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Orion

por Rei Bacalhau, em 04.02.18

Um concerto de heavy metal é, no fundo, uma má ideia, se pensarmos bem na coisa.

 

Digo isto na sequência do concerto recente que os Metallica deram cá na Quinta-Feira. Eu não queria realmente ir, mas ofereceram-me o bilhete e não tive possibilidade de dizer "não". Então lá fui.

Não era a primeira vez que ia a um concerto deles, portanto já sabia o que esperar. Notem desde já, nada tenho contra os Metallica, antes pelo contrário. Posso com confiança dizer que aprecio várias músicas deles, apesar de não estar familiarizado com os álbuns mais recentes. Tenho é algo contra todo o espírito que está por detrás de um concerto destes.

O meu bilhete era para a plateia em pé, já agora, o que só aumentou a minha reticência em ir (mas pronto 80€ são 80€). Passarei a explicar o problema.

 

Por alguma razão estes concertos atraem um género de indivíduos que não compreende o conceito de "espaço público" (como quem diz, espaço partilhado por outras pessoas), e muito menos compreendem o conceito de "ir a um espectáculo para apreciar o espectáculo e não arruiná-lo para os outros".

Começo com o problema mais evidente, que também aconteceria se estivesse descansadinho nas bancadas: o pessoal aproveita este tipo de eventos como um "Dia Nacional do Fumador" e toda a gente acha uma ideia fenomenal fumar para cima dos outros num espaço que, apesar de amplo, continua a ser fechado. Fumar por si só já me parece uma actividade intrisecamente estúpida, mas é tolerável enquanto não prejudicar outros. Agora... quando isso não acontece... 

Voltemos para o espaço horrendo conhecido como plateia. É um local que fica absolutamente inundado de cerveja e vómito mesmo antes de o concerto começar e torna a locomoção quase divertidamente difícil, pois temos de fazer um esforço adicional para arrancar o pé do lodo peganhento que se instalou entretanto. Adicionalmente, tendo em conta a pobre capacidade de coordenação motora média de um metaleiro, é bastante provável que uma boa parte de qualquer cerveja entornada não chegue ao chão, mas sim ao vestuário de pobres inocentes ali à volta (ou mesmo dos que estão longe; há quem atire copos de cerveja meio cheios numa direcção aleatória, só porque sim).

Quando o concerto em si começa, certas músicas mais queridas da população local exortam-na a formar pequenos conglomerados para realizar uma dança tribal chamada "moche". Estes moches são uma forma estranha de dançar em que alguns indivíduos, ou às vezes dezenas deles, começam a saltar uns contra os outros freneticamente, sem qualquer tipo de relação rítmica com o que a banda está a tocar. Desta vez tive azar que um destes moches se tivesse formado ao pé de mim e tive de empurrar de vez em quando um ou outro jovem em rota de colisão comigo. No entanto, nem tudo foi mau, pois quando eles se cansaram a área manteve-se relativamente vazia e tive uma muito melhor visão para o palco. Uma senhora que estava à minha frente não conhecia o conceito, provavelmente, pois quando levou com um dos ganzados em cima empurrou-o e deu-lhe um valente pontapé. A reacção estupefacta dele foi genuinamente hilariante, pois ele não tinha percebido até aquela altura que existiam outras pessoas ali à volta que não conheciam as regras implícitas dos concertos de metal.

 

"Então, mas não percebo. Então mas 'tás a dizer que um concerto de heavy metal é má ideia por causa das pessoas que lá vão? É que quase tudo o que descreves aqui acontece noutros espectáculos de géneros musicais diferentes!", pensam vocês, e bem, mas talvez um bocado apressadamente.

 

Um outro problema que detecto em concertos mais pesados é que nem sempre dá para se ouvir o que o vocalista está a dizer. A banda que abriu para os Metallica, por exemplo, tinha um daqueles vocalistas que anda aos berros e não se percebia patavina do que ele andava a dizer, especialmente sob os sons instrumentais. Quando os Metallica começaram a tocar, notei que o mesmo acontecia com as músicas que eu não conhecia, ou seja, eu só conseguia companhar liricamente as músicas se o meu conhecimento prévio conseguisse tapar as lacunas que não conseguia ouvir. 

Ora, isto é absolutamente horrível para os ouvintes (não necessariamente fãs) que lá estivessem arrastados por familiares ou amigos, pois é bastante provável que todas as músicas dos Metallica fossem exactamente iguais umas às outras para eles.

Concluindo, um concerto de heavy metal só começa a valer a pena se conhecermos mais ou menos bem a banda. 

 

"Ah, mas num concerto nem sempre interessa o que eles andam para lá a cantar!", argumentam vocês, furiosamente.

Pronto, não quero ofender. Se cantar não vos interessa, tomem lá com a Orion, dos Metallica:

 

 

(ironicamente a música que eles menos tocam ao vivo; uma veniazinha ao Cliff Burton)

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publicado às 19:26




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