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O Cidadão - Parte XVI

por Rei Bacalhau, em 06.10.15

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O episódio que acabara de tomar parte tinha sido tão emotivo e inesperado que Adrien nem estranhou o facto de estar quase a arrastar um homem ferido pelo meio da rua, sob os olhares medrosos dos habitantes que presenciavam à cena. Chegaram a um beco escuríssimo, no qual Adérito poderia esconder-se confortavelmente sem nunca ser detectado. Uma única porta existia. Entraram. Subiram com dificuldade um lanço de escadas velho e sujo, que não parecia ser capaz de suportar 3 homens ao mesmo tempo. Uma porta estava entreaberta e uma luz daí vindoura alumiava o corredor do primeiro andar. Arrastaram Dário para dentro do apartamento, que contrastava completamente com o restante bairro. Poder-se-á reconhecer este apartamento como o mesmo onde Francisco Ponciano inicialmente conheceu o Cidadão. Deveras, o Cidadão acorreu à porta e ajudou os seus companheiros cansados a transportar a sua carga para a cozinha, onde esperava um estojo de primeiros socorros.
- Adérito, podes fazer-me o favor? Tenho de falar com o Adrien.
- Sim... claro... à vontade... Chefe... - respondeu Adérito, ainda ofegante.
Adrien foi convidado a entrar na sala de estar. O Cidadão acendeu um candeeiro. Lucas estava obscurecido ao canto, mas visível. Uma espingarda com uma mira estava apoiada no parapeito da janela. Adrien investigou a espingarda e a visão que a janela providenciava. Pegou sem cerimónias na espingarda e olhou pelo retículo. Não conseguiu ver grande coisa, mas notou que tinha alcance e visão sobre o campo de batalha recente. Posou a espingarda, não satisfeito. Ia fazer a pergunta, mas o Cidadão, que observava silenciosamente, não lhe deu a oportunidade.
- Sim, fui eu. Teria pedido ao Lucas, mas ele não gosta de disparar. Senão teria ido eu próprio lá com o Adérito também.
- Salvou-me a vida, então.
- Talvez. - respondeu o Cidadão secamente - O Adérito também ajudou pelo que vi. Eu diria que investi uma bala num projecto potencialmente benéfico. Compreenderá que o meu interesse em mantê-lo vivo não é necessariamente por razões de amizade nem de solidariedade. O senhor é-me útil. Ou poderá ser, enfim!
Adrien compreendeu o significado destas palavras. De qualquer forma já tinha feito a sua escolha. Retirou um objecto do bolso e colocou-o na mão do Cidadão. O recipiente estranhou o gesto e analisou o objecto. Era uma peça de Monopólio. Um cão.
A expressão de surpresa do Cidadão foi genuína, ao ponto deste olhar para Lucas, mostrando-lhe o objecto, sorridente.
- Esta não estava eu à espera, admito - disse, rindo-se. - Ah, diga-me uma coisa... diga-me que esta é a peça que o Pedro tinha na mesa dele.
Adrien acenou que sim.
O Cidadão largou uma enorme gargalhada e até Lucas esboçou um sorriso.
- Adoraria ver a cara do Pedro quando ele perceber que um dos seus subchefes o abandonou! Muito bem Adrien, estou a ver que estamos sintonizados, eu e o senhor! Vamos a assuntos mais sérios. Ah, nem me lembrei! O senhor está bem? Ainda foi bastante ferido naquela luta.
Dito isto, o Cidadão acendeu a luz para melhor inspeccionar o estado de Adrien, que entretanto também se esquecera que poderia estar ferido, ao contrário do que a adrenalina que lhe percorria o corpo permitiria inferir.
- Ui, amanhã vai ser bonito vai. Mas o senhor deve ser feito de ferro, ainda imaginei sentir-lhe umas costelas partidas, mas parece estar tudo relativamente bem. Deixe-me só limpar aqui estas feridas.
Enquanto lhe tratava das feridas, o Cidadão continuou a falar.
- O senhor passou por muito antes de conseguir ter esta entrevista. Sinceramente não planeei que o Dário e o seu bando aparecessem exactamente ali àquela hora. Peço-lhe desculpa, pois sinto-me responsável pelas dores horríveis que deve ter agora e que terá certamente amanhã. Para mim, o teste seria apenas aquela brincadeira de coçar o olho, que me permitiu inferir que tem a perspicácia necessária para sobreviver no ambiente hostil que é uma milícia fantasma, como eu lhe chamo.
- Milícia fantasma?
- É uma milícia que não existe, mas que puxa os cordelinhos por trás dos bastidores, se me faço entender.
- Então, mas o coçar o olho não é um código vosso?
- Não, - respondeu o Cidadão sorrindo - era apenas uma maneira de o pôr a comunicar comigo caso necessário.
- Mas só nos tínhamos visto pela primeira há menos de meia hora? Tenho assim uma cara de traidor tão grande que foi logo óbvio?
- O senhor só me conheceu nesse instante, sim. O que é que o faz pensar que eu não o conhecia a si?
A resposta impressionou Adrien, pois já tinha visto que este era um homem de recursos, com um poder que ele não imaginava. Era desconfortável saber tão pouco sobre alguém que por seu turno sabia tanto sobre ele.
- O senhor já me conhecia? - rematou Adrien - Mas mesmo assim porque é que supôs que eu iria trair a minha milícia? E como é que soube que me iria encontrar ali?
- Eu não sabia, fiquei agradavelmente surpreendido por o ter encontrado, até previamente pensava que pudesse estar morto. Foi por ironia do destino, se acreditar em tais palermices, que por acaso o encontrei associado à facção que menos me convinha. Mas lá o convenci a vir para o meu lado, não é assim? Respondendo à outra pergunta, repare que "trair" é uma palavra forte, meu caro. Talvez não a devêssemos utilizar, parece mal. No entanto, eu sei qual é o seu itinerário no seio das milícias ao longo da Guerra. Eu sei o que fez. O senhor, atrás dessa máscara de brutalidade machista que usa, é comprovadamente humano. Eu sei da história que se passou em casa da família Silva.
Adrien empalideceu terrivelmente ao ouvir o nome. Como é que aquele homem poderia saber tal coisa? Ele estava sozinho na altura. Ninguém poderia saber.
- Não se preocupe. Eu compreendo que é uma máscara que quer continuar a usar. Mas eu preciso de homens como o senhor. Certamente não é por o senhor ter morto duas pessoas hoje e muitas outras anteriormente que vou pensar menos de si. Repito, o senhor é comprovadamente humano, quando tem de o ser.
- Mas o que é que precisa de mim?
- Preciso de várias coisas, mas temos assuntos urgentes a tratar, nomeadamente o massacre planeado para amanhã!
- Sim! É preciso impedir o Che... o Pedro! de realizar o ataque, ou pelo menos enfraquecê-lo. Sei de cor as posições das várias equipas e sei quando é que o ataque deverá começar. Já pensei em várias formas de aniquilar a ofensiva totalmente, com baixas mínimas, espero eu. Não sei é como é que o Pedro utilizará as suas tropas de reserva, que mantém na base no bairro. Já sabe que as equipas de ataque são só um engodo, não é?
- Sim, sei e calculei isso tudo, porque foi assim que ensinei o Pedro. Há uns anos seria o que eu faria. Agradeço o seu entusiasmo, mas receio que o seu raciocínio todo, apesar de excelente e louvável, é em vão.
- Então? Porquê?
- Porque a batalha não ocorrerá.
- Como? Como assim? O que é que vamos fazer?
- Vamos ser honestos, simplesmente. Iremos preparados para fazer batalha, mas vamos também dizer que não a faremos. E explicaremos porquê.
Adrien ficou confuso. Pensou que alguém ali enlouquecera, e não sabia se tinha sido ele próprio.
- Desculpe, não estou a entender.
- Amigo Adrien, não se preocupe, contar-lhe-ei tudo, a devido tempo. O cortejo começa às 10, não é verdade? Temos então umas 6 horas para discutirmos, comermos e dormirmos um bocado. Amanhã vai ser um dia em cheio, e é bom que esteja preparado para lutar, não vá o Diabo tecê-las. No entanto, há ainda umas formalidades a tratar. Queira seguir-me, se lhe for possível.
O Cidadão dirigiu-se para a cozinha. Adrien seguiu lentamente, começando a sentir as dores inevitáveis. Dário estava sentado numa cadeira, amarrado, sem calças, com uma ligadura grande à volta da coxa esquerda. Adérito estava em pé por trás dele. O Cidadão puxou uma cadeira e sentou-se virado de frente para Dário.
- Adrien, puxe uma cadeira também, não esteja em pé. - sugeriu o Cidadão.
Adrien sentou-se. Observou o homem que tentara matá-lo ainda há pouco. Tremia descontroladamente, de dor ou de medo. O suor escorria-lhe profusamente deixando um cheiro intenso na cozinha. Ele nem se atrevia a olhar para cima, para não ter de enfrentar o Cidadão.
- Senhor Dário, deve ter alguma ideia porque é que está aqui. Foi uma sorte o termos encontrado tão despreocupadamente a patrulhar as ruas que considera suas. Será que assumiu que já nos tínhamos ido embora só porque nunca mais nos viu? Devo admitir que o senhor provou ser bastante astuto a esconder-se e defender-se de nós. Confesso que estávamos a ficar sem ideias de como conseguir capturar o senhor. - o Cidadão fez uma breve pausa e suspirou. - Estou desapontado, sabe? Ter-se deixado cair num erro tão básico. Diga-me, em que é que estava a pensar quando pensou em atacar um homem do tamanho de Adrien só com 6 homens? É suicídio! Só conseguiu chamar a nossa atenção. Nem quis acreditar quando o vi frente a frente aqui com o meu amigo. Ainda por cima trouxe depois o resto do seu bando! Não compreendo. Deveras que não! Adérito, compreendes o porquê de ele se ter mostrado tão despreocupadamente? Eu não, de certeza.
Adérito sorriu.
- Ele estava a vir para aqui, para ter connosco.
- Não! Não pode ser! Que raio, mas isso seria muito generoso, porque carga de água é que se viria entregar?
Dário não aguentou mais. Vomitou furiosamente a afirmação bastante clara:
- Vinha para matar-te, branco do caralho! A ti e a todos que aqui estão!
O Cidadão soprou um assobio de espanto, jocosamente.
- Então, mas como é que o senhor soube que estava aqui? Temos sido bastante cuidadosos em não revelar a nossa posição.
Dário não respondeu. Adérito interveio.
- Fui eu que lhes disse. Bom, não directamente, mas foi através de mim que eles souberam disso. Espalhei o boato, que chegou ao Dário mais rapidamente que eu esperava.
Dário urrou de raiva, não acreditando no que acabava de ouvir. Tinha sido tudo uma armadilha.
- Mesmo assim - continuou o Cidadão - o que é que o fez pensar que conseguiria atacar a nossa posição? A vantagem que tem em números de nada lhe serviria se estava a planear atacar-nos de frente, como me pareceu. Não se ofenda, mas se o senhor tivesse lutado na Guerra teria compreendido isso. Já agora, nada disso justificaria atacar o amigo Adrien, que estava pacatamente à espera de um encontro.
Adrien, instintivamente, comentou com base no que tinha percebido da conversa:
- É possível que eles tenham pensado que eu fosse da sua equipa, e pensaram em começar comigo.
- Sim, é o mais provável. Por outro lado, o senhor Dário tem uma reputação em atacar pessoas inocentes sem provocação. Que me diz, senhor Dário?
Nada, aparentemente. O Cidadão virou-se para Adrien.
- É verdade o que disse. O senhor não é parte da minha equipa. Mas pode passar a sê-lo, se assim o entender. Considerando que está aqui, por princípio gostaria de assumir que aceitaria o convite de pertencer à recém-formada Milícia Nacional Geral. Adrien Ferreira, convido-o a fazer parte da nossa milícia, para a reclamação dos nossos territórios, se não hoje, certamente no futuro.
- Essa milícia já é grande? Tem muitos membros sob o seu comando?
- Sim, tenho alguns e excelentes. Neste momento somos três, o que já é um bom número. Consigo seríamos quatro.
Adrien não compreendeu se aquela resposta era algum tipo de piada, pois o Cidadão disse-o com a mais profunda seriedade. Não foi razão suficiente para reflectir mais no assunto. A sua decisão há muito que estava feita.
- Sim, aceito, se você me aceitar.
- Ainda bem que diz isso, pois resta-lhe um teste. Já testei a sua inteligência e sem querer já testei a sua força...
Deixou a frase morrer. Dirigiu-se a Dário.
- Dário Cunha, é acusado pela Milícia Nacional Geral dos crimes contra a Pátria de pilhagem, roubo, traição, colaboracionismo, violação sexual, homicídio em vários graus e de indecência pública. As provas e as testemunhas são avassaladoras. A Pátria, por mim representada, considera-o culpado, e a sentença é execução imediata. Qualquer membro do seu bando que venha a ser capturado poderá ser redimido se o senhor afirmar agora que eles agiram sob as suas ordens, tomando então a responsabilidade dos actos deles.
Dário nada disse.
- Muito bem, serão executados também aquando da sua captura. A sua família não será notificada directamente, mas a desonra das suas acções será afixada publicamente num sítio da Internet, quando este estiver disponível. Não lhe dou o direito de tentar explicar-se ou sequer de tomar a palavra. O senhor é um cão imundo, e morrerá como um.
Pegou numa faca, que reluziu fatalmente naquela cozinha. Virou-se para Adrien.
- Este é o seu teste, Adrien. Mate-o. - e dizendo isto, deu a faca para a mão de Adrien.
Adrien tê-lo-ia feito sem hesitar há pouco mais de uma hora. Agora era diferente. Não havia honra nenhuma em matá-lo de forma tão bárbara, estando ele amarrado e incapaz. Adrien não esperava tal teste. Não esperava que o Cidadão se baixasse aos mesmos níveis que Pedro. A verdade é que a acusação era feita de uma maneira muito semelhante às poucas que tinha visto Pedro fazer. Começou a pensar se mais uma vez não teria feito um erro ao aceitar a proposta de entrar na milícia. Depois de um longo momento de hesitação, constantemente observado pelo Cidadão, Lucas, Adérito e até Dário, que gemia expectantemente, finalmente disse:
- Não posso matá-lo a sangue-frio. Preciso de saber o que é que ele fez, em concreto. E porquê!
- Isso não interessa, caro Adrien. Eu disse-lhe para o matar. Recusa obedecer-me?
A pergunta teria várias implicações. Adrien estava farto de obedecer cegamente a ordens. Não. Bastava já!
- Desculpe, mas sim, recuso obedecer-lhe. Não posso executar alguém só porque mo mandam fazer. Não abandonei um tirano para me juntar a outro! Que se lixe este seu teste de obediência!
O Cidadão sorriu. Estendeu a mão a pedir a faca a Adrien, que lha deu com algum desdém. Pousou-a no balcão e apertou calorosamente a mão de Adrien, que ficou atónito com tal reacção.
- Bem vindo à MNG! Este teste não era de obediência, mas de senso comum. O que disseste (e agora vou-te tratar por tu, agradeço que faças o mesmo, se quiseres) é muito acertado. Nunca aceites uma ordem minha que vá contra os teus princípios, mas peço-te que nessas situações me expliques porquê. Eu provavelmente terei de te pedir que faças algumas coisas horríveis. Dou-te sempre o direito de rejeitares a ordem. Por muito zangado que eu fique contigo na altura, nunca deixes de seguir o que te parece correcto. Obviamente, não podes é trair o Código.
Virou-se dramaticamente de novo para Dário.
- Está a ver senhor Dário? O senhor já foi útil para determinar se aqui o Adrien é ou não um homem às direitas. Receio informá-lo que o desfecho para si será o mesmo, não obstante o facto de Adrien o ter poupado.
Dito isto, o Cidadão pegou na faca que tinha pousado e cortou o pescoço de Dário num golpe rude. O chão inundou-se de sangue. Um pequeno esguicho jorrava do pescoço, mas enfraqueceu em pouco tempo.
- Não te preocupes Adrien. Podes confiar em mim que este homem fez mais que o suficiente para merecer tal tratamento. Um dia mostrar-te-ei o processo dele.
Olhou de novo para o cadáver de Dário e abanou a cabeça.
- Pessoal, vamos embora, já não há nada a fazer aqui. Lucas, a polícia está lá fora?
- Está lá ao fundo. Parecem ocupados.
- Agarrem no equipamento e vamos para o abrigo. Ainda quero dormir uma horita ou duas.
- O Dário fica ali? - perguntou Adrien.
- Sim, nós depois informamos a polícia onde é que podem ir buscar corpos. É uma questão de saúde pública e tudo. Ah, aliás!
O Cidadão foi buscar uma folha de papel. Escreveu um texto a explicar a situação, incluindo o nome da vítima, as acusações e outras informações relevantes. Colocou-a em cima do balcão.
- Vamos!
Os quatro homens saíram do edifício carregados com algumas malas e meteram-se por um beco, desaparecendo na escuridão.

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