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O Horrível

por Rei Bacalhau, em 17.10.16

Aviso: Este é o pior texto que já escrevi. Leiam o primeiro parágrafo e saibam que só irá piorar a partir daí. Se for demasiado para vocês, simplesmente não leiam, peço-vos.

 

Estou numa sala de espera apertada, com a televisão a dar música pimba num daqueles programas horríveis da tarde, felizmente com o volume baixinho. Já sei como é que a puta da médica é, chega sempre atrasadíssima e demora-se imensamente a despachar os pacientes. O último gajo já lá entrou há mais de meia hora e ou a está a foder ou então ela está-lhe a contar sobre a sua colecção infinita de gatos, tanto vivos como embalsamados. Ambas as situações são igualmente dolorosas de imaginar. Tendo isto em conta, trouxe um livro bem gordo e um pacote de bolachas, do qual metade já foi mamado. As bolachas, quero dizer.
As janelas pequenas dão uma vista fantástica para os aparelhos sujos de ar condicionado do edifício imediatamente ao lado. Se olhar para cima talvez consiga com dificuldade bisbilhotar um pequeno rectângulo de céu azul. A sala onde estou em si até nem é exactamente desconfortável. Parece pintada de fresco, assim cor de areia, com rodapés de madeira polida e cadeiras azuis parecidas às que há no metro, mas com aspecto menos pútrido.
As enfermeiras ou auxiliares ou lá como se chamam, sempre mulheres, passam de um lado para o outro atarefadamente, ou pelo menos dando essa aparência, como qualquer funcionário decente. Apesar desta azáfama toda, o monitor com as senhas parece reticente em mostrar o meu número. Sempre que apita, lá se levanta mais uma velhota para a consulta do não sei quê. Eu, nada, nadinha. Merda para isto. Não é que eu tenha algo de muito importante para fazer, mas sempre preferiria fazer nada noutro sítio qualquer.
"Bing bong"
Caralho do apito, deixa lá ver se sou eu.
Não, claro que não, nunca mais se vem a gaja, ou o gajo.
Levanta-se mais uma velhota, arrastando o marido atrás. O pacote de bolachas já foi todo, agora é alimentar-me do livro até ao almoço, que também não falta muito. Talvez por isso mesmo, noto que a sala está relativamente menos populada do que a última vez que reparei. Ena, li umas trinta páginas de seguida desde que olhei em volta atentamente.
Atrás de onde estava a velhota recentemente sumida, estava (e continua a estar) uma mulher, que aparentemente é a minha única companhia silenciosa. Até as auxiliares deixaram de passear pelos corredores que dão acesso à sala de espera. A tal mulher parece ser mais nova do que eu, e talvez por isso não me admire que esteja colada ao cabrão do telemóvel, passando o dedinho daqui para ali, numa espécie de combate kung fu dedal entre a gaja e o visor do telelé. Pá, eu também tenho um telemóvel de dedinho, mas andar quase sempre agarrado a essas merdas frita o cérebro, certamente. Para mim, é chamadas, SMS's e internet nas raras alturas em que preciso dela, nem que seja para bater uma.
"Bing bong"
Caralho para o bing bong, foda-se. Ela levanta a cabeça e dá por mim a olhar para ela feito predador sexual. Tudo bem que 'tava a pensar em punhetas, mas foi pura coincidência. Para além disso, só agora é que lhe vi a fronha e só a partir de agora é que me poderia apetecer masturbar a pensar nela. Não que eu faça isso muitas vezes, obviamente. Estou a falar mais hipoteticamente do que outra coisa.
Tento disfarçar, dando um olhar de desinteresse para o monitor. Nem vi qual foi o número que mudou. Só sei que ainda não é o meu. Apetece-me mijar, mas não vou arriscar sair daqui para a minha vez passar e depois um outro filho da puta qualquer ir foder a médica mais uma hora.
Levanto-me e vou à procura de alguém que me clarifique o que raio se está a passar para a cabra se estar a demorar tanto. Aproximo-me de uma secretária gorda de óculos, podre de feia e sebosa.
- Desculpe-me, minha senhora, mas pode dar-me uma informação?
- Sim?
- A senhora sabe se a Dra. Natália de endocrono.... perdão... endocrinologia (engano-me sempre na palavra) está em consulta?
A gorda revirou um bocado os olhos, já estando habituada à pergunta quando relacionada com aquela médica em específico.
- Desculpe, mas a Dra. está um bocado atrasada nas consultas, peço que aguarde mais um bocadinho.
- Com certeza, muito obrigado. - respondi, sorrindo delicadamente.
Caralho da puta da médica, se o paneleiro lá dentro fosse mas é lamber a cona da mãe faria melhor figura. Que se foda, vou mijar, se ouvir um bing bong saio cá para fora de piroca na mão, se tiver de ser.
Felizmente não houve apito algum, mas não deixei de mijar stressadamente. Nem pude fazer o abecedário no urinol como gosto. Lavar as mãos já foi mais tranquilo, pois ao menos aí não estaria numa situação tão embaraçosa. Volto à sala de espera, quase que sinto o monitor a troçar-me.
"Não, meu paneleiro, não é a tua vez ainda."
Pois bem vejo que não, vai p'ó caralho.
Sento-me e pego no meu livro e recomeço a folheá-lo, pois tenho a mania de nunca guardar a página onde ia. Ainda está lá a mulher de há pouco, continua grudada ao telemóvel, mas pelo menos agora está a usá-lo convenientemente para uma chamada, apesar de não estar a falar. Ela está a olhar distraidamente para a janela. É essencialmente a mulher portuguesa mais mediana que já tinha visto. Não é uma beldade, mas também não é uma corcunda digna de Notre Dame. Cabelo castanho escuro liso pelos ombros, olhos castanhos escuros e sem qualquer outra característica particularmente chamativa. É roliça, mas não exactamente gorda. Não sei dizer se está bem vestida ou não, porque nos dias de hoje alguém pode pôr umas calças de gangas dentro do cú como se fossem sugadas por um aspirador e chamar-lhe moda. Tem umas banhas estranhas no pescoço, se calhar já foi um rinoceronte e aquilo é a pele que ficou para trás.
Nãã... aquilo é outra cena qualquer... Ah, 'pera lá... aquilo deve ser um caso de bócio ou algo do género, é parecido com o que vi na net, mas ainda não exageradamente óbvio, tipo aquelas pessoas que ficam deformadas ao ponto de parecerem uma pipoca gigante.
Até faria sentido, afinal de contas isto é a sala de espera para a endocrono... foda-se... para a endocrinologia. Aquilo deve ser a tiróide a ficar maluca. Tipo a minha, suponho, se bem que ainda não cheguei àquele ponto. Será que ela também está à esper...
"BING BONG"
Foda-se! Pronto, lá me apanhou ela a olhar outra vez, mil caralhos me fodam. Daqui a nada chama a polícia. Deixa lá disfarçar outra vez, ó caralho, pá... E ainda não sou eu! 'Tou mesmo pronto para ir ao gabinete daquela vaca e espetar-lhe com aquele monitor em cima. Já 'tou a imaginar: "toma lá ó puta, bing bong, toma outra vez, bing bong", ad infinitum.
Bom, que se foda, mais um bocado e bazo mas é. Vou ler o livrinho que faz bem, relaxa e tal.
O meu yoga mental resulta tão bem que me assusto quando vem o próximo bing bong. Ouço uma voz velha a dizer no corredor.
- Anda lá filha, que é a nossa vez, vá que o Sr. Dr. já está à espera.
Eu já mais ou menos queria desistir de olhar para o monitor a cada notificação, mas o hábito nervoso falava mais alto. Levanto a cabeça, nada de especial no monitor, mas ao levar a cabeça em direcção ao livro noto de relance que a gaja está por sua vez a olhar para mim. Não te preocupes querida, que decerto já não olho para aí outra vez, ainda te dá um ataque de feminismo devido à minha clara opressão machista. Não tens de me controlar.
Esta gente é maluca. E eu a pensar que sou fodido da cabeça. Ao pé destas alminhas sou um santo. Se calhar o pote de banhas do Xico é que tem razão: nem vale a pena sair de casa se temos de lidar com pessoas. Mas ele também não é grande exemplo, já que não imagino....
- Desculpe...
Uma voz feminina materializou-se no ar. Olho para cima e a gaja está mesmo ao pé de mim. Como é que num raio é que ela se levantou sem eu a ver, não sei. Deve ser ninja.
- Sim? Diga, minha senhora.
Ela atrapalha-se e hesita. Provavelmente pensava que eu teria vocabulário e maneiras de um taxista septuagenário cheché. Olho para ela com um sorriso convidativo e parvo, quase infantil, que é uma técnica de desarme que aprendi há muito. Usei o truque futilmente, porque afinal ela não vinha descarregar gás-pimenta na minha cara.
- Você está para a Dra. Natália também, não está?
- É verdade, de facto. Devo preveni-la que me disseram que a Dra. está atrasada, sem realmente me terem dito a razão do atraso. Eu poderia, no entanto, se me permitir, deduzir que este facto não é uma surpresa para a senhora.
Ela riu-se afavelmente.
- Pois não, não é, sei que é até bastante normal que ela se atrase, mas como vi que você foi falar com a secretária já agora confirmava se estava mesmo atrasada ou não.
- Com certeza, é uma atitude compreensível.
Que raio, então mas ela deve ser depois de mim, de certeza. Então ela marca consulta para o meio-dia sabendo que a médica é como é? A tiróide deve estar-lhe a afectar o cérebro, se é que ela o tem.
- Perdoe-me por me intrometer, mas a senhora tem consulta marcada para as 12 horas?
- Sim.
- Ah, infelizmente também cometi esse erro uma vez (não cometi não, mas não quero deixar a gaja a sentir-se mal, ainda tenho o gás-pimenta em mente) e percebi que a essa hora é absolutamente impossível que a Sra. Dra. esteja despachada do resto da sua clientela. Aliás, tentei ao máximo ser o primeiro a ser atendido, mas todos os horários compatíveis com esse requisito já estavam marcados.
- Pois, eu também sei isso, mas não consegui marcar mais cedo, ficou você com o meu lugar. - disse, rindo.
Fiquei sem perceber se era algum tipo de indirecta ou se era apenas uma piada. Decidi pela primeira opção, pois nunca conheci uma gaja com sentido de humor suficiente para ter a lata de dizer isso a um estranho completo. Espera aí que já te fodo.
- Ah, perdoe-me, deveras, compreenda que não o fiz com intenção. Se o desejar, pois é-me algo indiferente, podemos falar com a médica para trocarmos de senhas e consequentemente ir a senhora em primeiro.
- Ah não, estava a brincar, não queria que interpretasse dessa maneira!
Então sê mais clara da próxima vez, burra do caralho.
- Mas insisto, eu tenho aqui companhia para a tarde inteira, - aponto para o meu livro. - portanto por mim seria perfeitamente aceitável.
- Não, deixe estar, ora essa!
- A senhora é que sabe, eu tirei o dia de férias para estar aqui à vontade.
Essa agora, porque carga d'água é que eu disse isto?...
- Ah, então o senhor não estava à espera de ser atendido tão facilmente.
Então, pois não, pensava que já tinha dito isso, acho que a gaja deve ser surda, ou então o bócio alastrou-se para os ouvidos.
- Pois não, tem razão, mas pensava que até à hora do almoço já teria sido atendido, expectativa essa que há muito se me desvaneceu.
- Bom, estou a ver que se o senhor...
Ah, agora já é "senhor", há bocado era "você".
- ... está à minha frente, também não posso esperar ser atendida antes da hora de comer.
Quanto à hora de comer não sei, porque lá no gabinete a médica deve estar a comer no cú do gajo, ou então o contrário.
- Discordo, pois eu normalmente despacho-me em dez minutos com a Dra.. Se ela me chamasse mais ou menos agora, ainda teríamos ambos tempo para as nossas consultas.
- Acha que isso pode acontecer?
- Não duvido a possibilidade, mas duvido seriamente a probabilidade.
Ela sentou-se no banco à minha frente. Nem pediu licença nem nada.
- Ai, desculpe, posso-me sentar aqui?
- Não vejo nenhum obstáculo que possa impedir a senhora de o fazer, se esse for o seu desejo.
- Não, claro, mas não está aqui ninguém sentado, pois não?
Está, o meu amigo Heliberto, o homem-invisível. Até me admira que não tenhas reparado. Vê lá não fiques muito tempo em cima dele que ele ainda fica com tusa. Ele gosta delas magrinhas, mas em tempo de guerra todo o buraco é trincheira.
- O lugar não está reservado, não se preocupe, ou se estiver, desconheço-o.
Ela lá fechou a matraca um bocadinho e pensei que poderia continuar a ler o meu livro descansadamente.
"Bing bong"
Que se foda, desta vez nem olho para o monitor. Se for a minha senha, a gaja dir-me-á.
Ela nada me disse, portanto caguei para a cena. Só passados uns momentos é que ela comentou baixinho:
- Ainda não foi a nossa...
Pensei em não responder, mas algo me fez mudar de ideias. Talvez não quisesse tornar a situação ainda mais constrangedora, já que só estávamos lá os dois.
- Sabe, eu já desisti de olhar com medo de me tornar um caso clínico para psicólogos futuros, tipo o famoso cão de Pavlov.
- Com menos saliva, imagino? - rematou ela, com um toque suave de impertinência.
- Claro, não quero dar trabalho às empregadas de limpeza, acredito que já terão de lidar com uma quantidade suficiente de fluidos humanos horríveis.
Seria de supor que a ideia de sangue, merda, vómito, mijo e esporra espalhados pelo edifício todo seria o necessário para ela se calar ou pelo menos mudar de assunto. Não tive essa sorte.
- Mais parece que está a descrever um serviço de urgências! Acho isso difícil de acontecer aqui. Nunca vi nenhuma... "substância", como disse, no chão daqui.
Não é lá muito inteligente, coitada. Qualquer outra já teria percebido que esta é daquelas conversas que não se mantém com um homem, muito menos um informático que está habituado desde a faculdade a falar literalmente de merda ao almoço enquanto come banalmente um iogurte, como se o assunto fosse tão normal como falar do tempo, da bola, do filho da puta do primeiro ministro (seja ele quem for na altura) ou de gajas/pornografia.
- Quem falou do chão? - disparo eu, apontando um tiro certeiro aos alarmes de moralidade humana que eu suponha que ela teria. Olho dramaticamente para cima, como se a quisesse fazer pensar que estava um octogenário pendurado no tecto a borrar-se em cima dela.
Deu-me um imenso prazer vê-la olhar para cima, confusa e horrorizada. Se ela não for completamente fodida dos cornos, vai perceber que a tenho andado a trollar e vai provavelmente calar-se, pegar na trouxa e bazar para outro banco, balbuciando uma desculpa qualquer.
Pelo contrário, ela ri-se como se eu tivesse dito uma piada e não interpretou o meu teatro como uma afronta a todas as noções básicas de normas sociais.
- Ai, já estava com medo do que é que estaria no tecto! Enganou-me bem!
Oh diabo! Estou a ver que quem precisa de gás-pimenta sou eu. Estou a falar com ela há tipo dez minutos e já fiz uma piada porca e ela não chamou os GOE. Ou é uma daquelas gajas muito à frentex ou então é doida varrida. Aliás, a diferença não é muita. Se calhar é do Bloco de Esquerda.
Acabo eu com o assunto, simplesmente sorrindo como resposta, voltando rapidamente para o livro.
Passa um vulto por nós, mas nem sequer olho, neste momento quero isolar-me no meu cantinho e esperar que a gaja vá embora desesperada de ócio.
- Olhe, - diz ela, e quase que me assusto. - acabou de passar a Dra. Natália!
Foda-se! Não me digas!
- Não me diga! Tem a certeza?
- Parecia-me ela.
Levanto-me por instinto e vou para o corredor, na direcção da secretária gorda, que de facto estava a falar com a Dra. Natália, de cognome "a Rameira". Apanho a conversa a meio.
- ... olhe, aliás, está aí ao seu lado... - vomitou a gorda, referindo-se a mim.
- Ah, pois, bem me parecia que tinha visto o seu nome na lista...
Tanto que o deves ter visto que nem te lembras qual é.
- ... mas as coisas atrasaram-se nesta consulta, pois é um caso muito complicado.
- Claro Dra., eu compreendo, sabe bem que sim, os gatos também não ajudam.
- Como? Desculpe?
- Estou a dizer que esses casos não ajudam, os mais complicados, quero dizer.
- Pois, pois não, e sabe que...
Enquanto ela me metralhava com desculpas, investiguei-a minuciosamente à procura de indícios de actividade física médico-paciente, mas não vi nada de óbvio. Claro que para mim óbvio seria se ainda estivessem fluidos vaginais a escorrerem-lhe pelas pernas abaixo. Outro pormenores talvez me escapassem facilmente. Eu provavelmente tenho tanto de Sherlock Holmes como a Natália tem de John Watson.
- O senhor tem tempo imediatamente a seguir ao almoço? Acho que não seria decente remarcar-lhe a consulta para outro dia.
Ah pois não seria não, ó puta.
- Sim, - disse calmamente, resistindo ao máximo o desejo que tinha em mostrar-me um bocadinho menos indulgente. - mas devo preveni-la que tem outra paciente depois de mim, que está igualmente à espera.
- Ah.. pois... a...
Obviamente também não se lembrava do nome.
- Eu agora já estou atrasada para um compromisso importantíssimo, pode avisar essa senhora que se quiser vir cá à tarde ainda a poderei atender? Pronto, obrigada, até já.
Meteu-se no elevador com uma velocidade que não imaginava possível, ou então foi um daqueles casos dos filmes em que o personagem fica em câmara lenta enquanto todos os outros andam à velocidade normal.
Vaca do caralho! Que grande lata! Ora foda-se! Então mas agora sou o secretário pessoal dela?
A secretária gorda observara a cena receando que eu fosse fazer algum alarido, especialmente porque fiquei vários segundos a olhar para as portas do elevador depois de se fecharem. Conhecendo-me como conheço, tinha provavelmente aqueles meus míticos olhos psicóticos e assassinos. Imagino que teria dado uma boa foto de perfil para um site de encontros, só pela piada.
Respiro fundo, relaxo, e dirijo-me calmamente à gorda.
- A senhora não sabe precisamente quando é que a Dra. voltará do almoço, pois não?
Ela acena que não, olhando quase com culpa para mim. Ou então estava a ter um AVC. Não sei bem. A única médica que talvez pudesse saber tinha acabado de sair.
Bazo antes que a gorda comece a ter convulsões e depois eu tivesse de partir as costas a arrastá-la de um lado para o outro. Volto para a sala de espera, não sabendo o que dizer à gaja que basicamente está na mesma situação que eu.
- Então? - diz-me ela.
- Bom, não posso dizer que tenha boas notícias. Receio que a Dra. nos tenha abandonado. Ela pediu-me, por alguma razão, para lhe dizer que se quisesse vir cá à tarde estaria à vontade.
- Ah!? A sério?
Não, estou a mentir porque tenho prazer em gozar com as pessoas. Aliás, mau exemplo de ironia, porque eu gosto de gozar com as pessoas.
- Sim, a sério, por ridículo que pareça.
- Que grande lata!
Pois, isso foi o que eu pensei, se bem que com uns foda-se's lá pelo meio.
- Pronto... agora não há nada a fazer... Ela já se foi embora?
- Sim, deveras apressadamente até. Acredito que ela conheça alguma técnica para fechar as portas do elevador mais depressa.
A gaja riu-se. Não era uma piada, ou pelo menos não era minha intenção que fosse. Começo a pensar que ela está a gozar comigo, mau mau.
Depois de um curto silêncio estranho, comecei a pegar nas minhas coisas e a preparar-me para ir comer alguma coisa até que a gaja, fiel ao estereótipo do seu género, recomeçou a palrar como se tivesse alguma necessidade fundamental disso.
- Você vai voltar cá à tarde?
Voltámos ao "você", irra.
- Sim, claro. Como eu disse, tirei o dia de férias de propósito para isto, não me posso dar ao luxo de perder outro.
- Pois, é como eu.
Não respondi, peguei no meu livro e encaminhei-me para a porta.
- Onde é que vai almoçar?
Essa agora! Que raio tens a ver com isso, bisbilhoteira de merda?
- Hmm... Ainda não sei bem, nunca tive de o fazer nesta zona. Vou à procura de alguma coisa. Certamente haverá um restaurante decente por aqui.
- Há um sim senhor, aqui perto, e se quiser posso levá-lo lá, que conheço-o bem.
Conhece-lo bem? Não és assim tão gorda, como é que podes dizer uma coisa dessas?
- Ah, não é preciso, agradeço-lhe. Pode-me simplesmente indicar o nome que saberei encontrá-lo, se a senhora verdadeiramente garantir a qualidade do espaço.
- Não me custa nada, eu também preciso de almoçar, aproveito e almoço lá também.
Oh caralho, 'tás a gozar comigo? Agora está a querer grudar-se a mim, deve querer que lhe pague o almoço, filha da puta. Como é que me safo desta? Foda-se, foda-se, foda-se! Podia mandá-la para o caralho, mas já lhe disse que não conhecia bem aqui a zona, seria má educação... Foda-se! Juro que é a última vez que venho a esta médica, mesmo que para ir a outro tenha de ir ao Porto ou uma merda assim. Opá... pronto, 'tá bem, vamos lá ó gaja, é bom que o restaurante seja mesmo muita decente.
- Está bem, concordo, parece-me razoável.
Dirigimo-nos para o elevador, deixo-a entrar em primeiro, não por cavalheirismo, mas porque no fundo esperava que os cabos do elevador se partissem no momento que ela entrasse e eu já pudesse almoçar descansado enquanto o pessoal lá em baixo estaria ocupado a encontrar os pedaços dela.
"Olha, encontrei o fígado!"
"Olha, 'tá aqui o estômago, parece que ela comeu um daqueles pães integrais que sabem a merda."
"O que é esta cena, não vi isto em nenhum livro de anatomia... Mas 'tá cheio de sangue!"
"Isso é um tampão, caralho, 'pera aí que vi a cona dela aqui algures... toma lá, põe lá para dentro... Sei lá como é que se mete!"
Bom, é óbvio que o elevador não caiu, e entrámos os dois.
- Como é que se chama? - pergunta ela.
- Carlos Heitor, ao seu dispor, minha senhora. - respondi, fazendo uma leve vénia. Fica sempre bem.
- Susana. E trate-me por tu!

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publicado às 17:57


5 comentários

De Maria Araújo a 19.12.2016 às 20:16

Este vai para os meus favoritos para o ler com mais tempo.

De Rei Bacalhau a 19.12.2016 às 22:56

O senso comum leva-me a aconselhar a senhora a não o fazer. O título do texto não é um disfemismo, antes pelo contrário.

De Maria Araújo a 19.12.2016 às 23:13

Não se preocupe que eu aguento.
Até amanhã.

De Maria Araújo a 19.12.2016 às 23:47

Que dizer?
Percebi o quanto os homens que estão à espera de uma consulta podem pensar do ambiente que os rodeia.
Não conhecia isto, que achei fabuloso " Nem pude fazer o abecedário no urinol como gosto".
Todo o post está demais, nem há palavras para comentar.
Acabo por dizer que essa mulher soube mostrar o que é ser uma pessoa disponível.
Adorei a sua escrita e a história.
Uma boa noite.

De Rei Bacalhau a 20.12.2016 às 11:51

Agradeço, deveras.

Planeio continuar esta história, só não sei quando. Se lhe apetecer mais do mesmo personagem, posso sugerir um post do ano passado:

http://obmf.blogs.sapo.pt/um-conto-de-natal-46133

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