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Ontem

por Rei Bacalhau, em 18.01.15

Devo admitir que os últimos dois anos foram dos mais cheios da minha vida, e daqueles em que aprendi mais, em particular o último.

Vou acabar a minha vida académica, comecei a minha vida profissional, comecei a tentar meter-me em mais actividades do que só jogar computador (coisa que aliás começa a ser cada vez mais rara fazer). Encontrei uma nova forma de viver na arte, de certa forma, pois tento dar uns toques na guitarra, tento fazer uns rascunhos com a escrita, tento procurar melhorar o meu português com a leitura... até já fiz algum trabalho em 3D! (aliás, eu trabalho numa empresa de arte, para quem, como eu, considerar os videojogos como a 10ª arte)

E no entanto não era suficiente. Faltava alguma coisa.

Então, há coisa de um ano, levei uma bofetada sentimental, e apaixonei-me por uma miúda. Em termos amorosos, eu era apenas uma criança, nunca tendo tido esse tipo de sentimentos. Era óbvio que não poderia dar certo, mas como primeira aproximação, ganhei uma boa quantidade de experiência. Não quer isto dizer que levei a derrota levianamente. Um leitor atento deste blog poderá ter reparado que deixei de escrever durante um tempo. Aprendi que estes assuntos conseguem realmente devastar uma mente mais fraca, não sei se por razões de personalidade ou simplesmente por causa de hormonas e outras reacções químicas inexplicáveis do nosso corpo. 

Como disse, em Setembro deixei de escrever aqui. Foi no dia dos meus anos que andei tão melancólico por causa do nada que eu era e do nada que tinha realizado na minha vida, com justiça ou não. Aceitei a minha derrota finalmente e decidi proteger-me atrás do meu lado Mau, suprimindo todo o sentimento e concentrando-me apenas no que é lógico, explicável, qualificável, etc. etc..

Mal sabia eu o que me iria acontecer.

Nesse mesmíssimo dia, coincidentalmente ou não, fui ver uma apresentação de projecto final de curso de uns amigos meus, um rapaz e uma rapariga. Resumindo, quando acabou a apresentação vi na rapariga algo que nunca lhe tinha notado, uma beleza e ternura interior que ultrapassava a exterior (e isto é dizer muito), pela alegria profunda que demonstrou por ter acabado o curso. Na altura não liguei, mas dei por mim a pensar nessa situação algumas vezes ao longo dos dias seguintes.

Mal sabia eu o que me iria acontecer.

Inevitavelmente apaixonei-me outra vez, apesar de ainda não ter a certeza se tal aconteceu por ainda estar fragilizado mentalmente pela primeira miúda. Pode perfeitamente ter sido o caso de eu ter querido encher o vazio que me ficou na mente com outra candidata. Também pode ser que seria atingido à mesma por aquele sentimento noutra situação mental mais estável. Não o sei. Não me interessa.

Sei que desta vez tinha muito mais confiança em mim mesmo. A Primeira foi um excelente teste e já evitei certos erros com o que aprendi. Cerca de um mês depois de ter sido atingido pela segunda vez, comecei o meu ataque, lentamente ao início, para testar as defesas. Surpreendentemente, Ela, a Segunda, não ofereceu muita resistência e avancei com uma velocidade incrível para o coração dela, lembrando os grandes conquistadores a marchar por uma nação, aniquilando tudo no seu caminho.

Pela primeira vez na vida, beijei uma mulher.

Nesse dia fatídico, os meus generais cá dentro discutiam a estratégia a realizar, mas um deles ganhou força sobre os outros. O Feio, aquele bicho horrível que se arrastou das profundezas do meu ser para dizer uma coisa nefasta. Uma única coisa. Uma frase simples. Quando foi dita, tudo mudou. O mundo desabou para mim e para Ela, como se eu tivesse acabado de esmagar todas as possibilidades de a ter como namorada, oficialmente. Amaldiçoei o meu lado Feio por ter demonstrado o que era verdade, inevitavelmente, mas uma verdade cruel e terrível que não podia ter sido dita. Não por mim. Não tão cedo.

Pela primeira vez na vida, disse a uma mulher que a amava. Olhos nos olhos, lábios nos lábios.

Tínhamos começado a sair há duas semanas, como é que é possível que isso pudesse ser verdade. Era demasiado cedo para se dizer isso. Sim, eu sei isso tudo, mas não me consegui controlar. A minha relação com Ela desceu a pique a partir daí. Dois dias depois Ela disse-me honestamente, que não queria o que eu quero, que não mo podia dar. Não consegui argumentar, fiquei em choque. Aceitei, ainda pensei que fosse uma fase. Mas não. Acabei por descobrir que Ela gostava (ou gosta) de outro, e que me tinha usado para tentar esquecê-lo, já que esse maldito não gostava dela. Eu que não gosto de clichés, vi-me vítima do pior cliché de todos: o triângulo amoroso.

Tenho a certeza que o facto de ter proferido as infames palavras naquele dia contribuiu para as reflexões Dela.

Num único minuto consegui foder-me.

Finalmente, depois de ainda ter tentado mais umas vezes, percebi que já não conseguiria nada com Ela. Decidi na semana passada começar o processo longo e moroso de supressão do sentimento. Desactivei o Facebook (outra vez...), apaguei todos os registos que tinha Dela, todas as fotos, todos os textos, todas as mensagens. Comecei a evitá-la de todas as maneiras possíveis. O meu lado Mau estava a controlar-me outra vez, e fez o seu trabalho bem.

Ela tentou, por duas vezes, falar comigo por SMS, e devolvi-lhe respostas secas, mas polidas. Não poderia ser mal educado, pois não posso estar chateado com Ela. Ela ensinou-me muito mais do que eu poderia esperar aprender em tão pouco tempo. Estou-lhe profundamente agradecido por isso na verdade.

Não é fácil esquecer. Aprendi que o truque é manter a cabeça ocupada com outras coisas. Então passei a semana a trabalhar 10 ou 12 horas por dia, e quando chegava a casa colocava-me a dormir quase de imediato. Nos transportes públicos tive a preciosa ajuda do livro do Padrinho, cuja forte narrativa me levou a devorá-lo em pouco tempo. Nos poucos tempos em que tinha a mente livre, dava por mim a pensar Nela, durante minutos a fio. Como é que Ela estaria? Sentiria a falta da atenção que eu lhe dava? Sentir-se-ia culpada? Sentir-se-ia sozinha? Já me teria esquecido e talvez tentado falar com o outro miserável? Espero que sim, pois só lhe desejo bem, e claramente eu não sou o homem que ela quer, nem o que Ela precisa, nem o que Ela merece, pois merece melhor que eu.

Por acaso durante a semana aconteceu-me algo engraçado. Fui à faculdade e encontrei a Primeira. Cumprimentei-a e fiquei a conversar com ela, com confiança e amizade, mas sem sentimento algum. Suponho que é verdade que para me esquecer de alguém preciso de outra pessoa, claramente. Mas sinceramente acho que não tenho a força mental para procurar outra neste momento. Vou tentar ocupar-me doutra maneira.

Sabem... Ela, a Segunda, faz anos hoje. Convidou-me para uma festa de anos que deve ter ocorrido ontem, tanto quanto sei. Rejeitei imediatamente quando me convidou, sabendo que eu não conseguiria aguentar a sua presença. Não sem me prejudicar a longo termo. E então menti-lhe, disse-lhe que não podia (quer dizer, não menti, não posso mesmo, mas pelas minhas razões ilógicas, e não por outro compromisso já marcado ou algo parecido).

E agora dou por mim, a querer ser consistente, e nem sequer lhe enviar uma chamada ou uma simples SMS de parabéns. Por teimosia. Por cobardia. Por raiva. Por precaução. Por ignorância. Não sei, escolham uma. Espero daqui a uns meses, se ou quando a vir outra vez, já a tenha conseguido esquecer, apesar de isso me parecer improvável. Ainda agora, tudo o que mais anseio é que Ela me envie uma mensagem a dizer que esqueceu completamente o outro, que podemos começar de novo, como se nada tivesse acontecido, que ainda haveria uma hipótese...

Não me iludo. Estou agora no trabalho, sozinho, e vou começar a trabalhar para afastar o pensamento dela, neste seu aniversário.

Tudo por causa de um dia. Tudo por causa de uma palavra. Tudo por causa de mim.

 

 

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publicado às 09:50


1 comentário

De Entreasdezeasonze a 20.01.2015 às 11:30

O grande escritor português Miguel Esteves Cardoso escreveu um livro a que deu o seguinte nome:
"O amor é fodido".

Como vê não é o único!

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