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O Rapto - Parte VI

por Rei Bacalhau, em 13.07.16

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No início da noite, Mariana estava no seu quarto a reflectir na sua situação quando foi informada de que não teria companhia para o jantar, pelo que a D.Dina trouxe o jantar numa bandeja estranhamente silenciosamente.
Durante a tarde, Mariana fingira ler um livro para não dar a entender que a sua mente estava exclusivamente concentrada na sua potencial fuga. Adrien entrava periodicamente no quarto, mas encontrava-a sempre no mesmo cadeirão, aparentemente a ler.
Mesmo agora a jantar, sozinha, não podia deixar de assimilar tudo o que aprendera sobre a estranha organização que a raptara.
Parte dela estava disposta a acreditar neles. A maior parte do que lhe haviam dito fazia sentido segundo o que já sabia dos tempos de Milícia do pai dela. A cara simpática de Adérito pareceu-lhe cada vez mais familiar, o que corroboraria que ela já conhecera alguns destes milicianos no tal dia em que a Milícia dos Oito passou pela casa dela, como o Chefe referira no princípio do dia. No entanto, Adérito não era o único que reconhecera. Os olhos frios e arrepiantes de Lucas também lhe causaram uma sensação desagradável que já sentira antes. Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.
Outrossim, todo o discurso sobre a preservação cultural parece demasiadamente absurdo para ser preocupação de uma milícia, o que paradoxalmente é um argumento a favor da veracidade da sua causa, porque ninguém que queira enganar outrem inventa uma história tão disparatada.
Contudo, nada assegurava a Mariana a sua segurança no meio daquele manicómio. A única pessoa que a poderia ajudar era exactamente a pessoa cuja localização não poderia revelar: o seu pai. Só escapando e comunicando com ele é poderia estar verdadeiramente segura. Explicar isto aos milicianos não seria inteligente, pois seria a prova que eles precisariam para afirmar que de facto Mariana sabia como contactar o pai, algo que até agora ela ainda não admitira. Se o fizesse, nunca se livraria do seu estado de sequestrada.
Mas como fugir? O pátio com as hortas estava claramente constantemente sob vigia. As duas possibilidades de fuga que tinha por lá seriam impossíveis, mesmo que conseguisse chegar à cozinha para aceder ao pátio indetectada. Era possível usar as janelas do seu quarto para chegar a um estreitíssimo parapeito a partir do qual talvez conseguisse atingir o prédio vizinho. Infelizmente, a quantidade de riscos era demasiado grande para sequer se considerar essa ideia: em primeiro, Mariana poderia simplesmente escorregar do parapeito; em segundo, um dos sentinelas exteriores poderia muito provavelmente vê-la a sair da janela e a efectuar a sua translação; por último, nada lhe garantia que o edifício vizinho não estaria ocupado também, tendo em conta que as milícias tinham estes edifícios à disposição delas. Pensou, em desespero, de alguma forma adquirir uma arma de um dos milicianos e ser mais agressiva na sua fuga. Apesar de saber usar uma boa quantidade de armas, nunca tinha efectivamente usado uma numa situação bélica ou semelhante. Estaria em desvantagem numérica contra milicianos experientes, mesmo que em princípio eles não lhe pudessem fazer mal.
Decidiu que poderia tentar uma combinação de várias opções. Ela notara que os milicianos deixaram as suas carabinas no escritório, encostadas a um pequeno sofá. O escritório tinha uma pequena janela para a varanda que ela poderia trepar para escapar, em vez de percorrer a casa inteira em direcção à cozinha. Se conseguisse pegar numa arma e escapulir-se pela janela, teria de atravessar o pátio em direcção ao edifício abandonado do outro lado. A partir daí tentaria chegar à rua, onde poderia mais facilmente desaparecer, numa perspectiva optimista. Se os milicianos se aproximassem muito, dispararia uns tiros de aviso para os obrigar a esconder-se.
Curiosamente, todo este pensamento foi em vão. Mariana, ao acabar de jantar, notou uma folha de papel debaixo do pires da fruta. Estranhou, mas não hesitou em abrir a folha, esquecendo-se até de verificar se alguém a observava.
Algumas frases, escritas sem habilidade caligráfica, diziam:

 


Há meia noite as luzes desligão se. Saia pela janela para a esquerda. A primeira janela esta aberta. Ajuda vem a caminho.

 

Mariana escondeu imediatamente a folha. Apesar dos erros deploráveis de ortografia, a mensagem era clara. Alguém aparentava querer ajudar Mariana.
Quem? Porquê? Que ajuda vinha a caminho? Como teriam conseguido fazer a folha passar na bandeja? Os milicianos teriam um traidor? Que luzes se desligariam à meia noite?
Reflectiu longamente na proposta inesperada e misteriosa. Percebeu que, como a sua própria ideia anterior, nada tinha a perder. Decidiu que se à hora marcada as luzes efectivamente se desligassem, ela arriscar-se-ia no parapeito.
Mas e se a janela fizesse barulho ao abrir?
Mariana levantou-se, aproximou-se da janela e abriu-a o mais cuidadosamente possível. O mecanismo rangeu mas a janela em si rodou suavemente para dentro. Fingiu estar a apanhar ar descontraidamente quando Adrien entrou, alertado pelo ruído.
- Não tens um cigarro, só por acaso? - troçou Mariana.
Adrien resmungou alguma coisa e saiu, deixando a porta aberta. Voltou depois de poucos instantes e para surpresa de Mariana, ele trazia a mala dela, que pensava estar esquecida ainda no bar. Atirou-a de qualquer maneira para cima da cadeira ao pé de Mariana. Ela agradeceu, quase envergonhada.
Tirou um cigarro, acendeu-o e fumou-o com prazer, relaxando por um momento num dia que ainda estava longe de terminar. Adrien estava encostado à soleira da porta, vigiando.
- Desculpe, Adrien, só lhe tenho dado maçadas. Não precisa de ficar aí a ver-me, eu vou só acabar e fecho já a janela.
- Deixa-te de merdas e acaba lá isso. - rosnou Adrien.
Uma voz abafada e desaprovadora ouviu-se da sala.
- Adrien! Então? Respeitinho, vá.
- P'ó caralho para isso. - murmurou.
Mariana estava prestes a acabar o cigarro e precisaria de fechar a janela sem a trancar sem que Adrien se apercebesse.
- ADRIEN, és tu a jogar! - berrou alguém da sala.
Adrien virou-se momentaneamente para praguejar na direcção do grito. Foi a oportunidade que Mariana precisava. Fechou a janela e tossiu enquanto fingia que a trancava e afastou-se imediatamente em direcção à porta. Mariana pensava que já tinha visto de tudo, mas agora era o cúmulo.
Um grupo de milicianos, incluindo o Chefe, estava entretido com um jogo de tabuleiro na sala. Parecia ser o Monopólio. Mariana levou as mãos à cara, aterrada.
- Vocês são mesmo doidos...
Adrien correu para a sala.
- FODA-SE! Passaste pelas minhas casas! Toca a pagar!
- Não 'tavas cá, não tenho culpa. Ardeu, béu béu!
- Vai p'ó caralho, Júlio, foda-se, sempre os mesmos filhos da puta vocês! Dêem-me a merda dos dados, puta que pariu.
Risada geral. Até Mariana esboçou um sorriso. Adérito notou que tinham uma observadora.
- Então Mariana? Queres jogar? Podes jogar pelo Adrien que ele já está prestes a desistir, como de costume.
Mariana sorriu e recusou a oferta, abanando o dedo energicamente.
- Vá lá, que ele ainda por cima é a bota de mulher.
- Preto de merda!, mil caralhos ta fodam! - vociferou Adrien.
Mariana recusou de novo e voltou para trás, fechando a porta, duvidando ou a sanidade deles ou a sua própria.
Ou ambas.

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