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O Rapto - Parte I

por Rei Bacalhau, em 08.06.16

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A noite estava animada nas ruas apertadas do Bairro Largo. As pessoas formigavam com maior ou menor equilíbrio, dependendo do seu teor de álcool no sangue, de bar em bar, de conversa em conversa, de evento em evento. As raparigas, algumas demasiado novas para aquele ambiente tóxico de bêbedos e drogas, surgiam adonisadas com o intuito subconsciente de chamarem a atenção e para paradoxal e imediatamente ignorarem quaisquer tentativas frustradas de pretendentes que ousassem aproximar-se. Os rapazes, em considerável número, imberbes, maioritariamente magros, fracos, débeis, inundavam as ruas com as suas adolescências e infantilidades, tais como os concursos incompreensíveis de consumo de cerveja aguada.
As ruas estavam mal iluminadas por alguns parcos candeeiros que se esforçavam por viver até ao limite dos seus filamentos obsoletos. As luzes mais coloridas das lâmpadas dos bares adicionavam uma atmosfera mais festiva. Cheirava a uma mistura fétida de urina, cerveja, vómito e as demais substâncias tipicamente encontradas em tais contextos que não merecem menção. Um transeunte pisava aquele chão, sabendo o que se arriscaria a pisar, mas depois do primeiro passo dado naquele lixo invisível, já não importava.
As pessoas juntavam-se nos seus respectivos grupos. Às vezes era apresentado um desconhecido a um grupo, que era por este sugado se fosse aceite no seu seio. Todos se moviam eventualmente, de forma natural, sem saberem necessariamente porquê, porque X disse para irem ter àquele bar, mas no caminho o Y e os seus amigos ficaram para trás e perderam-se e continuaram a noite independentemente até se juntarem com um grupo de estrangeiras, com nomes começados por Z. Os X's, Y's e Z's e tantas outras letras baralhavam-se numa sopa de letras humana regada a álcool e aquecida pelas hormonas sexuais de atracção e perversão.

Um forasteiro àquela animação toda estava prestes a juntar-se à multidão. Um Homem subia uma das ruas íngremes que dão acesso difícil ao Bairro Largo. Este homem vestia um sobretudo, apesar de as condições atmosféricas não o justificarem. O seu passo era calmo, mas decidido. A sua respiração era constante, mas activa. O seu olhar era penetrante, mas suspeito.
Avançou pelas massas como uma cobra de água, procurando atacar a sua presa inocente. Ele sabia onde ela estava. Bastaria aparecer. Ela não sabia que ele aí vinha.
Percorreu os cruzamentos apertados e claustrofóbicos do bairro. Salpicavam-lhe cerveja em cima derivado dos encontrões que todos davam uns nos outros ao circularem. Começava uma briga, empurrão aqui, palavrão ali, voava um soco. As raparigas guinchavam, excitadas, chocadas, extasiadas. Os rapazes gravavam vídeos com os seus aparelhos, para memória futura. Um raro bom samaritano tentava parar a luta, com razoável sucesso.
O Homem observara a luta e notou que provavelmente havia sido gravado nos vídeos amadores. Sacou o seu próprio telemóvel do bolso interno do sobretudo, e efectuou alguma operação nele. Antes que os aspirantes a cineastas tivessem oportunidade de se afastarem do local, já o seu vídeo ficara destruído.
- Mostra lá como ficou! - dizia um.
- Ya, 'pera... Foda-se, man, qu'é'sta merda? O telemóvel tá todo fodido! O ecrã 'tá marado!
As queixas repetiram-se, em várias pessoas diferentes. Alguma espécie de vírus tinha incapacitado os telemóveis de todas as pessoas circundantes. O Homem tranquilizou-se. Provas da sua presença ali poderiam afectar toda a operação a longo prazo.
Um rapto nunca era uma operação fácil, mesmo para quem está habituado a trabalhar nos bastidores das mais maliciosas conspirações, especialmente em ambientes de tão grande afluência pública. Contudo, não havia mais hipótese. Ou a apanhavam hoje ou arriscar-se-iam a perdê-la de vista.
Estava imposto um silêncio nas transmissões, mas o Homem olhou para trás para confirmar. Três indivíduos caminhavam a alguma distância dele, mas indubitavelmente ao seu passo.
Mais à frente, depois de serpentear por mais uma pequena multidão de jovens inebriados, o Homem abrandou. Olhava para o letreiro de madeira que indicava o nome do bar à sua frente.
"AnetA"
O dito bar era minúsculo, era difícil conceber a ideia de que estava pelo menos uma dúzia de pessoas a dançar num espaço tão apertado, especialmente tendo em conta a dilatação sexual dos corpos derivada do frufru inaudível e quase orgásmico dos seus movimentos roçantes. O Homem entrou, apertando-se o mais que pôde. Sentia-se a afogar no suor dos dançarinos. Sentia-se a sufocar na atmosfera pesadíssima e húmida que se sentia. Morria de calor. Passou pelas primeiras pessoas e esbarrou contra uma mulher gordíssima e enorme, tão alta quanto ele, mas muito mais volumosa. Por comparação, os outros clientes do bar pareciam pequenos planetas e luas a gravitar à volta daquele astro colossal e incontornável. A música, terrível para os ouvidos do Homem, era uma cacofonia de ritmo constante e ensurdecedor, com pequenas melodias electrónicas repetitivas e grunhidos incompreensíveis. Era impossível pedir licença ao astro previamente referido por vias auditivas. O Homem, meio enojado, tocou levemente no braço suado e seboso do bovino para dar a entender que queria passar. Ela pareceu resmungar, mas ele comprimiu-se ainda mais, exalando todo o ar no seu corpo e conseguindo finalmente dirigir-se ao balcão.
O bar não estava com serventia. Ainda bem. O Homem precisava de uns segundos para recuperar o fôlego da espécie de viagem espacial que acabara de percorrer. O balcão e as estantes por trás deste estavam iluminadas por luzes roxas tépidas, tornando difícil a obtenção de pormenores. Notavam-se os vultos duplicados no espelho de parede das várias garrafas e garrafinhas de álcool de maior e menor grau. Sem qualquer aparente sentido de ordem, a desorganização das garrafas era total, o que levava a questionar se seriam realmente usadas para consumo, ou se seriam meramente decorativas. O balcão estava pegajoso e sujo, como se dezenas de copos de dezenas de bêbados tivessem sido ali derramados, transformando para sempre a composição daquela superfície de madeira previamente lisa. Todo o bar parecia cansado da sua existência, completamente levado ao limite da sua sanidade estrutural. Manchas enormes de humidade roíam a tinta turva das paredes fendidas e fragilizadas. As parcas decorações não tinham cor, sumindo-se naquele horrível e constante roxo dilacerante. Os soalhos estavam torturados e desesperados pelos milhares de impactos colossais e desajeitados que sofriam. Até os espelhos pareciam reflectir menos que um espelho saudável, reflectindo apenas figuras tortas e embaciadas.
O Homem estava em pé, encostado ao balcão, temendo pelo bem-estar do seu sobretudo, que se arriscava a tocar na superfície imunda.
Uma pequena porta indicava o caminho para outra divisão do edifício. Estava aberta. Lá dentro via-se um aglomerado de coisas, obviamente desarrumadas, das quais apenas se podiam dificilmente distinguir alguns objectos gerais, tais como caixas abertas e canos e vassouras e esfregonas e baldes. Subitamente, uma baforada de fumo é ligeiramente visível esvoaçando lá dentro. O cheiro a tabaco torna-se imediatamente detectável.
Uma mulher trespassa a porta, vinda do que se pode assumir que seria o armazém. Um cabelo louro feio e fraco, com raízes escuras demasiadamente óbvias, caía-lhe frouxamente pela cara abaixo, escondendo parcialmente os olhos esbugalhados e ligeiramente estrábicos. O resto das feições, particularmente a boca e o nariz, davam-lhe um aspecto de rato. O facto de ter uma postura semelhante à de um corcunda bulímico não ajudava muito a sua caracterização já bastante negativa. Ela reparou no homem ao balcão, que também a havia visto, e berrou algo. Deu a entender que estava a perguntar ao homem o que é que ele desejava.
O Homem apontou silenciosamente para o bico de cerveja. Ela acenou afirmativamente, habituada a tal linguagem. Serviu a cerveja num copo alto. O Homem despejou um bom gole para se refrescar. Após este consolo, bebericou casualmente e longamente a sua bebida. Olhou para a rua, para a qual tinha alguma visão, ainda que limitada pela gigante previamente descrita, que agora rodopiava loucamente. Conseguiu estabelecer contacto visual com um dos três homens que o seguiam lá fora. Acenou negativamente a este.
O alvo ainda não tinha aparecido. Mais alguma paciência.
A música já mudara algumas vezes, mas o Homem não dera por isso, pois não conseguia detectar as diferenças admissivelmente subtis entre as faixas consecutivas. Para ele, parecia tudo igual. Estava prestes a acabar a sua cerveja quando detecta uma última baforada do mesmo sítio de há pouco. A sua atenção redobra-se na direcção da porta. Olha de relance para o homem lá fora e acena-lhe afirmativamente e este desaparece. Os seus olhos voltam-se imediatamente de novo para a portinhola.
Outra mulher surge a ajeitar o cabelo escuro e encaracolado. Quando afasta os cabelos da sua face, revela a sua cara redonda que, se não a mais atraente, tinha carácter. Os olhos pequenos e vivos, mas não nervosos. As sobrancelhas num permanente arquear zangado, moldando uma ruga leve na glabela. Os lábios longos cerrados numa expressão séria e impassível. A mulher era nova de idade. Mas o que já experienciara tornava-a mais velha que alguns dos soldados mais veteranos.
O Homem sabia-o. Compreendia-a. Quase sentia remorsos.
Ela, reparando nele, estranhou inicialmente, como se pressentisse algo de errado. A Guerra fizera-a paranóica, justificavelmente. Não obstante, notando que o seu copo estava vazio, perguntou com gestos se queria outra, pois a colega que o atendera originalmente estava ocupada a limpar uma garrafa partida no chão.
O Homem sorriu-lhe, inesperadamente. Ele acenou que não, apontando para o copo vazio. Levantou um dedo energicamente, como se quisesse mostrar algo. Mergulhou a mão no sobretudo, tirou um papel de um bolso interior e estendeu-o à jovem, que o pegou como por instinto, tremendo ligeiramente, não sabendo o que esperar. O papel era muito simples, era uma folha pequena. Continha apenas uma palavra. A jovem leu-a.
Nem mil bombas, nem mil trovões, nem mil cataclismos a teriam fulminado de maneira tão marcante como aquela palavra única, devastadora e tenebrosa.

 

Mariana.

 

O seu nome. O seu nome verdadeiro e esquecido. O seu nome de um tempo do qual ela tentou escapar. Nem teve a coragem de olhar novamente para o misterioso Homem à sua frente, que esperava sorridentemente uma reacção. Ela fora descoberta. Depois de tantos anos pensava que estaria segura do passado. Agora não sabia o que lhe aconteceria. As memórias dos horrores da Guerra voltaram-lhe momentaneamente à mente.
Não.
Não se deixaria apanhar.
Fugiu. Esgueirou-se pela portinhola, correndo pelo pequeno armazém e derrubando um barril de cerveja, na esperança de atrasar o seu presumível perseguidor. Neste ponto enganara-se, pois o Homem mantivera-se no mesmo sítio. O armazém tinha uma porta para um beco traseiro do edifício, não muito frequentado, mas seria a melhor hipótese para ela escapar. Ou assim presumia. Deveras, mais uma vez enganou-se. Ao abrir a porta, a rua estava deserta, mas assim que colocou um passo nas velhas pedras paralelas foi agarrada por dois homens, e um terceiro tratou de lhe cobrir a boca. Mariana sentiu logo de seguida uma pequena picadela no braço, proveniente de trás. Sentiu-se quase imediatamente a perder forças, mas não o suficiente para desmaiar. Conseguia manter-se em pé, mas em pouco tempo a vontade de lutar foi morrendo, sem dúvida por consequência da picadela. Não conseguia falar, ou pelo menos não de maneira perceptível. Sentiu colocarem-lhe um casaco em cima. A noite estava fresca. Reconheceu o casaco. Era o sobretudo do homem misterioso. Ouviu pedaços da conversa:
- Boa rapazes, correu melhor do que estávamos à espera..... sabem se..... claro...... Júlio, apoia-a bem.... tenta manter-lhe a cabeça...... Leonardo, vai lá à frente e vê se....... Artur, ela deixou cair aquilo, apanha lá se......
Apesar do aparato que tal situação poderia causar, Mariana fora injectada com uma substância que lhe dava a aparência de uma bêbada submissa. Os homens, jovens, passavam perfeitamente como amigos dela que estavam a tentar levá-la para casa, como era tão frequente naquele contexto. Um observador externo faria apenas um comentário como "vê-me só a bezana daquela tipa" e esquecer-se-ia imediatamente da visão. Um excelente álibi para um rapto feito à vista de todos.
Obviamente, Mariana não compreendia isto. Conseguiu apenas murmurar a seguinte pergunta.
- Quem... quem são vocês?
O Homem, que seguia ligeiramente atrás, ouviu a pergunta expectável. Aproximou-se dela, pousou delicadamente a mão no seu ombro e disse-lhe:
- Não te aflijas Mariana. Sou apenas um Cidadão preocupado.
Virou-se depois para os homens.
- Separamo-nos aqui. O Adrien e o Adérito estão no fundo desta rua. Eles escoltar-vos-ão até ao apartamento. Vou lá ter depois. De resto, eles já têm as ordens necessárias até eu lá chegar. Tenham cuidado.

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