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O Cidadão - Parte VIII

por Rei Bacalhau, em 08.09.15

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Aquela rua, àquela hora, era bombardeada pelo Sol na sua força astral e avassaladora, derretendo o alcatrão das estradas e vaporizando muito lentamente os transeuntes, que, por obrigação ou masoquismo, formigavam lentamente sob o seu domínio equiparado tantas vezes à protecção ou tirania divina, consoante o contexto. A rua, íngreme, subia até um entroncamento no cume da colina em que estava assente, decorada dos dois lados de pequenas árvores, ainda infantes, ao longo de toda a sua extensão. Certamente daí a uns anos seria uma bela alameda para se subir e conversar com um morador vizinho, encostados à sombra duma destas titãs em desenvolvimento. Os edifícios, incoerentes e disformes uns com os outros, alternavam aleatoriamente entre terem dois a cinco andares, entre serem velhos e prestes a desmoronar a serem recentes e reformados no pós-guerra. Alguns abandonados, com janelas partidas, portas derrubadas, com plantas a reclamar diligentemente o seu lugar na cidade ao trepar pelos muros e fachadas ignoradas, com fragmentos soltos de cimento ou tijolo que são casualmente pontapeados para o lado se por ventura rebolarem para o passeio, enegrecidos e cicatrizados em todos os sentidos pela passagem dos anos e dos fumos e dos combates e da tristeza que presenciaram, sendo que apenas alguns sem-abrigo se aventuram a passar lá as noites, até serem ciclicamente expulsos pelas forças de ordem, com maior ou menor violência. Outros edifícios, modernos, ainda tão recentes que se poderiam considerar acabados de fazer eram o orgulho da rua, que se esforçava ao máximo para esquecer o inesquecível. Eram, portanto, coloridos, cheios de vida, sendo que alguns, muito poucos, até tinham choros e risos de crianças! Não deixavam de ser simples e um pouco rudes na sua estrutura e estética, mas eram funcionais e fáceis de construir, qualidades importantes naquele tempo. Os cheiros que emanavam das superfícies afectadas pelor calor intenso só aumentavam o bafo aparente que circulava no ar. As pessoas eram forçadas a um ritmo lento, quase inebriadas pelo Astro. Não se ouvia vivalma.
Qual não é a surpresa dos observadores que vêem um homem a correr colina acima, suando profusamente, com um olhar maníaco e extasiado e cheio de terror, coxeando levemente e ziguezagueando pelo passeio num esforço de evitar os vários obstáculos que se lhe impunham. A meio da rua, teve de parar, completamente ofegante. Como se atingido por um relâmpago, deu um movimento súbito para trás, procurando e perscrutando, como se alguém o seguisse.
Mas ninguém estava à vista.
Recuperou o fôlego e o indivíduo deixou de perturbar a paz absoluta da rua, partindo e ao chegar ao topo da colina, virou à esquerda.
- Ah pois, um indivíduo destes só pode ser dali do bairro, está-se mesmo a ver que ele vai para lá. - comentou um observador mais perspicaz.
O mesmo observador não pôde tirar grandes conclusões sobre o que viu a seguir, pois do lado oposto da rua vinha um outro homem, mais velho, também a correr, mas tendo o cuidado de se esconder onde podia, e claramente observava o ponto onde acabara de desaparecer o primeiro fugitivo. Este homem tinha maior controlo de si, e se de facto fosse uma fuga, este era claramente o perseguidor. Passou perto de um casal de idosos que se tentava colina abaixo, e desejou-lhes boa tarde, e continuou. Parou na esquina, tirou um objecto do bolso, usou-o na esquina como se estivesse a olhar para ele. Era um pequeno espelho, e usava-o certamente para ser mais subtil na perseguição. Ao garantir que o fugitivo não o esperava, mas pelo contrário, já tinha uma boa vantagem sobre ele, lançou-se a correr, ainda cauteloso, ligeiramente curvado sobre si próprio.
O Cidadão não pôde deixar de travar e hesitar ao deparar-se com as primeiras ruínas do que se chama o Bairro de Santa Margarida.
Respirou fundo, cerrou os punhos, e observou uma figura familiar a penetrar um edifício, fechando a porta com tanta força que se ouviu àquela distância. O Cidadão reflectiu. Lançar-se sem apoio para o meio de sabe-se lá quantos inimigos seria imprudente. Conseguiu o que queria primariamente, que era confirmar que os ataques provinham daquele bairro. Fazer uma expedição aquela selva de ruínas e edifícios quase improvisados iria requerer auxílio.
Precisaria de Lucas. Talvez até Adérito.
Uma ideia surgiu-lhe subitamente. Talvez só agora é que estes novos inimigos saberiam que o assalto falhou. Talvez os outros bandidos não tenham vindo directamente de volta para aqui, ao contrário do seu líder de bando. Decidiu voltar para a loja de Francisco Ponciano. Imaginou que, com sorte, estivesse lá alguém do qual pudesse tirar algumas informações preciosas. Alguém que não soubesse que o plano tinha falhado desta vez.

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