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Original Prankster

por Rei Bacalhau, em 02.04.17

Se há coisa da qual me poderia orgulhar, se me importasse com isso, seria o facto de ser um tipo honesto. É claro que não é algo do qual me possa efectivamente orgulhar, já que não é uma qualidade prática, porque no meu caso a honestidade também leva à sinceridade, e não há coisa pior no mundo moderno que a sinceridade.

 

No entanto, se me puder considerar honesto, não posso dizer que seja essa exactamente a noção que exponho cá para fora, já que aquilo que somos e aquilo que MOSTRAMOS que somos são coisas não necessariamente mutualmente inclusivas.

Ao longo dos últimos anos comecei a desenvolver técnicas requintadas de aldrabar pessoas, puramente para efeito humorístico. Tive de treinar muito até conseguir manter uma cara séria quando estava a inventar uma peta espontânea. Com muita ajuda da internet, acabei por me tornar uma versão leve do que se chama um "troll", sempre a meter-me com as pessoas e a provocá-las quase à Groucho Marx.

É evidente que o dia das mentiras começou a tornar-se uma celebração bastante apreciada por mim, porque as pessoas à minha volta conhecem-me como uma pessoa profundamente honesta e incapaz de mentir, EXCEPTO para fins humorísticos a curto prazo. Tendo isso em conta, acredito que nunca ninguém saiba quando é que estou a falar a sério ou não. Aproveito-me desta confusão que incuto para criar as histórias mais surreais com uma verosimilhança suficiente para enganar alguém.

 

Eis um exemplo de ontem.

Estava a jantar e apercebi-me que ainda não tinha mentido naquele dia tão especial a um dos familiares à mesa. Teria de inventar alguma coisa, não poderia deixar de ser!

O primeiro passo é arranjar um tema que desperte a atenção da vítima, para aumentar a ingenuidade necessária para uma peta bem sucedida. Ora, neste caso a vítima é uma grande apreciadora de pistácios e decidi atacar por aí, e inventar a história à medida que a ia contando.

- Olha, és tu que gostas de pistácios, né?

- Pois, mas não posso comer muitos e tal.

- Pois, ainda por cima eles são radioactivos ou algo do género, né? (aqui eu faço a pergunta para que a vítima esteja mais investida na conversa, e consequentemente caia ainda mais na teia)

- Ah, isso são uns lá na Turquia ou sei lá.

- Ora pois bem, no outro dia estava a ver aquele programa da Dina Aguiar, aquele das notícias portuguesas e veio lá uma notícia interessante sobre isso. (aqui adiciono factos irrelevantes secundários como mais uma medida de distracção; no entanto, tenho de ter a certeza que a vítima não poderia saber sobre esses factos, e neste caso sei que a vítima nunca vê aquele programa).

- Então, - continuo eu - aparentemente agora há umas plantações xpto de pistácios lá para o Norte que estão a fazer um sucesso do caraças no estrangeiro, e vão ser comercializadas cá em Portugal daqui a uns tempos, em grandes superfícies.

- Ah é? (aqui já sei que a tenho fisgada)

- Ah, mas há uma cena... é que são muito maiores do que os pistácios normais. São para aí do tamanho do meu dedão. Eles mostraram na reportagem e meia dúzia deles cabiam na mão da pessoa.

- Ah, depois tenho de ver isso então.

- Eles disseram o dia em que isso ia passar a ser comercializado... era... - e faço um gesto dramático como se não me lembrasse. - Ah, era no dia 1 de Abril de 2017.

Dito isto, calo-me e fico à espera com um sorriso parvo na cara. Este é o momento para o qual trabalhei. Olhar para a expressão da vítima que olha para mim confusa, por não estar a perceber inicialmente.

- Então, mas isso é hoje...

 

 

Vitória total.

 

 

Seguem-se os insultos do costume, compreensiveís, claro, não julgo as pessoas por fazê-lo.

 

Se eu pudesse, andaria sempre com um altifalante comigo, para cada vez que completo uma façanha destas o colocar a tocar uma música, como se estivesse numa sitcom americana.

Creio que foi exactamente para isso que os Offspring criaram a música tão apelativa chamada Original Prankster, mesmo que a maioria da letra seja intraduzível para mim.

 

The Offspring, com Original Prankster:

 

 

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publicado às 17:37


2 comentários

De Maria Araújo a 03.04.2017 às 19:13

Inteligência que acresce à honestidade e sinceridade.
Gostei de ler.
Só não gosto deste estilo de música ( pronto, já encontrou algo que não gosto).

De Rei Bacalhau a 04.04.2017 às 00:19

Bolas, logo à primeira tentativa? Deve ser um dom que tenho, o de chatear as pessoas quando realmente se quer!

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