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O Cidadão - Parte IX

por Rei Bacalhau, em 11.09.15

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O ajuntamento de pessoas ainda lá estava, apesar dos esforços policiais para manter a multidão afastada. Dois polícias falavam com Francisco Ponciano, que suava ao fazer os melhores esforços para dar a explicação verdadeira mas absurda de que um homem só o tinha defendido e causado tanto alarido. As pessoas discutiam o evento distraidamente, pois já não era a primeira vez que aquilo acontecia nas redondezas, apesar de ter sido a primeira vez que os assaltantes foram impedidos de levar a cabo o assalto. Seja como for, a polícia não gostava de vigilantes que fizessem a própria justiça, e por isso as pessoas não discutiam o assunto muito profundamente, receando serem mal interpretadas e levadas para a esquadra por terem feito um comentário errado (nomeadamente, a favor do suposto vigilante). A algazarra policial era total. Os agentes corriam de um lado para o outro, cumprindo ordens. A porta da loja jorrava pessoas nervosas de e em todas as direcções, freneticamente. Grande parte do corpo policial era muito jovem e inexperiente, pois consistia maioritariamente de recrutas jovens. O objectivo disto era controlar as camadas mais jovens de potenciais milicianos, pois apesar das milícias terem quase completamente desaparecido, bastaria que houvesse recursos humanos disponíveis para reatar os fogos da revolta. A consequência disto era que a força policial era trôpega e ineficaz. Só a simples acção de manter a população afastada do local manteve os agentes ocupados durante imenso tempo.
Os poucos agentes que eram mais velhos eram, por norma, antigos colaboradores das tropas invasoras, que assim subiram na carreira quando o novo regime foi implementado. A sua tarefa principal era estar à escuta de comentários potencialmente comprometedores tanto por parte dos civis como por parte dos seus próprios delegados. Patrulhavam lentamente e soberbamente a zona do crime, soltando às vezes uma ordem banal, prestando mais atenção ao que ouviam do que ao que viam.
O Cidadão não gostou de ver as luzes dos carros da polícia. Não estava à espera que a polícia se interessasse tanto ao ponto de enviar carros, que mesmo para as forças governamentais eram raros na altura. Parou e reflectiu por instantes. Chegou à conclusão que este último facto faz sentido, e que já deveria ter pensado nisso, pois era totalmente coerente com a direcção do seu raciocínio até agora. Só faltaria um elemento, uma confirmação, que esperaria poder encontrar algures na praça. Perscrutou com toda a minúcia possível o cenário, procurando o que a confusão policial facilitaria esconder, mas nem por isso deixou de notar num homem no meio da multidão, erecto, observador, de porte orgulhoso e fixo. Um homem que deveria ter a sua própria idade. O que mais lhe chamou à atenção foi o seu traje. Calças de ganga azuis, e uma camisola leve preta, em pleno Verão. Era mais que certo, pois aquele era um traje típico de miliciano urbano, pelo menos há cinco anos atrás. Olhou em redor, esperando confirmar outra coisa. Numa das janelas num prédio do outro lado da praça estava um outro homem a observar. O Cidadão aproximou-se e identificou algumas características deste outro homem. Não lhe conseguia ver a roupa, mas viu que o seu olhar estava direccionado para o primeiro homem que se falou. Era a confirmação que precisava: um miliciano nunca está sozinho em missão.
Estes homens estavam a seguir o código antigo das milícias, em que milicianos em missão pública se vestiriam assim para impedir interferência por parte de grupos de milícias diferentes. Este código era quase absolutamente ignorado pela população, e as forças de autoridade não tinham a idade sequer para conhecerem tal particularidade. Só o olho de um outro miliciano poderia reconhecer o padrão, ou então um antigo soldado Inimigo, mas já não haviam muitos desses nas cidades. Era de estranhar a utilização desse vestuário, mas para o Cidadão tudo se tornava claro.
- É um dos nossos, certamente. Tenho de avisar os outros. - pensou para si.

A polícia finalmente largara Francisco Ponciano, e o homem na multidão interpelou-o, chamando a sua atenção.
- Boa tarde Senhor Francisco. Desculpe incomodá-lo nesta altura, mas eu represento o que poderá ser o fim dos seus problemas. Sou da firma de segurança privada SPA, e gostaria de lhe oferecer os nossos serviços, visto que é claro que precisa deles. - a proposta foi feita rapida e directamente, como quem não tem tempo a perder. O segurança sabia que Francisco teria de aceitar. - Provavelmente já deve ter ouvido falar de nós, e temos reparado num aumento de crime nesta zona, e por isso iremos oferecer-lhe um desconto tendo em conta que acabou de ser roubado.
- Obrigado amigo, mas não me roubaram nada, apenas me puseram a loja de pantanas. Acho que por agora ainda não vou precisar da sua ajuda com o excerto de porrada que os jovens levaram.
A negação inesperada empalideceu levemente o segurança, que estranhou principalmente a última parte da frase.
- Como assim? Então mas o que ouvi foi que foi assaltado pelo menos por 4 homens! Não me está a dizer que os desancou sozinho, pois não? - disse, sobressaltado.
- Não, claro que não! É o que estava a tentar explicar aos senhores agentes, mas eles não estavam a acreditar (e acho que ainda não acreditam). Foi um homem que me ajudou e ele sim deu cabo deles sozinho!
- Um homem apenas? Sozinho!? Contra quatro homens!? Ele estava armado!?
- Não, deu cabo deles com os punhos, até me pediu gelo!
- Mas o senhor conhecia-o? Sabe quem ele é? - o "segurança" tentou fingir um teor profissional ao fazer esta pergunta, como quem pensa num potencial recruta, sendo que na verdade a pergunta foi no sentido de perceber se tal homem seria uma ameaça.
Francisco Ponciano mostrou-se hesitante pela primeira vez, temendo dizer mais do que devia.
- Não lhe sei o nome, mas é um cliente que vem às vezes que por acaso estava cá hoje, e ainda bem! - mentiu, tremendo ligeiramente o lábio.
O segurança lançou um olhar sarcástico a Francisco. O segurança sabia que era mentira, pois ele sabia muito mais sobre a loja do que Francisco pensava. A mentira provava ao segurança que ele escondia alguma coisa, mas aquela não era a altura para o interrogar mais profundamente. No entanto, ainda rematou cepticamente:
- Isso parece muito estranho, o senhor tem a certeza do que diz?
- É como lhe digo, juro-lhe por tudo! Ele depois deixou um deles ir-se embora e pôs-se a segui-lo, não sei bem porquê.
- Seguiu-o!? Sabe em que direcção foram!? - perguntou o segurança, parecendo ficar progressivamente mais preocupado com esta última informação.
- Sim, acho que foram na direcção do Bairro de Santa Margarida.
O segurança tremeu e empalideceu brutalmente, como se atingido pela morte. Não só havia o plano falhado como agora havia algum desconhecido no encalço da sua organização. Sem responder a Francisco, voltou-lhe as costas e ia fazendo um sinal ao seu colega na janela.
Mas este já não estava lá.
O segurança praguejou e apressou-se para o interior do edifício onde estaria o seu colega, para o qual tinha uma chave. Rodou a fechadura, entrou, fechou a porta e mergulhou no silêncio escuro do prédio. Cautelosamente preparou-se para subir as escadas. Colocou a perna direita no segundo degrau da escada. Subiu a calça e retirou de lá o mortífero reflexo de uma faca. De faca em riste, continuou, como um réptil, a arrastar-se silenciosamente escada acima.
- Miliciano! - estrondou uma voz atrás dele, quebrando o silêncio gelado - Tanta cautela e cometes o erro de não olhar atrás das portas?
O segurança virou-se num instante, atordoado pela surpresa. Um homem de estatura média observara-o aquele tempo todo, e sorria levemente, quase paternalmente, como se tivesse apanhado um filho a fazer alguma patifaria. O segurança arribou do torpor momentâneo que o choque lhe tinha proporcionado. Agora mais senhor de si, avançou contra o estranho, com o propósito de o subjugar, pois ele teria algumas respostas a dar!
Contudo, o estranho não estava para responder a perguntas, mas sim para fazê-las. Prevendo a intenção do segurança, tomou um ar muito mais grave e retirou uma pistola que tinha escondida nas costas. Apontou-a sem hesitar. O segurança estacou, vendo-se em desvantagem.
- Vou destravar a arma neste momento. A partir de agora o que te acontecer será responsabilidade tua. O teu colega lá em cima foi bastante cooperativo nesse sentido. Agradeço que cooperes também.
O segurança nada disse. Sabia que estava batido. O silêncio seria a sua única opção a partir de agora. Certamente o homem à sua frente era um "porco colaborador", provavelmente a trabalhar para os serviços secretos dos invasores, considerando que este lhe tinha chamado de "miliciano". Não foi sem incredulidade que reagiu ao ouvir a próxima afirmação do homem com a arma.
- Para mim é estranho apontar uma arma a um miliciano. Normalmente aponto-a ao Inimigo, e não aos meus irmãos de armas. Proponho uma trégua. Temos bastante para conversar, diria eu. Que dizes, miliciano?
O segurança nada disse. Ele conhecia os truques que os colaboradores utilizavam para ganhar confiança. Até este ponto ainda não largara a faca, estando portanto ainda pronto para combater à menor oportunidade. O homem armado notou isso.
- Deveras, estou a gostar do que vejo. Não sabia que ainda existiam milicianos deste calibre. Sabes que eu poderia tomar a tua impertinência como um insulto se realmente te quisssse matar?
Era o que o segurança precisava de ouvir. Num impulso lançou-se contra o homem, com o objectivo de o derrubar, esperando que este não tivesse mesmo intenção de disparar. Era o tudo ou nada.
Tal ousadia não era inesperada por parte do homem, mas mesmo assim não se conseguiu defender da placagem, porque de facto não tinha intenção de disparar. Rebolaram os dois no chão, lutando descontroladamente. O segurança era incrivelmente forte, e as tentativas de defesa do homem tornaram-se incrementalmente difíceis. O segurança elevou a faca acima e preparou-se para a enfiar no coração do seu adversário. Este notou o movimento, e num reflexo impossível, agarrou-lhe a mão enquanto esta vinha na sua trajectória fatal. As feições do homem tornaram-se fogosas e cheias de raiva, circulando agora um surto de adrenalina incontrolável. O segurança bem aplicou a força do corpo todo no golpe, mas a faca era lentamente afastada pelo homem, tomado pela força sobre-humana com que parecia ter sido infundido. Era agora a vez do homem passar ao ataque, pois conseguiu empurrar o segurança para o outro lado do espaço relativamente pequeno do hall de entrada do prédio. A faca foi lançada para longe, e então o segurança só podia contar consigo próprio para se defender. O homem, cego de raiva, lançou-se despreocupadamente para cima do outro, levando um soco nas costelas, que pareceu ignorar. Atingiu o segurança na face duas vezes com a parte de baixo do punho, parecendo querer esmagá-lo. O ataque manteve-se contínuo, e cada vez mais golpes atingiam o segurança, à medida que as suas forças consideráveis iam diminuindo sob o poder da investida aparentemente imparável que ia sofrendo.
Uma figura sombria desceu as escadas e energicamente retirou o homem atacante de cima do segurança. O homem ainda se lançou mais uma vez, mas foi impedido pela sombra recentemente entrada em cena.
- Já chega. - disse calmamente - Não se esqueça que este é um dos nossos.
O homem, completamente ofegante, consciencializou-se do que acabara de fazer na fúria dos sentidos. Respirou fundo várias vezes, perdendo o fogo dos olhos e arrefecendo-se no silêncio novamente imposto pela interrupção da luta. O segurança, ainda consciente, não disse nada para além de uns gemidos. A sombra aproximou-se do segurança e ajudou-o a levantar-se. Este aceitou a ajuda sem deliberar, quase como se tivesse à espera de ser ajudado depois de uma batalha. Impressionado, finalmente quebrou o seu silêncio:
- Um colaborador nunca ajudaria um inimigo depois da batalha. - disse, também arfante - Eles nunca seguem o Código. No entanto, você ajudou-me agora como se fosse amigo. Afinal quem é que são vocês?
- Falemos lá em cima, onde está o teu colega amordaçado. Tirar-lhe-emos as mordaças e poderemos conversar, agora que já há alguma confiança, aparentemente. - respondeu levemente o homem que há cinco minutos atrás tê-lo-ia morto, possesso de raiva.
E subiram as escadas. O segurança foi o último a subir.

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