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O Cidadão - Parte XII

por Rei Bacalhau, em 22.09.15

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O quarto era na verdade uma espécie de gabinete, com uma secretária na parede paralela à porta. Nas paredes estavam pendurados vários mapas, maioritariamente rabiscados. A um dos cantos estavam várias armas encostadas, algumas de calibre maior que era hábito ver numa milícia. A sala não tinha janelas, sendo apenas iluminada por uma lâmpada fluorescente comprida. No centro, uma mesa dispunha de mais mapas, num dos quais se conseguia reconhecer o mapa de Alvim. Sobre o mapa estavam várias peças de Monopólio.
Um homem estava sentado impacientemente à secretária, virado directamente para a porta e enfrentando com o olhar os recém-chegados. Não era velho, mas já se lhe notava a falta de cabelo preto, que parecia ser compensada por uma barba espessa, mas bem tratada. Era um homem de olhos negros, cara volumosa, de bochechas cheias, que complementando o olhar violento que carregava, lhe dava um aspecto bovino. Estava vestido à civil, ao contrário dos seus presumíveis soldados.
O Cidadão estacou ao pé da mesa central. Adrien, que tinha entrado primeiro, desviara-se logo para a esquerda. Lucas encostou-se a um canto.
- Com que então ainda usas as peças de Monopólio como antigamente? Somos todos criaturas de hábitos, não é? - Apontou para o local no mapa onde estaria a loja de Francisco Ponciano. - Adrien, o senhor era aqui o Cão, imagino?
Adrien nada respondeu.
- Vá, - continuou, voltando-se para o homem na secretária - não estejas carrancudo. Não nos vemos há 5 anos, Pedro! É uma data de tempo para ainda estares zangado.
Adrien foi o que reagiu mais visivelmente, abrindo ligeiramente a boca, surpreendido. O Cidadão conhecia o Chefe Pedro!
O Chefe Pedro continuava em silêncio, acumulando as palavras que iria dizer. Certamente parecia que iria explodir.
- É com algum prazer que vejo que não te mantiveste quieto nestes anos. Tens aqui uma bela Milícia, e mais bem equipada que alguma vez vi, excepto talvez a do Prego. Temos claramente muito que conversar.
- Tu morreste... - disse levemente Pedro.
- E ressuscitei, como vês!
- Mas eu vi a explosão. Não poderias ter saído de lá!
- Eu dir-te-ia a mesma coisa. A última vez que te vi foi a entrar para o que restava do arsenal. Não faço ideia como é te escapaste. Ouvi um tiroteio imenso, e o Inimigo não parava de atacar a tua posição. Depois o tiroteio acabou, e imaginei o pior. Eu julgava-te morto até muito recentemente.
- Como é que soubeste?
- Tenho certos contactos que me avisaram. A verdade é que tenho andando à tua procura e qualquer rumor seria suficiente para desconfiar que pudesses ser tu. Alvim não foi a minha primeira paragem antes de te encontrar.
- E andas só à minha procura?
- Não Pedro, podes calcular com razão que não. Como vês, o Lucas acompanha-me, portanto não és o primeiro que encontro. Digo mais que estou à procura no geral, e se encontrar um bom rumor, óptimo, sigo por aí. A rede nacional de Milícias caiu, por isso a informação não está tão disponível.
Pedro olhou para Lucas, que parecia indiferente à conversa.
- Olá Lucas, tudo bem? - perguntou.
Lucas nada disse, apenas acenou levemente com a cabeça.
- Ainda o mesmo conas, está-se a ver. Encontraste mais alguém dos antigos?
- Dos 8? - perguntou o Cidadão.
- Sim.
- Sim, mais uns quantos. O Adérito era para vir, mas os teus homens disseram que ele não poderia entrar.
- O preto!? Nem esse monte de merda morreu!? - rugiu Pedro, levantando-se.
- Sim, o preto. Sei que nunca gostaste dele, mas ele é um dos nossos. Há que haver respeito, Pedro, então?
- Não podia ter ido lá para a terra dele, ter com a escuridão toda!?
- Esta É a terra dele, lembra-te disso... Seja como for, não foi para isso que vim cá.
- Ah, mas isto é mais importante! - interrompeu Pedro. - Já descobriste quem é que nos traiu há 5 anos? Quem nos diz que não foi o preto? Poderíamos ter aguentado se não fosse por ele!
- Pode ter sido qualquer um, Pedro. Reflecti durante muito tempo sobre o assunto, e nada me leva a crer que tenha sido o Adérito. Objectivamente falando, terias tu mais razão de ser o traidor. - prevendo o efeito que tais palavras fariam em Pedro, o Cidadão assertou a sua afirmação. - Nota que não estou a dizer que penso que sejas o traidor, longe disso.
De facto, Pedro não reagiu violentamente ao que quase pareceria uma acusação.
- Continuo a achar que deve ter sido ele. Ainda bem que não o trouxeste, senão seria imediatamente executado!
- Pedro, - começou o Cidadão mais seriamente - não achas que o teu racismo e xenofobismo infantil já está um bocado gasto? Digo-te agora o que te dizia na altura, a única coisa que te podes queixar em relação aos pretos, por exemplo, é que têm pila maior.
- Estou-me a cagar para ti e para as tuas piadas de merda! - explodiu Pedro, completamente ruborizado. - Aqui sou EU que mando e se entra aqui um filho da puta de um preto, é fodê-lo com um tiro no cú!
Pedro tinha enfatizado a palavra "EU" de propósito, como se fosse uma provocação, facto esse que não escapou ao Cidadão. Este respondeu friamente:
- Eu sei e sempre soube que o que tu sempre quiseste foi mais poder. Querias ter a tua própria Milícia para poderes fazer tudo à tua maneira. Eu sempre tolerei isso pois sabia que eras um bom líder e um recurso precioso. Mas digo-te agora, Pedro: podemos ter sido derrotados há 5 anos, mas nunca disse que a Milícia dos 8 estava desbandada. Lá porque pensavas que quase todos tinham morrido, nada te dá direito de pensares que eu não sou o teu Chefe ainda. Não penses que podes fazer tudo o que te apetece e sair impune!
Pedro estremeceu ao ouvir as palavras malditas. Era verdade. O Cidadão era de facto o seu Chefe para todos os efeitos. Ninguém ficou mais espantado que Adrien, que acabara de descobrir que o homem com quem ainda naquele dia tinha lutado fisicamente era o famoso líder da quase mítica Milícia dos 8, apenas conhecido como "o Chefe". Adrien percebia agora porque é que o Chefe Pedro insistia que o tratassem por Chefe. O espanto era total.
- E já agora - continuou o Cidadão, emocionado - que merda é esta de andares a atacar comerciantes inocentes pela cidade? Não me vais dizer que são todos colaboradores, ou vais!?
Pedro sorriu pela primeira vez.
- Ah, chefinho, mas não entenderias... ah ah! - Pedro riu-se a dentes soltos - Aposto que te deve parecer muito estranho o facto de alguns comerciantes aleatórios serem de alguma forma relevantes!?
- Ah não, eu tenho uma bastante boa noção do que estás a fazer, só não percebo é porque é que vais contra as regras e envolves inocentes nos teus planos aparentemente tão maquinalmente pensados.
- Não, não fazes ideia, é muito pior que imaginas!
O Cidadão fez uma careta de enfado.
- Está bem, então eu vou-te contar o que acho que andas a fazer, e dir-me-ás no que estou errado. Mas deixas-me falar até ao fim, sim? De acordo?
Pedro colocou um sorriso parvo e infantil na face bochechuda enquanto se voltava a sentar na cadeira, apoiando as mão na barriga e cruzando os dedos, como quem assume que está a falar com um ignorante.
Foi a forma com que Pedro consentiu que o Cidadão expusesse a sua teoria.

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