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O Rapto - Parte IV

por Rei Bacalhau, em 29.06.16

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Mariana rodou o manípulo e saiu. O ar que respirava era fresco, muito mais fresco do que estava habituada. Apesar disto, apetecia-lhe um cigarro, se tivesse um, o que lhe daria justificação suficiente para estar parada numa varanda e avaliar o ambiente à volta. 

A primeira coisa que notou foi um conjunto de escadas em degrau que dava acesso ao quintal. Não se aproximou imediatamente para não dar nas vistas a potenciais observadores. Debruçou-se no parapeito da varanda e apreciou as pequenas hortas com que os habitantes locais se entretinham, construídas com os materiais inconsistentes que estavam disponíveis. O quintal era comunitário e portanto servia os vários edifícios que o rodeavam. À primeira vista, Mariana não notou em qualquer outro meio de acesso para o exterior, a não ser através dos próprios edifícios mencionados, o que não era ainda totalmente implausível. Do outro lado do quintal, Mariana reparou numa varanda análoga àquela onde estava agora, com a particularidade de ter uma porta completamente desfeita. De facto, todo o prédio ao qual essa varanda pertencia aparentava estar abandonado e ainda parcialmente cicatrizado pela Guerra. Para a esquerda estava um muro de tijolo a separar outros dois prédios, e poderia potencialmente esconder um beco para a rua. Uma laranjeira estava suficientemente próxima para ser admissível que pudesse ser usada para galgar o muro. À direita Mariana não identificou nenhuma oportunidade. Em caso de desespero poderia sempre tentar forçar a entrada para dentro de um dos edifícios habitados, sem saber exactamente o que poderia esperar.
A horta estava praticamente deserta. Um homem de meia idade atacava a terra com uma enxada quase rachada em duas. Uma nova procura revelou a presença de um homem sentado num banco debaixo de sombra. A figura escura era irreconhecível, mas tendo em conta o campo de visão que aquele lugar tinha sobre o prédio onde Mariana estava, era provável que fosse um guarda dos captores de Mariana. Para se certificar, Mariana arriscou descer as escadas, mas estacou em sobressalto ao reparar que um outro homem estava descontraidamente sentado nos degraus mais baixos do primeiro lance, de costas para ela. Brincava com um gatinho cinzento de olhos amarelos, que se afeiçoara aos atacadores das botas do homem. O homem fez os atacadores girar à volta do gato, que se esforçava energicamente para desfazer o perigoso inimigo, dando piruetas ágeis no ar, para imensa satisfação dos dois.
O telemóvel do homem toca. Ele levanta-se, atende e Mariana não percebe que língua é que ele está a falar. Ele coloca-se de perfil, aparentemente alheio à presença de uma ouvinte.
Mariana dá um passo instintivo para trás quando reconhece o Chefe, esperando não ser vista. Olhou para o lado, e notou em dois olhos que a observavam atentamente. Era o homem no banco no piso térreo. Deste novo ângulo Mariana já distinguia perfeitamente a tez pálida e o cabelo negro deste guarda. Um calafrio percorreu-lhe as costas. Um calafrio não totalmente desconhecido.
- Olá Mariana. - disse uma voz conhecida atrás dela, assustando-a. - Ah, desculpa, não queria assustar-te. - Era o Chefe, que se havia subrepticiamente aproximado. - Vejo que estás a apreciar um bocado de ar fresco. Acho que fazes bem, mas acho que não deverias estar aqui demasiado tempo. Não quero arriscar que olhos menos patriotas te vejam. Onde é que está o Adrien? Ele deveria estar a...
- Estou aqui, Chefe, não se preocupe.
De facto, Adrien estivera ali aquele tempo todo, não deixando de controlar os movimentos de Mariana. Mariana voltou-se, horrorizada, ainda não habituada à sua nova sombra.
- Ah, bom, bem sei que posso confiar em ti. Seja como for, estava ali o Lucas de vigia, não fosse a menina Mariana tentar algo de pouco razoável. Devo avisar que na capital está tudo maluco à tua procura, mas por agora estamos seguros.
- Não estamos na capital? Mas então onde estamos?
- Estamos na vila de Macelada, a duzentos quilómetros da capital. Ah, mas já deves ter ouvido falar desta terra, certamente?
Mariana não respondeu.
- Bom, nós temos ainda alguns velhos amigos por aqui, o que nos permite alguns momentos de conforto, bastante contrastantes com os vindouros, calculo eu. Bom, voltemos para dentro, quero ver se acabo de ler um livro que a Dona Dina tem ali. Recomendo que leias algo também, Mariana, pois vamos estar aqui pelo menos mais uns poucos dias, mesmo que resolvas dar-nos a localização do teu pai mais cedo.
O Chefe voltara ao assunto principal de forma banal, mas Mariana manteve-se calada.
Estranhamente sorridente, o Chefe indicou com a mão a porta da cozinha, convidando Mariana a voltar a entrar.
Ela olhou para trás. Lucas observava-a ainda. Foi com um peculiar alívio que Mariana aquiesceu ao convite. Adrien seguiu-a. O Chefe não entrou. Notou a reacção de Mariana e, também olhando para trás, apanhou Lucas em contemplação. Desceu as escadas e sentou-se ao lado de Lucas.
- Passa-se alguma coisa, Lucas?
- Não.
- É por alguma razão que estavas a observar a Mariana com tanta atenção?
- Sim.
Um curto silêncio instalou-se, aos quais o Chefe estava habituado por serem típicos de Lucas.
- Podes dizer-me qual a razão?
- Ela estava a investigar o pátio por possibilidades de fuga. Eu quis ter a certeza que ela soubesse que isso não me passou despercebido. - respondeu secamente.
- Hmm, está bem. Percebeste se ela chegou a alguma conclusão?
- Não.
- Queres ser rendido? Já estás aqui há algum tempo.
- Não.
- Ok, até já. Depois já te chamo para almoço.

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