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Solidão

por Rei Bacalhau, em 10.09.15

Por princípio, nenhum humano merece estar sozinho, a não ser que tenha feito algum crime que o justifique. Não é sem razão que a solitária nas prisões é tradicionalmente um local macabro donde as pessoas saem endoidecidas, nem que seja temporariamente (excepto talvez o Steve McQueen).
O ser humano foi concebido para ser social, para interagir com membros da mesma espécie (argumente-se, até de outras espécies). Existem indivíduos que talvez não precisem de tanta interacção como outros, mas poucos devem conseguir viver sozinhos. Absolutamente sozinhos.
Então reflicto que se calhar há graus e classes de solidão. Conceptualmente, talvez uma pessoa tenha vários tipos de solidão possíveis que tenham de ser atendidos quase como necessidades básicas de sobrevivência moderna. Uma pessoa pode ter pessoas em casa, familiares, e esse vazio está preenchido. No entanto, se não tiver amigos fora da família, talvez possa sofrer de solidão fraternal, por não ter ninguém exterior com quem comunicar. Até poderá ter contacto exterior, mas não ter confiança com ninguém. Enfim, não ter amigos.
Existem centenas de variações exemplares para o que num só indivíduo pode ser a solidão.

Falemos da minha opinião, e talvez do meu caso.
Eu não sou a pessoa mais social do mundo. Digo isto no sentido de que não gosto particularmente de sair à noite para bairros e bares e pessoas bêbadas à porrada e a berrar e crianças a tirar selfies com shots na mão, etc. etc.. Isso não faz de mim exactamente um bicho do mato. Eu gosto de conversar com pessoas, e para tal gosto de um sítio calmo, onde as ideias possam fluir dignamente e não meio gritadas no meio de um espaço apertado com luzes epilépticas. Conseguir estar uma hora seguida a conversar com alguém cansa, mas preenche-me totalmente se a conversa for estimulante. Dou imenso valor a essas conversas e às pessoas com quem as tenho, mais do que na verdade essas pessoas poderão imaginar.
Infelizmente, há também o lado oposto em mim. Se eu não tiver nada a dizer, consigo estar imensas horas sem falar. Não consigo fazer conversa barata com pessoas que mal conheço, o que me leva a vários silêncios embaraçosos. Normalmente, se estiver acompanhado, deixo as outras pessoas falar por mim e coloco-me conscientemente em segundo plano.
Fui assim a minha vida toda, e estava confortável. Nunca tive sentimentos de solidão. Nunca pensei que a minha vida pudesse ser mais do a rotina normal: ir para o trabalho, banalizar com os colegas, ter conversas profundas e reais com as selectas pessoas que me dignam com a sua amizade, comer, lavar os dentes, cama, repetir. De facto, conseguia funcionar perfeitamente como ser humano.
Bem vistas as coisas, por comparação, eu era feliz, mesmo não o sabendo.

Depois apaixonei-me. Metaforicamente, o que os poetas chamam de coração inflamou-se-me e inchou-se-me. Tornara-me humano, verdadeiramente humano, agora que a minha existência estava finalmente totalmente justificada. O coração cresceu, de facto, e teria de ser preenchido pelas interacções românticas que agora eram novidade absoluta. Tudo bem, não deveria ser problema, pois o meu interesse romântico era recíproco, e haveria muita ocasião para preencher o meu coração tão severamente expandido.
Mal sabia eu que me havia condenado a uma maldição.
Tão depressa como se criou, a faísca desapareceu, o interesse deixou de ser recíproco (se é que realmente alguma vez o foi, enfim). Morri.

Não, não morri. Sobrevivi, mas a marca ficara. O coração manteve-se inchado, anseando por ser preenchido. E nada do que eu fizesse me tirava o sentimento de que o tinha de preencher. Era um fardo constante, ter de carregar um coração demasiado grande.

E então senti-me só.

E então SINTO-me só.

É que de repente, sem querer, acordei para um assunto para o qual não estava devidamente treinado para lidar. De repente vieram-me pensamentos do género: "Olha, eu gosto de gostar de alguém! Eu gosto que alguém goste de mim, romanticamente! Isto é mesmo giro! Gosto!". De repente isso é possível! É possível que alguém goste de mim, e dexei-me escapar ingenuamente para essa armadilha, onde fui esquartejado em pedaços, esmagado, pulverizado, aniquilado. Agora estou amaldiçoado a uma existência em que quero que alguém goste de mim outra vez, mas simplesmente não consigo chegar a esse objectivo. Não consigo obrigar ninguém. Não existe um caminho predeterminado a percorrer que garanta que encontre alguém que me ame. Dessa vez fatídica foi quase... sorte? Será sorte a palavra certa? Destino não é, não acredito em tal coisa. Coincidência? Sim, talvez coincidência... A horrível coincidência que ela precisava de alguém para se esquecer de um outro, e eu apareci, atraído como um insecto. Fui conveniente.

Mas acham que desisti? Nem o meu coração me deixaria! Como disse, ele anseava por ser satisfeito, estando em tal estado solitário e ferido. Então fui à procura de alternativas. Saí da zona de conforto, saí para os horríveis bares e para as noites. Nada. Tudo superficial. Tudo regado a cerveja e drogas. Tudo metaforicamente maquilhado. Tentei a internet. Talvez lá se encontrasse alguém na mesma situação que eu, talvez até com a mesma personalidade. Alguém que esteja só. Nada. Foto atrás de foto, mensagem atrás de mensagem, eu não era bom o suficiente. Era normal que alguém simplesmente parasse de enviar mensagens, e quando isso acontecia sabia-se que havia encontrado alguém melhor. Desisti. Na internet a proporção maior de homens em relação às mulheres favorece estas pois acabam por ter muita mais escolha.

E o tempo passou-se. Mas o coração não aquiesceu. Apenas doía mais e mais. E apesar de ter toda a abençoada companhia que preciso nas outras categorias, a familiar e fraternal, a categoria romântica tornou-se a mais significativa, por ser a única que se queixa. Foi toda uma espiral que me arrrastou para baixo, afundando-me incrementalmente mais nesse poço tão negro da solidão romântica. Por lá me arrasto, derrotado, batido, aniquilado, etc., etc..

"Por princípio, nenhum humano merece estar sozinho, a não ser que tenha feito algum crime que o justifique."

Então que caralho fiz eu? O que é que justifica que eu mereça estar sozinho? Que crime cometi para que a minha primeira experiência amorosa me retirasse todo o amor-próprio que tinha? Não duvido de modo algum que os outros métodos que tentei falharam por falta de estima, pois pensei que iria errar outra vez. Que iria outra vez dizer algo errado que justificasse que me abandonem. Mas que merda disse eu? Mas que merda posso eu dizer? É que eu nem tentava com gordas e feias, pela mesma razão que não tentava com belas e singelas: o medo, MEDO, horrível, incontornável de falhar outra vez. De dizer uma única palavra errada que na puta da mentalidade não-indulgente das mulheres parece significar imediatamente que sou defeituoso. Estou a generalizar, obviamente, mas foda-se, que é frustrante, podem ter a puta de certeza que é.

Tenho amigos e colegas, do género masculino, que dizem que sou um gajo impecável. Dizem que não sou feio, alguns até dizem pelo contrário. Dizem que sou 5-estrelas em termos de ser prestável e outras merdas. Já me disseram que me porto como um cavalheiro, especialmente para com as raparigas. Admito, sempre tratei as mulheres e raparigas com deferência, não por as achar inferior (não me venham com conices de feminismo, bem aí é que me passava) mas apenas por uma questão de cortesia. Então que raio mais tenho de fazer?

Não me interpretem mal. Não quero dizer que a sociedade me DEVE alguma coisa. Acho simplesmente estranho que tudo o que eu faça seja um tiro ao lado. Será que fui criado duma maneira que é incompatível com a possibilidade de atracção feminina? Será que tenho de me comportar com um idiota completo e ser basicamente cabrão para com todas as gajas que conheça? É isso que elas querem? Um bad boy, crazy motherfucker, com vocabulário de um mamute? Não... mesmo que tentasse, não o conseguiria ser. Conas como sou, ainda assim, AINDA ASSIM, consigo pensar que os meus princípios são mais importantes.

Não... eu quero que me aceitem pelo que sou. Não consigo mudar. Ou pelo menos, não consigo mudar sozinho. Preciso que me digam o que é preciso fazer para arranjar companhia. Para preencher o vazio. Pesquiso eternamente uma resposta, sempre atento ao que acontece, a ver se alguma coisa, ALGUÉM, ALGURES, tem a resposta que preciso. Se alguma coisa, alguém, algures me consegue fazer mudar. Se alguma coisa, alguém, algures me consegue completar.

Estou sem ideias. Estou sem esperanças. Estou sem vontade. Quero apenas desistir. Quero apenas voltar ao que era antes. Quero não ter um coração, ou ter um muito pequenino, que apenas aguente algumas pessoas e já é suficiente.

Poderá ser essa a alternativa? Treinar-me para ser uma pedra? Desistir de toda a tentativa de arranjar companhia? Tornar-me um pária romântico? Um asexual voluntário? Destruir e suprimir tudo o que seja sentimento amoroso ou carnal ou atractivo? Nada me garante que isso funcionará. Eventualmente só aprofundará o poço onde já estou. O estoicismo já me ajudou noutras circunstâncias, mas o assunto não era o mesmo. Temo que estarei alguns anos ainda antes de oficialmente declarar o que já parece óbvio agora, mas que me é difícil assumir:

Estarei para sempre sozinho.

Nunca terei namorada. Nunca terei filhos. Não darei netos aos meus pais. Não terei ninguém a quem dar a minha herança, tanto material, como outras. Como humano e como ser vivo, falharei. Aliás, falho.

Há pessoas com piores situações que eu, certamente, mas isso não me traz grande alívio. Estou-me nas tintas para os outros. Se eles tiverem problemas, escrevam, e libertem o vapor, como eu.

Estou cansado. Estou farto. Farto farto farto... Quero pensar noutras coisas. Dizem-me para ir passear, ir a museus, ir a cinemas... Para quê? Para quê ir sozinho? Para não ter ninguém com quem partilhar o momento? Para me estar constantemente a lembrar que não tenho ninguém? Toda a gente tem a sua vidinha. Toda a gente tem amigos, namoradas familiares com quem vão dar uma voltinha, relaxar, divertir-se. Eu estou preso dentro de mim próprio, pois não vejo a necessidade de sair. Não há nada para alguém como eu.
Quanto mais tempo passa menos possibilidades tenho de arranjar alguém. As pessoas vão envelhecendo e juntando-se. Nesse aspecto, eu já sou velho. Velho porque fiquei para trás nessa corrida louca.

 

 

Já escrevi o suficiente. Nem vou rever o que escrevi. É só um devaneio aleatório, quase. Raios partam tudo.

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publicado às 00:55


3 comentários

De Entreasdezeasonze a 11.09.2015 às 12:26

Desculpe mas não posso estar mais em desacordo consigo. Não me diga que preferia ter vinte namoradas, bonitas, feias, gordas e magras... e estar só na mesma?
A seu tempo terá a sua oportunidade...
E termino com uma máxima bem portuguesa: "Para cada tacho há um testo"!
Escreve bem, tem um blogue, trabalho pelo que li acima. Aguarde... a seu tempo algo surgirá!
Abraço e não esmoreça...

De Rei Bacalhau a 11.09.2015 às 14:21

A mim bastar-me-ia uma. Não consigo compreender como é que alguém pode ter uma namorada e estar só à mesma. Se tal fosse o caso, o indivíduo deveria pensar profundamente no assunto, se valerá a pena manter tal relação. Ou isso ou dizer à namorada como se sente, sei lá. Lá está, não percebo nada disso.

Devo fazer notar que na sociedade humana não é costume aguardar-se que alguém caia magicamente ao colo. Pelo contrário, as oportunidades, como diz, têm que se fazer, e é unica e exclusivamente responsabilidade do homem conquistar a mulher. Estou a falar em termos gerais, há excepções, que NÃO fazem a regra.

Meu caro, o senhor talvez tenha tido sorte quando era mais novo, e se calhar por isso é que achará o meu texto tão estranho.

De Entreasdezeasonze a 16.09.2015 às 10:02

Desculpe só responder agora mas estive sem Internet. Mudança de operadora.
Quanto à minha sorte... não sei se tive. Comecei cedo a envolver-me com algumas raparigas, casei duas vezes, separei-me outras tantas.
E nunca fui feliz! Acredita?
Se fosse hoje preferia estar sozinho. Nem sempre as mulheres são boa companhia!
Mas estou plenamente convencido que nem todas são estupores. Há com toda a certeza algumas que são fantásticas...
A mim é que não me calhou nenhuma!
Abraço.

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