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O Cidadão - Parte VI

por Rei Bacalhau, em 01.09.15

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Dois homens conversavam pela rua abaixo. Observavam e apontavam para as decorações já colocadas e discutiam a colocação de novas por um grupo de homens mais velhos, habilmente pendurados numa escada. Os enfeites, coloridos e abundantes, esvoaçavam levemente com a brisa que havia acordado após a hora do almoço. Os dois homens não pareciam satisfeitos, no entanto.
- São as cores do Inimigo, Lucas... É assim que eles pensam quebrar a vontade nacional? Terão de se esforçar mais que isso, não achas?
Perante a pergunta do Cidadão, Lucas apenas acenou negativamente, com alguma tristeza, o que causou alguma perplexidade ao Cidadão.
- Percebo-te. Mas ainda não é o tempo. Estamos agora apenas a começar a preparar-nos para o Momento...
Andaram algum tempo em reflexão silenciosa.
- Lucas, olha, mais uma das lojas atingidas pelos bandidos. - disse o Cidadão apontando para uma montra.
De facto, era uma das lojas apontadas por Francisco Ponciano. Os dois companheiros estavam a seguir a rota das lojas vitimizadas pela onda de crime. Era de estranhar que a loja fosse na verdade uma barbearia, com relativamente pouco interesse monetário. Justamente, a alguns números ao lado, existia um pequeno mercado, que com certeza seria mais rentável, e definitivamente não estaria fora de questão assaltá-lo, pois a loja de Francisco Ponciano era em tudo semelhante. Seja como for, a barbearia já tinha um segurança à porta, com certeza daqueles que tão pronta e convenientemente se apresentaram para proteger os negócios dos coitados dos comerciantes. O Cidadão estudou o segurança de longe. Ele falava ao telemóvel, pouco atento ao movimento nas ruas. Era um homem relativamente robusto e portanto bem alimentado, o que era raro ver-se naqueles dias de povo subjugado. Pelas feições via-se claramente que era compatriota, portanto estaria em princípio posta de parte a teoria que fosse algum interesse estrangeiro o responsável pelos ataques.
- Aproximemo-nos. Quero avaliar melhor a loja.
Lucas seguiu-o.
Aproximaram-se então, sem pressa. O Cidadão olhava em redor, procurando algo fora do comum sobre aquele local. Passaram à frente do mercado referido, que tinha duas grandes árvores numa espécie de jardim pequeníssimo mesmo em frente. Dois homens mais velhos discutiam algum assunto banal sentados num banco de pedra, aproveitando a sombra comparativamente refrescante daquele dia deveras encalorado. Chegados finalmente à barbearia, o segurança estava ainda distraidamente de costas voltadas a falar ao telemóvel. O Cidadão então arriscou-se:
- Espera aqui Lucas, vou lá dentro, há algo que tenho de perceber.
Lucas cruzou as mãos atrás das costas e encostou-se agorafobicamente a uma parede, à sombra. Lucas era magro, muito branco, ligeiramente curvado. Os cabelos pretos contrastavam-lhe o tom de pele, e eram grandes o suficiente para lhe esconder a cara parcialmente. De longe poderia facilmente ser confundido com um adolescente. A cara dizia uma história bastante diferente. As feições eram finas e sérias. Os olhos azuis, quase célticos, revelariam beleza noutras circunstâncias. Contudo, neste caso apenas se conseguia ler uma frieza enregelante no olhar. O nariz, finíssimo e alongado, completava a cara até à boca, que provavelmente seria a parte mais sinistra da face. Os lábios delgados pareciam constantemente colados um ao outro, criando muitas pequenas rugas que os distorciam. Isto era certamente directamente relacionável ao pouco que Lucas falava. Não se lhe via um pêlo facial, nem vestígios de um. Deveria ser apenas um pouco mais novo que o Cidadão.
Enquanto esperava, Lucas não deixou de apreciar o relativo e surpreendente silêncio que governava aquela rua àquela hora. Notou uma aparição raríssima naqueles dias: um carrinho de bebé, empurrado pela presumível mãe, acompanhada por uma senhora mais velha. Só pessoas com muito dinheiro é que poderiam pagar o imposto de natalidade requerido pelos invasores, que implicava que uma família tinha de pagar uma certa quantia avultada por cada criança que tinha até aos 10 anos, o que era insustentável. Muitos escolhiam ter filhos clandestinamente, sendo que os que eram apanhados nesse crime teriam um destino "incerto". O objectivo desta medida era bastante claro, e mais que uma vez gerou manifestações violentas, sem grande resultado.
- Vamos Lucas, já vi o que queria. - interrompeu repentinamente o Cidadão.
Lucas aquiesceu e colocou-se ao lado do companheiro de viagem.
Por fim, o Cidadão olhou de relance o segurança, que acabara a quase interminável chamada, e observou-lhe a face. Olhou uma segunda vez, menos subtilmente, como quem quer confirmar uma aparição inesperada.
- Ai ai... A trama complica-se... - comentou.

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