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Stargazer

por Rei Bacalhau, em 28.02.16

O Feiticeiro olhou mais uma vez para os céus. Pareciam clamar a ele que viesse. O Feiticeiro era poderoso, mas apesar de tudo não conseguia voar. Por muito que tentasse nenhuma magia o conseguia levar às estrelas, que o apaixonavam. Ruminou o mundo, procurando o sítio em que estivesse mais perto das estrelas, e talvez aí já conseguisse voar. Muito procurou, até encontrar um monte onde o espectáculo impressionante das constelações era demasiadamente avassalador. Os seus olhos brilhavam perante a beleza do cosmos. Que destino cruel, o que um mortal!
Colocou-se no ponto mais alto do monte e elevou os braços aos céus.
Nada.
Não voava.
Colocou-se em cima de uma pedra. Saltou.
Nada.
Não voava.
Não conseguia ir ter com as estrelas.
Colocou outra pedra em cima da outra. E depois outra. Daí a pouco já tinha um montinho seu de pedras disformes. Saltou.
Nada.
Não voava.
Não conseguia ir ter com as estrelas.
Olhou em volta para os campos rochosos à volta do monte. Estavam repletos de boas pedras. O Feiticeiro teve uma ideia.
Usou as suas magias para dar vida às pedras, que se juntaram em formas humanóides. O Feiticeiro mandou as criaturas juntar mais pedras num monte. Em pouco tempo o monte cresceu. O Feiticeiro sentiu-se mais perto dos pontos brilhantes no céu. Escalou os pedregulhos desastradamente. Saltou.
Nada.
Não voava.
Não conseguia ir ter com as estrelas.
Olhou para as suas criaturas. Eram lentas e desajeitadas. Não poderiam construir um monte eficazmente. O Feiticeiro não desistiu. Precisava de mãos competentes e hábeis.
Enviou as suas criaturas pelos campos e aldeias e cidades.

Os primeiros trabalhadores chegaram pouco depois, confusos e ameaçados pelas criaturas. O Feiticeiro ordenou-lhes que lhe construíssem uma torre.
Os trabalhadores continuavam a chegar e eram postos logo ao trabalho, controlados pelas criaturas, que, se eram más construtoras, compensavam ao serem capatazes muito competentes. E cruéis.
Ao fim de um mês, os trabalhadores haviam diligentemente construído uma grande torre, e esperavam ser libertados.
O Feiticeiro subiu ansiosamente a escadaria. Colocou-se no patamar mais alto da torre. Esperava simplesmente começar a levitar, mas os ventos não o levantavam.
Nada.
Não voava.
Não conseguia ir ter com as estrelas.
Seria preciso ir mais alto.
Os campos foram despojados de pedras. Abriram-se pedreiras. Trouxeram-se mais escravos. O egoísmo do Feiticeiro era apenas comparável ao sofrimento dos escravos, que trabalhavam noite e dia, sob chuva e sol, sob a crueldade das criaturas opressoras. Muitos morreram.
Um ano passou-se. A torre era mais alta do que qualquer edifício na História, construída com pedra, carne e osso.
O Feiticeiro demorou muito tempo a subir a torre. Como antes, abriu os braços, como que abraçando as estrelas. Esperou que os ventos o levassem.
Nada.
Não voava.
Não conseguia ir ter com as estrelas.
Seria preciso ir mais alto.
Nove anos passaram-se. Nove anos de pessoas a trabalhar e morrer para satisfazer o sonho de um homem. Da sua torre, a sua sombra projectava-se como um manto negro pelos campos circudantes. As pessoas olhavam para ele com dor, mas ele tinha apenas olhos para as suas preciosas estrelas, cintilantes, belas e inatingíveis. As pedras a certo ponto acabaram. As pedreiras estavam consumidas. Algumas criaturas de pedra foram destruídas para poderem ser usadas na construção. Em nove horríveis anos, o Feiticeiro obrigara a construção de uma torre maior que as montanhas, maior que os limites humanos.
Demasiados morreram.
Mas seria agora suficiente?
O Feiticeiro demorou um dia a subir a torre até ao seu ponto mais alto. Os escravos foram obrigados ainda a vê-lo voar. Todos esperavam nervosamente, esperançosos que voasse. Esperançosos que o suplício acabasse.
O Feiticeiro colocou-se no patamar. Abriu os braços, olhando agora as estrelas de tão mais perto. O seus brilhos tão diferentes, tão únicos, tão individuais seduziam-no. Já decorara todas as estrelas, mas agora dali via algumas que não conhecia. Estava pronto para cumprimentá-las pessoalmente. Não aguentava mais.
Os ventos não o levantavam.

Saltou.

Voou.
Durante um instante tão breve voou, mas na direcção oposta. Observou com horror as estrelas a afastarem-se.

E caiu.

 

E caiu.


E caiu.

 

Não conseguiu ir ter com as estrelas.
As criaturas de pedra remanescentes extinguiram-se.
As pessoas estavam livres. Nove anos depois, só se perguntavam: porquê? Porque é que tantos tiveram de morrer para o vermos voar uma única vez?

 

 

Falando a sério, que magnífico tema encontrei nas minhas pesquisas. Tem uma das melhores performances musicais em termos do quão épico é, e digo épico no sentido original da palavra. Altas guitarradas do Ritchie Blackmore, a voz profunda e sentimental de Ronnie James Dio, o som progressivo do rock sobre a orquestra. A história subjacente à letra. Impecável. Soberbo. O real sentido de dor e futilidade que a música parece transmitir. Épico. Épico. Mesmo para quem não é fã de mundos fantasiosos.

Rainbow, com Stargazer:

 

P.S.: No álbum original a história continua, mas isso fica para depois.

 

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