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O Rapto - Parte II

por Rei Bacalhau, em 15.06.16

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Mariana acorda num quarto desconhecido. Lembrava-se apenas vagamente de alguns momentos do seu percurso. Não estava ferida. Sentia apenas um inchaço no seu braço, no local onde lhe haviam administrado a espécie de droga a que fora submetida. Surpreendeu-se ao descobrir que estava confortavelmente deitada numa cama. O quarto estava iluminado por brechas de luz que trespassavam os estores velhos e tortos e interceptavam as partículas de pó que esvoaçavam livremente como que à deriva. O quarto tinha um aspecto velho. As mobílias estavam gastas e danificadas, apesar de aparentarem estar funcionais. Um ligeiro cheiro a mofo era agradavelmente contrastado com o aroma airoso dos lençóis em que Mariana estava envolvida. Estavam lavados de fresco.
Na mesa de cabeceira repousava um velho relógio digital. Eram dez da manhã. Mariana empurrou os lençóis para longe. Notou, com alívio, que ainda estava vestida com a sua roupa. Apenas os seus sapatos haviam sido tirados. Estavam cuidadosamente à sua espera no chão ao fundo da cama. Mariana calçou-se e aproximou-se delicadamente das janelas, tentando olhar pelas brechas dos estores para identificar onde se encontrava. Observou longamente uma rua que não conhecia, e não localizou nenhum ponto de referência familiar no horizonte. Deslocou-se nervosamente em direcção à única porta do quarto. Tentou o mais silenciosamente possível avaliar o que a esperava do outro lado. Espreitou pelo buraco da fechadura, algo que nunca fizera, pois nunca havia visto uma porta com uma fechadura semelhante, ou pelo menos nunca teve necessidade de a usar para esse fim.
Nada viu. Apenas percebeu que havia muito mais luz do outro lado.
Baixou-se, encostando a cara ao chão de madeira. Distinguiu claramente duas sombras separadas mesmo em frente à porta. Pela distância entre as sombras inferiu que seriam pés.
Um guarda.
Começou a pensar no que fazer, mas foi interrompida pelo barulho crescente de passos.
Vinha aí alguém.
Descalçou-se à pressa, saltou para a cama e tapou-se. Fingiu dormir.
A porta abriu-se silenciosamente, mas Mariana sentiu uma mudança inerente no ar.
Alguém entrara.

Ouviu passos macios a deslizarem pelo tapete no meio do quarto. Os passos continuaram na direcção da janela. Ouviam-se uns tinires peculiares, semelhantes a loiça a bater em talheres. Alguma coisa foi pousada, provavelmente na mesa encostada à janela. Subitamente, um barulho horripilante e alto encheu o quarto, ao mesmo tempo que luz começou a invadir a divisão.
Alguém abrira os estores.
Mariana deixou-se estar, quieta como uma rocha sepultada numa montanha de lençóis e cobertores.
Os passos leves e relativamente lentos foram-se embora. Enquanto a porta era fechada, Mariana teve a impressão de ouvir um ligeiro suspiro feminino.
Maior surpresa teve quando lhe começou a cheirar a torradas. Intrigada, Mariana finalmente teve a coragem de levantar ligeiramente o olho para determinar subrepticiamente se efectivamente estava sozinha. Não viu ninguém. Aliviada, ergueu-se e observou o quarto de novo, desta vez com uma melhor iluminação. A única diferença que lhe chamou a atenção foi obviamente um tabuleiro com um pequeno-almoço humilde, mas de aparência apetitosa. Um copo de leite fumegante, um açucareiro pequeno de plástico enfeitado com florzinhas coloridas, duas fatias de pão torradas, com uma ligeira cor alaranjada nas bordas, um pequeno pacote de manteiga e um frasquinho de alguma espécie de doce.
Mariana estava confusa. Não compreendia o que se passava. Em primeiro raptavam-na bruscamente e depois apaparicavam-na com uma cama confortável e um pequeno-almoço estranhamente aconchegador? Duvidou, hesitou, mas acabou por raciocinar que se lhe quisessem fazer mal, não seria agora com o pequeno-almoço que o fariam. Aproximou-se relutantemente da mesa onde estava o tabuleiro. Era impressionante que estivesse o seu pequeno-almoço favorito à sua frente. Seria coincidência? Por um momento conjecturou que poderia não ser. Arrepiou-se. Não interessava. Sentou-se numa cadeirinha velha. Enquanto vigiava a porta pelo canto do olho, colocou duas colheres de açúcar no leite ainda quente. Barrou manteiga numa torrada e espalhou doce na outra. O doce era de pêssego. O seu favorito. Todos os cuidados que tinha tido foram em vão quando deu a primeira dentada na torrada.
Era um sinal suficientemente audível para indicar a quem estivesse atento que a refeição tinha começado.
Com efeito, a porta abriu-se imediatamente. Um surto de adrenalina despoletou-se em Mariana. Os seus olhos nervosos interceptaram uns olhos sorridentes e calmos. Era o Homem que lhe entregara o papel a noite passada. Ele entrou cautelosamente, indicando a Mariana com um gesto que continuasse a comer. Parou em frente da janela completamente aberta agora. O Sol iluminava-lhe claramente a cara ainda algo infantil, apesar de o Homem aparentar ir a caminho dos quarenta anos. A barba estava aparada, e Mariana notou que o estranho sorria ligeiramente ao observar a rua pouco movimentada à frente do edifício. Subitamente, começou a falar.
- Estás à vontade para comer, Mariana. Podes pensar que não, mas estás completamente livre de perigo. Posso assumir com confiança que o pequeno-almoço é do teu agrado?
Mariana olhou-o. Ela sabia que em tais situações o melhor era dizer absolutamente nada, independentemente das perguntas que tinha que lhe assolassem a mente. Mariana decidiu confrontá-lo. Como já reflectira anteriormente, se lhe quisessem mal a situação não seria certamente aquela em que estava. Pegou na torrada e deu mais uma dentada. Nada disse.
O homem riu-se levemente, e voltou a cabeça para ela.
- Óptimo, estás bem ensinada. Suponho que mereces uma explicação. Posso-me sentar?
Puxou uma cadeira frágil e sentou-se à frente dela, já que ela não respondeu.
- Quem cala consente, sempre ouvi dizer. Nem sei bem por onde começar. Bem vistas as coisas, suponho que nem sabes quem eu sou. A última vez que me viste deve ter sido há uns 6 anos, e na altura o meu aspecto era significativamente mais... - hesitou uns instantes. - ... rude... Não me admiro que não me reconheças. Aliás, até o esperava. Devo-te informar que servi com o teu pai nas milícias, e tu viste-nos todos quando fomos um dia à vossa terra passar uma noite.
Mariana empalideceu ao ouvir a menção do pai dela. Outrossim, lembrava-se de facto do dia descrito pelo homem, apesar da cara deste não lhe parecer subitamente mais familiar que outrora.
- Estávamos sob o comando do famoso Sargento Oliveira, que também conheceste. Quando ele morreu, não muito tempo depois, acabei por assumir o comando da milícia, que viria a ser conhecida como Milícia dos Oito. O teu pai era um deles, como bem sabes.
Mariana cessara de comer. O doce de pêssego escorria da torrada para o pires, abandonado.
- Talvez saibas o meu nome verdadeiro, mas no geral o pessoal costuma chamar-me de Chefe. É um hábito antigo, enfim.
Fez uma ligeira pausa, olhando para o céu limpo no exterior, reflectindo no que iria dizer a seguir.
- Já me apresentei. Passemos a ti e o porquê de estares aqui comigo agora. Quando a milícia foi derrotada, - começou a explicar sem pausas, como se fosse um discurso previamente ensaiado - os sobreviventes fugiram e esconderam-se o melhor que podiam. O teu pai, felizmente, conseguiu esconder-se. E bem. Nem eu sei onde é que num raio é que ele anda. Não consigo comunicar com ele através dos nossos canais convencionais e por isso restavam-me poucas alternativas. Aliás, corrijo: não me restava alternativa alguma. Eu preciso de falar com cada um dos Oito, mas apenas sei onde alguns estão. Então não é que há pouco tempo atrás recebi uma informação anónima de que eu não era o único à procura dos Oito? Normalmente suspeitaria de tais informações (e ainda mais o modo com as recebi, mas isso é outra história), mas uma das frases afirmava o seguinte: "O Velho tem sangue na Aneta".
Mariana engoliu em seco.
- Demorei imenso tempo a perceber que "Aneta" era o nome de um bar, apesar de "sangue" referir-se certamente à filha dele. Infelizmente, existem muitos bares com esse nome, mas finalmente localizámos-te depois de os percorrermos um a um. Se calhar não te lembras de ter servido um gajo muito alto com barba espessa. Foi ele, um dos meus colaboradores, que te localizou. Nunca pensámos que fugisses para a capital, de todos os sítios, mesmo na toca do lobo. Não sei porque é que não estás com o teu pai, mas também não interessa muito agora. Lá terás as tuas razões. Seja como for, continuando, antes de ontem recebi uma nova dica anónima, presumivelmente da mesma fonte. Aparentemente o Inimigo também soube da mesma informação que nós e estaria a fazer o mesmo processo de eliminação de hipóteses como nós. Decidimos que a única maneira segura de garantir a tua segurança seria o teu desaparecimento súbito. E então raptámos-te. Desde já peço desculpa pelo inconveniente, mas deves compreender que foi para a tua segurança que precisámos de tal extremismo. Não me parece que se eu tivesse simplesmente falado contigo no bar tu tivesses querido vir connosco sem mais nem menos. Pode ser difícil de acreditar, mas fui informado por um dos meus homens que inspectores da polícia secreta fizeram uma rusga ao bar duas horas depois de desapareceres. Como vês, não poderíamos ter aparecido em melhor altura. Receio ter que te dizer que a tua colega de trabalho, a Guida, se bem percebi, deve estar neste momento a ser minuciosamente interrogada. Não te preocupes, ela há-de ser libertada.
Mariana não pareceu tranquilizada.
- Uma das imensas perguntas que te deves estar a fazer é porque é que tu és relevante tanto para mim como para o Inimigo. Essa é uma pergunta retórica, pois tu sabes a resposta. Não penses que podes desmentir, pois eu sei que o teu pai apenas manteve comunicação com uma pessoa.
Mariana assumiu uma linguagem corporal defensiva. Tinha conseguido manter as feições neutras, mas esse muro que tinha levantado começava a tremer. O Chefe atacava no ponto fraco dela.
- Sabemos que ele comunicou contigo. É mais do que lógico que deves saber onde o teu pai está. Por isso é que és tao importante. É por isso que preciso de ti. Se não fosse por isso ter-te-ia deixado em paz, pois sei que a Guerra foi particularmente dura para a tua família. - fez uma ligeira pausa hesitante. - Podes crer que sei.
Os olhos de Mariana humedeceram-se. O lábio inferior tremia ligeiramente.
- Tenho sido honesto contigo. Se calhar demasiadamente. Eu não gosto nada de ter que te envolver nestes assuntos, mas como te disse, não tinha alternativa. - olhou para ela durante breves momentos e de seguida levantou-se. - Imagino que não queiras falar. Eu compreendo. Não te consideres presa. Podes sair se quiseres, mas ficas a saber que terás sempre um miliciano por perto. Se quiseres ficar aí e pensar um bocado, estás à vontade. Se quiseres comer alguma coisa pede à Dona Dina. Senão ela virá cá trazer-te o almoço por volta da uma da tarde, ou podes mesmo comer connosco, como preferires. Abençoada senhora, tem cá um jeito para cozinhar.
Sem mais nada dizer, dirigiu-se à porta. Quando estava prestes a sair, Mariana disse-lhe baixinho:
- Seu monstro...
O Chefe virou-se. Olhou-a. Ela voltou-se para a janela, ignorando-o. Ele saiu.

- Adrien, não a deixes sair. Ela é mais destemida do que supus. Quem é que está lá em baixo?
- Os irmãos.
- Ok, eu vou lá, obrigado.
Desceu as escadas e saltou para a rua inundada de sol. De facto, do outro lado da rua estavam os três irmãos a conversar, dois deles sentados num banco. O Chefe dirigiu-se a eles.
- Júlio, estejam atentos, não quero que a Mariana escape pela janela. Cuidado com as vossas palhaçadas.
O Chefe olhou para a janela. Mariana observava-o. Ela imediatamente compreendeu que não poderia escapar por ali. Pelo menos não de dia.

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