecer estar sempre um passo atrás, como se não soubesse para onde se dirigiam. Nas tentativas fúteis em que o preto abordou o velho para uma conversa banal, este respondia monossilabicamente com a voz tremida. O aspecto dos edifícios assustava-o, pois nunca tinha estado dentro dum destes bairros, e tinha certeza que a noite o fazia ver coisas que não poderiam realmente estar lá. Figuras estranhas, vultos a saltar para os becos, como se o observassem. Na verdade, era bastante possível que se não fosse pela sua companhia, este pobre velho já teria sido abordado por vários indivíduos, com intenções certamente criminosas.
Mas eles sabiam quem era aquele preto. Mais ainda, sabiam a quem o preto estava a levar o velho. E, nessa assunção, sabiam por último que abordar aqueles cavalheiros só traria complicações. Pelo menos enquanto Ele estivesse por ali.
Subitamente o preto pára. À direita dos dois homens está um beco, escuro como breu, fatal como o covil de uma aranha. O mais triste e solitário dos candeeiros ilumina unicamente o beco, e mesmo assim falha periodicamente na sua nobre função, deixando o beco num negro constante e terrível. Uma única porta é acessível por aquele beco, e é para lá que o preto se começa a dirigir, depois de tomar algumas precauções, olhando cautelosamente para a rua expectante.
São apenas alguns passos, mas o velho não pôde deixar de notar o lixo empilhado, o cheiro nauseabundo a algum animal morto, a humidade estranha que se lhe colava aos sapatos, a sensação constante de ser observado por uma ou mais entidades escondidas, sendo que quase se sentia o seu desejo de atacar este forasteiro nervoso. Mas nada viu, nem nada ouviu. Não conseguia mesmo assim compreender como é que alguém se permitia viver em tal antro aparentemente selvagem. E, no entanto, daí a instantes iria conhecer um homem que satisfazia tal loucura.
A porta estava aberta, e o preto entrou despreocupadamente, segurando a porta para o velho. Quando este a fechou, sentiu-se como se encurralado, e teve um reflexo para verificar se a porta não estaria agora bloqueada. Contudo, impediu-se de o fazer, não querendo causar a impressão errada. Numa primeira atitude disfarçada de coragem, pôs-se a seguir o preto, desta vez com o passo decidido, se bem que mesmo assim um tanto trémulo ainda. Ambos sobem umas escadas velhas e gastas de madeira, que rangiam à menor pressão aplicada. Notam-se ainda as marcas, como fronteiras, de alguma espécie de alcatifa que algures no tempo terá embelezado aquele lanço de escadas ordinário. Às paredes ia caindo a tinta e a humidade espalhava manchas enormes e negras como se a Natureza se quisesse expressar através destes padrões artísticos aparentemente involuntários. Chegados ao primeiro piso, escuro pois não havia electricidade no corredor, são atraídos como insectos pela luz proveniente de uma porta encostada, pacientemente à espera dos dois visitantes. Estes entram sem uma palavra trocada, fecham a porta e deparam-se com um contraste agradável ao exterior. O preto já estava claramente habituado, pois não deu muita importância e teve de chamar a atenção do velho quando reparou que este reparava na limpeza e organização geral do apartamento.
A primeira divisão da casa, o vestíbulo, era iluminada mais decentemente que se poderia imaginar, num bairro cujas potencialidades eléctricas eram duvidosas. Era uma entrada simples, pouco mobilada, mas se a primeira impressão é a mais forte, o velho ficou com a noção que o dono seria um homem de rigor só pelo estado de limpeza e arrumação que era apresentado a um visitante logo ao entrar. Na cardência, até os poucos objectos presentes pareciam estar impecavelmente alinhados, consoante alguma regra visual apenas conhecida pelo dono, mas claramente existente.
O preto acorda o velho do seu êxtase em ver beleza relativa de novo, e finalmente condu-lo à sala, que faz um novo contraste em termos de iluminação, sendo esta tepidamente fornecida apenas por um pequeno candeeiro de mesa no canto da sala. Do lado oposto, encontra-se erecta uma figura, masculina, quase camuflada pela falta de luz, penetrando o infinito da noite com uma expressão grave e dura no rosto.
O homem, ainda obscurecido, roda a cabeça para observar os recém chegados. O velho estava, erradamente, à espera que o homem com que se iria encontrar também fosse preto, mas tal não era o caso. Agora mais perto, conseguiu reconhecer um indivíduo branco, de contornos faciais finos e bem definidos, um nariz torto e sobressaído, que lhe dava um ar altivo, apesar das restantes características faciais mostrarem maior humildade. Uma barba não muito espessa cobria-lhe o maxilar, que mesmo assim escondido revelava-se largo, poderoso e definido, cobrindo ainda a área à volta da boca, tornando esta uma ilha vermelha distinta, mas séria e imóvel.
Foi aí que o velho observou este novo conhecido nos olhos, que o observavam com incerteza. Eram olhos perscrutadores e muito vivos, dois pontos escuros afundados numas olheiras que enganariam qualquer um a pensar aqueles olhos não poderiam ser muito activos. Brilhavam ao movimentarem-se incansavelmente, saltitando de um ponto para o outro, vendo, recolhendo, analisando, minuciando, detalhando, violando todo o pormenor do velho. Naquela primeira impressão, aqueles olhos pareceram verdadeiramente vorazes, quase psicopatas, olhos que já haviam visto mais do que poderia ser facilmente contado. E no entanto, o homem não parecia ter ainda 40 anos.
O homem aproximou-se do preto finalmente, sorrindo, para surpresa do velho, com visível agrado, numa transformação facial confortante. Abraçou-o.
- Adérito, meu caro, há dois meses que não te vejo, homem! - hesitou, olhando para o velho, e continuou. - Assumo que terá corrido tudo bem desde essa altura, com todos os assuntos? - reforçou esta última palavra, como para dar a entender do que falava sem revelar mais.
O preto, sabe-se agora que tinha Adérito como nome, mostrou um sorriso branco que tanto lhe contrastava com o seu tom, especialmente com a fraca iluminação, e respondeu:
- Sabes bem que não, mas talvez possamos arranjar uma solução para o problema. Por agora, gostava de te apresentar uma pessoa, que é a razão pela qual estou aqui, como te disse há bocado.
O homem assentiu, e viraram-se os dois para o velho, que quase se sentia só, deixado à porta da sala na expectativa. O homem estendeu a mão com um sorriso afável e honesto, como um cumprimento normal noutra situação social banal qualquer, que esta não era de certeza.
- Este é Francisco Ponciano, e a história dele chamou-me a atenção quando ia a passar na rua e ouvi gritos e confusão. Com o que vi acontecer, pensei que pudesse utilizar os teus serviços. - Adérito sorria misteriosamente ao acabar a frase.
O homem avaliou Francisco mais uma vez, mas o seu olhar tornara-se menos intimidador, tendo-se transformado em algo mais divertido e curioso, com expressão facial a condizer, pois sorria levemente. Os dois desconhecidos selaram o aperto de mão, e o velho notou uma força enorme na mão firme que apertava, força esta que não hesitou em retribuir. Isto pareceu satisfazer o misterioso homem, que falou de seguida, numa voz calma e pausada.
- Obrigado por ter vindo Senhor Francisco. Conte-me o seu problema e eu dir-lhe-ei se sou a pessoa mais indicada para o ajudar ou não. - dito isto, convidou todos a sentarem-se no sofá, para mais confortavelmente se poder começar aquela reunião. Os sofás eram demasiadamente macios, sendo que seria uma tarefa árdua quando fosse para se levantar, pois os corpos enterravam-se na espuma. Talvez por essa razão, ou por outra, o homem manteve-se em pé, junto à janela.
O velho não sabia bem por onde começar a história toda, visto que os eventos eram ainda muito recentes e não saberia se lhe faltaria dizer algum pormenor importante. Notando isto, o homem em pé disse simplesmente:
- Conte tudo desde o início, mesmo que já tenha contado ao Adérito. Não tenha medo, nada do que for dito aqui será sabido por outros. No final poderei fazer algumas perguntas para clarificar algum ponto menos bem entendido.
- Sim, claro, caro senhor, não terei problema algum, agradeço desde já... -a voz começou trémula, mas foi ganhando confiança à medida que as frases eram sofregamente proferidas. - Chamo-me Francisco Ponciano, como já sabe, - aqui hesitou porque lembrou-se subitamente que o homem não se tinha apresentado com qualquer nome - e sou dono de um minimercado no Bairro da Barrada. Já cá estou há 20 anos e acho que nem no tempo da Guerra vi as coisas da maneira como estão.
Fez-se um breve silêncio, pois a presença do homem de pé pareceu ganhar volume ao ser proferida a Guerra, após uma inspiração longa e demorada, e tenebrosa. A afirmação que Francisco havia feito tinha um peso muito maior do que poderia imaginar para os restantes presentes naquela sala. O homem moveu-se ligeiramente, como se subitamente incomodado, e colocou-se a observar a rua pela janela, mantendo a atenção na narração de Francisco. Adérito fez uma careta enrugada e preocupada como se soubesse o que o homem estaria a pensar, e recostou-se ainda mais profundamente no sofá engolidor.
- Há umas semanas atrás, estava a ser um dia relativamente calmo em termos de fregueses, maioritariamente o pessoal habitual do bairro, quando entram uma quantidade de miúdos, ou jovens, como quiser, de aspecto muito duvidoso. Eles andaram por lá como se andassem a preparar alguma, e eu já me estava a alertar. Ora então eles começam a pegar em produtos das prateleiras e a fugir, mas sem grandes preocupações. Vou a correr atrás deles, mas já não os apanho. Obviamente chamei a polícia municipal, - o homem à janela esboçou um esgar que poderia parecer um sorriso - mas eles pouco ou nada fizeram. Disseram que já tinham havido outros problemas na zona recentemente e que estariam no bom caminho para os apanhar. Infelizmente não foram rápidos o suficiente, porque mais uma vez os mesmos jovens apareceram na semana a seguir e já sem grandes preocupações roubaram e fugiram com mercadoria, mesmo antes que eu os visse! A polícia prometeu maior vigilância, e por uns dias apareceram alguns agentes lá à porta, mas não tornaram a aparecer. Há dois dias, assaltaram-me outra vez, e desta vez roubaram dinheiro, e apontaram-me uma faca! - as mãos a e voz de Francisco tremiam com a recordação atroz. - Eles estão a levar-me à ruína. Nem tanto pelo dinheiro, mas pelos nervos que me causa isto tudo, compreende? Eu já não sabia o que fazer, apesar de chamar mais uma vez a polícia... Já receava pela minha vida... - Os olhos de Francisco humedeceram-se e este não conseguiu impedir um soluço de se lhe escapar da alma.
- Continue, peço-lhe. - afirmou, tranquilizantemente, o homem ouvinte.
O pobre velho recompôs-se e prosseguiu, finalmente:
- Outros comerciantes que estavam a sofrer do mesmo tipo de ataques disseram-me que estavam a ser abordados por uns indivíduos de uma empresa de segurança privada, que sabiam que estavam a haver problemas naquela zona, e que ofereciam a protecção necessária, por um custo relativamente pequeno. Tanto quanto sei muitos acabaram por aceitar, nem que seja só para conseguir manter o negócio. Sermos assaltados todas as semanas não pode ser! Foi então que ontem, quando o seu amigo Adérito veio à minha loja fazer umas compras e ainda viu algumas coisas partidas e aí perguntou o que é que se passava. Eu imaginei logo que o seu amigo fosse um dos tais indivíduos da empresa de segurança, mas contei-lhe à mesma, nem que fosse para saber qual seria a oferta. Ora... quando chego ao final, aqui o senhor Adérito fez-me uma proposta que não estava à espera:
"Conheço um homem que é capaz de o ajudar, um cidadão especializado neste tipo de situações. Ele não lhe deverá pedir nada em troca."
- Demorei um bocado a ser convencido, mas o senhor Adérito foi tão insistente, e eu tinha pouco a perder, que acabei por concordar vir aqui, mesmo que fosse a estas horas suspeitas da noite...
- Posso assumir que o senhor Francisco já chegou ao fim da sua narrativa? - interrompe subitamente o obscuro homem.
Francisco assentiu com a cabeça, e o homem afastou-se com um impulso da janela e juntou-se aos companheiros nos sofás devoradores, refastelando-se num dos sofás individuais. Meditou uns momentos no assunto e finalmente rematou:
- Vou-lhe agora fazer umas perguntas, dou-lhe o direito de não responder se não quiser. É um caso muito interessante, mas as repercussões poderão ser maiores do que aquelas que o senhor imagina. Responda-me então com a maior certeza possível.
Parou como que esperando um assentimento por parte de Francisco Ponciano. Depois começou.
- O senhor não fez nada que os fizesse aumentar a agressividade dos assaltos? Não estou a contar o facto de ter chamado a polícia. Tentou de algum modo magoá-los quando os perseguia?
- Não, claro que não, eu não teria hipótese de me defender! - respondeu Francisco, quase chocado com tal sugestão.
- Eles atacam sempre à mesma hora?
- Mais ou menos, foi sempre à volta das 11 da manhã, nunca fugia muito.
- Os seus colegas comerciantes que também foram vítimas, sabe se a eles também atacaram à mesma hora?
- Não, não sei, mas sei que alguns foram nos mesmos dias que eu.
- Deveras? - o homem esboçou um sorriso leve. - E esses "alguns" estão relativamente perto de si?
Francisco pensou por instantes, querendo ser completo e preciso na resposta, pois a tenacidade com que lhe perguntavam estes factos parecia querer dizer que o homem tinha alguma teoria em mente que queria comprovar.
- Deixe-me facilitar-lhe a vida, se calhar. - disse impacientemente o homem. Levantou-se a aproximou-se de uma mesa, e convidou Francisco a fazer o mesmo. Este ficou admirado por se encontrar com um mapa da cidade. Nele estava apenas desenhado um círculo com marcador, e surpreendeu-se mais por perceber que era a posição do seu minimercado. - Acha que sabe apontar-me os restantes locais dos assaltos? Se puder mostre-me primeiro aqueles que foram assaltados no mesmo dia que o senhor, e depois os restantes. Sei que é preciso algum esforço, mas tente-se lembrar, peço-lhe. Esta é informação que me é difícil de obter, mas totalmente fundamental para a compreensão do caso.
Francisco já suava, relembrando-se, forçosamente, um a um, de todos os comerciantes aos quais havia ocorrido o mesmo.
- Há o Almeida, tem a mercearia não muito longe, é no final da rua, deixa lá ver... é mais ou menos aqui.. está aqui o cruzamento, pois.. sim, é aqui... O Vasco tem o quiosque ao pé da estação, mas ele só foi assaltado uma vez, mas aponto-o já... O Trindade e o Silva são doutro bairro, espere lá que visto daqui não consigo compreender bem... ora, segue-se esta estrada, rotunda, sim, agora aqui, pois o Silva é já nesta esquina, e o Trindade tem o talho numa rua paralela, deve ser esta.. é sim, deve ser...
Francisco Ponciano fez um trabalho notável. Demorou algum tempo, e precisou às vezes do recurso ao telemóvel de Adérito para consultar em visão 3D a rua, para se certificar que tinha a posição certa. Um a um, o mapa foi sendo preenchido de círculos desenhados nervosamente e de várias cores, para distinguir segundo os critérios que lhe foram pedidos. No final, levou a mão à testa, como se aliviado, esperançoso de que esta informação fosse valiosa. Francisco olhou então para o homem, e as suas faces haviam-se tornado mais sérias, como se lhe tivesse sido relevada alguma grande aflição futura. Os olhos saltitavam e faziam voltas pelos pontos marcados no mapa, analisando e raciocinando. Suspirou.
- O senhor Francisco portou-se admiravelmente. Acho que tenho em si uma excelente fonte de informação. Admito, com o seu perdão, que estava à espera de menos. - fez uma pausa, e olhou de novo para o mapa, mas agora parecia mais aliviado. - Terei de pesquisar mais um bocado e sondar o terreno, e só depois poderei dizer-lhe se posso fazer alguma coisa por si. Na verdade isto leva-me à última pergunta, que o senhor não estará pronto para responder.
Isto foi dito com um tom assustadoramente frio, que pareceu reduzir a temperatura da sala. Os olhos do homem tornaram-se mortos e tristes, mas ainda penetrantes. A expressão corporal era calma, sendo que ele entrelaçou os dedos em cima da barriga ao sentar-se de novo, como se no meio de alguma discussão pacata. Francisco já começara a compreender que aquele não era um homem representante de nenhuma empresa de segurança, mas também notara que não poderia ser um amador em assuntos que fossem além da lei. Senão, que pergunta é que seria tão estranha que ele não poderia responder?
O homem, sentado, inclinou-se para a frente:
- Assumindo que eu aceito o seu caso, o que é que o senhor deseja exactamente que eu faça?
Francisco Ponciano hesitou, e se o suor já lhe havia acalmado, voltou a brotar como pequenas infiltrações dum oceano de dúvidas que lhe passavam pela cabeça. O teor fundamentalmente frio, calculista e pragmático da pergunta fez o seu raciocínio balbuciar uma resposta que terá sido semelhante a: "Que quer dizer com isso?"
- Quero com isto perguntar qual é que deverá ser o destino final para os responsáveis pelos crimes, ou quais os objectivos das minhas acções.
Francisco coçou a cabeça, tentando compreender se o homem estava a propor fazer o que ele pensava que estava a propor. Respondeu, enfim, cuidadosamente:
- Eu gostava apenas que estes assaltos acabassem, seja à minha loja, seja às outras. Mas especialmente as que não forem protegidas pelas tais empresas de seguranças.
- Vou ser mais directo então - rematou o homem, sorrindo - quer que o livre deste problema por qualquer meio necessário?
- Homem, não os mate! Só preciso que os assuste ou impeça de fazer patifarias, mas sem nada de demasiado exagerado! - explodiu finalmente Francisco, soltando todos os seus receios, provavelmente num volume de voz mais alto do que afirmação merecia.
O homem e Adérito riram larga e jocosamente pela reacção, menos preocupados com o barulho gerado.
- Meu amigo, finalmente tenho alguma reacção honesta da sua parte. Relaxe, não se preocupe, era mesmo isso que eu queria que me dissesse. Se eu aceitar o seu caso, farei o melhor para não os magoar mortalmente. Repare numa coisa, no entanto: este tipo de gente não é facilmente lidada com palavras, pois aprenderam a respeitar a força bruta primariamente. Se eu puder, ensiná-los-ei o contrário, mas não prometo que ninguém vá parar ao hospital. - Fez uma pausa, lembrando-se que havia uma última pergunta relevante a fazer.
- O que é que o Senhor Francisco está disposto a sacrificar para resolver o assunto?
- Está a falar de pagamento? Mas tinham-me dito que nã...
- Não, - interrompeu - estou a falar de modo mais geral.
- Ah... enfim - Francisco Ponciano hesitou várias vezes com vários murmúrios e exalações diferentes - tudo menos a minha vida, nem que seja pelo bem de todos. - disse no que pareceu ser um estado, inédito, quase divertido.
- Óptimo, óptimo, assim consigo garantir mais certamente uma resolução, se eu for em frente com isto. Dê-me uns dias para decidir então, como já lhe tinha dito. Não me tente contactar, pois não conseguirá. Não venha aqui, pois não me encontrará, e não garanto a sua segurança neste bairro. Se eu quiser aceitar esta missão, chamemos-lhe assim, eu contactá-lo-ei, no máximo no prazo de uma semana. Se nada lhe disser até lá, assuma que estará por sua conta. Parece-lhe justo?
- Não me deixa grande alternativa...
- É uma resposta inteligente. Creio que nos vamos dar bem, meu caro. O Adérito irá acompanhá-lo até a sua casa, da mesma maneira que veio até cá. Assim nos despedimos - disse, estendendo de novo a mão aberta - e veremos se nos voltaremos a ver.
Francisco Ponciano apertou com firmeza a mão deste homem misterioso, lembrando-se novamente de um facto importante, e arriscou-se a perguntar:
- Desculpe, mas nunca me disse como se chama...
O homem olhou para Adérito, e este encolheu os ombros. Sorriu, e respondeu:
- Sou apenas um cidadão preocupado com o bem estar da sociedade. Chame-me isso.
- Como? De Cidadão?
- Sim, se assim quiser. - dito isto, voltou para a sua posição à janela, agora plenamente alumiado pela Lua que finalmente tinha vencido o combate contra as nuvens.

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