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O Cidadão - Parte II

por Rei Bacalhau, em 18.08.15

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O Cidadão observou o par improvável a subir a rua, e era visível que Francisco Ponciano avançava muito mais seguramente do que tinha originalmente vindo. O quarto ficou com um ambiente abafado, quase húmido, sem dúvida de toda a transpiração que havia decorrido naqueles recentes momentos. A respiração tornara-se cansativa e os olhos cansados. Era o momento provavelmente ideal para abrir uma janela.
Uma brisa leve soprou para o quarto, ainda mais influenciada pela enorme diferença de temperaturas que se notava entre os dois espaços, o interior e o exterior. O quarto inteiro pareceu respirar de alívio; as cortinas esvoaçavam relaxando-se; os cristais do candeeiro chocalhavam docemente uns com os outros, criando uma música caótica, embora suave; os mapas, tão recentemente e habilmente escrevinhados e riscados, faziam uma tentativa de fuga da mesa que os suportavam, auxiliados pela brisa, mas impedidos pelos vários objectos que lhes repousavam em cima, como canetas, marcadores, telemóveis, um cinzeiro inutilizado, o candeeiro que tentava iluminar a sala, mais canetas e mais marcadores, todos actores numa batalha fútil entre as forças gravíticas e as forças do vento.
O Cidadão observou silenciosamente a noite, que parecia retribuir-lhe o gesto, penetrando-o com o luar particularmente forte que se havia agora posto.
- O que é que achas, Lucas?
Um indivíduo entra no quarto a partir de outra divisão contígua. Procede imediatamente, com calma, a apagar a luz do candeeiro. O quarto parece adormecer até os olhos se adaptarem à ainda mais tépida luz da Lua. O homem aproxima-se do Cidadão, ainda sem lhe responder verbalmente. Coloca-se lentamente ao seu lado, e contempla quase romanticamente a noite, parecendo procurar uma resposta à pergunta.
Suspira.
- Poderá ser obra dele. Tem todo o aspecto disso. - responde finalmente Lucas. A voz era tímida e fraca e a frase foi dita com substancial passividade, deveras delicadamente.
- Sabê-lo-íamos detectar não é verdade? - esperou que Lucas acenasse afirmativamente - Creio que o Adérito também sentiu isso quando ouviu falar deste estranho caso pelas ruas. Acho que esta parte não sabes, mas não foi por acaso que o Adérito foi à loja do senhor Francisco. Ele está sempre atento a este tipo de notícias incomuns, felizmente. Se assaltos não são de todo raros, sendo que ainda hoje há pilhagens num ou noutro sítio, é de estranhar a grande capacidade de organização que mentes simples de assaltantes conseguem ter neste caso. Não pode ser coincidência... Já olhaste ali para o mapa que desenhámos? As lojas que eles escolhem assaltar parecem ter sido rigorosamente escolhidas, pois há outras na área que nunca foram sequer tocadas, tanto quanto percebi. O que é que estas lojas em específico têm de especial? Tenho uma teoria, que vou verificar a partir de amanhã com ajuda do Adérito, e é o que me faz pensar que é obra de um dos nossos.
- Porque é o que nós faríamos, certo..? - completou Lucas.
- Deveras, porque é o que nós faríamos. - confirmou o Cidadão.

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