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O Paradoxo

por Rei Bacalhau, em 01.08.14

 

Debruço-me na janela, esperando que a pedra fria do parapeito e a brisa leve da noite de Verão me arrefeçam. Não está particularmente calor, e portanto concluo que os meus calores têm outra origem. Eu diria que são provenientes da incandescência que ruge pelo meu ser, como se todos os meus poros bafejassem vapor. Limpo a testa e tento distrair-me olhando para o horizonte pintado de lampejos.

O ambiente urbano é um espectáculo digno de poetas e outros líricos a estas horas da madrugada. As luzes, eléctricas e maquinais na sua natureza, tremeluzem e dançam como se vivas. O oceano de prédios, por contraste, mantém-se firme e resoluto ao lutar contra as forças gravíticas que o tentam derrubar. É um oceano, sim, perceptualmente infinito, confuso, feio, mas também um claro sinal da teimosia e determinação humana. A esta hora, no entanto, é um oceano morto, salvo alguns clarões repentinos e breves de quando alguém, algures, acende uma luz por uns instantes, para logo a seguir voltar para o conforto da cama.

O que eu não daria por uma noite de descanso. Uma noite em que as minhas preocupações fossem as de um mortal comum. Quem me dera preocupar com o projecto que tem de ser entregue com máxima urgência no final da semana. Quem me dera preocupar com as compras que tenho de fazer. Quem me dera preocupar com o jogo de futebol no fim-de-semana. Quem me dera preocupar com os conflitos bélicos no mundo. Com a fome, com as injustiças, com tudo o que a televisão barafusta para as nossas mentes.

É-me tudo irrelevante.

Olho então para o oceano, e tento visualizar mentalmente os seus seres adormecidos e escondidos. Questiono-me como é que tanta gente consegue viver as suas vidas em família? Como o conseguiram? Qual o segredo?

O meu pensamento é interrompido pelo rolar pesado de um comboio, que se ouve mesmo estando tão longe da linha ferroviária. Quando passou, o barulho desvaneceu-se de volta para o ruído suave constante típico de uma cidade. Não se ouve nada em particular, mas também não há silêncio.

O que eu não daria por silêncio. Algo que pusesse um fim às minhas discussões e reflexões mentais. Algo que me dissesse a solução para a minha aflição, tão banal, e mesmo assim tão perigosa. Algo que me permitisse voltar a ouvir o mundo como sempre o havia ouvido.

Noto movimento na rua. Escondo-me, pensando que é alguma alma infeliz a voltar para casa a estas horas, pois não quero ser visto de tronco nu empoleirado numa janela. Suspiro de alívio quando me apercebo que é apenas um gato. Eis que, de repente, observo um fenómeno invulgar, pelo menos para mim. Surge mais um felino, e quando os vejo entreolharem-se penso que vão iniciar alguma luta feroz, como é hábito. Tal não acontece. Pelo contrário, aproximam-se e trocam carícias ternas, esfregando as cabeças reciprocamente. Foi um momento tão aleatório e inesperado que duvidei da minha sanidade, como já tenho feito tantas vezes nos tempos recentes. O som de um carro a aproximar-se retorna-me à realidade, servindo de prova que nem tudo é fruto da minha imaginação, já que os amantes separaram-se rapida e nervosamente, escondendo-se ou num arbusto ou debaixo de um automóvel estacionado.

O que eu não daria para ser um animal. Eles que vivem uma vida tão mais binária que os humanos. Ou sobrevivem ou não. Não têm nenhum género de meio-termo complexo para a sua existência. Mesmo que o tivessem, provavelmente não teriam consciência disso. São tão mais livres de problemas afectivos como os que acontecem aos humanos. Como os que acontecem comigo.

Perco-me de novo no horizonte, silencioso.

 

 

 

Recordei o dia de hoje. Começou como todos os outros. Fui acordado de um sonho que não queria ter tido pelo despertador cacofónico. Transpirado e cansado, arrastei-me da cama e lavei a cara sofregamente, na esperança dessa acção me acordar para o dia que se iniciava. A intenção não frutou o resultado desejado e então cambaleei pela casa, procurando completar as tarefas rotineiras e banais das manhãs. Felizmente, a natureza dessas tarefas permitiu-me completá-las mecanicamente, sendo que a minha mente estava presa no assunto do costume.

Por contraste, mais tarde, já no contexto profissional em que é necessária concentração máxima para atingir um nível de produtividade aceitável, o meu bloqueio mental generalizado não é bem-vindo. Por outro lado, também não me consigo preocupar em demasia com isso, pela mesma razão.

Mais uma vez mudando de contexto, desta vez para um mais académico, dirigi-me para o meu estabelecimento de ensino. A distância cada vez menor ao meu destino gera sempre algumas reacções incontroláveis. O meu passo torna-se incrementalmente nervoso. A minha respiração torna-se ofegante. A minha garganta seca e forma um nó. Sinto o coração a acelerar por cada metro andado.

Chego à sala de estudo e os meus olhos saltam excitadamente pelas caras dos meus colegas. Fingi estar cansado de andar, mas na verdade estava a suspirar de alívio. Cumprimentei todos alegremente, pois os meus maiores receios não se confirmaram. Tal facto amenizou o meu sofrimento, pelo menos temporariamente.

Sentei-me e acalmei-me. O meu corpo voltava lentamente ao seu estado normal, sem as manifestações físicas que o haviam caracterizado ao longo do dia. Respirei fundo e comecei a trabalhar nos meus estudos. Pela primeira vez em muitos dias, os meus dedos voaram pelo teclado, torturando as teclas ritmicamente. As frases construíam-se rapidamente e o trabalho avançava.

Isto durou pouco tempo. Notei sombras a aproximarem-se da porta, ao mesmo tempo que as vozes começavam a ser perceptíveis. Temi o pior. O meu batimento cardíaco disparou num rasgão de adrenalina que me invadiu o corpo. Entrou um grupo de raparigas, alegres, risonhas e barulhentas.

 

Entre elas estavas tu.

 

Congelei, totalmente atónito. Arrepios perfuraram-me a pele. Suores frios brotaram-me pelas costas abaixo. Os meus músculos tornaram-se flácidos e irresponsivos. Um colega perguntou-me algo que eu não consegui responder, balbuciando desajeitadamente algumas sílabas incompreensíveis, mesmerizado como estava.

 

Sentaste-te ligeiramente à minha frente como que para me provocar despropositadamente. Escusado será dizer que não consegui trabalhar mais, ofuscado por ti. Tenho ideia de terem falado comigo algumas vezes ao longo da tarde, e é provável que eu tenha respondido na altura, mas não me consigo lembrar. Os meus olhos eram para te ver na tua beleza subjectivamente perfeita. Os meus ouvidos eram surdos aos sons que não envolvessem uma conversa tua. O meu olfacto almejava capturar a tua essência quando a brisa leve percorria a sala. Desejei tanto aproximar-me e fazer conversa de circunstância, do mais banal possível. Poder apreciar-te de mais perto. Fazer com que notasses em mim como eu te noto.

As horas passaram e a coragem necessária nunca surgiu. O que é que me fazes que torna a vida tão difícil quando estás por perto?

Não me devia ter perguntado isto, pois como por telepatia, começaste a arrumar as coisas para te ires embora. Entrei em pânico. Se por um lado não suporto ter-te na minha proximidade, por outro lado não há nada mais que eu deseje. Deixei-te ir na última oportunidade que tinha para te dizer alguma coisa. Abandonaste a sala como havias entrado, e o mundo tornou-se pálido e abatido. A atmosfera já não era alegre, nem de expectativa, nem de nós no estômago. Era agora de desconsolo, de desespero e de raiva, tudo causado pelas minhas falhas.

 

Encontro-me aqui então, a mirar o horizonte. A reflectir no que poderia ter feito. A conjurar cenários que nunca acontecerão. A imaginar como tudo poderia ter sido, desde o momento em que te vi até agora. A remoer-me pelos erros estúpidos e infantis que cometi. Apesar de tudo, acho que consigo chegar a uma conclusão paradoxal depois de tudo o que passei:

 

Não consigo viver contigo.

 

Mas também não consigo sem ti.

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publicado às 01:09




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