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O Cidadão - Parte V

por Rei Bacalhau, em 28.08.15

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O Cidadão sabia a verdade sobre o que tinha acontecido na mítica batalha. Desde então não voltara a Alvim senão recentemente, e mesmo assim não visitara ainda o bairro destruído. A lembrança não o colocava num bom estado de humor, mas conseguiu fingir boa disposição ao entrar na loja de Francisco Ponciano. Tinham passado apenas dois dias desde a sua conversa invulgar. Como tal, Francisco não pôde senão surpreender-se com a chegada inesperada do Cidadão. A loja estava vazia de clientes, o que daria as condições correctas para se discutirem assuntos sérios, mas o Cidadão não tocou no assunto discutido previamente.
- Bom dia, meu caro! - cumprimentou o Cidadão mais calorosamente que Francisco esperava. - É bom ver que os habitantes aqui do bairro têm genica para se levantarem cedo! Já anda toda a gente a trabalhar... agrada-me ver isso.
Apertou-lhe firmemente a mão, como dantes.
- Bom dia!.. - balbuciou Francisco. - Não estava à espera que me aparecesse aqui tão cedo... - hesitou, querendo fazer uma pergunta óbvia de se o Cidadão iria ajudá-lo.
Este reparou nessa hesitação, calculando o seu significado. Para evitar ter que responder, mudou imediatamente de assunto.
- A sua loja até está em boas condições. É limpa, arrumada, está bem iluminada (coisa rara) e tem mesmo aquele gostinho popular que me faria vir aqui todos os dias... Estou impressionado, deveras!
Naquele momento, Francisco pôde fazer uma melhor análise do homem que poderia ajudá-lo. Os seus olhos castanhos escuros, muito negros, vibravam e brilhavam ao examinarem escrupulosamente o espaço. A sua estatura delgada e a altura média em nada reduziam a presença que o indivíduo emanava na loja. Tinha vestido uma camisola de manga curta, que realçava os músculos muito secos e definidos nos braços, serpenteados por um labirinto de veias que se relevavam contra a pele. O cabelo, castanho escuro, tinha algumas madeixas brancas, não necessariamente indicadoras de idade avançada. A pele tinha várias marcas e algumas cicatrizes, mas só há pouco é que se deveriam ter começado a notar os primeiros vincos das rugas. Uma barba leve cobria-lhe o maxilar, queixo e a zona da boca. Ele mantinha a altivez observada no outro dia, e apesar de fisicamente não o parecer, estava ali um homem forte e orgulhoso, psicologicamente inabalável. E no entanto, por outro lado, sabia mostrar-se agora humilde e sorridente e simpático, conversando sobre banalidades, colocando-se à vontade como se ele e Francisco fossem conhecidos de há muito tempo atrás.
Conversaram então sobre diversos assuntos. Francisco Ponciano até contou a história da sua vida, enquanto atendia um cliente que entretanto chegara e apressadamente saíra, apenas para comprar tabaco.
- ... é que eu nasci no interior, sabe?, e trabalhei muito na lavoura com o meu pai lá nas terras, mas isso não era a vida que eu queria. Peguei no meu dinheirinho, pedi algum ao meu pai, coitadinho, e segui um primo meu aqui para Alvim. Depois, esse meu primo ajudou-me a montar um negócio de venda de legumes, que muitas vezes vinham da minha terra, quando podia ir lá buscá-los. Foram tempos difíceis, tinha que andar sempre a competir com os hipermercados que vendiam muito mais barato... Enfim, lá me ia arranjando. Entretanto casei-me, tive os meus filhos e consegui este negócio aqui, vendendo mais que só legumes. Aqui tenho um pouco de tudo, como vê. Pronto, quando a malvada Guerra rebentou dois dos meus filhos fugiram para o estrangeiro. O outro, o mais novo, alistou-se e desapareceu. Nem nunca soube se morreu ou não...
- Esse tipo de notícias seria difícil chegar aqui em certas situações, pois...
- O senhor lutou?... na Guerra, quero dizer..?
- Sim, com certeza que sim. - respondeu o Cidadão calmamente. - Quase todos os que são da minha idade terão lutado. Para onde é que o seu filho foi destacado? Sabe?
- A última vez que recebi uma chamada dele estava colocado em Forte Verde, que até era ao pé da minha terra.
- Forte Verde? Conheço bem a zona, de facto. Foi um dos pontos de entrada principais do Inimigo na altura. Se bem que Forte Verde em si não foi severamente atacado, os combates deram-se essencialmente nas redondezas. O seu filho nunca o contactou depois disso?
- Não, nunca, infelizmente.
- Como é que ele se chama, se me permitir a pergunta?
- Alfredo. - respondeu Francisco com voz trémula e olhos húmidos.

O Cidadão fez um longo silêncio e colocou-se a observar pela montra do estabelecimento.
- Diga-me Senhor Francisco, porque é que a praça parece estar enfeitada? - perguntou finalmente.
- Ah, é uma parada que vai haver a celebrar os cinco anos desde o fim da Guerra. É daqui a duas semanas, acho eu.
- O Senhor tem aqui uma bela vista para o evento, deve passar mesmo aqui à frente da loja, não?
- Ah... sim, acho que sim, que depois a marcha deve continuar para o centro da cidade.
- Deveras interessante. - aproximou-se de Francisco e estendeu-lhe a mão. - Despeço-me por agora, deverei voltar daqui a uns dias, talvez já amanhã, dependendo dos factores. Passe bem!
- Está bem, obrigado! Até amanhã!
O Cidadão sai quase a correr da loja e desaparece entre as ruas de Alvim.

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