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O Cidadão - Parte X

por Rei Bacalhau, em 15.09.15

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Entraram os três num apartamento. A porta foi fechada pelo segurança. Penetraram na sala onde estava um homem sentado no sofá, apanhado a tentar soltar-se das mordaças que lhe haviam imposto. O olhar de confusão não poderia ter sido maior quando viu o seu colega, o nosso conhecido segurança, a entrar na sala juntamente com os seus agressores. Este apenas lhe deu um olhar grave, mas tranquilizador. Foi solto. Não disse nada, assumindo que a explicação se seguiria, apesar de não conseguir impedir-se de fazer uma careta odiosa aos dois desconhecidos.
As duas facções dividiram-se na sala. Os desconhecidos ficaram em pé, em frente ao sofá, onde o homem previamente amordaçado se tinha mantido sentado e ao qual se juntou o segurança, que se sentou pesadamente, não perdendo de vista os futuros interlocutores.
Um dos desconhecidos começou.
- Eu e aqui o meu amigo Lucas somos milicianos, apesar de já não termos recursos suficientes para mantermos as tácticas pelas quais as nossas milícias eram outrora famosas. Como tal, apenas podemos resolver problemas menores nos dias de hoje. A loja do senhor Francisco foi um problema que nos chamou à atenção, e, tendo-nos oferecido para o ajudar, foi com pouca diligência que o fizemos, aparentemente, senão algumas das lesões de hoje poderiam ter sido evitadas, tanto minhas, como as dos senhores, como até as dos vossos associados que atacaram a loja.
Os dois milicianos entreolharam-se.
- Escusam de tentar fingir. Tenho alguma boa ideia do que se está a passar e qual o vosso plano. Existem algumas lacunas na minha lógica, mas tenho confiança na minha teoria. Eu já disse honestamente o que é que faço aqui, agora agradecia que os cavalheiros se justificassem igualmente, pois penso que deverei um pedido de desculpas aos dois se o vosso objectivo aqui for nobre, ao contrário do que aparenta.
O miliciano com qual o Cidadão lutou limpou a garganta, preparando-se para falar. Era deveras um homem de porte considerável, deveria ter os seus 35 anos, e tudo nele era prova que havia sido miliciano, caso ainda não se tivesse percebido. Os cabelos e barba eram negros e espessos. As feições eram brutas e fortes, com um maxilar poderoso, dentes enormes, uma testa larga e preocupadamente enrugada, um nariz sobressaído. O olhar era poderoso, simbolizando que aquele era alguém que estava habituado a comandar. Grande parte da rudeza da cara teria sido obtida de conflitos, pois a mesma cara, se fosse imaculada, teria uma certa beleza masculina da Antiguidade. As cicatrizes, o nariz torto, as feições deslocadas, um ou outro dente desaparecido... eram todos indicativos do sofrimento que este homem teria passado, pelo menos do que era visível.
- Chamo-me Adrien Ferreira. Este é o miliciano Diogo Anacleto. - disse, apontando para o colega ao seu lado. A sua voz era profunda como o olhar, e penetrava gravemente nas pessoas que a ouvissem. - Ouça, posso confirmar que somos milicianos, como está a dizer que somos. No entanto, se você foi miliciano também deve saber que se estamos em missão não podemos dar detalhes. O Código assim o diz.
O Cidadão suspirou. Era a segunda vez que o miliciano referia o Código. Isto só trazia mais confirmações ao que o Cidadão teorizava. No entanto, ele teria de manter a conversa num rumo que lhe fosse propício.
- Não existe tal coisa. O Código que ouvi falar morreu há pelo menos cinco anos, com o fim da Guerra.
- Oficial... - interrompeu Adrien.
- Deveras, o fim oficial da Guerra. - concordou o Cidadão. - Custa-me mesmo assim crer que esse famoso Código ainda seja utilizado, ainda por cima considerando que nem todas as milícias o usavam antigamente. Mais improvável isso me parece agora.
- Espere lá, - interrompeu bruscamente Adrien, sem rodeios. - em que milicia é que você serviu durante a Guerra? Parece que sabe demasiado sobre o assunto!
- Ah!, invoco o direito de segredo também, desta vez. Não é relevante para a discussão, já que o senhor também não me respondeu adequadamente ao pedido de esclarecimentos que inicialmente fiz.
- Já lhe disse que não posso dizer nada sobre a minha missão.
Foi a vez de Diogo Anacleto falar. Este era um homem mais novo, de feições de fuinha. No entanto, a face ruborizada permitia inferir que este homem não seria tão experiente, apesar de parecer ter perto de 30 anos.
- Gostava era de perceber porque carga d'água é que você parecia saber que éramos milicianos e mesmo assim andou com esta parvoíce de me atar e andar à pancada com o Adrien!
- Essa é fácil, - respondeu o Cidadão - pois eu não sabia como é que reagiriam se me tivesse identificado imediatamente como miliciano também. Não podia deixar-vos escapar antes de vos fazer certas perguntas. Aparentemente a minha suspeita estava correcta, pela reacção que ambos tiveram pela minha aproximação inicialmente bastante diplomática.
- Você não pode pensar que pode atacar um membro da Milícia e sair impune! - trovejou Diogo, para espanto do seu colega Adrien - Eu por mim ainda não acredito que você seja miliciano e acho que deveria já ser executado!
Dito isto, pegou na pistola que estava despreocupadamente em cima da mesa. Apontou-a. Adrien levou as mãos à cara, mortificado pela reacção estúpida e inesperada de Diogo.
- Mas 'tás doido!? Pousa a arma já, imbecil! - berrou.
- Não enquanto este gajo não dizer quem ele é! Nem sabes o nome dele! Só sabes aqui o do magricelas.
O Cidadão observou a cena com mais interesse do que receio. Levantou a mão, pedindo para falar. Os dois milicianos estranharam o gesto. A mão de Diogo tremia.
- Jovem Diogo, pois para mim não passa de um jovem, eu compreendo a sua relutância em aceitar as minhas palavras como verdadeiras. Eu também sou muito suspeito de pessoas que eu não conheço. No entanto, nunca levantei uma arma a alguém que não se está a mostrar ser agressivo. Ainda há pouco tempo apontei uma pistola aqui ao Senhor Adrien, mas fi-lo pois sabia que intenções ele tinha se conseguisse alcançar-me. Gostaria de lhe perguntar então que movimento fiz eu para neste momento o jovem me achar uma ameaça?
Adicionalmente ao tremer da mão, algumas gotas de suor profusas reflectiam o estado nervoso de Diogo Anacleto, que nada respondeu.
- A sua hesitação mostra-me que não tem uma resposta. Peço-lhe então que baixe a arma. Não é de bom grado que permito que me apontem armas. Digo-lhe já que há uns anos, quando eu era menos indulgente, o jovem provavelmente já estaria morto.
Diogo Anacleto continuou com o braço estendido. As palavras do sujeito não pareciam estar a ter o efeito desejado, pois Diogo sentia-se cada vez mais insultado pelo palavreado, que agora tornara-se levemente ameaçador. Um esgar apareceu-lhe no rosto.
- Gostaria de saber como é que me matarias! - rematou ironicamente.
- Não disse que seria eu a matá-lo, meu caro. Não assuma que eu sou a pessoa mais mortífera nesta sala. Para além disso, considerando que a sua arma não tem munições e está travada, ainda teria uns segundo para o subjugar antes que desse por isso.
O tom calmo com que o Cidadão disse isto enganou Diogo ao ponto de o fazer confirmar rapidamente a verdade da afirmação. Olhou instintivamente para a pistola, apercebeu-se quase imediatamente do logro, e quando ia apontar a arma de novo surpreendeu-se com o facto de o Cidadão não ter feito um gesto.
- Não deverias estar a olhar para mim. - zombou o Cidadão - Neste momento o Lucas é mais interessante.
De facto, Lucas retirara a sua arma e juntou-se ao impasse. Os seus olhos gelados apenas viam um ponto fatal na cabeça de Diogo, a ser utilizado como destino final de uma bala bem colocada. Era uma estátua viva, fria, imóvel, de expressão impiedosa.
Diogo apontava agora a arma a Lucas, que não se deixou perturbar um momento sequer. Na distracção, o Cidadão retirou mais uma vez a sua pistola, para contribuir ainda mais para o frenesim nervoso de Diogo. Estava em desvantagem numérica.
- Agora jovem, parece-me que há apenas um desfecho possível para esta situação: alguém terá de ceder. - disse o Cidadão, sorrindo. - Lucas, agora!
Lucas e o Cidadão pousaram os braços calmamente, e voltaram a guardar as armas. Os outros milicianos ficaram boquiabertos.
- Repito, noutros tempos já estaria morto, meu caro, como pôde perceber.
Diogo achava-se vencido pela força das acções que acabava de presenciar. Relutantemente começou a pousar o braço. Adrien suspirou profundamente. Um tiro audível teria sido horrível naquela situação, pois a presença policial do outro lado da praça, lá fora, ainda era substancial.
- Obrigado, vejo que o bom senso imperou neste momento. Vou voltar ao assunto anterior. Estão no direito de não me dizer detalhes da vossa missão, e eu, como miliciano, tenho o direito de exigir falar com o vosso superior. Eu já o teria feito, mas não quis entrar no bairro de Santa Margarida sem grande noção do que me espera lá.
Ao referir o nome do bairro, apenas Adrien conseguiu esconder a cara de espanto. Quem era afinal este homem que aparentava saber tanto sobre a operação? Diogo olhou expectantemente para Adrien, como se aguardasse algum tipo de resolução de sua parte. Este, ainda deveras zangado pela reacção anterior de Diogo, apenas lhe devolveu um olhar profundamente reprovador e colocou-se a reflectir em silêncio. O Cidadão, notando isto, aproximou-se da janela para avaliar o caos que ainda decorria na praça, enquanto esperava uma resposta.
- Você tem que ter um nome, não? Se você é tão bem-educado, pelo menos agracie-nos - e disse isto duma forma jocosamente formal - com o seu nome, se não se importar.
- Eu não tenho nome. Se precisar de me identificar, digamos apenas que sou um Cidadão preocupado. - respondeu secamente.
A resposta não conveio a Adrien. Apesar disto, decidiu fazer uma chamada, para a qual se afastou da sala, longe dos restantes homens. Diogo Anacleto manteve-se a brincar com a pistola nas mãos, agoirando alguma tragédia por falta de cuidado, apenas para desafiar o Cidadão e Lucas.
Adrien seleccionou o contacto e fez a chamada. Tocou apenas uma vez quando uma voz lhe soou.
- Sim Chefe. Fala o Cão.... Sim... ah, já sabe, sim é verdade, aparentemente falhou... Não, quando fui lá ainda não sabia. Não sei porquê! O pequeno disse-me que tudo correu normalmente. Sinceramente acho que ele deve ter adormecido, o imbecil!, e contou-me a tanga de que tudo correu bem. É a única explicação... pois! ... POIS, exacto! Quando ele olhou para lá deve ter visto a algazarra de pessoas e bófia que pensou que tudo correu b... diga? Sim.... Sim.... Não, aliás, nisso já vou à frente. O Francisco tinha lá um gajo a defendê-lo... - ouviram-se vários berros do outro lado, ao ponto de Adrien ter de afastar o telemóvel da face - Sim, é isso... sim, eu sei! Chefe, eu sei que ele é só um, mas o gajo é um indivíduo especial, ou parece ser! - mais gritos - Sei porque ele está aqui no apartamento comigo!... Não, está solto, estávamos a falar.... Ouça, não vai acreditar, mas ele diz que é miliciano, mas não dos nossos. - o telemóvel quase entrou em combustão pela fúria demonstrada pelo interlocutor de Adrien ao ouvir estas palavras. - Chefe, acalme-se, ele sabe do Código e tudo, e já me poderia ter morto se quisesse... Ele tem outro gajo com ele, e ambos parecem fodidos o suficientes para terem lutado na Guerra.... Ouça, o gajo é muita forte, ele deu-me uma valente sova, e sabe que não gosto de dizer isto.... Não sei, ele não quis dizer, ele só disse que agora só resolve problemas mais pequenos, seja lá o que for que isso significa... como, desculpe?... ah... sim, esse é um problema... ele diz que não tem... sim, ouviu bem, ele diz que não tem nome.
Qualquer pessoa num raio de alguns metros daquele telemóvel teria ouvido distintamente a reacção a esta afirmação:
- Vai p'ó caralho!
- Acalme-se Chefe, ouça lá!.... Ele diz que é apenas um cidadão preocupado. O amigo dele chama-se Lucas, mas não disse apelido.... Sim, Lucas.
Adrien ouviu um longo silêncio, interrompido apenas pelo praguejar colorido do "Chefe".
- Chefe?... Estou?... Sim.... Não sei, ele queria saber o que é que nós estávamos a fazer aqui, mas não dissemos, claro. Disse que queria falar com o nosso superior. Ouça, este gajo parece saber muito do assunto de Milícias, com as coisas que ele disse hoje... Sabe? Como é que o Chefe sabe?.. Mas conhece-o!? O quê!?.... Tem a certeza?... Bom, 'tá bem, desculpe, vamos já praí.
Adrien desligou a chamada, atónito. Tentou recompor-se rapidamente da ordem tão inédita que lhe fora dada. Voltou calmo para a sala, apesar do sentimento de dúvida que lhe rondava a cabeça. Todos se viraram para Adrien. Este falou:
- Você quer falar com o nosso superior, não é?
O Cidadão acenou que sim.
- Então siga-me, vamos para lá rapidamente. Diogo, vem também, a limpeza do apartamento fica para depois. Agora temos a prioridade de escoltar estes senhores à base.
- Óptimo! - disse alegremente o Cidadão - Permita-me no entanto fazer uma única coisa antes de vos acompanhar.
Dirigiu-se à janela. Coçou demoradamente um dos olhos com um dedo.
- Estou pronto. Vamos?
Saíram todos do apartamento, fechando-o à chave. Adrien, Lucas e o Cidadão caminhavam lado a lado, não trocando uma única palavra. Diogo ficou uns metros atrás, tomando precauções em como não eram seguidos.
Ao subirem a rua previamente descrita numa fuga umas horas antes, Diogo notou que um homem acompanhava-os à distância, não fazendo qualquer esforço para não ser visto.
- Adrien! Temos companhia!
- Onde? Ah, aquele ali? Está a seguir-nos?
- É um preto!
- Os pretos normalmente não vêm para aqui. - estranhou Adrien.
- Ah, não se preocupem, ele está comigo, ele está aqui apenas como prevenção.
- Tudo bem, mas ele não vai entrar no Bairro. Não pode.
- Não pode? Essa agora? Porquê?
- O Chefe não deixa.
O Cidadão acenou com a cabeça, desapontado, pois sabia o significado daquela condição.
Bom, está bem... - suspirou, acenando um gesto ao tal homem.
O homem parou e sentou-se numa escadaria dum dos edifícios modernos.
- Pronto, podemos continuar, se não houver mais nenhum grupo étnico ou racial a deixar de fora. - disse o Cidadão ironicamente.
O grupo de quatro homens penetrou no bairro, sob a vigilância diligente de olhos invisíveis nas janelas.

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