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O Pilar - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 21.11.17

- 'Tás a vê-lo!?

- Hãn!?

- Estás a vê-lo!?
- Não percebi nada! Fala mais claramente!
- Escolhi a forma de uma pergunta para determinar se os teus globos oculares haviam de forma parcial ou completa detectado o motivo da nossa procura.
- Ah! Não! Ainda não!
De facto, era difícil a comunicação sonora nas profundezas escuras, frias e confusas da Nuvem. Os salões gigantescos estavam preenchidos com corredores atrás de corredores de máquinas de luzes pequenas e ténues que brilhavam e piscavam incessantemente. Cada uma destas máquinas produzia um ruído constante e irritante que, multiplicado pelos milhares incontáveis, gerava um ambiente ensurdecedor e insuportável para ouvidos biológicos.
- Espera, olha ali!
- Hãn!?
- Ali!
- Não percebi nada!
- É em modo imperativo que te exorto a moveres a tua atenção na direcção em que estou a apontar com o meu dedo indicativo direito.
- Ah! Percebi! Boa! Já vi, vamos lá!

 

Duas criaturas enfezadas de aspecto minimamente humanóide aproximaram-se de um homem desmaiado que jazia no chão neblinoso do salão. A sua espada branca era da cor da sua armadura e estava desembainhada, repousando perto da mão do seu mestre. As criaturas arrastaram pesadamente o homem para longe daquele barulho infernal.

 

- Onde é que ele estava?
- Estava junto aos servidores, metido lá para o meio.
- Como é que ele foi lá parar? Devemos ter feito alguma coisa mal. Bom, agora não interessa, tragam-no.

 

Quando Ventura Lobo acordou, dorido e confuso, deu por si numa cama pouco confortável mas aparentemente limpa. A sua armadura estava arrumada diligentemente a um canto do quarto, em cima de uma cadeira. Venceslau, a espada branca, estava encostada à parede, dentro da sua bainha.
Ventura afastou o cobertor e inspecionou o pequeno quarto que o rodeava. Não tinha janelas e o único contacto aparente com o exterior era uma porta cinzenta. Não tinha de modo algum o aspecto de uma cela convencional, e se estivesse preso consideraria atípico o facto de lhe deixarem o seu equipamento disponível.
Não, tudo isto implicava uma investigação. A Nuvem tornava-se um local mais estranho por cada minuto que o aventureiro passava nela.
Teve uma quantidade ampla de tempo para se vestir e equipar, verificando uma vez e outra se a sua armadura e armas estavam de algum modo sabotadas. Chegou à conclusão que a armadura estava ligeiramente amolgada em alguns sítios, coincidentes com os locais de maior dor corporal em Ventura. Chegou à conclusão de que teria caído de uma altura considerável e que a aterragem não tinha sido particularmente suave.
- Poderia ter sido pior, suponho.
Desembainhou Venceslau e aproximou-se da porta, que não tinha nem uma maçaneta nem nenhum tipo de utensílio para a puxar. Ouvia barulhos do outro lado, vozes, passos, actividade no geral. Não poderiam ser agentes núveos, pois esses não emitiam qualquer ruído, nem ao locomover-se. Seriam então os habitantes da Nuvem? Mas eles não falavam, apenas comunicavam através de texto. Não podiam ser.
Perscrutou a porta por algum método de interacção. A meio da porta, do seu lado esquerdo, estavam duas pequenas fendas em forma de quadrado. Uma era vermelha e a outra verde. Já habituado às metáforas coloridas que aquela cidade utilizava, concluiu que o quadrado verde abriria a porta.
Carregou nele e este iluminou-se.
A porta desvaneceu-se em fumo quase instantaneamente. Ventura estava de espada em riste e trespassou para a divisão seguinte, onde esbarrou com um espectáculo estranho de dezenas de pessoas sentadas em fileiras paralelas, olhando para dispositivos rectangulares não totalmente dessemelhantes ao que Ventura usara recentemente. Contudo, muitas destas pessoas, apesar da corcunda desenvolvida, pareciam comunicar verbalmente umas com as outras, apontando para os dispositivos alheios em discussão.
- Pessoas a conversar a sério! Ora eis uma raridade.
Ventura baixou a espada instintivamente, não imaginando qualquer tipo de possibilidade de violência vindo de criaturas de aspecto tão pateticamente inofensivo.

 

- Bom dia, Sr. Ventura. Creio que temos muito que falar.
O aventureiro viu-se confrontado por um homem enormemente obeso e barbudo que mostrava um sorriso compreensivo e amigável, ou pelo menos Ventura gostava de imaginar que sim, já que era difícil ler a cara de um homem quando esta está maioritariamente coberta de pêlos grandes e descuidados.
- Bom dia, meu caro. Devo dizer que a hospitalidade desta cidade é algo ambígua, e como tal deverá compreender a minha reticência em ser imediatamente diplomático. Confesso, no entanto, que o ambiente em que estou presentemente inserido não me parece particularmente perigoso. Por outro lado, já hoje caí desastradamente por um alçapão peculiar no momento em que estava mais confiante das minhas capacidades, e consequentemente, quando eu pensava que o perigo era mais ou menos nulo.
- Nulo? Mas o senhor estava rodeado de agentes! Seria avassalado só pelos números! Você não caiu pelo alçapão por não ter reparado nele, porque ele não estava lá. Nós é que o criámos na esperança de o salvar e de o conduzir a nós.
- Como assim, "nós"? Como assim, criastes um alçapão? Como assim, agentes? Calma aí, como é que sabia isso? Estou cada vez mais confuso.
- Ok, pronto, se calhar é melhor começarmos do início.
- Hóquei? Não percebo. Acho que só é praticado lá para as terras longínquas e simpáticas de Kand. Castores e tal. Mas sim, enfim, não faria sentido começar pelo meio, a não ser que me quisesse confundir ainda mais.
O colosso humano pareceu vacilar perante a resposta críptica de Ventura, mas sorriu complacentemente, sendo dos poucos personagens que consegue ser paciente com as palermices dos restantes intervenientes da história.
- Bom, Sr. Ventura, eu chamo-me Estevão Vontades e sou o líder da Resistência Inominável. É nosso objectivo lutarmos contra a tirania da Nuvem e devolvermos a liberdade a todos os que por ela estão hipnotizados.
- Ah, então estou mesmo na presença do homem certo. Efectivamente já ando a precisar de uma explicação para o que anda a acontecer aqui há algum tempo.
- Venha comigo, vou-lhe apresentando as nossas instalações à medida que explico.
Estevão começou a sua lenta locomoção através dos corredores de pessoas curvadas sobre os dispositivos rectangulares. Ventura embainhou a espada e seguiu-o.
- Cheguei aqui há muitos anos. Fui dos primeiros. A Nuvem já existia, não na forma que está hoje, mas numa forma muito mais livre. Os criadores originais da Nuvem já não cá estavam, mas eu, entre outros, fomos modificando-a para a enriquecer e torná-la cada vez mais útil. Era sempre por acaso que as pessoas vinham cá ter, normalmente por estarem perdidas nas estepes. No entanto, quando viam a maravilha que a Nuvem podia fazer, deixavam-se ficar e faziam-na crescer. Nunca se soube qual era o propósito original da Nuvem, mas nós usávamo-la para a propagação e criação de conhecimento e para estabelecer uma sociedade de pessoas de toda a espécie, partilhando um recurso comum a todos. Mas a população nunca deixou de crescer. Com o aumento de massas populares a beneficiar de Nuvem vieram novas exigências. Porquê usar a Nuvem só como repositório de conhecimento filantropo? Porque não armazenar lá assuntos pessoais? A tecnologia está lá! Acedemos. Não nos parecia correcto que as pessoas não pudessem desfrutar da Nuvem doutras maneiras também.
- Mas as pessoas nunca estão satisfeitas... - comentou Ventura.
- Pois não. De seguida exigiram um método de comunicação para que as pessoas pudessem falar rapidamente umas com as outras sem ser presencialmente, pois a cidade crescia em dimensão e as pessoas estavam mais afastadas. Nasceu assim o serviço de mensagens instantâneas. Foi mais ou menos nessa altura que comecei a duvidar da nossa missão. Acabei por deixar de ajudar o desenvolvimento da Nuvem. Todas as novas funcionalidades levaram, de uma maneira ou doutra, de uma forma natural ou premeditada, a que a Nuvem tivesse cada vez mais utilidades que, apesar do nome, serviam para pouco e não eram totalmente justificadas.
- Eu não percebo muito da coisa, mas suponho que na altura cada um estava responsável pela sua utilização individual da Nuvem, não? Até que ponto é que uma só pessoa pode decidir o que é útil ou não?
Estevão assentiu placidamente.
- Normalmente concordaria consigo, mas naqueles anos tive um pressentimento que algo não estava a ir na direcção certa. Houve dois grandes passos que contribuíram para o colapso da sociedade antiga: em primeiro, a introdução de versões pequenas das unidades de computação, que as pessoas podiam levar para onde quisessem.
- Ah? Aqueles dispositivos com que toda a gente andava na cidade? "Unidades de computação"? Que raio de nome. Fazem computações? Calculam o quê?
- Não ligue demasiado ao nome. A verdade é que tudo o que acontece nesses dispositivos, como lhes chama, é um conjunto imenso de pequenos cálculos que combinados dão-nos possibilidades infinitas de utilização.
- Então como é que vós lhes chamais? Admito que já estou algo saturado de dizer a palavra "dispositivos" constantemente.
- Às unidades maiores, como as que temos aqui à nossa volta chamamos simplesmente computadores. Às versões mais pequenas chamamos móveis.
- Móveis? Parece-me um nome ambíguo. Porque é que não inventaram um nome mais sonante para estes “móveis”? É que quase parece que estou a falar de mobília.
- Normalmente o contexto da frase permite clarificar qual dos sentidos é que está a ser usado...
- Então, mas se eu estiver a ajudar alguém a fazer umas mudanças? Imagine que está um destes dispositivos em cima de uma cómoda. "Ah, dá-me aí esse móvel!" Como é que se sabe qual dos móveis é que essa pessoa se refere?
Estevão calou-se por uns instantes, reflectindo se deveria levar a pergunta a sério. Decidiu simplesmente continuar a sua narrativa, ignorando a questão semântica.
- Bom, como estava a dizer, os móveis transformaram aos poucos a nossa sociedade. As pessoas deixaram cada vez menos de se encontrar fisicamente e de se ver. Faziam a sua rotina diária com base nos móveis, transportando-os para todo o lado... As pessoas, estando mais afastadas umas das outras nem notaram um segundo problema a surgir. Um problema enorme que deveria ter sido uma solução para um conjunto muito vasto de problemas mais pequenos. Todos sabemos que somos falíveis, que nos enganamos, que nos esquecemos de coisas e às vezes que nem sabíamos que precisávamos de algo. Era bom que houvesse alguma forma de corrigir as nossas imperfeições. Para isso seria necessário que alguém velasse por nós e decidisse por nós.
- Mas isso é algo que a Nuvem nunca poderia fazer, certo?
- Não. E o Sr. Ventura já lidou hoje com aquilo que vela por nós.
- Como? Explique-se.
- Desenvolveram uma espécie de inteligência para a Nuvem de modo a que cada vez mais ela controlasse todos os aspectos das nossas vidas. A Nuvem, através dos seus cálculos impossíveis de imaginar, consegue manter um nível de felicidade falsa a todos os seus utilizadores. Junta desconhecidos numa conversa textual; monitoriza os sinais biométricos de cada um para determinar condições e necessidades, emocionais ou fisiológicas; disponibiliza toda a informação crucial e banal do dia-a-dia, seja a meteorologia ou notícias locais; até chega a comandar os movimentos das pessoas para que elas não colidam umas com as outras ao passearem, para que a atenção de cada indivíduo esteja sempre focado no pequeno móvel na sua mão.
- Então... então a Nuvem tornou-se maléfica?
- Maléfica? Não, senhor, nada disso. Ela tornou-se o que as pessoas queriam que ela se tornasse.
- Mas as pessoas estão presas à Nuvem! Não têm poder de decisão algum! No máximo têm uma ilusão de decisão.
- É verdade. Os algoritmos estão muito bem feitos de modo a que as funcionalidades consideradas mais utéis a um utilizador lhe sejam sugeridas. A consequência disto é que quanto mais tempo se passa na Nuvem mais ela consegue enfeitiçar a pessoa.
- Não pode ser... Espere lá... O meu caro disse que tinha ajudado a desenvolver a Nuvem, correcto?
- Assim é, há muito tempo.
- Posso inferir que actualmente existe alguém a continuar esse desenvolvimento? Alguém que poderia reverter esta situação? Libertar as pessoas?
- Temo bem que não... As capacidades básicas de inteligência da Nuvem acabaram por se combinar em comportamentos inesperadamente mais complexos. A Nuvem deixou de precisar de manutenção manual e continuou o seu próprio desenvolvimento, auto criando-se.
- O quê? Isso é de algum modo verosímil?
- Bom... não... não totalmente, mas é o que está no guião e é o que me pagaram para dizer, apesar do gajo que está a escrever isto não fazer a mínima ideia do que está a falar. Isto não é exactamente o Skynet...
Ventura reflectiu durante um momento. Era muito para processar mentalmente.
- Portanto, se percebi bem, vocês começaram a fazer a Nuvem com um objectivo de criar uma utopia tecnológica, mas pela vontade das pessoas esse sonho foi corrompido e a Nuvem fugiu do vosso controlo. Então e agora? Agora têm este grupo de resistência contra a Nuvem? Como é que estão a planear lutar contra ela? Onde é que a podem atacar?
- Sim, a nossa Resistência Inominável...
- Gostais mesmo desse nome, estou a ver ... - murmurou Ventura, sem Estevão lhe dar atenção.
- ... tem o propósito de libertar as pessoas que estão presas sem o saber.
- Sim, mas como é que o planeiam fazer?
- Acompanhe-me até à sala de operações e explicá-lo-ei, se me garantir a sua capacidade de sigilo.
- Por minha honra, faça favor.

 

Ventura continuou a seguir o colosso humano através dos corredores de pessoas curvadas sobre os computadores. Entraram numa sala grande, onde várias pessoas pareciam aguardar a chegada de Estevão. A que chamou mais a atenção de Ventura foi uma mulher-pantera exoticamente equipada de apetrechos de combate.
- Meus senhores e senhoras, - começou Estevão, dirigindo-se aos reunidos. - gostaria de vos apresentar Ventura Lobo, em carne e osso.
Ninguém respondeu, mas um pequeno rumor percorreu a sala.
- Não estou a perceber a minha importância para me anunciar dessa maneira. - comentou Ventura.
- Tornarei claro dentro de instantes.
Estevão Vontades dirigiu-se para o meio da sala, onde estava uma mesa núvea. Ele pressionou o dedo gigantesco contra um conjunto de ranhuras na mesa. Subitamente, um modelo em escala reduzida da cidade inteira aparece diante de todos.
- Prodigioso, deveras!
- Esta é a Nuvem, como já a viu. Nós estamos nas suas profundezas, onde toda a capacidade de processamento da Nuvem está localizada, mais ou menos aqui. - e apontou para a base do modelo da Nuvem.
- Espere lá... estamos na zona de processamento da Nuvem? Se bem entendi, isso quer dizer que estamos no... "cérebro" dela? Se tal analogia for possível?
- Bom, sim, em termos simples é mais ou menos isso.
- Então porque é que não atacam a Nuvem directamente daqui? Poderiam facilmente causar danos suficientes aqui em baixo para surtir algum tipo de efeito.
Estevão sorriu compreensivamente, bem como grande parte da sala, com uma pitada de jocosidade.
- Isso não funciona bem assim, senhor Ventura. Existem aqui em baixo salas e salas imensas cheias de computadores. É impossível saber que efeito é que destruir apenas um teria na cidade inteira. Mesmo que o quiséssemos fazer, em desespero, não temos os números suficientes para causar danos significativos antes de a Nuvem se aperceber da nossa localização. Repare, o único sítio da Nuvem que não tem sensores para seguir os nossos movimentos é aqui mesmo, no seu ponto fraco.
- Não percebi nada do que disse, mas vou confiar que sabe do que está a falar. Já estou a perceber que seja o que for que é para fazer, vai sobrar para mim. Aquela gente ali atrás toda curvada tem aspecto de não sair desta cave há vários meses, portanto não estou a vê-los a poder fazer grande coisa.
- Ah, aí é que se engana, Sr. Ventura. Deixe-me explicar o plano: No topo da Nuvem está o Pilar, um computador especial que controla e gere toda a Nuvem. É a entidade responsável pela manutenção e actualização das funcionalidades que a Nuvem disponibiliza. É esse o nosso objectivo.
Estevão Vontades pegou num objecto núveo pequeno.
- Este dispositivo, quando ligado ao Pilar, desactivará todos os serviços de administração e a Nuvem voltará a um estado manual, o que libertará as pessoas do seu transe tecnológico.
- É só isso? É só levar essa coisa a esse tal Pilar? Não me parece difícil. Suponho que o vosso problema são aqueles guardas que a Nuvem cria do nada, mas já sei como derrotá-los, por isso não hei-de ter muitos problemas se o vosso propósito for pedir-me que eu vá lá. O maior entrave nisto tudo é que eu não tenho exactamente muito tempo para estar a gastar em problemas alheios, já que estou numa demanda importante e...
- Sim, nós sabemos.
- Sabeis? Essa agora, como?
- Já sabemos o seu nome há muito tempo e conseguimos obter muita informação sobre si, Sr. Ventura. Encontrámos um blog particularmente interessante sobre as suas aventuras.
- Um quê?
- Um blog, chamado "O Bom, o Mau e o Feio".
- Eu... estou confuso, mas de que raio está a falar?
- Sabemos que está à procura do Abade Fazia, e por isso é foi ter com o Sr. Xico dos Cavalos. E poderíamos ajudá-lo nesse sentido.
- Mau! Esperem lá, estão então a coagir-me para vos ajudar?
- Do nosso ponto de vista estamos apenas a fazer o possível para nos livrarmos da tirania automática da Nuvem.
- Ok, então do meu ponto de vista não posso confiar em vós. Como é que eu sei que falais a verdade?
Estevão já esperava a pergunta, e conjurou um painel núveo com imagens pintadas, com a particularidade de se moverem.
- Aquelas imagens estão-se a mover! É uma janela? Não pode ser, não está nada atrás...
- Este é um vídeo que retirámos dos arquivos da Nuvem.
- Um quê?
- Daqui a uns segundos verá um velhote a aparecer ali à direita.
De facto, no misterioso painel dinâmico, apareceu a figura do Abade Fazia, de aspecto paranóico e gasto, mas indubitavelmente ele.
- O Abade! Ele está aqui!? Onde?
- Calma, ele não está aqui, este vídeo foi gravado há uns meses.
- Este quê?
- Tem aqui a prova que nós sabemos quem é o Abade Fazia e posso dizer que sei para onde é que ele foi.
- Isto não prova nada, eu não faço ideia do que estou a ver e o senhor parece estar a evadir as minhas perguntas sobre esses termos esquisitos que aparentemente deveriam ser básicos... Pronto, vá, eu ajudo-vos se me prometerem dar informações sobre o Abade Fazia. Contentes?
- Óptimo, comecemos já as preparações para a batalha! Quanto mais cedo atacarmos melhor! Mirima, chega-te aqui.

 

A mulher pantera resmunga, mas aquiesce. A sua postura guerreira indicava claramente que já estava pronta para a batalha, apesar de Ventura não perceber exactamente que batalha esta era.
- Sr. Ventura, esta é a Mirima, uma aventureira como você que foi apanhada nas ilusões da Nuvem. Conseguimos salvá-la e por gratidão ela aliou-se à nossa causa, pelo menos até conseguirmos a libertação das pessoas.
- Muito prazer, menina Mirima.
Mirima não respondeu, parecendo ignorar a presença de Ventura.
- Um gato típico, claramente.
Estevão tomou a palavra.
- A Mirima é experiente em combate, mas achámos que seria demasiado difícil para uma só pessoa se infiltrar nas partes superiores da Nuvem. Vocês os dois juntos terão uma melhor hipótese. Não podemos subestimar a Nuvem. Ela já nos surpreendeu antes.
- Realmente, com a minha adição ficam com o dobro de tropas disponíveis.
Estevão riu-se.
- Não exactamente o dobro. Venha, gostaria de lhe mostrar algo. A nossa arma secreta que será a distração que vocês usarão para se infiltrarem.
Acompanhou Ventura através de uma porta, seguida de um corredor. No fundo o corredor expandia-se para uma sala enorme. Lá dentro estavam dezenas de agentes núveos a combater uns com os outros, como se treinassem.
- Espantoso! Mas... não é a Nuvem que os controla?
- Não. Cada um destes agentes está a ser controlado por um dos nossos colaboradores lá atrás, aqueles "curvados", como disse. Conseguimos interceptar alguns pacotes que nos deram acesso às chaves de identificação de muitos núveos, efectivamente roubando-os da Nuvem sem ela saber.
- Ah, pacotes? Chaves? Interceptar?... - Ventura suspirou. - Bom, está bem, que parvoíce. Então afinal eles vão ser úteis? Mas espere lá, assim isto vai ser uma salganhada de núveos uns contra os outros.
- E nessa confusão você e a Mirima conseguirão trespassar mais facilmente os sistemas da Nuvem. Esperamos nós. No mínimo, serão menos agentes com os quais terão de lutar.
- Pois bem, dito assim parece promissor. Segundo percebi o senhor tem pressa em que se ataque o mais depressa possível?
- Sim, pela actividade na Nuvem, suspeito que ela esteja ciente de que algo está prestes a acontecer. Está a decorrer um processo que nunca tinha visto, e não imagino o que seja.
- Bom, não há-de ser nada, certamente. Desde que os homens-nuvem sejam tão fáceis de eliminar como os outros, não posso prever grandes dificuldades.
- Muito bem então. Você irá com a Mirima, ela tem o plano já bem estudado.
Virou-se para os núveos aliados que ainda treinavam.
- Rapazes, já abri o servidor. Vão para lá, já lá vou ter.
Um por um, os núveos esfumaram-se até a sala ficar vazia.
- Siga a Mirima. Boa sorte!
- Agradeço meu caro, apesar de não perceber bem no que é que me estou a meter. Faça favor, menina.

 

Mirima indicou a Ventura para a seguir.
- Perdoe-me a insolência, menina, mas creio que tenho de ter uma melhor ideia das capacidades da minha parceira de combate. Compreendo que a sua impaciência tipicamente felina a faça menos indulgente para com um mero humano, mas tenha um bocadinho de paciência por agora.
Ela não respondeu imediatamente. Chegaram a uma plataforma encimada por um tubo grosso. Ela colocou-se na plataforma e fez um gesto para que Ventura fizesse o mesmo. Este assim fez, e a plataforma começou imediatamente a subir pelo tubo acima, o que abalou momentaneamente o equilíbrio do aventureiro.
- Não há muito a dizer. - disse Mirima, finalmente. - Percorro as terras sem saber bem à procura de quê. Para caçar monstros, para trepar árvores gigantes, para apanhar os diferentes sóis do nosso mundo.
- Procura aventura, no geral.
- Sim.
- Hmm, muito bem. Vejo que está bem equipada, já travou muitas batalhas?
- Caço e mato quase desde que nasci. Já fui soldada, mercenária e pirata, mas nunca lutei por ouro. Já lutei em guerras contra os da tua raça e contra os da minha e contra outras tantas.
- Contra humanos? Deveras? E contra estes núveos?
- Várias vezes, mas os números deles são muito grandes para uma só pessoa.
Ventura concordou.
- Sim, talvez. Tentemos evitar confrontos. Se virmos que estamos prestes a ser avassalados fujamos e reorganizemos a nossa estratégia. Evitemos também espaços apertados, já que pelos vistos eles conseguem vir das próprias paredes. O Estevão disse que a menina já tinha um plano delineado?
- Sim. Só existe uma entrada possível para os níveis superiores. O nosso exército vai atrair a atenção da Nuvem na entrada e nós faremos a nossa infiltração pelo lado, forçosamente se tiver de ser. Lá dentro teremos maior espaço de manobra. Nós não sabemos que tipo de defesas o Pilar em si tem, já que nunca nos conseguimos aproximar dele.
A plataforma abrandou menos abruptamente do que começou. Ventura e Mirima encontravam-se dentro de uma das casas da cidade, reconhecendo-se a pobre noção de arquitectura de interiores dos habitantes da Nuvem. Os dois aventureiros procederam para a rua. Estavam numa viela paralela à entrada para os nível superiores da Nuvem, que era um portão de aspecto formidável, certamente o elemento estético mais atractivo que Ventura vira naquela cidade.
- Olha, Ventura. - disse Mirima, apontando para o chão da praça à frente do portão.
Pelo menos 50 figuras núveas formaram-se no chão. Um delas, maior que as demais, começou um discurso.
- Nuvem! Ordenamos que te encerres e devolvas a liberdade às pessoas.
O Pilar era perfeitamente visível no topo da cidade. Começou a emanar uma cor avermelhada, em vez do seu azul-relâmpago.
- Bom, reconheço aquela como a cor de que as coisas vão aquecer. - comentou Ventura, ao desembainhar a espada Venceslau. Mirima preparou a sua lança e o seu escudo largo. O seu pêlo de ébano estava eriçado e ela parecia quase curvada em "U".

 

A Batalha do Pilar estava prestes a começar.

 

O núveo aliado que falou era a representação de Estevão Vontades, ajudando também na batalha e feito maior que os outros para uma melhor identificação em termos de narrativa.
A Nuvem inteira pareceu tomar o mesmo tom rubi que o Pilar, talvez apenas ligeiramente mais ténue e menos saturado. O alerta geral tinha sido dado, mas tropas inimigas ainda não tinham aparecido.
Subitamente, o portão majestoso abriu-se silenciosamente, desvanecendo-se as portas. Não estava ninguém do outro lado. Ventura Lobo e Mirima aproveitaram o estranho convite e escapuliram-se cautelosamente pela direita, aproximando-se do portão, ainda na expectativa de saberem de qual seria a próxima acção da Nuvem.
Evidentemente, a abertura do portão era apenas uma distracção. Agentes núveos começaram a brotar do chão e das paredes e atacaram de surpresa as fileiras aliadas, gerando-se uma confusão gasosa de combate inter-núveo.
Agora sim começaram a ser derramados reforços a partir do portão. Dezenas de figuras humanóides cinzentas e inexpressivas inundaram a praça. Os agentes da Resistência, semelhantes em todos os aspectos aos seus inimigos, lutavam habilidosamente, pois ao contrário dos seus irmãos nublados, eram controlados por serem sencientes, e não pelos algoritmos e processos artificiais da Nuvem.
- Ataquemos no flanco mesmo junto ao portão, antes que a Nuvem o feche. - propôs Mirima.
- São muitos e ainda estão a vir mais. No entanto vejo que temos pouca opção. Fique... Olhe lá, posso tratá-la por tu? Para facilitar a comunicação?
- Sim, claro.
- Pronto, obrigado. Fica à minha esquerda. Com o teu escudo conseguirás proteger os meus ataques frontais, sendo que à direita terei a parede.
- Muito bem, vamos!
A dupla guerreira carregou sobre os núveos, mantendo-se junto à parede. Mirima mantinha o inimigo afastado com a sua lança curta e escudo. Ventura desferia golpes verticais, apontados às pernas dos núveos de modo a fazê-los dissipar completamente.
Derrotaram cinco até chegarem ao portão. Infiltraram-se sorrateiramente evitando golpes e ataques dos núveos, escapando para as vielas dos edifícios interiores.
Perderam de vista o campo de batalha, mas Mirima tinha um móvel com o qual conseguia manter contacto com Estevão Vontades.
- Mirima, ouves-me? Vi que entraram. Como é aí desse lado?
- Parece igual aos níveis inferiores. Está é completamente desabitado.
- Muito bem, prossigam em direcção ao Pilar, nós estamos a conseguir mantê-los aqui, afinal não houve surpresas nenhumas.
É evidente que é precisamente depois de uma afirmação destas que algo ocorre para contrariar a sorte dos atacantes.
O Pilar emitiu uma espécie de rugido e pulsou uma onda escarlate intensa através da Nuvem inteira.
- Que foi isto!? - perguntou Ventura, algo sobressaltado. Era-lhe difícil lutar numa batalha com aspectos completamente incompreensíveis para ele, e contra um inimigo tão peculiar.
- Foi uma actualização! A Nuvem de vez em quando corrige pequenos erros que detectou em si própria e mais raramente adiciona novas funcionalidades.
Uma voz alarmada dispara no móvel de Mirima.
- Mirima! Os núveos! Cuidado! Houve uma actualização! Argh! Pessoal, compactem-se! Defendam-se!
A voz parou e Mirima pareceu pensativa.
- Prossigamos com cautela, Ventura.
- Seguir-te-ei.

 

Percorreram as vielas apertadas do que parecia ser um bairro residencial novo, pronto para ser habitado.
- Porque é que estão aqui tantas casas, se ninguém mora cá? - perguntou Ventura.
- A Nuvem deve estar a preparar mais uma expansão. Os níveis superiores subirão ainda mais. Felizmente isto significa que ainda não colocou aqui sensores para nos poder detectar.
Avistaram uma patrulha de dois núveos inimigos numa das ruelas. Esconderam-se em casas em lados opostos para os surpreender. Mirima arrumou a lança às costas e desembainhou uma espada de cobre.
Quando a patrulha se aproximou, notaram que o seu aspecto físico estava diferente. Pareciam ter um material viscoso à volta das canelas. Os aventureiros entreolharam-se, mas Ventura parecia menos preocupado do que Mirima, já que ele não podia saber o significado daquele facto observado. Atacaram a patrulha lateralmente, investindo directamente nas pernas. Para o espanto de Ventura, a sua espada não cortou facilmente através do material viscoso, que parecia agir como uma armadura. O núveo, armado apenas de bastão, tentou em vão acertar em Ventura, mas a agilidade deste permitiu-o esquivar-se sucessivamente e deu-lhe muitas oportunidades para decepar membros ao núveo, para ganhar tempo para insistir no ataque às pernas. Finalmente, ao terceiro golpe cortou uma das pernas do inimigo e Mirima, que já tinha derrotado o núveo do seu lado, veio em auxílio de Ventura para atacar a armadura da outra perna.
- O que é que se passou? Onde é que ele arranjaram estas armaduras!? Parece cota de malha!
- Suspeito que a última actualização terá equipado os núveos com estas armaduras nos seus pontos fracos.
- Oh diabo, mas assim já não vai ser tão fácil. Ainda se faz, mas com um bocado mais de esforço. Felizmente eles não se defendem muito bem. Essas tais actualizações, como vós lhes chamais, são muito frequentes?
- Não, costumam ser semanais ou mensais. A última foi ontem, por exemplo. Não sei porque é que ela fez uma actualização tão pouco tempo depois.
Estevão Vontades contactou o móvel de Mirima.
- Mirima! Os núveos! Foram actualizados!
- Sim, já sabemos, já combatemos com as novas versões. Foi aquela actualização que adicionou as armaduras?
- Sim, acho que sim. Aquele novo processo misterioso que descobri na Nuvem deve ter algo a ver com isso. Conseguimos manter-nos firmes, mas aposto que a Nuvem já sabe da vossa infiltração. Contem com maior resistência! Iremos em vosso auxílio assim que pudermos!

 

Mirima guardou o móvel e indicou a Ventura para segui-la.
- Consegues trepar?
- Bom, consigo, mas a minha armadura e agilidade relativamente mais baixa poderá atrasar-me um bocado em relação a ti.
- Então eu vou para o telhado desta casa para ver o que nos espera, fica aí.
- Cuidado! - exclamou Ventura.
Três núveos apareceram e prepararam-se para atacar.
- Vai, Mirima! Eu distraio-os enquanto vais lá acima.
Mirima obedeceu e subiu com saltos impressionantes e precisos até ao telhado do edíficio mais próximo, até desaparecer.
Ventura sabia que a sua espada era especial o suficiente para conseguir cortar mesmo pela mais dura das armaduras. Simplesmente teria de fazer ligeiramente mais força ao atacar.
O primeiro núveo lançou-se estupidamente num ataque aberto. Ventura desviou-se facilmente e, aplicando muito mais força que o normal, deslizou Venceslau através das duas pernas do núveo, dissipando-o.
- Ah, afinal nem preciso de tanta força. Andem lá que já recuperei a confiança. Tantos anos de ginásio vão finalmente valer bem a pena.
Ventura defendeu um ataque de bastão e empurrou o núveo por instinto, apercebendo-se que afinal consegue interagir com os seus inimigos gasosos fisicamente (e não só à espadada), o que é algo contra-intuitivo. Ao empurrá-lo, conseguiu desequilibrá-lo, ficando momentaneamente com apenas uma perna ligada ao chão. Num movimento rápido, Venceslau decepou a perna num golpe forte mas certeiro. Restava apenas um núveo que conseguiu acertar de raspão na armadura branca de Ventura, sem causar muitos danos. Ventura empurrou-o também e aplicou o mesmo estratagema. Notou com satisfação que os núveos tinham imensa dificuldade em voltar ao ponto de equilíbrio, agitando freneticamente os braços e colocando-se totalmente vulneráveis.
- Ventura! - gritou uma voz feminina.
- Sim!? Que viste?
- Há uma praça ali à frente, tem acesso directo ao pilar. Encontramo-nos lá, eles estão a seguir-me por aqui! Vai ...
A palavra de Mirima foi interrompida por um rugido semelhante ao anterior e uma nova pulsação encarnada fluiu pela Nuvem.
- Uma nova actualização? Já? Mas o que é que se passa? - questionou-se Mirima.
- Achas que a Nuvem está a aprender? - perguntou Ventura, julgando perceber já o suficiente da mecânica da Nuvem para sugerir tal coisa. - Será que com cada actualização os núveos estarão mais difíceis de derrotar?
- Talvez. Se assim for temos de ter cuidado. Vai! Encontramo-nos lá à frente!

 

Ventura correu velozmente pelas ruas estreitas do bairro deserto. Apanhou um núveo desprevenido e cortou-lhe as pernas, aproveitando o ímpeto da corrida.
"Bom, a armadura não foi reforçada, será que a actualização foi de outra coisa qualquer?" - pensou.
Chegou ao fim das ruelas e deparou-se com uma praça em tudo semelhante àquela onde a batalha começara. A única diferença era que não havia um portão a separar a praça do nível mais alto da Nuvem onde o Pilar se via agora nitidamente no topo de uma escadaria. Pequenas colunas de núveos formavam-se em falange, esperando a Resistência que certamente aí viria.
- Eles estão a aprender as mesmas tácticas militares que nós estamos a usar. Até já têm escudos!
Ventura sentiu algo a mexer-se atrás dele, à espera de o surpreender. Era um núveo inimigo, equipado não com um bastão, mas com algo mais semelhante a uma espada e também um escudo. Tentou uma breve estocada com a espada, mas Ventura Lobo desviou-se e decepou-lhe o braço, mesmo sabendo que voltaria a crescer. O núveo, sem hesitar, atingiu com brusquidão o seu adversário com o escudo, tentando por sua vez desequilibrá-lo. Ventura facilmente contra-balançou-se.
- Essa agora, esse truque é meu! E repara que comigo não funciona porque eu sei equilibrar-me!
Mas o núveo não lhe parecia dar atenção, estava efectivamente estacado no sítio, como se pensasse.
O Pilar rugiu de novo, e quando a pulsação vermelha atingiu o núveo, este atacou de imediato confiantemente. Ventura deflectiu o ataque habilmente e pontapeou o núveo para o desequilibrar, mas desta vez não resultou. O núveo rapidamente voltou a uma posição estável, parecendo troçar de Ventura.
- Bom, isto certamente não são boas notícias. Mesmo que eu te destrua só vais ensinar mais coisas à Nuvem, ou ao Pilar, ou seja a quem for! Bolas! Mirima! Mirima, onde estás!?
Ventura recuou, achando prudente não lutar mais com os núveos enquanto não pensasse numa solução.
- Mirima! - berrou, exasperado.
- Ventura, estou aqui, vou descer!
Um novo rugido iluminou a cidade de vermelho.
Mirima apareceu de um telhado e saltou de uma altura incrível, aterrando nos quatro membros.
- Mirima, não combatamos mais, eles estão a aprender com o que fazemos.
- Pois, o Estevão já me disse o mesmo. A capacidade processadora da Nuvem está a ser usada ao máximo, completamente focada nisto.
- Corramos para o Pilar, é a nossa única hipótese!


A dupla aventureira correu endiabradamente na direcção do Pilar, atravessando a praça aberta o mais rapida e desesperadamente possível.
Uma falange de soldados núveos, pois agora já se poderiam chamar soldados, surgiu do chão onde estaria o portão que daria acesso ao Pilar.
Ventura e Mirima estacaram. Olhando em volta, mais soldados surgiam imediatamente.


Estavam encurralados.

Os aventureiros colocaram-se costas com costas, prontos a defenderem-se até ao último esforço.
- Não, esta não é uma morte digna! - queixou-se Mirima.
- Fala por ti, eu estou admirado em ter chegado tão longe, bem vistas as coisas!
Ela quis insultá-lo, mas preferiu focar-se no inimigo, que se aproximava lentamente de todas as direcções lentamente para criar suspense e para dar a Ventura tempo de arranjar uma maneira de se safar.
Ventura olhava atentamente aos movimentos e equipamentos dos núveos, roubados iterativamente das interacções ao longo da batalha.
Um novo rugido inundou a Nuvem, agora mais alto pela proximidade ao Pilar.
"Tudo o que nós fazemos é aproveitado por eles... Mesmo que estejamos aqui a lutar durante horas, eles eventualmente vão aprender todos os nossos truques, por mera observação..." - reflectiu Ventura.
Eis que lhe ocorre uma epifania.


- Mirima, já alguma vez fizeste teatro?
- O quê!?
- Estou a perguntar se és boa actriz.
- Que raio de pergunta é essa!? - rosnou ela, literalmente.
- Achas que consegues fazer com que um deles atinja outro acidentalmente?
- Como?
- Desviando um ataque de um para cima do colega ao lado.
- Sim, acho que sim, mas isso de pouco nos serve! E o que é que isso tem a ver com teatro?
- Olha para mim e faz o que eu faço.


Ventura lançou-se loucamente contra uma das colunas de soldados. Desorganizou-os o melhor que pôde, correndo e saltando de um lado para outro. De repente, ele estava completamente rodeado e esperou que um dos núveos atacasse. Um lanceiro, novidade da actualização mais recente, tentou uma estocada, mas Ventura desviou-a contra um outro núveo, perfurando-o no peito.
- AII! Que dor! Não, não faças isso! - gritou Ventura, apesar de não ter sido atingido, para confusão de Mirima.
Um outro soldado ataca Ventura com a espada, mas Ventura agarrou-lhe no braço e movimentou-o com força contra um outro inimigo, cortando-lhe a cabeça.
- NÃÃÃÃOO, AI, não, mais não! A dor, é horrível! Atingiste-me! Ai, que horror! - berrou outra vez dramaticamente, mais uma vez sem ter sido ferido.
Mirima finalmente percebeu o estragema, e apesar de ser insano e pouco honrável, era admissivelmente exequível, mesmo que a probabilidade de funcionar fosse baixa.
Lançou-se felinamente contra os soldados também, conseguindo com algum esforço redireccionar os ataques dos núveos uns para os outros, queixando-se pateticamente de seguida (mas sem o poder dramático que Ventura conseguia, evidentemente).
- Ai... - dizia ela. - Pois, atingiste-me canalha. Ai, a dor. Nem sei como sobrevivi.
- AIII, OS MEUS JOELHOS, OS MEUS RINS, AI A MINHA CABEÇA, AI QUE NÃO ME SINTO NADA BEM, AI NÃO, PAREM, POR FAVOR, TENHAM MISERICÓRDIA, OS VOSSOS ATAQUES SÃO DEMASIADAMENTE BEM SUCEDIDOS E SE REALMENTE QUISEREM ACABAR CONNOSCO SÓ TERÃO DE CONTINUAR A FAZER O QUE ESTÃO A FAZER AGORA! - lamuriava-se infantilmente Ventura, exagerando no seu papel.


Mais um rugido assinalou uma nova actualização. De imediato os núveos começaram a atacar-se uns aos outros numa guerra civil confusa e fratricida, ignorando completamente os seus verdadeiros inimigos.
- Mirima! Está a resultar, continua a queixar-te!
Para um observador externo, o espectáculo era difícil de descrever: várias dezenas de agentes núveos lutavam entre si sem grande definição de quem atacava ou defendia quem. Havia até alguns a atacar-se a si próprios. No meio desta confusão estava um homem a rebolar-se de dores como se tivesse mal do apêndice e uma mulher pantera hirta a emitir alguns gemidos e queixas pouco convincentes e enfadados.


Uma nova actualização rompeu pela cidade.
Apareceram ainda mais soldados núveos que se juntaram ao combate intenso e caótico que só poderia fazer lembrar uma zaragata da aldeia do Astérix.


Ventura continuava a chorar no chão, vertendo lágrimas reais.
- Ventura, acho que a confusão já chega para podermos continuar e... estás... estás a chorar?
O aventureiro feito actor metódico levantou-se rapidamente e olhou em volta.
- Ena, funcionou! Quem diria? Desculpa, mas eu fiz teatro quando era miúdo, uma peça ou outra só, vá, e levo um bocado a sério os papéis onde entro. Prossigamos então, enquanto eles estão ocupados. Já nada nos impedirá de chegar ao Pilar!

 

Os dois aventureiros serpentearam pelos múltiplos duelos núveos, esquivando-se de um ou outro ataque menos certeiro por parte dos combatentes. Subiram uma escadaria que dava acesso ao piso mais alto da Nuvem. O Pilar, situado em cima de uma estrutura rodeada de escadas, brilhava um vermelho sangrento e alarmante, capaz de dissuadir qualquer pessoa de mente mais fraca. Não era o caso de Ventura, que se começou a encaminhar na direcção dele, com a mítica espada Venceslau em riste.

 

- Ventura, algo não está bem. - prenunciou Mirima, eriçando-se-lhe o pêlo até à ponta da cauda.
Ventura não ligou. Não havia inimigo nenhum a defender o Pilar. Percebeu que estava redondamente errado quando colocou o pé no primeiro degrau.
Toda a escadaria se retraiu, ficando apenas um imenso paralelepípedo com o Pilar em cima. Sem fazer barulho, a estrutura começou a elevar-se na vertical, movimentando o Pilar para cima. Duas secções na lateral separaram-se e dobraram-se sobre si como braços. Igualmente, na zona mais baixa, quatro secções dividiram-se e formaram o que pareciam ser quatro pernas, criando no geral uma criatura núvea gigantesca, encimada pelo Pilar, que seria a cabeça.

 

Ventura recuou por instinto. Não era a primeira vez que lutava contra uma criatura gigante, mas nunca era particularmente agradável fazê-lo, e muito menos quando não estava de todo preparado para um confronto implicativo de esforço titânico.
- Mirima! O que é aquilo!? Vamos ter de lutar contra aquilo?
- Não sei, mantém-no ocupado, vou ligar ao Estevão!
- Ligar? O que é que isso quer dizer!? Larga lá o móvel, olha lá esta coisa... Pronto, já está de volta daquilo... Claro! Sem problema, eu derroto isto sozinho, não estou de modo algum na sombra de um colosso que me pode esmigalhar assim que quiser.

 

O Pilar parecia ter completado a sua transformação, e iniciou a sua marcha na direcção de Ventura, preparando um soco pulverizador.
- Oi? Pira-te! - exclamou Ventura, lançando-se para a lateral o mais longe possível.
O soco pressionou o chão com tanta força que deixou uma silhueta profunda. Ventura inspeccionou o buraco, e notou no fundo o que parecia ser aquele material das armaduras novas dos núveos. Subitamente, o material desapareceu e o buraco preencheu-se, para imediatamente de seguida surgir um núveo totalmente armado e protegido. Iniciou de imediato um assalto feroz ao aventureiro, que foi atingido na perna sem gravidade. Ventura não se deu por vencido. Mantendo um olho no núveo e outro no Pilar, decidiu tentar atacar este último. As pernas seriam certamente o ponto fraco. Correu como um louco em direcção às pernas do monstro gasoso, cambaleando ligeiramente. O núveo deu-lhe perseguição, percorrendo a distância mais rapidamente através da Nuvem e aparecendo instantaneamente à frente de Ventura, bloqueando-lhe o progresso. O aventureiro decidiu atacar, estando consciente que ao atacá-lo só lhe estaria a ensinar novos truques.
Fingiu um ataque à direita, para logo rodopiar para a esquerda e atingir o núveo, abrindo-lhe a guarda. Num golpe fortíssimo que drenou muitas forças de Ventura, arrancou as duas pernas de uma só vez, dissipando o defensor do Pilar.
O monstro reagiu, dividindo os seus braços noutros dois, começando a parecer mais um bengaleiro do que outra coisa.
Ventura desviou-se por pouco de dois socos tremendos consecutivos. O monstro estava a ficar mais rápido. Mirima veio finalmente em auxílio.
- Ventura! O Estevão não sabe nada sobre esta criatura. Deve ser uma nova funcionalidade de defesa da Nuvem.
- Pois, acredito que sim. Cuidado com aqueles dois buracos, vão surgir núveos poderosos de lá. Eu vou atacar as pernas!
Ele assim fez, mas o material de que a estrutura era feita não era fácil de destruir. O facto de as pernas se mexerem também não ajudava.
O monstro atacou Mirima que, sem deliberar muito, saltou para cima do braço enorme da criatura e começou a escalá-lo, cravando as suas garras no material núveo para se agarrar.
Ventura compreendeu a ideia impetuosa da sua companheira. De pouco valia tentar derrubar o monstro pelos pés, se o ponto fraco é na cabeça, ou seja, no Pilar. O humano, mais pesadamente equipado que a mulher pantera, teria mais dificuldade em trepar o colosso.
Felizmente, os membros do monstro eram excessivamente grandes e não lhe permitiam atacar com facilidade os combatentes alpinistas. Os guardas núveos que ficaram lá em baixo observavam sem poderem fazer muito.
Mirima foi a primeira a chegar aos ombros do monstro, mas foi derrubada de rompante quando este decide cair pesadamente no chão, ficando em rampa. A mulher pantera, apanhada desprevenida, deslizou até ao que se poderia dizer que era a cintura do gigante. A escadaria que originalmente rodeara a estrutura reapareceu, dando acesso aos soldados no chão, que aproveitaram para subir em defesa do Pilar. Ventura surgiu pouco depois, frustrado pelo esforço vão de subir demoradamente o colosso, para ele próprio depois facilitar tanto a tarefa.
Mirima ajudou-o a subir e retomaram a escalada facilitada das costas do monstro até ao Pilar. Os núveos de elite aproximavam-se
- Força e coragem, Mirima, estamos quase lá!
- Qeem parece mais cansado és tu, Ventura. - respondeu sarcasticamente a felina, não notando um dos braços da criatura que ainda se debatia para os apanhar. Foi derrubada e lançada para baixo de novo.
Ventura começou a voltar para trás, mas Mirima impediu-o.
- Vai! Sobe! Eu aguento-os!
Ventura concordou e reuniu as suas forças para os passos finais até ao Pilar.

 

Visto de perto, o Pilar tinha o aspecto de um prisma octogonal perfeitamente polido coberto de padrões que pareciam quase matemáticos. Para surpresa de Ventura, era da mesma altura que ele, apesar do brilho que emanava ter dado a sensação de que seria muito maior.
- Espera lá... Mirima, não era preciso uma coisa específica aqui? Umas dessas vossas coisas... coiso! Ventura referia-se ao dispositivo que Estevão Vontades dissera que era necessário colocar no Pilar.
- Raios! - respondeu ela lá de baixo. - Sim! Tenho-a aqui!
Nesse momento os núveos atingiram a posição de Mirima, que fez o melhor para os afastar.
- Não consigo levar-to aí!
Ventura reflectiu, olhando gravemente para o Pilar, que parecia troçar dele.
- Gozas comigo?... Pois bem, devias saber que o leigo é o maior inimigo da tecnologia, especialmente porque quando a solução certa não está disponível, recorremos à única outra coisa que podemos fazer: a violência.
Ventura Lobo agarrou na sua espada rúnica Venceslau, possuidora de um ódio imenso pelos habitantes da Nuvem e dos seus crimes ortográficos. Parecia adivinhar o que aí vinha, pois as suas jóias transparentes enrubesceram-se, inundadas pelas memórias das conversas do cidadãos da Nuvem.
- Apresento-te Venceslau, uma espada branca milenar, forjada pelo Caos, imbuída runicamente do poder e raiva do povo extinto de Tçuchulshuxuz.
Dito isso, num gesto dramático e simbólico, análogo ao que um funcionário de escritório faria ao seu monitor quando o computador não responde, Ventura golpeou directamente o Pilar, juntando o seu encarnado sangrento brilhante com o vermelho escarlate furioso de Venceslau.

 

Num ápice, sem grandes efeitos visuais, reinou a escuridão. A Nuvem apagou-se e todas as suas actividades pareceram cessar, tornando-a uma massa escura como uma nuvem tempestuosa. Quando Ventura retirou a sua espada do Pilar, esta parecia completamente calma e satisfeita. Saciada até.
Mirima juntou-se-lhe pouco depois. Os núveos inimigos haviam estacado completamente. Ela trazia o pequeno dispositivo de Estevão na mão, agora inútil, pois ele próprio parecia inerte.
- Bom... acho que conseguimos, mesmo que tenha sido à bruta. - comentou Ventura.
Ela assentiu.
- E agora?
- Não sei. Esperemos para nos certificar que tudo fica bem.

 

Pequenos relâmpagos viam-se de vez em quando a percorrer a Nuvem. A cidade não morrera. A vida estava a voltar aos poucos. Os sistemas, um por um, foram voltando à normalidade. A Nuvem deixou de ser uma massa cinzenta e passou a ter um tom azulado, o mesmo tom que o Pilar tinha antes de ser atacado. O significado simbólico era evidente: o Pilar já não controlava nada.

 

As pessoas estavam livres.

 

O Pilar, completamente inoperacional deixou de ser uma ameaça. Ventura e Mirima desceram cautelosamente da estrutura morta com a qual haviam lutado.
Estevão Vontades apareceu em pessoa no nível superior, arfando pesadamente. Era provavelmente a primeira vez desde há muito tempo que via o Sol. No entanto, não foi com alegria que reencontrou os seus presumíveis heróis.
- O que é que você fez, Ventura!? Não era suposto destruir o Pilar, mas sim ligar-lhe o dispositivo que dei à Mirima!
- Peço desculpa, meu caro, mas as circunstâncias não permitiram seguir o plano à risca. Contudo, arrisco-me a afirmar que seja o que for que eu fiz resultou. A cidade parece estar livre da tirania automática do Pilar.
- Mas era importantíssimo podermos ligar-nos ao Pilar para aceder ao seus sistemas administrativos! Doutra forma não... erm... quer dizer...
- Doutra forma não poderíeis ser vós a controlar a Nuvem directamente, não é verdade? - rematou Ventura sardonicamente, consciente de que Estevão lhe escondera as verdadeiras intenções desde o início.
Estevão foi apanhado de surpresa pela perspicácia de alguém que considerava um labrego tecnológico.
- Nas minhas aventuras já vi o mesmo padrão ocorrer várias vezes, com execuções diferentes, mas com mesmo propósito final. Acaba por se tornar fácil detectar quando alguém nos está a mentir.
- Raios, Ventura... A Mirima sempre se questionou menos... O que é que vai fazer agora? - balbuciou Estevão derrotadamente.
- Quanto à Nuvem? Nada. As pessoas estão livres. Elas têm agora a vontade própria de decidirem individualmente o que fazer. Nem o impedirei de tentar retomar o controlo da cidade. Sinceramente, mesmo que eu não concorde com o estilo de vida dos vossos cidadãos, não tenho eu também o direito de decidir por eles como é que não devem viver. Ajudei a libertá-los. Fiz a minha parte. O resto não me interessa. Agora, gostaria de relembrar que tínhamos um acordo, Sr. Estevão. Fale-me do Abade Fazia.
O homem obeso assentiu gravemente por detrás da sua barba magnífica.
- Ele passou por aqui há uns meses. Vinha acompanhado pelo Sr. Xico dos Cavalos como uma espécie de escudeiro ou assistente. O Abade era um homem de grande intelecto e fortaleza mental e não foi seduzido pelas artimanhas da Nuvem. O pobre Xico dos Cavalos, por sua vez, foi rapidamente absorvido e o Abade perdeu-o. Conseguimos salvar o velhote das mãos dos núveos e pedimos-lhe conselho sobre como adquirir ajuda externa. Ele apenas respondeu que um aventureiro chamado Ventura Lobo viria aqui ter eventualmente.
- Como? Ele disse isso? Como é que ele sabia? Não troco correspondência com ele há anos!
- Ele foi bastante críptico quando lhe perguntámos detalhes. Ele disse algo profético e ominoso como "as mudanças vindouras fá-lo-ão vir naturalmente".
- Hmm... Deveras? Lá ominoso lá isso é, mas que mudanças é que ele se estará a referir? E eu vim aqui parar por acaso, e não naturalmente. Nem sabia que esta cidade existia!
- Não sei, terá de lhe pedir clarificações.
- Para onde é que ele foi?
- Ele foi para Este, à procura de um Livro qualquer.
- O Livro! Eu também o procuro! Porquê Este? O que é que há lá?
- É uma zona costeira onde há alguns povoamentos importantes ao redor do primeiro dos Mares de Re'ai. Não conheço a zona propriamente bem, mas dizem que está repleta de perigos e guerras nos dias de hoje.
- Os Mares de Re'ai? Já ouvi falar neles. A que distância fica essa costa?
- Talvez umas duas semanas de caminho, talvez menos.
- Muito bem, partirei imediatamente, farto desta cidade estou eu. A minha égua Maglu deve estar ainda à minha espera e poderei galopar rapidamente através das estepes. Mirima, foi uma honra lutar ao teu lado, e sou sincero no que digo. Sr. Estevão, a cidade é sua, faça com ela o que quiser, mas se eu alguma vez descobrir que o senhor está a roubar a liberdade das pessoas como o Pilar fez, poderá esperar uma nova visita minha, dessa vez não ao acaso.
- Isso é uma ameaça? - respondeu o gigante, querendo manter uma aparência máscula e tentando não mostrar um ligeiro tremelique nas feições peludas.
- Pode crer que sim. Adeus e obrigado pela informação.

 

Ventura Lobo percorreu a cidade de topo a baixo enquanto se encaminhava para a saída. Viu as pessoas a falar umas com as outras tanto fisicamente como através dos seus móveis. Viu uma mulher a ir de encontro a um homem, chocando violentamente, pois ambos estavam distraídos com o móvel a falar com alguém, e o sistema que impedia as pessoas de chocarem estava desligado. Aperceberam-se, depois de recuperarem do choque, que tinham estado a falar um com o outro aquele tempo todo e estavam-se a ver fisicamente pela primeira vez. Largaram os móveis e prosseguiram juntos sorridentemente.
Os guardas núveos permaneciam completamente desligados, tendo ficado presos na posição em que estavam quando Ventura destruiu o Pilar, sendo agora nada mais do que estátuas decorativas.
- Ventur! Olh l! Ventur Lobo!

 

A voz e maneira de falar inconfundível de Xico dos Cavalos preencheu o ar previamente tão silencioso da Nuvem. Ventura voltou-se e viu o seu conhecido camponês a dirigir-se a ele.
- Amigo Xico, que bom vê-lo mais comunicável que antes, mesmo com uma vogal a menos!
- Pois, qunto isso no sei, ms ind bem que te encontro ntes de te ires embor. Vis procur do bde Fzi?
- Sim, disseram-me que ele se dirigiu a Este. Talvez o senhor me possa dizer mais pormenorizadamente porquê?
- O bde contrtou-me como ssistente pr o judr encontrr o tl Livro...
- Essa agora, - interrompeu Ventura. - porquê a si? Sem ofensa, mas certamente existiriam pessoas mais indicadas para isso?
- O que eu percebi foi que por rzões de orçmento no se podi dicionr mis persongens secundris e portnto proveitou-se o fcto de eu j ter precido um vez pr poupr trblho e tempo.
- Estou arrependido de ter perguntado. Continue, por favor.
- Bom, finlmente conseguimos um pist sobre onde estri o Livro e decidimos avrigur. Supostmente est ns terrs longíqus e gelds de Bocol, num templo esquecido e remoto. Pr l chegr temos de trvessr os Mres de Re'i e quisemos pnhr um brco num ds povoções costeirs. No cminho perdemo-nos nests estepes e encontrmos Nuvem. O resto deves sber tu melhor que eu. Tnto qunto sei, o bde no ficou por c.
- Não, pois não, ele partiu assim que percebeu que o senhor estava sugado pela Nuvem. Diga-me, eu vou neste momento partir em direcção ao Este. Quer juntar-se a mim para completar o seu contrato com o Abade?
- No, sincermente no. Er por isso que eu queri flr contigo. Se encontrres o bde diz-lhe que eu fiquei qui. Prefiro viver num sítio onde minh mneir de flr no sej to ml vist.
- Ah, compreendo. Se eu encontrar o Abade dir-lhe-ei isso. Obrigado amigo Xico, e até uma próxima!
- Bo sorte, Ventur!

 

Quando Ventura entrou na cidade no dia anterior reinava um silêncio sepulcral. Agora, os habitantes iam reaprendendo a falar normalmente e o som de vozes e risos começava a encher lentamente a cidade.
O aventureiro saiu pela porta invisível por onde entrou. Lá fora, Sara, a égua Maglu, interagia com alguns jovens que aproveitavam a presença de um cavalo para tirar uns auto-retratos com os seus móveis, para divertimento do equídeo.
Ventura montou a sua fiel montada, e galopou na direcção contrária do Sol, para Este. Olhou de relance para trás. A Nuvem perdera a luz chamativa e concentrada do Pilar, mas toda ela agora emanava um ligeiro tom de azul claro.

 

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