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Seaside Rendezvous

por Rei Bacalhau, em 12.02.17

No outro dia fui ver as estatísticas deste blog. Tinha uma impressionante média de 6 visitas diárias nos últimos 30 dias. Quando fui ver o top de páginas visitadas, estava lá aquela que eu tenho visto quase constantemente aparecer em verificações semelhantes.
Por alguma razão, absolutamente misteriosa para mim, o texto que escrevi sobre a música Don't Fear the Reaper está consistentemente no top de visualizações. Notem que estamos a falar de uma página que me deu 50 visitas só neste último ano, o que é imenso se tivermos em conta que a maior parte tem tipo umas 5 desde sempre. Mais estranho ainda é que o post já é de 2014.
Ora, o texto não tem tags, por isso tive que ver se haveria alguma palavra em especial que o fizesse assim tão relevante para os motores de pesquisa. Faço lá referência aos Pink Floyd e imagino que esse termo seja um possível ponto de entrada para o meu blog.

No entanto, o que me apanhou a atenção foi o texto em si. É evidente que há três anos que não o lia e foi com alguma confusão que o fiz. Não me lembrava de o ter escrito, ou pelo menos não assim. O final do texto é totalmente representativo de alguém a explodir de frustação e é mais que óbvio que publiquei o texto sem realmente pensar no que tinha escrito. Foi mais ou menos naquela altura que comecei a pensar que precisava de uma namorada (que é uma maneira excelente de objectificar mulheres, já agora). Lembro-me que dava por mim a pensar que tinha 24 anos sem nunca ter tido namorada e sendo virgem em todos os sentidos possíves (excepto em aspectos zoodíacos). Não podia ser! Acordei para a vida e tanto que tentei e tentei que não consegui coisa alguma. Na prática, nada mudou desde essa altura, ou pelo menos nenhum dos objectivos foi concretizado. Apenas amadureci o suficiente para perceber que o tal texto é um candidato ao top 10 dos meus posts que menos prefiro. Só não o elimino porque é importante poder fazer este tipo de reflexões de vez em quando; perceber o quanto aprendi num período de tempo relativamente pequeno.

Dantes seria com rancor que eu olharia para casais de namorados a celebrar o dia de S.Valentim (que o texto relembrou-me igualmente que se aproxima).

"Ah, eles podem ser felizes e eu não... Gabirus, não pode ser..."

Com o passar do tempo vim a aprender que a felicidade de uns não afecta negativamente a minha própria. Deveras, eu diria o contrário. Se alguém está ou parece feliz, não posso vê-lo com olhos de inveja. Ou fico indiferente, ou posso ficar mesmo contente. Alguém está feliz! O quão bom não é isso?

Sobre este assunto, lembro-me sempre de um segmento do Louis C.K..

"Dating is a real drag for a lot of people, but I always think it's a nice thing, you know? When I see a date, I'm always happy, when I see a couple on a date, 'cause it means people are still trying."

 


Pensando bem, se calhar a razão pela qual este assunto me frustrava tanto dantes é porque eu via TODA a gente (em maiúsculas para perceberem que estou a exagerar) com imensa facilidade em namorar e em ser namorado (verbo, não substantivo). Pensava que houve algum dia que eu faltei na escola em que ensinaram a toda a gente como atrair mulheres do sexo oposto (RIP Gorden Kaye). Assustava-me ver toda a gente da minha idade e até mais novos a ganhar-me numa corrida na qual eu ainda nem sequer começara a correr.

Felizmente, agora, mais velho, as pessoas com quem falo já não têm namorados/as. Agora têm maridos e mulheres. Agora começam a ter filhos. Agora começam a ter razões para não celebrar o dia dos namorados e por isso é menos... "vergonhoso", à falta de melhor palavra, conversar abertamente com o pessoal nestas alturas. A partir do momento em que nos aproximamos dos 30 um certo número de coisas é tomado como certo, e estar numa relação (ou já ter estado) é uma delas. Como tal, o assunto torna-se banal e nem é discutido em conversas do dia-a-dia. Por outras palavras, já não importa que eu nunca tenha tido e que nunca venha a ter companhia romântica, porque também é algo que nunca me vão fazer notar nem julgar por, e posso viver o resto da minha vida tranquilamente sabendo isso.

Se perguntassem a alguém com 35 anos se era casado e ele respondesse não, assumiriam o quê? Que é divorciado, não é verdade? Pois.

Dito isso, continuo apesar de tudo a considerar o amor como uma coisa bonita em todas as suas vertentes. Por isso mesmo, para compensar o meu erro de há três anos, desejo sinceramente a todos os namorados e namoradas um feliz dia dos namorados, mesmo que seja totalmente possível que daqui a uns meses já tenham ido para outra fase romântica da vossa vida. Não pensem nisso. Aproveitem. Sejam felizes.

Para aqueles que estiverem melancólicos ou frustrados por estarem sozinhos, saibam que a culpa não é totalmente vossa. No entanto, saibam também que o amor, aquele que vocês procuram ou que gostariam de ter, existe, mas têm de fazer por encontrá-lo, independentemente das vossas deformações físicas ou mentais. A procura será exasperante, e só os mais fortes (e teimosos) sobrevivem.

Se simplesmente desistirem, como eu decidi conscientemente fazer, condenam-se ao conforto da solidão, o que pode não ser necessariamente mau.

 

 

Esta é para aqueles que já encontraram a sua cara-metade (ou que pelo menos julgam que sim), e vão passear com ela no dia 14.

Seaside Rendezvous, dos Queen:

 

 

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Carta de S.Valentim nunca entregue

por Rei Bacalhau, em 14.02.14

"Não me aches estranho por escrever estas palavras. Não posso dizer que seja meu hábito expressar-me assim, antes pelo contrário. Espero não te incomodar com o conteúdo desta carta. A todo o momento em que redijo estas frases parte do meu ser quer impedir-me de o fazer. Grita por mim para voltar à razão, mas há coisas que nem eu consigo controlar, aparentemente. Outrossim, a outra parte do meu ser diz-me para avançar.

 

E portanto redijo, sim, não sabendo porquê, não sabendo durante quanto tempo, não sabendo se alguma vez lerás isto.

 

Não posso dizer que me lembro da primeira vez que te vi fisicamente. Terá, muito provavelmente, sido numa altura banal em que não tinhas a minha atenção. Terás passado por mim numa conversa irrelevante que eu estivesse a ter com alguém. Talvez tenhas entrado na mesma sala onde eu estava a estudar. Talvez te tenha visto de relance na cantina. Talvez tenhas apanhado o mesmo autocarro que eu. Não sei. Não me lembro mesmo. A verdade é que te consigo imaginar em todas essas situações e mais algumas. 

  

Peço desculpa por dizer isto, mas inicialmente eras-me indiferente. Mais uma que por ali andava. Eu fazia a minha vida normal sem grandes interrupções e tudo parecia correr-me bem. Eu estava no primor das minhas capacidades produtivas e sentia-me imparável. Eu conseguia um tal grau de concentração que nem barulho nem fome nem frio nem outras irritações me conseguiam impedir de realizar os meus objectivos. Nem mulheres, confesso-o. Os meus colegas babam-se pervertidamente ao passar um grupo inocente de raparigas, com ambos os grupos com as hormonas a fervilhar. Eu não. Nunca! Fingia, claro, para não parecer mal, mas nunca senti atracção física. Eu era, e sou, mesmo assim, conhecido como um misógino e é provável que quem acreditasse nisso estivesse certo. Sempre o fui e agora sofro irremediavelmente com isso, por não saber controlar certos impulsos.

 

Permite-me fazer um pequeno aparte: eu trato o meu corpo horrivelmente mal. Acredito piamente no poder da mente sobre o corpo e portanto qualquer sensação proveniente de um qualquer orgão era suprimido. Eu conseguia controlar a sensação de frio, conseguia passar muitas horas sem comer ou sem outras necessidades vitais, conseguia privar-me de luxos pelos quais a carne ansiava. Eu era senhor de mim próprio; eu controlava-me! Sabes... eu ria-me sarcasticamente desses que eu na altura chamava de iludidos, que depositavam uma quantidade tão grande de energia física e mental nesse conceito que sempre tanto me enojou: o amor. Que divertido era vê-los despedaçados depois de acabarem uma paixão. Que horrível era vê-los a sacrificar o seu tempo precioso para tentar atrair uma parceira. Que confuso era vê-los a sair porta fora apressados, de telemóvel na mão, como se de alguma maneira tivessem sido fustigados agressivamente por um capataz invisível, quando na verdade era apenas uma chamada simples de trocas de ternuras. Que irónico é ver-me, agora, forçado a engolir os meus risos, castigado pela minha arrogância, obrigado a suportar a vingança do corpo sobre a mente.

 

E começou tudo tão simplesmente.

 

Apareceste casualmente num dia, acompanhada dum conhecido comum, que tratou de formalmente nos apresentar. Quando prosseguiste caminho não foste devorada visualmente pela matilha de lobos da qual eu fazia parte. Nem um comentário sequer. Não te acharam o mínimo interesse. Apenas eu mantive o olhar. Tinhas algo especial que não consegui identificar. Os gostos variam muito e se calhar aí, sem eu conscientemente saber, nesse dia comecei a formar o embrião dos sentimentos pelos quais passo agora. Eu ia vendo-te, de dia para dia. Tens uma graça feminina que me parece rara. Tentas tão desesperadamente mostrar-te quando o que na verdade te distigue é a pureza com que falas e com que fazes tudo. O mais simples gesto, como apanhares a caneta que caiu, é feito levemente e de forma quase divertida. Nesta altura desconcentravas-me temporariamente quando aparecias, mas aí esses lapsos não me causavam transtorno. Eu estranhava claro, que querendo estar absorvido no trabalho me fazias momentaneamente virar a cabeça.

 

Tudo piorou quando partilhámos pela primeira vez uma conversa, casual e banal como todas as outras em termos de conteúdo, mas marcante para mim em termos de contexto. Eis-me ali, num grupo de conversa, frente-a-frente com esta criatura bela e singela, que parecia retirada dum daqueles grandes poemas épicos da Antiguidade descrevendo as Musas. Enfim, como disse, uma conversa perfeitamente normal. Nem me lembro do tema, na verdade, mas com certeza algo a ver com uma disciplina qualquer. Falou-se mal de um professor e espontaneamente disse um comentário inteligentemente pejurativo sobre o mesmo. Fiz a tertúlia rir-se, tu inclusive. Que sensação foi ver-te sorrir, mesmo que apenas por gentileza. Que choque me causou esse instante, quando finalmente me apercebi que o embrião de que falei há pouco tinha crescido sem eu reparar. Havia-se infiltrado em todos os meus sistemas. Apoderou-se das minhas funções corporais, pois eu tremia só de estar na tua presença docemente intimidadora. Tomou posse dos meus sentidos, pois queria apenas falar contigo, olhar para ti, ouvir-te.... tocar-te. Ahh... quis fazê-lo tanto! Um toque simples na tua mão, bastar-me-ia. Sentir-me-ia para sempre ligado a ti.

 

Contudo, a minha guerra interior começava agora. Conseguiste destruir as minhas barreiras sociais, o muro de acesso ao meu ser. Mas eu temia. Com certeza que nunca passarias pelo meu guarda espiritual, que mantém vigilância constante sobre o que eu faço. Esse controlador que tanto me protege como me limita. Ele nunca deixaria um motivo tão fraco como uma mulher estragar os meus objectivos a longo prazo. Aparentemente, não tinha razões para temer. Nunca contei com o que farias a seguir: tu própria contaste uma piada inteligente, com um quantidade de sarcasmo maravilhoso e belo, como eu nunca sonhei possível uma mulher fazer. Que perfeição! Que graça! Como é que tal criatura pode existir, num mundo governado por barbarismo!? Destruíste as defesas do meu guarda, que se riu a bom rir, e conquistaste um lugar mais próximo do meu núcleo: quem eu realmente sou!

 

Nunca ninguém tinha chegado tão longe! E precisamente nesse momento, a conversa acabou e seguiste para outros lados. Terias com certeza mais algo para fazer.

 

O meu sonho desmoronou-se, deixando-me num estado desorientado. Que sentimento horrível me deixaste! Depois de tanto caos que a tua passagem deixou na minha mente não consegui trabalhar durante muito tempo, talvez uma semana inteira! Pensei muito sobre estas novas sensações que sentia. Eu, que nunca tinha tido necessidade de contacto feminino, estremecia agora sempre que via uma silhueta humana que tivesse a mínima parecença com a tua. Que querida e profunda cicatriz me fizeste! Digo mais! Uma autêntica ferida aberta da qual eu sangrava pensamentos que nunca pensei ter guardados. Procurava a tua cara em todos os cantos. Fazia longos passeios na esperança de aleatoriamente te encontrar.

 

Não te preocupes, não tens de ter medo, não tenho intenções más! No entanto, não deixo de perguntar-me se todos estes comportamentos serão normais ou os de alguém pervertido. Não o sei dizer, nem o consigo descobrir. Não saberia como perguntar isso a alguém mais experiente nestes assuntos do que eu. Nem sei se conseguiria uma resposta objectiva e clara do significado disto tudo.

 

Felizmente ou infelizmente, não tenho bem a certeza, há uma barreira que não conseguirias ultrapassar. Nem tu, que já chegaste tão longe. É que há algo que deverias saber, se já te disse tanto. Algo suficientemente forte para saber que nunca partilharei nada mais que conversas casuais contigo. Algo que sempre me impedirá de aproximar de ti...

 

Acho que nunca disse isto a ninguém. Acho que nunca sequer escrevi estas próximas palavras. Este pensamento que me perdura há tanto, que me tormenta diariamente. É-me incrivelmente doloroso, como se estivesse a usar pela primeira vez um músculo que nunca usei. Arrepio-me e torço-me angustiado só de pensar nesta tão simples expressão. Custa-me imenso escrever isto mas... eu... eu acho...

 

Eu amo-te.

 

Está dito. A grande razão pela qual nunca te poderei ter é porque te amo. Peço desculpa por não ser claro. Tenta compreender, eu nesta condição não posso desejar mais nada para além do teu bem. O preço que eu te faria pagar caso, por milagre ou outro tipo de intervenção dos deuses, me aceitasses, seria demasiado alto. Nunca estarias preparada para lidar com alguém como eu. Eu, um tóto antipático sem auto-estima, um porco machista, um eterno inútil, um mero saco de carne e osso malcheiroso, putrefacto por dentro. Eu tratar-te-ia mal. Pior do que alguma vez alguém como tu mereceria. Eu conheço-me. Eu sei-o!

 

Não penses nisto como uma tragédia, peço-te! Eu sou o único culpado, pois apenas eu me causei isto. Trágico seria ver a tua face sem o teu brilho habitual. Trágico seria pensar que deves estar presa por minha causa. Isso roçaria o blasfemo! Deves ser feliz e continuar a tua vida na ignorância de que num momento, algures, houve alguém que te amou loucamente.

 

Continuarei com certeza a ver-te. Ficarei sempre nervoso nessas alturas, com parte do meu ser a querer declarar-se no momento, e com outra parte a ansiar que te vás embora, esperando evitar acções perigosas como a que referi. Espero que nunca te apercebas deste teu admirador secreto, como tão infantilmente me designarei, como se estivéssemos na escola primária.

 

Rio-me agora. Pensei que por ser dia de S.Valentim conseguiria dar significado a este meu problema. Pensei que escrevendo esta carta me fizesse sentir melhor. Talvez apenas precisasse de desabafar! Não me parece que tenha resultado pois o sentimento ainda está lá, colado à profundezas do meu ser. É óbvio que nunca verás esta carta. Fui-me apercebendo à medida que a escrevi que nunca a poderias ver. O risco de quereres saber quem eu sou seria demasiado grande, mesmo que fosse puramente por curiosidade.

 

A minha batalha interna acabou. Vejo-me derrotado por ti, sem o saberes. É provável que venha a endoidecer se o tempo não me curar desta doença amorosa que me pegaste. Eliminarei imediatamente esta carta assim que acabar de assinar. Agradeço-te, na verdade. Com tanto que me deste que pensar e tanto que me ensinaste fizeste-me ver que a minha vida pode ser mais dinâmica. Uma pequena faísca pode causar uma enorme explosão espiritual, como me aconteceu. Agradeço-te por me destruíres completamente!

 

Atenciosamente teu, na tua ignorância,

 

Um admirador."

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