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A Estalagem - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 18.04.17

Um cavaleiro sobe uma estrada poeirenta e em mau estado. A sua armadura de metal fino foi em tempos de um branco reluzente e orgulhoso, estando agora cinzenta, suja e danificada pelo decorrer das várias aventuras do presumível guerreiro. Um leitor recorrente já terá adivinhado a pessoa de Ventura Lobo, acompanhado de Venceslau, a sua espada, e de Sara, a égua Maglu.
Ventura Lobo não o sabia, mas tinha sido alvo de uma tentativa de emboscada misteriosa por parte de elementos do Exército do Reino, o mesmo reino que lhe tinha incumbido a missão de adquirir o fabuloso Livro e a sua aparente fonte de poder e conhecimento. Que Livro era esse e precisamente o que é que fazia? Não se tinha a certeza, por razões de enredo. Achou-se preferível manter o mistério sobre as capacidades do Livro para se deixar o leitor na expectativa, e já agora para que o Autor tivesse tempo de decidir e definir como é que a história acabaria sem entrar em detalhes demasiadamente limitadores em termos de progressão narrativa futura.
Felizmente, os agentes inimigos falharam tão redondamente que Ventura Lobo nem se apercebeu de que poderia estar em perigo. É também verdade que contra a incompetência do narrador nem o mais bem treinado dos soldados pode fazer muito, mas não deixa de contar como uma derrota inimiga.
Ventura sentia-se cansado, mas percorria o trilho com alguma alegria. A devastação árida do terreno a que começara a ficar habituado dava agora lugar a prados simples e verdejantes à beira do caminho. Observou com agrado uma manada de répteis enormes, do tamanho de ovelhas, que avançavam placidamente pela pradaria em fila singular, serpenteando como que por instinto até ao horizonte onde lhes esperava algum destino desconhecido, talvez até para eles.
- Ah Sara, tens aqui muita erva boa. Quem me dera que eu também pudesse ter uma boa refeição. Já estou a ficar um bocado farto dos biscoitos de Yih. Há bocado um deles mexeu-se e começou a querer sair do alforge. Devem estar a passar o prazo de validade. No entanto, tenho ideia que só ficam mesmo incomestíveis quando começam a morder-nos. Enquanto só se mexerem ainda marcham.
Poderá ser relevante notar que só se inventou a capacidade dos biscoitos se mexerem para que esta última afirmação do nosso herói se tornasse uma espécie de pleonasmo humorístico e coloquial.
Passaram-se vários minutos. Ventura afagava a crina de Sara enquanto esta superava uma porção particularmente degradada do que se tem denominado como estrada. Ao chegar ao topo de um monte, Ventura nota um pequeno conjunto de edifícios ao fundo no meio de uma planície suave. Uma casa principal destacava-se, rodeada de o que parecia ser um estábulo e outras cabanas mais pequenas. a medida que se aproximou, distinguiu uma horta decente e árvores de fruto, complementados por um poço e ferramentas agrícolas espalhadas pelo terreno. Uma pequena família de burros descansava pacatamente na erva circundante à casa, com excepção de um pequeno jumentinho que saltitava euforicamente entre os seus familiares.
Foi com igual euforia que Ventura se apercebeu que esta não era simplesmente uma quinta, mas sim uma estalagem, pois conseguiu ler o letreiro que a identificava.

 

"U Qɐntu dux Burux"

 

É evidente que Ventura Lobo teve inicialmente dificuldade em ler o texto estranho, como certamente qualquer outro leitor teria. Adivinhou que não poderia ser uma língua estrangeira, pois compreendia, depois de alguma descodificação, o contexto daquelas palavras.
- Das duas uma, ou é marketing, ou está já a começar a parvoíce deste episódio.
Ventura levou a cara à mão e suspirou profundamente, abanando ligeiramente a cabeça. Perdeu quase de imediato toda a alegria que tinha por ter encontrado um pouso de descanso.
Desmontou Sara, que se encaminhou imediatamente para um balde com água.
Aproximou-se da porta pesada da estalagem e preparou-se.
- Bom, lá terá de ser, não é verdade? Vamos a ver o que nos espera.
Entrou.

 

O aspecto rústico do exterior da estalagem repetia-se no seu interior, mas não deixou de se sentir uma atmosfera acolhedora e convidativa ao arrastar-se a porta para o salão principal do edifício. Estava completamente deserto, mas pareciam evidentes os sinais abundantes de actividade. O chão estava usado e riscado do movimento habitual de cadeiras e mesas. Não obstante isto, tinha um aspecto imaculado em termos higiénicos. Janelas amplas inundavam a sala de luz branca exterior, impedida da sua fortaleza máxima pelas nuvens tímidas que passeavam placidamente pelo céu.
Ventura Lobo aproximou-se do balcão. Encostou a sua espada e lançou um olhar cansado e ligeiramente desiludido em volta. Foi aí que sentiu o cheiro a comida. Um cheiro inimaginavelmente delicioso como apenas a fome, o melhor dos temperos, pode originar.
- Ó da casa! - berrou Ventura masculamente, pensando que se houvesse um estalajadeiro ele estaria mais habituado a este tom de voz.
- O diabu, xɐmão pur min? Não podǝ sêr! Vô ja pɐtrão, ja vô ɐ qɐminhu.
Ventura Lobo, ao ouvir isto, lançou em desespero a espada Venceslau para longe, temendo que esta se sentisse irremediavelmente insultada pelo massacre ortográfico que acabara de presenciar. No entanto, as gemas demonstradoras da fúria de Venceslau não emitiam brilho algum, e foi portanto algo injustificado o arremesso para o canto contrário da sala, aterrando bruscamente perto da porta.

 

Um homemzito surge de uma porta larga que ligava à cozinha. Se não fosse pelo simples facto de ter orelhas de burro, passaria perfeitamente como um homem normal de meia idade.
- Hã? O quê? Orelhas de burro?
A surpresa de Ventura era justificável, pois nunca vira um homem-burro de Copl, cobiçados internacionalmente como conselheiros pelo seu intelecto imenso. Obter os serviços de um copliano não era simples, pois são um povo de indivíduos teimosos. É por este facto que a sua civilização ainda se pode considerar primitiva, pois qualquer tentativa interna de melhoramento é fútil perante a birra que todos fazem perante o conceito de mudança com o qual não concordam.
O copliano parecia excitadíssimo ao ver Ventura e apresentou-se diante dele.
- Orɐ bôm diɐ, ǝxtimadu qliêtǝ. Pônhɐ-sǝ a vontadǝ. Sêtǝ-sǝ, sêtǝ-sǝ. Vêju qǝ devǝ ǝxtar qɐnsɐdisimu. Pôsǝ ɐx suɐx qôisɐx. Dǝsqɐnsǝ. - exigiu o homem, com um profundo sorriso afável na cara.
- Deveras, meu caro, agradeço a hospitalidade. Não precisa de me fazer tal proposta duas vezes. O senhor é o dono deste estabelecimento?
- Sô sim sǝnhôr, pɐtrão. Já ǝxtá nɐ minhɐ fɐmíliɐ a variɐx jerɐsõǝx i tratu dêlǝ muitu bǝm. U mǝu pai bǝm mǝ diziɐ, qǝr dizǝr, ɐntǝx dǝ fiqar sǝm dêtǝx, qǝ dǝpôix não sǝ pǝrcǝbiɐ nadɐ du qǝ êlǝ diziɐ, mɐx diziɐ, prôntu, quɐndu pudiɐ, qǝ ǝxtɐ erɐ ɐ mǝlhor ǝxtɐlajǝm dextɐx plɐnícix i qǝ dǝviɐ sêr trɐtadɐ qômu tal. ∀ minhɐ mãe, qôitadɐ, quɐndu ôviu ixtu, quɐndu ɐindɐ qônsǝgiɐ ôvir, qǝ ôvǝ um diɐ qǝ um truvão ɐ êsurdǝcêu, qǝ elɐ ǝxtavɐ nɐx môntɐnhɐx pɐrɐ u Sul, i lá u sôm e ɐmplifiqadu, axu qǝ tǝm algumɐ qôisɐ ɐ vêr qôm ɐ formɐ ɐsim qurvadɐ dɐx rɐvinɐx, mɐx quɐndu elɐ ôviu u qǝ u mêu pai disǝ ɐte saltavɐ i diziɐ sǝmprǝ ɐ mǝsmɐ qôisɐ, qǝ extɐ e ɐ mǝlhor ǝxtɐlajǝm purqǝ e ɐ úniqɐ ɐqui dɐx rǝdôndêzɐx, i u mêu pai, ai, qǝ êlǝ erɐ mɐlɐndru, umɐ vêx pôx um buru ɐ seriu nɐ qɐmɐ qôm ɐ minhɐ mãe, ɐviɐ dǝ têr vixtu ɐ qarɐ delɐ quɐndu ɐqurdô, i elɐ tinhɐ u sônu levǝ, nunqɐ sôbǝ qômu e qǝ êlǝ pôx u buru la, tɐpadu qôm u qubǝrtôr i tudu, a, mɐx u mêu pai rǝxpôndiɐ sêmprǝ a minhɐ mãe "êtão, não dǝixu dǝ têr rɐzão!". Qer dizǝr, êlǝ rǝxpôndiɐ ixtu quɐndu ɐ minhɐ mãe, qôitɐdinhɐ, lhǝ fɐlavɐ dɐ ǝxtɐlajǝm, não quɐndu pɐrtilhavɐ ɐ qɐmɐ qôm u buru, nǝm fɐriɐ sêtidu, não e vǝrdadǝ? Bôm, talvêz iputetiqɐmêtǝ fizesǝ, mɐx não pêsǝmux nisu. ∀ vǝrdadǝ e qǝ extɐ e ɐ minhɐ ǝxtɐlajǝm, U Qɐntu dux Burux, xɐmadɐ ɐsim pur qausɐ dux burux qǝ qustumɐm rudiɐr-mǝ u ǝxtɐbǝlǝcimêtu sǝm qausar grɐndǝx prublêmɐx, i posu-lhǝ já ɐgorɐ dizêr qǝ mǝ xɐmu Equ Onolatru i qǝ ǝstô pǝrfǝitɐmêtǝ au sêu dispôr, já qǝ qômu vê pêlɐ dǝmugrɐfiɐ du mêu sɐlão, não ǝstô muitu oqupadu.
- Ui, espere lá que isso é muita coisa para descodificar. Suponho que me devo identificar também. Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante de todas as estradas, se bem que o que há aqui não se poderia chamar exactamente uma estrada, mas pronto, para o que é serve.
- A pôix, ɐ autɐrqiɐ nunqɐ fax nadɐ ǝn rǝlɐcão ɐ isu. Bǝm vixtɐx ɐx qôisɐx, nǝm vǝiju um rǝprǝzêtɐntǝ du Guvêrnu a muitu têmpu. ∀liax, axu qǝ nunqɐ vi um, ɐgorɐ qǝ pêsu nisu. Não ux posu julgar, qǝ u êdificiu ɐdministrɐtivu maix próximu ǝstá ɐ váriɐx sǝmɐnɐx dǝ viajǝm, ô u dôbru sǝ formux môntadux num buru. Pur esɐx i pur ôtrɐx e qǝ ux dǝixǝi dǝ usar i ɐrɐnjǝi um qɐvalu, sǝ bǝm qǝ pɐrɐ ɐrɐnjar u qɐvalu tivǝ dǝ ir dǝ buru, i dǝmurǝi unx quatru mêsǝx só dǝ idɐ. Pɐrɐ voltar fôi maix fácil, já qǝ ɐ qɐrɐvɐnɐ ôndǝ fui qômprar u qɐvalu xǝgô quincidêtǝmêtǝ ɐqui a ǝxtɐlajǝm nɐ mêsmɐ alturɐ ǝm qǝ finalmêtǝ ux ɐpanhǝi. Fôi um pǝriudu dǝsɐstrôsu, qômu qônsegǝ imɐjinar, pôix dǝixar u nǝgociu durɐntǝ tɐntu tǝmpu e prǝjudicial pɐrɐ ɐx finɐncɐx. Pur ôtru ladu, ɐ vɐntajǝm dǝ sǝ ǝstar lônjǝ dǝ tudu e qǝ nǝnhum qubrɐdôr dǝ impostux pêsɐ sǝqer ǝm vir ɐqui. Qer dizêr, mintu, umɐ vêz vǝiu qa um, mɐx isu e purqǝ sǝ tinhɐ pǝrdidu i pêsavɐ qǝ ǝstavɐ num sitiu xɐmadu... ai... erɐ um nômǝ ǝxqisitu... Xsu.. Xsantu?..
- Xsantinuq, talvez? - interrompeu pacientemente Ventura.
- A, sim, erɐ ǝxatɐmêtǝ isu, bǝm vǝiju qǝ u sǝnhôr devǝ sêr qunhǝcǝdôr. A bôm, u sǝnhôr bǝm disǝ qǝ e ɐvêturǝiru. Rialmêtǝ, são ux mêux qliêtǝx maix frǝquêtǝx, ux ɐvêturǝirux, qeru dizǝr, mɐx tɐmbǝm são ux qǝ dǝsɐrumɐm maix ɐ qasɐ. Certɐ vêz vǝiu um grupu ǝnormǝ dêlǝx, axu qǝ erɐm unx trêx, au mêsmu têmpu, vǝijɐ lá, i pǝdirɐm tôdux qôisɐx difǝrêtǝx pɐrɐ qumêr. Qônsǝgirá pǝrcǝbêr qǝ tivǝ um dia muitu ɐtɐrefadu. Tivǝ nɐ quzinhɐ maix dǝ mǝiɐ orɐ, i êu prǝcisavɐ dǝ ir trɐtar dɐ ortɐ, purqǝ nɐ alturɐ erɐ ɐ epuqɐ ǝm qǝ ux tǝxugux ɐmɐrelux dǝ Buarq qumecɐm ɐ migrɐcão i ɐruinɐm qômpletɐmêtǝ umɐ dɐx minhɐx plɐntɐcõǝx. U qǝ mǝ e maix dificil dǝ qômpriêdǝr e purqǝ e qǝ tôdux ux ɐnux êlǝx ɐtaqɐm umɐ qôisɐ difǝrêtǝ. U ɐnu pɐsadu, vǝijɐ lá bǝm, fôrɐm-mǝ aux nabux, ɐntǝx disu ax bɐtatɐx, nu ɐnu ɐntǝriôr aux inhɐmǝx, sǝm bǝm qǝ não gostu muitu purtɐntu não fôi grɐndǝ pêrdɐ. Rialmêtǝ, purqǝ e qǝ ux plɐntu dǝ tôdu sǝ não gostu ɐsim tɐntu? Bôm, mɐx nêsǝ ɐnu ɐte qɐlhô bǝm. Só ǝsperu qǝ não mǝ ɐtaqǝm ɐx cǝnôrɐx dêxtɐ vêz purqǝ elɐx ɐte ǝxtão bunitɐx. Ô pɐrecǝm ǝxtar, qǝ ɐindɐ não tirǝi nǝnhumɐ pɐrɐ vêr, mɐx ɐqrǝditu qǝ ǝxtǝijɐm.
- Ora, pois, desculpe-me interromper, mas será que me poderia preparar uma refeição? Tenho forma de pagamento suficiente, não se preocupe. E antes que pergunte, porque se eu não tomar as rédeas da narrativa nunca mais saímos daqui, eu gostaria de saber se tem um prato do dia ou algo do género. Se tiver, peço que mo descreva sucintamente.
- A, pɐtrão, vǝm ǝm bôm diɐ, pôix mɐtǝi um galu ôntǝm i purtɐntu tǝnhu ǝmpadɐ dǝ galu ɐqômpɐnhadɐ dǝ bɐtatɐx ax rudelɐx fritɐx ǝm ɐzǝitǝ i um pure dǝ vǝjǝtaix riquisimu ǝm produtux sɐburosux, tudu qɐsǝiru!
- Parece-me bem, acho eu. Traga-me também uma caneca com água. Se tiver vinho ou outra bebida espirituosa, coloque-o num odre pequeno para eu levar.
- Orɐ bǝm, pǝrfǝitɐmêtǝ, sim sǝnhor pɐtrão, voltu já.
Equ Onolatru despachou-se para a cozinha a assobiar alegremente.
- Ufa, agora sim posso voltar atrás e ler de novo o que ele disse, porque não percebi quase nada. Quer dizer... percebi e não percebi... é estranho. Mas por que carga de água é que ele tem uns "a"s e uns "e"s ao contrário?


Surpreendentemente, o estalajadeiro voltou quase imediatamente com um prato enorme repleto de comida de aspecto fenomenal, demasiadamente para ter sido preparada em dois minutos. A empada ainda fumegante tinha uma forma rectangular, ocupando mais de metade do prato de tamanho considerável. As batatas vinham polvilhadas de ervas aromáticas e ainda se notava o brilho quente do azeite fervilhante. O puré de vegetais tinha um aspecto grotesco de argamassa verde, mas emanava um cheiro rico, nutritivo e no geral convidativo.
- Mas... mas o senhor já tinha isto pronto?
- Não tutalmǝntǝ, ɐ ǝmpadɐ ɐindɐ não tinhɐ lǝvadu ɐ masɐ pur cimɐ.
- E o resto?
- Êtão, fiz tudu ɐgorɐ...
- Em dois minutos!?
- E u tempu suficiêtǝ.
Ventura não acreditou, suspeitando tratar-se de comida reaquecida no microondas, mas preferiu não insistir no assunto. De qualquer modo, a comida cheirava maravilhosamente e a fome de Ventura Lobo, que nas últimas semanas apenas tinha sido saciada por mantimentos fora de validade, ordenou que ele atacasse animalescamente a refeição.
Era com regozijo que Equ Onolatru observava a deglutição sôfrega e espantada de Ventura. A cada dentada e a cada batata e a cada colher de puré desenhava-se uma feição do mais puro prazer.
Quando Ventura acabou, absolutamente enfartado, olhou esbugalhadamente para Equ, que ainda o observava sorridentemente.
- Mestre Onolatro, ou pelo menos acho que é esse o seu nome, devo dizer que poucas refeições na minhɐ vida aventureira se compararam a esta que terminei agora. Estava tudo divinal! Os meus sinceros parabéns!
- A, muitu obrigadu, muitu obrigadu! Nu êtɐntu, dêvu qurriji-lu i dizêr-lhe qǝ mǝ xɐmu Onolatru, i não Onolatro.
- Ah, é com "u"? Pois desculpe-me, peço-lhe.
- Mɐx e ëvidêtǝ qǝ e qôm "u". Eu sǝi qǝ ux ǝxtrɐnjǝirux ǝxqrevǝm tudu au qôntrariu, mɐx fɐlɐndu bǝm tǝm dǝ sêr qôm "u".
"Oh diabo..."
- Como assim? - indagou Ventura. - Eu verdadeiramente tenho tido dificuldade em percebê-lo, mas é estranho porque por um lado não o percebo visualmente mas parece-me que o percebo auditivamente.
- U pǝsual la ǝm qasɐ devǝ ǝxtar ax ɐrɐnhɐx sôbrǝ u qǝ e qǝ sǝ ǝxta ɐ pɐsar ɐqi.
- Ui, não me fale em estar as aranhas. Mas concordo, e acho que é altura que o senhor me explique porque é que fala dessa maneira.
- Muitu bǝm, mɐx ǝxperǝ um buqɐdinhu.
Equ Onolatru dirigiu-se a cozinha e trouxe um pratinho de barro com uma fatia de tarte de maçã.
- Nǝnhumɐ rǝfǝicão ǝxta qômpletɐ sǝm umɐ subrǝmêsɐ. Facɐ fɐvôr.
- Ah, deveras, muito agradecido.
Ventura trincou a tarte, resumindo o seu êxtase palatal.
O estalajadeiro começou a falar.
- Bôm, qômu êu iɐ ɐ dizêr: quɐndu êu erɐ pǝqǝninu não ɐviɐ ǝxqolɐ ɐqui nɐ rǝjião. Qer dizêr, ɐindɐ ôjǝ não a, mɐx não e ɐí qǝ qeru xǝgar. Não ɐvêndu ǝxqolɐ, ux mêux paix tiverɐm dǝ mǝ êsinar pêlux mǝiux dêlǝx. Êlǝx pɐsavɐm muitu tǝmpu nɐ ǝxtɐlajǝm i não tinhɐm vɐgar pɐrɐ dar umɐ ǝduqɐcão ɐprupriadɐ aux filhux. U qǝ fizerɐm êtão fôi êsinar-nux tôdɐx ɐx lêtrɐx du abǝcǝdariu i ɐ mɐneirɐ qômu sǝ dizǝm. ∀ pɐrtir dɐí, diziɐm êlǝx, e só juntar pecɐx purqǝ qɐdɐ pɐlavrɐ e umɐ qômbinɐcão delɐx. U prublǝmɐ e qǝ u mǝu pai erɐ ɐlemão i não pǝrcǝbǝu qǝ nǝm tôdɐx ɐx línguɐx funciônɐm dɐ mǝxmɐ mɐnǝirɐ. Ǝm pɐrtiqular, ëxistǝ umɐ bôɐ quɐntidadǝ dǝ línguɐx ǝm qǝ ɐx lêtrɐx ǝm pɐlavrɐx não sǝ lêǝm ëxatɐmêtǝ qômu sǝ dizǝm individualmêtǝ. E qlaru qǝ só mǝ ɐpǝrcǝbi disu muitu muitu dǝpôix i pur isu ɐqɐbǝi pur ɐprêdêr ɐ ǝxqrǝvêr ëxatɐmêtǝ qômu ɐx pɐlavrɐx qǝ êu ôviɐ sǝ liɐm.
- E evidentemente isso afectou a maneira como numa narrativa o seu diálogo é apresentado.
- Prǝcisɐmêtǝ, u qǝ não inqumodɐ normalmêtǝ ɐ mɐior partǝ dux viɐjɐntǝx qǝ pur ɐqui pasɐm purqǝ ningǝm ǝxtá ɐ ǝxqrǝvêr u qǝ êu digu nesɐx alturɐx.
- Então mas explique-me porque e que usa um "a" ao contrário para dizer por exemplo.. banana. Ou a mesma coisa para o "e".
- Pôix, êsǝ fôi u prublêmɐ qôm qǝ mǝ dǝpɐrǝi. Nǝnhumɐ lêtrɐ, qôm ô sǝm ɐcêntu, qǝ mǝ tivesǝm êsinadu fɐziɐ u sôm prǝtêdidu. Êtão invêtǝi êu ɐ regrɐ dǝ pôr algumɐx lêtrɐx au qôntrariu pɐrɐ ux sônx qǝ mǝ faltavɐm. Ôjǝ vǝiju qǝ e umɐ regrɐ parvɐ, pôix ɐx qôisɐx fiqɐm ɐindɐ maix ilǝjivǝix pɐrɐ um ǝxtrɐnjǝiru du qǝ u normal, mɐx prôntu, qǝ e qǝ sǝ a-dǝ fɐzer?
- Enfim, pode sempre mudar. Se ainda por cima está consciente de que a sua forma de escrever está incoerente com o resto da população mundial, porque é que não aprende agora a fazê-lo correctamente?
- A, ɐgorɐ já ɐprêdi dextɐ mɐnǝirɐ, maix valǝ não mǝ dar au trɐbalhu.
- Então, mas facilitaria imenso a sua vida e a de qualquer outro cliente que seja perseguido por um narrador ausente.
- Sim, talvêz, xefǝ, mɐx não mǝ ɐpǝtecǝ.
- O quê? Mas concorda parcialmente com o que eu digo e escolhe não mudar para melhor?
- Pôix, axo qǝ ɐsim e.
- Ah, claro, pois, foi dito no início que os coplianos são imensamente teimosos.
- ∀dmitu qǝ e umɐ falhɐ nosɐ, mɐx prôntu. Olhǝ, veju qǝ já ɐqɐbô ɐ tartǝ, vai um qɐfezinhu?
- Ah, sim, acho que aceito, porque....

 

Um imenso estrondo abalou subitamente o edifício. A porta exterior abriu-se dramaticamente e uma brisa pútrida de cheiro a peixe invadiu o salão. Um homem de cabeça de bacalhau entrou calmamente e sem dizer nada dirigiu-se ao balcão. Equ e Ventura, apanhados desprevenidos, nem souberam o que fazer. O homem parecia procurar algo.
Ah, está ali, como é que isto me escapou?
Contornou o balcão e pegou numa máquina de café expresso anacrónica. Tão calmamente como entrou encaminhou-se para a saída. A porta do salão fechou-se automaticamente. O cheiro a peixe desapareceu.

 

- Bôm, - continuou Equ Onolatru. - u pɐtrãozinhu vai dǝsǝjar pɐsar ɐqui ɐ nôitǝ?
- Ah é assim? Sem mais nem menos? Não se discute o que.... Bom, está bem, já sei o que a casa gasta, nem vou dizer mais nada. Sim, claro, meu caro, prepare-me um quarto confortável e trate também do meu cavalo, que ainda deve lá estar fora, se calhar a travar amizade com outros os seres de orelhas grandes que lá estavam.
- A, ux burux lá forɐ? Nǝm mǝ digɐ nadɐ! A um mêx pɐsô pur ɐqui um izercitu, vǝijɐ lá, i u qumɐndɐntǝ lǝvô-mǝ um buritu! U omǝm erɐ mɐluqu!
- Devia ouvir muito o Fernando Correia Marques, se calhar. Pronto, acho que era a última piada que me faltava fazer. Mostre-me então o quarto, se fizer o favor, que tenho de fazer alguma manutenção no meu equipamento.
- A, qôm cǝrtêzɐ, pɐtrão, sigɐ-mǝ.

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publicado às 23:34


A Emboscada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 05.02.17

- Pois bem, Guarda Real, a vossa missão é capturar o traidor a todo o custo. A nossa rede de espiões elfinhos na floresta das Fadas Vogais reportou que Ventura Lobo conseguiu evitar algo chamado "o Tributo", e dirige-se agora na direcção deste desfiladeiro. Colocai-vos nos dois lados e escondam-se, para assim o podermos rodear e impedir a sua nefasta missão.
- Mas meu Capitão, precisamente o que é que ele vai fazer? - disse um.
- Ele foi contratado por inimigos do Reino para destruir um grimório poderosíssimo que seria imensamente útil para o nosso Divino Rei.
- Mas eu ouvi dizer que ele foi contratado pelo Rei pa' ir buscar esse livro. - disse outro.
- Mentiras! Hás-de me dizer onde ouviste isso para eu poder fazer as minhas investigações.
- Eu ouvi dizer que ele humilhou o Capitão à frente do Rei! - gozou um terceiro.
- Olha lá, eu estou mesmo aqui à tua frente! Queres que te envie para as terras esquecidas de Moranis, onde insectos gigantes lutam constantemente uns com os outros? Ouvi dizer que a fronteira lá precisa de patrulhadores!
- Desculpe, meu Capitão, continências e tal.
- Idiota! Não existem continências em contextos medievais! Normalmente é uma coisa mais máscula tipo bater com o punho no peito.
O soldado dá um valente murro no peito do Capitão da Guarda Real, em sinal de obediência.
- No TEU, débil mental!

- Meu Capitão! Vem aí um cavaleiro!
- Ah! Vejamos se é ele. Dá-me o monóculo mágico que permite ver mais perto.
- Só tenho aqui uns binóculos mágicos, meu Capitão!
- Parte-o ao meio então! Desenrasca-te!

- Ah, não é ele, este tem uma cara estranha... Deixem-no passar, mas estejam atentos!

 

O intrépido Ventura Lobo, montado orgulhosamente em Sara, a égua Maglu, percorria tranquilamente um trilho que ia na direcção geral do Norte. Era mais que evidente que Ventura estava perdido há vários dias, e ele não fazia ideia alguma se aquele trilho o levaria a uma qualquer cidade fantástica e esquecida ou se o levaria a algum canto decrépito, podre, sujo e corrupto do mundo, com a pior escória da Humanidade e afins, onde segredos se trocam em casas de venda de pinheiros.
A paisagem era triste num relance, pois as florestas das Fadas Vogais rapidamente deram lugar a desfiladeiros cortantes e picos áridos. No entanto, com atenção, era possível observar-se vida colorida mesmo naquela terra inóspita. Louva-a-deus enormes e vermelhos lutavam uns com os outros em duelos mortais enquanto outros insectos observavam expectantemente, esperançosos talvez em comer algum membro que fosse decepado para longe, ou então porventura teriam uma aposta num dos lutadores. Cabras de barba loura escalavam os montes escuros sem qualquer tipo de equipamento artificial, com excepção da GoPro montada num dos longuíssimos cornos, com uma saliência já natural onde se colocava o aparelho.
- Será que se eles lançam uma GoPro diferente, estas cabras têm de passar umas quantas gerações sem poder escalar até a saliência se mutar adequadamente?
A pergunta Darwinista ecoou no pensamento de Ventura Lobo enquanto observava umas águias azuis a perscrutar o terreno acidentado, procurando a próxima presa, provavelmente um dos chiuauas que corriam nervosamente de um lado para o outro, aparentando cavar túneis.
O trilho que Ventura percorria descia agora para um desfiladeiro relativamente apertado e sombrio. Parecia afundar-se de modo a que apenas raramente a luz pudesse lá penetrar.
- Não sei Sara, algo me diz que algo de mau poderá acontecer. Nunca gostei de sítios apertados. Não que eu perceba muito sobre isso... Bom, é como eu disse no episódio inicial: farei tudo pelo enredo. 'Bora.
A espada Venceslau tremeu.
- Sim, está bem, vamos embora, pronto.

Ventura instruiu Sara para descer, mesmo perante a sua relutância em fazê-lo. Com o passar do tempo, o hábito das íngremes paredes escuras trouxe alguma tranquilidade à montada de Ventura Lobo, mas não a ele próprio.
- Sinto que algo não está bem. Não sei porquê. É estranho. Eu quero dobrar o pescoço para cima para me certificar que está tudo efectivamente bem, mas alguma coisa me impede de o fazer.
Era evidente que se se permitisse que Ventura Lobo olhasse para cima seria bastante provável que ele descobriria o título deste episódio, ou pelo menos o diálogo sobre as preparações da Guarda Real sob as ordens do Capitão respectivo. Se assim fosse, Ventura perderia todo o suspense que lhe alimenta a paranóia, sentimento este necessário para os encontros vindouros terem o efeito desejado. Como tal, é através do poder da narração que se mantém o herói desta saga na ignorância expectante.
Uma ligeira neblina húmida instalou-se no desfiladeiro, para maior consternação do aventureiro. Imediatamente a seguir, pareceu-lhe ouvir o barulho de passos. Muitos deles, de facto.
- Parece um exército a marchar!
O rumor aumentava de volume e clareza.
- É certamente um exército. O barulho é inconfundível. Será o Concorde de Otto'Gháfiq?
Pensou em voltar para trás, ou então em arranjar um sítio para se esconder, mas era tarde demais. As silhuetas de homens começavam a distinguir-se na névoa. Para surpresa de Ventura, pareciam ser soldados do Reino.
- O que é que estão soldados do Reino aqui a fazer? Essa agora!
Um detalhe mais peculiar era que o líder destes soldados vinha montado num burrinho minúsculo, tanto que este comandante tinha de levantar as pernas para não irem a roçar no chão.
- Mas é absurdo...
O exército parou de marchar. O comandante e um ajudante a pé aproximaram-se de Ventura.

- Pois bem Rabanete, como vês, eu disse que encontraríamos o inimigo! Cá o temos. Atacar! Em frente! MARCHE!
- Noto que é apenas um único cavaleiro, meu General. Noto igualmente que ele não tem o aspecto do inimigo que estamos à procura.
- Ah? Ah, bom, não sei, Nabo, nunca se pode ter precauções a mais. Inquira-o!
O ajudante aproxima-se de Ventura Lobo, incrédulo com a situação.
- Saudações homem de bem. Poderá saber, ou não, que este é um exército pertencente ao Reino. Estamos em missão e agradeceríamos se nos pudesse disponibilizar algumas informações.
- É verdade que já vos havia identificado como o senhor vos descreveu, mas não deixa de ser algo inesperado ver tal força militar num local tão inóspito como o Norte. No entanto, estou disponível para vos responder às questões que tenham, apesar de não poder garantir uma resposta satisfatória.
- Evidentemente. Queira seguir-me.
Ventura desmontou e acompanhou o ajudante, cujo nome parecia não estar claramente definido.

- Pois bem, identifique-se! - gritou o General. - Aviso que sei bem distinguir os meus inimigos de quem é leal ao Rei!
O ajudante tocou-lhe levemente nas costas.
- Informo o meu General que se encontra a interrogar uma pedra.
- Sei bem que é uma pedra, Curgete! Há que ter a certeza que não estamos a ser espiados.
- Devo afirmar que as pedras não são seres sencientes.
- Com ou sem cientes, não se pode confiar nestes monstros, Pepino! Quem é esse aí que trazes atrás de ti!?
- Respondo que é o cavaleiro responsável pela nossa paragem. Está disponível e pronto para o seu questionário.
O General aproxima-se de Sara, ignorando completamente Ventura Lobo.
- Quem és? Donde vens? Para onde vais!?
- General, se me permitir a ousadia, creio que o seu ajudante de nome ambíguo se referia a mim. De qualquer forma, Sara, a égua com que está a tentar estabelecer contacto, não lhe consegue reciprocar a comunicação no mesmo nível que o General usa.
- Ah, então és tu! Atacar! MARCHE!
- Declaro, meu General, que esse indivíduo não é o nosso inimigo, ou pelo menos ainda não se revelou como tal.
- És muito ingénuo, Brócolo. Em primeiro defendes a pedra, e agora este cavalo. Mas muito bem, vou deixá-lo explicar-se. Certamente terá uma razão para nos ter atacado tão cobardemente!
Ventura Lobo olhou para o ajudante à procura de algum tipo de elucidação, mas este manteve uma postura neutra imutável, esperando igualmente a resposta de Ventura.
- Bom... enfim... apresentar-me-ei, então. Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante, em missão importante em nome do Rei. Venho das terras das Fadas Vogais e...
- As Fadas Vogais! Atacar! MARCHE! Em Frente!
O General, montado no seu burrinho, troteou energicamente na direção contrária àquela que tinha vindo. O exército abriu alas organizadamente, como se estivesse habituado a tais operações.
- Mas onde é que ele vai?
- O General voltará dentro de momentos, assim que se esquecer do que estava a fazer. Peço que aguarde.
- Entretanto será que poderia pedir que me explicasse o que raio é que vocês estão aqui a fazer?
- Não sei se o meu senhor aventureiro estará a par, mas estamos em guerra com as Fadas Vogais, e marchamos ao encontro delas, para a Glória do Reino.
- Mas... mas essa guerra já acabou... As Fadas Vogais já foram derrotadas há muito tempo. Exactamente há quanto tempo é que andam a marchar?
- Há alguns meses. Infelizmente, como o General nunca viu uma fada, ele acha que tudo o que vê é uma. Até já me confundiu de vez em quando com uma. Uma outra vez perseguimos uma matilha de cães selvagens durante duas semanas. Consequentemente, os nossos movimentos são extremamente imprevisíveis, o que nos daria talvez uma vantagem táctica sobre as fadas, se alguma vez as alcançássemos.
O General voltou e carregou furiosamente sobre um arbusto seco.
- Homens, atacar!
Cinco soldados atiraram-se diligentemente ao arbusto, destruindo-o com golpes exagerados de espada.
- Sois todos doidos! Isto é absurdo!
- Nego tais acusações. O único louco aqui do qual tenho confirmadamente conhecimento é o General. Todos os outros apenas seguem ordens, eu inclusive.
- O senhor está então consciente da insanidade das ordens do seu superior?
- Não me compete questionar.
- Pois, é evidente que não. Se o fizesse daria em doido também, pelo que vejo.
- Precisamente.

- Hurra! Vitória! As fadas foram derrotadas!
- Ouso informar o meu General que aparentemente as fadas já foram derrotadas há muito tempo.
- Tolices, Couve-Flor! Nem há cinco minutos as derrotámos!
- Arrisco declarar que as fadas não têm o aspecto de arbustos secos. Este aventureiro relatou que a guerra com as fadas já acabou há muito, e que não chegámos a tempo para intervir.
O General dirigiu-se mais uma vez a Sara.
- Mas tu vieste de lá!? Que caminho tomaste? Talvez ainda cheguemos a tempo!
- Não, não está a perceber... - tentou responder lateralmente Ventura.
- O teu cavalo está a falar! Espantoso! Diz-me, nobre corcel, consegues responder-me à pergunta que o teu mestre se recusa?
- Ah, mas agora eu é que sou o cavalo? Essa agora! Mas...
- Sugiro que simplesmente responda. É mais fácil para todos.
- Ah... e devo fazer ... um sotaque equino?
- É impossível dizer com certeza. Experimente.
- Bom, na verdade têm apenas de seguir este trilho até chegarem à floresta das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a.
- Santinho! Pois bem, como vê, até o seu cavalo é mais fiel ao seu país que o mestre. Hei-de propor que seja executado como traidor! Gabiru!
Sara, apesar de ter percebido pouco, não deixou de se sentir algo triste devido ao insulto.
- Homens, em fila! MARCHE, para a vitória.
E seguiu na direcção contrária à que devia ir.
- Obrigado pela disponibilidade, aventureiro. Boa sorte.
- Pois bem, obrigado e igualmente, suponho eu. Essa agora! Ora essa...

Ventura decidiu fazer uma breve pausa e descansar, até porque imaginava que daí a pouco tempo veria de novo o exército a passar, mas desta vez na direcção correcta. Seria fútil tentar continuar o seu caminho enquanto o desfiladeiro estivesse repleto de soldados a atacar arbustos.
De facto, enquanto apreciava uns bolorentos biscoitos de Yih, esquecidos no fundo do seu alforge, começou a notar um novo rumor vindo do desfiladeiro, mas mais grave e constante. Já não parecia um exército.
Ventura levantou-se e no meio da neblina viu duas luzes afastadas uma da outra. Um objecto penetrava no nevoeiro denso na sua direção.
Qual não é a surpresa de Ventura quando vê uma carroça fechada de metal brilhante, com uma configuração estranhíssima, a irromper pela névoa. Fazia um barulho nefasto que a mente de Ventura apenas pôde comparar com o barulho das máquinas dos engenheiros de autómatos das Minas de Lesi.
A carroça parou ao ver Ventura. Viam-se claramente três humanos a gesticular lá dentro. Uma das janelas de vidro da carroça desce como que por magia. Um homem calvo de bigode farto chama pelo aventureiro.
- Olhe, desculpe lá, bom dia!
Ventura, ainda cauteloso, arrisca aproximar-se ligeiramente.
- Bom dia, caro viajante, devo dizer que...
- Olhe, nós andamos perdidos por aqui há uns vinte minutos, você por acaso não sabe como é que se volta para a A25?
- A A25? Nem sei o que isso é. Explique-se.
- Ai, eu bem te disse que ele não tinha o aspecto de saber...
- 'Tá calada mulher, deixa-me falar com o homem! Então mas onde é que é a auto-estrada?
- Auto-estrada? Como quem diz uma estrada automática?
- Ó pai, acho que ele 'tá a mangar contigo. Mando-lhe com a moca a ver se ele aprende?
- Tu 'tá calado, imbecil, andas a querer usar eça merda desde q'o teu tio ta deu. Oussa lá, não têm por aqui estrada nenhuma? Ou uma cidade onde a gente conciga pedir direcções?
Venceslau tremeu e começou a oscilar uma cor agressiva.
- Desde já peço, meu caro viandante, que tente fazer menos erros na linguagem, que a minha espada não gosta disso. Quanto à sua pergunta, receio ter que dizer que a única estrada que conheço aqui é o trilho que pode apanhar no final deste desfiladeiro. Fora disso, não conheço mais nada porque eu próprio sou forasteiro aqui.
- Estás a ver, eu disse-te, não quiseste ouvir, via-se logo que ele não era daqui.
- 'Tá calada mulher! Quanto à sua faca 'tou-me nas tintas, eu quero é ver se chego ao casamento a tempo, senão a gorda da noiva ainda come as entradas todas...
- Não fales assim da tua sobrinha, homem! Não tens vergonha!
- Há-de ser uma mulher respeitável, certamente, independentemente do seu apetite.
- Pai, ele 'tá a mangar contigo. 'Pera aí que já te mostro.
- Onde é que vais? Anda cá para dentro, ó idiota!
Uma porta abre-se na parte lateral da carroça e de lá sai um jovem magríssimo e enfezado com uma espécie de moca de madeira na mão.
- Então, ainda queres gozar é?
Ventura inclinou a cabeça, tentando perceber se deveria levar a ameaça a sério ou não. Desembainhou Venceslau, que tinha vindo a acumular a sua fúria desde o primeiro "'tá".
O jovem vacilou.
- Olha lá, ò pai, o campónio tem uma espada a sério!
- Anda cá pa' dentro, pá!
- Ai, Luís Miguel, deixa-te disso, filhinho, anda para dentro.
O Luís Miguel entrou e arrancaram usando toda a velocidade impressionante que aquela carroça de locomoção própria conseguia produzir.
Ou, por outras palavras, fugiram a sete pés. Não literalmente.
- Esta gente é doida. Vamos andando Sara, não quero apanhar mais malucos.

Era impossível determinar onde estaria o Sol, mas Ventura sabia que ainda seria de dia, pois ainda conseguia ver alguma coisa, por pouco que fosse. Depois de uma hora, aproximadamente, a serpentear pelo desfiladeiro, notou umas figuras sombrias agachadas ao pé das rochas.
- Ah espera lá, eu era suposto estar receoso de alguma coisa, mas nem sei bem o quê. Suponho que toda a maluquice anterior anulou qualquer sentimento de suspense e incerteza que eu poderia ter. também não é difícil reacender essa emoção. Em verdade digo que não gosto nada daquelas figuras escuras que se relevam na neblina misteriosamente.
Ventura desembainhou a sua espada de novo e desmontou Sara. Aproximou-se do vulto negro. Haviam vários espalhados pelas rochas, inclusive nas paredes.
"Será uma armadilha?" - pensou Ventura.
Estava muito perto de uma das figuras.


Tocou-lhe no ombro com a espada.

 

 

- Oi? Qué isto? Ouça lá, qué que o senhor quer?
Era um camponês simples e estava debruçado sobre as rochas à procura de algo.
- Ah, desculpe, pensei que... Porque carga de água é que estão vestidos de preto num sítio destes!?
- Olhe não sei, quando hoje viemos para aqui um gajo com cabeça de peixe pediu que viéssemos vestidos assim. E pagou bem. Então nem perguntámos.
- E o que é que fazem aqui?
- Estamos completamente às aranhas.
- O quê? Como assim? Não sabem?
- Não não, estamos literalmente a apanhar aranhas, que depois liquefazemo-las e fazemos xarope para...
- ALTO! Não quero saber, já é parvoíce a mais, vou montar e vou-me embora, boa sorte e tal. Irra!

- Vá Sara, vamos lá embora daqui, a galope! Estou farto desta gente!

O aventureiro percorreu o desfiladeiro velozmente, arremessando pedras e pó por onde passava. Depois de uma longa distância percorrida, achou que não seria má ideia deixar Sara descansar. Suspeitava que o desfiladeiro já estaria quase a terminar.
Precisamente quando reduz o passo, surge uma nova silhueta na neblina. Esta não tarda a revelar-se completamente. Era um cavaleiro, um guerreiro de aspecto horrendo. Parecia humano, excepto as suas feições, que se assemelhavam ligeiramente a um réptil. A sua pele era branca como osso, e a sua estatura magra e gasta. Era um albino, e apesar do seu aspecto, tinha ainda o que parecia ser um porte real e orgulhoso.
A sua arma mais visível era uma espada negra desconcertante.
- Espera lá... eu conheço-o. - murmurou Ventura Lobo.
A espada Venceslau também agitava de excitação.
Aproximou-se e cruzou o olhar com os olhos vermelhos do guerreiro albino.
- Saudações, senhor!
- Muito me impressiona com essa saudação, senhor. É raro encontrar tal cordialidade.
- Ah deveras. Permita-me que me apresente, sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante. Julgo, se não se ofender que o diga, que sei quem o senhor é.
- Não me admiraria, é frequente isso acontecer nos sítios menos prováveis.
- Falo então efectivamente com o Príncipe Elric de Melniboné?
- Assim o é, senhor Lobo.
- Ah, não me trate assim, ora essa! Sou o seu maior fã! É uma honra poder estar na sua presença! Então? Em que aventura perigosa é que o Michael Moorcock o colocou desta vez? Sua Majestade anda perdida pelo multiverso outra vez, não?
- Estranhas palavras as que me diz. Não sabia que eu poderia ter fãs, tendo em conta que a minha raça é odiada por todos no mundo que conhecem a tirania decadente de Melniboné. Igualmente não sei que é esse Michael Moorcock, nem posso dizer que alguma vez tenha ouvido nome tão exótico. Agora, quanto ao multiverso, é verdade que conheço teorias sobre esse conceito, mas não sei dizer se neste momento estou afectado por ele ou não.
- Ah, meu caro Príncipe, eu diria que está, tal como eu próprio estarei, pois isso explicaria muitos dos eventos peculiares que já observei no que julgo ser hoje.
- De facto, também eu poderia relatar situações semelhantes.
- A Tormentífera, está boa?
- Conheceis a Espada Negra?
- Conheço a sua espada, e sei do que é capaz. Tenho quase a certeza que eu próprio tenho uma espada semelhante.
Ventura Lobo desembainhou Venceslau e mostrou-a a Elric. Este, não percebendo porquê, começou igualmente a retirar Tormentífera da bainha, mas depois de algum esforço visível, conseguiu impedir-se.
- Interessante. As nossas espadas parecem ter alguma atração recíproca... Príncipe Elric, não lhe desejo mal, e creio que posso confiar que o senhor também não mo deseja. Por muito que me seja aliciante conversar consigo ou até partilhar uma aventura, temo que as nossas espadas nos coloquem como inimigos. Temo igualmente que venha a ter chatices devido a direitos de autor. Retomemos os nossos caminhos respectivos antes que as coisas se azedem.
- Não compreendi tudo o que disse, mas creio que concordo.
- Boa sorte na sua busca por Tanelorn.
- Tanelorn! Sabeis o caminho?
Ventura Lobo sorriu.
- No seu caso, acho que é sempre em frente. Adeus, Príncipe Elric de Melniboné!
- Adeus, Ventura Lobo!

Ambos desapareceram da vista do outro, mergulhando na neblina.

- Viste, Sara!? Elric de Melniboné! Não fazes ideia a sorte que tivemos em sair dali vivos! De pensar que vi uma das grandes figuras típicas de anti-heroísmo fantástico. E viste como me portei? Todo pipi e tal? Eish... mal posso acreditar.
Ventura Lobo estava tão excitado com o encontro inesperado que teve que nem notou a rampa subtil que o caminho foi fazendo enquanto massacrava Sara com algumas das aventuras horríveis de Elric. Saiu do desfiladeiro de volta para as terras do Norte. Era ainda dia, apesar de ser impossível saber quanto tempo na prática é que Ventura Lobo esteve perdido no multiverso.

- Estranho, parece-me que me estou a esquecer de algo...

 

Ainda nas bordas do desfiladeiro, um soldado apresenta-se ao Capitão da Guarda Real, o mau da fita.
- Meu Capitão, a emboscada falhou.
- Falhou!? Como assim!? Já viram o Ventura Lobo passar!?
- Sabemos que ele já saiu do desfiladeiro.
- E como é que não o viram!?
- Aparentemente, o narrador estava distraído com um outro assunto sobre um Príncipe qualquer e esqueceu-se completamente de incluir a emboscada que dá o título a este episódio.
- Ah, maldição! Escapaste desta vez Ventura, mas eu encontrar-te-ei de novo.

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publicado às 23:15


O Tributo - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 23.12.16

Ventura Lobo e a Fada A'á'a encaminham-se em direcção à capital das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a, perante estupefacção do aventureiro.

À volta e em cima da cidade flutuavam magicamente árvores como se tivessem sido arrancadas pela raiz e postas a voar. Poder-se-ia dizer que nenhuma das várias construções que compunham a cidade implicou a morte de uma árvore provavelmente milenar.
A cidade era composta apenas de edifícios imensos, semelhantes a palácios, de pedras enegrecidas pelo tempo, cobertas de musgo fresco e viçoso e trepadas incessantemente por heras e videiras. Certamente nenhum daqueles palácios poderia ser uma habitação particular, pois se assim fosse a cidade teria de ser gigantesca para acomodar a população substancial de fadas que percorriam as ruas abertas e movimentadas, tanto por terra como por ar.
De todas a direcções surgiam fadas que, se não estivessem ocupadas com algum assunto urgente, paravam o seu voo e aproximavam-se de Ventura. Pareciam bisbilhotar alegremente a aparição do forasteiro, talvez quase jocosamente. A'á'a não parecia minimamente divertida com o que ouvia as outras fadas dizer, mas Ventura podia apenas adivinhar pelo tom gozão das suas vozes que algo não batia certo. Por outro lado, surpreendeu-se ao verificar que a beleza destas fadas era totalmente comparável ou ainda maior do que a de A'á'a. E não, não vai ser utilizado o cliché de que esta situação ainda é um sonho e que no final do episódio o Ventura vai acordar com Sara, a égua, a lamber-lhe a cara no início de uma cena sensual/sexual. Nada disso. É garantido que tudo o que está a ser descrito está efectivamente a ocorrer no contexto da narrativa.
Chegam, arrastando a multidão que se amassara, a uma majestosa praça decorada de estátuas de madeira, também elas flutuantes, como se tivessem sido directamente entalhadas a partir de uma árvore. No fundo desta praça situava-se o maior e mais esplendoroso palácio da cidade, com uma imensa escadaria larga que elevava o edifício acima de todos. É para este palácio que A'á'a dirige Ventura.
Ao começarem a escalada dos degraus, a multidão subitamente pára e desbarata desorganizadamente. Um esquadrão de fadas soldadas surgiram da porta gigantesca do palácio, equipadas de armaduras poderosas e alabardas intimidantes. Rodearam Ventura e A'á'a e escoltaram-nos para o interior do palácio. Nem uma palavra foi trocada.

A entrada dava acesso imediato a um salão enorme, alto e longo, tornando as figuras na outra ponta do salão ridiculamente pequenas. Janelas no tecto e nos pontos mais altos permitiam um vaivém constante de fadas que traziam todo o tipo de objectos, comidas e animais.
Depois do que pareceu uma eternidade, Ventura alcançou finalmente o seu destino aparente, apesar de estar absolutamente confuso com o intuito da sua presença ali.
As figuras minúsculas que se distinguiam dificilmente da entrada eram obviamente também fadas, mas pelas vestimentas relativamente mais trabalhadas e decoradas poder-se-ia deduzir que eram fadas de estatura social superior, como se fossem algum tipo de conselho. Todas observavam o recém-chegado, excepto a fada que estava no centro. Esta era muito maior que as outras, e estava sentada num trono colossal proporcional ao palácio. Estava distraída a comer um cacho de frutas que Ventura nunca vira antes.

- Essa agora...

Ventura notou que a fada no trono tinha um bigode preto e feições ligeiras de homem.
Antes que se pudesse questionar sobre esse facto, A'á'a atinge o chão com a ponta do cabo da lança. O eco preenche o salão e a fada no trono finalmente nota que lhe requerem uma audiência.

- Ã? Aaa'a a aã áà a? - perguntou a sua voz delicada. - Ã ã ã a a?
Uma das fadas do conselho responde à pergunta.
- Ã ã, a A. A á A'á'a, aa aa'a à ã ââ.
- A! A'á'a... a, a... aa'a'a'â aa a'a aa a?
- Aaa'áà! - reponde A'á'a, apontando para Ventura.
Risada geral. Ventura, para não parecer mal-educado, começa a rir-se também.
- Evidentemente, hilariante.
A'á'a enrubesceu ao ponto de parecer que o sangue lhe iria explodir das bochechas.
- Muito bem. Podes afastar-te. Eu falo com ele. - disse a fada principal.
A'á'a afastou-se, obedecendo e deixando Ventura isolado no meio do salão.
- Mau, mas agora já há alguém que fale algo que eu perceba?
A fada levantou-se e esticou as suas enormes asas.
- Olha, e ainda por cima tem asas!... As outras não têm...
- Ah, nem sequer sabes quem sou? É evidente que não. Nenhum de vós da Terra das Consoantes sabe. Eu sou o Rei A, Senhor das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a, Grande Comandante do uso da Vogal A e todas as suas entoações.
Ventura ainda não se tinha apercebido que estava na presença de realeza. Mudou imediatamente a sua postura.
- Ah perdoe-me Majestade, se era evidente que o porte dos aqui presentes me permitia induzir que estou rodeado de nobreza, nunca pensei que um Rei fosse magnânimo ao ponto de suportar uma audiência com um pobre aventureiro. Espero que aceite um pedido de desculpas sincero e espero que a sua indulgência seja maior que a minha ignorância.
- A, a, a! Este é engraçado, é pois! Ingénuo também, mas todos os que são apanhados no feitiço das minhas súbditas acabam por o ser! Entreténs-me, forasteiro. Apresenta-te!
- Com certeza! Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante. Venho numa demanda e calhou que o acaso me abençoasse com uma visita às suas terras, apesar de ter de confessar que a sua cidade, fabulosa que seja, não é por infelicidade o meu destino.
- A, A, A! - riu-se alegremente o Rei A, mostrando uns dentes brancos muito grandes, tortos ao ponto de parecer que queriam sair da sua boca. - Gosto de te ouvir falar. Os da tua espécie têm normalmente outro tipo de discurso. A, A, A!
A alusão era certamente à guerra recente com os homens do Reino. Nunca na sua vida teve Ventura de ter tanto cuidado com o que dizia.
- Ah, é verdade Majestade. Sabe, às vezes apetece-me fugir do meu próprio povo só de pensar nas barbáries que dizem e que fazem sem sentido algum.
- Barbáries! Pois são! Barbáries! São um povo nefasto que não compreende o conceito de honra! São um povo egoísta que pensa que as minhas preparações militares são para os invadir! São um povo estúpido que não compreende as ramificações da derrota que nos causaram!
Ventura engoliu em seco. Temeu que o ambiente começasse a aquecer.
- Tenho de começar de novo para lutar contra a Rainha Negra. Rearmar as minhas guerreiras! Encontrar a Rainha Branca! Fadas minhas súbditas! Que notícias tendes!? Encontrem-na! Que novas há dos Sete Mares!?
Fadas inundaram o salão, vindas de todas as janelas, não se entrechocando por aparente milagre. Todas comunicaram algo ao Rei Fada, mas nenhuma afirmação o alegrou!
- Procurai pois! Ide!
E tão rapidamente quanto entraram, as fadas esvaziaram a grande sala da sua presença.
- A, Ventura Lobo, ainda aí estás, é claro!
- É verdade, algo confuso, mas enfim.
- Conta-me como aqui chegaste. Como A'á'a te conseguiu vencer.
- Vencer? Como assim, Majestade?
- Lutaste com ela, não é verdade?
- Sim, de facto.
- E estás aqui porque ela venceu-te em combate, não é?
- Rei A, perdão, mas não posso confirmar que tal tenha acontecido.
- Como!? Então como é que estás aqui? Ela declarou-te Tributário! Ou ouvi mal?
- Eu não sei o que Sua Majestade ouviu, e não percebo a vossa língua para poder saber o que ela disse.
- Mas porque é que a seguiste se ela não te venceu?
- Não sei, ela insistiu que eu viesse e eu aquiesci.
- Vieste de livre vontade?
- Sim.
- Mas no fundo, foi ela que te trouxe?
- Assim é, suponho eu.
- A A A! Nunca pensei! Nada nas nossas regras diz que o Tributário tem de combater. Tem é de ser trazido por uma Fada. Bem feito, A'á'a, muito original.
Ventura Lobo olhou para a fada com um olhar confuso. É verdade que não estava em perigo, mas não deixou de pensar que tinha sido enganado. A'á'a desviou o olhar e a face, aparentemente envergonhada pelo logro aplicado.
- Magnânimo Rei, permita-me afirmar que estou às aranhas sobre o que é que se está a passar.
- Eu explicarei, então. A'á'a é uma guerreira iniciante e é objectivo delas guardar a fronteira. Quando um intruso aparece elas devem fazer o possível para capturá-lo e trazê-lo aqui para oferecer um Tributo por ter passado nas nossas terras. Já ouviste falar no Tributo?
- Confesso que não.
- Simplesmente dito, as minhas fadas súbditas conseguem absorver uma porção do poder de alguém que tenham amado. Como indivíduos do género masculino são raros por estas bandas e as fadas são todas fêmeas, com excepção de mim próprio, quando um homem aparece temos de nos certificar que quaisquer poderes ou conhecimentos que ele tenha sejam passados para a guerreira mais merecedora.
- E por "amado" querem dizer...
Todas as fadas nobres riram-se ligeiramente.
- Sim, sexo, vá, calem-se meninas, acho que ele já percebeu a implicação. O Tributo em si consiste em o indivíduo oferecer-se para ser amado como compensação por ter transgredido as nossas fronteiras.
- Qual é o revés de me oferecer como Tributo?
- Nenhum, diria eu. Existem alguns efeitos secundários possíveis, mas facilmente ignoráveis.
- Mau. Perdoe-me, mas tenho de perguntar o que é que Sua Majestade quer implicar com esse comentário.
- Para ser sincero, e sê-lo-ei porque me divertes, Ventura Lobo, é que quando uma guerreira ganha o direito de te ter como Tributo, ela pode escolher absorver mais do que deve de ti, podendo causar sérios problemas de saúde.
- Ao nível de uma constipação ou mesmo uma gripe?
- No mínimo. No pior dos casos, a morte.
- Ah, evidentemente, é compreensível. Posso supor que a segunda possibilidade é mais estatisticamente provável de acontecer?
- É verdade.
- Ah, Majestade, deve compreender que preciso de estar vivo para completar a minha demanda. Se não fosse por isso, ainda talvez ficasse por aqui, de facto, nem que fosse para morrer da maneira mais viril possível, pelo menos pelos padrões da cultura grosseira em que vivo. Talvez possa cá voltar depois?
- Não podes, és o Tributário e as Fadas Seguintes estão ansiosas para começar.
- Ai ai ai, agora quem é que são estas Fadas Seguintes? Com maiúscula não pode ser bom sinal.
- Na nossa cultura existe uma ordem pela qual as Fadas podem exigir competir pelo Tributo. Estas fadas que nos rodeiam aqui são as vinte primeiras das Seguintes. Todas as outras guerreiras do meu reino terão de esperar que mais ninguém à sua frente na Lista queira competir. A fada A'á'a, que te trouxe, estava nas camadas inferiores. Tendo-te trazido, será elevada ligeiramente na Lista como recompensa, mas terá de trazer muitos mais até chegar sequer perto das Vinte Seguintes.
- É um processo a longo prazo então? Muito interessante. Eu estaria absolutamente maravilhado com isto tudo se não pensasse que isto pode levar à minha morte horrivelmente agradável. Por acaso nenhuma das fadas aqui é parecida com a Sharon Stone, pois não? Essa se calhar eu passaria, para não arriscar.
- Não podes passar. És o Tributário, não tens direito de escolha.
- Espere lá, Sua Majestade e tal... Eu não posso recusar oferecer-me como Tributo?
- Para isso terias de ter derrotado A'á'a em combate, ou recusado teres vindo com ela, no teu caso.
- Olhe lá, menina A'á'a, depois temos de ter uma palavrinha. Olhe lá, Fada Rei, então não tenho maneira alguma de me safar desta situação, segundo as vossas regras?
- Bom, não compreendo porque é que o farias, mas podes lutar com cada uma das Seguintes da lista. Elas têm sempre de provar que merecem usufruir do Tributo, lutando com ele, mas raro é o homem que realmente concorda em lutar.
- Pois, as hormonas e tal.... Enfim, já estou mesmo a ver onde é que isto vai... Quando é que começam os combates? Estou com pressa.
- COMO!? Não estás a planear realmente lutar contra as Fadas Seguintes para evitares ser o Tributário?
- Lá terá de ser, enfim.
O Rei A fez uma ligeira pausa de estupefacção. Pensava que toda a linha das perguntas de Ventura tinham uma razão de curiosidade cultural, mas que acabaria por obviamente aceitar o seu papel como Tributário. O seu bigode preto curvou-se num sorriso imenso.
- A A A A A! És deveras divertido, Ventura Lobo! Os combates, se assim o queres, serão amanhã, na praça principal de Áaaa'Aaaa'Àaaa A Ãaá, mesmo em frente a este palácio. Aviso-te que defrontarás as melhores guerreiras do meu reino, aquelas que mais poderes absorveram de outros homens de todas as raças e feitios! Como tal, descansa bem, alimenta-te e aplica os curativos que necessitares. Ditam as regras que até aos combates continuas a ser responsabilidade da fada que te trouxe. A'á'a! - gritou para o salão, convocando a guerreira que efectivamente tramara Ventura. - Ficas incumbida de colocar o nosso Tributário actual num estado óptimo de preparação para os combates de amanhã. Bem vistas as coisas, se calhar não devia usar o plural, pois não imagino que consiga derrotar uma única das Seguintes, se até com A'á'a teve dificuldade.
Nova risada zombadora por parte das Seguintes, enfurecendo A'á'a. Esta pegou em Ventura pelo braço e encaminhou-o para fora do palácio, onde Sara o esperava fielmente.

- Sabe, neste momento deveria estar a usar o meu tempo para congeminar um insulto que estivesse à altura da sua intrujice. - disse Ventura enquanto a fada o encaminhava para um palacete dedicado aos Tributários. - No entanto, enquanto estivemos em silêncio a caminhar em direcção ao exterior, tive tempo para reflectir nas razões que a levaram a enganar-me. Já agora, porque carga de água é que precisam de um salão tão grande? Deve ser extremamente inconveniente para os visitantes diplomáticos. Enfim, peço que me ouça e me diga se não adivinhei correctamente a situação. Aqui vai: a menina, por ser de uma classe militar inferior, tem de capturar forasteiros e trazê-los à presença do Rei e das Fadas Seguintes. No entanto, teve o azar de lhe ser atribuída uma zona onde apenas muito raramente, ou mesmo nunca, aparecem intrusos, nomeadamente a caverna que dá acesso à cidade esquecida de Ruqum. Não sei como é que essa atribuição é feita, mas certamente com o passar do tempo a menina foi sendo tornada uma espécie de piada entre as suas semelhantes, pois está numa posição em que lhe é impossível progredir na pouco misericordiosa escada social da vossa cultura. Daí que haja tantas fadas a rir-se jocosamente quando falam de si.
A'á'a não olhava para Ventura, mas este percebia que ela estava a tomar total atenção à sua tese. Continuaram a andar, alheios aos olhares curiosos e divertidos das outras Fadas Vogais que passavam.
Ventura continuou:
- Ora, eis que apareço, um homem inconsciente e ferido com aspecto de ser um tanso que cairia facilmente na lengalenga de uma face bonita. Era a sua oportunidade. Neste aspecto ainda não compreendi porque é que tratou das minhas feridas antes de eu acordar, mas estou a supor que talvez seja alguma noção de honra que seja importante para vós aqui. Seja como for, depois de eu a ter derrotado, justamente, diria eu, sem ofensa, ficou aterrorizada por saber que a sua única oportunidade para sair do seu estado social inerte estava agora a escapar-se diante de si, literalmente. Agora, eu quero acreditar que o seu lamento consequente, que efectivamente foi a razão de eu mudar de ideias, foi honesto, pois certamente pareceu que sim, sendo carregado de uma tristeza profunda como há muito não sentia em alguém. Na altura prometeu-me que eu não seria colocado em perigo imediato, e realmente compreendo que, semanticamente falando, tal não ocorreu. Nisso se calhar tive eu a culpa, deveria ter sido mais cuidadoso com as perguntas que fiz.
Ventura fez uma ligeira pausa.
- Devo perguntar, menina A'á'a, e peço que me responda com sinceridade, se alguma coisa do que eu disse está completamente longe da verdade?
Ela parou e fixou-o. Tinha os olhos húmidos de culpa.
- Pois, exacto, mesmo em cheio, não é? Suponho que teve algum tipo de dilema ou problema de consciência ao "capturar-me" sem eu o saber?
Ela não aguentou olhar mais e simplesmente continuou o caminho. Já estavam perto do palacete.
- Eu percebo. - afirmou Ventura. - Juro que compreendo. Até sou bem capaz de a perdoar, desde que exista um sentimento de culpa em si e simultaneamente um desejo de demonstração de arrependimento.
- Â... - murmurou A'á'a, parando de novo e voltando-se ligeiramente para trás para confrontar Ventura que, para sua surpresa, desenhava nas suas feições uma expressão de indulgência sincera e não uma de juízo incompassivo.
- Não se preocupe, de certeza que amanhã os combates hão-de correr bem. Se este meu pequeno sacrifício a beneficiar, fá-lo-ei com todo o prazer.
- Ããã? Á áà aa'a aá'àa?
- Não faço ideia. Digamos que sim?
- Á! - exclamou, sorrindo pela primeira vez desde há muito.
- Fazemos as pazes então? - propôs Ventura, esticando a mão na direcção de A'á'a.
- Â ã. - concordou, tocando levemente na mão do aventureiro.
Ambos sorriram.

No dia seguinte de manhã, a multidão de fadas era quase tão grande e histérica como uma manifestação de feministas pró-escolha. As forças militares tiveram de intervir para impedir que as fadas espectadoras bloqueassem completamente a luz do Sol, tão densamente acumuladas estavam.
O Rei ordenou que a cerimónia começasse.
- Que venha o Tributário.
Ventura apareceu acompanhado de A'á'a, escoltados adicionalmente por membras da Guarda Vogal Real. Ventura parecia milagrosamente restabelecido. A'á'a aplicou-lhe os melhores curativos disponíveis no ombro ferido e alimentou-o com frutas imensamente nutritivas. Ele estava absolutamente fresco e pronto para combater, tendo mostrado alguns truques marciais à sua anfitriã ainda durante o dia e noite anteriores.
Ventura foi colocado no centro da praça. No cimo dos degraus do palácio estava o Rei rodeado pelas Vinte Fadas Seguintes.
- Como dita a tradição, a primeira Seguinte terá prioridade em escolher reclamar o tributo. Á'a, reclamas o Tributo!?
- Â â. - negou, para choque abafado da multidão. - Este humano nada tem para mim, já absorvi os poderes de humanos com aparência muito melhor. Não preciso dele. Prefiro passar.
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! A'aa'áà'aa'a!
- Â â. E passo pela mesma razão que Á'a. Prefiro deixá-lo para uma Seguinte que precise dele.
- Não sei se me hei-de sentir elogiado ou insultado, essa agora.
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! Aa'aa'aa!
- Â a! Aa'aa áà â ã a!
A multidão rugiu de satisfação. Aa'aa'aa reclamava como seu o Tributo.
- Tributário, Aa'aa'aa deseja reclamar-te! Aceitas ou pretendes defrontá-la para ela provar o seu valor!?
- Não quero ofender a beleza inigualável de nenhuma fada, mas não me posso permitir ser atrasado permanentemente na minha demanda. Rejeito-a como merecedora do Tributo. Se ela quiser provar o contrário, que venha.
Ventura desembainhou Venceslau e esperou, fazendo uns ligeiros exercícios de aquecimento.
- Não posso arriscar uma lesão, no ginásio dizem que faz mal não aquecer antes de exercício.
Aa'aa'aa começou a descer os numerosos degraus do palácio, apesar de ter podido simplesmente voado até à espécie de arena improvisada. Tinha uns longuíssimos cabelos lisos pretos apanhados num rabo de cavalo brilhante. A sua armadura prateada estava escondida atrás de sedas fogosamente coloridas de carmesim, laranja e amarelo. Tinha várias espadas semelhantes a gládios à cintura e reconheceu o seu escudo como sendo o de um nobre orgulhoso de Pútúíl, que eram guerreiros de considerável fama em termos da sua habilidade lutadora. Ventura pensou que Aa'aa'aa escolhera reclamar o Tributo para saber falar a língua dele, já que os homens de Pútúíl têm uma lingua estranha. Aa'aa'aa tinha adicionalmente uma lança curta, provavelmente alguma espécie de azagaia.
Assim que Aa'aa'aa deu um passo na praça principal, Ventura dirigiu-se a passo rápido a ela. Ela fez o mesmo.
- Vamos a despachar isto, vá.
Ventura correu e carregou sobre Aa'aa'aa. Fatiou o ar com a sua espada. Como esperava que a sua adversária conseguiria facilmente desviar-se do golpe, já tinha a mão esquerda preparada com a soqueira para a atingir. No entanto, não deu o soco com muita força, querendo apenas dar a entender a Aa'aa'aa que ele não era um alvo fácil a subestimar.
O aventureiro afastou-se por momentos, para deixar a fada recuperar.
- Em vez da soqueira, eu poderia ter uma das minhas adagas na mão. Este combate poderia já estar terminado. Sugiro que paremos por aqui e percebamos a futilidade de tudo isto.
Aa'aa'aa ignorou a sugestão. Lançou a azagaia contra Ventura e voou ela também na sua direcção, de escudo e gládio em riste. Ventura rodopiou agilmente para a esquerda, preparando-se para se defender do ataque da fada. O gládio chocou contra Venceslau e o metal faiscou. Ela, ainda a voar, curvou à volta de Ventura. Este preparou a besta e disparou, acertando-lhe na perna. A armadura não impediu que o dardo penetrasse na carne.
Caiu e escarrapachou-se no chão polido da praça. Levantou-se a custo, mas Ventura já tinha Venceslau alinhada com a garganta dela.
Aa'aa'aa largou as armas, assumindo a derrota.
A multidão guinchou de prazer, há muito que uma das Seguintes não era derrotada em combate semelhante, e ainda por cima tão rapidamente.
- Silêncio! - gritou o Rei A. - Que venha a Seguinte! Aaaaá!
Uma das Fadas Seguintes tomou voo imediatamente sem responder. Vinha desarmada em vestes verdes, vermelhas e pretas escondendo parcialmente uma armadura dourada. Assim que estava suficientemente próxima de Ventura, lançou-se num ataque a pique. Ele vira-a, obviamente, mas não deixou de estranhar o ataque e afastou-se. Ela aterrou e escapou-se imediatamente, indo-se esconder numa das árvores flutuantes da praça. Ventura inspecionou cuidadosamente a marca deixada no chão pelo ataque de Aaaaá. Estava lascado, como se tivesse sido rasgado por unhas bestiais.
Ouviu um resfolegar atrás de si. Rolou para trás tacticamente, imaginando outro ataque a pique. Precisamente, Aaaaá aterra mesmo à sua frente. O humano preparara-se melhor para uma luta com fadas voadoras. Lançou uma corda fina aos pés descalços da lutadora e puxou-a, surpreendendo-a. Antes que pudesse reagir, já Ventura prendera a outra ponta da corda a uma raíz de árvore protuberante.
É evidente que Aaaaá tentou cortar a corda, mas era demasiadamente resistente. Olhou, confusa, para Ventura Lobo, que sorria matreiramente. Este pôde finalmente avaliar melhor a sua oponente. Tinha uma tez muito mais morena que uma fada normal. Como já se tinha verificado, não tinha nenhuma arma, mas as suas mãos estavam munidas de garras brancas como marfim entre os dedos, exactamente iguais às de um homem-pantera de Muçbinq.
- Não sabia que as absorções de poder afectam tanto a mente como o corpo. Essas garras são um excelente apêndice mortal. Melhor e mais útil que o apêndice que os humanos têm. A senhora minha adversária estará sem dúvida a querer mais uma vez voar para adicionar mais uma dimensão a este combate, dimensão essa que eu não posso reciprocar. Dito isso, tive de equilibrar as coisas por baixo, à socialista, e portanto arranjei essa corda, manufacturada pelas próprias Fadas Vogais e que me foi oferecida pela responsável pela minha captura, a menina A'á'a. Aparentemente é praticamente inquebrável. Tendo isso em conta, proponho que desista deste combate, já que perdeu toda a vantagem que a sua capacidade de voo lhe dava.
A fada continuou futilmente a resistir e a tentar soltar a sua perna. Ventura aproximou-se a apontou-lhe a espada à garganta.
- Conceda derrota. Há apenas humildade a ganhar nesse acto, e não desonra.
Aaaaá retrai as perigosas garras em sinal de submissão. Ventura, satisfeito, começa a árdua tarefa de desfazer o nó na perna dela, cometendo a ingenuidade de não soltar a ponta atada à raíz em primeiro. Quando soltou Aaaaá da sua prisão, esta voa imediatamente e ataca Ventura antes que este pudesse desatar a corda da raíz. Ela raspa-lhe a armadura branca no braço direito e agarra-o pelo cabelo, puxando-o para trás. Ventura, não totalmente desorientado enquanto caía para o chão, agarra no seu punhal curvado Qanif e espetou-o num ponto fraco típico das armaduras fádicas, perfurando-a. Ela rugiu de dor e afastou-se. O aventureiro levantou-se e desta vez não ameaçou. Usou a espada Venceslau para trespassar a barriga de Aaaaá.

A multidão silenciou-se. Quando já não se ouvia o estertor de Aaaaá, algumas poucas, todas civis, começaram a lamentar a morte de uma tão digna membra das Seguintes. As restantes olhavam chocadas, mas sabiam que a morte era um risco nestes combates, mesmo que fosse raríssima.
Ventura procedeu lentamente para o centro da praça e aguardou calmamente a Seguinte.
- Mas... não pode ser... como? - balbuciou o Rei A. - Porquê, Ventura Lobo, o Impiedoso?
- Impiedoso? Estranho, não sei se viu daí de cima, mas foi Aaaaá que se desonrou. Ser impiedoso e ser justo são duas coisas diferentes! Seja como for, não quebrei nenhuma regra, suponho eu? A fada A'á'a forneceu-me esta corda fantástica porque lhe pedi, e segundo me lembro foi Sua Majestade que lhe ordenou para me colocar num "estado óptimo de preparação". Enfim, eis-me aqui, o vosso Tributo. Venha a Seguinte!
O rei fada tomou de novo a postura real, se algo forçosamente.
- Bem, está tudo segundo a tradição.... Continuemos. Seguinte! A'áà'ã!
- Â â. AA'a aa a ãâ ãaa'a áà!
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! Ãâaaã!
- Â â. - disse simplesmente.
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! Aã-aaâ!

Uma a uma, todas as Vinte Seguintes que restavam decidiram prescindir do tributo, ou porque não precisavam dos poderes e conhecimentos de Ventura, ou porque se aperceberam que poderiam ter o mesmo fim de Aaaaá.
- As Vinte Seguintes não querem reclamar o Tributo. Não chamarei mais nomes. Qualquer fada pode reclamar agora o Tributo! Se mais que uma o quiser, a que tiver mais acima na Lista terá prioridade óbvia. Apresentem-se, candidatas!
Ventura Lobo recomeçou os exercícios de aquecimento enquanto aguardava.
- Quer dizer, eu já aqueci há bocado, será que isto agora faz mal? Não, os gajos no futebol também aquecem antes da segunda parte, acho eu. É, vou aquecer.
Era uma figura ridícula, a de Ventura Lobo, isolado numa praça rodeada de fadas hesitantes em combater com ele individualmente, a fazer movimentos estranhos e repetitivos de aquecimento.
- Majestade, enquanto esperamos que se decidam, permita-me uma pergunta pertinente.
- Permito-o.
- O que é que acontece se ninguém quiser reclamar o Tributo?
- Bom... os reis antigos pensaram nisso, mas nunca aconteceu... Enfim, a regra é que o Tributário deverá ficar prisioneiro até que alguém o queira reclamar.
- Estou a ver que não há grande benefício em se ser o Tributário se o indivíduo em questão tiver pressa.
- Evidentemente não, mas normalmente a beleza das fadas é suficiente para vergar as mentes fracas dos homens.
- Obrigado pela resposta.
Ventura Lobo gritou para a multidão.
- Então!? Ninguém quer este Tributo tão apetecível? Imaginem só os poderes que devo ter! Olhem-me só estes músculos, hem? Cinco anos de crossfit mais ou menos constante!
Já todas as fadas haviam percebido que ninguém o defrontaria. Não agora, pelo menos. Este pensamento foi interrompido por um grito no meio de milhares de fadas silenciosas.
A fada A'á'a, a original capturadora de Ventura, caminhava em direcção a ele, de lança preparada. As restantes fadas não sabiam se haviam de rir ou não. Já se sabia que ela só o capturara porque o enganara, e não porque o vencera em combate. Ventura não pareceu surpreendido, sorrindo ligeiramente inclusive.
Os dois combatentes estavam a escassos metros um do outro.

 

 

Nenhum desastre, nenhum cataclismo, nenhuma magia negra teria impressionado mais a capital das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a do que o que aconteceu de seguida.
Ventura largou as suas armas diante de A'á'a sem oferecer qualquer tipo de resistência.
- Aceito ser o Tributo desta Fada Seguinte. - olhou para a guerreira e piscou-lhe o olho.
Esta sorriu-lhe de volta.
O Rei, num acesso de perspicácia, percebeu o estratagema daquele par.
- Não pode ser, proíbo-o!
- Porquê, essa agora? Nada foi feito contra as regras. Nenhuma das vossas lutadoras me conseguiu ter como Tributo, excepto esta. Faço notar que dei todas as oportunidades que podia para ser desafiado. Não o quisestes ou não o conseguistes. Não tenho culpa que as vossas guerreiras não estejam ao meu nível de mestria marcial.
- Então porque é que não lutaste com A'á'a?
- Seria uma injustiça para o mundo se eu magoasse a mais bela das Fadas vogais, não?

Foi o cúmulo.

Pode-se humilhar, maltratar e até matar uma fada na presença de outras, mas dizer que uma é mais bela que as outras todas é absolutamente inaceitável, principalmente porque cada uma acha que ela própria é que merece essa descrição. A'á'a quase que explodia de tão vermelha que ficou, mas quase ninguém reparou nisto, tendo em conta que todas as fadas estavam agora a puxar os cabelos umas às outras devido à discussão narcisista que escalou para um motim autêntico. Um motim literalmente muito bonito. Se a este cenário se adicionasse lama, gelatina ou pudim ter-se-iam as condições ideais para se realizar o sonho de muitos americanos labregos.
Ventura Lobo, apesar de tudo, não conseguiu deixar de apreciar o espectáculo à sua volta. A'á'a pegou-lhe pelo braço e arrastou-o dali para fora, aproveitando o caos para desaparecerem sorrateiramente, para enfado de Ventura.

Espera lá, ò narrador, vai fazer um xixi que eu tomo conta dos leitores, que tenho de falar com eles. Sim, vai lá.
Olá. Sou eu, o Autor. Apareci no episódio passado, se calhar lembram-se de mim. Tenho de interromper a narrativa para explicar umas coisas.
Certamente alguns de vós, mais inteligentes, terão percebido o que raio aconteceu para Ventura se ter safado desta situação. Como não posso assumir que todos sejam inteligentes a esse ponto (acredito piamente que maior parte dos leitores que chegaram aqui não perceberam sequer que há outros episódios para trás) sinto-me pressionado a completar alguns pontos da história que não foram propositadamente explicados, nem que seja para tentar homogeneizar os meus leitores em termos da compreensão da história (e não, "homogeneizar" não tem nada a ver com maricas, essa agora...).
Sem ofensa, claro.

Ora bem, durante o tempo que o Ventura esteve com a fada, mais ou menos desde que fizeram as pazes até à altura dos combates, eles pensaram num plano para libertar Ventura Lobo desta parvoíce toda. No final do episódio anterior arrependi-me de ter introduzido uma potencial personagem amorosa na história, porque quando eu escrevo sobre assuntos dos quais não percebo nada, a coisa tende a correr mal. Então tive durante semanas a pensar como é que me iria desenrascar agora desta, porque não poderia mandar um episódio inteiro para o lixo, tenho mais que fazer. Decidi então que o coitado do Ventura Lobo não iria ter nenhum tipo de relação amorosa com fada nenhuma, era o que faltava. Ora, a fada, como é boazinha e querida e tal, sente-se muita culpada por ter enganado o Ventura e quer redimir-se, ajudando-o a escapar dali. Eles apercebem-se que a melhor maneira de escaparem é seguir todas as regras dos combates. Seria preciso garantir que Ventura conseguisse ganhar todos os combates e, melhor ainda, garantir que ninguém mais quisesse lutar. Aí, a fada poderia reclamar o seu direito ao Tributo e assim Ventura ficaria à mercê dela. É claro que depois ela simplesmente deixá-lo-ia ir-se embora. A morte de uma das fadas não estava prevista, mas Ventura não teve opção, ele tinha de mostrar que não 'tava para brincadeiras. Também não estava previsto que o Rei notasse o subterfúgio tão facilmente, mas regras são regras e ele teve que aceitá-las. Claro que isso não o impediu de banir tanto Ventura Lobo como a própria fada A'á'a do seu reino. Aproveito para pedir desculpa pelos nomes dos personagens, mas já devem ter percebido que são propositadamente difíceis de ler.
Olhem, o narrador já voltou. Vá força, desculpa lá, aproveita que eles estão atentos.

Ventura Lobo e A'á'a riram-se imenso no caminho que os levava para fora da floresta em direcção ao Norte.
- Por um lado agora sou eu a sentir-me culpado por ter causado o teu exílio, mas por outro algo me diz que se calhar estarás melhor longe daquelas megeras.
Ela concordou.
- Eu sei que aquela última coisa que disse na praça não estava planeada, mas foi o que me veio à cabeça. Funcionou melhor do que estava à espera, amanhã ninguém se vai falar naquela cidade.
Ela corou um bocadinho, mas permaneceu silenciosa.
Chegaram à orla da imensa floresta no final da tarde.
- Tenho que dizer-te que é aqui que nos separamos, menina. Eu tenho uma demanda a concretizar, para a qual não te posso levar.
Desmontou Sara e aproximou-se de A'á'a. Esticou os braços, convidando um abraço.
- Tenho de te agradecer, por me teres "capturado" e por me teres libertado.
Hesitantemente, ela retribuiu o abraço, que mantiveram durante alguns segundos.
- Para onde irás? - perguntou ele.
- Na direcção dos Sete Mares de Re'ai. Há lá povoações independentes de Fadas Vogais, leais ou à Rainha Branca ou à Rainha Negra. Serei bem recebida lá.
- Ah, perfeito então, espero que tudo te corra bem, e que as minhas aventuras um dia me levem lá.
- Sim, gostaria muito. - e sorriu-lhe, não se notando as bochechas escarlates devido às cores fogosas do pôr-do-sol.
Ventura montou Sara e virou-se para o Norte.
- Adeus, A'á'a. Que aventura dos diabos, hem?
- Adeus, Ventura Lobo. Podes chamar-me Alana, se calhar é mais fácil para ti dizeres.
- Ah, certamente é, obrigado. Adeus, Alana, então! Eia Sara!
E partiu a galope.

 

 

 

 


Horas depois, subitamente, Ventura Lobo ordena a Sara que pare.
- Espera lá... Ela estava a falar. A falar a minha língua! Então afinal ela sabia falar e não me disse nada. Essa agora... Porquê? Teria sido tão mais fácil comunicar.
O aventureiro falhava em se aperceber do óbvio.
- A não ser... O Rei A bem disse que elas absorvem o poder de alguém que amem. Mas ele disse isso no sentido sexual e não tive nada disso com ela. Será que...? Será que a magia delas não faz diferença semântica no que toca ao verbo "amar"?
Levou a mão à cara, cobrindo os olhos numa careta desapontada. Olhou para trás. Já percorrera tanto. Ela já não estaria lá. Já era tarde demais.
Suspirou.
- Rumemos ao Norte. Vamos a aventuras mais divertidas, que lamechices destas só conseguem ser cómicas no Allo Allo.

 

Ò narrador, desculpa lá, não percebi esta última parte, então mas eu não tinha dito que não iria haver ligação amorosa entre os dois?
O que Ventura Lobo e o Autor não percebiam, aparentemente, é que há certas coisas que não se conseguem evitar. Com o tempo aprenderiam isso.
Agora virou astrólogo, o gajo.
- Essa agora.

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publicado às 03:24


A Fada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 11.11.16

Cansado e dorido, Ventura Lobo abre ligeiramente os olhos. Pareceu-lhe distinguir entre a névoa da sua visão uma cara ansiosa. Quando voltou a abrir os olhos, levantou-se lentamente, ficando em posição sentada, apoiado nos braços. Olhou em volta e viu que estava sozinho. Examinou-se.

Estava coberto de folhas na cara, nas mãos e nos pés descalços, mas não no resto do corpo, que ainda equipava a sua armadura branca. Só agora se lembrou que tinha um ferimento no ombro e perdeu imediatamente a força no braço esquerdo, colapsando num embate doloroso. Um ligeiro resfolegar chamou-lhe a atenção e Sara, a égua Maglu, apareceu-lhe por detrás de uma árvore. Estava calma e parecia já estar por ali a pastar há algum tempo.

Ventura levantou-se definitivamente com dificuldade. Aproximou-se de Sara, que o cumprimentou com um som assoprado.

- Que sonho mais estranho... Já passámos a Caverna? Onde é que estamos?

Ventura perscrutou o local a fundo. Estava numa pequena clareira de uma floresta aparentemente vasta, com anormalmente enormes árvores como pinheiros, sobreiros, carvalhos e freixos, todos em coexistência. Dezenas de espécies de arbustos e flores decoravam lindamente a base da floresta onde passeavam de forma ondeante e pacífica alguns prováveis lepidópteros, acompanhados por abelhões gigantescos de aspecto inofensivo. Dois pássaros de tamanho igual brincavam num ramo baixo de um carvalho. Um era perfeitamente branco e o outro tinha uma coloração castanha alourada. Voaram subitamente, entrechocando-se alegremente, talvez sentido-se timidamente observados ou talvez arriscando-se num jogo de romance mútuo, sendo impossível determinar qual perseguia o outro.

Ainda se notavam os cumes das montanhas da cordilheira Ruq. Ventura Lobo espreitou por entre as árvores gigantes e detectou o que parecia ser uma estrada no sopé da montanha, com uma abertura para uma caverna escura. Teria sido dali que tinha vindo, certamente, e chegara agora a um local que nunca ouvira sequer falar. Da pouca informação que existia sobre as terras do Norte, nunca algum mapa referiu uma tão exuberante floresta.

Ventura Lobo sentiu algo húmido no seu ombro ferido. Estava descoberto, facto esse que não tinha reparado antes, e nele vertia uma espécie de seiva pegajosa que começara a escorrer devido à gravidade. Ventura afastou a seiva e reparou, para sua surpresa, que a ferida tinha um aspecto muito mais saudável e limpo comparativamente à última vez que a inspeccionara. A dor persistia, mas pelo menos a infecção parecia ter sido combatida.

Mas quem é que o teria auxiliado? Não poderia supor que aquela seiva tivesse por sorte caído de uma árvore precisamente no sítio exacto do seu ferimento. Por outro lado, cenários mais absurdos já lhe tinham ocorrido e talvez Ventura estivesse apenas a fazer jus ao seu nome.

Encontrou a maior parte do seu equipamento na clareira. O seu sabre Ahmet estava mais afastado, temporariamente perdido no trilho por onde Ventura entrou na floresta. Recolocou a sua ombreira esquerda, pois já conseguia suportar o desconforto de o fazer e preferia ter a protecção adicional, mesmo que ligeiramente danificada. A espada Venceslau não estava em sítio algum, apesar de a bainha estar ainda presa à sela de Sara. De sabre em mão, Ventura explorou a uma distância pequena da clareira, pois sabia que Venceslau não poderia ter caído ao chão sem intervenção manual. Começou a perceber que se calhar não estava sozinho.

Era difícil encontrar pegadas ou outros indícios de companhia. A erva, ao ser pisada, restabelecia-se como que por magia na posição original sem aparência alguma de dano.

 

- A, a, a....

 

Ventura ouviu o que parecia ser uma leve gargalhada distante e ecoante. Não conseguiu precisar a direcção. Voltou cuidadosamente para a clareira, pois precisava de organizar as ideias.

Certamente se lhe quisessem fazer mal já o teriam feito há muito enquanto esteve inconsciente. Seja quem for que o estivesse a observar, se realmente o estava, teria levado Venceslau consigo? Porquê? Porque não as outras armas também? A verdade é que Ventura não sabia de todo quem é que iria defrontar e consequentemente não sabia como se preparar. Tanto poderiam ser as bruxas nadadoras de Mitchus, como os feiticeiros exploradores do reino hipnotizante de Baret, ou mesmo os bárbaros centauros de Iqua.

Enquanto Ventura reflectia, ouviu-se um rufar de folhas num arbusto atrás dele. Virou-se rapidamente, de sabre numa mão e a besta carregada na outra. Apenas viu a sua espada Venceslau pousada delicadamente contra um pinheiro. Aproximou-se cuidadosamente, temendo uma emboscada. Verificou à volta da árvore mas não encontrou criatura alguma. Por instinto, olhou para cima e viu finalmente um vulto negro contra o céu cinzento, uns metros acima dele. Embainhou o sabre e rapidamente agarrou Venceslau pelo cabo e preparou-se para o combate, pois o vulto dirigiu-se para o chão, aterrando placidamente.

Era uma mulher. Enfim, não exactamente uma mulher, já que elas tipicamente não têm a tendência para conseguir voar, mas era certamente uma figura muito semelhante a uma mulher.

- Porque carga de água é que me estou a lembrar da Princesa Xena?.. Estranho... Esta em nada lhe é semelhante.

A mulher era quase da mesma altura que Ventura. Tinha longos cabelos encaracolados de uma cor castanha dourada que desciam controladamente pelo seu peito. A tez da sua pele era agradavelmente pálida, não como se fosse doente, mas como se fosse uma criatura delicada e protegida da violência de muitos sóis. A sua face era de uma beleza extrema e radiante. Os seus grossos lábios rosáceos contrastavam com a tez branca da sua cara redonda, cujas bochechas estavam inchadas de sangue, transformando o branco num escarlate convidativo e querido. Os seus grandes olhos âmbar expressavam cautela e divertimento simultaneamente. Tecidos sedosos verdes e brancos escondiam-lhe as formas sensuais e atraentes de um corpo bem desenvolvido. Escondiam igualmente as armaduras que a mulher tinha espalhadas pelo corpo inteiro. Empunhava uma lança ricamente decorada na sua mão esquerda. Ventura percebeu que era uma guerreira e fez os possíveis para se libertar da sua beleza enfeitiçadora para mais objectivamente poder avaliar a situação.

Ventura não tinha qualquer desejo imediato de lutar com ela, especialmente devido ao seu ferimento. Tentou ser diplomático.

- Bons dias, minha senhora. Devo-lhe confessar que tenho várias perguntas, mas creio que seria mais adequado se eu começasse por me apresentar.

- A! - respondeu a guerreira, que Ventura interpretou como sendo uma interjeição para continuar.

- Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante de todas as estradas, e hoje a estrada trouxe-me, espero eu, às terras do Norte, ou pelo menos ao que os humanos consideram o Norte em termos relativos.

- Ã ã... - respondeu a interlocutora pouco faladora, dando a entender que queria saber mais, movimentando ligeiramente a sua lança.

- Compreendo que esteja talvez a infringir alguma fronteira proibida a estrangeiros, mas quero que saiba que não foi por minha vontade que entrei nesta floresta. Digamos que transgredi a floresta por ter adormecido montado na minha égua que está ali e que decidiu conduzir-nos até aqui. - Ventura estava a tentar esconder o facto de que estava ferido.

- A, a, a, a, a, a, a! - riu-se ela, revelando um enorme sorriso branco. Levou a mão direita a uma pequena sacola lateral e retirou de lá um conjunto de folhas completamente iguais às que Ventura tinha na sua pele quando acordou.

- Essas folhas... Foi a senhora que me tratou? - inferiu rapidamente Ventura.

- Â ã. - disse, afirmativamente.

- Deveras que não sabia coisa alguma sobre esta terra, mas passo a saber que a hospitalidade é comparável à beleza dos seus habitantes. - disse, fazendo uma pequena vénia de agradecimento. A mulher sorriu, enrubescendo. - Poderei saber-lhe o nome, para mais completamente lhe poder agradecer?

- A'á'a.

- Perdão, não era uma piada, tenho efectivamente o desejo de saber o nome da pessoa que me tratou tão altruisticamente.

- A'á'a. - repetiu, algo confusa.

- Não me está a querer dizer que o seu nome é uma combinação de três vogais iguais com subtis diferenças de entoação?

- Â ã. - confirmou.

Ventura finalmente apercebeu-se de algo que já lhe deveria ter sido óbvio há muito. Era extremamente provável que se encontrasse na presença de uma Fada Vogal, o que explicaria as suas dificuldades vocabulares na mesma proporção que explicava a sua beleza ímpar. Explicaria também o facto de estar em equipamento de guerra, pois as Fadas Vogais haviam sido derrotadas recentemente pelos exércitos do Reino. Nunca se soube qual foi a razão da guerra entre as duas facções.

- Senhora A'á'a (e ainda bem que não tenho de realmente pronunciar o nome, porque seria impossível para mim acertar à primeira), seria incorrecto se eu induzisse que estou a falar com uma fada Aa'a-a-A'a, ou seja, uma Fada Vogal?

- Ã ã. - entoou, confirmando a teoria de Ventura.

- Deveras, é uma honra conhecer uma das representantes das que dizem ser as mais belas das Fadas Vogais.

Ela não respondeu, mas fez uma careta de dúvida.

- Diga-me, porque é que me tratou? Apesar de eu não ter afiliação militar, não seria de estranhar se tratásseis um humano com menos amabilidade, tendo em conta as tensões recentes entre as nossas facções.

- A! A'a'aa aa a'á'à ã á àa.

- Â? - questionou Ventura por instinto, obviamente não percebendo coisa alguma do que a fada havia dito.

Erro crasso, pois tal interjeição, normalmente representativa do facto de alguém não ter percebido outrem, provavelmente significava algo menos inofensivo para as Fadas Vogais.

A fada preparou a lança, apontando-a determinantemente. Fez um gesto agressivo em direcção ao interior da floresta. Ela queria que ele a seguisse.

- Peço desculpa se disse algo inapropriado, mas peço que compreenda que não falo a sua língua, e por isso foi pura coincidência que a minha exalação tenha parecido significar... enfim, seja o que for que signifique para vós.

Ela enrugou delicadamente as finas sobrancelhas, como se reflectisse que o que Ventura dissera até fazia sentido. Mesmo assim, repetiu o gesto, menos agressivamente.

- Percebo que quer que a siga, mas a senhora tem de perceber que não lhe sei as intenções, e para além disso eu estou numa demanda importante da qual não me posso desviar durante muito tempo.

- Aaa! - gritou repentinamente a fada, voando agilmente pelos ramos em cima de Ventura e aterrou dramaticamente atrás dele, barrando-lhe o caminho até Sara, que mastigava um arbusto descansadamente.

Ventura olhou à volta, certificando-se que não detectava nenhum aliado da fada.

- Minha cara, imploro-lhe que me ouça. Não tenho desejo algum de lutar neste momento, mas a sua pose agressiva não me permite inferir que o sentimento seja mútuo. Saiba que me defenderei se necessário e saiba também que não a subestimarei.

A fada colocou-se numa postura estranha de ataque, envolvendo os seus braços sedosos na sua lança.

Ventura Lobo preparou a espada Venceslau, dando pequenos passos cautelosos, avançando inclinado para a direita, pois de nada valia esconder o seu ferimento, já que a fada já evidentemente sabia que ele o tinha. Talvez por isso se mostrasse ela tão confiante em ganhar? Ou será que as fadas guerreiras eram muitíssimo mais mortíferas do que ele imaginava? Fosse como fosse, Ventura faria o melhor que lhe fosse possível para não magoar uma criatura tão singela.

Ela finalmente decidiu atacar, usando os seus poderes voadores para desferir uma estocada rápida. Ventura já imaginava que seria esse o plano, pois as Amazonas de Kikas usavam uma estratégia semelhante quando montavam as suas gaivotas gigantes. Baixou-se rapidamente e tentou agarrar a fada para a pousar, mas apenas lhe rasgou um pedaço do tecido leve que lhe cobria a armadura. Perdendo o elemento de surpresa, ela pousou e rodopiou a lança várias vezes para atingir Ventura de vários lados. Foi aqui que este percebeu que a sua adversária, apesar de fogosa, não era uma combatente experiente, pois nem teve de se desviar de muitos destes ataques já que ela raramente os dirigia correctamente na direcção dele.

Ventura, num movimento rápido, agarrou firmemente na lança da fada, esperando desarmá-la. Ela riu-se ligeiramente e começou imediatamente a voar, levando Ventura com ela. O aventureiro largou-se quando ainda estava a uma distância curta do chão, mas sabia que estaria vulnerável ao próximo ataque, que não tardou a vir. A fada repetiu o mesmo movimento de estocada inicial, desta vez vindo de cima, perfurando o ar. Apenas por sorte conseguiu Ventura desviar-se da lança mortífera, rebolando para o lado desesperadamente. A lança da fada ficou vários centímetros enterrada no chão, pressagiando que o mesmo poderia ocorrer a Ventura.

Ventura levantou-se e andou impacientemente de um lado para o outro.

- A senhora coloca-me num dilema. Tenho agido defensivamente, mas começo a crer que realmente terei de a magoar para a convencer a desistir deste combate estúpido.

- A a a! - riu-se a adversária voadora ufanamente, caindo no erro de não levar a sério o aviso de Ventura.

Lançou-se de novo ao ataque, mas foi surpreendida ao ver que Ventura também carregava energicamente sobre ela. Apontou ao ombro dele, que aparentemente estava vulnerável, caindo na armadilha de Ventura. Ele rodopia sobre si próprio para a esquerda, desviando-se do ataque e desferindo uma cotovelada forte nas costas da fada que agora se intersectava com ele, ficando estatelada no chão. Ela reagiu inesperadamente depressa, atacando os pés ainda descalços de Ventura e fazendo-o cair sobre o seu ombro esquerdo, agoniando-o horrivelmente. A'á'a planeava agora escapulir-se para a copa das árvores para recuperar o factor de surpresa, mas Ventura agarrou-a por um pé. Antes que ela conseguisse começar a voar, Ventura reuniu todas as forças do seu corpo bem treinado e lançou brutalmente o corpo da fada num movimento circular contra o chão.

Arrependeu-se de imediato, pois A'á'a perdeu os sentidos e permaneceu imóvel. Não se orgulhou pela vitória. Nunca gostou de lutar contra fêmeas. Sempre pensou que só os homens é que deveriam ser estúpidos o suficiente para se envolverem em violência. Não obstante isto, não era a primeira vez que lutava contra uma mulher, mas de alguma forma sabia que o que fizera a esta em particular não era justificável.

Pegou no corpo inerte de A'á'a e pousou-o delicadamente contra uma árvore. Vários arranhões cobriam agora a pele branca da fada. Ventura, não sabendo se tal resultaria, procurou pelas mesmas folhas com que ele próprio havia sido tratado, encontrando um pequeno arbusto delas numa clareira ali próxima. Aplicou desastradamente as folhas sobre a pele macia de A'á'a, e reparou que as próprias folhas se enrolavam automaticamente à volta dos membros doridos.

Não sabia agora se esperaria que A'á'a acordasse ou se simplesmente continuaria caminho, aventurando-se pela floresta dentro.

Sentou-se, cansado e novamente dorido. Percebeu que sangrava do ombro. Provavelmente reabrira a ferida. Tentou colocar uma das folhas mágicas no seu próprio ombro, mas desta vez nem se quiseram aproximar da pele sangrenta, como se tivessem mente própria. Escapavam-se sempre da mão de Ventura assim que este as trazia perto do ferimento.

Dirigiu-se a Sara e retirou do seu alforge uma fatia de pão duro e barrou-lhe uma porção de manteiga de iaque de Buzul e sentou-se de novo, desta vez ao lado da A'á'a, ainda inconsciente.

- Pois é Ventura, és mesmo parvo. - murmurou para si próprio, auto-comiserando-se. - Tantos meses de crossfit e destes suplementos proteicos grotescos para ficares com um corpo fantástico para impressionar as miúdas e na primeira oportunidade que tens de conhecer uma Fada Vogal, uma das mais belas ainda por cima, agarras nela e usas a tua força bruta para destruíres a sua beleza e eliminares qualquer hipótese de... - deixou a frase morrer, suspirando.

Virou a cabeça timidamente para a fada, inspeccionando-a. Sentia-se culpado, pois achava que um ser tão belo não deveria ter de lutar, tal era o risco de desfiguração, e na altura as operações plásticas não eram prática comum.

Encontrou uma nova ferida que não reparara em anteriormente. Rapidamente foi buscar uma das folhas curativas e aplicou-a com o maior dos cuidados na ferida, esperando que desta vez funcionasse de novo. Era um corte algo profundo no braço que até agora estivera escondido pelo volumoso e perfumado cabelo. Tinha o aspecto de ter sido provocado pela lâmina de Venceslau, mas Ventura nem notara que a tinha atingido durante a luta.

- Mesmo assim, ela continuou. É determinada, hem? - comentou.

A folha curativa, ao contrário da tentativa anterior nele próprio, quase saltou magneticamente para cima do corte da fada, enrolando-se e aconchegando-lhe o braço.

Ventura decidiu ali, naquele momento, que permaneceria até que A'á'a se restabelecesse. Parecia estranho pensar que ela tinha feito o mesmo por ele, apenas para o atacar posteriormente. Que cultura estranha teriam estas fadas para tratar um potencial inimigo. Não teria sido mais fácil simplesmente levá-lo fosse para onde fosse enquanto ele próprio estava inconsciente? Ela claramente tinha essa capacidade, pois levitara-o durante o combate sem grande esforço. Que razão terá feito com que ela o tratasse?

Deveras, porque razão estava ele por sua vez a tratar dela agora?

Toda a prudência habitual de Ventura Lobo gritava num desespero agoniante para que ele partisse e deixasse aquela floresta o quanto antes. Mas ele ignorou todo o conceito de cautela. Sentia algo que o mantinha ali. Aquela fada, apesar de tudo, aguçara-lhe a curiosidade. Não, não era bem curiosidade. Era uma espécie de responsabilidade ou reciprocidade ou dever. Era como se no fundo a sua vontade estivesse a ser controlada por outrem, como se estivesse a ser relembrado silenciosamente que o seu papel naquela floresta ainda não acabara. Todo o seu ser físico almejava fortemente partir, mas o seu espírito era impelido a ficar. E ficou.

Um peixe nadou casualmente pela clareira.

- Naturalmente. - concordou Ventura.

 

 

Passou uma hora. Começou a chover. A pluviosidade local aumentou progressivamente até estabilizar numa chuva não muito pesada mas constante. As gotas deslizavam pelas folhas das copas mais altas até ao mais rasteiro dos arbustos, num espectacular jogo de Plinko (sem o Fernando Mendes e sem a Lenka).

Ventura protegera A'á'á com uma capa, mas pensou que talvez fosse necessário arranjar outra fonte de calor. Notou, por acaso, num pequeno mamífero semelhante a um cavalo minúsculo a dirigir-se para um arbusto de um escarlate viçoso e pulsante. Distinguiu o que parecia ser vapor a elevar-se a partir das suas folhas exuberantes. Levantou-se, aproximou-se e ao fazê-lo foi apercebendo-se que aquele arbusto, completamente indistinguível dos outros em tempo seco, se tornava uma fogueira natural quando acossado por chuva.

- Que conveniente! Até parece que o destino está a tentar arranjar situações que me coloquem numa circunstância mais íntima com a fada, o que verdadeiramente é tudo o que eu alguma vez quis, não fosse o facto de a ter posto inconsciente com um golpe de wrestling.

O arbusto fogoso emanava um calor suficiente para manter a fada quente. Não é que Ventura realmente soubesse se anatomicamente isso faria alguma diferença a uma fada, mas pelo menos não poderia ser criticado por falta de intenção de zelo pelo bem-estar da sua prévia adversária.

Vários outros animais se aproximavam do arbusto para se aquecerem e secar, mantendo o mais possível a distância ao desconhecido aventureiro que era um forasteiro naquelas paragens. Para além dos minúsculos cavalos já referidos, podiam ver-se salamandras compridas e coloridas de vermelho e laranja, confundindo-se com as folhas do arbusto, cogumelos achatados semelhantes a caranguejos que se locomoviam arrastando estruturas parecidas a raízes pelo solo, um beija-flor que parecia absolutamente imóvel no ar, tão rápido era o batimento das suas asas, dezenas de insectos a marchar e a congregar-se na base do arbusto, devorando-se uns aos outros numa orgia canibalesca.

O mesmo cenário devia repetir-se infinitamente pela floresta inteira, mas dali, onde Ventura estava, apenas se adivinhava uma paz natural regada com as gotas tranquilas que aterravam surdamente nas folhas do solo. Ventura fechou os olhos. Pareceu-lhe ouvir um coro, muito longínquo e muito abatido, mas não triste. Um entoar quase constante, muito aberto e enternecedor. Era como se a própria floresta embalasse os seus habitantes para dormirem enquanto a tormenta leve não passava.

Deveras, Ventura, mesmo não estando demasiadamente cansado, adormeceu lentamente.

 

 

Acordou pouco depois, mas a sua companhia já não estava ao seu lado. A'á'a estava em pé, à sua frente, completamente encharcada. Não parecia agressiva como antes, mas tinha a sua lança na mão. Ventura levantou-se lentamente. Pegou em Venceslau e embainhou-a, querendo mostrar que pretendia paz. O par de guerreiros entreolhou-se demoradamente, aparentemente não sabendo como prosseguir, já que a conversa oral não podia ser mútua e consequentemente não era possível um entendimento claro entre os dois.

Ventura falou, tentando simplificar as suas perguntas de modo a que a resposta possível fosse binária.

- Acho que estamos mais ou menos quites, em todos os sentidos. Proponho uma trégua. Eu não a entendo, mas a senhora compreende o que eu digo, não é verdade?

- Â ã. - confirmou.

- Acho que ambos concordamos que a violência hoje já foi demasiada, certo?

Ela acenou a cabeça gravemente, concordando.

- Aceita a trégua então?

Novo acenar afirmativo de cabeça.

- Previamente quis que eu a seguisse. Porquê?.. Aliás, vou reformular a pergunta: levava-me para algures que me pusesse em perigo? Seja honesta, compreenderei a resposta, seja ela qual for.

A fada reflectiu por uns momentos, provavelmente não sabendo o que responder. Talvez a resposta fosse mais complexa e Ventura tentou facilitar.

- Digamos que por "perigo" quero dizer se me levava para algum tipo de emboscada em que eu não me pudesse justamente defender.

- Á! - exclamou ela, elucidada. - Â â, â â... - disse, visivelmente negando a hipótese.

Foi a vez de Ventura reflectir.

- Ouça, minha senhora, não lhe quero causar ainda maior incómodo e eu realmente tenho de retomar o meu caminho, pois estou numa missão importantíssima.

A'á'a pareceu empalidecer.

- Vou agora montar a cavalo e dirigir-me para Norte, contornando a floresta por fora, não querendo continuar a ser um intruso nas vossas fronteiras.

- Â â!

Ventura já percebera que aqueles tons específicos significavam "não". Antes que a fada tivesse a mesma ideia que antes, Ventura agarrou imediatamente no cabo de Venceslau, mostrando que estava pronto a lutar de novo.

"Porque é que estás a ser tão mau, Ventura...?" - pensou para si próprio. - "O teu maior sonho foi sempre conhecer uma Fada Vogal, e agora vais-te embora? Ela já disse que não haveria perigo imediato para ti."

- Saiba que se já a derrotei poderei fazê-lo outra vez.

"Não faças isso. Fica. Se querias ir embora porque é que não foste quando ela estava a dormir, coitadinha?"

- Agradeço-lhe profundamente o tratamento inicial que me deu aos meus ferimentos, mas teria apreciado mais se a hospitalidade se tivesse mantido constante.

"Estás a ser demasiado frio. Vá, desmonta e volta, essa agora. Tu queres ficar aqui! Não sabes porquê, mas queres."

Montado em Sara, Ventura começou a dirigir-se à orla da floresta, para depois a contornar, não olhando para trás para se despedir de A'á'a.

"Era a tua oportunidade, espero que saibas o que estás a fazer, se bem que ambos sabemos que te vais......"

O seu pensamento foi interrompido por um lamento imenso e ecoante. Olhou imediatamente para trás e já não viu A'á'a. O lamento evoluiu para um choro triste e pausado.

- Diabos me levem... Já lutei contra os Vyx mais nojentos, contra os homens-mamute mais gigantescos, contra os castores temíveis e ferozes de Kand e em mais do que uma vez desobedeci à minha mãe quando ela me pediu para levar o lixo à rua. No entanto, nada, mas mesmo nada me enregela mais o sangue do que o choro de uma mulher, especialmente se chora por causa de mim. Falo simbolicamente, claro, pois os magos viquingues de Ovlov literalmente transformam o sangue dos inimigos em gelo, e com esses não me meto.

Desmontou e correu rapidamente para trás, esquecendo-se inclusivamente da sua arma predilecta para trás. O choro ia reduzindo de volume, como se a origem se afastasse. Correu em direcção ao som, e encontrou A'á'a a andar lentamente pela floresta adentro.

- Porque é que chora?...

Ela virou-se dramaticamente, como não podia deixar de ser, e mostrou-se algo surpreendida por ver Ventura de volta.

- Não compreendo. Porque é que é tão importante que eu vá consigo? Que tragédia horrível acontecerá? É impossível que eu lhe faça falta sob qualquer pretexto, já que certamente não estava à espera que eu chegasse aqui aleatoriamente.

Apesar de tudo, ela estava calma. Ventura percebeu que a tristeza que ela sentia não era devida a ele próprio. Era uma tristeza antiga, que lhe amargurava o ser há muito. Não uma tristeza chocante, mas uma que teve muitos anos para se desenvolver e que, de vez em quando, brotava tenuemente para fora quando a sua psique não conseguia suportar mais.

Era um sentimento que Ventura conhecia bem, mesmo que nunca o mostrasse e mesmo que as razões fossem diferentes.

Bem vistas as coisas, Ventura ainda estava em dívida para com A'á'a. Era óbvio que ela precisava dele para algum fim misterioso, mas era-lhe impossível determinar qual. Fosse como fosse, ela garantira que ele não correria perigo.

- Mudei de ideias. Se ainda o permitir, acompanhá-la-ei até onde me quiser levar, se for certo que não correrei perigo directamente.

Ela olhou-o como se quisesse confirmar o que ouvira. Ele assobiou para chamar Sara, que apareceu a trote daí a uns instantes. Pegou-lhe pelas rédeas e verificou o equipamento.

- Estou pronto, assumindo que a minha montada também possa ir.

A'á'a limpou uma lágrima cristalina que lhe permanecia teimosamente na bela e límpida face. Pegou na sua lança e gesticulou com a cabeça para que Ventura a seguisse.

 

 

Ventura ia tentando falar durante a viagem, fazendo perguntas e comentários sobre a fauna e flora fantásticas que preenchiam a floresta.

- Ena, a última vez que vi este tipo de rosas negras foi nas planícies de Kukula, nem pensei que existissem noutro sítio.

- Magnífico espécime de grilo, nunca vi um com uma cabeça tão grande. Ah, perdão, meu caro, não sabia que era uma cartola, mil desculpas, um resto de bom dia.

- Não sou grande apreciador de abacate, mas depois de algumas semanas de manteiga de iaque de Buzul qualquer coisa diferente serve. E aqueles têm um aspecto... enfim, normal, já que eu não sei distinguir um abacate bom de um mau.

- Espera lá… pareceu-me ter visto uma fada com botas. Juro que o vi. Não minto. Vi-o com estes dois olhos. Uma fada a usar botas e a dançar com um anão. Isso é normal?

- Ó diabo, há muito tempo que eu não via um dragão azul, mas também é verdade que me estou a aproximar do Norte, se calhar aqui são mais comuns.

- O quê? Bom, nunca pensei.... Um grupo de elfinhos minúsculos. Parece que estão numa feira a dançar de um lado para o outro. E têm daqueles cavalos pequenos que vi há pouco. Olha ali, um cavalinho na feira a comer. Fantástico!

- Bom, até macacos têm aqui. Não sabia que tinham a capacidade de dançar.... Ah... espera, aquilo não é uma dança.... Pois bem, são definitivamente macacos.

 

A'á'a nada disse durante a viagem, nem para responder às constantes parvoíces de Ventura. No entanto, em mais do que uma ocasião, este jurou tê-la ouvido rir levemente, como se estivesse a conter o riso, apesar de ela periodicamente olhar para trás ainda com uma expressão amuada.

 

 

Subitamente parou e Ventura mal pôde acreditar nos seus olhos.

 

 

Haviam chegado à lendária cidade de Áaaa'Aaaa'Àaaa A Ãaá, a capital das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a.

 

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A Caverna - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 23.09.16

Ventura Lobo percorreu o triste planalto junto à cordilheira Ruq. Seguia um conjunto de marcos que, segundo o que os Ruqi lhe disseram, formava a estrada principal que unia as cidades-montanha. Todos os marcos tinham uma saliência que apontava qual a direcção a tomar para quem queria ir para a cidade capital do Reino Ígneo de Ruqum, o principal dos antigos reinos. Esta cidade furava a cordilheira de um lado a outro, permitindo acesso imediato às terras do Norte, para a demanda do Livro continuar.

Passaram dois dias desde a batalha de Ruquru e o Despertar dos Ruqi. O nosso herói, apesar da sua perícia e bravura, foi atingido no ombro esquerdo. Não se atreveria assim ferido lidar com os exércitos de Otto'Gháfiq, que certamente já teriam sido alertados para o sucedido em Ruquru. Ir para as goelas da montanha tornou-se a sua única alternativa para escapar à estrada principal do Norte, provavelmente ocupada pelos cultistas.

O seu ombro ferido inchara visivelmente, e Ventura não tinha meios para o tratar adequadamente. Não existiam nenhumas das ervas medicinais que ele conhecia naquele planalto inóspito e árido. Não havia qualquer tipo de aldeia humana num raio de muito quilómetros. Ventura, como qualquer homem decente, decidiu aguentar a dor escalante que sentia.

- Isto já passa.

 

Felizmente, a sua locomoção estava sob a responsabilidade de Sara, a resistente égua Maglu que Ventura obtivera e possivelmente salvara dos cultistas de Otto'Gháfiq.

O Sol quente e constante numa terra plana sem árvores e sombra contribuía para o desgaste físico do cavaleiro, mesmo que este teimosamente não o quisesse admitir.

Depois do pico de calor, Ventura reparou que a estrada começava finalmente a dirigir-se para as montanhas. Até agora tinha estado perfeitamente paralela à cordilheira, o que de vez em quando fez Ventura perguntar-se se se teria enganado.

- Se se se? Fica um bocado estranho. Acho que deve estar bem, mas se calhar a frase poderia ser construída de outra forma. É quase um trava-línguas.

Ventura Lobo proferiu a frase críptica em voz alta, apesar de ninguém lá estar para o ouvir, para além de Sara e talvez Venceslau. Seja como for, não se pode assumir que ele esperasse uma resposta.

A cabeça dele palpitava com o bater do seu coração. Sentia o fluxo de sangue nas suas veias ao ritmo acelerado e constante com que este trabalhava. Por um momento pareceu-lhe ter visto um elemental de fogo a dançar na terra seca, mas provavelmente era apenas uma metáfora do autor.

Sara prosseguia automaticamente pelos marcos, sendo de uma inteligência suficiente para perceber a direcção das saliências nos mesmos.

- Pois é, está a provar ser uma amiga inteligente e leal! Sim senhor! - exclamou Ventura, por coincidência imediatamente a seguir à inteligência de Sara ter sido referida na narrativa. - Mas qual coincidência!? Essa agora! - gritou para o ar, como se falasse para alguém, apesar de, como já se disse, mais ninguém estar presente. - Essa agora... - concluiu.

Finalmente, avistou uma rampa larga no sopé da montanha mais alta da cordilheira. Os marcos apontavam nessa direcção. À medida que se aproximou, Ventura distinguiu uma enorme entrada escura na encosta da montanha, como se esta estivesse no auge de um imenso bocejo.

- As montanhas não bocejam! Deixa-te lá de tentares tanto com as metáforas descabidas!

Ventura Lobo delirava, e nesse delírio conseguia, de alguma forma, parecer responder por mero acaso às afirmações do narrador.

- Quem 'tá a delirar és tu!

Dito isto, Venceslau, ofendida pela abreviação coloquial, treme e tenta disciplinar o seu mestre, saltando na bainha. Infelizmente, a espada estava presa a Sara, e não a Ventura. A égua leva uma vergastada inesperada e parte a todo o galope como reacção.

O corpo semi gelatinoso de Ventura teve dificuldade em manter-se firme na sua montada, balançando-se descontroladamente na sela, ameaçando desequilibrar os dois. O nosso herói, por muito que tentasse, não se conseguiu manter acordado e desmaiou repentinamente, aterrando de cara na crina áspera e poeirenta de Sara.

 

 

O bravo corcel entrou pela montanha dentro, sendo engolido pela colossal caverna como se fosse um mero grão de pó.

 

 

Ventura Lobo acorda com uma imensa pancada no...

- Sim! Claro, eu sei!, não precisas de me dizer, já percebi que caí do cavalo!

O ferimento do ombro não lhe afectara apenas fisicamente, pois a mente do nosso herói era assolada por uma febre dilacerante. Era provável que a seta que atingira Ventura tivesse algum tipo de veneno.

- Pois claro, todas as histórias são assim. O herói arma-se em herói, de todos os ferimentos que podia sofrer apenas uma seta lhe afecta, ainda por cima no ombro para poder continuar a lutar todo estóico, depois percebe-se que a seta 'tava envenenada, como sempre, depois o gajo fica maluco, começa a falar sozinho ou fica doente e tal ou não-sei-quê, não diz coisa com coisa, e depois há-de acordar num sítio qualquer maravilhoso rodeado de plantinhas e florzinhas e passarinhos piu-piu e há-de ter uma amazona muita boa com enormes seios a tratar-lhe das feridas, tipo Princesa Xena e, claro, depois disso ele e ela ....

Sara relincha subitamente, como se fosse um estratagema por parte do narrador para evitar que a insanidade febril de Ventura reduzisse ainda mais drasticamente o nível de qualidade do texto.

Ventura levantou-se e not...

- Oh diabo! Não vejo nada! Só está aqui a Sara e pouco mais. Nem o chão parece existir! Essa agora!

O aventureiro precipitou-se na sua interrupção, pois não permitiu que a cena em que se inseria fosse descrita e como tal, não podia ver o que não tinha ainda sido criado para os seus sentidos.

- Mas eu não posso estar sempre dependente de ti, narrador! Se um dia decides matar-me, como é que é? Ou, pior ainda, se não me arranjas uma amazona? Seios grandes, não te esqueças. Não pode ser. Não preciso de ti! Sou Ventura Lobo, grande aventureiro e caminhante de todas as estradas.

Nas suas deambulações, Ventura não compreendeu que o próprio narrador é também ele um vassalo dependente de outra entidade.

 

 

Já chega, é a vez de eu entrar e resolver isto, que a narrativa já está a ficar descontrolada.

- Essa agora? Quem disse isso?

 

 

Uma forte luz verde-marinho é projectada à frente de Ventura que decidiu pegar na sua espada com as poucas forças que lhe restavam. Para sua surpresa, Venceslau desaparecera da bainha. Desesperado, agarrou o seu sabre Ahmet. Enfrentou a luz de frente, preparando-se para uma luta com um ser sobrenatural.

A luz parecia divertida com o espectáculo. Decidiu tomar forma física, condensando-se num molde humanóide. À medida que as cores perdiam o brilho e a criatura era revelada, Ventura Lobo distinguia novas características do estranho interlocutor: o corpo era claramente humano, coberto de roupas modestas, mas a cabeça era a de um peixe.

Um bacalhau, na verdade, acho que devo dizer isso, para ser claro.

Não era a primeira vez que Ventura via um homem sereia, mas normalmente a parte que era peixe era a inferior, e não a superior. No entanto, a particularidade mais bizarra era uma coroa real pobre, provavelmente feita de latão, que encimava a cabeça ictióide.

O aventureiro demente notou que não se conseguia mexer de todo à medida que o homem-peixe avançava descontraidamente na sua direcção. Parou à sua frente e devolveu-lhe a sua espada. Ventura pegou na espada mesmo sem o querer, ou seja, sem ter dado ordem consciente aos seus músculos e afins para o fazer.

- Essa agora... mas que diabo?

Nada de diabos, ò Ventura. Não te preocupes que eu não sou o mau da fita. Aliás, não posso realmente dizer que esteja associado ao Bem ou ao Mal. Posso, contudo, dizer que é graças a mim que existes ainda.

Ventura não respondeu, confuso.

Permite-me apresentar-me. Sou o Autor, aquele que criou este mundo, com uma ou outra ajuda (leia-se, cópia) de outras obras de fantasia já existentes.

- Se isso é verdade, porque é que apareces como um peixe com uma coroa na cabeça?

Ah, essa é apenas uma das várias formas com que normalmente me caracterizo. Hoje calhou-te que eu escolhesse aparecer como o Rei Bacalhau, nem que seja só para me aproveitar da tua febre para depois pensares que foi tudo um sonho maluco. Aliás, aviso-te já, no próximo episódio, ou aventura, é isso mesmo que vai acontecer. Acordas e tal e pensas que tiveste um sonho muita estranho.

- E a Xena?

Lamento, mas tenho outros planos.

- É pena, eu realmente gosto de...

Vá, vá, acaba lá com esse tipo de comentários, essas piadas não funcionam sempre.

- Espera lá, ò bacalhau ou rei ou autor ou lá o que és... Porque carga de água é que o teu diálogo não tem tracinhos no início?

Como bem disseste, eu sou o Autor. Posso fazer o que bem me apetecer. Não uso travessões porque eu não sou realmente parte do teu mundo. Sou mais parte do mundo do narrador do que do teu. Como tal, não me parece adequado usar diálogo normal para mim. Seja como for, acho que se entende bem. Eu falo na primeira pessoa, o narrador não.

- Parece-me desnecessariamente rebuscada tal teoria. Por outro lado, um dos requisitos para se ganhar um prémio Nobel aparenta ser confundir o leitor o máximo possível com paupérrima pontuação e construção textual.

Seja como for, venho aqui para pôr alguma ordem no texto, pois a tua febre está a fazer-te demasiadamente consciente de elementos exteriores ao teu mundo, nomeadamente o narrador.

- Ele também não é grande coisa. Nem conseguiu colocar-me num sítio com as mínimas condições. É só escuridão à minha volta.

Bom, para a próxima não o interrompas antes de ele acabar a sua descrição ambiental. Vá, agora cala-te lá um bocadinho, senão nunca mais saímos daqui.

Ventura assentiu. Finalmente conseguiu olhar à sua volta depois de ter acordado tão bruscamente, ao ter caído de Sara. Estava agora na cidade capital de Ruqum, que partilhava o mesmo nome que o reino em que se inseria. A cidade estendia-se horizontalmente pelas profundezas como se fosse um imenso túnel e não uma cidade. Era uma maravilha geométrica, com as paredes e imensas colunas a delinear perfeitamente cada um dos edifícios que tinham sido perfurados directamente nas pedras.

- Então mas como é que eles viam fosse o que fosse? Não devia estar completamente escuro? Estamos dentro da montanha, não?

Cala-te Ventura, já lá vamos...

A cidade parecia tão deserta como qualquer outra cidade Ruqi. Não beneficiava de qualquer manutenção provavelmente há muitos séculos. A única iluminação disponível apresentava-se sobre a forma de fendas quadradas no tecto que provavelmente subiam até à superfície. Algumas estariam certamente tapadas por entulho, mas as que não estavam eram em número aparentemente suficiente para se poder ver adequadamente.

- Ou seja, até agora, uma descrição perfeitamente genérica de uma cidade típica de uma civilização que vive debaixo de terra, tipo os anões do Senhor dos Anéis.

Bom... sim, era por aí que eu estava a pensar...

- Pois, e deixa-me adivinhar, os edifícios estão todos incrustados de ouro e jóias e tal?

Enfim... mais ou menos.

- Já foi tão utilizado e reutilizado esse conceito...

Mas não são anões... são Ruqi, humanóides feitos de pedra, e portanto tem de ser coerente com a cultura deles, não?

- Pensava que eras o Autor. Não és tu que decides o que é que é coerente ou não? Só sei que nada disto é original.

Vá, ainda admito que sim... ò narrador, vamos tentar de novo.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

A luminescência de estranhos cristais começou a preencher o ar frio e húmido. Toda a gruta estava coberta de cristais que apontavam em todas as direcções, brotando naturalmente das paredes. Entre os cristais adivinhavam-se alguns edifícios de pedra, semelhantes aos que Ventura já vira nas cidades-montanha exteriores. Os marcos de pedra do exterior pareciam ter sido substituídos por marcos de cristal brilhante, com indicações indecifráveis para quem não as soubesse ler.

- Alto! Espera lá. Isto é tipo a fortaleza do Super Homem?

Bom... suponho que sim, sei lá, isto são apenas coisas que me vêm à cabeça.

- Está bem, mas certamente consegues fazer melhor. Espero que não faças isto como profissão, senão estás bem tramado.

Epá, pronto... está bem, deixa lá ver. Ò narrador, tem lá paciência...

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ouviu-se um zumbido crescente, que escalou apressadamente para uma cacofonia de barulhos mecânicos. Alguma coisa parecia ter acordado. Subitamente, imensos pontos de luz tornam-se visíveis e a cidade ganha vida. Máquinas imensas giram centenas de rodas dentadas. Cada ponto de luz originava de pequenos frascos de vidro que se espalhavam quase aleatoriamente pelos edifícios que se erguiam orgulhosamente pela caverna adentro. Os próprios edifícios eram movidos pelas imensas máquinas num feito impossível de engenharia.

- Espera lá.

Mau.

- Então mas agora de repente os Ruqi eram engenheiros fantásticos? Pensava que querias ser coerente...

Não me estás a dar muitas alternativas, tão picuinhas que és.

- Mas isto parece totalmente copiado de algum sítio... não sei bem de onde... é de algum videojogo?

Sim, é, pronto, já estou a ver que também não te agrada.

- Não é original.... É assim tão difícil pensares em algo novo?

Tens de compreender, Ventura, que felizmente ou infelizmente, já quase tudo foi escrito anteriormente. Já tivemos grandes génios a fazer obras de arte na área da fantasia medieval. É muito difícil superá-los se eles já apanharam os melhores temas. Quase que chegamos a um ponto em que não se pode mesmo inventar mais. Mesmos os génios de outrora basearam-se sempre em algo anterior a eles para escreverem. Diz-se que o Tolkien, por exemplo, se baseou na carga dos hussardos polacos na batalha de Viena para aquela carga mítica análoga no Senhor dos Anéis. Até que ponto é que é realmente copiar descaradamente ideias de outros autores? Até que ponto não será na verdade um elogio às suas obras?

- Isso não é uma resposta muito convincente.

Talvez não, mas é a resposta que te dou. Tentemos de novo?

- Tentemos de novo.

Narrador, se fizeres o favor.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ao habituarem-se à escuridão, os olhos de Ventura começaram a distinguir uma caverna coberta de musgo fosforescente, que se prolongava sinuosa e inconsistentemente até ao horizonte escuro e limitado por paredes rochosas íngremes. Pequenas cascatas corriam alegremente a toda a volta. As casas dos Ruqi escondiam-se debaixo do musgo luminoso, que se apoderara completamente dos antigos sinais de civilização dos seres de pedra. Uma espécie de trilho de gravilha ainda era visível e indicava o caminho que percorria a cidade de lés a lés, sendo provável que segui-lo seria o suficiente para atravessar as profundezas da cordilheira para atingir as terras do Norte.

Então?

- Então o quê?

Ainda não interrompeste.

- Ah, olha, nem reparei, estava a observar a caverna toda bonitinha.

Ah, então aprovas? Óptimo. Nesse caso, vou pôr-me a andar que os leitores devem estar completamente às aranhas sobre o que está a acontecer aqui. Não se preocupem meus caros, a narrativa vai retomar o seu fluxo normal. Não voltará a acontecer. Agora até me sinto como o Hulk Hogan naquele filme dos Gremlins, acho que era o segundo.

O Autor transformou-se de novo na luz verde e desapareceu sem dizer mais nada. Ventura Lobo embainhou Venceslau e montou Sara. Agora estava pronto para atravessar esta cidade mágica, linda e esquecida. Estava pronto para se maravilhar com as excelentes descrições que seriam feitas ao pormenor sobre cada uma das características misteriosas que a terra escondeu durante tanto tempo. Se calhar até poderia encontrar alguns dos famosos tesouros Ruqi!

 

Ordenou a Sara que avançasse pelo trilho.

 

E adormeceu imediatamente, exausto.

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publicado às 11:06


O Despertar - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 03.09.16

Ai, se não leram o que está para trás vão estar às aranhas neste....

 

Ei-lo, rodeado de clichés, de espada desembainhada e apoiada majestosamente no chão, cabelo a esvoaçar levemente, empurrado pela brisa árida que anunciava a noite, de armadura branca a reluzir os últimos lampejos de um dia cuja fase solar estava prestes a terminar. Era sem temor que Ventura Lobo, o herói, esperava enquanto uma companhia inteira de soldados subia pela cidade-montanha de Ruquru, ignorando os seus habitantes de pedra adormecidos. Segundo Riq, o último dos Ruqi, estes soldados eram seguidores do misterioso culto de Otto'Gháfiq, do qual Ventura Lobo nunca ouvira falar de senão muito recentemente. Riq colocara-se em posição de estátua no fundo das escadas que davam acesso ao cume, imitando perfeitamente os seus compatriotas, mascarando-se de guarda com um escudo e martelo massivos.
Os soldados aparentemente perseguiam Sa Rah, ou Sara, como Ventura lhe passara a chamar, uma égua dos pilhantes Maglu que eles haviam abandonado na orla das Matas Míticas de Tamor, e da qual Ventura se havia apropriado. Se havia uma razão para que esta égua fosse tão importante para este culto, Ventura não a sabia. Sara havia subido até ao cume da cidade, através do último lance de escadas que Ventura Lobo estava a postos para defender, caso fosse necessário.
Esperou com uma mistura de impaciência e divertimento a chegada das várias dezenas de soldados que invadiam os grandes lances de escadas de Ruquru.
Quando os primeiros surgiram dos degraus, Ventura notou de novo o que já observara anteriormente. Os soldados eram de culturas diferentes uns dos outros, vendo-se humanos de várias espécies, mas mais surpreendentemente alguns antropomorfos mais exóticos, alguns dos quais Ventura apenas ouvira falar: os tropicais homens-papagaio de Zbiral, os ferozes homens-pantera de Muçbinq, os homens amarelados das longíquas ilhas de Tumir.
- Essa agora...
Perante tal espectáculo, Ventura esperava que o líder deste bando fosse alguma espécie de lagosta. Literalmente. Era só o que faltava.
Para seu desapontamento, um humano que parecia ser demasiadamente nobre para se esperar encontrar nestas andanças destaca-se do grupo que continuava a chegar. Aproximou-se de porte erguido de Ventura Lobo e tirou o capacete.
Ventura sorria ligeiramente, o que seria um indício convidativo, não estivesse ele a segurar uma espada branca que perfurava gentilmente o chão de pedra. Começou ele:
- Boa tarde, cavalheiro. Expresso-lhe as mais amistosas boas-vindas a esta cidade arruinada, cujos únicos anfitriões são estas estátuas, como pode ver.
O nobre foi rápido a responder.
- Saudações, guerreiro, pois vejo pela sua expressão corporal que espera a guerra. No entanto, não vi guerra nenhuma na área circundante e portanto devo-lhe perguntar qual a razão da sua pose defensiva?
- Caro cavalheiro, pois bem sinto que falo com um, imploro-lhe que se coloque na minha situação ao ver uma companhia de cavaleiros armados a desmontar no sopé da montanha onde estou. Asseguro-lhe que apenas estou a agir preventivamente.
- Compreendo, é claro. Permita-me que lhe pergunte o nome.
- Dou-lhe a minha permissão para perguntar.
O nobre não se incomodou com a zombaria de que parecia ser alvo.
- Pois bem, qual o seu nome, por favor?
- Sou Ventura Lobo, aventureiro em missão, a repousar esta noite nestas montanhas pouco convidativas, mas seguras.
- Um aventureiro? Aqui? Não há aventuras para se ter nas terras de Ruq. Os tesouros esquecidos dos Ruqi estão mais a norte, escondidos onde ninguém consegue chegar. Aqui, neste local, não há nada.
A espada Venceslau tremeu.
- Esta é apenas uma paragem, e não o meu destino.
- Mas é uma paragem estranha, compreenda. Certamente terá seguido a estrada que se encaminha para as montanhas. Porque é que decidiu desviar-se para uma zona tão inóspita?
- Bom, para lhe ser sincero, desviei-me porque me deparei com um exército que marchava na direcção do Reino. Não sabendo as intenções de tal exército, preferi não arriscar.
As feições no nobre, até agora algo graves, pareceram iluminar-se ligeiramente.
- Ah! Bom, amigo, não precisava de ter medo. Apenas viu parte do grandioso exército de Otto'Gháfiq, o purgador, que se prepara para espalhar o concorde Otto'Gháfiq por todas as terras.
- Bom, com um cognome desses seria de esperar que estaria em letra maiúscula. Tipo, o Purgador! Para dar dramatismo à coisa.
O nobre olhou para trás, investigando com o olhar os seus soldados. Sorriu.
- Isso seria incorreto segundo o concorde.
Venceslau tremeu de novo. As gemas transparentes incrustadas nela começaram a emitir uma subtil luz suave alaranjada.
O nobre continuou.
- Seja como for, como eu dizia, não tinha razão para fugir dos exércitos de Otto'Gháfiq. Isto é, a não que tivesse algo a esconder...
"Ai ai ai ai ai..." - pensou Ventura.
- Não compreendo.
- Caro aventureiro, se aqui chegámos foi porque seguimos o rasto de um cavalo Maglu que temos andado a perseguir. Certamente não viria aqui por si só, o que me permite inferir que quem o trouxe aqui estará nas redondezas, já que vimos o cavalo subir esta montanha. Ah, aliás, lá está ele. - disse, apontando para o topo da terraço que era o cume de Ruquru.
De facto, Sara observava a situação com algum interesse preocupado.
- É apenas um cavalo, não vejo qual a razão de tamanho alarido para justificar trazer uma companhia inteira.
O nobre já perdera qualquer resto de indulgência forçada com que tinha falado até essa altura.
- Este cavalo foi-nos roubado e queremos reavê-lo, ponto final. Recusas-te a admitir que o roubaste, canalha?
Ventura Lobo não gostou do tom.
- Caríssimo, não nos azedemos. É verdade que encontrei este cavalo atado a uma árvore nas matas de Tamor. Ora, um cavaleiro Maglu raramente abandona o seu corcel assim sem mais nem menos. Se verdadeiramente o cavalo estava convosco, então devo perguntar onde está o dono dele, pois um cavalo Maglu apenas responde a quem o domou.
O nobre não respondeu imediatamente.
- Precisamente, caro amigo. Veja como hesita em responder-me a uma pergunta simples. Serei realmente eu o criminoso principal por ter roubado o cavalo cujo mestre foi assassinado por vós?
O nobre fartou-se finalmente. A diplomacia não resultara.
- Afasta-te, ou os meus homens matam-te! - rosnou.
- Mas que raio tem aquele cavalo de especial?
- Ele tem um documento que tem de ser purgado!
- O quê? Um documento? É só por causa de um papel? Ah, espere lá então!
Ventura virou-se e subiu energicamente as escadas que conduziam a Sara. O nobre virou-se para os seus soldados, que partilhavam o mesmo ar de perplexidade que o seu líder sobre a excentricidade de Ventura Lobo. Este procurou longamente na sela de Sara.
- Ah! Deve ser isto.... Mas... Essa agora... Não, não pode...
Ventura desceu as escadas de novo.
- Olhe, só encontrei um papel, mas não deve ser isto, seria ridículo... absurdo... mesmo no contexto deste universo incoerente e parvo.
- O que é? O que diz lá? - perguntou o nobre, impacientemente.
- Bom... é uma receita de "Gelado Praliné de Chocolate". Não faço ideia que raio é que isso quer dizer.
- É isso mesmo! Dê-me cá isso!
- Alto lá, mas por que carga d'água é que isto é importante?
- É tudo parte da purga! O concorde tem de triunfar!
- Bom, com o Concorde 4590 a coisa não resultou lá muito bem. Ah, espere lá, o Otto'Gháfiq é um avião?
O nobre nem respondeu, mas franziu imenso os olhos, duvidando a sanidade de Ventura. Já começa a ser hábito escrever isto.
- Estou a ver que não deve ser... pois... voltando à receita, isto não diz nada de especial... - e leu por alto alguns trechos. - ...150g chocolate para derreter... rónhónhó, rónhónhó .... óleo q.b. para a Torre de Moldar ... nem sei onde isso fica ... não sei quê ... instruções e tal .... microondas... certo...
- Blasfémia! Uma das palavras proibidas! Apoderem-se daquele documento, homens!
- Han? O quê? Microondas? Essa agora... Alto lá, jovens, não sei qual é a vossa, mas eu não vou dar nada só porque vocês querem! Expliquem-se!
- Essa palavra está mal escrita! Segundo o concorde, escreve-se micro-ondas! Esse documento tem de ser destruído!
- Oh diabo... eu não sei que raio de Concorde é esse, mas vão-se informar melhor que microondas não leva hífen...
- Herege! - berrou o nobre. - Usaremos força se necessário! Dá-me isso!
- Não tenho medo de força. Tenho de exercitar os músculos de qualquer maneira.
- Maldito sejas, idiota! Que pensas fazer contra uma companhia inteira de soldados armados até aos dentes, alguns literalmente? Pensas em fazer uma defesa heroica contra todos nós?
Tanto Venceslau como Ventura já se haviam fartado.

 

Ventura Lobo empunhou a espada e trespassou o nobre na barriga, surpreendendo-o. A armadura fina de nada lhe valeu.
- Não, planeio em fazer uma defesa heróica. Com acento. - disse-lhe, enquanto o nobre deslizava da espada para o chão.
Os soldados entreolharam-se, duvidosos sobre o que fazer.
- Ouçam meus caros, não temos aqui câmaras, mas nada nos impede de fazer uma daquelas cenas de luta dos filmes de fantasia dos anos 80. A única diferença é que sou um bocado mais eloquente do que o Arnaldo. Vá, vamos lá a uma boa coreografia.
Dito isso, Ventura Lobo atirou-se de rompante ao soldado mais próximo, atirando-se loucamente para uma situação de desvantagem numérica supostamente impossível de superar. Deram todos um passo atrás, mais uma vez surpreendidos pelo ataque tacticamente insano. Ventura desferiu um golpe no ombro, não separando o braço completamente, mas efectivamente pondo o inimigo fora de acção. Rodopiou para a direita, atingindo um outro na barriga com o pomo da espada, finalizando-o com um golpe rápido de punhal. Finalmente os soldados pareceram acordar e decidiram atacar. O primeiro furou o ar com a lança, mas Ventura desviou-se agilmente e Venceslau teve a abertura que precisava para cortar o lanceiro lateralmente abaixo das costelas. Ventura não teve tempo de dar o último golpe, pois um homem-pantera lançou-se felinamente a ele, atordoando-o. Ventura ripostou com uma cabeçada e um golpe rápido com o punhal onde imaginava ser o coração da criatura. Aproveitando-se de um pequeno espaço que os inimigos erradamente lhe deram, preparou e disparou um dardo da sua besta, furando a garganta de um homem com armadura kamiliana. Dois canibais das tribos de Goné aproximavam-se cuidadosamente, erguendo o escudo quando Ventura disparou mais um dardo. Não conseguindo recarregar a besta em tempo útil, lançou uma pedra à perna do canibal da direita, que consequentemente tropeçou para cima do colega. Ventura feriu o da esquerda na coxa, obrigando-o a ajoelhar-se, e imediatamente socou-o violentamente com a manopla direita. Rodopiou rapidamente, segurando Venceslau apenas com a mão esquerda e abrindo um golpe profundo no pescoço do outro canibal.
Mais soldados chegavam à batalha, cansados pelos vários lances de degraus que tiveram de subir à pressa, alarmados pelos sons de batalha. Ventura Lobo dançava pela praça, cortando o ar veloz, incisiva e precisamente, desferindo um outro golpe fatal a mais um soldado de Otto'Gháfiq. Impressionou-se ao ver o que parecia inicialmente ser um bigode andante, sendo na verdade um humano de Aguard. Era, inesperadamente, uma mulher, o que imediatamente o relembrou da filha do estalajadeiro ainda na Capital. Por curiosidade, pontapeou a inimiga e, imobilizando-a, tentou cortar-lhe o bigode para ver como é que uma mulher de Aguard ficaria sem o seu orgulhoso pêlo facial. Pois bem, debaixo daquele bigode havia apenas outro bigode, o que fez Ventura pensar que se calhar já devia estar à espera disso...
E agora o tempo pára durante uns momentos. Eis que Ventura Lobo (ou por outras palavras, o seu criador) se depara com um dilema. Tem uma inimiga para despachar, mas não se pode matar uma mulher, a não ser que se queira incentivar propositadamente uma cruzada feminista. É que os homens vieram ao mundo essencialmente para se matarem uns aos outros. Tudo bem. É de homem. Matar uma mulher, por outro lado, só é aceitável num contexto doméstico e normalmente só com violência suficiente para aparecer no Correio da Manhã. Para Ventura Lobo, matar uma mulher, mesmo que seja soldada, pareceu-lhe eticamente inexequível. Precisaria pelo menos de uma justificação...
Venceslau estava pronta a trespassar verticalmente o abdómen da soldada (não poderia ser o peito, pois Ventura tinha uma vaga noção de que eram sensíveis), apesar de compreender a hesitação do seu mestre.
- Não! Para! Não faças isso! - gritou ela, subitamente, restaurando a narrativa.
- Como? Para o quê?
- Não! Para! Quero que pares! Por favor!
- Mas "pára" leva acento.
- Não leva não, o concor.....
Erro crasso por parte da ingénua soldada que não estava com atenção ao texto. Era toda a justificação que Ventura necessitava para premir a espada rapida e decisivamente contra o corpo dela.
Ventura levantou-se a tempo de se desviar de um ataque de sabre por parte de um kataliano. Levantando a espada de cima para baixo, perfurou o peito do homem moreno de um lado ao outro, tendo dificuldade em retirar a espada de seguida. Um novo inimigo notou esta dificuldade e correu para atacar. Ventura desembainhou o seu velho e leal sabre Ahtem. Bloqueou a primeira investida, largou Venceslau para soquear o soldado com a mão esquerda, neutralizando-o temporariamente, o suficiente para Ventura arrancar Venceslau do inimigo caído. Agora, com as duas espadas na mão, cruzou-as num golpe de habilidade, cortando a cabeça do inimigo atordoado como uma tesoura.
- Estamos todos entretidos, claramente. - murmurou, não deixando de pensar na óbvia referência cinematográfica para quem vê o canal Hollywood de vez em quando.
Embainhou o sabre e resumiu a luta apenas com Venceslau.
O fluxo de soldados não parava, apesar dos melhores esforços de Ventura para os manter longe das escadas, a verdade é que tinha progressivamente perdido cada vez mais terreno. Retirava inconscientemente agora para o meio da multidão de Ruqi adormecidos. Uma seta voou e atingiu um dos Ruqi, lascando-o. Ventura estava agora preso no meio da multidão. Por um lado estava protegido do arqueiro que disparara a seta, mas por outro tinha menor espaço de manobra para lutar contra os soldados que se aproximavam para mais um ataque. Embainhou Venceslau, e voltou a retirar o sabre mais curto e ágil. Tentou recarregar a besta, mas foi interrompido por mais um guerreiro. Também ele tinha dificuldade em manejar o machado dele, mas o seu escudo inicialmente impediu Ventura de lhe aplicar uma morte rápida. Antes de ser auxiliado por um aliado, Ventura pregou-lhe uma rasteira e penetrou-lhe o coração. Usou o pequeno escudo do inimigo para deflectir uma nova série de ataques por parte de um soldado mais experiente, que atacava com uma fúria controlada e consistente. Era um homem muito grande e muito forte, tanto que Ventura viu-o derrubar um dos pesadíssimos Ruqi para reduzir a vantagem táctica que ele tinha sobre o titã. O Ruqi caiu com um estrondo enorme derrubando outro Ruqi à sua frente. Este segundo era aparentemente mais frágil, pois ficou completamente quebrado ao atingir o chão maciço.
Uma seta finalmente atingiu Ventura. Não perfurou totalmente o seu colete de malha, mas não augurava nada de bom. Existia uma distância significativa entre ele e o arqueiro (que finalmente localizara visualmente), sendo que também teria de lutar vários dos seus companheiros no caminho e sendo também que faltava lidar com o gigante que derrubara os Ruqi. Ventura poderia ter comprado mais tempo, voltando a meter-se no meio da multidão, mas isso implicaria provavelmente sacrificar mais uma quantidade significativa de Ruqi, e não estava disposto a fazê-lo.
Surgiu um novo arqueiro, mas este tinha pontaria pior, pois na primeira seta que disparou acabou por acertar na cabeça de um homem-papagaio seu aliado. Felizmente para ele, apenas Ventura notou isso, com excepção da própria vítima que, objectivamente falando, teria dificuldades em queixar-se no estado bastante perpetuamente imóvel em que ficou.

 

- Se o que querem é vingança, então executem-na em mim, e deixem os habitantes da cidade em paz! - berrou Ventura, arfante, rodeado de inimigos.
O pouco amigável colosso humano riu-se a bom volume, e os seus companheiros acompanharam-no na zombaria.
- Não é que eles se apercebam. São apenas estátuas! - e derrubou desprezivelmente mais um Ruqi, que tombou ruidosamente. - Olha, mais um que caiu! Tens um aspeto desgraçado! - virou-se para Ventura. - E tu... Exibiste um belo espetáculo, mas acabou por ser um bocado dececionante no final. Irritaste a fação errada, Ventura Lobo. Não sei que objetivo tinhas para tomar uma ação tão defensiva por uma folha de papel, mas ag... - hesitou por um instante. - Olha lá, porque é que as joias da tua espada estão a mudar de cor?
De facto, as jóias embebidas em Venceslau estavam profundamente escarlates, e alumiavam a noite com um vermelho malicioso e irritado.
- Pois. Há certas coisas que a minha espada Venceslau não gosta de ouvir. Fizeste vários erros ortográficos recentemente, e isso irritou-a profundamente. E não me venhas com a treta desse tal Concorde. Se Venceslau pensa que é um erro, é porque deve sê-lo. Agora aviso-vos eu, afastem-se dessas estátuas! - e preparou-se para uma nova carga, parecendo infundido com algum novo tipo de força sobre-humana. Ventura parecia pulsar com uma leve aura vermelha não muito diferente das gemas de Venceslau.
- Vamos à cena em câmara lenta!

 

Ventura arremessou a sua espada contra um inimigo, impalando-o. Enquanto ele caia lentamente, Ventura correu na sua direcção, carregando um dardo na besta. Saltou e apoiou-se no inimigo que impalara para subir mais alto. Num gesto acrobático de meter inveja a um Olímpico, disparou na direcção dos arqueiros que tão inconvenientes tinham sido até agora, mas acabou por acertar no que tinha má pontaria. Ao descer graviticamente, desembainhou o sabre de novo e perfurou as defesas fúteis de um soldado, rasgando-o de cima a baixo. Largou o sabre para recuperar Venceslau do inimigo que tombara atrás de si e rodopiou duas vezes sobre si mesmo, repelindo alguns ataques e desferindo outros fortuitamente. Tinha a mente concentrada em chegar ao arqueiro. Desviou-se de uma seta. Deslizou a espada na barriga de um inimigo sem armadura eficaz para travar o ferimento fatal. Evitou uma estocada de um lanceiro, agarrando de seguida a lança, socando o soldado com o cotovelo e espetando a espada várias vezes. Largou Venceslau, agarrou na lança e lançou-a contra o último infante que defendia o chato arqueiro. Correu como um louco, sem arma alguma na direcção do pelejador de distância. Este ainda conseguiu disparar uma última seta antes de desembainhar uma pequena espada semelhante a um gládio. A seta atingiu Ventura no ombro esquerdo e àquela distância conseguiu perfurar a armadura dele. Não interessava. Ventura tinha o arqueiro à sua mercê. Retirou o seu punhal Qanif, agarrou no braço do arqueiro antes que este lhe pudesse desferir um golpe e enterrou a arma no pescoço do seu irritante inimigo.
Sem hesitar, voltou-se para a coluna de homens que se precipitava na sua direcção, fazendo o possível para apanhar Venceslau a tempo. Deu uma cambalhota para a frente, alcançou a sua espada, e lançou-se para o lado, colocando-se nos degraus que davam acesso ao cume. Ali teria uma pequena vantagem táctica.
- Não podes manter este ritmo para sempre, canalha!
Tinham razão, não poderia de modo algum fazê-lo. Ventura estava completamente envolto em suor, arfava descontroladamente e o ferimento no ombro retirava-lhe uma considerável porção de agilidade ofensiva, pois Venceslau era mais facilmente manuseada com as duas mãos.
O humano enorme avançou, preparando-se para desferir o golpe final a Ventura.
- Eu trato dele, já estou farto disto, quero ver se ainda aguentas comigo!
A falácia dos termos que comparam tamanhos entre dois indivíduos é que estes são sempre relativos. Deveras, este inimigo era maior do que Ventura e talvez mais forte (mesmo que Ventura não o admitisse, essa agora), portanto o termo gigante poder-se-ia aplicar ao tamanho relativo entre os dois. Evidentemente, não se pode dizer que aquele soldado enorme fosse a maior criatura viva ali.
O guerreiro prepara o seu machado para iniciar o combate com Ventura, passando ao lado de um Ruqi adormecido.

 

Aparentemente, isto é.

 

- Sui bandi de bárbaris! - roncou fortemente uma voz grossa e pesada. - Vândalis! Assassinis! Já vi i suficiente para tomar umi partidi!
Mal o gigante olha para o lado para perceber quem falara, levou com um escudo de ferro maciço com uma força brutal, esmagando-o e projectando-o para longe.
Um novo colosso acordara. Riq finalmente juntara-se à luta.
- Nã me quis meter numi luti que nã era mui, mas vós agredistes is muis irmis. Sofrereis!
Riq esmagou verticalmente um soldado com o seu martelo, liquefazendo-o.
- Eu sou Riq! I últimi dis Ruqi! Defenderei i mui cidadi!
Se ainda mais soldados não tivessem acorrido, certamente os que presenciaram o despertar de um colosso de pedra teriam fugido em terror. Não obstante todos os argumentos contra a continuação da luta, os cultistas do Concorde Otto'Gháfiq eram teimosamente persistentes. Tudo isto por causa de um hífen numa receita de sobremesa.
Os soldados sabiam que Riq não podia ser invulnerável, pois observaram que as outras estátuas, ou seres, partiam-se e lascavam-se. Num acesso de organização, formaram-se numa coluna, colocando lanceiros à frente para manter a criatura afastada. As lanças de facto arranhavam e partiam alguns pedaços do corpo de Riq, mas pouco efeito prático tinham nele. No máximo, conseguiam mantê-lo afastado para evitarem ser esborrachados pelo gigantesco martelo que empunhava.
Ventura celebrava internamente a intervenção atempada de Riq, que não só lhe salvou potencialmente a vida mas como também lhe deu algum tempo para respirar. Observando a falange improvisada que os soldados formaram, teve uma ideia. Subiu ao cume e dirigiu-se a Sara. Procurou algo na sua sacola que estava pendurada na sela. Tirou um saquinho fechado. Continha os seus preciosos sais de banho kamilianos que têm mais utilizações possíveis do que apenas limpeza para quem for conhecedor das propriedades deles. Nomeadamente, estes sais reagiam violentamente ao contacto com água muito concentrada. Ventura agarrou no seu cantil. Abriu o saquinho. Voltou para as escadas. O impasse entre os soldados e Riq mantinha-se. Ventura despejou o conteúdo do saco para o cantil. Calculou o movimento parabólico mentalmente e lançou o cantil, que já começara a ficar quente.
- Riq, proteja-se! - berrou Ventura por instinto, esquecendo-se que Riq é feito de pedra e que portanto a reacção química vindoura não teria tanto efeito nele.
Riq obviamente não sabia isto, por isso levantou o escudo no momento em que o cantil caiu no meio da formação humana.
Uma imensa explosão de aromas e perfumes perfeitos e indescritíveis para os limitados olfactos humanos limpou literal e metaforicamente todos os sujos soldados, catapultando-os em todas as direcções num espectáculo fatalmente colorido, mortalmente folclórico e horrivelmente alegre que faria inveja a qualquer anúncio de detergente de roupa.
Até Ventura Lobo ficou impressionado e ficou a pensar no que aconteceria se alguma vez metesse demasiados sais no banho.
A explosão desbaratou completamente os soldados, e consequentemente Riq pôde manobrar o seu corpo imenso pela praça, caçando facilmente os inimigos isolados e confusos.
Apesar de tudo, a determinação fanática destes cultistas em atingir o seu objectivo era deveras impressionante. Continuavam a atacar, apesar do campo de batalha repleto de camaradas caídos, mortos, feridos, ou queixosos no geral.
Um conjunto de soldados veio ao encalce de Ventura. Este colocou-se numa pose defensiva nos degraus, fazendo por se aproveitar da vantagem. Infelizmente, desta vez vieram três de uma só vez, e apenas nos filmes é que se pode esperar derrotar três inimigos concorrentemente, normalmente com ajuda de alguma fortuita armadilha ambiental. Não era o caso. Deflectiu o melhor que pôde os ataques dos guerreiros e teve a sorte de ferir um no ombro. Contudo, foi obrigado a retirar, subindo um degrau de cada vez até atingir o cume.
Gesticulou a Sara para se afastar. Ventura estava prestes a ser rodeado de inimigos, mas subitamente estes olharam para a estátua no centro do cume, sentada num banco.
- E se acorda?
- Este está arrumado, nós tratamos dele, vão destruir a estátua antes que acorde também!
"Oh diabo!"
Ventura não o permitiria. Não tão facilmente. Usou o último dardo na sua aljava para impedir que o soldado inimigo chegasse ao companheiro (ou companheira?) de Riq. Acertou-lhe desastradamente na perna, mas o objectivo foi cumprido.
Ventura lançou-se para o lado, fazendo uma cambalhota dolorosa devido ao seu ferimento. Queria colocar-se entre o Ruqi e os atacantes.
- Riq!! RIQ! - berrou exasperadamente. - Vem cá! A tua.. não.. o teu... ui... sei lá o que aquilo é, nem carne nem peixe, essa agora... olha, que se lixe.... I TUI ESPOSI!
Um demorado rugido alastrou-se pela cidade-montanha e pelas cordilheiras fora, ecoando como um doloroso lamento furioso.
Ventura já bloqueava os ataques ao Ruqi. Um soldado com uma maça desferiu um golpe na perna de pedra, rachando-a. Foi imediatamente a seguir pontapeado e derrubado por Ventura, que não teve oportunidade de dar o golpe final, pois um lanceiro já arranhava violentamente o peito nu do Ruqi. Ventura arremessou Venceslau de novo, que perfurou o ar e penetrou por entre as costelas do soldado.
Se Venceslau não fosse uma espada, já certamente estaria enjoada de tanta tripa.
O sabre de Ventura ficara esquecido no patamar inferior, por isso pegou simplesmente na lança inimiga e começou a agitá-la selvaticamente, ganhando tempo.
O chão tremeu. Riq chegara ao topo das escadas. Dois homens vinham às cavalitas e outro ainda vinha viscosamente agarrado debaixo do seu massivo pé depois de ter sido esmagado.
- Raqarnal! Nã! Miseráveis! Covardis! Afastem-se di mui queridi!
Riq correu pesadamente pelo cume até se juntar a Ventura.
- Riq, chega a boa altura! Eles estão a atacar os Ruqi com medo que acordem.
- Elis nã acordam nem assim, acredita que já tentei, amigui.
- Pois, mas tente explicar isso a estes jovens! - respondeu Ventura, tentando uma estocada num soldado.
- Estás feridi, Lobi?
- Não me viu levar com a seta no ombro!? Não me consigo mexer muito neste braço!
- Ah, esqueço-me dis vossis fragéis glândulis moles.
- Sinceramente, estou mais preocupado com a racha "di tui esposi".
O Ruqi virou-se com violência para Ventura, como que ultrajantemente insultado, permitindo inclusive o seu inimigo acertar-lhe nas costas montanhosas.
- I QUE É QUE DISSESTE!?
- Não não, ouça, literalmente, uma racha aqui na perna, nada dessas badalhoquices! - explicou-se Ventura, hesitando enquanto decidia se se devia preparar para se defender do inimigo ou de Riq.
Riq inspeccionou Raqarnal (devia ser o nome deste Ruqi), e notou com dor uma fenda na perna direita. Para um Ruqi, este ferimento não era grave, mas a visão da ferida perturbou imensamente Riq, pois, de uma maneira ou doutra, este era o ser com quem jurara passar os vários séculos de existência, adormecido ou não. Vê-lo afectado por uma fenda, por mínima que seja, é razão suficiente para poder declarar que falhara no seu dever de protecção, especialmente num tal estado de impotência de dormência aparentemente eterna.
Ventura gritava e berrava para reganhar a atenção de Riq para a luta feroz que se desenrolava à sua volta, mas este estava apático e taciturno. Os olhos grandes como pérolas negras (e bem vistas as coisas, provavelmente eram literalmente pérolas negras) pareceram humedecer-se. Gotas trémulas escorreram pela face de Riq abaixo, mas secaram e enrijeceram pouco depois, pois eram na verdade metal fundido, transformando a cara de Riq numa peça de arte moderna.
Seria estranho se um ser gigante mineralógico chorasse água em vez de algo mais apropriado.
- Riq! Preciso de ajuda! Deixe lá isso!
Mas Riq não ligou. Para si a batalha já terminara.
- Como deixei isto acontecer? Tantis Ruqi destruídis, só para salvar um estranhi. E agora até ele foi atingido! - afagou asperamente a cara de Raqarnal. - Oh querido, como chegámos a este ponto?
Ventura ouviu as palavras suaves murmuradas enquanto soqueava um homem-pantera que o mordia no braço. Notou que um dedo do Ruqi adormecido pareceu mexer-se.
- Desculpe? Riq? O que é que lhe chamou? Chamou-lhe "querido"?
Riq assentiu, não dando importância.
- Ele é um "ele"?
Riq olhou para Ventura, notando agora também o facto inconsciente que dissera.
- Sim... acho que sim... era o meu querido. É o meu querido!... Raqarnal! O meu esposo!
A mão de Raqarnal espasmou.
- Então "i sui esposi" era "o seu esposo"? Estava completamente convencido que era... enfim... uma Ruqi!
- Uma Ruqi? Não.. não é assim... Ruqo e Ruqa. Eu sou uma Ruqa. Ele é um Ruqo. O meu Ruqo. - e Riq pegou-lhe na mão há tanto tempo imóvel. Apertou-a, ouvindo-se o ranger da fricção das rochas.
A mão retribuiu subitamente o aperto.

 

Raqarnal abriu os olhos, que eram dois rubis perfeitamente polidos e brilhantes.

 

Os soldados de Otto'Gháfiq recuaram, assustados, entreolhando-se nervosamente.

 

- Riq? - perguntou Raqarnal num tom muito grave e lento, depois de séculos de inactividade. - Quem... sã estis? Que... aconteceu? Tenho.... noçã.... di ter.... ador..mecido.... Que... confusã... Porque é que.... estás armadi? - olhou em volta e raciocinou. - Umi ataqui? Atacam-nos? - olhou para as cidades-montanha no horizonte. - Destruídis! Ruqgard! Ruqmur! Ruqlum! E agora Ruquru? Que fizeram ais nossis cidadis? Quem sois, bárbaris, para saber i nomi di mui inimigui!? - Dito isso levantou-se imponentemente. Era apenas ligeiramente maior que Riq, o que de modo algum eram boas notícias para os cultistas.
Ventura Lobo falou em primeiro.
- Bom dia, meu caro mestre dorminhoco, devo informá-lo que nem todos aqui são inimigos, e os inimigos que causaram a destruição das vossas cidades foram vós próprios, os Ruqi. Sou Ventura Lobo, aliado de Riq na luta contra estes cultistas que, resumidamente falando, se por um lado não podem ser culpados pela destruição da vossa civilização, têm associados o crime de quererem destruir os Ruqi adormecidos espalhados pela cidade.
Raqarnal olhou para Riq, como se pedindo confirmação. Esta assentiu.
- Ah POIS! Porque a Riq é uma ela, afinal! Essa agora, com mil diabos!
Alguns soldados já tinham começado a retirar. Agora sim já não havia pachorra para continuar a lutar. Um gigante de pedra é aceitável, dois não!
Raqarnal aproximou-se dos degraus e observou a destruição e o caos do campo de batalha que era a sua cidade. Viu os Ruqi quebrados no chão. Viu as dezenas de corpos decepados e feridos. Viu os soldados a fugir aterrorizados pelo despertar de Raqarnal.

 

- Eu sou Raqarnal! I chefi di Ruquru! Defenderei i mui cidadi!
- Vocês gostam mesmo destes dramatismos, não é? Já a Riq disse o mesmo. - notou Ventura Lobo enquanto desprendia Venceslau do corpo de um soldado.
Montou Sara, preparando-se para perseguir o inimigo em fuga. Raqarnal, Riq e Ventura Lobo desceram os degraus, a correr, passando pela destruição causada pela batalha de Ruquru.

 

Durante a noite Ventura teve oportunidade de tratar do seu ferimento no ombro o melhor que podia enquanto Riq informava Raqarnal de tudo o que ocorrera nos últimos séculos.
- Mas entã.. perguntou repentinamente Raqarnal, quando Riq explicava os acontecimentos das últimas horas. - porque é que i ajudaste? Esti glandular na causou nada senã problemis...
- Se não o tivesse ajudado, a profecia não se teria cumprido. E pára de falar assim, ruqo!
- Sim, claro. Qual profeci... profecia?
- A do tal Mago. "A solução está no Bem".
- Ainda não compreendo...
Riq, que se revelara de um momento para o outro uma ruqa incivelmente doce, apenas lhe afagou a face, suavemente mesmo para uma criatura de pedra.
Raqarnal pareceu sorrir.
- O Bem. Compreendo, sim.

 

Os Ruqi ficaram de vigia durante o resto da noite. Ventura e Sara repousaram juntos traquilamente até ao primeiro raiar do Sol.
Quando Ventura acordou, completamente dorido no corpo inteiro e particularmente no ombro, assustou-se ao verificar que estava sozinho. Levantou-se apressadamente e desembainhou Venceslau. Aproximou-se dos degraus e ficou tranquilizado ao ver Riq e Raqarnal a arrumar os corpos dos cultistas. Desceu as escadas embainhando a espada de novo.
- Bom dia! - gritou Riq alegremente ao ver Ventura. - Já te estavas a preparar para dormir uns séculis? Aliás, uns séculos? Creio que isto é teu.
- O meu sabre, ah, obrigado, de facto deixei-o aqui ontem.. ah diacho, já terei de o levar a um ferreiro outra vez.
O chão tremeu atrás de Ventura, mas não percebeu porquê. Virou-se.
Um terceiro Ruqi ajudava na limpeza. Atrás desse mais dois também trabalhavam. Ventura olhou para Riq inquisitivamente.
- É verdade, Lobo, conseguimos acordar a minha irmã, Reqla, e ali estão os chefes das cidades de Ruqjiko e de Ruqfor.
- Como é que os acordaram?
- Aparentemente, com afecto.
- Perdão, mas essa é uma resposta muito lamechas.
- Mas é verdade, só me aproximei dela, tratei-a pelo nome e murmurei "adoraria que também acordasses, minha querida irmã Reqla".
- Nunca tinha tentado isso antes?
- Dito assim não... dizia "adoraria que acordasses, mui queridi irmi Reqla".
Ventura acenou com a cabeça.
- E os chefes?
- Acho que Raqarnal lhes prometeu um copo de ouro fundido na famosa taberna de Raqdruk.
- Para isso seria preciso estar lá alguém, não?
- Estará lá, eventualmente. Vamos agora acordar e remendar os nossos erros, consertar as nossas cidades e preparar o nosso futuro. Vamos agora despertar. – silenciou-se por uns momentos. - Serão precisos muitos ruqinhos.
Por difícil que fosse identificar qualquer emoção nas caras de um Ruqo, Ventura notava uma aura maternal a emanar de Riq, especialmente quando falou nos "ruqinhos".
- Se queres que te confidencie, Ventura Lobo, notei de ontem para hoje que a minha... "zona" está a crescer de novo. E a de Raqarnal também.
Ventura abriu os olhos esbugalhadamente, e só se impediu de fazer uma careta arrepiante por se lembrar que poderia ser vista como mal educação.
- Ah..? Deveras..? Excelente..? Fico contente pela sua.. zona. E a do Raqarnal também. Há-de ser uma grande zona... n'é? Ah pois, para depois zonearem. É.. pois... ruqinhos e tal...

 

Ventura Lobo despediu-se dos Ruqi, dizendo-lhes que não se podia demorar mais, estava em missão, no final de contas. Os Ruqi indicaram-lhe um caminho que passava pelos antigos Reinos Ígneos dos Ruqi. Uma cidade dentro da cordilheira que dava passagem para o outro lado, colocando-o directamente nas temíveis terras do Norte.
Ventura ainda se voluntariou para pedir auxílio ao Rei em caso de novo ataque do Concorde. Os Ruqi garantiram que mesmo com imensos números, seres glandulares teriam terrível dificuldade em derrubar um só Ruqi, quanto mais dezenas deles.
Ventura arrumou as suas coisas nos alforges de Sara. Montou-a. Ao afastar-se da cidade-montanha renascida de Ruquru, olhou para trás, desembainhou Venceslau e elevou-a triunfantemente como gesto final de despedida.

 

- Quase que me apeteceu fazer uma pose mais à Zorro, mas se calhar já seria abusar. Eia Sara! Avante! E esperemos não apanhar a atenção de comunistas!

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publicado às 20:32


A Estátua - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 17.08.16

Parvoíces anteriores relevantes....

 

Um raio de Sol rastejava progressivamente pelo chão folheado e fofo, fresco com o orvalho calmo e brilhante da manhã que despertava ao ritmo dos milhões de seres que a habitavam. Este raio de Sol fora o único que penetrara as densas copas dos carvalhos seculares das Matas Míticas de Tamor, escapando-se sub-repticiamente ao bloqueio natural e aquecendo desprezavelmente o solo. O Sol ascendeu o suficiente para que este pequeno raio de Sol, ainda por obstruir, conseguisse atingir uma lâmina metálica, ligeiramente fora da sua bainha. Este choque lento e progressivo lançou o raio em inúmeras direcções, mas a principal reflexão incidiu sobre um homem que dormia ainda, embalado pela espécie de canção terna que a Natureza lhe cantava maternalmente como que para o chamar docemente para um novo dia. Este despertar privilegiado foi interrompido pelo raio matreiro, mas o homem, que acordou ofuscado, não se pareceu preocupar. Sentou-se. Elevou os braços aos céus, esticando-os ao ponto de parecer que poderiam soltar-se do seu corpo, ao mesmo tempo que inspirou fundo o ar imaculado das matas. Soltou o ar relaxadamente e com prazer visível, desenhando-se um leve sorriso de satisfação nos seus lábios finos e expressivos. Olhou com alguma atenção o seu campo improvisado. A armadura estava devidamente arrumada a um canto, dentro de uma sacola de cabedal, protegendo-a de possíveis intempéries súbitas e de outros elementos. A fogueira há muito que se apagara, mas ainda emitia uma muito subtil aura de calor, totalmente insuficiente para manter quente o resto da refeição da noite anterior: uma lebre gorda de Bomundo. O homem afastou o cobertor húmido com que se tapara e estendeu-o num arbusto. Com o seu punhal Qanif cortou uns lombinhos da carcaça fria da lebre assada. Acompanhou a carne com umas rodelas de pêssegos que apanhara no caminho. Agarrou numa fatia de pão e barrou-lhe reticentemente uma porção de manteiga de iaque de Buzul.
Enquanto mastigava distraidamente, pôs-se a observar o carvalhal ancião, plantado por um rei de outrora para esconder as ruínas de uma grande cidade inimiga que ele acabara de conquistar. Por entre os escuros matagais podiam-se identificar ainda algumas estruturas enegrecidas e erodidas, rodeadas de musgo, tombadas, vandalizadas e pilhadas vezes sem conta, invadidas pela fauna e flora. Inexplicavelmente, apenas as estradas dessa cidade esquecida sobreviviam à passagem dos séculos, lutando corajosa e desesperadamente contra as raízes profundas e grossas dos carvalhos. Os insectos começaram a sua árdua tarefa de sobreviver mais um dia, uns mais alegremente que outros. As formigas já procuravam e transportavam os alimentos para as suas colónias, as abelhas exploravam as milhares de flores à sua disposição, muitas das quais tinham evoluído, magica ou naturalmente, de modo a crescer na próprias árvores, possivelmente parasitando-as, ou pelo menos não se adivinhando simbiose alguma. De um carvalho caído brotavam imensos e grotescos fungos, digerindo lentamente a carcaça dura e resistente. Seria de supor que alguns daqueles cogumelos já ali estariam há várias dezenas ou mesmo centenas de anos, dado que as borboletas adoptaram as cores variadas de cada um para lá se camuflarem, sendo que cada carvalho caído criaria potencialmente o seu próprio ecossistema.
O homem olhou finalmente para o chão imediatamente ao seu lado. A espada Venceslau ainda reflectia o raio de luz solar. Ventura Lobo pegou na sua fiel espada e disse-lhe, amigavelmente:
- Olha lá, ò Venceslau, se calhar esta introdução absolutamente desnecessária já se prolongou demasiadamente. Se não nos pomos a andar, ele ainda há-de escrever mais uns quantos parágrafos. Olha, apareceu ali agora um pássaro! Vamos embora antes que ele repare e comece a descrever a sua bela plumagem.
Venceslau pareceu tremer ansiosamente, concordando.
Deveras, Ventura Lobo arrumou todo o seu equipamento e pôs-se a caminho, interrompendo grosseiramente a descrição completa do carvalhal e potencialmente do tal pássaro, cuja existência é impossível de comprovar na perspectiva de narrador ausente.
Em cada encruzilhada que lhe aparecia naquela floresta labiríntica, Ventura Lobo tomava sempre a direcção que o levasse para o Norte. O seu plano era dirigir-se às esquecidas montanhas-cidade da cordilheira Ruq. Pouco se sabia sobre essa área inóspita, mas havia um caminho próximo que era regularmente tomado por aventureiros e mercadores. Não existem muitos relatos de loucos que se tenham aventurado naquelas montanhas de pedra e que tenham conseguido voltar, o que imediatamente permite o leitor perceber que irá acontecer alguma coisa a Ventura Lobo que o obrigará a lá ir.
Depois de meio dia a andar, Ventura saiu finalmente do carvalhal, podendo apreciar uma planície que se inclinava progressivamente até ao horizonte próximo repleto de montanhas que rasgavam as nuvens no céu como as garras de um ser imenso. Decidiu descansar à sombra do último carvalho antes de prosseguir. Não foi com grande surpresa que pouco depois viu um cavaleiro surgir na estrada que vinha do Norte. Ventura desembainhou a espada como precaução, mas não se levantou, esperando calmamente até poder avaliar devidamente a situação.
Estranhou ao reparar que o cavaleiro tinha o aspecto de ser um Maglu, com os quais já tinha tido várias desavenças. É raríssimo vê-los tão perto das fronteiras do Reino, e muito mais raro, ou mesmo inédito, é ver um Maglu sozinho. Mesmo os batedores vêm sempre pelo menos aos pares. À medida que se aproximava, Ventura distinguiu o seu arco composto na sua mão, e decidiu levantar-se e aproximar-se do carvalho para se proteger. Notou, no entanto, que o Maglu não lhe prestou atenção, e parecia mesmo estar a fugir de alguém, pois olhou para trás várias vezes. Ventura decidiu arriscar-se e mostrar-se, com a espada virada para baixo.
O Maglu parou o cavalo e esticou uma flecha no arco, apontando certeiramente para o nosso herói, mas não disparou.
- Diz-me, nobre cavaleiro Maglu, de que foges!?
- Desplezível homem naligudo, voltal pala tlás. Cavaleilos maus. Ao fundo. Muito plóximos! Nolte, muito mau!
- Não, discordo, essa agora, ele é um bom actor, para aqueles papéis específicos que faz, obviamente.
- Não, bulo homem. Não Nick Nolte. Nolte! - e apontou para o Norte, onde se elevava uma ligeira poeira.
- Ah, Norte! Peço desculpa, meu caro.
- Não calo! Muito balato! Pleço especial, sim? - e abriu o casaco de peles para mostrar um conjunto de bugigangas inúteis.
Mesmo estando em perigo, é impressionante como a capacidade dos Maglus de fazer negócio nunca desvanece.
- Não estava a pedir que se calasse, e também não quero comprar coisa alguma, obrigado. Estou mais interessado em saber quem o persegue, se me puder dizer. Eu diria que deve ser a ASAE, se calhar?
- Não, polco impelialista. Selem cavaleilos maléficos. Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq!
- Quem? Como? Otto quem?
- Otto'Gháfiq! - respondeu, apontando para a nuvem de poeira, e mergulhando para o interior da floresta, desaparecendo.

A nuvem de poeira aumentou gradualmente, e Ventura percebeu que seria altura de se esconder, pois uma força claramente superior se aproximava, e não lhe podia adivinhar as intenções, mesmo que estivesse a perseguir um Maglu. Agarrou na sua sacola e retirou-se para um local ligeiramente mais profundo da floresta, mas ainda perto o suficiente para conseguir observar os cavaleiros vindouros. Escondido atrás de um arbusto, esperou.
Se era uma patrulha, era exageradamente grande. Muito mais provavelmente seria algum tipo de força de ataque. Algumas dezenas de cavaleiros, em filas de três, eram agora perfeitamente distinguíveis a percorrer a estrada. Não seriam mais de cem.
Pararam na orla da floresta ordeiramente. Pareciam falar uns com os outros. Ventura reparou que não estavam todos uniformemente vestidos, muito pelo contrário. Notava-se uma quantidade variada de culturas ali presentes, juntas sob um propósito misterioso. Contudo, todos partilhavam o uso de um símbolo, nitidamente visível num escudo de um dos guerreiros. Este símbolo tinha a forma de um polvo com nove tentáculos, sendo que cada tentáculo tinha um padrão de cores diferente, mas que era consistente com os símbolos que se espalhavam pela companhia.
- Oh diabo, espero que não seja alguma referência lovecraftiana, já há demasiadas dessas nos dias de hoje. - comentou Ventura Lobo.
Enquanto não se decidiam sobre o que fazer, Ventura reparou num cavalo não montado na traseira da companhia. A sua sela Maglu não deixava dúvidas: era o cavalo do companheiro do Maglu que Ventura abordara.
Subitamente, a companhia começou a mover-se, troteando cautelosamente para dentro da floresta. Qual seria a reacção do Rei ao ver esta força invasora a penetrar nas suas terras? Por pequena que fosse, não deixava de ser preocupante. Quando as últimas filas começavam a entrar no carvalhal, o cavalo Maglu relinchou em desespero e esperneou, puxando o outro cavalo a que estava preso e derrubando o cavaleiro. Ventura Lobo conseguiu imaginar as profanidades que o guerreiro lançou ao cavalo. É provável que estivesse suficientemente perto para as conseguir ouvir, mas desta vez é preferível assumir-se que não estava para evitar transcrever todo aquele vernáculo próprio de alguém que acabou de cair de forma humilhante de um cavalo.
Um cavaleiro chegou da dianteira e, não querendo perder tempo com um animal assustado, deu ordens para prendê-lo a uma árvore. Deveriam estar certamente com pressa para abandonar um animal tão magnífico.
Ventura Lobo não iria perder a oportunidade. Correu para a planície à procura de uma erva aromática muito apreciada por estes cavalos (e num guisado também não ficava mal). Demorou uns bons vinte minutos, sendo que o cavalo o observava confuso, pois só via um homem a correr de um lado para o outro na planície como se fosse insano. Quando finalmente a encontrou, aproximou-se calmamente do cavalo e ficou cinco minutos a olhar para o horizonte, parecendo ignorar a presença do equídeo. Simultaneamente, passou este tempo a esfregar as mãos com a erva que apanhara.
O cavalo já parecia habituado à presença daquele forasteiro, mas mantinha-se cauteloso, não obstante estar preso a uma árvore. Ventura Lobo começou a aproximar a mão perfumada do focinho do animal. Este, hipnotizado pelo aroma da erva, aparenta assentir o gesto.

De repente, Ventura Lobo puxa a mão atrás e dá uma valente bofetada no cavalo. Mas não uma bofetada qualquer. Uma bofetada que reuniu toda a força que Ventura conseguiu concentrar nos seus músculos. Pernas, ancas, abdominais, peito, ombro, braço e mão, todos usados em sintonia para criar a bofetada perfeita. Uma bofetada que fez os pássaros debandar das árvores, que fez os arbustos vibrar pelo impacto sónico, que fez todos os seres da família dos cavalos no mundo arrepiar-se, pois foi uma bofetada que trespassou as convencionais barreiras limitativas dos sentidos físicos de um só indíviduo, repercutindo-se quase telepaticamente por vastas áreas e por várias gerações. No passado, um cavalo terá sentido um arrepio aparentemente por razão nenhuma. Foi devido a esta bofetada que ultrapassou barreiras temporais. O mesmo acontecerá no futuro. Uma bofetada que não se poderá comparar a um Mongo vs cavalo, nem a um Conan vs camelo, nem a um Bud Spencer vs "mau da fita genérico", nem a um Manel GT vs Esticlapisso, nem a qualquer outra referência obscura que se possa imaginar da cultura popular e de culto televisiva ou cinematográfica.
Coloquialmente falando, uma bofetada do caralho.

A agressão, aparentemente exagerada, é um passo necessário para o cavalo adoptar um novo dono. Seria fútil reflectir que tipo de psique submissiva e masoquista aquela espécie devia ter para justificar ritual tão estranho, mas felizmente Ventura Lobo conhecia-o e pôde colocá-lo em prática como já vira ser feito. Agora era uma questão de esperar que o animal reanimasse, pois caiu pesadamente no chão, relinchando de uma forma que mais parecia um balido ténue.
Ventura Lobo não gostava particularmente de magoar animais inocentes ou indefesos (a não ser para o seu próprio sustento), mas chegou à conclusão que seria melhor para os dois prosseguirem viagem juntos, em vez de deixar o corcel à mercê de alguém atado a uma árvore, humilhado.
Quando o cavalo acordou, já Ventura o tinha desatado e apanhara umas maçãs pequenas duma macieira que reparou estar ali próxima. Ventura também tinha descoberto mais algumas informações, através da investigação relativamente exaustiva do animal e do seu equipamento. Faça-se uma correcção desde já, pois o cavalo era na realidade uma égua. O seu nome estava inscrito na sela no estranho abecedário dos Maglu.

"Sa Rah"

Ventura Lobo sabia ler alguma coisa da língua escrita, mas sabia pouco sobre o significado de cada símbolo.
- Suponho que te vou chamar Sara e pronto, apesar de não me parecer muito próprio. - comentou ele na altura.
A pequena sela típica dos Maglu estava suja de sangue e tinha ainda o arco, as flechas, a lança e a espada do seu dono anterior, bem como os mantimentos e utensílios gerais de um batedor. Existia também uma sacola com capas de telemóvel baratas. Seria de supor que teria sido vítima de um ataque cobarde por parte dos estranhos cavaleiros, o que maior confusão ainda causou a Ventura Lobo, pois os Maglu não eram conhecidos pela sua indulgência e tal acto seria certamente vingado.
Lembrou-se da sua primeira aventura nos Planatos Analfabetos, onde adquirira as suas botas muito confortáveis. Tinha sido contratado por um chefe de uma aldeia que se situa na fronteira com as terras do Norte. Apesar da protecção do Rei, não era totalmente incomum que incursões Maglu se arriscassem a atacar os pontos menos defendidos. Numa dessas incursões, os atacantes levaram uma jóia, um anel, sem grande valor prático, mas de enorme valor sentimental para o chefe. Ventura Lobo foi encarregado de o recuperar. Encontrou o campo dos invasores nesse mesmo dia, à noite. Sob a protecção de um luar inexistente, conseguiu aproximar-se sem ser visto e evadiu as sentinelas que tentavam regatear o preço de um guarda-chuva cor-de-rosa.
O campo estava numa confusão completa, com todos os Maglus distraídos a vender uns aos outros os produtos que tinham pilhado. Ventura notou ao seu lado um Maglu adormecido, encharcado de vinho. Roubou-lhe o capacete e outras peças de armadura. As botas, em particular, tinham um aspecto extremamente confortável e Ventura, assim que as colocou, decidiu imediatamente levá-las consigo.
Agora estava suficientemente disfarçado para poder passar despercebido. Vasculhou o campo mais ou menos à vontade, tirando uma ou outra interpelação por parte de um ou outro Maglu a querer vender chinelos coloridos ou alguidares. De repente, nota uma pequena briga entre dois guerreiros. Pelo que percebeu, ambos afirmavam que uma certa peça do saque lhes pertencia. Um deles tinha a mão em punho, como se lá dentro escondesse algo e o outro berrava e apontava para ela. Os Maglu começaram a tomar partidos e a discutir fervorosamente entre eles.
Quando o primeiro soco voou, já há muito que Ventura se tinha escondido, percebendo que a situação iria descambar para a pancadaria ou, pior ainda, para uma troca intensa de insultos. A partir daí, teve a vida facilitada. Ventura imaginou que, pelo que tinha visto, o saque não tinha sido grande coisa, e mesmo um anel aparentemente inútil teria um valor relativamente maior. Pressupôs assim que o objecto da disputa seria o tal anel. Ventura viu o Maglu com o punho fechado fugir para os arredores do campo.
Agarrou numa pedra e apontou-a para a cabeça do fugitivo. Arremessou-a. Acabou por lhe acertar na perna. O Maglu caiu, catapultando a pedra verticalmente. Ainda tentou levantar-se para continuar, mas a pedra acertou-lhe em cheio na cabeça, amolgando-lhe o capacete e atordoando-o. Ventura aproximou-se rapidamente, abriu com dificuldade a mão do Maglu, roubou-lhe o anel e escapou-se na escuridão da noite.
Quando o devolveu ao chefe da aldeia, este pegou nele e refugiou-se imediatamente em casa, esquecendo-se de pagar a Ventura Lobo, murmurando algo sobre o "seu Querido".
- Pronto, já despachei a referência obrigatória ao Senhor dos Anéis. Voltemos à história principal. - comentou, suspirando levemente.

Deveras, Ventura Lobo nem reparara que Sara já se tinha levantado e o olhava expectantemente, se bem que ainda um tanto esgazeadamente. Preparou-se, arrumou o equipamento no parco espaço da sela e montou Sara, não sexualmente. Aliás, se não for dito o contrário, doravante nunca se poderá assumir que o verbo "montar" tenha conotações sexuais.
Ventura Lobo seguiu estrada fora, não obstante aos ziguezagues, devido ao estado mental não totalmente recuperado de Sara.

Com o passar das horas, o nosso herói aproximava-se a um bom passo das montanhas, tanto que a estrada se tornara incrementalmente mais íngreme. Como já se referiu anteriormente, estas montanhas continham estranhas cidades das quais nunca ninguém voltara. Ventura estava agora numa estrada na base de um vale estreitíssimo. Se por acaso fosse emboscado ali, só poderia escapar para a esquerda, subindo o vale em direcção do local das montanhas-cidade. Obviamente, como se poderia adivinhar, é precisamente neste momento que Ventura Lobo ouve o barulho galopante de cascos a bater contra a estrada maltratada. Não consegue perceber de que direcção o barulho vem, mas sabe pelo menos que o melhor é sair da estrada.
Como não podia deixar de ser, Ventura comanda Sara para subir a encosta à esquerda para se esconderem. Ao chegarem com dificuldade ao cimo (Ventura desmontou antes de lá chegar para poupar Sara), esconderam-se atrás de um penedo enorme e colocaram-se a observar a estrada lá em baixo.
Pouco depois, aparece um grupo de cavaleiros em tudo semelhantes aos que Ventura vira no carvalhal. Se não se tivesse escondido, teria ido ao encontro directo deles.
Galopavam o mais rapidamente que podiam, e pareciam não ter fim. Centenas de cavaleiros multiculturais passaram, todos ostentando o símbolo do polvo de nove tentáculos. Subitamente, Ventura começou a ouvir o ruído crescente de um exército a marchar. Esperou ansiosamente mais uns minutos e até já ouvia os cânticos de soldados.
Finalmente. Um pequeno grupo de cavaleiros surgiu, em passo lento, liderado por um homem de cabelo grisalho, mas do qual poucas mais características se podiam adivinhar àquela distância sem a ajuda injusta de um narrador omnipresente. Seguia-lhes um exército de infantaria de tamanho considerável. Ventura contou cento e noventa e nove linhas de dez homens por cada regimento, o que era uma organização muito peculiar. Entendia algumas palavras que diziam, mas outras soavam-lhe estranhamente. No entanto, conseguiu indiscutivelmente separar o tema principal dos vários cânticos.

- Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq!

Era o mesmo nome que o Maglu perseguido tinha referido. Seria certamente alguma espécie de líder desta facção misteriosa ou um grito de guerra. Fosse como fosse, não era problema seu, ou não imediatamente.
Tinha de prosseguir para o Norte, em direcção ao Abade. Em direcção ao Livro.
O exército continuava a marchar e Ventura não poderia assumir garantidamente a sua hospitalidade. Decidiu abandonar a estrada principal e explorar as cidades-montanha atrás de si por outra passagem para o Norte.
Dito isso, virou-se.

A paisagem era árida e rochosa. Pouco parecia crescer ali, para além de um ou outro raro arbusto colocado esporadicamente na espécie de planalto em que Ventura se encontrava. Verdadeiramente, a característica mais impressionante daquele triste espectáculo eram as montanhas em si, que estavam longe de ter um aspecto natural. Eram formadas por imensos penedos que se elevavam no ar e se acumulavam uns em cima dos outros. Estes penedos não eram uniformes na sua forma, mas tinham consistência na estrutura que pareciam formar, como se tivessem ali sido colocados por um arquitecto.
Ventura Lobo dirigiu Sara na direcção de uma destas montanhas, para a investigar mais detalhadamente. Começou a notar umas incisões negras nos vários penedos, como se fossem pequenas grutas. Ventura ainda não vira vivalma, mas pensou que seria prudente desmontar e prosseguir pelo terreno acidentado a pé. Prendeu Sara atrás de uma pedra e desembainhou Venceslau. Depois de subir o que parecia uma escadaria irregular imensa, verificou que as incisões que vira eram de facto entradas para o interior dos penedos, que na verdade eram ocos. Outros buracos pareciam servir de janelas. Olhando em volta reparou em mais lances de escadas largas, que serpenteavam montanha acima até ao cume. Continuou a sua ascensão, pensando que do cume teria uma excelente visão para procurar uma passagem pelas montanhas.
Já estava quase à espera de ser surpreendido por um dos Flintstones, mas nos degraus deparou-se subitamente com uma estátua, ligeiramente maior que ele. Era a estátua de um guerreiro, com uma lança e escudo enferrujados. O seu estilo estético contrastava totalmente com o resto da cidade, pois a pedra parecia polida e suave, e os contornos faciais e musculares estavam perfeitamente definidos. O cabelo era feito de fios de cobre, meticulosamente colocados uns ao pé aos outros de modo a simular cabelo real. Estranhamente, os olhos haviam sido esculpidos de forma a estarem fechados. Se tal facto era algum tipo de aviso ou mensagem, Ventura Lobo desconhecia. A estátua aparentava, apesar de tudo, estar em bom estado de conservação, com uma excepção: o que estaria na sua zona genital tinha sido vandalizado, ou melhor dizendo, completamente retirado, notando-se o que pareciam ser várias marcas de um cinzel.
- Nem quero imaginar do que é que era feito para terem querido tirar-to, ò amigo! - disse Ventura à estátua, futilmente. - Realmente não há decência no mundo.
Foi com menor surpresa que Ventura Lobo encontrou outras estátuas ao longo da escadaria. Algumas dentro das casas, encostadas aos parapeitos das janelas, outras sentadas pensativamente nos degraus, outras em pé, olhando melancolicamente o horizonte para todo o sempre. Todas pareciam profundamente aborrecidas e todas tinham os olhos fechados.
- Quem esculpiu estas estátuas estava a ter um dia mesmo mau, com mil diabos!
As estátuas tornaram-se mais numerosas à medida que Ventura Lobo se aproximava do cume. Uma multidão de dezenas delas esperava impacientemente à volta de uma espécie de pirâmide cortada que formava o pico daquela montanha específica. Ventura escalou estes últimos degraus íngremes e apenas encontrou duas outras estátuas, ambas sentadas num banco de pedra largo mesmo no meio da praceta que a pirâmide cortada formava.
Ventura Lobo embainhou finalmente a espada Venceslau. Olhou para o horizonte e viu que as outras montanhas estavam construídas similarmente a esta. A área era verdadeiramente inóspita, mas Ventura não percebia o que é que causava os aventureiros a vir aqui e nunca voltar.
Perscrutou o Norte, procurando uma passagem possível.

- Que procuras, forasteiri? Nesti terri há pouqi para se encontrar. - disse uma voz profunda e lenta.
- Ventura Lobo virou-se dramaticamente, fazendo o seu cabelo voar como num anúncio genérico de champô, preparando a espada, mas não viu pessoa alguma.
- Quem falou!?
- Fui eu, forasteiri, nem tudo está morti aqui. - uma das estátuas que estavam sentadas no banco levantou-se. Era a primeira estátua que Ventura via com os olhos abertos e verdadeiramente não reparara se já o estavam anteriormente ou não. Coincidente e paradoxalmente, era a primeira vez que via uma estátua mexer-se de todo.
Ventura largou a sua espada, que deslizou de volta para a bainha. Já deveria ter percebido há muito que os habitantes daquela cidade tão esquisita eram as próprias estátuas. A que falou não parecia ser agressiva, o que assegurou Ventura.
- Perdão, meu caro, mas nunca tinha falado com um ser de pedra, nem tão pouco sabia que existiam.
O ser aproximou-se lentamente, parecendo carregar um imenso fardo invisível às suas costas. Era uma criatura significativamente maior que Ventura, em termos de altura e largura. Os olhos eram uma espécie de rocha negra muito polida, que conseguiam mesmo assim revelar uma quantidade imensa de emoção. Em tudo o resto era semelhante às outras estátuas, ou melhor, aos outros seres. Os seus cabelos metálicos eram longos, e balançavam de um lado para o outro como cabelo humano. Os genitais aparentavam ter sido removidos também.
A criatura apresentou-se num discurso longo e enrolado, como se não falasse há muitos anos.
- Eu chamo-me Riq, e sou i últimi dis Ruqi que dão i nome a estis montanhis. É rari que venham cá forasteiris, e quando vêm é normalmente ai procuri de tesouris. Diz-me entã, foreasteiri, que razã tens para subir ai cume de Ruquru, i minhi cidadi? Aviso-te já que nã há cá tesouris. Is que há estã nis montanhis mais para i interior, portanto, se is quiseres, tens de continuar caminhi.
Com tanto erro ortográfico, Ventura assumiu que a sua espada Venceslau estaria exasperadamente ofendida, mas para sua surpresa, estava perfeitamente calma.
- Saudações, Riq, o último dos Ruqi. Sou Ventura Lobo, aventureiro em missão real. Devo dizer que a sua cidade gerou uma quantidade de perguntas na minha mente que teria dificuldade em responder sem o auxílio de um habitante. Mal sabia eu que conhecer um dos habitantes traria ainda mais questões! Sem ofensa, compreenda.
- Is Ruqi há muiti que foram esquecidis. Já nã me admira que passem por aqui e fiquem admiradis peli triste espectáculi que é i minhi casi. Há muiti que não falo com alguém, se quiseres fazer perguntas, estás ai vontade, estrageiri.
- Agradeço a disponibilidade, meu caro. Devo dizer que o assunto que me mete mais impressão neste momento é a sua forma particular de falar, pois mais parece estar a falar uma má versão de italiano.
Riq fez uma exalação estranha, podendo ser um riso, um choro, um suspiro, ou uma combinação dos três.
- Para compreenderes i minhi maneiri de falar, teria de te contar muiti. Vem sentar-te comigui, se i tui interesse for genuíni.
Ventura aceitou o convite, não detectando qualquer tipo de má intenção. Sentou-se entre Riq e o outro Ruqi, parecendo uma criança no meio dos dois.
- Vou começar nim ponti em que seja fácil para ti compreenderes. Is Ruqi habitam esti cordilheiri desde quase sempre e através dis váris gerações estabelecemos uma sociedade muiti estável e prósperi, nã sem muitis erris peli caminhi, obviamente. Quando is montanhis passaram a ser insuficientes para i nossi populaçã, começámos a construir novis montanhis di nadi, e i cordilheiri cresceu. Is nossis polítiqis tinham tã pouqis problemis que começaram a arranjá-lis onde nã existiam. A certi alturi achou-se que deveria haver igualdade de direitis para is dois géneris de Ruqi, cujis termis já me esqueci. Aceitámos que todis tivessem is mesmis direitis e deveres.
- Mas isso até faz sentido. Ou pelo menos parece-me que sim... - interrompeu delicadamente Ventura.
- A nós também nos pareceu, mas i igualdade de direitis e deveres só se pode aplicar a seres mineralogicamente iguais.
- Mineralogicamente? Como assim?
- Biologicamente, ni casi dis seres glandulares.
- Ah, compreendo. Continue.
- Se nã existe homogeneidade em todis is indíviduis de umi sociedade, nã se pode aplicar is mesmis regris a todis. Nã vimos essi faláci a tempi. Consequentemente, leis bizarris começaram a ser aprovadis. Umi dis primeiris foi i fim dis casis de banhi públiqis separadis. De seguida foi i mudanci di modi de falar e escrever. Existiam tantis palavris que diferenciavam entre is géneris, algumas dis quais já disseste hoje, aventureiri, e que já me tinha esquecidi. Entã arranjaram-se formis neutris para fomentar i igualdade nis palavris.
"Por isso é que Venceslau não está aos saltos em agonia. A espada percebeu logo que Riq está a falar uma espécie de dialecto e a forma incorrecta das palavras é simplesmente um sotaque." - pensou Ventura.
- Por isto é que tens dificuldade em compreender-me, aventureiri, tal como eu nã te compreendo perfeitamente.
- Mas imagino que tais medidas tenham tido consequências mais graves? Imagino que houvessem equívocos constantes no dia-a-dia?
- Is equívoqis nã eram i pior. I pior foi que is pessois, inebriadis com i espíriti di igualdade total, deixaram de ter Ruqinhis pequeninis, porque apesar de serem necessáris dois Ruqi para gerar um Ruqinhi, ambis is partes tinham um papel diferente... se bem que nã me lembro exactamente quais eram...
- Um seria a mãe e o outro o pai, suponho?
- Nã conheço essis palavris. Ou nã me lembro. Nã sei. Sei apenas que is Ruqinhis deixaram de aparecer. Mas a situaçã ainda piorou mais. Is pessois simplesmente nã se conseguiam esquecer que eram diferentes enquanto houvessem provis visíveis de que realmente i eram. Por todi i ladi viam-se... nã me lembro i nome... i que tínhamos aqui... - e apontou para a virilha.
- Espera lá, Riq. Está a dizer-me que vocês removeram os vossos próprios genitais propositadamente em nome da igualdade?
- "Genitais", sim, é isso. É essi i nome. E sim, fizemo-lo, e tínhamos de i fazer váris vezes, pois elis cresciam de volti, como se i nossi própri corpi soubesse que i igualdade total é umi ilusã.

Instalou-se um silêncio desconfortável enquanto Ventura Lobo tentava digerir a informação que recebera.
- Diga-me, Riq, você lembra-se sequer o que era antes? Suponho que... o seu... enfim... o seu orgão tenha tentado crescer de novo...?
- Nã, nã me lembro i que eu era. Só me lembro que i Ruqi ai tui ladi era i miu esposi, mas também nã sei i que eli era. Não me lembro. E i mui "genitais" já parou de tentar crescer, desde i iníci di Grande Depressã.
- Uma crise económica?
- Nã, literalmente umi grande depressã social, que contagiou todi i populaçã. Quando nos tornámos totalmente iguais exaltámos i utopi que criáramos, mas pouqi depois percebemos que tínhamos perfurado umi vazi enorme ni nossi ser. I nossi existênci deixou de ter qualquer significadi se nã podíamos manter i cicli normal de umi vidi Ruqiani. Para quê trabalhar se nã tínhamos umi famíli para sustentar? Para quê tentar seduzir alguém, se era impossível gerar Ruqinhis? I sociedade ruiu, e tornámo-nos individualistas, e cada umi isolou-se ni sui casi, cada umi ni sui canti. Compreende, Ventura Lobi, que somos feitis de pedri por fori, mas por dentri somos tã emocionais como qualquer outri ser, ou talvez mais. Is Ruqi, deprimidis, começaram a... enfim, morrer nã é i palavri certi. Começaram a fechar is olhis, para nunca mais is abrirem, apesar de nã estarem realmente mortis. Simplesmente nã têm razã de viver e desligaram-se di mundi, criando umi cemitéri vivi de estátuis, como is pouqis visitantes que cá vêm dizem.
- Então todas as montanhas-cidade no horizonte estão assim? Mortas? Ou melhor, desligadas?
- Sim. Nis tempis finais, is Ruqi que restavam perceberam que nã queriam ficar sozinhis e começaram a juntar-se aqui. De pouqi lhes valeu, pois só se aperceberam ainda mais rapidamente i quão fútil tudi era. Fecharam quase todis is olhis ai mesmi tempi. Eu estava aqui, nesti síti exacti. I mui esposi juntou-se-me aí onde eli está agora. Nem me disse umi palavri. Só suspirou e fechou is olhis. Fiquei sozinhi desde aí.
- Bolas, isto está a ser um texto muito mais sério do que imaginei que seria...

Novo silêncio contemplador.

- Isso foi há quanto tempo? - perguntou Ventura, como se o silêncio nunca tivesse ocorrido.
- Nã sei, mas já vi is fumis de centenis de guerris e batalhis ni horizonti. Já vi torris imensis a ser construídis e abalroadis. Testemunhei todi i tipi de catástrofes. Observei is minhis queridis cidadis a deteriorar-se com i passar dis eris, atacadis por chuvis, ventis e pilhantis.
- Riq?
- Sim?
- E você?
- Como assim?
- Porque é que ainda não fechou os olhos?
As esferas negras que eram os olhos de Riq pareceram humedecer-se.
- Nã sei. Nunca soube como é que is outris i fizeram. Já tentei váris vezes, mas pareço estar presi numi espécie de maldiçã. Há algo que me mantém vivi. Algo que me diz que i mui trabalhi ainda nã acabou.
- É esperança, se calhar?
Riq abanou negativamente a cabeça gigante.
- Culpi.
- Culpa? Porquê?
- Porque fui eu quem propôs is primeiris ideis de igualdade total. Eu sou i responsável peli morti dis Ruqi, e suponho que me mantenho aqui para avisar is civilizações presentes ou futuris dis periguis de tais ideis, se levadis ai extremi.
- As minhas aventuras normalmente envolvem uma boa quantidade de parvoíce, e acho que é a primeira vez que lidei com uma situação tão séria. Posso apenas esperar que isto seja uma partida monumental e que o Riq me aponte para o sítio onde estão as câmaras dos apanhados, para depois aparecer na SIC.
- Estás com azar, aventureiri.
- Nada do género, então?
- Nada.

Ventura Lobo reflectiu durante um momento. Subitamente, levanta-se energicamente.
- Diga-me, Riq, já tentou acordar os seus compatriotas do seu torpor?
- Todis is dias, de todis is formis que me vêm ai cabeci. Umi vez até contratei umi Magui poderosi que procurava umi Demóni qualquer, mas eli pouqi pôde fazer, pois disse que is Ruqi nã tinham vontade de serem acordadis.
- Essa agora... E ele deu alguma sugestão sobre onde se poderia ir buscar essa vontade?
- Eli era umi individui misteriosi e vagui. Apenas respondeu que i soluçã está ni Bem.
- Com "B" grande?
- Creio que sim.
- Parece-me estranho, pois aqui não há grande possibilidade de fazer o Bem.
- Isso foi i que eu lhe disse. Eli aconselhou-me paciênci, pois i dia viria.
- Ou seja, esse Mago era maluco.
- Nã sei, aventureiri.

O Sol começara a descer, e as sombras das montanhas enegreciam as planícies áridas de Ruq.
- Começa a ficar tarde, Riq. Acha que me permitiria passar aqui a noite para retomar caminho amanhã?
- Claro que sim, aventureiri, até agradeço i companhi.
- Já que estamos no assunto, poderia também perguntar se....
Ventura Lobo interrompeu-se ao ouvir um barulho galopante. Aproximou-se dos degraus da pirâmide e surpreendeu-se ao ver Sara a subir agilmente a cidade. Parecia alarmada.
- Que se passa, bicha? Qual é a pressa? E como é que num raio é que te soltaste!?
Sara não precisou de responder, não que o pudesse. Olhando para baixo, Ventura viu que um conjunto de cavaleiros se reunira no sopé da montanha-cidade de Ruquru.
- Riq! Conhece-los!?
Riq abeirou-se placidamente dos degraus e olhou longamente para os homens lá em baixo.
- Sim, sã is serventes de Otto'Gháfiq. Já cá apareceram umis vezes, a querer converter is habitantes daqui para i culti delis, com pouqi sucessi. Pessoalmente, nã gosti muiti delis, nem nunca lhes dirigi i palavri, pois nã gosto de pensar ni mui povi subjugadi por umi culti estúpidi.
- Um culto? Essa agora...
- Sim, umi culti. Estranhamente, elis parecem saber que is Ruqi estã vivis, pois os cultistas vêm falar com elis algo futilmente. Eu deixo-is falar ai vontade pois pode ser que consigam acordar algumi delis. Devo dizer que nunca vieram cá armadis, i que me deixa numi novi nível de preocupaçã.
Riq olhou para o olhar expectante de Ventura.
- Elis estã aqui por tui causi, Ventura Lobi? Que fizeste?
- Poderei ter roubado um cavalo que eles roubaram a um Maglu. Em minha defesa, devo dizer que eles abandonaram o cavalo na orla de uma floresta.
- Abandonaram umi cavali Maglu? Parece-me duvidosi...
- Ela recusou-se a entrar na floresta e eles abandonaram-na. Digo a verdade, Riq.
- Nã preciso de tautologismis. Eu acredito em ti. Só espero que nada de mal ocorra a Ruquru.
Dito isso, Riq desceu as escadas e pegou um velho escudo de ferro maciço e um martelo pesadíssimo. Colocou-se em sentido, mantendo-se perfeitamente imóvel, parecendo simplesmente mais uma “estátua”.

Ventura Lobo mandou Sara subir os degraus. Desembainhou Venceslau. Virou-se para a escadaria donde os cultistas viriam.

E esperou.

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A Espada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 31.07.16

Anteriormente...

 

Ventura Lobo sabia que precisaria do seu amigo Abade Fazia se quisesse encontrar o Livro. Devido às suas aventuras, há já muito que concordara com as palavras do Abade. Assumindo que o Livro continha a salvação esperada das pessoas, cada vez mais lhe dava uma maior importância; importância esta que o povo ignorava quase completamente. No entanto, nunca fez por procurar o Abade. Nunca achou que precisasse, em parte porque não queria ter que admitir que o velho insano tinha razão.
Agora precisava, pois estava incumbido com uma missão real. Não poderia falhar, senão esta seria uma história bastante menos interessante, a não ser que Ventura Lobo fosse um anti-herói ou um personagem cómico secundário.
A demanda, mesmo antes de começar, apresentava-se complicada, pois Ventura Lobo sabia que teria de se aventurar nas perigosas terras do Norte, onde as piores escumalhas monstruosas se aterrorizavam umas às outras num estado de guerra civil inter-clã fantástico e constante. Bem vistas as coisas, ainda bem que tal acontecia, pois as boas pessoas do mundo podiam respirar de alívio.
Ventura Lobo começou a preparar-se para a sua aventura. Levantou-se da cama de palha, mordiscou umas fatias de pão barradas com manteiga de iaque da Cratera de Buzul, bastante nutritiva, apesar de Ventura Lobo preferir não se lembrar do processo de ordenha dos iaques. Para contextualizar, os executores da ordenha são o povo nobre dos Pigmeus de Buzul, de cabeças ainda mais minúsculas que o resto do corpo. Por contraste, os iaques da região são animais milenares gigantescos. É impossível imaginar que ideia terá passado pelos pigmeus para tentar ordenhar um animal centenas de vezes maior que eles próprios (e milhares de vezes maiores que as suas cabecinhas), mas a verdade é que fizeram do feito uma arte. Como as suas cabecinhas são mesmo muito pequeninas, têm ampla envergadura de ombros disponível, o que lhes permite colocarem-se em cima uns dos outros, não sem habilidade, formando uma espécie de escada vertical humana, não totalmente incomparável a um número de circo. Assim, escalando-se comicamente uns aos outros, conseguem chegar à única teta que uma iaque buzuliana fêmea tem. Tragicamente, os pigmeus buzulianos não têm a fama de ser inteligentes nem de terem a vista apurada, e já têm confundido uma iaque com um iaque, o que origina um erro que apenas demasiadamente tarde descobrem. Existem rumores que nada é desaproveitado, mesmo assim.
Com este pensamento, Ventura Lobo pousou a fatia de pão lentamente, senão com um toque de nojo. Foi ao estalajadeiro e pediu-lhe para preparar um bom banho. Voltou ao seu quarto e começou a fazer os seus exercícios matinais, não para se preparar para a missão vindoura, mas com o objectivo de manter o físico sensual, não totalmente prático, para impressionar as miúdas, humanas ou não. Outrossim, sabendo que ia para o Norte, pensou em fazer um atalho pelas terras das fadas Aa'a-a-A'a, as mais belas das Fadas Vogais, já que tinha uma particular atracção por elas. Note-se que esta atracção existe em termos puramente sexuais, claro, pois de forma alguma um aventureiro de renome como Ventura Lobo poderia envolver-se em sentimentalismos. Obviamente que não, não seria digno de um herói a sério. Nem seria digno de um homem de todo, essa agora.
Ventura Lobo interrompeu as suas flexões (ainda só ia na milésima tricentésima trigésima sétima) para arrotar e praguejar grosseiramente, só para demonstrar ao mundo a sua masculinidade aparente, não fosse algum leitor de mentes estar à escuta. Bateram à porta e Ventura Lobo colocou-se numa pose ridícula dominante, pensando que poderia ser a filha do estalajadeiro.
- Entre! - ordenou Ventura Lobo, completamente suado e arfante.
Não era a filha. Era o próprio estalajadeiro, cujo bigode enorme, grisalho e sujo foi a primeira coisa que Ventura viu. Na verdade, não era muito diferente do da filha, se bem que o dela era louro claro, perfeitamente exemplar dos humanos de Aguard dos quais fazia parte.
- O seu banho 'tá pronto, chefinho.
Ventura Lobo escorregou para a banheira de madeira, que em tempos havia sido um enorme barril de vinho azedo de Pútúíl. A fragrância desagradável ainda tinha uma presença forte no barril, como se estivesse embebido ainda da substância nefasta (que, inexplicavelmente, é amplamente apreciada e consumida ou pelos muito pobres, ou pelos incrivelmente ricos). Como não queria sair do banho a cheirar como uma estrela de rock do final dos anos 60 (dos nossos anos 60, claro; ainda não é clara a cronologia neste mundo imaginário), Ventura Lobo aplicou uma pitada de sais de banho dos ufanos habitantes das Cidades Voadoras, os Kamil. A água agitou-se, borbulhou, fervilhou e subitamente acalmou-se, convergindo para uma superfície ligeiramente espumosa e convidativa. Rodeado de aromas mágicos e sempre desconhecidos, Ventura Lobo pegou num espelho flutuante, outra prenda por parte dos Kamil depois de ele ter afugentado das Cidades Voadoras uma excursão de turistas H'hultianos vulgaríssimos, começou cuidadosamente a fazer a barba, arrancou os pêlos que teimavam a reaparecer na glabela, evitando assim uma monocelha, cortou as unhas com uma pequena navalha, limpou os poros do seu nariz acentuado, puxou dolorosamente os pêlos que espreitavam pelas narinas, passou champô pelo longo e ondulado cabelo castanho-dourado, como o cabelo típico de um mosqueteiro dos filmes, tipo o Jeremy Irons.
Espera lá. O champô se calhar não existia neste contexto. Felizmente, aqui pode-se inventar seja o que for para colmatar falhas de coerência:
Ventura Lobo aplicou então a substância semelhante a seiva que adquiriu de um mercador Xesparatuq, proveniente das selvas cor de fogo das Montanhas Xsantinuq. A substância, a que o mercador chamava Sxam'Poh, como já se referiu, fazia maravilhas a tudo o que fosse pêlo ou cabelo (e os Xesparatuq devia precisar de quantidades massivas do produto, tendo em conta que eles são essencialmente bolas de pêlo andantes). O mercador insistiu veementemente que Ventura levasse o frasco de Sxam'Poh gratuitamente. Quando inquirido sobre o porquê da oferta, o Xesparatuq simplesmente disse:
- Porque você merece.
A resposta enigmática ainda assola a mente do nosso herói de vez em quando.

Ventura Lobo presenteava-se com todos estes luxos e vaidades pois sabia que só daí a muito tempo é que voltaria a civilização. Levantou-se finalmente da banheira. A água tornou-se magica e imediatamente fria. Ventura sentia-se completamente revigorado. Passeou pelo quarto até se conseguir cobrir decentemente. Para não ofender sensibilidades, deve-se referir que os seus pudendos estavam visualmente censurados, mesmo que isso seja impossível e ridículo de demonstrar numa narrativa.
Vestiu-se com uma roupa leve e voltou para o seu próprio quarto. Tinha pedido ao estalajadeiro para mandar limpar a sua armadura e esta já o esperava em cima de uma velha mesa de madeira. Começou pelas pernas, onde enfiou umas calças de cabedal reforçado de iéti. Ou eram calças de cabedal de iéti reforçado? Já se esquecera, mas não interessava. Calçou as botas muito confortáveis e resistentes que roubou a um pilhante Maglu nos Planaltos Analfabetos. Reflectiu durante uns segundos o porquê de se usar o verbo calçar para botas mas não para calças. Equipou a armadura de malha que se ajustou ao seu corpo, apertando-o apenas ligeiramente, não lhe retirando qualquer agilidade aos movimentos. Arranjou-a no Decathlon, porque queria uma versão desportiva, daquelas que respiram bem, como se costuma dizer. Aplicou as joelheiras, as ombreiras e as manoplas, todas ricamente decoradas com padrões nas suas componentes metálicas quase brancas com bordas douradas, já se notando, no entanto, algum desgaste óbvio nas porções de cabedal das mesmas. Finalmente, vestiu um colete leve e prendeu-o na cintura com um cinto, cuja fivela tinha relevado o símbolo de um lobo. Na verdade, para se ser correcto, o símbolo representava um cão pastor belga, mas da mesma maneira que um leitor desta história não sabe onde é que é a Cratera de Buzul, os habitantes deste mundo também não sabem o que raio é a Bélgica, portanto diz-se que é um lobo e isso satisfaz todos os intervenientes, reais ou imaginários.

Só lhe faltava um conjunto de coisas. As suas armas. Tinha vários punhais, cada um mais exótico que o outro, uma soqueira no colete, uma besta guardada de lado com os respectivos dardos numa aljava pequena presa na perna e um sabre Ahtem. Contudo, a sua arma preferida chamava por ele. Uma arma com que Ventura Lobo tinha derrotado incontáveis inimigos e que no fundo era a única companheira constante dele. Uma espada de lâmina de metal branco e reluzente. O cabo, por contraste, era negro como ébano e findava no pomo que era na verdade uma espécie de pedra preciosa translúcida surpreendentemente pesada. O mesmo género de pedra encontrava-se nas duas pontas da guarda da mão. A lâmina não parecia estar desgastada de todo e estava gravada com vários símbolos que reluziam um azul muito leve. Estes símbolos pertenciam ao alfabeto dos Tçuchulshuxuz, uma civilização antiquíssima que se perdeu para sempre, depois de sucessivas guerras civis brutais e devastadoras, todas relacionadas com a discussão sobre a correcta pronúncia do seu próprio nome. Felizmente, o pouco conhecimento que sobreviveu dessa civilização permitiu a tradução das inscrições da espada, que revelaram o seu nome:

Venceslau.

Esta espada já tinha tido inúmeros donos, mortais e imortais, humanos e monstros, sendo que a lenda dizia que ela tinha vontade própria e continha um poder imenso, não se sabendo com que fim. Se tal fosse verdade, a sua permanência com Ventura Lobo não seria coincidente e ela auxiliava-o porque assim o queria.
Ventura Lobo pegou na espada, que pareceu tremer de expectativa. Enfiou-a na bainha e lembrou-se do dia em que tomou posse de Venceslau.

O sol estava a pôr-se. A noite aproximava-se depressa nas planícies áridas de Kukula, o Deserto Limitado. Ventura Lobo seguia rapidamente pela estrada mercantil, esperando chegar ao oásis deslumbrante de Virik Katal, o centro exacto de Kukula e do Império Comercial Kataliano. A estrada eximiamente construída contrastava com a pobreza das terras secas e fendidas pelas quais serpenteava. Eis que Ventura observa uma montada no horizonte, com alguém a seu lado. Estavam parados. À medida que se aproximou, discerniu claramente um cavalo dourado, como os que os katalianos usam na sua Guarda Imperial e Comercial. No entanto, a criatura ao lado do cavalo estava longe de ser um dos homens morenos de Katal. Subitamente, o cavalo larga a fugir, obviamente aterrorizado com algo, e galopa na direcção de Ventura Lobo, passando como um relâmpago por ele sem parar. A criatura ainda o tentou apanhar, mas voltou atrás depois de uma curta perseguição, não notando que era observada pelo recém-chegado.
Ventura Lobo, agora ainda mais próximo, reconheceu a criatura como sendo um Vyx, um monstro humanóide raro que normalmente só causa problemas. Era verde e a sua pele nunca tinha um estado a que se pudesse chamar sólido, mas era sim uma espécie de líquido viscoso em constante movimento. Na sua cabeça, em vez de ter cabelo, dançavam uns tentaculinhos pequenos, como os de um mau penteado de jogador de futebol. O seu olhar, também verde, era uniforme e vazio de expressão. Normalmente encontravam-se em ambientes mais húmidos, onde pudessem sugar líquidos para manter o seu corpo saudavelmente medonho e pegajoso.
Não obstante serem incomuns, não era a primeira vez que Ventura Lobo lutaria com um Vyx. Imaginou que estivesse a absorver todos os líquidos do anterior dono do cavalo, e supôs que estaria mais disposto que tudo a defender a sua presa.
Desembainhou a sua espada, que na altura era o seu excelente sabre de origem Ahtem, e fez por apanhar a criatura de surpresa. Como não podia deixar de ser nestas situações, tropeçou numa pedra e chamou imediatamente a atenção do Vyx. Este virou-se repentinamente, exprimindo surpresa com a linguagem corporal. Ventura observou o espectáculo triste à sua frente. Um soldado kataliano estava quase completamente ressequido no chão, de armadura destruída e roupas esfarrapadas.
Ventura Lobo aproximou-se, agora sem subtileza. O Vyx pegou na bela espada do soldado e preparou-se para o combate.
- Boa tarde, ou quase boa noite, amigo Vyx. Devo dizer que as autoridades katalianas não deverão olhar com bons olhos o assassinato de um dos seus soldados, mesmo que seja para o sustento directo de outrem.
- Não me interessa, tinha sede, muita sede, precisava de beber. - respondeu maliciosamente o Vyx.
- Bom, permita-me que me apresente: Ventura Lobo, aventureiro a caminho de Virik Katal. Peço-lhe que me obsequie com o seu nome.
O Vyx riu-se sardonicamente.
- Eu tenho o nome de "Demolidor Implacável" na minha língua, que com a pronúncia correcta se diz... - fez uma pausa dramática. - Fernando...
- Pois claro, agradeço-lhe. Precisava do seu nome para o reportar às autoridades competentes, quando estivesse a relatar a sua derrota vindoura.
- Podes tentar, Ventura Lobo, o Aventureiro... - e Fernando elevou a sua espada branca numa pose estranha de combate, não desconhecida do seu adversário, felizmente. - Anda cá, se 'tiveres pronto!
Dito isto, a espada branca caiu sobre o seu próprio manuseador, atingindo-o de chapa na cara, atordoando-o. Ventura Lobo, pensando que era um truque para o distrair, apenas redobrou a sua guarda.
- Que raio? Mas esta treta escapasse-me da mão sem mais nem menos?
Subitamente, o Vyz desfere um golpe com o pomo da espada na própria barriga.
- Mas à alguma maldição nesta espada?
Fernando desferiu um novo golpe em si próprio, desta vez cortando um pedaço da nhanha verde e purulenta que era a sua pele. Acreditando que a espada estaria amaldiçoada, o Vyx arremessou-a contra o adversário, esperando feri-lo para logo a seguir o atacar com as suas pútridas garras. A espada voou e cortou sibilantemente o ar, mas caiu pacificamente na terra seca à frente de Ventura Lobo. Este, curioso, não conseguiu deixar de pegar e admirar uma tão bela peça. Fernando, vendo que a maldição estava nas mãos inimigas, lançou-se ao ataque, surpreendendo Ventura.
- Agora vais morrer, humano!
Ventura Lobo conseguiu bloquear o ataque, levantando a espada agilmente, e tentou de seguida separar-se para se recompor.
- Esta é uma boa espada, Fernando. Não se devia ter separado dela. Agora, preparese, pois é a minha vez de atacar.
Não era não, pois o nosso herói levou igualmente com a espada de chapão na bochecha, para imenso gozo trocista do Vyx.
- Ah, vês? Uma espada que ataca quem a usa não pode servir para muito. Deve ter um feitiço sobre ela.
- Bom, na verdade, - respondeu Ventura Lobo, enquanto analisava os estragos inexistentes à sua cara. - bem vistas as coisas, até mereci, porque me esqueci do hífen na frase ameaçadora que disse. Enfim, acontece. Ah... mas será que? Deixe-me experimentar uma coisa.
Ventura Lobo falou para a espada.
- "O Fernando é bonito!"
Todos os presentes estranharam a afirmação, mas mais nada aconteceu. Ventura Lobo continuou:
- "O Fernando é bunitu!"
Imediatamente a espada caiu em cima do pé do seu portador, resultando num ror de pragas. Quando Ventura Lobo se acalmou, explicou finalmente a Fernando:
- Pois, é meu caro, creio que esta espada leva demasiadamente à letra a expressão de "corrector ortográfico", pois parece atacar quem comete calinadas no que diz.
- Então ela consegue ver textualmente o que nós dizemos?
- Fantástico, não é? Bom, podemos retomar o nosso combate, se calhar? Desta vez, mais silenciosamente, não queremos ofender aqui esta espada.
- 'Bora.
Ventura Lobo atacou, desviando-se das garras de Fernando movendo-se para a direita, o que lhe deu a abertura para desferir um golpe certeiro na sua lateral. Fernando, aparentemente imune à dor, arranhava futilmente o ar, pois Ventura conseguia sempre ou evadir o golpe ou deflecti-lo. Em cada ataque falhado, Ventura cortava mais uma camada da pele peganhenta e chutava-a para longe, para que não pudesse ser reabsorvida. Relembra-se que esta não era a primeira vez que lutava contra um Vyx, portanto a estratégia já estava definida mesmo antes do combate ser iniciado.
Depois de alguns minutos desta dança mortal, o Vyx estava magríssimo, e em desespero tentava absorver humidade do próprio ar, mas de nada lhe valeu.
- Misericórdia, Ventura Lobo! Imploro-te! Fugirei para uma caverna qualquer, não causarei mais problemas!
Ventura Lobo, com um esgar malicioso na cara, apenas disse:
- Sabe, os olhos de Vyx são muito procurados e valiosos nos dias de hoje.
- Não! Por favor! Peço te!
Foi a gota de água para a espada. Sem Ventura querer, ela lançou-se sobre o pescoço de Fernando e este desfez-se completamente, ficando apenas duas grandes esmeraldas que haviam sido os olhos de Fernando.
Ventura Lobo encontrou o cavalo do soldado e usou-o para compensar o tempo perdido para chegar a Virik Katal, não sem antes enterrar o irreconhecível guarda kataliano. Decidiu levar a espada dele como prova do que ocorrera ali. Pôs-se a galope pelas planícies, continuando a seguir a estrada.
Quando chegou à cidade imperial de Virik Katal, requereu uma audiência com as imperatrizes e apresentou-lhes a arma do soldado caído, contando-lhes o que se sucedera. Foi com desgosto que reagiram.

- Esta espada branca chama-se Venceslau. - disseram as duas em uníssono. - Era a espada de um dos nossos melhores guerreiros, Fil Lin Ot Lau.
- É horrível pensar que a espada partilhava parte do nome com ele, e que agora não terá o mesmo significado.
- Na nossa cultura, um verdadeiro guerreiro adopta parte do nome da sua espada, e não o contrário. Esta espada já tinha uma história milenar antes de pertencer a Fil Lin Ot. É deveras impressionante que tenha conseguido trazê-la de todo, pois Fil Lin Ot dizia que ela escolhia os seus mestres e não se deixaria usar por ninguém desmerecedor.
As imperatrizes, subitamente, começaram a murmurar uma para a outra numa linguagem que apenas elas compreendiam.
- Aventureiro, propomos-te um negócio, se estiveres interessado.
- Estarei interessado em ouvir, pelo menos.
- Sabemos que tens os valiosos olhos do Vyx. Propomos uma troca desses olhos pela espada, já que, apesar de tudo, a espada não é tua.
- Perdoai-me a impertinência, Majestades, mas tal acordo não seria uma desonra à memória de Fil Lin Ot Lau?
Riram-se levemente.
- Não, aventureiro, seria, muito pelo contrário, uma honra enorme. Ele era um kataliano que representava perfeitamente o espírito da nação, e saber que a sua morte resultou num negócio de valor tão grande seria tudo o quanto ele poderia almejar. Se quiser, para melhorar o negócio, oferecemos também o Fil, o cavalo dourado de Fil Lin Ot.
Assim persuadido, Ventura Lobo aquiesceu e nunca mais se separou de Venceslau.

Fil, o cavalo, perdeu-se tragicamente na fortaleza negra de Ung Bodun, muito tempo depois. Mas isso é outra história.


Relembrada a história de Venceslau, a espada, Ventura Lobo fez-se à estrada.
- Vamos, Venceslau, em direcção ao norte!
E levou uma traulitada na perna por se esquecer da maiúscula.

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publicado às 17:05


O Abade - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 28.06.16

Anteriormente...

 

Sinceramente, Ventura Lobo não fazia ideia de como iniciar a sua busca pelo Livro, importante o suficiente nesta epopeia para merecer ser tratado como um substantivo próprio. Ele soube da sua existência há muito tempo, mas mencioná-lo publicamente só lhe trouxera complicações, especialmente porque os saloios incultos com que se cruzava não sabiam o que era um livro sequer, quanto mais O Livro dos livros. Escoraçavam-no dos povoados, alegando feitiçaria, bruxaria e elitismo literário.
- Expulsem-no! Daqui a nada começa a envagelizar o Zé Saramago e a Agustina Bessa-Luís.
Ventura Lobo tentava explicar em vão que não era esse o seu objectivo (muito menos começar por esses autores, c'um catano!). Pretendia convencer os enraivecidos cidadãos ignorantes que o interpelavam que existe um livro que beneficiaria todos quantos o lessem, ou assim rezava a lenda, pelo menos.
A resposta normal por parte dos camponeses era a tentativa de converter Ventura Lobo numa salada requintada, atirando-lhe comida estragada e exoticamente temperada, como o cliché obriga. Ventura tinha tanto de modesto como tinha de astuto, e por isso começou a enervar camponeses de propósito quando lhe apetecia uma refeição frugal e barata.

Voltando ao Livro, ele lembrou-se que a primeira vez que ouviu falar no Livro foi numa altura no início das suas aventuras, quando ele vagueava aleatoriamente pela serras do Norte, não porque procurasse o tesouro de um monstro viscoso, mas simplesmente porque se perdera depois de se ter ido aliviar a um arbusto e ter notado que o resto da caravana mercantil com que seguia o deixara para trás.
Foi a última vez que pediu boleia a um camião do Pingo Doce.
Seja como for, na sua deambulação pelas serras, deparou-se repentinamente com uma espessa neblina que lhe bloqueava toda a visão. Veio a saber depois que a neblina aparentemente mágica foi o resultado de um convívio de feiticeiros, cuja sardinhada correra catastroficamente mal pois cada um tinha uma opinião diferente de como melhor assar as sardinhas. Ventura Lobo andou tropegamente pelo fumo, subindo o que parecia ser uma espécie de monte.
Subitamente, caiu num buraco.
A queda foi surpreendentemente inofensiva, por duas razões: em primeiro, não se pode aleijar seriamente o herói de uma saga, senão temos de ficar uma data de tempo à espera que ele se cure decentemente, para o sindicato não se queixar; em segundo, o facto de ele ter caído em cima de um velhote esquelético, mas estranhamente fofo, ajudou imenso.

- Ah, atacam-me? Mas como? Estou completamente sozinho! Há tantos anos que o estou! Será a minha mente que finalmente vacila sob o peso destes anos de prisão miserável? Será o fim da minha existência subterrânea, libertando-me desta vida terrena e levando-me para outros planos de existência?
O velho tinha o aspecto de poder ser utilizado por agências de publicidade no Natal, ou em adaptações amadoras do Senhor dos Anéis. A cara enrugada, barba comprida, olhar ligeiramente maníaco, o cheiro a alguma espécie de água-de-colónia que nunca ninguém tem coragem de dizer que "cheira muita mal". Tudo contribuía para descrever um personagem tão típico num ambiente fantasioso medieval.
- Perdão, meu senhor, mas receio ter de o informar que não o venho libertar de nada, excepto de uma aparente solidão enlouquecedora. Permita-me que me apresente: Ventura Lobo, aventureiro amador e futuro herói de uma série de histórias que um gajo há-de criar no futuro.
Ajudou o velho a levantar-se, verificando se lhe partira mais do que uma dezena de ossos. Menos do que isso é admissivelmente ignorável.
- Pois aventureiro, és louco em vires meter-te aqui! Estarás para sempre preso como eu! - berrou o velho exasperadamente, mas rapidamente se acalmou e apresentou-se. - Sou o Abade Fazia.
- Fazia o quê?
- É o meu nome!
- Fazia o seu nome? Deixou de o fazer? Ah, eu só fiz o meu nome uma vez. Aliás, nem isso, porque o meu nome fizeram-no por mim, o que me parece algo injusto.
- Idiota, o meu nome é Abade Fazia!
- Ahh! Peço desculpa, nunca conheci ninguém com esse nome, daí a confusão. Só espero que nunca se torne abade, porque senão seria ridículo pensar que a combinação do seu título com o seu nome ficaria Abade Abade Fazia, que mais parece um nome possível para um personagem irritante da Guerra das Estrelas.
- Mas Abade é já o meu título!
- Então já se pode tratar por Abade Abade Fazia?
- Não! É apenas Abade Fazia.
- Então... Abade Apenas Abade Fazia? Já mais parece um provérbio popular.
O velho de nome invulgar fez uma pausa, coçou a cabeça impacientemente, e tentou de novo.
- Chamo-me Abade Fazia, que é a combinação do meu título, "Abade", e do meu nome próprio, Fazia.
- Ah, claríssimo. Cristalino, mesmo. Que faz aqui, se me fizer o obséquio de explicar?
- Fui aqui preso há muitos anos por autoridades invejosas, injustamente!
- Obviamente, como é que o leitor poderia empatizar com a sua personagem se algo de horrível não lhe tivesse acontecido?
- Pois claro.
- Deveras. Deve-me perdoar por perguntar, Abade Fazia, mas agora que penso, o seu nome é-me algo familiar, e parece-me que apenas grandes fãs do Richard Harris é que vão perceber a referência.
- Sim, talvez, mas há pelo menos três maneiras que eu saiba de chegar à referência que eu sou.
- Algumas são obscuras, talvez?
- Admito que sim. E tu foste lembrar-te logo da mais obscura de todas!
- É um bom filme.
- Mas não é uma adaptação fiel do livro.
- Continuemos, meu caro Abade, este não me parece o sítio para discutir cinema fora de contexto. - disse Ventura Lobo, olhando em volta. - Nunca tentou sair daqui? É verdade que apenas vejo aquele buraco por onde caí como saída, mas esta espécie de gruta há-de ter outra escapatória.
- Não, jovem, não tem. Mas não é por isso que eu tenha desistido de tentar. Comecei a escavar um túnel quase no mesmo dia em que cá cheguei. Já avancei vários metros.
- Ah sim? Mostre-me o túnel, talvez o possa ajudar. Seremos dois, por isso o trabalho avançará mais rapidamente.
- Mas jovem, tu estás no túnel!
Ventura Lobo não compreendeu imediatamente, ficando pensativo e confuso.
- Desculpe, mas está a tentar dizer-me que esta gruta é o seu túnel?
- É isso mesmo.
- Escavou-a toda?
- Todinha.
- Mas onde é que arranjou os materiais para o fazer?
- Fui aproveitando os materiais da minha cela.
- Mas qual cela? Não vi nenhuma!
- Então jovem, a que está em cima do monte! De onde tu caíste!
- Mas não estava lá nada!
- Agora não, é claro que não, não me estás a ouvir! À medida que ia escavando o túnel ia arrancando as tábuas do chão, retirava as barras de ferro das grades, lascava as pedras das paredes até não restar nada. Enfim, tive de sacrificar a minha cela para fazer o túnel. Infelizmente, a cela já não me dá os materiais de escavação necessários e o trabalho ficou mais lento nos últimos anos.
- Bom, bem vistas as coisas, nada impede o senhor de ir à cidade mais próxima buscar mais materiais, já que a cela não existe.
- Mas estás doido, jovem? Eu estou preso!
Ventura Lobo olhou para o Abade, perplexo. Quando se propôs tornar aventureiro sabia que iria encontrar estranhas criaturas e situações impossíveis, mas esta desafiava toda a lógica.
- O senhor nunca pensou em escavar lateralmente em vez de verticalmente?
- Claro que sim! Mas sempre que escavo para o lado começo a encontrar raízes, e não continuo para não chatear as plantas, já que uma vez, quando era miúdo, pus a mão numa urtiga e decidi que nunca mais importunaria uma planta a não ser que tivesse a certeza que ela não me atacaria. Ora, vendo apenas a raíz, sei lá o que poderá estar à superfície.
- Então o senhor continuou a escapar por medo a urtigas?
- Precisamente.
- Faz sentido. Felizmente, eu não partilho esse medo.

Num gesto dramático, Ventura Lobo desembainhou a sua poderosa espada e num golpe único e forte atacou as paredes da gruta. Desabaram imediatamente, e a poeira da terra misturou-se com a neblina fumarenta e fresca de origens ictióides. A luz invadiu a gruta imensa que o Abade Fazia escavara.
Não se via nem uma urtiga. Aliás, não se via nada, pois a poeira ainda não assentara. Lentamente, Ventura Lobo e o Abade começaram a ver um vulto a surgir divinamente através da poeira e fumo. Tinha um aspecto feroz e na mão parece trazer uma arma mortal, talvez um machado.
É óbvio que vem aí mais uma tentativa de piada inesperada, pois o vulto revela-se como sendo nada mais nada menos que Xico dos Cavalos, um camponês sujo das redondezas, armado com uma enxada, famosa e amplamente conhecido num raio de dois quilómetros como o homem que não aprendeu a letra "a".
- Que signific isto? Quem fez este burco? I, s minhs couves! Bndidos! Gtunos! Fscists! Gbirus!
- Acalme-se, meu caro, este buraco tem razão de ser pois estamos a devolver uma alma à sua liberdade roubada. Tenha um bocado de compreensão!
O camponês inicialmente assustou-se, exclamando um "H", e agitando a enxada.
- Eu dou-vos com minh enxd!
Ventura Lobo respondeu razoavelmente, apresentando-lhe vigorosamente a sua espada luminosa e afiada. Xico dos Cavalos, ou Xico dos Cvlos, como ele preferia ser tratado, aquiesceu enfim ao sentimento de indulgência pedido.
- Bom, no nos chteemos, enfim, bons senhores! No vos quero ml, ms nos dis de hoje, qundo vemos um pedço de terr desprecer noss frente, é motivo pr ficr preocupdo. - e dito isto, fez uma leve pausa ao olhar para o Abade, que só agora começava a ser reconhecível depois de se sacudir da poeira. - Ms é o Bde Fzi! No sbi que ind er vivo!
- Pois é Xico, mas eu muitas vezes pedi ajuda e nunca ninguém veio, e afinal estavas aqui mesmo ao pé!
- H, sbe, é que eu psso muito mis tempo cuidr ds minhs bnns e dos meus nnses, que esto um quilómetro nquel direcço. Ms fico contente por o ver vivo!
- Dos seus quê?
- Bnns e nnses! Li, pr o ldo onde tenho s nons.
- Pá, inicialmente ainda 'tava a perceber, mas agora já não apanho patavina. Ó Ventura, o que é que ele disse?
- Bnns e nnses e tal. Depois acho que falou em francês.
- Ess gor! Ento porque eu no consigo dizer um letr do becedrio vocês j se sentem todos superiores? É sempre mesm cois. Todos se chm doutores porque no tive mesm educço. É sempre, ò Xico, diz l o teu nome, e eu digo, Xico dos Cvlos, e desmnchm-se rir. Sbem que mis? Vou-me embor, s minhs bnns e os meus nnses precism de mim, e no vou gstr o meu tempo convosco! Vo pr o crlho!
Ventura Lobo guarda a espada, troca um olhar com o Abade, e diz-lhe sorridentemente:
- Era mesmo francês. Ele teve a amabilidade de dizer que se seguirmos a estrada chegaremos a uma aldeia.
- Ele disse isso?
- Foi o que eu percebi, pelo menos.

Instalou-se um curto silêncio. A neblina mágica começava a dissipar. Observavam-se agora os belos montes verdes decorados com flores campestres em toda a força da pujança primaveril, preenchidos aqui e ali por pequenos e densos bosques embalados por uma leve brisa proveniente das serras altas tocadas de neve. A vida animal recomeçara o seu ciclo de sobrevivência. O nobre falcão retomou a sua vigia mortal dos céus, atento a uma próxima refeição. A refeição, na forma de coelhinhos alegres, saltitava escondida de erva em erva e de flor em flor, atrasando irremediavelmente o seu destino natural. As borboletas esvoaçavam aleatoriamente, os pássaros improvisavam uma melodia, os camponeses sulcavam as terras, os dragões pequeninos jogavam à bola...
- Para onde vai agora, Abade Fazia? - perguntou Ventura Lobo, interropendo rudemente a descrição da cena, coa breca!
- Vou continuar o trabalho da minha vida. Aquilo pelo qual fui preso.
- Que é o quê, especificamente?
- Encontrar o Livro!
- O Livro? Com maiúscula?
- Oh sim, o Livro. O Livro que acabará com toda a infelicidade do nosso modo de ser, que trará um novo olhar e um novo falar e um novo escrever!
- Parece interessante, ou quase.
- Quase!? Como te atreves a duvidar do Livro!? Ah, és jovem, claro, não compreendes... Um dia virá em que precisarás do Livro, profetizo-te isso! Aí saberás vir ter comigo! Aí saberás respeitar o Livro!
- O único livro que preciso para viver é o livro de reclamações para fazer bluff com os empregados de uma loja com mau atendimento. Fora disso, acho que não preciso de mais.
- Então é aqui que separamos caminhos, Ventura Lobo. Agradeço-te teres-me libertado, por isso estar-te-ei sempre grato. Quando a altura vier, saberás vir ter comigo, e ajudar-te-ei.
- Está bem, de acordo, meu caro, suponho eu.
Apertaram a mão e seguiram caminhos diferentes.

Espera lá, acho que gastei demasiado texto neste segmento contextualizador não totalmente necessário. Bom, as aventuras de Ventura Lobo continuarão para a próxima.

Sem urtigas, couves, bnns ou nnses à mistura.

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publicado às 15:39


As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 18.05.16

- Majestade, trago-lhe aqui um criminoso para ser julgado!
O Rei olhou com algum enfado para o seu Capitão da Guarda Real, perguntando:
- Fiel Capitão, porque trazeis tal indivíduo à minha presença? Olvidastes que apenas os mais miseráveis bandidos serão julgados directamente pela minha justiça divina? Este que observo não tem o aspecto perigoso de outros que já estiveram no seu lugar.
- Majestade, o crime é traição!
- Traição! Traição! Ah, deveras, miserável aquele que trai o Reino e Rei! Se assim é, exímio Capitão, procederei a um interrogatório, em nome do Reino, cuja defesa é minha função.
- Bravo, Majestade!
- Deveras! Deveras... Dizei-me o teu nome e ocupação, traidor, e se mereceis a dita acusação.
O traidor olhou em volta, confuso. Depois de alguma hesitação, decidiu finalmente responder, num tom firme.

- Sou Ventura Lobo, Majestade, caminhante e aventureiro. Afirmo que rejeito as acusações de traição, assumindo que a sua infinita indulgência o permita. Adiciono ainda, apesar de perceber que não o perguntou, que acredito que toda esta situação não passa de uma hiperbolização de um reparo inocente.
- Ah, um caminhante de língua afiada, mas será pérfida, pergunto-me? Devo ter cautela. Meu excelente Capitão, antes de prosseguir com a minha inquirição devo informar-me sobre quais os factos assistidos pela minha fiável Guarda. Reportai.
Ventura Lobo tomou a palavra.
- Perdão? Quem? Nós os dois?
- Silêncio, traidor! - rugiu o Capitão. - Sabereis quando Sua Majestade se referir a vós.
- Essa agora, mas quem?
- Silêncio!
Ventura Lobo encolheu os ombros em frustração, mas calou-se.
- Se me permitirdes, começarei o meu relatório.
- Por mim tudo bem, esteja à vontade. - rematou Ventura.
- Ninguém lhe perguntou nada!
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Silêncio!
- Capitão, comece a sua explicação, cujo início, a meu ver, já está atrasado. - pediu o Rei, calmamente, senão ligeiramente divertido com a impertinência do aparente criminoso.
- Com certeza, Sua Majestade. Eu estava a fazer uma patrulha pessoalmente pelas ruas da cidade. Estavam a ser afixados os cartazes que continham o seu discurso glorioso à nação depois da derrota do exército das Fadas Vogais. Eu queria presenciar a alegria e o orgulho das pessoas ao lerem as boas novas, especialmente escritas pelo seu grande líder.
- Evidentemente, continuai.
- Num dos ajuntamentos percepcionei uma voz que disse uma blasfémia. Teve a ousadia de questionar a qualidade do discurso de Sua Majestade. Pois bem, esse larápio teve azar, pois prendi-o imediatamente e ei-lo na presença da Sua justiça.
- Ah, mas meu eficaz Capitão, o que é que ele disse em específico? Em que ponto duvidou ele da minha escrita perfeita?
- Tenho temor em dizê-lo, Sua Majestade, mas se insiste, devo dizer que este miserável fez um reparo à última frase no cartaz.
- Ah sim, um maravilhoso "Glória há Nação!". Como é que uma frase tão simples pode causar desconcerto numa mente simples?
- Perdoe-me a interrupção (e o Capitão confirmará isto), mas eu apenas disse que "à" está mal escrito. Deveria ser "à", ou seja, apenas um "a" com acento grave.
- Silêncio, patife! - o capitão desembainhou a espada. - Mais um atrevimento desses e sofrereis as consequências.
- Isso não é ir longe demais? O Rei não precisa de sofrer nada, creio. Bem vistas as coisas, nem eu, já que estou inocente.
- Enlouquecestes? Já nem fazeis sentido nas palavras corrompidas que proferis!
Ventura Lobo olhou outra vez em volta, confuso.
- Ainda não percebi bem com quem é que o senhor Capitão está a falar.
Enquanto a discussão prosseguia, o Rei reflectia na acusação feita ao seu texto. Finalmente levantou-se e dirigiu-se lentamente a Ventura Lobo.
- Reflecti. Cheguei à conclusão que o senhor Ventura poderá ter razão, mas não tenho a certeza. Capitão, não obstante a sua lealdade, achais que a acusação não terá justificação?
- Impossível, Sua Majestade! Se Sua Majestade o escreveu, tem de estar correcto!
- Sem dúvida, mas gostava de ter a sua opinião sincera.
O pobre Capitão, apanhado fora do seu elemento, desviou o olhar.
- Perdoe-me, Majestade, mas não sei.
- Não sabeis se a acusação deste homem é legítima?
- Não, Majestade, perdoe-me.

- Chamai o Mago, ele saberá.
- Chamem o Mago! - gritou Ventura repentinamente.
- Silêncio! Mas quem lhe disse que podia chamar o Mago!?
- Essa agora, foi o próprio Rei mesmo agora.
- Sua Majestade falava comigo, seu pulha.
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Calai-vos, vil criatura!
- Mas o Senhor Capitão ouça-me, acho que há aqui uma falha de comunicação.

Na confusão, o Mago veio. Entrou desalmadamente, pisando e tropeçando várias vezes na própria barba grisalha longuíssima.
- Muís D'Latos, meu grande feiticeiro de poderes tremendos e incomparável sabedoria, tenho um desafio para lhe apresentar.
- Ah, Majestade, apanhou-me num momento crucial da minha investigação sobre a etimologia da palavra "etimologia". Peço-lhe que reúna toda a sua generosidade e que não me dê nenhuma tarefa demasiado longa.
- É simples, na verdade. Capitão, dê-lhe o cartaz. Leia, meu caro.
Muís D'Latos leu de uma ponta a outra a informação do cartaz.
- Derrotámos as infames Fadas Vogais!? Ah, poderemos certamente respirar fundo de alívio! Mas, Majestade, não compreendo qual o desafio.
- Notastes alguma coisa de estranho no texto? Alguma coisa mal escrita?
O mago estranhou a pergunta, pensando que seria alguma armadilha. O Rei notou esta preocupação.
- Não se preocupe, amigo Muís. Dizei-me com sinceridade. Não é um teste à sua lealdade, que considero inabalável.
O mago releu o texto. Hesitou na última frase. Olhou infantilmente à volta.
- Bom... se quer que seja sincero...
- Sim, exorto-o a sê-lo.
- Quando eu era muito novo, quando não tinha um único pêlo na cara, o meu mestre forneceu-me uma quantidade de conhecimentos há muito perdidos que ele adquirira de uma maneira muito especial. Um dos conhecimentos que me foi passado foi... enfim... que existe uma diferença gramatical entre a palavra "há" e "à" que tem imenso impacto na semântica da frase.
- Mas então, a última frase do texto está incorrecta?
- Bom, enfim, não. Sim... Não. Depende. Por um lado, está gramaticalmente correcta, mas na sua forma actual, parece que Sua Majestade está a informar alguma senhora chamada Glória sobre o facto de existir uma Nação. Se me permite, para ser diligente, faltaria ainda uma vírgula para a frase ter esse sentido. Se o objectivo for apenas de dar esta informação a uma Glória específica no Reino ou a todas as Glórias, posso argumentar que o objectivo foi cumprido. Por outro lado, se o propósito era engrandecer a nossa Nação com exaltações de glória... - fez uma curta pausa, acompanhada de uma careta. - devo... dizer... que deveria ter usado "à".
- "Há"?
- Não, "à".
- "Ah"?
- "à".
- Ah!
- Não, "à".
- Ai!
- "à", Majestade!
- Eu sei.
- Perdão?
- Há majestade, claro, senão não estaríamos aqui, mas não é isso que estamos a discutir, meu caro Muís D'Latos.
- Não, Majestade, não nos confundamos, eu quero dizer que a forma correcta é "à".
- "Há"?
- "à".
- "Ah"?
- "à".
- STAYING ALIVE! STAYING ALIVE! - berrou Ventura Lobo.

Um silêncio absoluto instalou-se no salão perante as caras estupefactas dos presentes, que olhavam Ventura com um olhar de preocupação sobre a sua saúde mental.

Muís D'Latos arriscou insistir.
- Sua Majestade, talvez seja mais fácil que eu escreva.
- Sim, concordo.
O feiticeiro teve uma ideia e olhou para cima.
- Aliás, nem preciso. Se Sua Majestade olhar para cima verá que no nosso diálogo está a forma correcta.
- Ah, tendes razão, teria sido mais simples. Mas não achais que é algo subreptício usar tal método para chegarmos a tal conclusão?
- Talvez seja, Majestade, mas não apeteceu ao autor deste texto descrever uma cena em que escreveríamos a forma semanticamente correcta da palavra em questão.
- Então, ao invés de descrever um simples gesto de escrever num papel ele preferiu criar um diálogo desnecessariamente complexo em que nos tornamos conscientes que somos personagens de ficção?
- Artistas, Majestade, como poderemos alguma vez entendê-los?

O Rei virou-se para Ventura Lobo.
- Senhor Ventura, aparentemente o senhor tinha razão. Como é que sabíeis da diferença entre as duas palavras se me dizem que é um conhecimento há tanto tempo perdido?
- Aprendi na escola.
- Na escola? Como? Este é um mundo fictício baseado em fantasia medieval. Há magos e fadas. Normalmente neste tipo de contextos não existe ensino público, nem do mais básico.
- Então como é que as pessoas são supostas conseguir ler os cartazes que são afixados?
- Entre todos os meus poderes divinos por direito, a omnisciência não é um deles. Apenas posso responder que ou esse facto é uma incoerência que o autor deste texto não pensou ou então os cidadãos nunca realmente leram os cartazes e simplesmente gostam de olhar para os desenhos. Seja como for, começo a achar que o Senhor Ventura tem mais que se lhe diga sob essas tristes roupas de campónio que trazeis.
- Bom, devo ter subido imenso na consideração de Sua Majestade para me tratar como mais do que uma pessoa. Ou isso ou está aqui mesmo alguém invisível que apenas eu não me apercebo.
- Não compreendo. Explicai-vos.
- Majestade, com quem é que está a falar? Sei que me inclui, mas não sei com quem mais é que fala.
O Rei olhou para o Capitão e para o Mago. Ambos fizeram uma careta de confusão e encolheram os ombros.
- Não sei quanto ao outro indivíduo invisível, chamemos-lhe Joel, mas se ele não se quiser juntar à minha explicação como Sua Majestade requeriu terei o maior prazer em explicar-me sozinho. Tenho estado este tempo todo confuso com a vossa maneira de falar, pois usais a segunda pessoa do plural para se referirem apenas a uma pessoa. Quem tem uma aproximação mais pragmática sobre a língua que fala tem em conta estes pormenores. Devo perguntar: o Joel existe?
- Não sei de que falais. - respondeu o Rei.
- Sim, não compreendo o que dissestes - concordou o Mago.
- Lá está, devo estar maluco. Tenho impressão que só eu é que falei, e no entanto, vós implicais pela forma verbal usada que houve outra pessoa além de mim que falou. O tal Joel. Podereis explicar-me porque falais assim?
- Quem? Eu ou o Muís?
- Vós!
- Mas qual de nós?
- VÓS! Os dois! Segunda pessoa do plural! Ambos falais assim e isso confunde-me.
- Então, mas dê um exemplo de como deveríamos falar!
- É simples, não usai formas verbais com os "eis" e os "ais" no final quando falais com uma só pessoa.
- Mas vós estais a usá-los!
- Mas vós sois dois! Eu sou apenas um!
- Eu sou dois? Isso não faz sentido.
- Ai ai ai ai ai... Ouvi-me por um momento!
- O senhor ouviu-se por um momento? É normal.
- Não, é o imperativo!
- Ouviu o imperativo?
Ventura Lobo começava a ficar impaciente.
- Se eu tivesse aqui um certo Livro mostrar-vos-ia...
- Qual Livro? 
- Um Livro que tiraria todas as dúvidas que pudéssemos ter sobre a forma como falamos e escrevemos.
- Mas tal Livro existe? - perguntou o Rei excitado.
O Mago forneceu a resposta.
- Sim existe. Ou existiu, pelo menos. Foi de um tal Livro que o meu mestre aprendeu tudo. Ele não me passou todos os seus conhecimentos. Ele dizia que a viagem para obter o livro ensinava tanto quanto o livro em si. Nunca me propus procurar o Livro. Entretanto caí num buraco metafórico onde todos os sonhos e vontades se extinguem.
- Que terrível, Muís D'Latos! Como caiu nesse buraco?
- Tornei-me funcionário público, como bem sabe, Majestade.

- Tenho uma ideia! - exclamou o Rei. - Uma ideia que fará o enredo avançar. Muís D'Latos, meu competente controlador de elementos, e se enviássemos este jovem aventureiro em busca desse fabuloso Livro? Ele poderá trazê-lo e guardá-lo-íamos como um tesouro real!
- É uma ideia esplêndida, Majestade.
O Capitão discordou.
- Majestade, perdoe-me, mas quereis enviar um desconhecido numa demanda tão importante para o Reino? Porque não confiais na Guarda para o fazer?
- Olha, agora já estou todo confuso com os "ais" e "eis" também. Já nem consigo falar de maneira toda pipi. Envio um desconhecido nesta missão porque os argumentos de maior parte dos livros medíocres e filmes de Hollywood parecem safar-se com isso e até ter sucesso. Para além disso, é preciso que esta história tenha um mau da fita, e se eu meter inveja ao meu querido Capitão da Guarda, ele certamente fará tudo para sabotar os esforços de Ventura Lobo.
Voltou-se para Ventura.
- Que me diz, Ventura Lobo? Quer aceitar esta aventura e desbravar os recantos perigosos do Reino na sua busca? Escalar os Montes dos Adjectivos de Grau Superlativo, explorar as Selvas de Narrativas Densas, atravessar os Pântanos de Palavras Obsoletas, correr pela Planície da Dicção? Aceita enfrentar os perigos que certamente encontrará?
Ventura Lobo empertigou-se e respondeu orgulhosamente.
- Claro que sim, Majestade. Farei tudo pelo enredo.

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