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Celebração!

por Rei Bacalhau, em 11.07.16

Devo confessar, não percebo quase nada de futebol. Sei as regras básicas, mas o fora de jogo ainda me mete confusão na maior parte das vezes, por exemplo. Não obstante isso, gosto de ver um jogo ou outro. Não sou adepto de clubes de cidade, por isso foco-me mais em futebol nacional, ou pelo menos em equipas que representem Portugal como um todo.

Já se está mesmo a ver o que vou falar sobre.

Um amigo convidou-me para irmos ver o jogo no Terreiro do Paço. Aquiesci. Fomos quatro. Comemos espiritualmente uma francesinha, como um talismã para sorte (é treta, eu comi porque gosto de francesinhas, mas fui na conversa supersticiosa para não ficar mal).

Andámos em direcção do Terreiro do Paço, apitando a corneta de ar e berrando aleatoriamente exclamações patriotas. Comprámos uma bandeira nos indianos depois de regatear um bocado.

Lá está, não sou adepto fervoroso. Não levei camisola da selecção, nem cachecol, nem tintas na cara, nem bandeiras, nem nenhum daqueles chapéus ridículos com penas ou lá o que é. 

De modo algum isso implica que o meu ser não estivesse devidamente colorido, mesmo que superficialmente não parecesse.

Expectativas antes do jogo? Tremidas. Não sabia o que pensar. Sabia que o mundo estava contra nós, de certo modo, "ah e tal, porque não ganhámos nada e não jogámos nada e tivemos sorte e tal". Certo, tudo bem. Como já disse, não percebo nada de futebol, e não vou tentar adicionar nada a essa discussão. Pragmaticamente, apenas observava que de facto Portugal estava na final. Isso chegava-me. Agora, se eu pensava que iríamos ganhar? Não. Obviamente tinha a esperança que sim, mas sendo do Sporting, há muito que aprendi a lidar com desilusões em momentos críticos e a nunca esperar o melhor. Se perdêssemos, não importaria, ou pelo menos não a mim.

Iria ver o jogo rodeado por compatriotas. Não é esse fundamentalmente o objectivo do futebol para os adeptos? Talvez até mesmo para os jogadores? Que milhares de milhões de pessoas se reúnam para vociferar insultos ao árbitro?

Filosofias à parte, chegando ao Terreiro do Paço, no mar de gente flutuavam bandeiras e copos de cerveja. Enfiámo-nos lá para dentro e esprememo-nos por entre todos os adeptos de Portugal, do preto com o penteado à Renato Sanchez, ao branco totó magrinho de óculos, às raparigas baixíssimas que apenas podiam apreciar as marcas de suor do gordo à frente, às polacas e outras estrangeiras que queriam torcer por este calhau rectangular nos limites da Europa continental. Todos se reuniram de vermelho e verde, por dentro ou por fora.

 

Canta-se o hino.

 

Tenho apenas vagas ideias do que aconteceu no jogo. Foi a primeira vez que fui ver um jogo numa situação semelhante, mas já imaginava que não iria conseguir ver coisa alguma. Espreitava por cima da orelha do jovem à minha frente, outras vezes agachava-me ligeiramente para ver debaixo do sovaco da girafa lá à frente quando ele levantava os braços. Conseguia ver os lances melhores nas repetições. 

Eu quando vejo futebol em casa não mostro fervor nenhum e repeti o comportamento publicamente. No entanto, quase todos à minha volta se mostrava entusiasmados e irritados. Na perspectiva deles o árbitro fez erros horríveis e faziam reparos provavelmente injustos sobre a sua familía, os seus genitais e a sua vida sexual aparentemente homossexual. Obviamente não contestei, pois estava claramente em desvantagem numérica.

Passam todos aqueles minutos entre as defesas do S.Patrício, as traças a invadir a câmara, as trolitadas entre os jogadores, o golpe de wrestling do Quaresma, o Fernando Santos com as mãos na cara, pessoas a desmaiar e a ter convulsões no meio do público, um adepto a invadir o campo (esta só soube depois, vejam lá)...

Enfim, caos.

Depois o tal Éder, que ninguém gosta(va), marcou O golo.

Os segundos seguintes não são indescritíveis, mas acho que apenas o Eça de Queiroz faria um trabalho decente. O golo, algo inesperado, pelo menos a meu ver, causou a explosão compreensível nos sensíveis e hipertensos corações portugueses. Também eu explodi, metaforicamente, pois finalmente ocorreu algo no jogo que valesse a pena exprimir um sentimento, neste caso o de loucura total. Toda a gente se abraçava e saltava arritmicamente, batendo uns contra os outros. A barulheira ensurdecedora destruiu a maior parte das cordas vocais dos presentes e provavelmente de muitos tímpanos também. Eu próprio abracei toda a gente (excepto as polacas, já tinham ido embora) verificando sempre se a minha carteira ainda estava no sítio. Entornaram-me whisky para cima, mas quem é que no seu perfeito juízo se põe a beber whisky num copo rodeado de milhares de pessoas apertadas?

Os minutos seguintes foram de expectativa acrescida. Poderíamos realmente ganhar o europeu! Os cânticos não pararam mais até ao final do jogo.

Só me apercebi que o jogo acabara quando vi a equipa no banco a invadir o campo (e pelos óbvios esforços acrescidos de celebração observáveis no público). Fogo de artifício começou a explodir e a iluminar a noite, tanto em tons de vermelho e verde, como com tons da bandeira tricolor adversária, o que me faz pensar que o espectáculo seria o mesmo independentemente de quem ganhasse. É mais prático, suponho. Tudo isto tendo o mui apropriado tema do José Cid como banda sonora. Deixo ao vosso cirtério decidir se estou a ser irónico ou não.

 

 

Depois de a taça ser erguida, o pessoal começou a ir-se embora, talvez para o Marquês, mas a rambóia prosseguiu no Terreiro. Obviamente que só passaram aquelas músicas estranhas que o pessoal ouve nos dias de hoje, que são todas iguais umas às outras (ou então era uma só, mas muito grande, não sei) e eu ainda andei ao pinotes por lá, inebriado por nacionalismo temporário.

Claro que para mim, a música de celebração típica à qual recorro em momentos propícios é o tema dos Kool & the Gang.

Celebration!

 

 

Os portugueses não estão de parabéns. Quem está é a Selecção, em todos os seus elementos. Cabe-nos apenas agradecer o grande incentivo moral à Pátria que umas poucas dezenas de pessoas proporcionaram.

 

Quer dizer, ouvi dizer que houve atletas portugueses a ganhar competições europeias noutras modalidades. Mas a quem é que isso realmente interessa?

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publicado às 11:17


Sebastianismo, futebol e relógios!

por José da Xã, em 20.06.14

A mui velha e bacoca ideia sebastianista de que basta uma pessoa para resolver os problemas do nosso país, está tão entranhada em nós que já faz parte da nossa génese.

Nos últimos 400 anos de história lusa, fomos sempre acreditando nas diferentes trovas dos Bandarras que nos têm enganado. Ai como nós gostamos de ser enganados…

O nosso futebol não foge a esta malfadada crença. Quando tudo está por um fio, prestes a desabar, eis que surge alguém que nos coloca noutro patamar. Em 66, no Mundial de Inglaterra, foi Eusébio que deu a volta ao jogo com a Coreia. Nos anos 90 num europeu Britânico foi Luis Figo que iniciou a reviravolta de 2 a zero, para 3 a dois, contra a selecção da Velha Albion. Recentemente no último Play-off para o Mundial do Brasil, Cristiano Ronaldo derrotou quase sozinho, uma Suécia fria e calculista. Já para não falar do golo solitário do Carlos Manuel contra a Alemanha (deixem-me sonhar, lembram-se?) ou o de Raul Meireles contra a Bósnia, recentemente.

É com base nestes exemplos que há quem (ainda!) acredite que Portugal pode apurar-se para a fase seguinte. Uma jogada de mestre, um remate extraordinário, um toque sublime, enfim um final feliz. E regressamos então ao mesmo fado e à ideia primeira de que basta um só homem para fazer a diferença.

Não sou diferente dos demais portugueses. Também eu quero crer que a nossa selecção vai chegar mais longe na prova, que ora decorre em terras de Vera Cruz. Todavia tenho a perfeita consciência que a missão difícil, mas não de todo impossível, tem de ser assumida por todos os intervenientes. Desde os treinadores aos atletas passados pelos dirigentes e restante pessoal, todos devem perceber que um nome não ganha jogos. Mas todos juntos. Todos!

No fim de contas qualquer equipa é como um mecanismo de um relógio. Há uma peça que dá a corda, mas todas as outras têm a sua função. E sem uma delas, por mais pequena que seja o aparelho ficará perfeitamente descontrolado.

No futebol, como na vida, as vitórias geralmente só sorriem a quem mais trabalhou para elas…

 

 

Pode ler-se também aqui

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publicado às 20:44



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