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O Cidadão - Parte IV

por Rei Bacalhau, em 25.08.15

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Infelizmente, na confusão logística após o primeiro dia de combates, ninguém se lembrou de explicar ao grupo dos Cabrões o significado dos sinais. Como tal, quando o sinal de retirada soou, os Cabrões mantiveram-se firmes, na ignorância. Ainda não tinham visto muita acção na batalha, pois os ataques do Inimigo não se focaram naquele ponto por eles guardado. Não deixaram de ficar chocados quando viram milicianos a correr na direcção do bairro de Santa Margarida. O oficial que comandava os Cabrões (que ainda hoje não se sabe ao certo quem era) ordenou aos seus homens para ignorarem a retirada dos seus aliados e para se manterem atentos ao Inimigo.
Um miliciano que corria apressadamente, carregando com dificuldade uma metralhadora ligeira, surpreendeu-se pelos Cabrões não se estarem a mexer. Pelo contrário, estes olhavam para os fugitivos com olhos esbugalhados de dúvida. Considerando que o Inimigo certamente passaria por ali em peso para atacar o último reduto preparado, era no mínimo estranho que parecessem tão... imóveis. Arriscou preocupar-se e foi rapidamente na direcção deles. Foi com choque que todos se aperceberam da falha de comunicação. O oficial comandante notou que seria necessário bastante tempo para reorganizar a defesa no reduto final. O oficial disse então ao miliciano para ele ir juntar-se à defesa. Os Cabrões comprariam o tempo necessário. Um a um, os soldados desse grupo foram avisados que iriam ser sacrificados para comprar tempo para os restantes combatentes. Foi dada a cada um a opção de se juntarem às milícias, pois era provável não sobreviverem ou serem capturados caso ali permanecessem. Dos 236 homens, apenas 21 fugiram para Santa Margarida. Os outros prepararam-se para um último combate.
Como esperado, o avanço do Inimigo não se demorou e foram avançando sem resistência pelos edifícios desocupados (por esta altura muitos poucos civis ainda habitavam as suas casas). Consequentemente, menos preocupados, pensando que se havia tratado de uma retirada total, os soldados inimigos marchavam relaxadamente pelas ruas circundantes do que é agora o Bairro dos Bodes. Os Cabrões estavam escondidos e esperavam a melhor altura para atacar.
Sabem-se poucos pormenores sobre o que terá acontecido, mas o combate foi feroz, pois as tropas Inimigas foram chamadas para convergir em massa no local. Em pouco tempo era possível observar que o Bairro dos Bodes estava cercado em todas as direcções. As rajadas formaram um chinfrim denso e constante. Nos raros momentos que os disparos amainavam, ouviam-se os gritos de dor dilacerante, sendo impossível distinguir um grito aliado de um inimigo. A dor era a mesma.
Depois de um último combate feroz, e de uma sequência incrível de explosões, os sons de luta acabaram. Os Cabrões haviam sido finalmente derrotados. Não é certo se houve prisioneiros. Surgiram vários mitos logo na altura, e, por surpreendente que seja, os milicianos não perderam moral alguma pela derrota dos seus aliados. Pelo contrário, ficaram apenas mais motivados para lutar, para honrar o sacrifício feito. Chegou-se mesmo a falar de um contra-ataque para ir procurar sobreviventes, mas o bom senso reinou.
Os homens conversavam pouco, e faziam-no baixinho. A expectativa era imensa. O bairro de Santa Margarida era delineado por uma alameda, que fazia assim, naquele momento, uma fronteira entre o território ocupado e o último reduto. As árvores que lá existiam foram deitadas abaixo para melhorar a visibilidade. No bairro, os edifícios eram um complexo labirinto de defesas montadas obrigar o inimigo a convergir para praças de massacre, como os guerrilheiros lhe chamavam, onde poderiam ser atingidos de qualquer direcção a partir de pontos estratégicos circundantes. Foram também pensadas para serem inutilizáveis pelo inimigo no caso de serem tomadas (em particular, algumas barricadas tinham uma grande quantidade de explosivos pronta a explodir remotamente). Secretamente, os milicianos haviam aproveitado as caves dos edifícios para fazerem túneis que os permitissem atravessar de um ponto para outro rapidamente. Estes túneis estavam, obviamente, prontos a explodir também. Os milicianos foram obrigados a queimar os mapas que haviam sido impressos com o sistema de túneis, para evitar que caíssem em mãos inimigas.
As defesas estavam prontas, a última resistência iria ser infernal para o Inimigo.
Foi altura do Inimigo utilizar o arsenal secreto.
Os milicianos subitamente acordaram do seu torpor temporário com um som desconhecido por alguns e já quase esquecido por outros. Um murmurar muito grave, muito abafado, muito longínquo. Ouviram-se os primeiros assobios cortantes dos obuses.
O Inimigo tinha artilharia!
A artilharia era algo raríssimo naqueles dias, pois desde a Seca dos combustíveis que a grande maioria das armas pesadas havia ficado paralisada. Tornaram-se alvos muito fáceis para as milícias, mas irrelevantes, pois eram máquinas inúteis. O Inimigo, tendo-se apercebido disso, voltou a aplicar um tipo de locomoção não existente desde as grandes guerras do século anterior: animais. Uma bateria inteira de canhões médios foi puxada por cavalos pelas estradas desimpedidas para desconhecimento total das milícias, com tanto foco que houve nas preparações da defesa. Agora que a milícia restante estava concentrada num só sítio, era altura de aplicar estes instrumentos na sua forma mais cruel.
O som sibilante perfurou o ar e estrada e terra e cimento e carne e alma. O tenebroso assobio era apenas o prelúdio dos breves vulcões que se formavam quando chegavam ao seu fatal destino, vomitando fogo, fumo, pedras e morte. As lágrimas dos fracos não eram suficientes para acalmar os fogos. A urina dos cobardes era desperdiçada involuntariamente nas calças. Os gritos de dor e horror não suprimiam os assobios, não suprimiam a voz final das bombas, não suprimiam o ruir dos edifícios.
Não suprimiam os gritos de festejo por parte das tropas Inimigas, já ali ao virar da esquina.
O miliciano, ali há momentos, orgulhoso, patriota, estóico e inquebrável fugia no caos da sua defesa perfeita levada à ruína. Como formigas num formigueiro pisado, todos andavam para todo o lado, sem objectivo concreto, tentando levantar algum companheiro de armas do chão, conseguindo na verdade apenas arrancar-lhe despropositadamente o braço ou a perna que já mal se agarrava ao corpo decepado. Pedra por pedra, os blocos de apartamentos ruíam. Os explosivos tão ingenuamente colocados como medida de defesa apenas contribuíram para a desgraça geral, colapsando os astutos túneis e soterrando os infelizes que ali estivessem. A cadeira de comando que se havia mais ou menos estabelecido colapsou mais rapidamente que os edifícios. Os milicianos debandaram, fugindo pelo único flanco da batalha que não estava em mãos inimigas. Os bombardeamentos mantiveram-se durante algumas horas, para solidificar o domínio total sobre os defensores. Já tinham sido mais que suficientes há muito tempo. As Milícias haviam fugido totalmente, ou as que podiam, pelo menos.
Os soldados inimigos entraram tropegamente no bairro, ainda cautelosos, mas só se depararam com um cenário que não tinha pessoas, nem animais, nem barricadas, nem armas, nem defesas, nem postes de iluminação, nem casas, nem prédios, nem carros, nem sinais de trânsito, nem passeios, nem ruas. Era tudo uma papa uniforme de entulho e fumo, com uma ou outra cratera reconhecível, provavelmente das últimas bombas a cair. Estava tudo deserto, nem um gemido se ouvia, nem um movimento se via. Apenas se cheirava o queimado dos fogos que ainda deveriam deflagrar no meio do entulho. Respirava-se apenas poeira, que secava as gargantas dos soldados, e os fazia tossir.
A Batalha de Santa Margarida estava acabada. Alvim estava tomada.

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