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O Cidadão - Parte XI

por Rei Bacalhau, em 18.09.15

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O Bairro de Santa Margarida, antes da Guerra, era nada mais que um conjunto de edifícios parecidíssimos uns com os outros, ou mesmo iguais, construídos como cogumelos talvez por capricho de algum empreiteiro ou investidor insano. Não eram demasiado altos, tinham 4 ou 5 andares, e havia bastante espaço para estacionamento. Quando ainda havia possibilidade para tal, os jardins eram verdes e frescos, com relva simples, mas eficaz na sua função de contrastar com o cimento decorado de painéis amarelos e castanhos do prédios. Nos andares térreos fazia-se o comércio habitual de um bairro. Cafés, restaurantes, a farmácia, uma ou outra mercearia ou minimercado, papelarias de conveniência, o cabeleireiro unissexo (mais frequentado pelas senhoras), os balcões de bancos concorrentes, as pequenas "capelas" para os cultos religiosos mais obscuros, etc.. Colocado num ponto mais alto da cidade, era considerando um excelente sítio para se morar e criar uma família.
Quando a Guerra começou alguns edifícios ainda estavam a ser construídos, apesar de grande parte dos restantes já ser largamente habitado, mas não totalmente. As obras nunca continuaram, pois os construtores foram recrutados como sapadores improvisados. Com o progredir da Guerra, o bairro foi-se tornando mais vazio, menos produtivo, menos humano, como todos os outros blocos residenciais do país. Como se disse, a única coisa que fez este bairro mais relevante foi a derrota aniquilante que as Milícias lá sofreram no final da Guerra, tendo o local sido elevado a santuário, e os defensores elevados a mártires.
Era a primeira vez que o Cidadão entrava no bairro desde o final da Guerra. Para ser preciso, na última vez que ele passara por ali a defesa de Alvim estava a ser montada, e ele preparava-se para sair da cidade e atacar o Inimigo nos arredores. O seu grupo miliciano foi dos poucos que não concordou em defender Alvim, por lhes parecer que os recursos seriam melhor gastos em tácticas de guerrilha, como era costume fazer. Desde a mítica batalha que lhe ficara um peso insuportável na consciência, pois o Cidadão, estando nos arredores da cidade, conseguiu interceptar a infame bateria de artilharia quando esta ainda se aproximava de Alvim. A milícia do Cidadão poderia ter escolhido atacar o comboio militar que as escoltava e transportava, mas seria uma missão suicida certamente. A alternativa seria avisar Alvim sobre o perigo de um bombardeamento inesperado, mas as telecomunicações não funcionaram (soube-se depois que por interferência do Inimigo). Apressaram-se a voltar a Alvim, mas as estradas iam-se enchendo com soldados inimigos, atrasando fatalmente o regresso. Desesperaram quando começaram a ouvir as primeiras descargas da artilharia. Quando finalmente chegaram, na esperança de ainda irem a tempo, de que as descargas que estavam a ouvir há várias horas estivessem por milagre a ser disparadas noutra direcção, a cidade já fumegava sombriamente, em particular o último bastião de defesa planeado.
Puderam apenas observar a ruína da Milícia.
O Cidadão lembrava-se apenas vagamente do aspecto do bairro, mas sabia certamente distinguir as diferenças do "antes" e do "depois", ou, melhor dizendo, do "agora", pois algumas obras de remodelação já haviam sido feitas.
O entulho formava uma massa disforme de cimento, ferro, vidros, mosaicos e imensos objectos domésticos que ainda ali jaziam semienterrados, o que implicava que aquele local quase assombrado de dor até os pilhantes afastava. A paz relativa do bairro aparenta apenas ter sido corrompida pela chegada deste novo grupo de milicianos anónimos. Que milagre teria mantido as forças governamentais fora daquela operação era um dos mistérios que fustigava o Cidadão de curiosidade.
Era notável que a operação de remodelação tinha-se concentrado no essencial logo desde o início: uma única estrada tinha sido limpa para acesso mais conveniente aos poucos edifícios que estavam reconstruídos. Era presumível que a estrada servisse de acesso a veículos, mas não se via nem um. Existia uma espécie de muro feito de entulho. No mínimo, o entulho parecia ter sido colocado ali deliberadamente, já que criava uma clara fronteira entre o bairro e o resto de Alvim. O Cidadão olhava em volta e via estruturas improváveis, feitas de fresco, que se assemelhavam a pequenos cubos de cimento, como se fossem alguma barraca utilitária. O estranho era a quantidade destas estruturas que haviam, que estavam distribuídas pela tal espécie de muralha referida. O Cidadão conseguiu olhar para o interior de uma delas e as dúvidas que poderia ter dissiparam-se completamente. De facto, bem vistas as coisas, o que observou era um facto que poderia ter reflectido facilmente, tão óbvio se tornara.
Adrien não gostou particularmente do facto de o Cidadão ter espiado algo que não deveria, sendo que não confiava nele plenamente, mas o seu chefe teria uma boa razão para permitir um aparente desconhecido entrar na base de operações. Adrien estremeceu interiormente quando viu o Cidadão subitamente sorrir admirado, como quem tinha chegado a alguma conclusão arquimédica. Teria concluído alguma coisa na sua mente?
Entraram num edifício feio, cinzento, mas aparentemente sólido. Lá dentro, o ambiente escuro não conseguiu esconder as várias falhas estruturais que afinal existiam. O edifício não tinha sido construído com divisões. Era apenas uma espécie de armazém relativamente vazio. Ao pé das janelas do primeiro andar existiam patamares onde uma pessoa poderia estar erguida. No canto mais afastado existia um pequeno quarto, o único que aparentava ter algum tipo de privacidade. Ao encaminharem-se para este, o Cidadão notou a grande quantidade de sacos-cama e provisões espalhadas pelo chão. Finalmente viu um miliciano que o observava desde que tinha entrado. Protegido pela obscuridade, o Cidadão não o conseguiu reconhecer, mas rapidamente este facto foi remediado, pois o próprio observador lançou-se na direcção dele.
Uma arma reluziu na pouca luz que alumiava a cena. O Cidadão deparou-se com uma carabina de assalto apontada à cabeça. O homem apresentava-se em traje de combate, mais moderno e sofisticado que alguma vez tinha visto num miliciano.
- Já é a segunda vez hoje... O senhor Adrien acha que me pode ajudar aqui? - perguntou o Cidadão com um tom de dúvida.
Adrien, que estava distraído, acorreu imediatamente.
- Matias! Baixa já a arma caralho! - a voz imperativa de Adrien ressoou gravemente no espaço, reverberando os suportes que tão infatigavelmente combatiam as forças de gravidade.
Mais milicianos acorreram à situação, uns mais equipados que outros.
- Ah, espera, eu conheço-te, jovem! Ainda hoje estavas na loja de Francisco Ponciano, com um saco de gelo na cabeça. O mundo é pequeno. - zombou o Cidadão.
- Adrien, este gajo foi o que estragou o plano na loja! Como é que o trazes aqui!? É um traidor! Um colaborador! É preciso executá-lo! - vociferou Matias, que se reconhece como sendo o líder dos assaltantes da loja de Francisco Ponciano.
Um rubor violento atravessou a face do Cidadão. Lucas revirou subtilmente os olhos, já sabendo o que se seguiria.
- O teu chefe está a chamar-te, Matias, se esse é o teu nome. - disse o Cidadão, com uma calma sarcástica.
Matias olhou com segurança para o quarto previamente referido, não esperando uma reacção por parte daquele que ele assumia subjugado. Estava um homem à porta, de facto, mas não o chamara. A carabina é pontapeada para cima e Matias sente um ataque nos genitais. É habilmente derrubado e numa questão de segundos Matias tem uma faca a perfurar-lhe levemente o pescoço.
- Ouve-me bem meu conas. - começa entredentes o Cidadão, colérico, quase cuspindo-lhe na face - Não penses que me podes chamar de colaborador e sair impune. Agora nem vais respirar ou rasgo-te do pescoço à pila, se é que tens uma.
Ninguém fez nada. Alguns pelo choque da reacção, outros por pensarem que Matias já merecia uma lição há algum tempo. A maneira fleumática como Adrien tinha reagido à situação exortou a que todos se mantivessem passivos. Deveras, se aquele desconhecido tinha sido trazido por Adrien, certamente razões haveriam para ele não estar morto ainda.
- Não quero ter que te dar uma segunda tareia, ouviste? As hormonas já te passaram? Estamos mais tranquilos? - o Cidadão esperou uns instantes como que requerendo uma resposta, mas Matias nada disse, apenas arfou mais um bocado. - Vou-te largar. Aconselho a que vás lamber as feridas para um canto qualquer. Tenho assuntos mais importantes a tratar do que disciplinar soldados que nem são meus.
O modo totalitário com que isto foi dito foi suficiente para apresentar este homem aos milicianos. Um certo grau de respeito subconsciente impôs-se aos que observavam a cena.
O Cidadão levantou-se e Matias protestou quando este ainda tentou ajudá-lo a levantar-se, afastando bruscamente a mão que se estendia. Levantou-se sozinho, colocou a mão ao pescoço para avaliar a quantidade de sangue da ferida que sentia. O Cidadão ofereceu-lhe diplomaticamente a carabina, travando-a em primeiro, mas Matias não a aceitou e catapultou-se ferozmente para a rua. Fechou a porta violentamente ao sair. Era a segunda vez naquele dia que a mesma porta era brutalizada pelo mesmo homem.
- No meu tempo não tínhamos nada disto. - disse o Cidadão apreciando sorridentemente a carabina que Matias abandonara. - Gosto de ver, sim senhor!
Deu a carabina a um miliciano.
Adrien, algo impaciente, olhou para o Cidadão sugerindo que prosseguissem. Este concordou. Ao recomeçarem a trajectória interrompida viram o homem que estava à porta do quarto a entrar para dentro.
Era um reencontro que deixava o Cidadão muito expectante, pois poderia correr moderadamente bem, ou terrivelmente mal.
Adrien olhou para Diogo Anacleto, sinalizando-lhe que já não era necessário. Adrien foi o primeiro a entrar, seguido do Cidadão e de Lucas.

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