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O Cidadão - Parte III

por Rei Bacalhau, em 21.08.15

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O Sol penetrou os edifícios cúbicos que marcavam a Rua Lamparina, reflectindo os seus tons ainda laranjas nas superfícies ainda adormecidas, ou pelo menos naquelas cuja luz não era fatiada por obstáculos. Era o começo de um dia como qualquer outro, e os sons e os movimentos rotineiros não demoraram a demonstrar-se. Algumas luzes acendiam-se e revelavam a presença humana naquela habitação. Algumas primeiras buzinadelas iam-se ouvindo, distantes. Um ou outro "bom dia.." cansado entre residentes daquela zona davam início às interacções sociais da manhã. Os postes de iluminação desligaram-se, descansando finalmente da sua função nocturna nobre.
As pessoas lentamente injectavam vida à rua. Esta era longa, preenchida por edifícios de apartamentos dos dois lados, formando quase um túnel, com excepção das raras brechas existentes entre os prédios. Outra excepção era um cruzamento que formava uma espécie de praça, sendo o local mais agitado da rua, apesar dos poucos carros que circulavam depois da Guerra. Numa das esquinas desse cruzamento, voltada para a rua que ia em direcção ao centro da cidade, situava-se o minimercado de Francisco Ponciano. O estabelecimento já tinha visto melhores dias, mas ainda mantinha alguma da dignidade da loja tradicional pré-guerra. Com a destruição quase completa dos sistemas dos hipermercados, este tipo de negócios pequenos voltou a ter algum sucesso comercial, mas não total. Os assaltos recentes não ajudavam muito, obviamente. Mas repete-se, o estabelecimento tinha uma certa doçura exterior, típica da familiaridade de bairro que emanava.
Os restantes edifícios variavam no que tinham a dizer aos seus observadores. Alguns, bonitos, restaurados, pintados e coloridos, diriam que aquele seria um dia que valeria a pena viver, pois o passado foi lá atrás e deve ser preferivelmente esquecido. Outros, estragados, cinzentos de fumo, esburacados, rachados, quebrados, partidos, disfuncionais, relembrariam a todos que a Guerra não foi assim há tanto tempo, pois as cicatrizes ainda estavam visíveis, se não sangrassem mesmo ainda. A cidade de Alvim foi palco de alguns cenários particularmente violentos, onde a Pátria sofreu pesadas derrotas. É, por muitos nacionalistas, considerada uma das maiores cidades-mártires da Guerra. Depois da Ocupação, a cidade foi, de forma não oficial, promovida a uma espécie de santuário por todos aqueles que queriam um lugar relativamente livre da chamada "tirania" dos invasores.
A pior dessas derrotas deu-se no bairro conhecido como Santa Margarida. Coincidentemente, não é muito longe da loja do senhor Francisco, e se calhar alguns dos danos visíveis nos prédios circundantes ainda seriam dessa altura. Os relatos sobre o que aconteceu variam muito, dependendo da lealdade da pessoa que o conta. Há a versão dos invasores, que a contam como uma vitória esmagadora sobre os restantes combatentes de uma cidade praticamente tomada. Há a versão dos defensores, que a contam como uma resistência heróica que durou semanas e que resultou na destruição de divisões inteiras do Inimigo. Felizmente, como em todas as histórias, há a versão de uns, a versão de outros, e a Verdade:
A cidade de Alvim situava-se como um dos últimos pontos estratégicos fundamentais para um avanço contra a capital, pois na prática dividiria o território invadido em duas partes. Para a liderança Inimiga isto era o mais conveniente, pois teriam a capacidade de impedir o envio de tropas para salvar a capital. Ambos os exércitos tinham noção disto, e a ambos foi cultivada uma fúria de conquista e defesa, respectivamente. Contudo, o exército nacional estava desorganizado, mal equipado, desmoralizado e malnutrido. Estavam em retirada constante há semanas, combatendo algumas escaramuças antes de fugirem, muitas vezes deixando equipamento para trás. Chegavam às centenas a Alvim, que já não conseguia suportar um tão crescente número de soldados e civis (que também fugiam desesperadamente do interior). Os que ali chegavam eram abordados por patrulhas para seguirem caminho para o Sul, se pudessem (e em certos casos mesmo que não pudessem). Os que tinham mantimentos próprios obedeciam, até porque lhes diziam que o exército Inimigo iria chegar em peso em pouco tempo. Apesar disto, muitos não tinham escolha senão ficar, especialmente quando começaram os boatos de roubos e ataques aos viajantes indefesos.
Os recém-chegados amontoavam-se nas casas que ficassem vagas quando os donos partissem, se estes tivessem sorte. Por vezes, estes donos eram obrigados a partilhar a casa com outras famílias, ou por "caridade" ou por ameaças. A Guarda Nacional pouco podia fazer para controlar estas situações, já que estava tão ocupada a preparar a cidade para um eventual cerco, que se adivinhava inevitável.
Quando se confirmou que o exército Inimigo marchava sem oposição em direcção a Alvim, o exército nacional convocou uma reunião pública, na esperança de discutir uma estratégia de defesa com os vários grupos de milicias existentes. Isto era inédito até à altura, e pouquíssimas vezes se fizeram reuniões semelhantes no resto da Guerra. O Exército Nacional tinha várias divergências com as milícias, em termos tácticos, estratégicos e patrióticos, já que grande parte das milícias era composta por desertores do exército, por discordância total com as ordens por vezes suicidas que os oficiais de topo davam. Estranhamente, nesta situação específica, os oficiais Nacionais tiveram mais senso militar que as milícias.
Para o Exército a cidade de Alvim era fundamental para o controlo da região circundante, mas o ponto verdadeiramente relevante seria a abertura quase total a que a capital estaria exposta no caso de Alvim ser conquistada. Contudo, situava-se numa posição geograficamente pouco defensável, e o Inimigo teria facilidades em rodear e flanquear a cidade, cortando linhas de abastecimento, por poucas que fossem. Defender a cidade, por muito heroicamente estóica fosse a decisão, era impensável, mesmo tendo em conta as consequências estratégicas. Estavam em inferioridade numérica, menos bem equipados e abastecidos, numa posição caótica... Haveria apenas uma hipótese para os estrategas Nacionais. Recuar alguns quilómetros e concentrar as defesas em duas vilas com muito melhores características para uma defesa duradoura. O plano seria então de abandonar Alvim, começando o mais cedo possível a evacuação.
As milícias não reagiram com choque. Já esperavam uma decisão desse género. Vários chefes milicianos contestaram a ideia. Alvim era uma cidade importantíssima, não só em termos militares, mas culturais principalmente. Era necessário lutar por ela, correndo-se o risco de se perder parte da identidade nacional. Na verdade, conscientemente ou não, os milicianos precisavam da presença do exército Nacional para a atenção do Inimigo não estar concentrada nas milícias, que conseguiam agir com algum conforto no meio das linhas inimigas. Se tal retirada proposta viesse a acontecer isso poderia significar a perseguição feroz das milícias daquela zona por parte do Inimigo. Muitas poderiam ser apanhadas desprevenidas, já que a comunicação entre grupos de milícias diferentes não era bem organizada, salvo específicas excepções. Não seria possível avisar as várias centenas de homens nos campos nos arredores que lutavam a guerrilha. Não todos, pelo menos. O argumento da importância cultural da cidade era portanto uma meia-verdade. Na política, a autopreservação dos indivíduos e dos seus interesses fá-los arranjar justificações, verdadeiras ou não, para as suas acções e decisões. A guerra é apenas uma forma mais violenta de política.
As discussões continuaram várias horas, e depois de vários desentendimentos, o Exército finalmente decidiu: iam retirar. Quem os quisesse seguir que se concentrasse nas vilas de Ralhões ou de Marmada. Por sua vez, os milicianos declararam que ficariam.
E ficaram.
Chamaram o maior número de milicianos possível das zonas circundantes. Os poucos grupos de milícia que tinham meios de comunicação entre eles usaram-nos para chamar milícias de muito mais longe, e, para surpresa dos milicianos de Alvim, depois da retirada das tropas Nacionais, começou a chegar um número muito maior de milicianos de terras muito longínquas, do Norte e do Sul. Aparentemente, de maneira completamente inesperada que ia contra a normalidade miliciana, vários grupos receberam a mensagem de pedido de auxílio de Alvim, e quase todos pensaram que poderia ser o momento de viragem da guerra, onde as milícias poderiam triunfar onde o Exército, corrupto, desorganizado e ineficaz, não conseguia: derrotar o Inimigo. Apesar de parecer improvável, a verdade é que as milícias eram muito mais experientes que os novatos do exército Nacional, e em certos casos estavam melhor equipadas, com armamento roubado ao Inimigo. Nas duas semanas em que este fenómeno se verificou, notou-se um aumento da organização intermilícias, pelo menos para aquela batalha. Cada grupo agiria de forma independente, mas haveria um mapa geral que delinearia as zonas pelas quais cada grupo seria responsável por defender. Certos grupos agiriam como reforços em zonas mais atacadas, e avisou-se os vários milicianos que poderiam ter de se integrar noutro grupo no meio da batalha. Esse mapa também delinearia três orlas principais da cidade. Todos os grupos deveriam retirar para uma orla mais interior caso um sinal combinado fosse activado: um alarme sonoro para retirar para a segunda orla e um foguete de sinalização para a primeira. Deste modo nenhum dos grupos seria apanhado de surpresa num flanco. Construíram-se defesas nos limites dessas orlas, com todos os objectos que se encontrassem. Empilharam-se sacos de areia nos locais mais importantes, e noutros o mobiliário dos habitantes ausentes teria de ser suficiente. Este tipo de barricadas já se havia provado relativamente eficaz contra ataques de infantaria, que era o esperado para esta batalha. A segunda orla aproveitava o rio para estabelecer pontos onde o Inimigo teria de se afunilar, facilitando a defesa. Se as pontes caíssem, a primeira orla situava-se numa pequena colina, num bairro pacato, mas com excelente visão da acção: o Bairro de Santa Margarida. Seria esse o último ponto de defesa, caso necessário.
Duas semanas e meia depois da retirada do Exército, ouviram-se os primeiros disparos nos arredores de Alvim. O Inimigo havia-se finalmente organizado e preparado o ataque. Duas divisões inteiras, com cerca de 20000 homens, marchavam cautelosamente sobre Alvim, perscrutando emboscadas nos caminhos até à cidade. No início da batalha, os milicianos tinham conseguido amassar 5383 homens e mulheres combatentes, e um número indeterminado de auxiliares civis, como pessoal médico, despenseiros, entre outros. Tinha sido deveras conveniente que algum atraso no exército Inimigo o tivesse feito demorar mais tempo que esperado, e portanto tivesse havido tempo para reunir forças. Sabe-se agora que era esse o plano do Inimigo desde que perceberam que tantos milicianos se haviam juntado num só sítio.
A pior praga de uma milícia é o colaborador, ou seja, aquele que coopera com o Inimigo, traindo os seus compatriotas em troca de algum benefício. Foi precisamente um destes que informou que as milícias de quase todo o país estavam a convergir em Alvim. As milícias eram um espinho bem preso na máquina de guerra Inimiga, e por isso o comando Inimigo decidiu aproveitar a rara oportunidade. O plano seria então deixar as milícias reunirem-se e prepararem-se. Dum só golpe poderiam aniquilar as milícias e equilibrar imediatamente as linhas de abastecimento que eram constantemente atacadas pelos mesmos. Seria a altura perfeita para usar uma arma secreta, que as milícias não esperariam.
A Batalha de Alvim começou com uma série de ataques pequenos para testar as defesas das milícias. Era uma táctica frequente do Inimigo. Há muito que tanques e camiões e aviões e artilharia e outras máquinas estavam ausentes dos campos de batalha, com a falta global de combustível. Como tal, cabia à infantaria fazer todo o trabalho da invasão sem suporte algum. Isto dificultava imenso a transposição das barricadas construídas, e normalmente resultava numa perda significativa de homens por parte do Inimigo. Os ataques pequenos mencionados serviam para expor os melhores pontos de penetração na orla defensiva montada. Estava claro para o comando Inimigo que a defesa era cerrada, como previsto. Mesmo assim, decidiram reservar a surpresa que tinham para o fim, já que parecia que iriam defender a cidade até ao fim, teriam com certeza um ponto final de resistência montado. O objectivo seria eliminar o máximo número possível de milicianos nesse local.
O ataque em massa deu-se essencialmente em três sítios, onde parecia inicialmente haver alguma esperança de aguentar firmemente a posição para os milicianos. No entanto, depois de duas horas de combates muito intensos e violentos, com perdas horríveis para ambos os lados, os milicianos cederam. Iriam retirar para as pontes. Soou o primeiro sinal, o alarme.
Em quinze minutos, as restantes barricadas da orla exterior foram abandonadas, e os vários grupos de milícias foram sendo reorganizados para novas posições ao longo da hora seguinte. Conquistar as pontes seria uma tarefa mais complicada para o Inimigo, pois não tinham vantagem alguma em termos tácticos, como atacantes. Diz-se que neste ponto nem os soldados Inimigos sabiam que de facto existia uma vantagem possível, mas que estava conscientemente a ser poupada para o fim. É discutível se os soldados não pensassem duas vezes antes de irem deliberadamente para a morte sabendo que existia uma opção.
Passou-se o dia sem novo ataque.
A milícia redistribuiu munições, tratou de feridos ligeiros e recebeu de bom grado alguns reforços do Sul durante a noite, 236 homens liderados por um oficial do Exército Nacional que havia desertado quando soube da batalha heróica que a Milícia iria lutar sozinha. Chamaram-lhes afectivamente "Os Cabrões" e foi-lhes designada uma área para defender relativamente maior, devido ao seu número mais elevado. A essa zona chamou-se futuramente Bairro dos Bodes (pois "cabrão" poderia ofender), em honra aos que lá lutaram.
O ataque Inimigo recomeçou logo de manhã, ao raiar do dia, esperando apanhar os defensores desprevenidos. Nesse sentido falharam, pois levaram imediatamente com fogo pesado. O Inimigo colocou vários botes nos rios, para espalhar a atenção dos milicianos. Alguns soldados inclusivamente nadavam apenas com uma pistola, que desesperadamente tentavam manter seca, para causar a confusão na outra margem. Em alguns locais estes nadadores e estes desembarques tiveram sucesso em perfurar a orla defensiva, mas sem apoio algum foram rapidamente mortos. As granadas de fumo eram o pior risco que os milicianos enfrentavam, pois poderiam tapar o avanço do Inimigo, reduzindo significativamente a letalidade de uma tentativa de atravessar uma ponte. Foi com este estratagema, que depois de inúmeras tentativas, o Inimigo rompeu a barricada montada na Ponte dos Azeites. Os defensores ainda tentaram demoli-la, mas os explosivos que haviam sido colocados como precaução não detonaram (veio-se a saber que foi por obra de um colaborador, entretanto apanhado e "julgado" sumariamente). Explodiram-se as restantes pontes, e todos os esforços concentraram-se na Ponte dos Azeites, numa tentativa de a recapturar. Foi um dos pontos marcantes de toda a batalha, pois a carnificina foi particularmente hedionda nas ruas que rodeavam a ponte. As facções avançavam e retiravam dinamicamente, e os cadáveres abraçavam-se e acumulavam-se, já quase sem distinção entre miliciano e soldado. As nascentes vermelhas que brotavam dos corpos desaguavam no rio, que tomava uma cor escarlate quase bíblica. Ao anoitecer, a situação mantinha-se, mas era óbvio que o Inimigo iria conseguir transportar muitos mais homens por aquela ponte. A situação tornara-se indefensável. Lançou-se um foguete de sinalização. Era o segundo sinal.
A batalha de Santa Margarida iria começar.

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