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O Cidadão - Parte XIV

por Rei Bacalhau, em 29.09.15

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A reforma de Francisco Ponciano foi notícia cochichada no bairro durante algum tempo. Este pôs a loja à venda e voltou para a sua terra. Curiosamente, a loja foi imediatamente comprada legalmente, e supostas obras de remodelação começaram imediatamente. Sem dúvida que Pedro interpretou a venda da loja como uma retirada táctica, e comprou-a assim que soube que estaria à venda. Teria assim maior liberdade para fazer as alterações necessárias à loja para o dia da parada. De resto, para as outras lojas que não estavam vagas, fechariam todas misteriosamente um dia antes da parada, por "razões de saúde", para ainda haver tempo de os milicianos fortificarem a loja, o mais subtilmente possível.
Pedro procurou ainda pelo Cidadão, ou Lucas, ou Adérito. Vários pretos eram trazidos a Pedro, mas nenhum deles era Adérito.
- São todos iguais uns aos outros! - era o comentário normal nessas situações.
Pedro sabia que os esforços eram algo fúteis. Encontrar alguém que conseguiu eludir a captura durante anos e anos de Guerra não se tornava mais concretizável com o avançar da idade, antes pelo contrário. Pedro sabia que Ele iria tentar fazer algo. "Suponho que nos vemos em batalha...", tinha dito.
Pedro estremeceu ao lembrar-se da última vez em que ele dissera isso a alguém. Morreram centenas de soldados.
Que iria ele fazer? Iria arranjar um exército? Iria aliar-se ao inimigo? Iria incitar a população? De que maneira iria combater? A expectativa corroía Pedro por dentro. Mentalizou os seus soldados para um combate ainda mais sangrento, e deveras mais glorioso.
- Vamos expulsar a escumalha da cidade. Matamos os colaboradores, esfolamos os pretos e os estrangeiros e essa cambada toda. Corremos com eles para os países deles. Quando só estiverem cá patriotas como nós começamos a limpar a Nação, cidade a cidade, homem a homem. Se no final de tudo, ainda estivermos sedentos de mais, porque a vingança também saberia muita bem, invadimos o país inimigo! Violamos as mulheres! Chacinamos cidades inteiras como eles fizeram connosco! Quem se pode esquecer dos massacres? O massacre de Carfes? O de Almujoz? O de Vila de Malha? Aqui mesmo, o de Alvim! Este é o Momento rapazes! Seremos a ponta da lança que penetrará e foderá o cú do Inimigo. E se essa lança precisar de trespassar um ou outro traidor antes de se enfiar no Inimigo, que seja! Há para todos! A reconquista começa aqui, duma maneira ou doutra! É o Momento!
Os homens, enobrecidos pelas palavras, urravam gritos de alegria e de guerra.
Excepto um.
Por detrás da figura possante de homem violento e inquebrável, Adrien era inerentemente humano. Ele respeitara a visão de Pedro e seguira-o durante algum tempo, mas começava a não concordar com algumas ideias mais radicais. Perdera o respeito que tinha por Pedro ao longo dos tempos recentes. Se ainda combateria ao lado de Pedro e da sua milícia era porque queria sentir-se útil para a Pátria, e tentaria evitar os barbarismos que Pedro propunha. Eis que lhe aparece um homem que lhe cria um enorme dilema moral. Um homem que deu vários exemplos de ter a integridade e sanidade intacta mesmo depois da Guerra horrível. Um homem que tinha aparentemente liderado muitos homens para batalha, que tinha percorrido o País a levar a luta ao Inimigo e desaparecendo depois. Um homem com um plano a sério, pois o que Pedro dizia eram apenas mentiras motivadoras. Nisso Adrien mostrava ser inteligente, ao contrário de outros, como Diogo Anacleto, que idolatravam a palavra de Pedro.
Adrien esteve neste dilema durante uma semana.
Certo dia, Adrien observava do apartamento, já nosso conhecido, a praça onde tanta acção já se desenrolou. A equipa Cão estava em posição e auscultava a passagem monótona da vida rotineira das pessoas na cidade. Diogo Anacleto barafustava contra o calor e repetia pela milésima vez as partes que mais gostou de vários discursos de Pedro, o Chefe.
- Um rio de sangue, disse ele! 'Tás a ver ali a sarjeta? Imagina um fio contínuo de sangue colaborador a correr! Da maneira que ele disse consegui imaginá-lo, tipo visualizá-lo mesmo, 'tás a ver? Tu ouviste também, não? 'Tavas lá, n'é?
Adrien limitou-se a acenar, ignorando educadamente o seu colega.
"Como contactá-lo?" - pensou - "Não faço ideia de como o encontrar... Nem sei como fazê-lo procurar-me. Preciso de falar com ele! O Pedro só causará destruição se não for parado. Deverei alertar a Guarda Nacional ao invés disso? AH.. mas aí seria um colaborador, não posso, não posso..."
Olhou pela janela, onde há uns dias esteve o homem com quem queria falar. O tal "Cidadão preocupado". O verdadeiro Chefe.
Seria traição chamar-lhe isso? Não mostrou ele mais capacidade de liderar num dia que Pedro em mais de um ano? E se na verdade estivesse apenas a trocar um maluco por outro? Não. Aquele não. Aquele transpirava razoabilidade. Era Pedro que estava louco, certamente!
Mas como encontrá-lo?
Adrien levantou-se e aproximou-se da janela. Lembrou-se de como naquele dia, o Cidadão se colocou exactamente naquela posição e coçou o olho demoradamente. Aí, Adrien apercebe-se.
"E se fosse um código? Ele realmente demorou imenso tempo lá, e deliberadamente na janela. Como se fosse observado. O preto! O preto apareceu depois, a seguir-nos! Aquilo era um sinal! Então.. será que..?"
Temendo estar a cair no ridículo, olhou para trás, para Diogo Anacleto, mas este apenas prestava atenção a alguma coisa no telemóvel. Adrien olhou pela janela de novo. Procurou no horizonte, como se esperasse ver alguém a observá-lo. Nada viu. Resignou-se então a fazer uma figura que lhe parecia infantil. Esticou o dedo e coçou o olho direito demoradamente, quase dramaticamente, quase como quem grita:
- Olhem para mim, estou a coçar o olho!
Lançou o olhar vivo à procura de algum género de resposta. Nada viu.
Voltou para dentro e caiu no sofá.

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