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O Cidadão - Parte XV

por Rei Bacalhau, em 02.10.15

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Era o final da tarde. O Sol já há muito começara a descender para desaparecer no horizonte, mas este ainda não tinha nenhum daqueles tons coloridos que anunciam o fim do dia. Os dias eram longos e por isso o calor ainda se fazia sentir, especialmente nos corpos que permaneciam fechados em apartamentos, como se inseridos em estufas humanas.
Se por um lado Diogo Anacleto adormeceu, sem dúvida por causa da sonolência que tal calor e ócio implicam, Adrien por seu lado estava bastante desperto. Amanhã seria o cortejo. As últimas preparações ainda estavam a ser feitas pelas ruas fora. Adrien tremia mentalmente pensando nas acções horríveis que faria amanhã em nome da Pátria, já que a sua outra alternativa havia falhado há uns dias, apesar de ter experimentado o gesto ridículo mas umas vezes, cada vez mais demoradamente. Poderia fugir, simplesmente não participar, mas isso colocaria em risco toda a operação, e talvez morressem mais homens que fosse necessário. Talvez fosse realmente o melhor a fazer... lutar, isto é. Nenhuma guerra é ganha sem sacrifícios, é bem sabido.
O pensamento de Adrien foi interrompido pelo bater na porta. Era de estranhar, pois não tinha ouvido a porta do prédio abrir-se. Seria alguém de dentro do edifício? Algum vizinho? Adrien levantou-se do sofá e espreitou pelo buraco na porta. Apenas viu tenuemente um rapaz muito novo, com roupas de adolescente e cabelo a tapar-lhe a face, a esperar pacientemente que abrissem a porta.
- Quem é?
O jovem nada disse. Baixou-se e aproximando-se da porta pareceu tentar enfiar algo por debaixo da porta. De facto, Adrien sentiu e ouviu uma folha de papel que lhe acariciou as botas pesadas e insensíveis. Pegou na folha, que tinha apenas uma morada escrita e uma hora, que Adrien nem leu devidamente. Confuso, olhou pelo buraco de novo. O jovem coçava o olho direito.
Adrien abriu a porta, mas o jovem já descia as escadas. Pediu-lhe para esperar, mas este não parou, mantendo o seu passe calmo. Adrien agarrou o jovem pelo ombro. Este virou-se finalmente. Adrien reconheceu, espantado, Lucas, vestido de adolescente por alguma razão. Por instinto, largou-lhe lentamente o ombro e deixou-o ir. Lucas saiu do prédio sem dizer palavra e desapareceu.
Adrien escondeu o papel no bolso, enquanto subia as escadas balbuciando interjeições de perplexidade. Ao fechar a porta, Diogo Anacleto surpreendeu-o, perguntando:
- Quem era? Acordei contigo a chamares por alguém.
Adriem, impassível, respondeu simplesmente.
- Eram uns putos a pregar partidas. Pensavam que aqui viviam só velhos. Quando abri a porta desandaram logo, mas ainda fui tentar apanhá-los, não fossem ser espiões... O Chefe bem nos disse que isso poderia acontecer por parte do traidor.
- Então... e eram?
- Sei lá! Acho que não. O outro gajo sabe desde já que estamos aqui, o que é que ganharia em mandar cá putos a bater à porta? Só se for p'a chatear. Seja como for, fica de olho aberto, menino, se eles voltarem temos de apanhá-los, nunca se sabe.
Diogo Anacleto praguejou, não sabendo se o "olho aberto" não era uma referência sarcástica a ele próprio.
Adrien não releu o papel senão muito depois, para que Diogo não suspeitasse. Assim que o fez, notou que era desta forma convocado às duas da manhã dessa noite, na morada especificada.
A morada era num bairro não muito animador para alguém na sua posição. Estar numa Milícia com ideais xenófobos colocava Adrien num mal-estar constante ao entrar neste tipo de bairro, pois ele próprio, branco como era, era a minoria naquela situação. Seja como for, esse mal-estar não se apresentava em nervosismo, pois Adrien era um homem capaz de se defender perfeitamente numa luta justa. Adrien chegou pois à morada especificada, e deparou-se com uma casa abandonada e semidestruída, provavelmente atingida pela Guerra. Chegou com alguns minutos de antecedência. Hesitou, não sabendo se deveria tentar entrar na casa ou simplesmente esperar. Optou pela última opção. A rua estava deserta e horrivelmente mal iluminada. Será por isso necessário desculpar Adrien por não ter visto um grupo de indivíduos a aproximar-se sorrateiramente.
- Sócio, m'é'q'ié? A noite 'tá mesmo bacana, n'é?
Adrien ficou rapidamente rodeado. O homem que falou colocou-se à sua frente. Para Adrien todos tinham um aspecto feio e asqueroso, e nem era por uma questão de racismo. Um homem inferior ter-se-ia deixado intimidar pela situação. Não era o caso de Adrien.
- 'Tá agradável, 'tá. Posso fazer alguma coisa por vocês?
- Relaxa bacano, - disse quase imperceptivelmente o homem. - 'tás tenso irmão. Que fazes aqui no nosso bairro? O irmão branco nunca vem aqui. Não sei, devem ter medo. Olha lá, tu não tens medo, pois não, mano?
- Eu não sou teu irmão, e muito menos tenho medo de pretos como vocês. Desandem antes que vos foda a fuça!
Adrien arriscou tudo com tal afirmação. Estava em desvantagem numérica, estava rodeado, não sabia se eles estavam armados, e estava num local que não conhecia e onde não poderia realisticamente esperar ser ajudado. Podia apenas esperar que aqueles jovens não estivessem à procura de sarilhos e que simplesmente se afastassem.
Não foi o caso.
Da linguagem imperceptível dos atacantes, Adrien pouco compreendeu. Eram seis homens no total. Os primeiros a atacar foram os homens que estavam na lateral, para lhe agarrarem os braços. Adrien seria mais que suficiente para lutar com dois ao mesmo tempo. Os jovens atacavam com alguma incerteza. Adrien era um homem possante, como já se disse, e um miliciano experiente. Adrien pegou no jovem à esquerda, levantou-o do chão com os poderosos braços e rodopiou-o para a direita, embatendo no outro jovem. Adrien lançou-se contra outro jovem, e desferiu-lhe dois socos na barriga. Entretanto os outros três acorreram e controlaram a fúria de Adrien por um momento. Adrien soltou-se, agarrou num deles, elevou-o e espetou-o no gradeamento da casa abandonada. O corpo ficou mole e suspenso fatalmente. Os outros não se aperceberam disto e continuaram o ataque. Os dois primeiros tinham arranjado paus da casa abandonada, e bateram indiscriminadamente em Adrien. Enfraquecido, não se deixaria morrer tão facilmente. Levantou-se, afastou-se, virou-se e ia levando uma paulada, mas conseguiu agarrá-la. Com a sua força superior, puxou o jovem atacante para si e desfez-lhe a cara com o punho, saltando sangue. O jovem, agora no chão, queixoso, levou com a bota esmagadora de Adrien, que desferiu o golpe com um rugido ensurdecedor. Armado com um pau, Adrien podia agora passar outra vez ao ataque, com dois oponentes a menos. Notou, no entanto, que estava outra vez rodeado, desta vez por todos os lados. Adrien afastou os seus adversários rodopiando o pau como intimidação. Decidiu, na sua fúria, atacar um deles, e acertou-lhe com um soco na cara enquanto o jovem se tentou defender do pau. Caiu inconsciente com a brutalidade do impacto, mas Adrien rapidamente recebeu golpes nas costas. Conseguiu afastá-los de novo, mas estava dorido, estava cansado, custava-lhe respirar e sangrava em vários locais. Olhou curvado para os três restantes inimigos. Notou que atrás deles aproximavam-se vários homens. Vários traziam armas. Era claro que vinham acudir os atacantes. Quando chegaram, verificaram os corpos dos três homens que estavam imóveis (um deles pendurado ainda no gradeamento). Dois deles estavam mortos.
Adrien deparou-se então com pelo menos vinte homens, para ele de fealdade variável mas indesmentível. Cuspiu para o chão e tentou endireitar-se. Largou o pau, que nem notara que se tinha partido no último golpe.
- Venham! Venham! - trovejou com uma voz grave e cortante que causaria temor no coração dos mais irredutíveis. - Um a um se tiverem coragem. - fez uma pausa para respirar. - Cobardes de merda! Sem armas e sem truques! Um de cada vez, aguento com vocês todos, caralho!
O homem que interpelara inicialmente olhou para trás e pediu algo. Deram-lhe uma pistola. Apontou-a a Adrien.
Não se interprete como redundância o facto de se repetir agora que Adrien não era um homem comum. Se se repete a informação é apenas para reforçar esta característica deste miliciano exemplar. Adrien, apesar de tudo, tinha o sangue a ferver, e não morreria executado como gado. Morreria como um leão.
Tinha 10 metros de distância até ao seu carrasco. Juntou todas as suas forças e fôlego e lançou-se numa última carga, armado apenas com os punhos.
Muitos gritaram "Dispara!" ou simplesmente riram-se desdenhosamente da acção aparentemente louca daquele branco.

Ouviu-se um tiro.

De seguida ouviram-se vários outros. O carrasco foi o primeiro a cair, logo no primeiro tiro. Os tiros eram dirigidos à pequena multidão, que agora estava em debandada, ou que tentava devolver fogo em direcção desconhecida. Os que ficaram foram caindo um a um. Adrien estacou naquele caos todo, protegendo-se depois por trás de um muro da casa. O fogo parou, mas recomeçou logo a seguir. O atirador apenas recarregara a arma. Adrien viu um homem a correr cautelosamente na direcção da multidão, querendo garantir que apanharia todos. Desapareceu ao fazê-lo.
Adrien ficou só.
Aproximou-se dos vários corpos que agora decoravam a estrada, maioritariamente cadáveres. Ouviu gemidos. Alguém ainda vivia naquele local tão sepulcral! Adrien verificou que quem se mexia era o seu potencial carrasco, que se arrastava desesperadamente, gemendo e ganindo, vendo-se indefeso. Adrien parou-o, colocando uma bota no peito. Agarrou na pistola que ele deixara cair. Apontou-a.
- E agora, irmão preto? Agora é a minha vez não é?
- Não! Não... Não!
Fez-se um longo impasse silencioso, enquanto Adrien debatia-se com o resto da sua humanidade para decidir se deveria puxar o gatilho.
Uma voz interrompeu a cena.
- Se eu o quisesse morto já o teria feito. Por alguma razão ele está vivo.
Adrien virou-se para o vulto que se aproximava, obscurecido pela iluminação ausente. Só quando se aproximou é que Adrien reconheceu um homem totalmente equipado para combate, quase relembrando algum tipo de membro de forças especiais. Já o tinha visto antes, mas apenas de longe. Só agora lhe via bem as feições. Estendeu uma mão, deixando a arma a balançar-lhe no corpo, presa por uma cinta. Adrien cumprimentou sinceramente com um olhar agradecido este seu salvador.
Era Adérito.
- Desculpe dizer-lhe, mas depois de estar numa milícia que trata os pret... - Adrien hesitou, corrigindo-se - os negros como trata, quero dizer, nunca pensei em ser salvo por um.
- Foi uma sorte para ambos, por acaso. Eu vinha aqui ter consigo, mas atrasei-me e informaram-me que tinha sido apanhado aqui pelo Dário e pelo bando dele. Equipei-me o mais rapidamente possível, pois tenho andado atrás deles há algum tempo e pareceu-me uma boa oportunidade para apanhá-los. Quando ouvi o primeiro tiro estava a virar ali a esquina, pensei o pior.
Adrien estranhou. Quem é que tinha disparado o tiro então?
- Adrien, tenho de lhe pedir que tire o pé de cima do Dàrio. Temos de levá-lo ao Chefe.
Adrien, cada vez mais perplexo, respondeu irritado:
- Mas ele tentou matar-me! Que mais é que poderá querer dele, é matá-lo já e acabar com isto.
- A batalha acabou, - disse Adérito, sorrindo, mostrando os grandes e afáveis dentes brancos - há muito a corrigir agora, e a morte dele não resolve nada. Ajuda-me a levá-lo? O ferimento na perna não é grave, mas tem de ser tratado.
Adrien percebeu a mão do "Cidadão preocupado" neste assunto. Aquiesceu. Ambos pegaram em Dário, semi-inconsciente.
- Desculpe, nem me apresentei, mas vi que sabe o meu nome.
- O senhor não sabe o meu?
- Digamos que não.
- Adérito. Muito prazer.
- Adrien Ferreira. O prazer é todo meu. Pode crer que sim!

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