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A Nuvem - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 24.06.17

O dia acordou fresco. As montanhas derramaram sobre as estepes ervadas a sua humidade limpa e vivificante. Rebanhos de nuvens ainda levitavam nalguns locais como fantasmas inocentes e apáticos sobre os prados verdes. Os pássaros há muito que começaram a sua zombaria habitual, cortando o ar apressadamente na competição diária pela sua subsistência, apesar de não haver indício que qualquer um deles passasse fome ou outro tipo de privações. Parecia acordado que as poucas pausas a que aparentavam ter direito tinham de ser no poço de pedra cheio de água perto da horta eximiamente cuidada de Equ Onolatru, o peculiar estalajadeiro copliano. Igualmente perto desta horta ruminava uma manada de burros, com um benjamim seguindo cuidadosamente a progenitora. O sol nascera no horizonte e dava início ao seu colossal trabalho de aquecer o mundo em variados graus de eficácia. Era outrossim pouco eficazmente que o fazia naquelas estepes, o que fazia alguns seres regozijar e outros suspirar de desapontamento.

- A, ôjǝ pɐrecǝ-mǝ um bôm diɐ pɐrɐ trɐbɐlhar. - dizia Equ Onolatru, de enxada na mão, assobiando contentemente em direcção à sua horta.

Um raio de sol atravessou finalmente o cosmos e dirigiu-se velozmente a uma janela da estalagem. Penetrou num quarto ainda tepidamente iluminado e colidiu com a lâmina perigosa de um sabre Ahtem. Ventura Lobo estava a dar-lhe uns retoques e arranjos finais que ainda não tinha tido a possibilidade de finalizar desde a batalha de Ruquru.
Satisfeito, pousou a espada em cima da cama confortável onde dormira. Percorreu com o olhar as planícies aparentemente infinitas mas tão igualmente limitadas pelas montanhas que as rodeavam a toda a volta.
Suspirou.
Ventura Lobo já começara a sua aventura há várias semanas e ainda não tinha tido qualquer indício do rasto do Abade Fazia ou do Livro. A resposta era sempre negativa a todos quanto perguntava. Equ Onolatru referiu, no entanto, que existiam várias povoações de grandes dimensões ainda mais para o Norte inexplorado por Ventura. Enfim, se Norte já era a sua orientação de viagem predefinida, tal informação do estalajadeiro só veio a reanimar a esperança de Ventura de se aproximar do seu objectivo. Efectivamente, não podia crer que conseguiria aguentar muitos mais episódios repletos de parvoíce e desafios gramaticais e ortográficos como aqueles a que já tinha sido apresentado.

Preparou a sua armadura, que já tinha tomado um tom acinzentado em vez do branco brilhante original, e na qual já se podiam identificar vários remendos não profissionais. Desceu e chamou docemente Sara, a égua Maglu, do estábulo. Carregou o alforge com mantimentos frescos providenciados pelo prestável estalajadeiro, cujo diálogo é tão difícil de escrever que se fez um esforço de não o incluir muito nestas preparações finais antes da viagem. Teria mais que fazer na horta, certamente.

Ventura já se despedira e já pagara a Equ Onolatru pela refeição e pela estadia. Pôs-se a caminho e Sara relinchou, despedindo-se por sua vez dos seus amigos burricais recentes, em particular um que os ficou a observar enquanto se afastavam.

- Vá, vá, nada de pensar nisso, Sara, nunca resultaria. Não penses em mulazinhas, ouviste? És uma égua Maglu, há que haver alguma decência, não?

Durante aquele dia as planícies estiveram mais vazias do que o costume. Ventura apanhava de relance uma ave de vez em quando, que desaparecia rapidamente depois. Não deixava de ser uma ocasião agradável para Ventura Lobo. Pela primeira vez no que lhe pareceu muito tempo estava livre de contacto com seres capazes de lhe azucrinar a paciência com as suas idiossincrasias asininas. Não é que Equ Onolatru, por exemplo, fosse terrivelmente aborrecido ou particularmente chato, mas Ventura almejava conseguir ter uma conversa normal com alguém, fosse quem fosse, desde que não cometesse o erro de irritar a espada Venceslau com algum erro ortográfico ou gramático.

As folhas crescidas de erva dançavam suave e ritmicamente sobre as estepes infindáveis desta região do Norte, formando um manto verde dinâmico apenas interrompido por pequenos pontinhos de cores chamativos na forma de flores esporádicas solitariamente espalhadas. Os cabelos longos de Ventura entravam no mesmo baile natural, agitados pela mesma brisa leve que animava a flora local.

Ventura Lobo, não sendo um artista, não era muito dado aos conceitos abstractos de paz interior que tantos procuravam. Contudo, naquela ocasião deixou-se pouco masculinamente invadir por um sentimento de felicidade e satisfação que lhe era raro. Efectivamente estava sozinho, e talvez por isso se sentisse confortável o suficiente para correr o risco de apreciar a simplicidade quase intocada daquele excerto da Natureza.
Sendo um personagem de ficção, é desculpável que se tenha esquecido que todo este momento tão aparentemente seu estava a ser partilhado numa narrativa.

Almoçou um resto de empada do dia anterior. À tarde viu dois cavaleiros lado a lado a galope pela planície, mas estavam demasiadamente longe para determinar quem seriam. Desapareceram no horizonte. Seria provavelmente uma patrulha de batedores Maglu. Quando chegou a noite, enroscou-se a Sara e dormiu pacatamente.

Ventura Lobo acordou pouco antes do dia raiar. Petiscou algum do excelente pão providenciado pelo estalajadeiro acompanhado de uma barradela de compota saborosa de pêssego.

- Agora que penso nisso, não me lembro de ter visto nenhum pessegueiro na estalagem...

Encolheu os ombros e acordou gentilmente Sara.

A região era estranhamente húmida e rebanhos de nuvens ainda levitavam... aliás, esta descrição já foi feita no início do episódio. Na prática, a neblina matinal daquele dia era em tudo semelhante à do dia anterior.
Excepto num aspecto.
Ventura Lobo conseguia literalmente observar a neblina lentamente a dissipar-se, mas uma nuvem em particular, ao longe, não imitava esse comportamento. Pelo contrário, cada vez se tornava mais proeminente.
Era uma nuvem enorme, que ofuscava as montanhas atrás de si que delimitavam a fronteira setentrional daquelas planícies. Parecia peculiarmente confinada a uma certa zona, e não aparentava ter movimento algum.
No entanto, talvez a característica mais única daquela nuvem fosse o facto de emanar uma luz bastante visível no teu topo, como se fosse alguma espécie de relâmpago ténue constante.
- É mais forte do que eu. Temos de lá ir, não é verdade, Sara? Senão nem tem piada.

 

Demorou umas horas a bom passo até chegar às redondezas da nuvem. Admirou-se quando começou a distinguir formas de pessoas nos campos à volta da nuvem. Estas pessoas estavam separadas umas das outras, parecendo algum tipo de actividade agrícola, apesar de não haver ali nada cultivado.
Conseguia analisar agora mais claramente a nuvem. Ficou maravilhado ao verificar que dentro da nuvem estavam estruturas, edifícios e sinais de civilização, todos envoltos numa neblina espessa e consistente que eram como uma espécie de muralha. A nuvem elevava-se imensamente e Ventura notou que a luz que vira anteriormente provinha de um pilar luminoso no topo da nuvem. Os edifícios pareciam ter-se formado à volta deste pilar, criando vários patamares de alturas diferentes.
- Uma cidade? No meio do nada? - murmurou Ventura.
Dirigiu-se a uma das pessoas que estava no campo. Mexia com alguma coisa nas suas mãos, como se estivesse a escrever num papel. A pessoa, uma mulher, parecia estar completamente alheia à aproximação de Ventura, sendo que este teve de se desviar dela pois parecia deambular aleatoriamente pelos campos verdes. Subitamente pára e eleva aos céus um objecto rectangular estranho, esticando o braço para esse efeito. Olhou e sorriu na direcção do objecto. Depois voltou à pose anterior e continuou a remexer no objecto excitada e atentamente.
Ventura Lobo assumiu imediatamente tratar-se de uma pessoa insana, mas ao olhar à volta determinou que o mesmo comportamento era repetido pelas outras pessoas espalhadas nas planícies.
- Como sempre, já estou ligeiramente arrependido de ter vindo aqui. Bom, vamos a isto... Desculpe, minha senhora, posso incomodá-la?
A mulher não respondeu nem pareceu ter ouvido.
- Minha senhora? Bom dia? Olá?
Nada. A mulher apenas repetiu o gesto de elevação do objecto, mas desta vez em vez de sorrir fez uma careta infantil.
- Pronto, tudo bem, vou a outra pessoa. Um bom dia, peço desculpa por a ter incomodado.
Aproximou-se de um homem mais novo.
- Desculpe jovem, mas será que me poderia dar uma informação?
O jovem pareceu hesitar, mas não deixou de mexer no estranho objecto que também tinha, atacando-o com o dedo de várias maneiras. Não respondeu.
- Está tudo doido.

Ventura olhou pensativamente para a nuvem e para o objecto que o jovem tinha nas mãos. A verdade é que aquele objecto era esteticamente muito semelhante ao material de que a nuvem era feita, fosse vapor de água ou não. Decidiu, contra-intuitivamente, investigar mais profundamente esta situação. Assumiu que a cidade, se assim lhe poderia chamar, teria um ponto de acesso qualquer. Esperou que um destes presumíveis habitantes voltasse para o interior, já que a entrada para a cidade não era visualmente óbvia.
Um homem mais velho, sempre atento ao seu rectângulo, começou a andar na direcção da nuvem e Ventura viu a sua oportunidade. Seguiu-o despreocupadamente a curta distância, já que a sua presença não parecia de modo algum ser notada de uma maneira ou doutra. Ventura estava agora na base do que se podiam designar como as muralhas núveas da cidade. Notou com espanto que o constante relvado das estepes se prolongava por debaixo da cidade. Desmontou de Sara e deitou-se para confirmar o que via. Efectivamente aquela cidade não estava assente na terra. Pelo contrário, Ventura fez a espantosa descoberta de que a cidade flutuava completamente, fazendo jus à sua aparência de nuvem. As folhas de erva nem se dobravam ao contactarem com o material gasoso. Ventura levantou-se do chão e tocou hesitantemente na parede. A sua mão simplesmente atravessou a muralha, como se fosse neblina normal.
Não sabendo bem o que pensar, continuou a seguir o homem para desvendar o estranho mistério desta nuvem. Não que haja realmente um mistério, porque num mundo de fantasia este tipo de estruturas impossíveis é absolutamente normal, mas Ventura Lobo tem de fingir ansiedade e talvez até algum temor para gerar suspense.
Subitamente, o homem vira para a esquerda e as paredes dissipam-se para o deixar passar, o que é estranho, porque não pareceu a Ventura que o homem tivesse dificuldade em atravessar a parede se tentasse. Antes que a parede se fechasse, metaforicamente e literalmente falando, Ventura aproveitou para entrar na nuvem.
O que viu a seguir estava além de qualquer expectativa sua.

Mais uma frase para prolongar o suspense.

 


E agora outra com uma separação dramática do resto do texto, frustrando o leitor.

 


Lá dentro, a cidade era uma espécie de labirinto aberto de patamares e edifícios altos, conectados por pontes e corredores estreitos. Era tudo colorido de pouco variados tons de cinzento, já que tudo era feito do mesmo material ligeiramente translúcido e fumegante. Os únicos contrastes estruturais eram o pilar majestoso no topo que já se observava de fora e as fileiras de pedra que serpenteavam pela cidade fora, formando as vias públicas. No entanto, raro era o habitante que as usava. Estes, vestidos quase folcloricamente em comparação à cidade, passeavam tranquilamente pelos espaços abertos da nuvem como se de simples relva se tratasse. Todos tinham um dos misteriosos rectângulos gasosos e era sem grande surpresa que se observava que todos davam atenção exclusiva ao seu objecto respectivo. Era por puro aparente milagre que aquelas pessoas não se entrechocavam ao deambular aleatoriamente pelas ruas sem estarem cientes das suas redondezas imediatas.
As pessoas pareciam divertidas e felizes, apesar de o silêncio ser geral. Ouviam-se alguns barulhos peculiares e breves, emitidos claramente dos rectângulos dos habitantes.
Ventura Lobo notou que a espada Venceslau estava agitadíssima, apesar de ele não ouvir coisa alguma que a pudesse provocar.
Tentou falar com vários cidadãos, mas como anteriormente, nenhum lhe fez caso.
Ventura não sabia o que fazer, visto que era impossível interagir fosse com o que fosse naquela nuvem. Pensou em simplesmente ir-se embora até que uma pessoa lhe chamou a atenção.
- Espera lá... eu conheço aquele homem...
O homem caminhava pacatamente olhando para o seu rectângulo. Ventura reconhecera nele o notável Xico dos Cavalos, o camponês que nunca aprendera a letra "a", que conhecera no mesmo dia em que libertou o Abade Fazia. Sem dúvida que era ele, ligeiramente mais velho e com uma ligeira corcunda, provavelmente provocada pela constante utilização daquele nefasto objecto.
- Sr. Xico dos Cavalos! Lembra-se de mim!? - gritou Ventura, rompendo o silêncio relativo da cidade.
Não respondeu e continuou caminho para uma zona de nuvem aberta. Ventura seguiu-o inconscientemente, esquecendo-se completamente que ainda não tinha tentado colocar o pé no material núveo.
Era impossível dizer a que distância estaria do chão das planícies, e parecia que Ventura estava disposto a descobrir, pois assim que meteu um pé fora das lajes de pedra segura o seu corpo mergulhou graviticamente através da neblina. Foi por puro instinto que se conseguiu agarrar desesperadamente a uma laje. Depois de algum esforço, já que a armadura não ajudava muito, conseguiu elevar-se de volta para a pedra firme.
Quando recuperou do surto de adrenalina a que fora descuidadamente submetido, Ventura procurou Xico dos Cavalos e encontrou-o de volta a uma rua com pedra. Rapidamente ziguezagueou através dos habitantes e alcançou de novo o seu conhecido.
- Sr. Xico? Não me ouve? Não se lembra de mim? Ventura Lobo? Eu sou amigo do Abade Fazia. Não se lembra?
Desta vez Xico pareceu hesitar, mas prosseguiu caminho. Ventura, frustrado, agarrou-o finalmente pelo braço.
Imediatamente duas figuras humanóides surgiram magicamente do chão. Pouco surpreendentemente, eram feitas do mesmo material que... enfim, tudo o resto.
Apanhado completamente de surpresa, Ventura nem soube reagir. As figuras separaram-no de Xico. Este continuou a andar como se nada fosse.
As figuras não tinham feições, mas pareciam olhar atentamente para Ventura. Depois de o analisarem demoradamente, uma delas estendeu-lhe a mão, como que para lhe entregar algo. Um dos rectângulos tão comuns na cidade materializou-se na mão da figura nevoenta. Parecia que queria que Ventura aceitasse o objecto. Foi com alguma reticência que este o fez, mas pela primeira vez desde que chegara à nuvem conseguiu efectivamente sentir aquele material na sua mão. As figuras esfumaram-se tão rapidamente quanto apareceram.
Ventura olhou para o objecto que recebeu. Admirou-se ao perceber que tinha palavras escritas, como se estivesse a dirigir-se a ele.

Bem-vindo! Vamos começar?

 

- Ah, obrigado. Vamos começar o quê?

Não obteve resposta, e a pergunta manteve-se teimosamente escrita no objecto. Notou de seguida que outra palavra estava escrita um bocado abaixo das titulares.

Sim

 

- Sim, claro. Porque não? Tenho de dizer sim? É isso?
Nada aconteceu.
- Não percebo.

Ventura Lobo virou o objecto em várias direcções a tentar determinar se havia alguma forma de interacção com ele. Desistiu e virou as palavras na sua direcção. Ao fazê-lo, um dos seus dedos tocou acidentalmente na palavra "Sim", que se iluminou e desapareceu.
- Ai, já estraguei isto.

Olá


- Oi? Olá! Aliás, nem sei se isto me consegue ouvir. Consegue ouvir-me?

 

Vamos criar um registo para si. Deseja fazê-lo agora?
Sim Mais tarde

 

- Sim! Mais tarde não que o pessoal lá em casa quer que a história avance.
Nada aconteceu.
Ventura, num acesso de perspicácia, aproximou o dedo da palavra "Sim". Esta teve o mesmo comportamento que anteriormente.

 

Bem-vindo ao assistente de criação de registo pessoal. Por favor insira o seu nome.
O seu nome aqui:                              

 

- Ventura Lobo, aventureiro e... ah, espera, é para inserir? Como assim inserir? Inserir onde? Ah...? O meu nome ali? Deixa cá mexer o dedo. Oi!
Ventura dedilhou no rectângulo branco que dizia "O seu nome aqui..." e este apresentou de seguida um conjunto de símbolos que Ventura reconheceu como sendo o abecedário. Estava disposto de forma aparentemente aleatória, em vez de ser em ordem. Ele já percebera por esta altura que a interacção normal com o que parecia ser algum género de aparelho era feita com o dedo por contacto. Reflectiu que não era muito diferente de interacções que já vira previamente nos autómatos nas Minas de Lesi. Tentou com dificuldade dilacerante digitar o seu nome letra a letra. Quando acabou, o dipositivo parecia estar a trabalhar nalguma coisa, brilhando com belas e chamativas cores no meio do seu material nebuloso. Finalmente, apareceu o seguinte:

Registo completo.

Bem-vindo à Nuvem, Ventura Lobo

 

Imensos painéis coloridos invadiram o aparelho, mostrando informação de todo o tipo, maioritariamente irrelevante. Num, a meteorologia para hoje, amanhã, depois de amanhã, o dia a seguir, ontem, antes de ontem e todos os dias do próximo mês. Noutro, desenhos realísticos de animais bebés em poses queridas. A seguir, os vários dias nos vários calendários, entre eles o Real, o Kamiliano, o Putuiliano, o de Virik Katal, entre muitos outros de raças menos conhecidas. Mais ao lado havia outro painel com o que pareciam ser notícias da Nuvem, sendo a mais recente que já tinham terminado a actualização dos painéis sociais e era agora possível determinar exactamente a posição de qualquer cidadão da Nuvem.
Nada disto fazia sentido a Ventura Lobo, que ficou imediatamente confuso pela avassaladora quantidade de informação com que estava a ser bombardeado. No entanto, graças à notícia que lera, percebeu que haveria um painel social. Encontrou-o pouco depois, rodeado de imagens de pessoas que nunca vira na vida. Dedilhou o painel.

Bem-vindo à Nuvem Social! Não tem retrato de perfil. Gostaria de criar um agora?
Sim Mais tarde

 

Ventura, já sem falar, seleccionou sim. O aparelho transformou-se num espelho e o aventureiro conseguiu ver a sua reflexão. Pouco depois o aparelho emitiu um ruído estranho e rápido e a reflexão perdeu vida, congelando a feição de Ventura. Este tocou-se na face para tentar compreender se estava paralisado, mas rapidamente chegou à conclusão que o que era uma reflexão tornou-se repentinamente um retrato, e que portanto a sua morfologia física não tinha efectivamente estacado. Ventura ficou com uma expressão idiota no retrato, mas confirmou quando lhe foi perguntado se estava satisfeito.

Vamos agora tentar encontrar pessoas que conheça. Aguarde.

 

 

Depois de um período de deliberação colorido, o aparelho mostrou a seguinte mensagem.

Não encontrámos ninguém que pudesse conhecer. No entanto, tem aqui uma lista de pessoas com quem pode iniciar conversa!

 

Efectivamente uma longa lista de nomes com retratos apareceu no ecrã. Navegando por uma quantidade imensa de gente irrelevante, Ventura apanhou de relance o nome que procurava. "Xico dos Cvlos".

Adicionar Contacto

 

Não demorou muito tempo depois de Ventura atingir aquela opção para receber uma mensagem.

Xico dos Cvlos aceitou o seu pedido de contacto! Comece uma conversa com ele!

 

Abriu-se um novo painel visual no aparelho.
O abecedário foi de novo mostrado e Ventura Lobo inseriu diligentemente cada uma das letras numa mensagem.

Ventura Lobo Xico dos Cvlos
Bom dia, Sr. Xico dos Cavalos! Lembra-se de mim? Ventura Lobo, caminhante e aventureiro, um bocadinho mais experiente desde a última vez que nos vimos.  
  per l, sim lembro me de ti, deste cbo ds minhs couves qd slvste o bde Fzi d su priso



A espada Venceslau tinha estado agitadíssima desde que entrara na cidade, mas agora tremia visivelmente, ansiando por sair e punir os que ousavam falar mal, ou neste caso, escrever. Ventura estava demasiado ocupado com o aparelho para controlar Venceslau.

Ventura Lobo Xico dos Cvlos
Ah, vejo que se lembra de mim pelas piores razões, ora essa. Já foi há tanto tempo, amigo Xico, certamente poderá perdoar-me, especialmente tendo em conta que o sacrifício das suas couves resultou na justa libertação do Abade Fazia.  
  sim, e verdde, j foi h mt tempo
  o q e q nds fzer por qui?
Na verdade venho à procura precisamente do Abade Fazia, mas foi por mero acaso que vim aqui parar. Noto, no entanto, que parece que o senhor está-se a esquecer de mais letras do que o costume... Dantes era só o "a".  
  sbes, qui e norml escrever se com menos letrs pq se queremos escrever rpido n nos dmos o trblho de por tods s letrs
Nem pontuação, pelo que me é permitido verificar. Então aqui o senhor é um bocadinho menos gozado pela população local, suponho?  
  pq?
  h! clro :P
  qui tod gente escreve ssim por isso ssento q nem um luv
  quse ng not q eu n uso ess letr q voces dizem


Ventura começara a andar quase naturalmente enquanto trocava palavras com Xico dos Cavalos, estivesse ele onde estivesse. Mal sabia ele que este estava precisamente à sua frente, encaminhando-se na sua direcção exacta. Estavam os dois em rota de colisão.
Subitamente, aparece uma seta imensa virada para a direita a ocupar a área observável do aparelho de Ventura.

Por favor dê um passo à direita

 

Ventura assim fez. Hipnotizado como estava, não reparou que Xico dos Cavalos teve uma acção idêntica, aparentemente de forma inconsciente. Na prática, se Ventura Lobo estivesse a contar a sua história na primeira pessoa, um leitor teria uma visão muito mais pobre da dinâmica citadina. Os dois interlocutores indirectos cruzaram-se sem dar por isso.
Um novo painel colorido apareceu a Ventura.

Agustina Cupertina gostaria de o adicionar como um novo contacto!

 

Ao lado desta mensagem estava o retrato de um gato.
- Ah, deve ser uma membra das tribos de homens-gato das ruínas de Duech Be Aghe. Já lá fui uma vez, mas não conheci lá ninguém com este nome... Bom não vou ser mal-educado, deixa cá aceitar o convite, pode ser que seja alguém que tenha mudado de nome, há quem o faça de vez em quando.

Aceitou o convite de Agustina Cupertina!

 

O painel desapareceu para dar vida a outro imediatamente a seguir, do mesmo género que aquele que continha a conversa escrita com Xico dos Cavalos. Já lá continha o início do que Ventura supôs que seria uma nova conversa com outra pessoa. Identificou ao canto do painel o retrato da mulher-gato de Duech Be Aghe.

Ventura Lobo Agustina Cupertina
  ola, td bem? :P
  es novo por aqui?

 

A espada Venceslau saltava pouco subtilmente na sua bainha, não tendo ninguém para a conter. Cada palavra escrita era uma ofensa imperdoável neste antro de difamadores. É possível imaginar que todas as palavras que estivessem a ser escritas por todos os habitantes da Nuvem pudessem ser de algum modo sentidas pela espada branca. Venceslau pensava apenas em purgar a cidade inteira. As suas jóias brilhavam um laranja preocupante.

Bons dias, menina. Faz uma excelente dedução sobre a minha chegada recente à vossa estranha e fascinante cidade. Permita que me apresente. Sou Ventura Lobo, aventureiro em missão, e foi por puro acaso que me deparei com este local.  
  lol
  falas de maneira esquisita xD
  sou a agustina mas chamam me gugu <3 mas so os amigos lol

 Venceslau pulsou para um vermelho zangado.

Bom, se alguma vez chegar a um nível de confiança em que exista amizade, já saberei por que nome a poderei tratar. Devo dizer, no entanto, e não pretendo ofender, que o seu nome parece-me pouco comum para uma mulher-gato de Duech Be Aghe.  
  loool, o que? xD
  o que e isso? o.O

 Vencelsau pulsou para um rubor agressivo. Sacudia-se violentamente.

Ah, eu estava a fazer referência ao seu retrato, do qual depreendi que a menina fosse uma mulher-gato.  
  looool ahahahhah xDD isso e uma foto do meu gato

 Venceslau pulsou para um escarlate raivoso. Clamava desesperadamente pela mão do seu possuidor para se vingar dos habitantes da cidade.

Foto? Não compreendo o termo neste contexto. O seu gato é uma luz? E porque é que haveria de usar o seu gato como o seu elemento identificativo visual nesta gerigonça?  
  o.O tas mesmo ha nora... e eu tb xD

 Ventura Lobo, num movimento inconsciente, agarrou o cabo da sua espada, quase como se fosse ela a controlá-lo. Desembainhou-a, largando o dispositivo núveo hipnotizante. Foi com prazer sádico que Venceslau, pela mão de Ventura, penetrou e destruiu completamente o dispositivo, que se desintegrou e esfumou, desaparecendo gradualmente.

A raiva da espada não estava saciada, mas a destruição do aparelho trouxe Ventura de volta a si, que retomou o controlo consciente de Venceslau.
- Mas... que raio? Essa agora... Realmente não admira que os cidadãos locais estejam sempre colados a estes aparelhos. Há sempre alguma coisa para fazer e para nos distrair. É facílimo perdermo-nos naquilo. Será que...
Não pôde acabar o seu raciocínio. Duas figuras humanóides formaram-se do chão. Pareciam estar a analisar Ventura como anteriormente. Só agora é que este reparara que não estava em cima das lajes seguras, mas estava sim sobre a neblina que compunha a maioria da cidade. Aparentemente, a destruição do aparelho não revogou o acesso livre de Ventura à cidade e à sua estranha infra-estrutura.
Depois de um curtíssimo olhar vazio mas desconfortavelmente perscrutante, uma das figuras aproximou-se de Ventura e estendeu-lhe a mão. Um novo dispositivo materializou-se-lhe na mão, exactamente como ocorrera com o primeiro.
- Ah, não, obrigado meu caro, mas desta vez acho que vou recusar. Temo que essa vossa tecnologia é uma distracção à qual não me posso dar ao luxo.
A figura não se moveu, mantendo o braço esticado.
- Bom, é aqui que me despeço então, meus senhores, ou seja o que for que sejais. Obrigado pela hospitalidade.
Ventura tentou contornar o humanóide núveo, mas este barrou-lhe o caminho, teimando na sua oferta.
- Dê-me licença. Peço-lhe.
Mais duas figuras surgiram do chão, rodeando ameaçadoramente o aventureiro.
- Meus amigos, notem bem estas jóias da minha espada. Uma legenda rápida para as suas cores possíveis seria algo deste género: transparente ou branco, tudo bem; amarelo, primeiro aviso; laranja, sugere-se cuidado; vermelho pulsante como se todos os fogos do inferno metafórico ou real estivessem a jorrar sangue incandescente, sugere-se muita precaução. Como vedes, a espada Venceslau está no último estado que descrevi, ou pelo menos muito lá perto. Eu consigo controlá-la na maioria das situações, mas se neste momento estais a querer provocar-me, devo dizer que escolhestes a pior altura possível. Por outras palavras, abri alas e deixai-me passar. - fez uma pequena pausa e preparou a sua arma predilecta. - Senão...
Depois do que pareceu uma reflexão cuidada, um dos homens neblinosos estendeu o braço rapidamente como se fosse agarrar Ventura.

- Erro crasso. Vamos a isto então.

 

Ventura deu um passo ágil para a esquerda e decepou o braço núveo. O homem olhou para ele enquanto observava o seu braço amputado, que em vez de cair esfumou-se para cima como se fosse vapor. Não demorou muito até que o braço voltasse a crescer magicamente.
- Eu já devia ter percebido que isto não iria ser fácil. Nem meteria piada, não é verdade?
As quatro figuras formavam agora um semicírculo à volta do impertinente aventureiro. Bastões simples formaram-se nas suas mãos, mas não tinham qualquer tipo de protecção contra a lâmina fatal de Venceslau. Evidentemente, nem precisavam.
Os habitantes da cidade pararam de circular livremente e fizeram um ajuntamento enorme à volta de Ventura e dos presumíveis guardas. Tinham todos o seu dispositivo rectangular apontados para a cena dramática, de feições chocadas e horrorizadas como se estivessem a ver a luta a decorrer através dos aparelhos, em vez de o fazerem com os próprios olhos.
Ventura já não se admirava, mas também não compreendia. Decidiu que o melhor a fazer era sair da cidade. No entanto, tendo em conta que deambulara aleatoriamente pela cidade, já não sabia voltar para a saída da Nuvem. Aventurou-se para uma rua qualquer, esperando reconhecer algum sítio naquela cidade tão pouco arquitectonicamente original.
Os guardas puseram-se em perseguição pouco convencional. Não tendo necessidade de se locomover humanamente, simplesmente faziam-se sugar para o chão e reapareciam à frente de Ventura a partir de qualquer ângulo de qualquer edifício. Ele cortava braços e cabeças dos núveos, mas estes pareciam não ser muito afectados por isso. O membro decepado simplesmente evaporava-se para a atmosfera e eles reapareciam posteriormente como novos.
O intrépido guerreiro não se deixou desanimar. Percorreu os patamares precipitantes, os estreitos corredores e as praças espaçosas da Nuvem, lançando Venceslau contra os inimigos que lhe iam aparecendo de todas as direcções, brotando do chão e das paredes cinzentas.
Na sua pressa, tropeçou num desnível e espatifou-se nas lajes da rua. Imediatamente surgiu-lhe um guarda núveo à frente. Só naquela perspectiva é que Ventura reparou que os misteriosos homens estavam literalmente ligados à cidade, não se discernindo nenhuma divisão entre os pés deles e o chão.
- Bom, já que aqui estou...
Manobrou Venceslau contra os pés do guarda, dos quais apenas um estava assente no chão (o outro desligara-se quando o guarda flectiu o joelho para se locomover). Com o pé cortado, o último elemento que o ligava à Nuvem deixou de existir. O núveo pareceu hesitar, com uma linguagem corporal preocupada e surpreendida. Estremeceu e esfumou-se completamente pelo ar.
- Ah, então afinal podeis morrer. Agora não fujo mais. Vinde!
Os outros três guardas que o perseguiam materializaram-se, rodeando o humano. Este passou imediatamente ao ataque. Rebolou para trás de um deles, evitando milagrosamente um golpe forte de bastão. Mesmo de cócoras, rasgou o ar com a espada e cortou o núveo pelos pés, como anteriormente. Desintegrou-se perante os seus olhos, revelando os outros dois que se aproximavam rapidamente de bastão em riste. Defendeu-se do ataque de um e pontapeou-o para longe. Desviou-se do outro, cortou-lhe o bastão, agarrou-lhe num braço e perfurou-o com Venceslau de modo a que o braço ficasse preso ao corpo. Desembainhou seu sabre Ahtem e fez o mesmo com o outro braço, ficando o núveo de braços cruzados presos a si próprio.
- Olha, por acaso estava a pensar que te conseguirias facilmente soltar, já que és feito de gás ou algo do género. Ou será que nem pensaste nisso?
O inimigo olhou para Ventura pensativamente. Parecia ter chegado à mesma conclusão que ele.
- Tarde demais. - disse, antes que o núveo tivesse tempo de reagir.
Pegou numa das suas adagas, baixou-se prontamente e desfez a sua ligação à Nuvem. Agarrou as suas espadas antes que ele se desfizesse. Aproximou-se do último guarda que vinha corajosamente ao seu encontro. Arremessou a espada Venceslau contra o pé deste quando o outro ainda estava elevado, imediatamente eliminando-o.
- Ah, afinal retiro o que disse, até foi bastante fácil. Agora poderia estar o dia todo a dar cabo deles.
Não sabendo que tinha acabado de agoirar a sua sorte, Ventura embainhou despreocupadamente a sua espada.
Entrou numa praça que era limitada por um patamar com uma boa visão para o resto da cidade abaixo. Ventura nem se apercebera do quanto tinha subido na sua deambulação, mas agora via um caminho claro até à praça onde tinha entrado. Olhando na direcção contrária via-se o pilar luminoso, agora com um aspecto mais ameaçador do que misterioso.
Quando Ventura se virou para trás deu por si rodeado outra vez de guardas, desta vez em número consideravelmente superior em comparação com o combate anterior. Desembainhou Venceslau num tom provocante de escárnio. Colocou-se estupidamente no meio da praça para os lutar, agora que sabia que o seu inimigo era um adversário no geral bastante tosco.
Uma espécie de alçapão criou-se precisamente debaixo de Ventura, como se a Nuvem tivesse decidido abrir uma brecha para capturar o criminoso.

E Ventura caiu.

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A Estalagem - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 18.04.17

Um cavaleiro sobe uma estrada poeirenta e em mau estado. A sua armadura de metal fino foi em tempos de um branco reluzente e orgulhoso, estando agora cinzenta, suja e danificada pelo decorrer das várias aventuras do presumível guerreiro. Um leitor recorrente já terá adivinhado a pessoa de Ventura Lobo, acompanhado de Venceslau, a sua espada, e de Sara, a égua Maglu.
Ventura Lobo não o sabia, mas tinha sido alvo de uma tentativa de emboscada misteriosa por parte de elementos do Exército do Reino, o mesmo reino que lhe tinha incumbido a missão de adquirir o fabuloso Livro e a sua aparente fonte de poder e conhecimento. Que Livro era esse e precisamente o que é que fazia? Não se tinha a certeza, por razões de enredo. Achou-se preferível manter o mistério sobre as capacidades do Livro para se deixar o leitor na expectativa, e já agora para que o Autor tivesse tempo de decidir e definir como é que a história acabaria sem entrar em detalhes demasiadamente limitadores em termos de progressão narrativa futura.
Felizmente, os agentes inimigos falharam tão redondamente que Ventura Lobo nem se apercebeu de que poderia estar em perigo. É também verdade que contra a incompetência do narrador nem o mais bem treinado dos soldados pode fazer muito, mas não deixa de contar como uma derrota inimiga.
Ventura sentia-se cansado, mas percorria o trilho com alguma alegria. A devastação árida do terreno a que começara a ficar habituado dava agora lugar a prados simples e verdejantes à beira do caminho. Observou com agrado uma manada de répteis enormes, do tamanho de ovelhas, que avançavam placidamente pela pradaria em fila singular, serpenteando como que por instinto até ao horizonte onde lhes esperava algum destino desconhecido, talvez até para eles.
- Ah Sara, tens aqui muita erva boa. Quem me dera que eu também pudesse ter uma boa refeição. Já estou a ficar um bocado farto dos biscoitos de Yih. Há bocado um deles mexeu-se e começou a querer sair do alforge. Devem estar a passar o prazo de validade. No entanto, tenho ideia que só ficam mesmo incomestíveis quando começam a morder-nos. Enquanto só se mexerem ainda marcham.
Poderá ser relevante notar que só se inventou a capacidade dos biscoitos se mexerem para que esta última afirmação do nosso herói se tornasse uma espécie de pleonasmo humorístico e coloquial.
Passaram-se vários minutos. Ventura afagava a crina de Sara enquanto esta superava uma porção particularmente degradada do que se tem denominado como estrada. Ao chegar ao topo de um monte, Ventura nota um pequeno conjunto de edifícios ao fundo no meio de uma planície suave. Uma casa principal destacava-se, rodeada de o que parecia ser um estábulo e outras cabanas mais pequenas. a medida que se aproximou, distinguiu uma horta decente e árvores de fruto, complementados por um poço e ferramentas agrícolas espalhadas pelo terreno. Uma pequena família de burros descansava pacatamente na erva circundante à casa, com excepção de um pequeno jumentinho que saltitava euforicamente entre os seus familiares.
Foi com igual euforia que Ventura se apercebeu que esta não era simplesmente uma quinta, mas sim uma estalagem, pois conseguiu ler o letreiro que a identificava.

 

"U Qɐntu dux Burux"

 

É evidente que Ventura Lobo teve inicialmente dificuldade em ler o texto estranho, como certamente qualquer outro leitor teria. Adivinhou que não poderia ser uma língua estrangeira, pois compreendia, depois de alguma descodificação, o contexto daquelas palavras.
- Das duas uma, ou é marketing, ou está já a começar a parvoíce deste episódio.
Ventura levou a cara à mão e suspirou profundamente, abanando ligeiramente a cabeça. Perdeu quase de imediato toda a alegria que tinha por ter encontrado um pouso de descanso.
Desmontou Sara, que se encaminhou imediatamente para um balde com água.
Aproximou-se da porta pesada da estalagem e preparou-se.
- Bom, lá terá de ser, não é verdade? Vamos a ver o que nos espera.
Entrou.

 

O aspecto rústico do exterior da estalagem repetia-se no seu interior, mas não deixou de se sentir uma atmosfera acolhedora e convidativa ao arrastar-se a porta para o salão principal do edifício. Estava completamente deserto, mas pareciam evidentes os sinais abundantes de actividade. O chão estava usado e riscado do movimento habitual de cadeiras e mesas. Não obstante isto, tinha um aspecto imaculado em termos higiénicos. Janelas amplas inundavam a sala de luz branca exterior, impedida da sua fortaleza máxima pelas nuvens tímidas que passeavam placidamente pelo céu.
Ventura Lobo aproximou-se do balcão. Encostou a sua espada e lançou um olhar cansado e ligeiramente desiludido em volta. Foi aí que sentiu o cheiro a comida. Um cheiro inimaginavelmente delicioso como apenas a fome, o melhor dos temperos, pode originar.
- Ó da casa! - berrou Ventura masculamente, pensando que se houvesse um estalajadeiro ele estaria mais habituado a este tom de voz.
- O diabu, xɐmão pur min? Não podǝ sêr! Vô ja pɐtrão, ja vô ɐ qɐminhu.
Ventura Lobo, ao ouvir isto, lançou em desespero a espada Venceslau para longe, temendo que esta se sentisse irremediavelmente insultada pelo massacre ortográfico que acabara de presenciar. No entanto, as gemas demonstradoras da fúria de Venceslau não emitiam brilho algum, e foi portanto algo injustificado o arremesso para o canto contrário da sala, aterrando bruscamente perto da porta.

 

Um homemzito surge de uma porta larga que ligava à cozinha. Se não fosse pelo simples facto de ter orelhas de burro, passaria perfeitamente como um homem normal de meia idade.
- Hã? O quê? Orelhas de burro?
A surpresa de Ventura era justificável, pois nunca vira um homem-burro de Copl, cobiçados internacionalmente como conselheiros pelo seu intelecto imenso. Obter os serviços de um copliano não era simples, pois são um povo de indivíduos teimosos. É por este facto que a sua civilização ainda se pode considerar primitiva, pois qualquer tentativa interna de melhoramento é fútil perante a birra que todos fazem perante o conceito de mudança com o qual não concordam.
O copliano parecia excitadíssimo ao ver Ventura e apresentou-se diante dele.
- Orɐ bôm diɐ, ǝxtimadu qliêtǝ. Pônhɐ-sǝ a vontadǝ. Sêtǝ-sǝ, sêtǝ-sǝ. Vêju qǝ devǝ ǝxtar qɐnsɐdisimu. Pôsǝ ɐx suɐx qôisɐx. Dǝsqɐnsǝ. - exigiu o homem, com um profundo sorriso afável na cara.
- Deveras, meu caro, agradeço a hospitalidade. Não precisa de me fazer tal proposta duas vezes. O senhor é o dono deste estabelecimento?
- Sô sim sǝnhôr, pɐtrão. Já ǝxtá nɐ minhɐ fɐmíliɐ a variɐx jerɐsõǝx i tratu dêlǝ muitu bǝm. U mǝu pai bǝm mǝ diziɐ, qǝr dizǝr, ɐntǝx dǝ fiqar sǝm dêtǝx, qǝ dǝpôix não sǝ pǝrcǝbiɐ nadɐ du qǝ êlǝ diziɐ, mɐx diziɐ, prôntu, quɐndu pudiɐ, qǝ ǝxtɐ erɐ ɐ mǝlhor ǝxtɐlajǝm dextɐx plɐnícix i qǝ dǝviɐ sêr trɐtadɐ qômu tal. ∀ minhɐ mãe, qôitadɐ, quɐndu ôviu ixtu, quɐndu ɐindɐ qônsǝgiɐ ôvir, qǝ ôvǝ um diɐ qǝ um truvão ɐ êsurdǝcêu, qǝ elɐ ǝxtavɐ nɐx môntɐnhɐx pɐrɐ u Sul, i lá u sôm e ɐmplifiqadu, axu qǝ tǝm algumɐ qôisɐ ɐ vêr qôm ɐ formɐ ɐsim qurvadɐ dɐx rɐvinɐx, mɐx quɐndu elɐ ôviu u qǝ u mêu pai disǝ ɐte saltavɐ i diziɐ sǝmprǝ ɐ mǝsmɐ qôisɐ, qǝ extɐ e ɐ mǝlhor ǝxtɐlajǝm purqǝ e ɐ úniqɐ ɐqui dɐx rǝdôndêzɐx, i u mêu pai, ai, qǝ êlǝ erɐ mɐlɐndru, umɐ vêx pôx um buru ɐ seriu nɐ qɐmɐ qôm ɐ minhɐ mãe, ɐviɐ dǝ têr vixtu ɐ qarɐ delɐ quɐndu ɐqurdô, i elɐ tinhɐ u sônu levǝ, nunqɐ sôbǝ qômu e qǝ êlǝ pôx u buru la, tɐpadu qôm u qubǝrtôr i tudu, a, mɐx u mêu pai rǝxpôndiɐ sêmprǝ a minhɐ mãe "êtão, não dǝixu dǝ têr rɐzão!". Qer dizǝr, êlǝ rǝxpôndiɐ ixtu quɐndu ɐ minhɐ mãe, qôitɐdinhɐ, lhǝ fɐlavɐ dɐ ǝxtɐlajǝm, não quɐndu pɐrtilhavɐ ɐ qɐmɐ qôm u buru, nǝm fɐriɐ sêtidu, não e vǝrdadǝ? Bôm, talvêz iputetiqɐmêtǝ fizesǝ, mɐx não pêsǝmux nisu. ∀ vǝrdadǝ e qǝ extɐ e ɐ minhɐ ǝxtɐlajǝm, U Qɐntu dux Burux, xɐmadɐ ɐsim pur qausɐ dux burux qǝ qustumɐm rudiɐr-mǝ u ǝxtɐbǝlǝcimêtu sǝm qausar grɐndǝx prublêmɐx, i posu-lhǝ já ɐgorɐ dizêr qǝ mǝ xɐmu Equ Onolatru i qǝ ǝstô pǝrfǝitɐmêtǝ au sêu dispôr, já qǝ qômu vê pêlɐ dǝmugrɐfiɐ du mêu sɐlão, não ǝstô muitu oqupadu.
- Ui, espere lá que isso é muita coisa para descodificar. Suponho que me devo identificar também. Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante de todas as estradas, se bem que o que há aqui não se poderia chamar exactamente uma estrada, mas pronto, para o que é serve.
- A pôix, ɐ autɐrqiɐ nunqɐ fax nadɐ ǝn rǝlɐcão ɐ isu. Bǝm vixtɐx ɐx qôisɐx, nǝm vǝiju um rǝprǝzêtɐntǝ du Guvêrnu a muitu têmpu. ∀liax, axu qǝ nunqɐ vi um, ɐgorɐ qǝ pêsu nisu. Não ux posu julgar, qǝ u êdificiu ɐdministrɐtivu maix próximu ǝstá ɐ váriɐx sǝmɐnɐx dǝ viajǝm, ô u dôbru sǝ formux môntadux num buru. Pur esɐx i pur ôtrɐx e qǝ ux dǝixǝi dǝ usar i ɐrɐnjǝi um qɐvalu, sǝ bǝm qǝ pɐrɐ ɐrɐnjar u qɐvalu tivǝ dǝ ir dǝ buru, i dǝmurǝi unx quatru mêsǝx só dǝ idɐ. Pɐrɐ voltar fôi maix fácil, já qǝ ɐ qɐrɐvɐnɐ ôndǝ fui qômprar u qɐvalu xǝgô quincidêtǝmêtǝ ɐqui a ǝxtɐlajǝm nɐ mêsmɐ alturɐ ǝm qǝ finalmêtǝ ux ɐpanhǝi. Fôi um pǝriudu dǝsɐstrôsu, qômu qônsegǝ imɐjinar, pôix dǝixar u nǝgociu durɐntǝ tɐntu tǝmpu e prǝjudicial pɐrɐ ɐx finɐncɐx. Pur ôtru ladu, ɐ vɐntajǝm dǝ sǝ ǝstar lônjǝ dǝ tudu e qǝ nǝnhum qubrɐdôr dǝ impostux pêsɐ sǝqer ǝm vir ɐqui. Qer dizêr, mintu, umɐ vêz vǝiu qa um, mɐx isu e purqǝ sǝ tinhɐ pǝrdidu i pêsavɐ qǝ ǝstavɐ num sitiu xɐmadu... ai... erɐ um nômǝ ǝxqisitu... Xsu.. Xsantu?..
- Xsantinuq, talvez? - interrompeu pacientemente Ventura.
- A, sim, erɐ ǝxatɐmêtǝ isu, bǝm vǝiju qǝ u sǝnhôr devǝ sêr qunhǝcǝdôr. A bôm, u sǝnhôr bǝm disǝ qǝ e ɐvêturǝiru. Rialmêtǝ, são ux mêux qliêtǝx maix frǝquêtǝx, ux ɐvêturǝirux, qeru dizǝr, mɐx tɐmbǝm são ux qǝ dǝsɐrumɐm maix ɐ qasɐ. Certɐ vêz vǝiu um grupu ǝnormǝ dêlǝx, axu qǝ erɐm unx trêx, au mêsmu têmpu, vǝijɐ lá, i pǝdirɐm tôdux qôisɐx difǝrêtǝx pɐrɐ qumêr. Qônsǝgirá pǝrcǝbêr qǝ tivǝ um dia muitu ɐtɐrefadu. Tivǝ nɐ quzinhɐ maix dǝ mǝiɐ orɐ, i êu prǝcisavɐ dǝ ir trɐtar dɐ ortɐ, purqǝ nɐ alturɐ erɐ ɐ epuqɐ ǝm qǝ ux tǝxugux ɐmɐrelux dǝ Buarq qumecɐm ɐ migrɐcão i ɐruinɐm qômpletɐmêtǝ umɐ dɐx minhɐx plɐntɐcõǝx. U qǝ mǝ e maix dificil dǝ qômpriêdǝr e purqǝ e qǝ tôdux ux ɐnux êlǝx ɐtaqɐm umɐ qôisɐ difǝrêtǝ. U ɐnu pɐsadu, vǝijɐ lá bǝm, fôrɐm-mǝ aux nabux, ɐntǝx disu ax bɐtatɐx, nu ɐnu ɐntǝriôr aux inhɐmǝx, sǝm bǝm qǝ não gostu muitu purtɐntu não fôi grɐndǝ pêrdɐ. Rialmêtǝ, purqǝ e qǝ ux plɐntu dǝ tôdu sǝ não gostu ɐsim tɐntu? Bôm, mɐx nêsǝ ɐnu ɐte qɐlhô bǝm. Só ǝsperu qǝ não mǝ ɐtaqǝm ɐx cǝnôrɐx dêxtɐ vêz purqǝ elɐx ɐte ǝxtão bunitɐx. Ô pɐrecǝm ǝxtar, qǝ ɐindɐ não tirǝi nǝnhumɐ pɐrɐ vêr, mɐx ɐqrǝditu qǝ ǝxtǝijɐm.
- Ora, pois, desculpe-me interromper, mas será que me poderia preparar uma refeição? Tenho forma de pagamento suficiente, não se preocupe. E antes que pergunte, porque se eu não tomar as rédeas da narrativa nunca mais saímos daqui, eu gostaria de saber se tem um prato do dia ou algo do género. Se tiver, peço que mo descreva sucintamente.
- A, pɐtrão, vǝm ǝm bôm diɐ, pôix mɐtǝi um galu ôntǝm i purtɐntu tǝnhu ǝmpadɐ dǝ galu ɐqômpɐnhadɐ dǝ bɐtatɐx ax rudelɐx fritɐx ǝm ɐzǝitǝ i um pure dǝ vǝjǝtaix riquisimu ǝm produtux sɐburosux, tudu qɐsǝiru!
- Parece-me bem, acho eu. Traga-me também uma caneca com água. Se tiver vinho ou outra bebida espirituosa, coloque-o num odre pequeno para eu levar.
- Orɐ bǝm, pǝrfǝitɐmêtǝ, sim sǝnhor pɐtrão, voltu já.
Equ Onolatru despachou-se para a cozinha a assobiar alegremente.
- Ufa, agora sim posso voltar atrás e ler de novo o que ele disse, porque não percebi quase nada. Quer dizer... percebi e não percebi... é estranho. Mas por que carga de água é que ele tem uns "a"s e uns "e"s ao contrário?


Surpreendentemente, o estalajadeiro voltou quase imediatamente com um prato enorme repleto de comida de aspecto fenomenal, demasiadamente para ter sido preparada em dois minutos. A empada ainda fumegante tinha uma forma rectangular, ocupando mais de metade do prato de tamanho considerável. As batatas vinham polvilhadas de ervas aromáticas e ainda se notava o brilho quente do azeite fervilhante. O puré de vegetais tinha um aspecto grotesco de argamassa verde, mas emanava um cheiro rico, nutritivo e no geral convidativo.
- Mas... mas o senhor já tinha isto pronto?
- Não tutalmǝntǝ, ɐ ǝmpadɐ ɐindɐ não tinhɐ lǝvadu ɐ masɐ pur cimɐ.
- E o resto?
- Êtão, fiz tudu ɐgorɐ...
- Em dois minutos!?
- E u tempu suficiêtǝ.
Ventura não acreditou, suspeitando tratar-se de comida reaquecida no microondas, mas preferiu não insistir no assunto. De qualquer modo, a comida cheirava maravilhosamente e a fome de Ventura Lobo, que nas últimas semanas apenas tinha sido saciada por mantimentos fora de validade, ordenou que ele atacasse animalescamente a refeição.
Era com regozijo que Equ Onolatru observava a deglutição sôfrega e espantada de Ventura. A cada dentada e a cada batata e a cada colher de puré desenhava-se uma feição do mais puro prazer.
Quando Ventura acabou, absolutamente enfartado, olhou esbugalhadamente para Equ, que ainda o observava sorridentemente.
- Mestre Onolatro, ou pelo menos acho que é esse o seu nome, devo dizer que poucas refeições na minhɐ vida aventureira se compararam a esta que terminei agora. Estava tudo divinal! Os meus sinceros parabéns!
- A, muitu obrigadu, muitu obrigadu! Nu êtɐntu, dêvu qurriji-lu i dizêr-lhe qǝ mǝ xɐmu Onolatru, i não Onolatro.
- Ah, é com "u"? Pois desculpe-me, peço-lhe.
- Mɐx e ëvidêtǝ qǝ e qôm "u". Eu sǝi qǝ ux ǝxtrɐnjǝirux ǝxqrevǝm tudu au qôntrariu, mɐx fɐlɐndu bǝm tǝm dǝ sêr qôm "u".
"Oh diabo..."
- Como assim? - indagou Ventura. - Eu verdadeiramente tenho tido dificuldade em percebê-lo, mas é estranho porque por um lado não o percebo visualmente mas parece-me que o percebo auditivamente.
- U pǝsual la ǝm qasɐ devǝ ǝxtar ax ɐrɐnhɐx sôbrǝ u qǝ e qǝ sǝ ǝxta ɐ pɐsar ɐqi.
- Ui, não me fale em estar as aranhas. Mas concordo, e acho que é altura que o senhor me explique porque é que fala dessa maneira.
- Muitu bǝm, mɐx ǝxperǝ um buqɐdinhu.
Equ Onolatru dirigiu-se a cozinha e trouxe um pratinho de barro com uma fatia de tarte de maçã.
- Nǝnhumɐ rǝfǝicão ǝxta qômpletɐ sǝm umɐ subrǝmêsɐ. Facɐ fɐvôr.
- Ah, deveras, muito agradecido.
Ventura trincou a tarte, resumindo o seu êxtase palatal.
O estalajadeiro começou a falar.
- Bôm, qômu êu iɐ ɐ dizêr: quɐndu êu erɐ pǝqǝninu não ɐviɐ ǝxqolɐ ɐqui nɐ rǝjião. Qer dizêr, ɐindɐ ôjǝ não a, mɐx não e ɐí qǝ qeru xǝgar. Não ɐvêndu ǝxqolɐ, ux mêux paix tiverɐm dǝ mǝ êsinar pêlux mǝiux dêlǝx. Êlǝx pɐsavɐm muitu tǝmpu nɐ ǝxtɐlajǝm i não tinhɐm vɐgar pɐrɐ dar umɐ ǝduqɐcão ɐprupriadɐ aux filhux. U qǝ fizerɐm êtão fôi êsinar-nux tôdɐx ɐx lêtrɐx du abǝcǝdariu i ɐ mɐneirɐ qômu sǝ dizǝm. ∀ pɐrtir dɐí, diziɐm êlǝx, e só juntar pecɐx purqǝ qɐdɐ pɐlavrɐ e umɐ qômbinɐcão delɐx. U prublǝmɐ e qǝ u mǝu pai erɐ ɐlemão i não pǝrcǝbǝu qǝ nǝm tôdɐx ɐx línguɐx funciônɐm dɐ mǝxmɐ mɐnǝirɐ. Ǝm pɐrtiqular, ëxistǝ umɐ bôɐ quɐntidadǝ dǝ línguɐx ǝm qǝ ɐx lêtrɐx ǝm pɐlavrɐx não sǝ lêǝm ëxatɐmêtǝ qômu sǝ dizǝm individualmêtǝ. E qlaru qǝ só mǝ ɐpǝrcǝbi disu muitu muitu dǝpôix i pur isu ɐqɐbǝi pur ɐprêdêr ɐ ǝxqrǝvêr ëxatɐmêtǝ qômu ɐx pɐlavrɐx qǝ êu ôviɐ sǝ liɐm.
- E evidentemente isso afectou a maneira como numa narrativa o seu diálogo é apresentado.
- Prǝcisɐmêtǝ, u qǝ não inqumodɐ normalmêtǝ ɐ mɐior partǝ dux viɐjɐntǝx qǝ pur ɐqui pasɐm purqǝ ningǝm ǝxtá ɐ ǝxqrǝvêr u qǝ êu digu nesɐx alturɐx.
- Então mas explique-me porque e que usa um "a" ao contrário para dizer por exemplo.. banana. Ou a mesma coisa para o "e".
- Pôix, êsǝ fôi u prublêmɐ qôm qǝ mǝ dǝpɐrǝi. Nǝnhumɐ lêtrɐ, qôm ô sǝm ɐcêntu, qǝ mǝ tivesǝm êsinadu fɐziɐ u sôm prǝtêdidu. Êtão invêtǝi êu ɐ regrɐ dǝ pôr algumɐx lêtrɐx au qôntrariu pɐrɐ ux sônx qǝ mǝ faltavɐm. Ôjǝ vǝiju qǝ e umɐ regrɐ parvɐ, pôix ɐx qôisɐx fiqɐm ɐindɐ maix ilǝjivǝix pɐrɐ um ǝxtrɐnjǝiru du qǝ u normal, mɐx prôntu, qǝ e qǝ sǝ a-dǝ fɐzer?
- Enfim, pode sempre mudar. Se ainda por cima está consciente de que a sua forma de escrever está incoerente com o resto da população mundial, porque é que não aprende agora a fazê-lo correctamente?
- A, ɐgorɐ já ɐprêdi dextɐ mɐnǝirɐ, maix valǝ não mǝ dar au trɐbalhu.
- Então, mas facilitaria imenso a sua vida e a de qualquer outro cliente que seja perseguido por um narrador ausente.
- Sim, talvêz, xefǝ, mɐx não mǝ ɐpǝtecǝ.
- O quê? Mas concorda parcialmente com o que eu digo e escolhe não mudar para melhor?
- Pôix, axo qǝ ɐsim e.
- Ah, claro, pois, foi dito no início que os coplianos são imensamente teimosos.
- ∀dmitu qǝ e umɐ falhɐ nosɐ, mɐx prôntu. Olhǝ, veju qǝ já ɐqɐbô ɐ tartǝ, vai um qɐfezinhu?
- Ah, sim, acho que aceito, porque....

 

Um imenso estrondo abalou subitamente o edifício. A porta exterior abriu-se dramaticamente e uma brisa pútrida de cheiro a peixe invadiu o salão. Um homem de cabeça de bacalhau entrou calmamente e sem dizer nada dirigiu-se ao balcão. Equ e Ventura, apanhados desprevenidos, nem souberam o que fazer. O homem parecia procurar algo.
Ah, está ali, como é que isto me escapou?
Contornou o balcão e pegou numa máquina de café expresso anacrónica. Tão calmamente como entrou encaminhou-se para a saída. A porta do salão fechou-se automaticamente. O cheiro a peixe desapareceu.

 

- Bôm, - continuou Equ Onolatru. - u pɐtrãozinhu vai dǝsǝjar pɐsar ɐqui ɐ nôitǝ?
- Ah é assim? Sem mais nem menos? Não se discute o que.... Bom, está bem, já sei o que a casa gasta, nem vou dizer mais nada. Sim, claro, meu caro, prepare-me um quarto confortável e trate também do meu cavalo, que ainda deve lá estar fora, se calhar a travar amizade com outros os seres de orelhas grandes que lá estavam.
- A, ux burux lá forɐ? Nǝm mǝ digɐ nadɐ! A um mêx pɐsô pur ɐqui um izercitu, vǝijɐ lá, i u qumɐndɐntǝ lǝvô-mǝ um buritu! U omǝm erɐ mɐluqu!
- Devia ouvir muito o Fernando Correia Marques, se calhar. Pronto, acho que era a última piada que me faltava fazer. Mostre-me então o quarto, se fizer o favor, que tenho de fazer alguma manutenção no meu equipamento.
- A, qôm cǝrtêzɐ, pɐtrão, sigɐ-mǝ.

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publicado às 23:34


A Emboscada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 05.02.17

- Pois bem, Guarda Real, a vossa missão é capturar o traidor a todo o custo. A nossa rede de espiões elfinhos na floresta das Fadas Vogais reportou que Ventura Lobo conseguiu evitar algo chamado "o Tributo", e dirige-se agora na direcção deste desfiladeiro. Colocai-vos nos dois lados e escondam-se, para assim o podermos rodear e impedir a sua nefasta missão.
- Mas meu Capitão, precisamente o que é que ele vai fazer? - disse um.
- Ele foi contratado por inimigos do Reino para destruir um grimório poderosíssimo que seria imensamente útil para o nosso Divino Rei.
- Mas eu ouvi dizer que ele foi contratado pelo Rei pa' ir buscar esse livro. - disse outro.
- Mentiras! Hás-de me dizer onde ouviste isso para eu poder fazer as minhas investigações.
- Eu ouvi dizer que ele humilhou o Capitão à frente do Rei! - gozou um terceiro.
- Olha lá, eu estou mesmo aqui à tua frente! Queres que te envie para as terras esquecidas de Moranis, onde insectos gigantes lutam constantemente uns com os outros? Ouvi dizer que a fronteira lá precisa de patrulhadores!
- Desculpe, meu Capitão, continências e tal.
- Idiota! Não existem continências em contextos medievais! Normalmente é uma coisa mais máscula tipo bater com o punho no peito.
O soldado dá um valente murro no peito do Capitão da Guarda Real, em sinal de obediência.
- No TEU, débil mental!

- Meu Capitão! Vem aí um cavaleiro!
- Ah! Vejamos se é ele. Dá-me o monóculo mágico que permite ver mais perto.
- Só tenho aqui uns binóculos mágicos, meu Capitão!
- Parte-o ao meio então! Desenrasca-te!

- Ah, não é ele, este tem uma cara estranha... Deixem-no passar, mas estejam atentos!

 

O intrépido Ventura Lobo, montado orgulhosamente em Sara, a égua Maglu, percorria tranquilamente um trilho que ia na direcção geral do Norte. Era mais que evidente que Ventura estava perdido há vários dias, e ele não fazia ideia alguma se aquele trilho o levaria a uma qualquer cidade fantástica e esquecida ou se o levaria a algum canto decrépito, podre, sujo e corrupto do mundo, com a pior escória da Humanidade e afins, onde segredos se trocam em casas de venda de pinheiros.
A paisagem era triste num relance, pois as florestas das Fadas Vogais rapidamente deram lugar a desfiladeiros cortantes e picos áridos. No entanto, com atenção, era possível observar-se vida colorida mesmo naquela terra inóspita. Louva-a-deus enormes e vermelhos lutavam uns com os outros em duelos mortais enquanto outros insectos observavam expectantemente, esperançosos talvez em comer algum membro que fosse decepado para longe, ou então porventura teriam uma aposta num dos lutadores. Cabras de barba loura escalavam os montes escuros sem qualquer tipo de equipamento artificial, com excepção da GoPro montada num dos longuíssimos cornos, com uma saliência já natural onde se colocava o aparelho.
- Será que se eles lançam uma GoPro diferente, estas cabras têm de passar umas quantas gerações sem poder escalar até a saliência se mutar adequadamente?
A pergunta Darwinista ecoou no pensamento de Ventura Lobo enquanto observava umas águias azuis a perscrutar o terreno acidentado, procurando a próxima presa, provavelmente um dos chiuauas que corriam nervosamente de um lado para o outro, aparentando cavar túneis.
O trilho que Ventura percorria descia agora para um desfiladeiro relativamente apertado e sombrio. Parecia afundar-se de modo a que apenas raramente a luz pudesse lá penetrar.
- Não sei Sara, algo me diz que algo de mau poderá acontecer. Nunca gostei de sítios apertados. Não que eu perceba muito sobre isso... Bom, é como eu disse no episódio inicial: farei tudo pelo enredo. 'Bora.
A espada Venceslau tremeu.
- Sim, está bem, vamos embora, pronto.

Ventura instruiu Sara para descer, mesmo perante a sua relutância em fazê-lo. Com o passar do tempo, o hábito das íngremes paredes escuras trouxe alguma tranquilidade à montada de Ventura Lobo, mas não a ele próprio.
- Sinto que algo não está bem. Não sei porquê. É estranho. Eu quero dobrar o pescoço para cima para me certificar que está tudo efectivamente bem, mas alguma coisa me impede de o fazer.
Era evidente que se se permitisse que Ventura Lobo olhasse para cima seria bastante provável que ele descobriria o título deste episódio, ou pelo menos o diálogo sobre as preparações da Guarda Real sob as ordens do Capitão respectivo. Se assim fosse, Ventura perderia todo o suspense que lhe alimenta a paranóia, sentimento este necessário para os encontros vindouros terem o efeito desejado. Como tal, é através do poder da narração que se mantém o herói desta saga na ignorância expectante.
Uma ligeira neblina húmida instalou-se no desfiladeiro, para maior consternação do aventureiro. Imediatamente a seguir, pareceu-lhe ouvir o barulho de passos. Muitos deles, de facto.
- Parece um exército a marchar!
O rumor aumentava de volume e clareza.
- É certamente um exército. O barulho é inconfundível. Será o Concorde de Otto'Gháfiq?
Pensou em voltar para trás, ou então em arranjar um sítio para se esconder, mas era tarde demais. As silhuetas de homens começavam a distinguir-se na névoa. Para surpresa de Ventura, pareciam ser soldados do Reino.
- O que é que estão soldados do Reino aqui a fazer? Essa agora!
Um detalhe mais peculiar era que o líder destes soldados vinha montado num burrinho minúsculo, tanto que este comandante tinha de levantar as pernas para não irem a roçar no chão.
- Mas é absurdo...
O exército parou de marchar. O comandante e um ajudante a pé aproximaram-se de Ventura.

- Pois bem Rabanete, como vês, eu disse que encontraríamos o inimigo! Cá o temos. Atacar! Em frente! MARCHE!
- Noto que é apenas um único cavaleiro, meu General. Noto igualmente que ele não tem o aspecto do inimigo que estamos à procura.
- Ah? Ah, bom, não sei, Nabo, nunca se pode ter precauções a mais. Inquira-o!
O ajudante aproxima-se de Ventura Lobo, incrédulo com a situação.
- Saudações homem de bem. Poderá saber, ou não, que este é um exército pertencente ao Reino. Estamos em missão e agradeceríamos se nos pudesse disponibilizar algumas informações.
- É verdade que já vos havia identificado como o senhor vos descreveu, mas não deixa de ser algo inesperado ver tal força militar num local tão inóspito como o Norte. No entanto, estou disponível para vos responder às questões que tenham, apesar de não poder garantir uma resposta satisfatória.
- Evidentemente. Queira seguir-me.
Ventura desmontou e acompanhou o ajudante, cujo nome parecia não estar claramente definido.

- Pois bem, identifique-se! - gritou o General. - Aviso que sei bem distinguir os meus inimigos de quem é leal ao Rei!
O ajudante tocou-lhe levemente nas costas.
- Informo o meu General que se encontra a interrogar uma pedra.
- Sei bem que é uma pedra, Curgete! Há que ter a certeza que não estamos a ser espiados.
- Devo afirmar que as pedras não são seres sencientes.
- Com ou sem cientes, não se pode confiar nestes monstros, Pepino! Quem é esse aí que trazes atrás de ti!?
- Respondo que é o cavaleiro responsável pela nossa paragem. Está disponível e pronto para o seu questionário.
O General aproxima-se de Sara, ignorando completamente Ventura Lobo.
- Quem és? Donde vens? Para onde vais!?
- General, se me permitir a ousadia, creio que o seu ajudante de nome ambíguo se referia a mim. De qualquer forma, Sara, a égua com que está a tentar estabelecer contacto, não lhe consegue reciprocar a comunicação no mesmo nível que o General usa.
- Ah, então és tu! Atacar! MARCHE!
- Declaro, meu General, que esse indivíduo não é o nosso inimigo, ou pelo menos ainda não se revelou como tal.
- És muito ingénuo, Brócolo. Em primeiro defendes a pedra, e agora este cavalo. Mas muito bem, vou deixá-lo explicar-se. Certamente terá uma razão para nos ter atacado tão cobardemente!
Ventura Lobo olhou para o ajudante à procura de algum tipo de elucidação, mas este manteve uma postura neutra imutável, esperando igualmente a resposta de Ventura.
- Bom... enfim... apresentar-me-ei, então. Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante, em missão importante em nome do Rei. Venho das terras das Fadas Vogais e...
- As Fadas Vogais! Atacar! MARCHE! Em Frente!
O General, montado no seu burrinho, troteou energicamente na direção contrária àquela que tinha vindo. O exército abriu alas organizadamente, como se estivesse habituado a tais operações.
- Mas onde é que ele vai?
- O General voltará dentro de momentos, assim que se esquecer do que estava a fazer. Peço que aguarde.
- Entretanto será que poderia pedir que me explicasse o que raio é que vocês estão aqui a fazer?
- Não sei se o meu senhor aventureiro estará a par, mas estamos em guerra com as Fadas Vogais, e marchamos ao encontro delas, para a Glória do Reino.
- Mas... mas essa guerra já acabou... As Fadas Vogais já foram derrotadas há muito tempo. Exactamente há quanto tempo é que andam a marchar?
- Há alguns meses. Infelizmente, como o General nunca viu uma fada, ele acha que tudo o que vê é uma. Até já me confundiu de vez em quando com uma. Uma outra vez perseguimos uma matilha de cães selvagens durante duas semanas. Consequentemente, os nossos movimentos são extremamente imprevisíveis, o que nos daria talvez uma vantagem táctica sobre as fadas, se alguma vez as alcançássemos.
O General voltou e carregou furiosamente sobre um arbusto seco.
- Homens, atacar!
Cinco soldados atiraram-se diligentemente ao arbusto, destruindo-o com golpes exagerados de espada.
- Sois todos doidos! Isto é absurdo!
- Nego tais acusações. O único louco aqui do qual tenho confirmadamente conhecimento é o General. Todos os outros apenas seguem ordens, eu inclusive.
- O senhor está então consciente da insanidade das ordens do seu superior?
- Não me compete questionar.
- Pois, é evidente que não. Se o fizesse daria em doido também, pelo que vejo.
- Precisamente.

- Hurra! Vitória! As fadas foram derrotadas!
- Ouso informar o meu General que aparentemente as fadas já foram derrotadas há muito tempo.
- Tolices, Couve-Flor! Nem há cinco minutos as derrotámos!
- Arrisco declarar que as fadas não têm o aspecto de arbustos secos. Este aventureiro relatou que a guerra com as fadas já acabou há muito, e que não chegámos a tempo para intervir.
O General dirigiu-se mais uma vez a Sara.
- Mas tu vieste de lá!? Que caminho tomaste? Talvez ainda cheguemos a tempo!
- Não, não está a perceber... - tentou responder lateralmente Ventura.
- O teu cavalo está a falar! Espantoso! Diz-me, nobre corcel, consegues responder-me à pergunta que o teu mestre se recusa?
- Ah, mas agora eu é que sou o cavalo? Essa agora! Mas...
- Sugiro que simplesmente responda. É mais fácil para todos.
- Ah... e devo fazer ... um sotaque equino?
- É impossível dizer com certeza. Experimente.
- Bom, na verdade têm apenas de seguir este trilho até chegarem à floresta das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a.
- Santinho! Pois bem, como vê, até o seu cavalo é mais fiel ao seu país que o mestre. Hei-de propor que seja executado como traidor! Gabiru!
Sara, apesar de ter percebido pouco, não deixou de se sentir algo triste devido ao insulto.
- Homens, em fila! MARCHE, para a vitória.
E seguiu na direcção contrária à que devia ir.
- Obrigado pela disponibilidade, aventureiro. Boa sorte.
- Pois bem, obrigado e igualmente, suponho eu. Essa agora! Ora essa...

Ventura decidiu fazer uma breve pausa e descansar, até porque imaginava que daí a pouco tempo veria de novo o exército a passar, mas desta vez na direcção correcta. Seria fútil tentar continuar o seu caminho enquanto o desfiladeiro estivesse repleto de soldados a atacar arbustos.
De facto, enquanto apreciava uns bolorentos biscoitos de Yih, esquecidos no fundo do seu alforge, começou a notar um novo rumor vindo do desfiladeiro, mas mais grave e constante. Já não parecia um exército.
Ventura levantou-se e no meio da neblina viu duas luzes afastadas uma da outra. Um objecto penetrava no nevoeiro denso na sua direção.
Qual não é a surpresa de Ventura quando vê uma carroça fechada de metal brilhante, com uma configuração estranhíssima, a irromper pela névoa. Fazia um barulho nefasto que a mente de Ventura apenas pôde comparar com o barulho das máquinas dos engenheiros de autómatos das Minas de Lesi.
A carroça parou ao ver Ventura. Viam-se claramente três humanos a gesticular lá dentro. Uma das janelas de vidro da carroça desce como que por magia. Um homem calvo de bigode farto chama pelo aventureiro.
- Olhe, desculpe lá, bom dia!
Ventura, ainda cauteloso, arrisca aproximar-se ligeiramente.
- Bom dia, caro viajante, devo dizer que...
- Olhe, nós andamos perdidos por aqui há uns vinte minutos, você por acaso não sabe como é que se volta para a A25?
- A A25? Nem sei o que isso é. Explique-se.
- Ai, eu bem te disse que ele não tinha o aspecto de saber...
- 'Tá calada mulher, deixa-me falar com o homem! Então mas onde é que é a auto-estrada?
- Auto-estrada? Como quem diz uma estrada automática?
- Ó pai, acho que ele 'tá a mangar contigo. Mando-lhe com a moca a ver se ele aprende?
- Tu 'tá calado, imbecil, andas a querer usar eça merda desde q'o teu tio ta deu. Oussa lá, não têm por aqui estrada nenhuma? Ou uma cidade onde a gente conciga pedir direcções?
Venceslau tremeu e começou a oscilar uma cor agressiva.
- Desde já peço, meu caro viandante, que tente fazer menos erros na linguagem, que a minha espada não gosta disso. Quanto à sua pergunta, receio ter que dizer que a única estrada que conheço aqui é o trilho que pode apanhar no final deste desfiladeiro. Fora disso, não conheço mais nada porque eu próprio sou forasteiro aqui.
- Estás a ver, eu disse-te, não quiseste ouvir, via-se logo que ele não era daqui.
- 'Tá calada mulher! Quanto à sua faca 'tou-me nas tintas, eu quero é ver se chego ao casamento a tempo, senão a gorda da noiva ainda come as entradas todas...
- Não fales assim da tua sobrinha, homem! Não tens vergonha!
- Há-de ser uma mulher respeitável, certamente, independentemente do seu apetite.
- Pai, ele 'tá a mangar contigo. 'Pera aí que já te mostro.
- Onde é que vais? Anda cá para dentro, ó idiota!
Uma porta abre-se na parte lateral da carroça e de lá sai um jovem magríssimo e enfezado com uma espécie de moca de madeira na mão.
- Então, ainda queres gozar é?
Ventura inclinou a cabeça, tentando perceber se deveria levar a ameaça a sério ou não. Desembainhou Venceslau, que tinha vindo a acumular a sua fúria desde o primeiro "'tá".
O jovem vacilou.
- Olha lá, ò pai, o campónio tem uma espada a sério!
- Anda cá pa' dentro, pá!
- Ai, Luís Miguel, deixa-te disso, filhinho, anda para dentro.
O Luís Miguel entrou e arrancaram usando toda a velocidade impressionante que aquela carroça de locomoção própria conseguia produzir.
Ou, por outras palavras, fugiram a sete pés. Não literalmente.
- Esta gente é doida. Vamos andando Sara, não quero apanhar mais malucos.

Era impossível determinar onde estaria o Sol, mas Ventura sabia que ainda seria de dia, pois ainda conseguia ver alguma coisa, por pouco que fosse. Depois de uma hora, aproximadamente, a serpentear pelo desfiladeiro, notou umas figuras sombrias agachadas ao pé das rochas.
- Ah espera lá, eu era suposto estar receoso de alguma coisa, mas nem sei bem o quê. Suponho que toda a maluquice anterior anulou qualquer sentimento de suspense e incerteza que eu poderia ter. também não é difícil reacender essa emoção. Em verdade digo que não gosto nada daquelas figuras escuras que se relevam na neblina misteriosamente.
Ventura desembainhou a sua espada de novo e desmontou Sara. Aproximou-se do vulto negro. Haviam vários espalhados pelas rochas, inclusive nas paredes.
"Será uma armadilha?" - pensou Ventura.
Estava muito perto de uma das figuras.


Tocou-lhe no ombro com a espada.

 

 

- Oi? Qué isto? Ouça lá, qué que o senhor quer?
Era um camponês simples e estava debruçado sobre as rochas à procura de algo.
- Ah, desculpe, pensei que... Porque carga de água é que estão vestidos de preto num sítio destes!?
- Olhe não sei, quando hoje viemos para aqui um gajo com cabeça de peixe pediu que viéssemos vestidos assim. E pagou bem. Então nem perguntámos.
- E o que é que fazem aqui?
- Estamos completamente às aranhas.
- O quê? Como assim? Não sabem?
- Não não, estamos literalmente a apanhar aranhas, que depois liquefazemo-las e fazemos xarope para...
- ALTO! Não quero saber, já é parvoíce a mais, vou montar e vou-me embora, boa sorte e tal. Irra!

- Vá Sara, vamos lá embora daqui, a galope! Estou farto desta gente!

O aventureiro percorreu o desfiladeiro velozmente, arremessando pedras e pó por onde passava. Depois de uma longa distância percorrida, achou que não seria má ideia deixar Sara descansar. Suspeitava que o desfiladeiro já estaria quase a terminar.
Precisamente quando reduz o passo, surge uma nova silhueta na neblina. Esta não tarda a revelar-se completamente. Era um cavaleiro, um guerreiro de aspecto horrendo. Parecia humano, excepto as suas feições, que se assemelhavam ligeiramente a um réptil. A sua pele era branca como osso, e a sua estatura magra e gasta. Era um albino, e apesar do seu aspecto, tinha ainda o que parecia ser um porte real e orgulhoso.
A sua arma mais visível era uma espada negra desconcertante.
- Espera lá... eu conheço-o. - murmurou Ventura Lobo.
A espada Venceslau também agitava de excitação.
Aproximou-se e cruzou o olhar com os olhos vermelhos do guerreiro albino.
- Saudações, senhor!
- Muito me impressiona com essa saudação, senhor. É raro encontrar tal cordialidade.
- Ah deveras. Permita-me que me apresente, sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante. Julgo, se não se ofender que o diga, que sei quem o senhor é.
- Não me admiraria, é frequente isso acontecer nos sítios menos prováveis.
- Falo então efectivamente com o Príncipe Elric de Melniboné?
- Assim o é, senhor Lobo.
- Ah, não me trate assim, ora essa! Sou o seu maior fã! É uma honra poder estar na sua presença! Então? Em que aventura perigosa é que o Michael Moorcock o colocou desta vez? Sua Majestade anda perdida pelo multiverso outra vez, não?
- Estranhas palavras as que me diz. Não sabia que eu poderia ter fãs, tendo em conta que a minha raça é odiada por todos no mundo que conhecem a tirania decadente de Melniboné. Igualmente não sei que é esse Michael Moorcock, nem posso dizer que alguma vez tenha ouvido nome tão exótico. Agora, quanto ao multiverso, é verdade que conheço teorias sobre esse conceito, mas não sei dizer se neste momento estou afectado por ele ou não.
- Ah, meu caro Príncipe, eu diria que está, tal como eu próprio estarei, pois isso explicaria muitos dos eventos peculiares que já observei no que julgo ser hoje.
- De facto, também eu poderia relatar situações semelhantes.
- A Tormentífera, está boa?
- Conheceis a Espada Negra?
- Conheço a sua espada, e sei do que é capaz. Tenho quase a certeza que eu próprio tenho uma espada semelhante.
Ventura Lobo desembainhou Venceslau e mostrou-a a Elric. Este, não percebendo porquê, começou igualmente a retirar Tormentífera da bainha, mas depois de algum esforço visível, conseguiu impedir-se.
- Interessante. As nossas espadas parecem ter alguma atração recíproca... Príncipe Elric, não lhe desejo mal, e creio que posso confiar que o senhor também não mo deseja. Por muito que me seja aliciante conversar consigo ou até partilhar uma aventura, temo que as nossas espadas nos coloquem como inimigos. Temo igualmente que venha a ter chatices devido a direitos de autor. Retomemos os nossos caminhos respectivos antes que as coisas se azedem.
- Não compreendi tudo o que disse, mas creio que concordo.
- Boa sorte na sua busca por Tanelorn.
- Tanelorn! Sabeis o caminho?
Ventura Lobo sorriu.
- No seu caso, acho que é sempre em frente. Adeus, Príncipe Elric de Melniboné!
- Adeus, Ventura Lobo!

Ambos desapareceram da vista do outro, mergulhando na neblina.

- Viste, Sara!? Elric de Melniboné! Não fazes ideia a sorte que tivemos em sair dali vivos! De pensar que vi uma das grandes figuras típicas de anti-heroísmo fantástico. E viste como me portei? Todo pipi e tal? Eish... mal posso acreditar.
Ventura Lobo estava tão excitado com o encontro inesperado que teve que nem notou a rampa subtil que o caminho foi fazendo enquanto massacrava Sara com algumas das aventuras horríveis de Elric. Saiu do desfiladeiro de volta para as terras do Norte. Era ainda dia, apesar de ser impossível saber quanto tempo na prática é que Ventura Lobo esteve perdido no multiverso.

- Estranho, parece-me que me estou a esquecer de algo...

 

Ainda nas bordas do desfiladeiro, um soldado apresenta-se ao Capitão da Guarda Real, o mau da fita.
- Meu Capitão, a emboscada falhou.
- Falhou!? Como assim!? Já viram o Ventura Lobo passar!?
- Sabemos que ele já saiu do desfiladeiro.
- E como é que não o viram!?
- Aparentemente, o narrador estava distraído com um outro assunto sobre um Príncipe qualquer e esqueceu-se completamente de incluir a emboscada que dá o título a este episódio.
- Ah, maldição! Escapaste desta vez Ventura, mas eu encontrar-te-ei de novo.

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publicado às 23:15


O Tributo - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 23.12.16

Ventura Lobo e a Fada A'á'a encaminham-se em direcção à capital das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a, perante estupefacção do aventureiro.

À volta e em cima da cidade flutuavam magicamente árvores como se tivessem sido arrancadas pela raiz e postas a voar. Poder-se-ia dizer que nenhuma das várias construções que compunham a cidade implicou a morte de uma árvore provavelmente milenar.
A cidade era composta apenas de edifícios imensos, semelhantes a palácios, de pedras enegrecidas pelo tempo, cobertas de musgo fresco e viçoso e trepadas incessantemente por heras e videiras. Certamente nenhum daqueles palácios poderia ser uma habitação particular, pois se assim fosse a cidade teria de ser gigantesca para acomodar a população substancial de fadas que percorriam as ruas abertas e movimentadas, tanto por terra como por ar.
De todas a direcções surgiam fadas que, se não estivessem ocupadas com algum assunto urgente, paravam o seu voo e aproximavam-se de Ventura. Pareciam bisbilhotar alegremente a aparição do forasteiro, talvez quase jocosamente. A'á'a não parecia minimamente divertida com o que ouvia as outras fadas dizer, mas Ventura podia apenas adivinhar pelo tom gozão das suas vozes que algo não batia certo. Por outro lado, surpreendeu-se ao verificar que a beleza destas fadas era totalmente comparável ou ainda maior do que a de A'á'a. E não, não vai ser utilizado o cliché de que esta situação ainda é um sonho e que no final do episódio o Ventura vai acordar com Sara, a égua, a lamber-lhe a cara no início de uma cena sensual/sexual. Nada disso. É garantido que tudo o que está a ser descrito está efectivamente a ocorrer no contexto da narrativa.
Chegam, arrastando a multidão que se amassara, a uma majestosa praça decorada de estátuas de madeira, também elas flutuantes, como se tivessem sido directamente entalhadas a partir de uma árvore. No fundo desta praça situava-se o maior e mais esplendoroso palácio da cidade, com uma imensa escadaria larga que elevava o edifício acima de todos. É para este palácio que A'á'a dirige Ventura.
Ao começarem a escalada dos degraus, a multidão subitamente pára e desbarata desorganizadamente. Um esquadrão de fadas soldadas surgiram da porta gigantesca do palácio, equipadas de armaduras poderosas e alabardas intimidantes. Rodearam Ventura e A'á'a e escoltaram-nos para o interior do palácio. Nem uma palavra foi trocada.

A entrada dava acesso imediato a um salão enorme, alto e longo, tornando as figuras na outra ponta do salão ridiculamente pequenas. Janelas no tecto e nos pontos mais altos permitiam um vaivém constante de fadas que traziam todo o tipo de objectos, comidas e animais.
Depois do que pareceu uma eternidade, Ventura alcançou finalmente o seu destino aparente, apesar de estar absolutamente confuso com o intuito da sua presença ali.
As figuras minúsculas que se distinguiam dificilmente da entrada eram obviamente também fadas, mas pelas vestimentas relativamente mais trabalhadas e decoradas poder-se-ia deduzir que eram fadas de estatura social superior, como se fossem algum tipo de conselho. Todas observavam o recém-chegado, excepto a fada que estava no centro. Esta era muito maior que as outras, e estava sentada num trono colossal proporcional ao palácio. Estava distraída a comer um cacho de frutas que Ventura nunca vira antes.

- Essa agora...

Ventura notou que a fada no trono tinha um bigode preto e feições ligeiras de homem.
Antes que se pudesse questionar sobre esse facto, A'á'a atinge o chão com a ponta do cabo da lança. O eco preenche o salão e a fada no trono finalmente nota que lhe requerem uma audiência.

- Ã? Aaa'a a aã áà a? - perguntou a sua voz delicada. - Ã ã ã a a?
Uma das fadas do conselho responde à pergunta.
- Ã ã, a A. A á A'á'a, aa aa'a à ã ââ.
- A! A'á'a... a, a... aa'a'a'â aa a'a aa a?
- Aaa'áà! - reponde A'á'a, apontando para Ventura.
Risada geral. Ventura, para não parecer mal-educado, começa a rir-se também.
- Evidentemente, hilariante.
A'á'a enrubesceu ao ponto de parecer que o sangue lhe iria explodir das bochechas.
- Muito bem. Podes afastar-te. Eu falo com ele. - disse a fada principal.
A'á'a afastou-se, obedecendo e deixando Ventura isolado no meio do salão.
- Mau, mas agora já há alguém que fale algo que eu perceba?
A fada levantou-se e esticou as suas enormes asas.
- Olha, e ainda por cima tem asas!... As outras não têm...
- Ah, nem sequer sabes quem sou? É evidente que não. Nenhum de vós da Terra das Consoantes sabe. Eu sou o Rei A, Senhor das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a, Grande Comandante do uso da Vogal A e todas as suas entoações.
Ventura ainda não se tinha apercebido que estava na presença de realeza. Mudou imediatamente a sua postura.
- Ah perdoe-me Majestade, se era evidente que o porte dos aqui presentes me permitia induzir que estou rodeado de nobreza, nunca pensei que um Rei fosse magnânimo ao ponto de suportar uma audiência com um pobre aventureiro. Espero que aceite um pedido de desculpas sincero e espero que a sua indulgência seja maior que a minha ignorância.
- A, a, a! Este é engraçado, é pois! Ingénuo também, mas todos os que são apanhados no feitiço das minhas súbditas acabam por o ser! Entreténs-me, forasteiro. Apresenta-te!
- Com certeza! Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante. Venho numa demanda e calhou que o acaso me abençoasse com uma visita às suas terras, apesar de ter de confessar que a sua cidade, fabulosa que seja, não é por infelicidade o meu destino.
- A, A, A! - riu-se alegremente o Rei A, mostrando uns dentes brancos muito grandes, tortos ao ponto de parecer que queriam sair da sua boca. - Gosto de te ouvir falar. Os da tua espécie têm normalmente outro tipo de discurso. A, A, A!
A alusão era certamente à guerra recente com os homens do Reino. Nunca na sua vida teve Ventura de ter tanto cuidado com o que dizia.
- Ah, é verdade Majestade. Sabe, às vezes apetece-me fugir do meu próprio povo só de pensar nas barbáries que dizem e que fazem sem sentido algum.
- Barbáries! Pois são! Barbáries! São um povo nefasto que não compreende o conceito de honra! São um povo egoísta que pensa que as minhas preparações militares são para os invadir! São um povo estúpido que não compreende as ramificações da derrota que nos causaram!
Ventura engoliu em seco. Temeu que o ambiente começasse a aquecer.
- Tenho de começar de novo para lutar contra a Rainha Negra. Rearmar as minhas guerreiras! Encontrar a Rainha Branca! Fadas minhas súbditas! Que notícias tendes!? Encontrem-na! Que novas há dos Sete Mares!?
Fadas inundaram o salão, vindas de todas as janelas, não se entrechocando por aparente milagre. Todas comunicaram algo ao Rei Fada, mas nenhuma afirmação o alegrou!
- Procurai pois! Ide!
E tão rapidamente quanto entraram, as fadas esvaziaram a grande sala da sua presença.
- A, Ventura Lobo, ainda aí estás, é claro!
- É verdade, algo confuso, mas enfim.
- Conta-me como aqui chegaste. Como A'á'a te conseguiu vencer.
- Vencer? Como assim, Majestade?
- Lutaste com ela, não é verdade?
- Sim, de facto.
- E estás aqui porque ela venceu-te em combate, não é?
- Rei A, perdão, mas não posso confirmar que tal tenha acontecido.
- Como!? Então como é que estás aqui? Ela declarou-te Tributário! Ou ouvi mal?
- Eu não sei o que Sua Majestade ouviu, e não percebo a vossa língua para poder saber o que ela disse.
- Mas porque é que a seguiste se ela não te venceu?
- Não sei, ela insistiu que eu viesse e eu aquiesci.
- Vieste de livre vontade?
- Sim.
- Mas no fundo, foi ela que te trouxe?
- Assim é, suponho eu.
- A A A! Nunca pensei! Nada nas nossas regras diz que o Tributário tem de combater. Tem é de ser trazido por uma Fada. Bem feito, A'á'a, muito original.
Ventura Lobo olhou para a fada com um olhar confuso. É verdade que não estava em perigo, mas não deixou de pensar que tinha sido enganado. A'á'a desviou o olhar e a face, aparentemente envergonhada pelo logro aplicado.
- Magnânimo Rei, permita-me afirmar que estou às aranhas sobre o que é que se está a passar.
- Eu explicarei, então. A'á'a é uma guerreira iniciante e é objectivo delas guardar a fronteira. Quando um intruso aparece elas devem fazer o possível para capturá-lo e trazê-lo aqui para oferecer um Tributo por ter passado nas nossas terras. Já ouviste falar no Tributo?
- Confesso que não.
- Simplesmente dito, as minhas fadas súbditas conseguem absorver uma porção do poder de alguém que tenham amado. Como indivíduos do género masculino são raros por estas bandas e as fadas são todas fêmeas, com excepção de mim próprio, quando um homem aparece temos de nos certificar que quaisquer poderes ou conhecimentos que ele tenha sejam passados para a guerreira mais merecedora.
- E por "amado" querem dizer...
Todas as fadas nobres riram-se ligeiramente.
- Sim, sexo, vá, calem-se meninas, acho que ele já percebeu a implicação. O Tributo em si consiste em o indivíduo oferecer-se para ser amado como compensação por ter transgredido as nossas fronteiras.
- Qual é o revés de me oferecer como Tributo?
- Nenhum, diria eu. Existem alguns efeitos secundários possíveis, mas facilmente ignoráveis.
- Mau. Perdoe-me, mas tenho de perguntar o que é que Sua Majestade quer implicar com esse comentário.
- Para ser sincero, e sê-lo-ei porque me divertes, Ventura Lobo, é que quando uma guerreira ganha o direito de te ter como Tributo, ela pode escolher absorver mais do que deve de ti, podendo causar sérios problemas de saúde.
- Ao nível de uma constipação ou mesmo uma gripe?
- No mínimo. No pior dos casos, a morte.
- Ah, evidentemente, é compreensível. Posso supor que a segunda possibilidade é mais estatisticamente provável de acontecer?
- É verdade.
- Ah, Majestade, deve compreender que preciso de estar vivo para completar a minha demanda. Se não fosse por isso, ainda talvez ficasse por aqui, de facto, nem que fosse para morrer da maneira mais viril possível, pelo menos pelos padrões da cultura grosseira em que vivo. Talvez possa cá voltar depois?
- Não podes, és o Tributário e as Fadas Seguintes estão ansiosas para começar.
- Ai ai ai, agora quem é que são estas Fadas Seguintes? Com maiúscula não pode ser bom sinal.
- Na nossa cultura existe uma ordem pela qual as Fadas podem exigir competir pelo Tributo. Estas fadas que nos rodeiam aqui são as vinte primeiras das Seguintes. Todas as outras guerreiras do meu reino terão de esperar que mais ninguém à sua frente na Lista queira competir. A fada A'á'a, que te trouxe, estava nas camadas inferiores. Tendo-te trazido, será elevada ligeiramente na Lista como recompensa, mas terá de trazer muitos mais até chegar sequer perto das Vinte Seguintes.
- É um processo a longo prazo então? Muito interessante. Eu estaria absolutamente maravilhado com isto tudo se não pensasse que isto pode levar à minha morte horrivelmente agradável. Por acaso nenhuma das fadas aqui é parecida com a Sharon Stone, pois não? Essa se calhar eu passaria, para não arriscar.
- Não podes passar. És o Tributário, não tens direito de escolha.
- Espere lá, Sua Majestade e tal... Eu não posso recusar oferecer-me como Tributo?
- Para isso terias de ter derrotado A'á'a em combate, ou recusado teres vindo com ela, no teu caso.
- Olhe lá, menina A'á'a, depois temos de ter uma palavrinha. Olhe lá, Fada Rei, então não tenho maneira alguma de me safar desta situação, segundo as vossas regras?
- Bom, não compreendo porque é que o farias, mas podes lutar com cada uma das Seguintes da lista. Elas têm sempre de provar que merecem usufruir do Tributo, lutando com ele, mas raro é o homem que realmente concorda em lutar.
- Pois, as hormonas e tal.... Enfim, já estou mesmo a ver onde é que isto vai... Quando é que começam os combates? Estou com pressa.
- COMO!? Não estás a planear realmente lutar contra as Fadas Seguintes para evitares ser o Tributário?
- Lá terá de ser, enfim.
O Rei A fez uma ligeira pausa de estupefacção. Pensava que toda a linha das perguntas de Ventura tinham uma razão de curiosidade cultural, mas que acabaria por obviamente aceitar o seu papel como Tributário. O seu bigode preto curvou-se num sorriso imenso.
- A A A A A! És deveras divertido, Ventura Lobo! Os combates, se assim o queres, serão amanhã, na praça principal de Áaaa'Aaaa'Àaaa A Ãaá, mesmo em frente a este palácio. Aviso-te que defrontarás as melhores guerreiras do meu reino, aquelas que mais poderes absorveram de outros homens de todas as raças e feitios! Como tal, descansa bem, alimenta-te e aplica os curativos que necessitares. Ditam as regras que até aos combates continuas a ser responsabilidade da fada que te trouxe. A'á'a! - gritou para o salão, convocando a guerreira que efectivamente tramara Ventura. - Ficas incumbida de colocar o nosso Tributário actual num estado óptimo de preparação para os combates de amanhã. Bem vistas as coisas, se calhar não devia usar o plural, pois não imagino que consiga derrotar uma única das Seguintes, se até com A'á'a teve dificuldade.
Nova risada zombadora por parte das Seguintes, enfurecendo A'á'a. Esta pegou em Ventura pelo braço e encaminhou-o para fora do palácio, onde Sara o esperava fielmente.

- Sabe, neste momento deveria estar a usar o meu tempo para congeminar um insulto que estivesse à altura da sua intrujice. - disse Ventura enquanto a fada o encaminhava para um palacete dedicado aos Tributários. - No entanto, enquanto estivemos em silêncio a caminhar em direcção ao exterior, tive tempo para reflectir nas razões que a levaram a enganar-me. Já agora, porque carga de água é que precisam de um salão tão grande? Deve ser extremamente inconveniente para os visitantes diplomáticos. Enfim, peço que me ouça e me diga se não adivinhei correctamente a situação. Aqui vai: a menina, por ser de uma classe militar inferior, tem de capturar forasteiros e trazê-los à presença do Rei e das Fadas Seguintes. No entanto, teve o azar de lhe ser atribuída uma zona onde apenas muito raramente, ou mesmo nunca, aparecem intrusos, nomeadamente a caverna que dá acesso à cidade esquecida de Ruqum. Não sei como é que essa atribuição é feita, mas certamente com o passar do tempo a menina foi sendo tornada uma espécie de piada entre as suas semelhantes, pois está numa posição em que lhe é impossível progredir na pouco misericordiosa escada social da vossa cultura. Daí que haja tantas fadas a rir-se jocosamente quando falam de si.
A'á'a não olhava para Ventura, mas este percebia que ela estava a tomar total atenção à sua tese. Continuaram a andar, alheios aos olhares curiosos e divertidos das outras Fadas Vogais que passavam.
Ventura continuou:
- Ora, eis que apareço, um homem inconsciente e ferido com aspecto de ser um tanso que cairia facilmente na lengalenga de uma face bonita. Era a sua oportunidade. Neste aspecto ainda não compreendi porque é que tratou das minhas feridas antes de eu acordar, mas estou a supor que talvez seja alguma noção de honra que seja importante para vós aqui. Seja como for, depois de eu a ter derrotado, justamente, diria eu, sem ofensa, ficou aterrorizada por saber que a sua única oportunidade para sair do seu estado social inerte estava agora a escapar-se diante de si, literalmente. Agora, eu quero acreditar que o seu lamento consequente, que efectivamente foi a razão de eu mudar de ideias, foi honesto, pois certamente pareceu que sim, sendo carregado de uma tristeza profunda como há muito não sentia em alguém. Na altura prometeu-me que eu não seria colocado em perigo imediato, e realmente compreendo que, semanticamente falando, tal não ocorreu. Nisso se calhar tive eu a culpa, deveria ter sido mais cuidadoso com as perguntas que fiz.
Ventura fez uma ligeira pausa.
- Devo perguntar, menina A'á'a, e peço que me responda com sinceridade, se alguma coisa do que eu disse está completamente longe da verdade?
Ela parou e fixou-o. Tinha os olhos húmidos de culpa.
- Pois, exacto, mesmo em cheio, não é? Suponho que teve algum tipo de dilema ou problema de consciência ao "capturar-me" sem eu o saber?
Ela não aguentou olhar mais e simplesmente continuou o caminho. Já estavam perto do palacete.
- Eu percebo. - afirmou Ventura. - Juro que compreendo. Até sou bem capaz de a perdoar, desde que exista um sentimento de culpa em si e simultaneamente um desejo de demonstração de arrependimento.
- Â... - murmurou A'á'a, parando de novo e voltando-se ligeiramente para trás para confrontar Ventura que, para sua surpresa, desenhava nas suas feições uma expressão de indulgência sincera e não uma de juízo incompassivo.
- Não se preocupe, de certeza que amanhã os combates hão-de correr bem. Se este meu pequeno sacrifício a beneficiar, fá-lo-ei com todo o prazer.
- Ããã? Á áà aa'a aá'àa?
- Não faço ideia. Digamos que sim?
- Á! - exclamou, sorrindo pela primeira vez desde há muito.
- Fazemos as pazes então? - propôs Ventura, esticando a mão na direcção de A'á'a.
- Â ã. - concordou, tocando levemente na mão do aventureiro.
Ambos sorriram.

No dia seguinte de manhã, a multidão de fadas era quase tão grande e histérica como uma manifestação de feministas pró-escolha. As forças militares tiveram de intervir para impedir que as fadas espectadoras bloqueassem completamente a luz do Sol, tão densamente acumuladas estavam.
O Rei ordenou que a cerimónia começasse.
- Que venha o Tributário.
Ventura apareceu acompanhado de A'á'a, escoltados adicionalmente por membras da Guarda Vogal Real. Ventura parecia milagrosamente restabelecido. A'á'a aplicou-lhe os melhores curativos disponíveis no ombro ferido e alimentou-o com frutas imensamente nutritivas. Ele estava absolutamente fresco e pronto para combater, tendo mostrado alguns truques marciais à sua anfitriã ainda durante o dia e noite anteriores.
Ventura foi colocado no centro da praça. No cimo dos degraus do palácio estava o Rei rodeado pelas Vinte Fadas Seguintes.
- Como dita a tradição, a primeira Seguinte terá prioridade em escolher reclamar o tributo. Á'a, reclamas o Tributo!?
- Â â. - negou, para choque abafado da multidão. - Este humano nada tem para mim, já absorvi os poderes de humanos com aparência muito melhor. Não preciso dele. Prefiro passar.
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! A'aa'áà'aa'a!
- Â â. E passo pela mesma razão que Á'a. Prefiro deixá-lo para uma Seguinte que precise dele.
- Não sei se me hei-de sentir elogiado ou insultado, essa agora.
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! Aa'aa'aa!
- Â a! Aa'aa áà â ã a!
A multidão rugiu de satisfação. Aa'aa'aa reclamava como seu o Tributo.
- Tributário, Aa'aa'aa deseja reclamar-te! Aceitas ou pretendes defrontá-la para ela provar o seu valor!?
- Não quero ofender a beleza inigualável de nenhuma fada, mas não me posso permitir ser atrasado permanentemente na minha demanda. Rejeito-a como merecedora do Tributo. Se ela quiser provar o contrário, que venha.
Ventura desembainhou Venceslau e esperou, fazendo uns ligeiros exercícios de aquecimento.
- Não posso arriscar uma lesão, no ginásio dizem que faz mal não aquecer antes de exercício.
Aa'aa'aa começou a descer os numerosos degraus do palácio, apesar de ter podido simplesmente voado até à espécie de arena improvisada. Tinha uns longuíssimos cabelos lisos pretos apanhados num rabo de cavalo brilhante. A sua armadura prateada estava escondida atrás de sedas fogosamente coloridas de carmesim, laranja e amarelo. Tinha várias espadas semelhantes a gládios à cintura e reconheceu o seu escudo como sendo o de um nobre orgulhoso de Pútúíl, que eram guerreiros de considerável fama em termos da sua habilidade lutadora. Ventura pensou que Aa'aa'aa escolhera reclamar o Tributo para saber falar a língua dele, já que os homens de Pútúíl têm uma lingua estranha. Aa'aa'aa tinha adicionalmente uma lança curta, provavelmente alguma espécie de azagaia.
Assim que Aa'aa'aa deu um passo na praça principal, Ventura dirigiu-se a passo rápido a ela. Ela fez o mesmo.
- Vamos a despachar isto, vá.
Ventura correu e carregou sobre Aa'aa'aa. Fatiou o ar com a sua espada. Como esperava que a sua adversária conseguiria facilmente desviar-se do golpe, já tinha a mão esquerda preparada com a soqueira para a atingir. No entanto, não deu o soco com muita força, querendo apenas dar a entender a Aa'aa'aa que ele não era um alvo fácil a subestimar.
O aventureiro afastou-se por momentos, para deixar a fada recuperar.
- Em vez da soqueira, eu poderia ter uma das minhas adagas na mão. Este combate poderia já estar terminado. Sugiro que paremos por aqui e percebamos a futilidade de tudo isto.
Aa'aa'aa ignorou a sugestão. Lançou a azagaia contra Ventura e voou ela também na sua direcção, de escudo e gládio em riste. Ventura rodopiou agilmente para a esquerda, preparando-se para se defender do ataque da fada. O gládio chocou contra Venceslau e o metal faiscou. Ela, ainda a voar, curvou à volta de Ventura. Este preparou a besta e disparou, acertando-lhe na perna. A armadura não impediu que o dardo penetrasse na carne.
Caiu e escarrapachou-se no chão polido da praça. Levantou-se a custo, mas Ventura já tinha Venceslau alinhada com a garganta dela.
Aa'aa'aa largou as armas, assumindo a derrota.
A multidão guinchou de prazer, há muito que uma das Seguintes não era derrotada em combate semelhante, e ainda por cima tão rapidamente.
- Silêncio! - gritou o Rei A. - Que venha a Seguinte! Aaaaá!
Uma das Fadas Seguintes tomou voo imediatamente sem responder. Vinha desarmada em vestes verdes, vermelhas e pretas escondendo parcialmente uma armadura dourada. Assim que estava suficientemente próxima de Ventura, lançou-se num ataque a pique. Ele vira-a, obviamente, mas não deixou de estranhar o ataque e afastou-se. Ela aterrou e escapou-se imediatamente, indo-se esconder numa das árvores flutuantes da praça. Ventura inspecionou cuidadosamente a marca deixada no chão pelo ataque de Aaaaá. Estava lascado, como se tivesse sido rasgado por unhas bestiais.
Ouviu um resfolegar atrás de si. Rolou para trás tacticamente, imaginando outro ataque a pique. Precisamente, Aaaaá aterra mesmo à sua frente. O humano preparara-se melhor para uma luta com fadas voadoras. Lançou uma corda fina aos pés descalços da lutadora e puxou-a, surpreendendo-a. Antes que pudesse reagir, já Ventura prendera a outra ponta da corda a uma raíz de árvore protuberante.
É evidente que Aaaaá tentou cortar a corda, mas era demasiadamente resistente. Olhou, confusa, para Ventura Lobo, que sorria matreiramente. Este pôde finalmente avaliar melhor a sua oponente. Tinha uma tez muito mais morena que uma fada normal. Como já se tinha verificado, não tinha nenhuma arma, mas as suas mãos estavam munidas de garras brancas como marfim entre os dedos, exactamente iguais às de um homem-pantera de Muçbinq.
- Não sabia que as absorções de poder afectam tanto a mente como o corpo. Essas garras são um excelente apêndice mortal. Melhor e mais útil que o apêndice que os humanos têm. A senhora minha adversária estará sem dúvida a querer mais uma vez voar para adicionar mais uma dimensão a este combate, dimensão essa que eu não posso reciprocar. Dito isso, tive de equilibrar as coisas por baixo, à socialista, e portanto arranjei essa corda, manufacturada pelas próprias Fadas Vogais e que me foi oferecida pela responsável pela minha captura, a menina A'á'a. Aparentemente é praticamente inquebrável. Tendo isso em conta, proponho que desista deste combate, já que perdeu toda a vantagem que a sua capacidade de voo lhe dava.
A fada continuou futilmente a resistir e a tentar soltar a sua perna. Ventura aproximou-se a apontou-lhe a espada à garganta.
- Conceda derrota. Há apenas humildade a ganhar nesse acto, e não desonra.
Aaaaá retrai as perigosas garras em sinal de submissão. Ventura, satisfeito, começa a árdua tarefa de desfazer o nó na perna dela, cometendo a ingenuidade de não soltar a ponta atada à raíz em primeiro. Quando soltou Aaaaá da sua prisão, esta voa imediatamente e ataca Ventura antes que este pudesse desatar a corda da raíz. Ela raspa-lhe a armadura branca no braço direito e agarra-o pelo cabelo, puxando-o para trás. Ventura, não totalmente desorientado enquanto caía para o chão, agarra no seu punhal curvado Qanif e espetou-o num ponto fraco típico das armaduras fádicas, perfurando-a. Ela rugiu de dor e afastou-se. O aventureiro levantou-se e desta vez não ameaçou. Usou a espada Venceslau para trespassar a barriga de Aaaaá.

A multidão silenciou-se. Quando já não se ouvia o estertor de Aaaaá, algumas poucas, todas civis, começaram a lamentar a morte de uma tão digna membra das Seguintes. As restantes olhavam chocadas, mas sabiam que a morte era um risco nestes combates, mesmo que fosse raríssima.
Ventura procedeu lentamente para o centro da praça e aguardou calmamente a Seguinte.
- Mas... não pode ser... como? - balbuciou o Rei A. - Porquê, Ventura Lobo, o Impiedoso?
- Impiedoso? Estranho, não sei se viu daí de cima, mas foi Aaaaá que se desonrou. Ser impiedoso e ser justo são duas coisas diferentes! Seja como for, não quebrei nenhuma regra, suponho eu? A fada A'á'a forneceu-me esta corda fantástica porque lhe pedi, e segundo me lembro foi Sua Majestade que lhe ordenou para me colocar num "estado óptimo de preparação". Enfim, eis-me aqui, o vosso Tributo. Venha a Seguinte!
O rei fada tomou de novo a postura real, se algo forçosamente.
- Bem, está tudo segundo a tradição.... Continuemos. Seguinte! A'áà'ã!
- Â â. AA'a aa a ãâ ãaa'a áà!
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! Ãâaaã!
- Â â. - disse simplesmente.
- Muito bem, é teu direito! Seguinte! Aã-aaâ!

Uma a uma, todas as Vinte Seguintes que restavam decidiram prescindir do tributo, ou porque não precisavam dos poderes e conhecimentos de Ventura, ou porque se aperceberam que poderiam ter o mesmo fim de Aaaaá.
- As Vinte Seguintes não querem reclamar o Tributo. Não chamarei mais nomes. Qualquer fada pode reclamar agora o Tributo! Se mais que uma o quiser, a que tiver mais acima na Lista terá prioridade óbvia. Apresentem-se, candidatas!
Ventura Lobo recomeçou os exercícios de aquecimento enquanto aguardava.
- Quer dizer, eu já aqueci há bocado, será que isto agora faz mal? Não, os gajos no futebol também aquecem antes da segunda parte, acho eu. É, vou aquecer.
Era uma figura ridícula, a de Ventura Lobo, isolado numa praça rodeada de fadas hesitantes em combater com ele individualmente, a fazer movimentos estranhos e repetitivos de aquecimento.
- Majestade, enquanto esperamos que se decidam, permita-me uma pergunta pertinente.
- Permito-o.
- O que é que acontece se ninguém quiser reclamar o Tributo?
- Bom... os reis antigos pensaram nisso, mas nunca aconteceu... Enfim, a regra é que o Tributário deverá ficar prisioneiro até que alguém o queira reclamar.
- Estou a ver que não há grande benefício em se ser o Tributário se o indivíduo em questão tiver pressa.
- Evidentemente não, mas normalmente a beleza das fadas é suficiente para vergar as mentes fracas dos homens.
- Obrigado pela resposta.
Ventura Lobo gritou para a multidão.
- Então!? Ninguém quer este Tributo tão apetecível? Imaginem só os poderes que devo ter! Olhem-me só estes músculos, hem? Cinco anos de crossfit mais ou menos constante!
Já todas as fadas haviam percebido que ninguém o defrontaria. Não agora, pelo menos. Este pensamento foi interrompido por um grito no meio de milhares de fadas silenciosas.
A fada A'á'a, a original capturadora de Ventura, caminhava em direcção a ele, de lança preparada. As restantes fadas não sabiam se haviam de rir ou não. Já se sabia que ela só o capturara porque o enganara, e não porque o vencera em combate. Ventura não pareceu surpreendido, sorrindo ligeiramente inclusive.
Os dois combatentes estavam a escassos metros um do outro.

 

 

Nenhum desastre, nenhum cataclismo, nenhuma magia negra teria impressionado mais a capital das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a do que o que aconteceu de seguida.
Ventura largou as suas armas diante de A'á'a sem oferecer qualquer tipo de resistência.
- Aceito ser o Tributo desta Fada Seguinte. - olhou para a guerreira e piscou-lhe o olho.
Esta sorriu-lhe de volta.
O Rei, num acesso de perspicácia, percebeu o estratagema daquele par.
- Não pode ser, proíbo-o!
- Porquê, essa agora? Nada foi feito contra as regras. Nenhuma das vossas lutadoras me conseguiu ter como Tributo, excepto esta. Faço notar que dei todas as oportunidades que podia para ser desafiado. Não o quisestes ou não o conseguistes. Não tenho culpa que as vossas guerreiras não estejam ao meu nível de mestria marcial.
- Então porque é que não lutaste com A'á'a?
- Seria uma injustiça para o mundo se eu magoasse a mais bela das Fadas vogais, não?

Foi o cúmulo.

Pode-se humilhar, maltratar e até matar uma fada na presença de outras, mas dizer que uma é mais bela que as outras todas é absolutamente inaceitável, principalmente porque cada uma acha que ela própria é que merece essa descrição. A'á'a quase que explodia de tão vermelha que ficou, mas quase ninguém reparou nisto, tendo em conta que todas as fadas estavam agora a puxar os cabelos umas às outras devido à discussão narcisista que escalou para um motim autêntico. Um motim literalmente muito bonito. Se a este cenário se adicionasse lama, gelatina ou pudim ter-se-iam as condições ideais para se realizar o sonho de muitos americanos labregos.
Ventura Lobo, apesar de tudo, não conseguiu deixar de apreciar o espectáculo à sua volta. A'á'a pegou-lhe pelo braço e arrastou-o dali para fora, aproveitando o caos para desaparecerem sorrateiramente, para enfado de Ventura.

Espera lá, ò narrador, vai fazer um xixi que eu tomo conta dos leitores, que tenho de falar com eles. Sim, vai lá.
Olá. Sou eu, o Autor. Apareci no episódio passado, se calhar lembram-se de mim. Tenho de interromper a narrativa para explicar umas coisas.
Certamente alguns de vós, mais inteligentes, terão percebido o que raio aconteceu para Ventura se ter safado desta situação. Como não posso assumir que todos sejam inteligentes a esse ponto (acredito piamente que maior parte dos leitores que chegaram aqui não perceberam sequer que há outros episódios para trás) sinto-me pressionado a completar alguns pontos da história que não foram propositadamente explicados, nem que seja para tentar homogeneizar os meus leitores em termos da compreensão da história (e não, "homogeneizar" não tem nada a ver com maricas, essa agora...).
Sem ofensa, claro.

Ora bem, durante o tempo que o Ventura esteve com a fada, mais ou menos desde que fizeram as pazes até à altura dos combates, eles pensaram num plano para libertar Ventura Lobo desta parvoíce toda. No final do episódio anterior arrependi-me de ter introduzido uma potencial personagem amorosa na história, porque quando eu escrevo sobre assuntos dos quais não percebo nada, a coisa tende a correr mal. Então tive durante semanas a pensar como é que me iria desenrascar agora desta, porque não poderia mandar um episódio inteiro para o lixo, tenho mais que fazer. Decidi então que o coitado do Ventura Lobo não iria ter nenhum tipo de relação amorosa com fada nenhuma, era o que faltava. Ora, a fada, como é boazinha e querida e tal, sente-se muita culpada por ter enganado o Ventura e quer redimir-se, ajudando-o a escapar dali. Eles apercebem-se que a melhor maneira de escaparem é seguir todas as regras dos combates. Seria preciso garantir que Ventura conseguisse ganhar todos os combates e, melhor ainda, garantir que ninguém mais quisesse lutar. Aí, a fada poderia reclamar o seu direito ao Tributo e assim Ventura ficaria à mercê dela. É claro que depois ela simplesmente deixá-lo-ia ir-se embora. A morte de uma das fadas não estava prevista, mas Ventura não teve opção, ele tinha de mostrar que não 'tava para brincadeiras. Também não estava previsto que o Rei notasse o subterfúgio tão facilmente, mas regras são regras e ele teve que aceitá-las. Claro que isso não o impediu de banir tanto Ventura Lobo como a própria fada A'á'a do seu reino. Aproveito para pedir desculpa pelos nomes dos personagens, mas já devem ter percebido que são propositadamente difíceis de ler.
Olhem, o narrador já voltou. Vá força, desculpa lá, aproveita que eles estão atentos.

Ventura Lobo e A'á'a riram-se imenso no caminho que os levava para fora da floresta em direcção ao Norte.
- Por um lado agora sou eu a sentir-me culpado por ter causado o teu exílio, mas por outro algo me diz que se calhar estarás melhor longe daquelas megeras.
Ela concordou.
- Eu sei que aquela última coisa que disse na praça não estava planeada, mas foi o que me veio à cabeça. Funcionou melhor do que estava à espera, amanhã ninguém se vai falar naquela cidade.
Ela corou um bocadinho, mas permaneceu silenciosa.
Chegaram à orla da imensa floresta no final da tarde.
- Tenho que dizer-te que é aqui que nos separamos, menina. Eu tenho uma demanda a concretizar, para a qual não te posso levar.
Desmontou Sara e aproximou-se de A'á'a. Esticou os braços, convidando um abraço.
- Tenho de te agradecer, por me teres "capturado" e por me teres libertado.
Hesitantemente, ela retribuiu o abraço, que mantiveram durante alguns segundos.
- Para onde irás? - perguntou ele.
- Na direcção dos Sete Mares de Re'ai. Há lá povoações independentes de Fadas Vogais, leais ou à Rainha Branca ou à Rainha Negra. Serei bem recebida lá.
- Ah, perfeito então, espero que tudo te corra bem, e que as minhas aventuras um dia me levem lá.
- Sim, gostaria muito. - e sorriu-lhe, não se notando as bochechas escarlates devido às cores fogosas do pôr-do-sol.
Ventura montou Sara e virou-se para o Norte.
- Adeus, A'á'a. Que aventura dos diabos, hem?
- Adeus, Ventura Lobo. Podes chamar-me Alana, se calhar é mais fácil para ti dizeres.
- Ah, certamente é, obrigado. Adeus, Alana, então! Eia Sara!
E partiu a galope.

 

 

 

 


Horas depois, subitamente, Ventura Lobo ordena a Sara que pare.
- Espera lá... Ela estava a falar. A falar a minha língua! Então afinal ela sabia falar e não me disse nada. Essa agora... Porquê? Teria sido tão mais fácil comunicar.
O aventureiro falhava em se aperceber do óbvio.
- A não ser... O Rei A bem disse que elas absorvem o poder de alguém que amem. Mas ele disse isso no sentido sexual e não tive nada disso com ela. Será que...? Será que a magia delas não faz diferença semântica no que toca ao verbo "amar"?
Levou a mão à cara, cobrindo os olhos numa careta desapontada. Olhou para trás. Já percorrera tanto. Ela já não estaria lá. Já era tarde demais.
Suspirou.
- Rumemos ao Norte. Vamos a aventuras mais divertidas, que lamechices destas só conseguem ser cómicas no Allo Allo.

 

Ò narrador, desculpa lá, não percebi esta última parte, então mas eu não tinha dito que não iria haver ligação amorosa entre os dois?
O que Ventura Lobo e o Autor não percebiam, aparentemente, é que há certas coisas que não se conseguem evitar. Com o tempo aprenderiam isso.
Agora virou astrólogo, o gajo.
- Essa agora.

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publicado às 03:24


A Fada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 11.11.16

Cansado e dorido, Ventura Lobo abre ligeiramente os olhos. Pareceu-lhe distinguir entre a névoa da sua visão uma cara ansiosa. Quando voltou a abrir os olhos, levantou-se lentamente, ficando em posição sentada, apoiado nos braços. Olhou em volta e viu que estava sozinho. Examinou-se.

Estava coberto de folhas na cara, nas mãos e nos pés descalços, mas não no resto do corpo, que ainda equipava a sua armadura branca. Só agora se lembrou que tinha um ferimento no ombro e perdeu imediatamente a força no braço esquerdo, colapsando num embate doloroso. Um ligeiro resfolegar chamou-lhe a atenção e Sara, a égua Maglu, apareceu-lhe por detrás de uma árvore. Estava calma e parecia já estar por ali a pastar há algum tempo.

Ventura levantou-se definitivamente com dificuldade. Aproximou-se de Sara, que o cumprimentou com um som assoprado.

- Que sonho mais estranho... Já passámos a Caverna? Onde é que estamos?

Ventura perscrutou o local a fundo. Estava numa pequena clareira de uma floresta aparentemente vasta, com anormalmente enormes árvores como pinheiros, sobreiros, carvalhos e freixos, todos em coexistência. Dezenas de espécies de arbustos e flores decoravam lindamente a base da floresta onde passeavam de forma ondeante e pacífica alguns prováveis lepidópteros, acompanhados por abelhões gigantescos de aspecto inofensivo. Dois pássaros de tamanho igual brincavam num ramo baixo de um carvalho. Um era perfeitamente branco e o outro tinha uma coloração castanha alourada. Voaram subitamente, entrechocando-se alegremente, talvez sentido-se timidamente observados ou talvez arriscando-se num jogo de romance mútuo, sendo impossível determinar qual perseguia o outro.

Ainda se notavam os cumes das montanhas da cordilheira Ruq. Ventura Lobo espreitou por entre as árvores gigantes e detectou o que parecia ser uma estrada no sopé da montanha, com uma abertura para uma caverna escura. Teria sido dali que tinha vindo, certamente, e chegara agora a um local que nunca ouvira sequer falar. Da pouca informação que existia sobre as terras do Norte, nunca algum mapa referiu uma tão exuberante floresta.

Ventura Lobo sentiu algo húmido no seu ombro ferido. Estava descoberto, facto esse que não tinha reparado antes, e nele vertia uma espécie de seiva pegajosa que começara a escorrer devido à gravidade. Ventura afastou a seiva e reparou, para sua surpresa, que a ferida tinha um aspecto muito mais saudável e limpo comparativamente à última vez que a inspeccionara. A dor persistia, mas pelo menos a infecção parecia ter sido combatida.

Mas quem é que o teria auxiliado? Não poderia supor que aquela seiva tivesse por sorte caído de uma árvore precisamente no sítio exacto do seu ferimento. Por outro lado, cenários mais absurdos já lhe tinham ocorrido e talvez Ventura estivesse apenas a fazer jus ao seu nome.

Encontrou a maior parte do seu equipamento na clareira. O seu sabre Ahmet estava mais afastado, temporariamente perdido no trilho por onde Ventura entrou na floresta. Recolocou a sua ombreira esquerda, pois já conseguia suportar o desconforto de o fazer e preferia ter a protecção adicional, mesmo que ligeiramente danificada. A espada Venceslau não estava em sítio algum, apesar de a bainha estar ainda presa à sela de Sara. De sabre em mão, Ventura explorou a uma distância pequena da clareira, pois sabia que Venceslau não poderia ter caído ao chão sem intervenção manual. Começou a perceber que se calhar não estava sozinho.

Era difícil encontrar pegadas ou outros indícios de companhia. A erva, ao ser pisada, restabelecia-se como que por magia na posição original sem aparência alguma de dano.

 

- A, a, a....

 

Ventura ouviu o que parecia ser uma leve gargalhada distante e ecoante. Não conseguiu precisar a direcção. Voltou cuidadosamente para a clareira, pois precisava de organizar as ideias.

Certamente se lhe quisessem fazer mal já o teriam feito há muito enquanto esteve inconsciente. Seja quem for que o estivesse a observar, se realmente o estava, teria levado Venceslau consigo? Porquê? Porque não as outras armas também? A verdade é que Ventura não sabia de todo quem é que iria defrontar e consequentemente não sabia como se preparar. Tanto poderiam ser as bruxas nadadoras de Mitchus, como os feiticeiros exploradores do reino hipnotizante de Baret, ou mesmo os bárbaros centauros de Iqua.

Enquanto Ventura reflectia, ouviu-se um rufar de folhas num arbusto atrás dele. Virou-se rapidamente, de sabre numa mão e a besta carregada na outra. Apenas viu a sua espada Venceslau pousada delicadamente contra um pinheiro. Aproximou-se cuidadosamente, temendo uma emboscada. Verificou à volta da árvore mas não encontrou criatura alguma. Por instinto, olhou para cima e viu finalmente um vulto negro contra o céu cinzento, uns metros acima dele. Embainhou o sabre e rapidamente agarrou Venceslau pelo cabo e preparou-se para o combate, pois o vulto dirigiu-se para o chão, aterrando placidamente.

Era uma mulher. Enfim, não exactamente uma mulher, já que elas tipicamente não têm a tendência para conseguir voar, mas era certamente uma figura muito semelhante a uma mulher.

- Porque carga de água é que me estou a lembrar da Princesa Xena?.. Estranho... Esta em nada lhe é semelhante.

A mulher era quase da mesma altura que Ventura. Tinha longos cabelos encaracolados de uma cor castanha dourada que desciam controladamente pelo seu peito. A tez da sua pele era agradavelmente pálida, não como se fosse doente, mas como se fosse uma criatura delicada e protegida da violência de muitos sóis. A sua face era de uma beleza extrema e radiante. Os seus grossos lábios rosáceos contrastavam com a tez branca da sua cara redonda, cujas bochechas estavam inchadas de sangue, transformando o branco num escarlate convidativo e querido. Os seus grandes olhos âmbar expressavam cautela e divertimento simultaneamente. Tecidos sedosos verdes e brancos escondiam-lhe as formas sensuais e atraentes de um corpo bem desenvolvido. Escondiam igualmente as armaduras que a mulher tinha espalhadas pelo corpo inteiro. Empunhava uma lança ricamente decorada na sua mão esquerda. Ventura percebeu que era uma guerreira e fez os possíveis para se libertar da sua beleza enfeitiçadora para mais objectivamente poder avaliar a situação.

Ventura não tinha qualquer desejo imediato de lutar com ela, especialmente devido ao seu ferimento. Tentou ser diplomático.

- Bons dias, minha senhora. Devo-lhe confessar que tenho várias perguntas, mas creio que seria mais adequado se eu começasse por me apresentar.

- A! - respondeu a guerreira, que Ventura interpretou como sendo uma interjeição para continuar.

- Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante de todas as estradas, e hoje a estrada trouxe-me, espero eu, às terras do Norte, ou pelo menos ao que os humanos consideram o Norte em termos relativos.

- Ã ã... - respondeu a interlocutora pouco faladora, dando a entender que queria saber mais, movimentando ligeiramente a sua lança.

- Compreendo que esteja talvez a infringir alguma fronteira proibida a estrangeiros, mas quero que saiba que não foi por minha vontade que entrei nesta floresta. Digamos que transgredi a floresta por ter adormecido montado na minha égua que está ali e que decidiu conduzir-nos até aqui. - Ventura estava a tentar esconder o facto de que estava ferido.

- A, a, a, a, a, a, a! - riu-se ela, revelando um enorme sorriso branco. Levou a mão direita a uma pequena sacola lateral e retirou de lá um conjunto de folhas completamente iguais às que Ventura tinha na sua pele quando acordou.

- Essas folhas... Foi a senhora que me tratou? - inferiu rapidamente Ventura.

- Â ã. - disse, afirmativamente.

- Deveras que não sabia coisa alguma sobre esta terra, mas passo a saber que a hospitalidade é comparável à beleza dos seus habitantes. - disse, fazendo uma pequena vénia de agradecimento. A mulher sorriu, enrubescendo. - Poderei saber-lhe o nome, para mais completamente lhe poder agradecer?

- A'á'a.

- Perdão, não era uma piada, tenho efectivamente o desejo de saber o nome da pessoa que me tratou tão altruisticamente.

- A'á'a. - repetiu, algo confusa.

- Não me está a querer dizer que o seu nome é uma combinação de três vogais iguais com subtis diferenças de entoação?

- Â ã. - confirmou.

Ventura finalmente apercebeu-se de algo que já lhe deveria ter sido óbvio há muito. Era extremamente provável que se encontrasse na presença de uma Fada Vogal, o que explicaria as suas dificuldades vocabulares na mesma proporção que explicava a sua beleza ímpar. Explicaria também o facto de estar em equipamento de guerra, pois as Fadas Vogais haviam sido derrotadas recentemente pelos exércitos do Reino. Nunca se soube qual foi a razão da guerra entre as duas facções.

- Senhora A'á'a (e ainda bem que não tenho de realmente pronunciar o nome, porque seria impossível para mim acertar à primeira), seria incorrecto se eu induzisse que estou a falar com uma fada Aa'a-a-A'a, ou seja, uma Fada Vogal?

- Ã ã. - entoou, confirmando a teoria de Ventura.

- Deveras, é uma honra conhecer uma das representantes das que dizem ser as mais belas das Fadas Vogais.

Ela não respondeu, mas fez uma careta de dúvida.

- Diga-me, porque é que me tratou? Apesar de eu não ter afiliação militar, não seria de estranhar se tratásseis um humano com menos amabilidade, tendo em conta as tensões recentes entre as nossas facções.

- A! A'a'aa aa a'á'à ã á àa.

- Â? - questionou Ventura por instinto, obviamente não percebendo coisa alguma do que a fada havia dito.

Erro crasso, pois tal interjeição, normalmente representativa do facto de alguém não ter percebido outrem, provavelmente significava algo menos inofensivo para as Fadas Vogais.

A fada preparou a lança, apontando-a determinantemente. Fez um gesto agressivo em direcção ao interior da floresta. Ela queria que ele a seguisse.

- Peço desculpa se disse algo inapropriado, mas peço que compreenda que não falo a sua língua, e por isso foi pura coincidência que a minha exalação tenha parecido significar... enfim, seja o que for que signifique para vós.

Ela enrugou delicadamente as finas sobrancelhas, como se reflectisse que o que Ventura dissera até fazia sentido. Mesmo assim, repetiu o gesto, menos agressivamente.

- Percebo que quer que a siga, mas a senhora tem de perceber que não lhe sei as intenções, e para além disso eu estou numa demanda importante da qual não me posso desviar durante muito tempo.

- Aaa! - gritou repentinamente a fada, voando agilmente pelos ramos em cima de Ventura e aterrou dramaticamente atrás dele, barrando-lhe o caminho até Sara, que mastigava um arbusto descansadamente.

Ventura olhou à volta, certificando-se que não detectava nenhum aliado da fada.

- Minha cara, imploro-lhe que me ouça. Não tenho desejo algum de lutar neste momento, mas a sua pose agressiva não me permite inferir que o sentimento seja mútuo. Saiba que me defenderei se necessário e saiba também que não a subestimarei.

A fada colocou-se numa postura estranha de ataque, envolvendo os seus braços sedosos na sua lança.

Ventura Lobo preparou a espada Venceslau, dando pequenos passos cautelosos, avançando inclinado para a direita, pois de nada valia esconder o seu ferimento, já que a fada já evidentemente sabia que ele o tinha. Talvez por isso se mostrasse ela tão confiante em ganhar? Ou será que as fadas guerreiras eram muitíssimo mais mortíferas do que ele imaginava? Fosse como fosse, Ventura faria o melhor que lhe fosse possível para não magoar uma criatura tão singela.

Ela finalmente decidiu atacar, usando os seus poderes voadores para desferir uma estocada rápida. Ventura já imaginava que seria esse o plano, pois as Amazonas de Kikas usavam uma estratégia semelhante quando montavam as suas gaivotas gigantes. Baixou-se rapidamente e tentou agarrar a fada para a pousar, mas apenas lhe rasgou um pedaço do tecido leve que lhe cobria a armadura. Perdendo o elemento de surpresa, ela pousou e rodopiou a lança várias vezes para atingir Ventura de vários lados. Foi aqui que este percebeu que a sua adversária, apesar de fogosa, não era uma combatente experiente, pois nem teve de se desviar de muitos destes ataques já que ela raramente os dirigia correctamente na direcção dele.

Ventura, num movimento rápido, agarrou firmemente na lança da fada, esperando desarmá-la. Ela riu-se ligeiramente e começou imediatamente a voar, levando Ventura com ela. O aventureiro largou-se quando ainda estava a uma distância curta do chão, mas sabia que estaria vulnerável ao próximo ataque, que não tardou a vir. A fada repetiu o mesmo movimento de estocada inicial, desta vez vindo de cima, perfurando o ar. Apenas por sorte conseguiu Ventura desviar-se da lança mortífera, rebolando para o lado desesperadamente. A lança da fada ficou vários centímetros enterrada no chão, pressagiando que o mesmo poderia ocorrer a Ventura.

Ventura levantou-se e andou impacientemente de um lado para o outro.

- A senhora coloca-me num dilema. Tenho agido defensivamente, mas começo a crer que realmente terei de a magoar para a convencer a desistir deste combate estúpido.

- A a a! - riu-se a adversária voadora ufanamente, caindo no erro de não levar a sério o aviso de Ventura.

Lançou-se de novo ao ataque, mas foi surpreendida ao ver que Ventura também carregava energicamente sobre ela. Apontou ao ombro dele, que aparentemente estava vulnerável, caindo na armadilha de Ventura. Ele rodopia sobre si próprio para a esquerda, desviando-se do ataque e desferindo uma cotovelada forte nas costas da fada que agora se intersectava com ele, ficando estatelada no chão. Ela reagiu inesperadamente depressa, atacando os pés ainda descalços de Ventura e fazendo-o cair sobre o seu ombro esquerdo, agoniando-o horrivelmente. A'á'a planeava agora escapulir-se para a copa das árvores para recuperar o factor de surpresa, mas Ventura agarrou-a por um pé. Antes que ela conseguisse começar a voar, Ventura reuniu todas as forças do seu corpo bem treinado e lançou brutalmente o corpo da fada num movimento circular contra o chão.

Arrependeu-se de imediato, pois A'á'a perdeu os sentidos e permaneceu imóvel. Não se orgulhou pela vitória. Nunca gostou de lutar contra fêmeas. Sempre pensou que só os homens é que deveriam ser estúpidos o suficiente para se envolverem em violência. Não obstante isto, não era a primeira vez que lutava contra uma mulher, mas de alguma forma sabia que o que fizera a esta em particular não era justificável.

Pegou no corpo inerte de A'á'a e pousou-o delicadamente contra uma árvore. Vários arranhões cobriam agora a pele branca da fada. Ventura, não sabendo se tal resultaria, procurou pelas mesmas folhas com que ele próprio havia sido tratado, encontrando um pequeno arbusto delas numa clareira ali próxima. Aplicou desastradamente as folhas sobre a pele macia de A'á'a, e reparou que as próprias folhas se enrolavam automaticamente à volta dos membros doridos.

Não sabia agora se esperaria que A'á'a acordasse ou se simplesmente continuaria caminho, aventurando-se pela floresta dentro.

Sentou-se, cansado e novamente dorido. Percebeu que sangrava do ombro. Provavelmente reabrira a ferida. Tentou colocar uma das folhas mágicas no seu próprio ombro, mas desta vez nem se quiseram aproximar da pele sangrenta, como se tivessem mente própria. Escapavam-se sempre da mão de Ventura assim que este as trazia perto do ferimento.

Dirigiu-se a Sara e retirou do seu alforge uma fatia de pão duro e barrou-lhe uma porção de manteiga de iaque de Buzul e sentou-se de novo, desta vez ao lado da A'á'a, ainda inconsciente.

- Pois é Ventura, és mesmo parvo. - murmurou para si próprio, auto-comiserando-se. - Tantos meses de crossfit e destes suplementos proteicos grotescos para ficares com um corpo fantástico para impressionar as miúdas e na primeira oportunidade que tens de conhecer uma Fada Vogal, uma das mais belas ainda por cima, agarras nela e usas a tua força bruta para destruíres a sua beleza e eliminares qualquer hipótese de... - deixou a frase morrer, suspirando.

Virou a cabeça timidamente para a fada, inspeccionando-a. Sentia-se culpado, pois achava que um ser tão belo não deveria ter de lutar, tal era o risco de desfiguração, e na altura as operações plásticas não eram prática comum.

Encontrou uma nova ferida que não reparara em anteriormente. Rapidamente foi buscar uma das folhas curativas e aplicou-a com o maior dos cuidados na ferida, esperando que desta vez funcionasse de novo. Era um corte algo profundo no braço que até agora estivera escondido pelo volumoso e perfumado cabelo. Tinha o aspecto de ter sido provocado pela lâmina de Venceslau, mas Ventura nem notara que a tinha atingido durante a luta.

- Mesmo assim, ela continuou. É determinada, hem? - comentou.

A folha curativa, ao contrário da tentativa anterior nele próprio, quase saltou magneticamente para cima do corte da fada, enrolando-se e aconchegando-lhe o braço.

Ventura decidiu ali, naquele momento, que permaneceria até que A'á'a se restabelecesse. Parecia estranho pensar que ela tinha feito o mesmo por ele, apenas para o atacar posteriormente. Que cultura estranha teriam estas fadas para tratar um potencial inimigo. Não teria sido mais fácil simplesmente levá-lo fosse para onde fosse enquanto ele próprio estava inconsciente? Ela claramente tinha essa capacidade, pois levitara-o durante o combate sem grande esforço. Que razão terá feito com que ela o tratasse?

Deveras, porque razão estava ele por sua vez a tratar dela agora?

Toda a prudência habitual de Ventura Lobo gritava num desespero agoniante para que ele partisse e deixasse aquela floresta o quanto antes. Mas ele ignorou todo o conceito de cautela. Sentia algo que o mantinha ali. Aquela fada, apesar de tudo, aguçara-lhe a curiosidade. Não, não era bem curiosidade. Era uma espécie de responsabilidade ou reciprocidade ou dever. Era como se no fundo a sua vontade estivesse a ser controlada por outrem, como se estivesse a ser relembrado silenciosamente que o seu papel naquela floresta ainda não acabara. Todo o seu ser físico almejava fortemente partir, mas o seu espírito era impelido a ficar. E ficou.

Um peixe nadou casualmente pela clareira.

- Naturalmente. - concordou Ventura.

 

 

Passou uma hora. Começou a chover. A pluviosidade local aumentou progressivamente até estabilizar numa chuva não muito pesada mas constante. As gotas deslizavam pelas folhas das copas mais altas até ao mais rasteiro dos arbustos, num espectacular jogo de Plinko (sem o Fernando Mendes e sem a Lenka).

Ventura protegera A'á'á com uma capa, mas pensou que talvez fosse necessário arranjar outra fonte de calor. Notou, por acaso, num pequeno mamífero semelhante a um cavalo minúsculo a dirigir-se para um arbusto de um escarlate viçoso e pulsante. Distinguiu o que parecia ser vapor a elevar-se a partir das suas folhas exuberantes. Levantou-se, aproximou-se e ao fazê-lo foi apercebendo-se que aquele arbusto, completamente indistinguível dos outros em tempo seco, se tornava uma fogueira natural quando acossado por chuva.

- Que conveniente! Até parece que o destino está a tentar arranjar situações que me coloquem numa circunstância mais íntima com a fada, o que verdadeiramente é tudo o que eu alguma vez quis, não fosse o facto de a ter posto inconsciente com um golpe de wrestling.

O arbusto fogoso emanava um calor suficiente para manter a fada quente. Não é que Ventura realmente soubesse se anatomicamente isso faria alguma diferença a uma fada, mas pelo menos não poderia ser criticado por falta de intenção de zelo pelo bem-estar da sua prévia adversária.

Vários outros animais se aproximavam do arbusto para se aquecerem e secar, mantendo o mais possível a distância ao desconhecido aventureiro que era um forasteiro naquelas paragens. Para além dos minúsculos cavalos já referidos, podiam ver-se salamandras compridas e coloridas de vermelho e laranja, confundindo-se com as folhas do arbusto, cogumelos achatados semelhantes a caranguejos que se locomoviam arrastando estruturas parecidas a raízes pelo solo, um beija-flor que parecia absolutamente imóvel no ar, tão rápido era o batimento das suas asas, dezenas de insectos a marchar e a congregar-se na base do arbusto, devorando-se uns aos outros numa orgia canibalesca.

O mesmo cenário devia repetir-se infinitamente pela floresta inteira, mas dali, onde Ventura estava, apenas se adivinhava uma paz natural regada com as gotas tranquilas que aterravam surdamente nas folhas do solo. Ventura fechou os olhos. Pareceu-lhe ouvir um coro, muito longínquo e muito abatido, mas não triste. Um entoar quase constante, muito aberto e enternecedor. Era como se a própria floresta embalasse os seus habitantes para dormirem enquanto a tormenta leve não passava.

Deveras, Ventura, mesmo não estando demasiadamente cansado, adormeceu lentamente.

 

 

Acordou pouco depois, mas a sua companhia já não estava ao seu lado. A'á'a estava em pé, à sua frente, completamente encharcada. Não parecia agressiva como antes, mas tinha a sua lança na mão. Ventura levantou-se lentamente. Pegou em Venceslau e embainhou-a, querendo mostrar que pretendia paz. O par de guerreiros entreolhou-se demoradamente, aparentemente não sabendo como prosseguir, já que a conversa oral não podia ser mútua e consequentemente não era possível um entendimento claro entre os dois.

Ventura falou, tentando simplificar as suas perguntas de modo a que a resposta possível fosse binária.

- Acho que estamos mais ou menos quites, em todos os sentidos. Proponho uma trégua. Eu não a entendo, mas a senhora compreende o que eu digo, não é verdade?

- Â ã. - confirmou.

- Acho que ambos concordamos que a violência hoje já foi demasiada, certo?

Ela acenou a cabeça gravemente, concordando.

- Aceita a trégua então?

Novo acenar afirmativo de cabeça.

- Previamente quis que eu a seguisse. Porquê?.. Aliás, vou reformular a pergunta: levava-me para algures que me pusesse em perigo? Seja honesta, compreenderei a resposta, seja ela qual for.

A fada reflectiu por uns momentos, provavelmente não sabendo o que responder. Talvez a resposta fosse mais complexa e Ventura tentou facilitar.

- Digamos que por "perigo" quero dizer se me levava para algum tipo de emboscada em que eu não me pudesse justamente defender.

- Á! - exclamou ela, elucidada. - Â â, â â... - disse, visivelmente negando a hipótese.

Foi a vez de Ventura reflectir.

- Ouça, minha senhora, não lhe quero causar ainda maior incómodo e eu realmente tenho de retomar o meu caminho, pois estou numa missão importantíssima.

A'á'a pareceu empalidecer.

- Vou agora montar a cavalo e dirigir-me para Norte, contornando a floresta por fora, não querendo continuar a ser um intruso nas vossas fronteiras.

- Â â!

Ventura já percebera que aqueles tons específicos significavam "não". Antes que a fada tivesse a mesma ideia que antes, Ventura agarrou imediatamente no cabo de Venceslau, mostrando que estava pronto a lutar de novo.

"Porque é que estás a ser tão mau, Ventura...?" - pensou para si próprio. - "O teu maior sonho foi sempre conhecer uma Fada Vogal, e agora vais-te embora? Ela já disse que não haveria perigo imediato para ti."

- Saiba que se já a derrotei poderei fazê-lo outra vez.

"Não faças isso. Fica. Se querias ir embora porque é que não foste quando ela estava a dormir, coitadinha?"

- Agradeço-lhe profundamente o tratamento inicial que me deu aos meus ferimentos, mas teria apreciado mais se a hospitalidade se tivesse mantido constante.

"Estás a ser demasiado frio. Vá, desmonta e volta, essa agora. Tu queres ficar aqui! Não sabes porquê, mas queres."

Montado em Sara, Ventura começou a dirigir-se à orla da floresta, para depois a contornar, não olhando para trás para se despedir de A'á'a.

"Era a tua oportunidade, espero que saibas o que estás a fazer, se bem que ambos sabemos que te vais......"

O seu pensamento foi interrompido por um lamento imenso e ecoante. Olhou imediatamente para trás e já não viu A'á'a. O lamento evoluiu para um choro triste e pausado.

- Diabos me levem... Já lutei contra os Vyx mais nojentos, contra os homens-mamute mais gigantescos, contra os castores temíveis e ferozes de Kand e em mais do que uma vez desobedeci à minha mãe quando ela me pediu para levar o lixo à rua. No entanto, nada, mas mesmo nada me enregela mais o sangue do que o choro de uma mulher, especialmente se chora por causa de mim. Falo simbolicamente, claro, pois os magos viquingues de Ovlov literalmente transformam o sangue dos inimigos em gelo, e com esses não me meto.

Desmontou e correu rapidamente para trás, esquecendo-se inclusivamente da sua arma predilecta para trás. O choro ia reduzindo de volume, como se a origem se afastasse. Correu em direcção ao som, e encontrou A'á'a a andar lentamente pela floresta adentro.

- Porque é que chora?...

Ela virou-se dramaticamente, como não podia deixar de ser, e mostrou-se algo surpreendida por ver Ventura de volta.

- Não compreendo. Porque é que é tão importante que eu vá consigo? Que tragédia horrível acontecerá? É impossível que eu lhe faça falta sob qualquer pretexto, já que certamente não estava à espera que eu chegasse aqui aleatoriamente.

Apesar de tudo, ela estava calma. Ventura percebeu que a tristeza que ela sentia não era devida a ele próprio. Era uma tristeza antiga, que lhe amargurava o ser há muito. Não uma tristeza chocante, mas uma que teve muitos anos para se desenvolver e que, de vez em quando, brotava tenuemente para fora quando a sua psique não conseguia suportar mais.

Era um sentimento que Ventura conhecia bem, mesmo que nunca o mostrasse e mesmo que as razões fossem diferentes.

Bem vistas as coisas, Ventura ainda estava em dívida para com A'á'a. Era óbvio que ela precisava dele para algum fim misterioso, mas era-lhe impossível determinar qual. Fosse como fosse, ela garantira que ele não correria perigo.

- Mudei de ideias. Se ainda o permitir, acompanhá-la-ei até onde me quiser levar, se for certo que não correrei perigo directamente.

Ela olhou-o como se quisesse confirmar o que ouvira. Ele assobiou para chamar Sara, que apareceu a trote daí a uns instantes. Pegou-lhe pelas rédeas e verificou o equipamento.

- Estou pronto, assumindo que a minha montada também possa ir.

A'á'a limpou uma lágrima cristalina que lhe permanecia teimosamente na bela e límpida face. Pegou na sua lança e gesticulou com a cabeça para que Ventura a seguisse.

 

 

Ventura ia tentando falar durante a viagem, fazendo perguntas e comentários sobre a fauna e flora fantásticas que preenchiam a floresta.

- Ena, a última vez que vi este tipo de rosas negras foi nas planícies de Kukula, nem pensei que existissem noutro sítio.

- Magnífico espécime de grilo, nunca vi um com uma cabeça tão grande. Ah, perdão, meu caro, não sabia que era uma cartola, mil desculpas, um resto de bom dia.

- Não sou grande apreciador de abacate, mas depois de algumas semanas de manteiga de iaque de Buzul qualquer coisa diferente serve. E aqueles têm um aspecto... enfim, normal, já que eu não sei distinguir um abacate bom de um mau.

- Espera lá… pareceu-me ter visto uma fada com botas. Juro que o vi. Não minto. Vi-o com estes dois olhos. Uma fada a usar botas e a dançar com um anão. Isso é normal?

- Ó diabo, há muito tempo que eu não via um dragão azul, mas também é verdade que me estou a aproximar do Norte, se calhar aqui são mais comuns.

- O quê? Bom, nunca pensei.... Um grupo de elfinhos minúsculos. Parece que estão numa feira a dançar de um lado para o outro. E têm daqueles cavalos pequenos que vi há pouco. Olha ali, um cavalinho na feira a comer. Fantástico!

- Bom, até macacos têm aqui. Não sabia que tinham a capacidade de dançar.... Ah... espera, aquilo não é uma dança.... Pois bem, são definitivamente macacos.

 

A'á'a nada disse durante a viagem, nem para responder às constantes parvoíces de Ventura. No entanto, em mais do que uma ocasião, este jurou tê-la ouvido rir levemente, como se estivesse a conter o riso, apesar de ela periodicamente olhar para trás ainda com uma expressão amuada.

 

 

Subitamente parou e Ventura mal pôde acreditar nos seus olhos.

 

 

Haviam chegado à lendária cidade de Áaaa'Aaaa'Àaaa A Ãaá, a capital das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a.

 

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A Caverna - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 23.09.16

Ventura Lobo percorreu o triste planalto junto à cordilheira Ruq. Seguia um conjunto de marcos que, segundo o que os Ruqi lhe disseram, formava a estrada principal que unia as cidades-montanha. Todos os marcos tinham uma saliência que apontava qual a direcção a tomar para quem queria ir para a cidade capital do Reino Ígneo de Ruqum, o principal dos antigos reinos. Esta cidade furava a cordilheira de um lado a outro, permitindo acesso imediato às terras do Norte, para a demanda do Livro continuar.

Passaram dois dias desde a batalha de Ruquru e o Despertar dos Ruqi. O nosso herói, apesar da sua perícia e bravura, foi atingido no ombro esquerdo. Não se atreveria assim ferido lidar com os exércitos de Otto'Gháfiq, que certamente já teriam sido alertados para o sucedido em Ruquru. Ir para as goelas da montanha tornou-se a sua única alternativa para escapar à estrada principal do Norte, provavelmente ocupada pelos cultistas.

O seu ombro ferido inchara visivelmente, e Ventura não tinha meios para o tratar adequadamente. Não existiam nenhumas das ervas medicinais que ele conhecia naquele planalto inóspito e árido. Não havia qualquer tipo de aldeia humana num raio de muito quilómetros. Ventura, como qualquer homem decente, decidiu aguentar a dor escalante que sentia.

- Isto já passa.

 

Felizmente, a sua locomoção estava sob a responsabilidade de Sara, a resistente égua Maglu que Ventura obtivera e possivelmente salvara dos cultistas de Otto'Gháfiq.

O Sol quente e constante numa terra plana sem árvores e sombra contribuía para o desgaste físico do cavaleiro, mesmo que este teimosamente não o quisesse admitir.

Depois do pico de calor, Ventura reparou que a estrada começava finalmente a dirigir-se para as montanhas. Até agora tinha estado perfeitamente paralela à cordilheira, o que de vez em quando fez Ventura perguntar-se se se teria enganado.

- Se se se? Fica um bocado estranho. Acho que deve estar bem, mas se calhar a frase poderia ser construída de outra forma. É quase um trava-línguas.

Ventura Lobo proferiu a frase críptica em voz alta, apesar de ninguém lá estar para o ouvir, para além de Sara e talvez Venceslau. Seja como for, não se pode assumir que ele esperasse uma resposta.

A cabeça dele palpitava com o bater do seu coração. Sentia o fluxo de sangue nas suas veias ao ritmo acelerado e constante com que este trabalhava. Por um momento pareceu-lhe ter visto um elemental de fogo a dançar na terra seca, mas provavelmente era apenas uma metáfora do autor.

Sara prosseguia automaticamente pelos marcos, sendo de uma inteligência suficiente para perceber a direcção das saliências nos mesmos.

- Pois é, está a provar ser uma amiga inteligente e leal! Sim senhor! - exclamou Ventura, por coincidência imediatamente a seguir à inteligência de Sara ter sido referida na narrativa. - Mas qual coincidência!? Essa agora! - gritou para o ar, como se falasse para alguém, apesar de, como já se disse, mais ninguém estar presente. - Essa agora... - concluiu.

Finalmente, avistou uma rampa larga no sopé da montanha mais alta da cordilheira. Os marcos apontavam nessa direcção. À medida que se aproximou, Ventura distinguiu uma enorme entrada escura na encosta da montanha, como se esta estivesse no auge de um imenso bocejo.

- As montanhas não bocejam! Deixa-te lá de tentares tanto com as metáforas descabidas!

Ventura Lobo delirava, e nesse delírio conseguia, de alguma forma, parecer responder por mero acaso às afirmações do narrador.

- Quem 'tá a delirar és tu!

Dito isto, Venceslau, ofendida pela abreviação coloquial, treme e tenta disciplinar o seu mestre, saltando na bainha. Infelizmente, a espada estava presa a Sara, e não a Ventura. A égua leva uma vergastada inesperada e parte a todo o galope como reacção.

O corpo semi gelatinoso de Ventura teve dificuldade em manter-se firme na sua montada, balançando-se descontroladamente na sela, ameaçando desequilibrar os dois. O nosso herói, por muito que tentasse, não se conseguiu manter acordado e desmaiou repentinamente, aterrando de cara na crina áspera e poeirenta de Sara.

 

 

O bravo corcel entrou pela montanha dentro, sendo engolido pela colossal caverna como se fosse um mero grão de pó.

 

 

Ventura Lobo acorda com uma imensa pancada no...

- Sim! Claro, eu sei!, não precisas de me dizer, já percebi que caí do cavalo!

O ferimento do ombro não lhe afectara apenas fisicamente, pois a mente do nosso herói era assolada por uma febre dilacerante. Era provável que a seta que atingira Ventura tivesse algum tipo de veneno.

- Pois claro, todas as histórias são assim. O herói arma-se em herói, de todos os ferimentos que podia sofrer apenas uma seta lhe afecta, ainda por cima no ombro para poder continuar a lutar todo estóico, depois percebe-se que a seta 'tava envenenada, como sempre, depois o gajo fica maluco, começa a falar sozinho ou fica doente e tal ou não-sei-quê, não diz coisa com coisa, e depois há-de acordar num sítio qualquer maravilhoso rodeado de plantinhas e florzinhas e passarinhos piu-piu e há-de ter uma amazona muita boa com enormes seios a tratar-lhe das feridas, tipo Princesa Xena e, claro, depois disso ele e ela ....

Sara relincha subitamente, como se fosse um estratagema por parte do narrador para evitar que a insanidade febril de Ventura reduzisse ainda mais drasticamente o nível de qualidade do texto.

Ventura levantou-se e not...

- Oh diabo! Não vejo nada! Só está aqui a Sara e pouco mais. Nem o chão parece existir! Essa agora!

O aventureiro precipitou-se na sua interrupção, pois não permitiu que a cena em que se inseria fosse descrita e como tal, não podia ver o que não tinha ainda sido criado para os seus sentidos.

- Mas eu não posso estar sempre dependente de ti, narrador! Se um dia decides matar-me, como é que é? Ou, pior ainda, se não me arranjas uma amazona? Seios grandes, não te esqueças. Não pode ser. Não preciso de ti! Sou Ventura Lobo, grande aventureiro e caminhante de todas as estradas.

Nas suas deambulações, Ventura não compreendeu que o próprio narrador é também ele um vassalo dependente de outra entidade.

 

 

Já chega, é a vez de eu entrar e resolver isto, que a narrativa já está a ficar descontrolada.

- Essa agora? Quem disse isso?

 

 

Uma forte luz verde-marinho é projectada à frente de Ventura que decidiu pegar na sua espada com as poucas forças que lhe restavam. Para sua surpresa, Venceslau desaparecera da bainha. Desesperado, agarrou o seu sabre Ahmet. Enfrentou a luz de frente, preparando-se para uma luta com um ser sobrenatural.

A luz parecia divertida com o espectáculo. Decidiu tomar forma física, condensando-se num molde humanóide. À medida que as cores perdiam o brilho e a criatura era revelada, Ventura Lobo distinguia novas características do estranho interlocutor: o corpo era claramente humano, coberto de roupas modestas, mas a cabeça era a de um peixe.

Um bacalhau, na verdade, acho que devo dizer isso, para ser claro.

Não era a primeira vez que Ventura via um homem sereia, mas normalmente a parte que era peixe era a inferior, e não a superior. No entanto, a particularidade mais bizarra era uma coroa real pobre, provavelmente feita de latão, que encimava a cabeça ictióide.

O aventureiro demente notou que não se conseguia mexer de todo à medida que o homem-peixe avançava descontraidamente na sua direcção. Parou à sua frente e devolveu-lhe a sua espada. Ventura pegou na espada mesmo sem o querer, ou seja, sem ter dado ordem consciente aos seus músculos e afins para o fazer.

- Essa agora... mas que diabo?

Nada de diabos, ò Ventura. Não te preocupes que eu não sou o mau da fita. Aliás, não posso realmente dizer que esteja associado ao Bem ou ao Mal. Posso, contudo, dizer que é graças a mim que existes ainda.

Ventura não respondeu, confuso.

Permite-me apresentar-me. Sou o Autor, aquele que criou este mundo, com uma ou outra ajuda (leia-se, cópia) de outras obras de fantasia já existentes.

- Se isso é verdade, porque é que apareces como um peixe com uma coroa na cabeça?

Ah, essa é apenas uma das várias formas com que normalmente me caracterizo. Hoje calhou-te que eu escolhesse aparecer como o Rei Bacalhau, nem que seja só para me aproveitar da tua febre para depois pensares que foi tudo um sonho maluco. Aliás, aviso-te já, no próximo episódio, ou aventura, é isso mesmo que vai acontecer. Acordas e tal e pensas que tiveste um sonho muita estranho.

- E a Xena?

Lamento, mas tenho outros planos.

- É pena, eu realmente gosto de...

Vá, vá, acaba lá com esse tipo de comentários, essas piadas não funcionam sempre.

- Espera lá, ò bacalhau ou rei ou autor ou lá o que és... Porque carga de água é que o teu diálogo não tem tracinhos no início?

Como bem disseste, eu sou o Autor. Posso fazer o que bem me apetecer. Não uso travessões porque eu não sou realmente parte do teu mundo. Sou mais parte do mundo do narrador do que do teu. Como tal, não me parece adequado usar diálogo normal para mim. Seja como for, acho que se entende bem. Eu falo na primeira pessoa, o narrador não.

- Parece-me desnecessariamente rebuscada tal teoria. Por outro lado, um dos requisitos para se ganhar um prémio Nobel aparenta ser confundir o leitor o máximo possível com paupérrima pontuação e construção textual.

Seja como for, venho aqui para pôr alguma ordem no texto, pois a tua febre está a fazer-te demasiadamente consciente de elementos exteriores ao teu mundo, nomeadamente o narrador.

- Ele também não é grande coisa. Nem conseguiu colocar-me num sítio com as mínimas condições. É só escuridão à minha volta.

Bom, para a próxima não o interrompas antes de ele acabar a sua descrição ambiental. Vá, agora cala-te lá um bocadinho, senão nunca mais saímos daqui.

Ventura assentiu. Finalmente conseguiu olhar à sua volta depois de ter acordado tão bruscamente, ao ter caído de Sara. Estava agora na cidade capital de Ruqum, que partilhava o mesmo nome que o reino em que se inseria. A cidade estendia-se horizontalmente pelas profundezas como se fosse um imenso túnel e não uma cidade. Era uma maravilha geométrica, com as paredes e imensas colunas a delinear perfeitamente cada um dos edifícios que tinham sido perfurados directamente nas pedras.

- Então mas como é que eles viam fosse o que fosse? Não devia estar completamente escuro? Estamos dentro da montanha, não?

Cala-te Ventura, já lá vamos...

A cidade parecia tão deserta como qualquer outra cidade Ruqi. Não beneficiava de qualquer manutenção provavelmente há muitos séculos. A única iluminação disponível apresentava-se sobre a forma de fendas quadradas no tecto que provavelmente subiam até à superfície. Algumas estariam certamente tapadas por entulho, mas as que não estavam eram em número aparentemente suficiente para se poder ver adequadamente.

- Ou seja, até agora, uma descrição perfeitamente genérica de uma cidade típica de uma civilização que vive debaixo de terra, tipo os anões do Senhor dos Anéis.

Bom... sim, era por aí que eu estava a pensar...

- Pois, e deixa-me adivinhar, os edifícios estão todos incrustados de ouro e jóias e tal?

Enfim... mais ou menos.

- Já foi tão utilizado e reutilizado esse conceito...

Mas não são anões... são Ruqi, humanóides feitos de pedra, e portanto tem de ser coerente com a cultura deles, não?

- Pensava que eras o Autor. Não és tu que decides o que é que é coerente ou não? Só sei que nada disto é original.

Vá, ainda admito que sim... ò narrador, vamos tentar de novo.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

A luminescência de estranhos cristais começou a preencher o ar frio e húmido. Toda a gruta estava coberta de cristais que apontavam em todas as direcções, brotando naturalmente das paredes. Entre os cristais adivinhavam-se alguns edifícios de pedra, semelhantes aos que Ventura já vira nas cidades-montanha exteriores. Os marcos de pedra do exterior pareciam ter sido substituídos por marcos de cristal brilhante, com indicações indecifráveis para quem não as soubesse ler.

- Alto! Espera lá. Isto é tipo a fortaleza do Super Homem?

Bom... suponho que sim, sei lá, isto são apenas coisas que me vêm à cabeça.

- Está bem, mas certamente consegues fazer melhor. Espero que não faças isto como profissão, senão estás bem tramado.

Epá, pronto... está bem, deixa lá ver. Ò narrador, tem lá paciência...

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ouviu-se um zumbido crescente, que escalou apressadamente para uma cacofonia de barulhos mecânicos. Alguma coisa parecia ter acordado. Subitamente, imensos pontos de luz tornam-se visíveis e a cidade ganha vida. Máquinas imensas giram centenas de rodas dentadas. Cada ponto de luz originava de pequenos frascos de vidro que se espalhavam quase aleatoriamente pelos edifícios que se erguiam orgulhosamente pela caverna adentro. Os próprios edifícios eram movidos pelas imensas máquinas num feito impossível de engenharia.

- Espera lá.

Mau.

- Então mas agora de repente os Ruqi eram engenheiros fantásticos? Pensava que querias ser coerente...

Não me estás a dar muitas alternativas, tão picuinhas que és.

- Mas isto parece totalmente copiado de algum sítio... não sei bem de onde... é de algum videojogo?

Sim, é, pronto, já estou a ver que também não te agrada.

- Não é original.... É assim tão difícil pensares em algo novo?

Tens de compreender, Ventura, que felizmente ou infelizmente, já quase tudo foi escrito anteriormente. Já tivemos grandes génios a fazer obras de arte na área da fantasia medieval. É muito difícil superá-los se eles já apanharam os melhores temas. Quase que chegamos a um ponto em que não se pode mesmo inventar mais. Mesmos os génios de outrora basearam-se sempre em algo anterior a eles para escreverem. Diz-se que o Tolkien, por exemplo, se baseou na carga dos hussardos polacos na batalha de Viena para aquela carga mítica análoga no Senhor dos Anéis. Até que ponto é que é realmente copiar descaradamente ideias de outros autores? Até que ponto não será na verdade um elogio às suas obras?

- Isso não é uma resposta muito convincente.

Talvez não, mas é a resposta que te dou. Tentemos de novo?

- Tentemos de novo.

Narrador, se fizeres o favor.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ao habituarem-se à escuridão, os olhos de Ventura começaram a distinguir uma caverna coberta de musgo fosforescente, que se prolongava sinuosa e inconsistentemente até ao horizonte escuro e limitado por paredes rochosas íngremes. Pequenas cascatas corriam alegremente a toda a volta. As casas dos Ruqi escondiam-se debaixo do musgo luminoso, que se apoderara completamente dos antigos sinais de civilização dos seres de pedra. Uma espécie de trilho de gravilha ainda era visível e indicava o caminho que percorria a cidade de lés a lés, sendo provável que segui-lo seria o suficiente para atravessar as profundezas da cordilheira para atingir as terras do Norte.

Então?

- Então o quê?

Ainda não interrompeste.

- Ah, olha, nem reparei, estava a observar a caverna toda bonitinha.

Ah, então aprovas? Óptimo. Nesse caso, vou pôr-me a andar que os leitores devem estar completamente às aranhas sobre o que está a acontecer aqui. Não se preocupem meus caros, a narrativa vai retomar o seu fluxo normal. Não voltará a acontecer. Agora até me sinto como o Hulk Hogan naquele filme dos Gremlins, acho que era o segundo.

O Autor transformou-se de novo na luz verde e desapareceu sem dizer mais nada. Ventura Lobo embainhou Venceslau e montou Sara. Agora estava pronto para atravessar esta cidade mágica, linda e esquecida. Estava pronto para se maravilhar com as excelentes descrições que seriam feitas ao pormenor sobre cada uma das características misteriosas que a terra escondeu durante tanto tempo. Se calhar até poderia encontrar alguns dos famosos tesouros Ruqi!

 

Ordenou a Sara que avançasse pelo trilho.

 

E adormeceu imediatamente, exausto.

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publicado às 11:06


O Despertar - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 03.09.16

Ai, se não leram o que está para trás vão estar às aranhas neste....

 

Ei-lo, rodeado de clichés, de espada desembainhada e apoiada majestosamente no chão, cabelo a esvoaçar levemente, empurrado pela brisa árida que anunciava a noite, de armadura branca a reluzir os últimos lampejos de um dia cuja fase solar estava prestes a terminar. Era sem temor que Ventura Lobo, o herói, esperava enquanto uma companhia inteira de soldados subia pela cidade-montanha de Ruquru, ignorando os seus habitantes de pedra adormecidos. Segundo Riq, o último dos Ruqi, estes soldados eram seguidores do misterioso culto de Otto'Gháfiq, do qual Ventura Lobo nunca ouvira falar de senão muito recentemente. Riq colocara-se em posição de estátua no fundo das escadas que davam acesso ao cume, imitando perfeitamente os seus compatriotas, mascarando-se de guarda com um escudo e martelo massivos.
Os soldados aparentemente perseguiam Sa Rah, ou Sara, como Ventura lhe passara a chamar, uma égua dos pilhantes Maglu que eles haviam abandonado na orla das Matas Míticas de Tamor, e da qual Ventura se havia apropriado. Se havia uma razão para que esta égua fosse tão importante para este culto, Ventura não a sabia. Sara havia subido até ao cume da cidade, através do último lance de escadas que Ventura Lobo estava a postos para defender, caso fosse necessário.
Esperou com uma mistura de impaciência e divertimento a chegada das várias dezenas de soldados que invadiam os grandes lances de escadas de Ruquru.
Quando os primeiros surgiram dos degraus, Ventura notou de novo o que já observara anteriormente. Os soldados eram de culturas diferentes uns dos outros, vendo-se humanos de várias espécies, mas mais surpreendentemente alguns antropomorfos mais exóticos, alguns dos quais Ventura apenas ouvira falar: os tropicais homens-papagaio de Zbiral, os ferozes homens-pantera de Muçbinq, os homens amarelados das longíquas ilhas de Tumir.
- Essa agora...
Perante tal espectáculo, Ventura esperava que o líder deste bando fosse alguma espécie de lagosta. Literalmente. Era só o que faltava.
Para seu desapontamento, um humano que parecia ser demasiadamente nobre para se esperar encontrar nestas andanças destaca-se do grupo que continuava a chegar. Aproximou-se de porte erguido de Ventura Lobo e tirou o capacete.
Ventura sorria ligeiramente, o que seria um indício convidativo, não estivesse ele a segurar uma espada branca que perfurava gentilmente o chão de pedra. Começou ele:
- Boa tarde, cavalheiro. Expresso-lhe as mais amistosas boas-vindas a esta cidade arruinada, cujos únicos anfitriões são estas estátuas, como pode ver.
O nobre foi rápido a responder.
- Saudações, guerreiro, pois vejo pela sua expressão corporal que espera a guerra. No entanto, não vi guerra nenhuma na área circundante e portanto devo-lhe perguntar qual a razão da sua pose defensiva?
- Caro cavalheiro, pois bem sinto que falo com um, imploro-lhe que se coloque na minha situação ao ver uma companhia de cavaleiros armados a desmontar no sopé da montanha onde estou. Asseguro-lhe que apenas estou a agir preventivamente.
- Compreendo, é claro. Permita-me que lhe pergunte o nome.
- Dou-lhe a minha permissão para perguntar.
O nobre não se incomodou com a zombaria de que parecia ser alvo.
- Pois bem, qual o seu nome, por favor?
- Sou Ventura Lobo, aventureiro em missão, a repousar esta noite nestas montanhas pouco convidativas, mas seguras.
- Um aventureiro? Aqui? Não há aventuras para se ter nas terras de Ruq. Os tesouros esquecidos dos Ruqi estão mais a norte, escondidos onde ninguém consegue chegar. Aqui, neste local, não há nada.
A espada Venceslau tremeu.
- Esta é apenas uma paragem, e não o meu destino.
- Mas é uma paragem estranha, compreenda. Certamente terá seguido a estrada que se encaminha para as montanhas. Porque é que decidiu desviar-se para uma zona tão inóspita?
- Bom, para lhe ser sincero, desviei-me porque me deparei com um exército que marchava na direcção do Reino. Não sabendo as intenções de tal exército, preferi não arriscar.
As feições no nobre, até agora algo graves, pareceram iluminar-se ligeiramente.
- Ah! Bom, amigo, não precisava de ter medo. Apenas viu parte do grandioso exército de Otto'Gháfiq, o purgador, que se prepara para espalhar o concorde Otto'Gháfiq por todas as terras.
- Bom, com um cognome desses seria de esperar que estaria em letra maiúscula. Tipo, o Purgador! Para dar dramatismo à coisa.
O nobre olhou para trás, investigando com o olhar os seus soldados. Sorriu.
- Isso seria incorreto segundo o concorde.
Venceslau tremeu de novo. As gemas transparentes incrustadas nela começaram a emitir uma subtil luz suave alaranjada.
O nobre continuou.
- Seja como for, como eu dizia, não tinha razão para fugir dos exércitos de Otto'Gháfiq. Isto é, a não que tivesse algo a esconder...
"Ai ai ai ai ai..." - pensou Ventura.
- Não compreendo.
- Caro aventureiro, se aqui chegámos foi porque seguimos o rasto de um cavalo Maglu que temos andado a perseguir. Certamente não viria aqui por si só, o que me permite inferir que quem o trouxe aqui estará nas redondezas, já que vimos o cavalo subir esta montanha. Ah, aliás, lá está ele. - disse, apontando para o topo da terraço que era o cume de Ruquru.
De facto, Sara observava a situação com algum interesse preocupado.
- É apenas um cavalo, não vejo qual a razão de tamanho alarido para justificar trazer uma companhia inteira.
O nobre já perdera qualquer resto de indulgência forçada com que tinha falado até essa altura.
- Este cavalo foi-nos roubado e queremos reavê-lo, ponto final. Recusas-te a admitir que o roubaste, canalha?
Ventura Lobo não gostou do tom.
- Caríssimo, não nos azedemos. É verdade que encontrei este cavalo atado a uma árvore nas matas de Tamor. Ora, um cavaleiro Maglu raramente abandona o seu corcel assim sem mais nem menos. Se verdadeiramente o cavalo estava convosco, então devo perguntar onde está o dono dele, pois um cavalo Maglu apenas responde a quem o domou.
O nobre não respondeu imediatamente.
- Precisamente, caro amigo. Veja como hesita em responder-me a uma pergunta simples. Serei realmente eu o criminoso principal por ter roubado o cavalo cujo mestre foi assassinado por vós?
O nobre fartou-se finalmente. A diplomacia não resultara.
- Afasta-te, ou os meus homens matam-te! - rosnou.
- Mas que raio tem aquele cavalo de especial?
- Ele tem um documento que tem de ser purgado!
- O quê? Um documento? É só por causa de um papel? Ah, espere lá então!
Ventura virou-se e subiu energicamente as escadas que conduziam a Sara. O nobre virou-se para os seus soldados, que partilhavam o mesmo ar de perplexidade que o seu líder sobre a excentricidade de Ventura Lobo. Este procurou longamente na sela de Sara.
- Ah! Deve ser isto.... Mas... Essa agora... Não, não pode...
Ventura desceu as escadas de novo.
- Olhe, só encontrei um papel, mas não deve ser isto, seria ridículo... absurdo... mesmo no contexto deste universo incoerente e parvo.
- O que é? O que diz lá? - perguntou o nobre, impacientemente.
- Bom... é uma receita de "Gelado Praliné de Chocolate". Não faço ideia que raio é que isso quer dizer.
- É isso mesmo! Dê-me cá isso!
- Alto lá, mas por que carga d'água é que isto é importante?
- É tudo parte da purga! O concorde tem de triunfar!
- Bom, com o Concorde 4590 a coisa não resultou lá muito bem. Ah, espere lá, o Otto'Gháfiq é um avião?
O nobre nem respondeu, mas franziu imenso os olhos, duvidando a sanidade de Ventura. Já começa a ser hábito escrever isto.
- Estou a ver que não deve ser... pois... voltando à receita, isto não diz nada de especial... - e leu por alto alguns trechos. - ...150g chocolate para derreter... rónhónhó, rónhónhó .... óleo q.b. para a Torre de Moldar ... nem sei onde isso fica ... não sei quê ... instruções e tal .... microondas... certo...
- Blasfémia! Uma das palavras proibidas! Apoderem-se daquele documento, homens!
- Han? O quê? Microondas? Essa agora... Alto lá, jovens, não sei qual é a vossa, mas eu não vou dar nada só porque vocês querem! Expliquem-se!
- Essa palavra está mal escrita! Segundo o concorde, escreve-se micro-ondas! Esse documento tem de ser destruído!
- Oh diabo... eu não sei que raio de Concorde é esse, mas vão-se informar melhor que microondas não leva hífen...
- Herege! - berrou o nobre. - Usaremos força se necessário! Dá-me isso!
- Não tenho medo de força. Tenho de exercitar os músculos de qualquer maneira.
- Maldito sejas, idiota! Que pensas fazer contra uma companhia inteira de soldados armados até aos dentes, alguns literalmente? Pensas em fazer uma defesa heroica contra todos nós?
Tanto Venceslau como Ventura já se haviam fartado.

 

Ventura Lobo empunhou a espada e trespassou o nobre na barriga, surpreendendo-o. A armadura fina de nada lhe valeu.
- Não, planeio em fazer uma defesa heróica. Com acento. - disse-lhe, enquanto o nobre deslizava da espada para o chão.
Os soldados entreolharam-se, duvidosos sobre o que fazer.
- Ouçam meus caros, não temos aqui câmaras, mas nada nos impede de fazer uma daquelas cenas de luta dos filmes de fantasia dos anos 80. A única diferença é que sou um bocado mais eloquente do que o Arnaldo. Vá, vamos lá a uma boa coreografia.
Dito isso, Ventura Lobo atirou-se de rompante ao soldado mais próximo, atirando-se loucamente para uma situação de desvantagem numérica supostamente impossível de superar. Deram todos um passo atrás, mais uma vez surpreendidos pelo ataque tacticamente insano. Ventura desferiu um golpe no ombro, não separando o braço completamente, mas efectivamente pondo o inimigo fora de acção. Rodopiou para a direita, atingindo um outro na barriga com o pomo da espada, finalizando-o com um golpe rápido de punhal. Finalmente os soldados pareceram acordar e decidiram atacar. O primeiro furou o ar com a lança, mas Ventura desviou-se agilmente e Venceslau teve a abertura que precisava para cortar o lanceiro lateralmente abaixo das costelas. Ventura não teve tempo de dar o último golpe, pois um homem-pantera lançou-se felinamente a ele, atordoando-o. Ventura ripostou com uma cabeçada e um golpe rápido com o punhal onde imaginava ser o coração da criatura. Aproveitando-se de um pequeno espaço que os inimigos erradamente lhe deram, preparou e disparou um dardo da sua besta, furando a garganta de um homem com armadura kamiliana. Dois canibais das tribos de Goné aproximavam-se cuidadosamente, erguendo o escudo quando Ventura disparou mais um dardo. Não conseguindo recarregar a besta em tempo útil, lançou uma pedra à perna do canibal da direita, que consequentemente tropeçou para cima do colega. Ventura feriu o da esquerda na coxa, obrigando-o a ajoelhar-se, e imediatamente socou-o violentamente com a manopla direita. Rodopiou rapidamente, segurando Venceslau apenas com a mão esquerda e abrindo um golpe profundo no pescoço do outro canibal.
Mais soldados chegavam à batalha, cansados pelos vários lances de degraus que tiveram de subir à pressa, alarmados pelos sons de batalha. Ventura Lobo dançava pela praça, cortando o ar veloz, incisiva e precisamente, desferindo um outro golpe fatal a mais um soldado de Otto'Gháfiq. Impressionou-se ao ver o que parecia inicialmente ser um bigode andante, sendo na verdade um humano de Aguard. Era, inesperadamente, uma mulher, o que imediatamente o relembrou da filha do estalajadeiro ainda na Capital. Por curiosidade, pontapeou a inimiga e, imobilizando-a, tentou cortar-lhe o bigode para ver como é que uma mulher de Aguard ficaria sem o seu orgulhoso pêlo facial. Pois bem, debaixo daquele bigode havia apenas outro bigode, o que fez Ventura pensar que se calhar já devia estar à espera disso...
E agora o tempo pára durante uns momentos. Eis que Ventura Lobo (ou por outras palavras, o seu criador) se depara com um dilema. Tem uma inimiga para despachar, mas não se pode matar uma mulher, a não ser que se queira incentivar propositadamente uma cruzada feminista. É que os homens vieram ao mundo essencialmente para se matarem uns aos outros. Tudo bem. É de homem. Matar uma mulher, por outro lado, só é aceitável num contexto doméstico e normalmente só com violência suficiente para aparecer no Correio da Manhã. Para Ventura Lobo, matar uma mulher, mesmo que seja soldada, pareceu-lhe eticamente inexequível. Precisaria pelo menos de uma justificação...
Venceslau estava pronta a trespassar verticalmente o abdómen da soldada (não poderia ser o peito, pois Ventura tinha uma vaga noção de que eram sensíveis), apesar de compreender a hesitação do seu mestre.
- Não! Para! Não faças isso! - gritou ela, subitamente, restaurando a narrativa.
- Como? Para o quê?
- Não! Para! Quero que pares! Por favor!
- Mas "pára" leva acento.
- Não leva não, o concor.....
Erro crasso por parte da ingénua soldada que não estava com atenção ao texto. Era toda a justificação que Ventura necessitava para premir a espada rapida e decisivamente contra o corpo dela.
Ventura levantou-se a tempo de se desviar de um ataque de sabre por parte de um kataliano. Levantando a espada de cima para baixo, perfurou o peito do homem moreno de um lado ao outro, tendo dificuldade em retirar a espada de seguida. Um novo inimigo notou esta dificuldade e correu para atacar. Ventura desembainhou o seu velho e leal sabre Ahtem. Bloqueou a primeira investida, largou Venceslau para soquear o soldado com a mão esquerda, neutralizando-o temporariamente, o suficiente para Ventura arrancar Venceslau do inimigo caído. Agora, com as duas espadas na mão, cruzou-as num golpe de habilidade, cortando a cabeça do inimigo atordoado como uma tesoura.
- Estamos todos entretidos, claramente. - murmurou, não deixando de pensar na óbvia referência cinematográfica para quem vê o canal Hollywood de vez em quando.
Embainhou o sabre e resumiu a luta apenas com Venceslau.
O fluxo de soldados não parava, apesar dos melhores esforços de Ventura para os manter longe das escadas, a verdade é que tinha progressivamente perdido cada vez mais terreno. Retirava inconscientemente agora para o meio da multidão de Ruqi adormecidos. Uma seta voou e atingiu um dos Ruqi, lascando-o. Ventura estava agora preso no meio da multidão. Por um lado estava protegido do arqueiro que disparara a seta, mas por outro tinha menor espaço de manobra para lutar contra os soldados que se aproximavam para mais um ataque. Embainhou Venceslau, e voltou a retirar o sabre mais curto e ágil. Tentou recarregar a besta, mas foi interrompido por mais um guerreiro. Também ele tinha dificuldade em manejar o machado dele, mas o seu escudo inicialmente impediu Ventura de lhe aplicar uma morte rápida. Antes de ser auxiliado por um aliado, Ventura pregou-lhe uma rasteira e penetrou-lhe o coração. Usou o pequeno escudo do inimigo para deflectir uma nova série de ataques por parte de um soldado mais experiente, que atacava com uma fúria controlada e consistente. Era um homem muito grande e muito forte, tanto que Ventura viu-o derrubar um dos pesadíssimos Ruqi para reduzir a vantagem táctica que ele tinha sobre o titã. O Ruqi caiu com um estrondo enorme derrubando outro Ruqi à sua frente. Este segundo era aparentemente mais frágil, pois ficou completamente quebrado ao atingir o chão maciço.
Uma seta finalmente atingiu Ventura. Não perfurou totalmente o seu colete de malha, mas não augurava nada de bom. Existia uma distância significativa entre ele e o arqueiro (que finalmente localizara visualmente), sendo que também teria de lutar vários dos seus companheiros no caminho e sendo também que faltava lidar com o gigante que derrubara os Ruqi. Ventura poderia ter comprado mais tempo, voltando a meter-se no meio da multidão, mas isso implicaria provavelmente sacrificar mais uma quantidade significativa de Ruqi, e não estava disposto a fazê-lo.
Surgiu um novo arqueiro, mas este tinha pontaria pior, pois na primeira seta que disparou acabou por acertar na cabeça de um homem-papagaio seu aliado. Felizmente para ele, apenas Ventura notou isso, com excepção da própria vítima que, objectivamente falando, teria dificuldades em queixar-se no estado bastante perpetuamente imóvel em que ficou.

 

- Se o que querem é vingança, então executem-na em mim, e deixem os habitantes da cidade em paz! - berrou Ventura, arfante, rodeado de inimigos.
O pouco amigável colosso humano riu-se a bom volume, e os seus companheiros acompanharam-no na zombaria.
- Não é que eles se apercebam. São apenas estátuas! - e derrubou desprezivelmente mais um Ruqi, que tombou ruidosamente. - Olha, mais um que caiu! Tens um aspeto desgraçado! - virou-se para Ventura. - E tu... Exibiste um belo espetáculo, mas acabou por ser um bocado dececionante no final. Irritaste a fação errada, Ventura Lobo. Não sei que objetivo tinhas para tomar uma ação tão defensiva por uma folha de papel, mas ag... - hesitou por um instante. - Olha lá, porque é que as joias da tua espada estão a mudar de cor?
De facto, as jóias embebidas em Venceslau estavam profundamente escarlates, e alumiavam a noite com um vermelho malicioso e irritado.
- Pois. Há certas coisas que a minha espada Venceslau não gosta de ouvir. Fizeste vários erros ortográficos recentemente, e isso irritou-a profundamente. E não me venhas com a treta desse tal Concorde. Se Venceslau pensa que é um erro, é porque deve sê-lo. Agora aviso-vos eu, afastem-se dessas estátuas! - e preparou-se para uma nova carga, parecendo infundido com algum novo tipo de força sobre-humana. Ventura parecia pulsar com uma leve aura vermelha não muito diferente das gemas de Venceslau.
- Vamos à cena em câmara lenta!

 

Ventura arremessou a sua espada contra um inimigo, impalando-o. Enquanto ele caia lentamente, Ventura correu na sua direcção, carregando um dardo na besta. Saltou e apoiou-se no inimigo que impalara para subir mais alto. Num gesto acrobático de meter inveja a um Olímpico, disparou na direcção dos arqueiros que tão inconvenientes tinham sido até agora, mas acabou por acertar no que tinha má pontaria. Ao descer graviticamente, desembainhou o sabre de novo e perfurou as defesas fúteis de um soldado, rasgando-o de cima a baixo. Largou o sabre para recuperar Venceslau do inimigo que tombara atrás de si e rodopiou duas vezes sobre si mesmo, repelindo alguns ataques e desferindo outros fortuitamente. Tinha a mente concentrada em chegar ao arqueiro. Desviou-se de uma seta. Deslizou a espada na barriga de um inimigo sem armadura eficaz para travar o ferimento fatal. Evitou uma estocada de um lanceiro, agarrando de seguida a lança, socando o soldado com o cotovelo e espetando a espada várias vezes. Largou Venceslau, agarrou na lança e lançou-a contra o último infante que defendia o chato arqueiro. Correu como um louco, sem arma alguma na direcção do pelejador de distância. Este ainda conseguiu disparar uma última seta antes de desembainhar uma pequena espada semelhante a um gládio. A seta atingiu Ventura no ombro esquerdo e àquela distância conseguiu perfurar a armadura dele. Não interessava. Ventura tinha o arqueiro à sua mercê. Retirou o seu punhal Qanif, agarrou no braço do arqueiro antes que este lhe pudesse desferir um golpe e enterrou a arma no pescoço do seu irritante inimigo.
Sem hesitar, voltou-se para a coluna de homens que se precipitava na sua direcção, fazendo o possível para apanhar Venceslau a tempo. Deu uma cambalhota para a frente, alcançou a sua espada, e lançou-se para o lado, colocando-se nos degraus que davam acesso ao cume. Ali teria uma pequena vantagem táctica.
- Não podes manter este ritmo para sempre, canalha!
Tinham razão, não poderia de modo algum fazê-lo. Ventura estava completamente envolto em suor, arfava descontroladamente e o ferimento no ombro retirava-lhe uma considerável porção de agilidade ofensiva, pois Venceslau era mais facilmente manuseada com as duas mãos.
O humano enorme avançou, preparando-se para desferir o golpe final a Ventura.
- Eu trato dele, já estou farto disto, quero ver se ainda aguentas comigo!
A falácia dos termos que comparam tamanhos entre dois indivíduos é que estes são sempre relativos. Deveras, este inimigo era maior do que Ventura e talvez mais forte (mesmo que Ventura não o admitisse, essa agora), portanto o termo gigante poder-se-ia aplicar ao tamanho relativo entre os dois. Evidentemente, não se pode dizer que aquele soldado enorme fosse a maior criatura viva ali.
O guerreiro prepara o seu machado para iniciar o combate com Ventura, passando ao lado de um Ruqi adormecido.

 

Aparentemente, isto é.

 

- Sui bandi de bárbaris! - roncou fortemente uma voz grossa e pesada. - Vândalis! Assassinis! Já vi i suficiente para tomar umi partidi!
Mal o gigante olha para o lado para perceber quem falara, levou com um escudo de ferro maciço com uma força brutal, esmagando-o e projectando-o para longe.
Um novo colosso acordara. Riq finalmente juntara-se à luta.
- Nã me quis meter numi luti que nã era mui, mas vós agredistes is muis irmis. Sofrereis!
Riq esmagou verticalmente um soldado com o seu martelo, liquefazendo-o.
- Eu sou Riq! I últimi dis Ruqi! Defenderei i mui cidadi!
Se ainda mais soldados não tivessem acorrido, certamente os que presenciaram o despertar de um colosso de pedra teriam fugido em terror. Não obstante todos os argumentos contra a continuação da luta, os cultistas do Concorde Otto'Gháfiq eram teimosamente persistentes. Tudo isto por causa de um hífen numa receita de sobremesa.
Os soldados sabiam que Riq não podia ser invulnerável, pois observaram que as outras estátuas, ou seres, partiam-se e lascavam-se. Num acesso de organização, formaram-se numa coluna, colocando lanceiros à frente para manter a criatura afastada. As lanças de facto arranhavam e partiam alguns pedaços do corpo de Riq, mas pouco efeito prático tinham nele. No máximo, conseguiam mantê-lo afastado para evitarem ser esborrachados pelo gigantesco martelo que empunhava.
Ventura celebrava internamente a intervenção atempada de Riq, que não só lhe salvou potencialmente a vida mas como também lhe deu algum tempo para respirar. Observando a falange improvisada que os soldados formaram, teve uma ideia. Subiu ao cume e dirigiu-se a Sara. Procurou algo na sua sacola que estava pendurada na sela. Tirou um saquinho fechado. Continha os seus preciosos sais de banho kamilianos que têm mais utilizações possíveis do que apenas limpeza para quem for conhecedor das propriedades deles. Nomeadamente, estes sais reagiam violentamente ao contacto com água muito concentrada. Ventura agarrou no seu cantil. Abriu o saquinho. Voltou para as escadas. O impasse entre os soldados e Riq mantinha-se. Ventura despejou o conteúdo do saco para o cantil. Calculou o movimento parabólico mentalmente e lançou o cantil, que já começara a ficar quente.
- Riq, proteja-se! - berrou Ventura por instinto, esquecendo-se que Riq é feito de pedra e que portanto a reacção química vindoura não teria tanto efeito nele.
Riq obviamente não sabia isto, por isso levantou o escudo no momento em que o cantil caiu no meio da formação humana.
Uma imensa explosão de aromas e perfumes perfeitos e indescritíveis para os limitados olfactos humanos limpou literal e metaforicamente todos os sujos soldados, catapultando-os em todas as direcções num espectáculo fatalmente colorido, mortalmente folclórico e horrivelmente alegre que faria inveja a qualquer anúncio de detergente de roupa.
Até Ventura Lobo ficou impressionado e ficou a pensar no que aconteceria se alguma vez metesse demasiados sais no banho.
A explosão desbaratou completamente os soldados, e consequentemente Riq pôde manobrar o seu corpo imenso pela praça, caçando facilmente os inimigos isolados e confusos.
Apesar de tudo, a determinação fanática destes cultistas em atingir o seu objectivo era deveras impressionante. Continuavam a atacar, apesar do campo de batalha repleto de camaradas caídos, mortos, feridos, ou queixosos no geral.
Um conjunto de soldados veio ao encalce de Ventura. Este colocou-se numa pose defensiva nos degraus, fazendo por se aproveitar da vantagem. Infelizmente, desta vez vieram três de uma só vez, e apenas nos filmes é que se pode esperar derrotar três inimigos concorrentemente, normalmente com ajuda de alguma fortuita armadilha ambiental. Não era o caso. Deflectiu o melhor que pôde os ataques dos guerreiros e teve a sorte de ferir um no ombro. Contudo, foi obrigado a retirar, subindo um degrau de cada vez até atingir o cume.
Gesticulou a Sara para se afastar. Ventura estava prestes a ser rodeado de inimigos, mas subitamente estes olharam para a estátua no centro do cume, sentada num banco.
- E se acorda?
- Este está arrumado, nós tratamos dele, vão destruir a estátua antes que acorde também!
"Oh diabo!"
Ventura não o permitiria. Não tão facilmente. Usou o último dardo na sua aljava para impedir que o soldado inimigo chegasse ao companheiro (ou companheira?) de Riq. Acertou-lhe desastradamente na perna, mas o objectivo foi cumprido.
Ventura lançou-se para o lado, fazendo uma cambalhota dolorosa devido ao seu ferimento. Queria colocar-se entre o Ruqi e os atacantes.
- Riq!! RIQ! - berrou exasperadamente. - Vem cá! A tua.. não.. o teu... ui... sei lá o que aquilo é, nem carne nem peixe, essa agora... olha, que se lixe.... I TUI ESPOSI!
Um demorado rugido alastrou-se pela cidade-montanha e pelas cordilheiras fora, ecoando como um doloroso lamento furioso.
Ventura já bloqueava os ataques ao Ruqi. Um soldado com uma maça desferiu um golpe na perna de pedra, rachando-a. Foi imediatamente a seguir pontapeado e derrubado por Ventura, que não teve oportunidade de dar o golpe final, pois um lanceiro já arranhava violentamente o peito nu do Ruqi. Ventura arremessou Venceslau de novo, que perfurou o ar e penetrou por entre as costelas do soldado.
Se Venceslau não fosse uma espada, já certamente estaria enjoada de tanta tripa.
O sabre de Ventura ficara esquecido no patamar inferior, por isso pegou simplesmente na lança inimiga e começou a agitá-la selvaticamente, ganhando tempo.
O chão tremeu. Riq chegara ao topo das escadas. Dois homens vinham às cavalitas e outro ainda vinha viscosamente agarrado debaixo do seu massivo pé depois de ter sido esmagado.
- Raqarnal! Nã! Miseráveis! Covardis! Afastem-se di mui queridi!
Riq correu pesadamente pelo cume até se juntar a Ventura.
- Riq, chega a boa altura! Eles estão a atacar os Ruqi com medo que acordem.
- Elis nã acordam nem assim, acredita que já tentei, amigui.
- Pois, mas tente explicar isso a estes jovens! - respondeu Ventura, tentando uma estocada num soldado.
- Estás feridi, Lobi?
- Não me viu levar com a seta no ombro!? Não me consigo mexer muito neste braço!
- Ah, esqueço-me dis vossis fragéis glândulis moles.
- Sinceramente, estou mais preocupado com a racha "di tui esposi".
O Ruqi virou-se com violência para Ventura, como que ultrajantemente insultado, permitindo inclusive o seu inimigo acertar-lhe nas costas montanhosas.
- I QUE É QUE DISSESTE!?
- Não não, ouça, literalmente, uma racha aqui na perna, nada dessas badalhoquices! - explicou-se Ventura, hesitando enquanto decidia se se devia preparar para se defender do inimigo ou de Riq.
Riq inspeccionou Raqarnal (devia ser o nome deste Ruqi), e notou com dor uma fenda na perna direita. Para um Ruqi, este ferimento não era grave, mas a visão da ferida perturbou imensamente Riq, pois, de uma maneira ou doutra, este era o ser com quem jurara passar os vários séculos de existência, adormecido ou não. Vê-lo afectado por uma fenda, por mínima que seja, é razão suficiente para poder declarar que falhara no seu dever de protecção, especialmente num tal estado de impotência de dormência aparentemente eterna.
Ventura gritava e berrava para reganhar a atenção de Riq para a luta feroz que se desenrolava à sua volta, mas este estava apático e taciturno. Os olhos grandes como pérolas negras (e bem vistas as coisas, provavelmente eram literalmente pérolas negras) pareceram humedecer-se. Gotas trémulas escorreram pela face de Riq abaixo, mas secaram e enrijeceram pouco depois, pois eram na verdade metal fundido, transformando a cara de Riq numa peça de arte moderna.
Seria estranho se um ser gigante mineralógico chorasse água em vez de algo mais apropriado.
- Riq! Preciso de ajuda! Deixe lá isso!
Mas Riq não ligou. Para si a batalha já terminara.
- Como deixei isto acontecer? Tantis Ruqi destruídis, só para salvar um estranhi. E agora até ele foi atingido! - afagou asperamente a cara de Raqarnal. - Oh querido, como chegámos a este ponto?
Ventura ouviu as palavras suaves murmuradas enquanto soqueava um homem-pantera que o mordia no braço. Notou que um dedo do Ruqi adormecido pareceu mexer-se.
- Desculpe? Riq? O que é que lhe chamou? Chamou-lhe "querido"?
Riq assentiu, não dando importância.
- Ele é um "ele"?
Riq olhou para Ventura, notando agora também o facto inconsciente que dissera.
- Sim... acho que sim... era o meu querido. É o meu querido!... Raqarnal! O meu esposo!
A mão de Raqarnal espasmou.
- Então "i sui esposi" era "o seu esposo"? Estava completamente convencido que era... enfim... uma Ruqi!
- Uma Ruqi? Não.. não é assim... Ruqo e Ruqa. Eu sou uma Ruqa. Ele é um Ruqo. O meu Ruqo. - e Riq pegou-lhe na mão há tanto tempo imóvel. Apertou-a, ouvindo-se o ranger da fricção das rochas.
A mão retribuiu subitamente o aperto.

 

Raqarnal abriu os olhos, que eram dois rubis perfeitamente polidos e brilhantes.

 

Os soldados de Otto'Gháfiq recuaram, assustados, entreolhando-se nervosamente.

 

- Riq? - perguntou Raqarnal num tom muito grave e lento, depois de séculos de inactividade. - Quem... sã estis? Que... aconteceu? Tenho.... noçã.... di ter.... ador..mecido.... Que... confusã... Porque é que.... estás armadi? - olhou em volta e raciocinou. - Umi ataqui? Atacam-nos? - olhou para as cidades-montanha no horizonte. - Destruídis! Ruqgard! Ruqmur! Ruqlum! E agora Ruquru? Que fizeram ais nossis cidadis? Quem sois, bárbaris, para saber i nomi di mui inimigui!? - Dito isso levantou-se imponentemente. Era apenas ligeiramente maior que Riq, o que de modo algum eram boas notícias para os cultistas.
Ventura Lobo falou em primeiro.
- Bom dia, meu caro mestre dorminhoco, devo informá-lo que nem todos aqui são inimigos, e os inimigos que causaram a destruição das vossas cidades foram vós próprios, os Ruqi. Sou Ventura Lobo, aliado de Riq na luta contra estes cultistas que, resumidamente falando, se por um lado não podem ser culpados pela destruição da vossa civilização, têm associados o crime de quererem destruir os Ruqi adormecidos espalhados pela cidade.
Raqarnal olhou para Riq, como se pedindo confirmação. Esta assentiu.
- Ah POIS! Porque a Riq é uma ela, afinal! Essa agora, com mil diabos!
Alguns soldados já tinham começado a retirar. Agora sim já não havia pachorra para continuar a lutar. Um gigante de pedra é aceitável, dois não!
Raqarnal aproximou-se dos degraus e observou a destruição e o caos do campo de batalha que era a sua cidade. Viu os Ruqi quebrados no chão. Viu as dezenas de corpos decepados e feridos. Viu os soldados a fugir aterrorizados pelo despertar de Raqarnal.

 

- Eu sou Raqarnal! I chefi di Ruquru! Defenderei i mui cidadi!
- Vocês gostam mesmo destes dramatismos, não é? Já a Riq disse o mesmo. - notou Ventura Lobo enquanto desprendia Venceslau do corpo de um soldado.
Montou Sara, preparando-se para perseguir o inimigo em fuga. Raqarnal, Riq e Ventura Lobo desceram os degraus, a correr, passando pela destruição causada pela batalha de Ruquru.

 

Durante a noite Ventura teve oportunidade de tratar do seu ferimento no ombro o melhor que podia enquanto Riq informava Raqarnal de tudo o que ocorrera nos últimos séculos.
- Mas entã.. perguntou repentinamente Raqarnal, quando Riq explicava os acontecimentos das últimas horas. - porque é que i ajudaste? Esti glandular na causou nada senã problemis...
- Se não o tivesse ajudado, a profecia não se teria cumprido. E pára de falar assim, ruqo!
- Sim, claro. Qual profeci... profecia?
- A do tal Mago. "A solução está no Bem".
- Ainda não compreendo...
Riq, que se revelara de um momento para o outro uma ruqa incivelmente doce, apenas lhe afagou a face, suavemente mesmo para uma criatura de pedra.
Raqarnal pareceu sorrir.
- O Bem. Compreendo, sim.

 

Os Ruqi ficaram de vigia durante o resto da noite. Ventura e Sara repousaram juntos traquilamente até ao primeiro raiar do Sol.
Quando Ventura acordou, completamente dorido no corpo inteiro e particularmente no ombro, assustou-se ao verificar que estava sozinho. Levantou-se apressadamente e desembainhou Venceslau. Aproximou-se dos degraus e ficou tranquilizado ao ver Riq e Raqarnal a arrumar os corpos dos cultistas. Desceu as escadas embainhando a espada de novo.
- Bom dia! - gritou Riq alegremente ao ver Ventura. - Já te estavas a preparar para dormir uns séculis? Aliás, uns séculos? Creio que isto é teu.
- O meu sabre, ah, obrigado, de facto deixei-o aqui ontem.. ah diacho, já terei de o levar a um ferreiro outra vez.
O chão tremeu atrás de Ventura, mas não percebeu porquê. Virou-se.
Um terceiro Ruqi ajudava na limpeza. Atrás desse mais dois também trabalhavam. Ventura olhou para Riq inquisitivamente.
- É verdade, Lobo, conseguimos acordar a minha irmã, Reqla, e ali estão os chefes das cidades de Ruqjiko e de Ruqfor.
- Como é que os acordaram?
- Aparentemente, com afecto.
- Perdão, mas essa é uma resposta muito lamechas.
- Mas é verdade, só me aproximei dela, tratei-a pelo nome e murmurei "adoraria que também acordasses, minha querida irmã Reqla".
- Nunca tinha tentado isso antes?
- Dito assim não... dizia "adoraria que acordasses, mui queridi irmi Reqla".
Ventura acenou com a cabeça.
- E os chefes?
- Acho que Raqarnal lhes prometeu um copo de ouro fundido na famosa taberna de Raqdruk.
- Para isso seria preciso estar lá alguém, não?
- Estará lá, eventualmente. Vamos agora acordar e remendar os nossos erros, consertar as nossas cidades e preparar o nosso futuro. Vamos agora despertar. – silenciou-se por uns momentos. - Serão precisos muitos ruqinhos.
Por difícil que fosse identificar qualquer emoção nas caras de um Ruqo, Ventura notava uma aura maternal a emanar de Riq, especialmente quando falou nos "ruqinhos".
- Se queres que te confidencie, Ventura Lobo, notei de ontem para hoje que a minha... "zona" está a crescer de novo. E a de Raqarnal também.
Ventura abriu os olhos esbugalhadamente, e só se impediu de fazer uma careta arrepiante por se lembrar que poderia ser vista como mal educação.
- Ah..? Deveras..? Excelente..? Fico contente pela sua.. zona. E a do Raqarnal também. Há-de ser uma grande zona... n'é? Ah pois, para depois zonearem. É.. pois... ruqinhos e tal...

 

Ventura Lobo despediu-se dos Ruqi, dizendo-lhes que não se podia demorar mais, estava em missão, no final de contas. Os Ruqi indicaram-lhe um caminho que passava pelos antigos Reinos Ígneos dos Ruqi. Uma cidade dentro da cordilheira que dava passagem para o outro lado, colocando-o directamente nas temíveis terras do Norte.
Ventura ainda se voluntariou para pedir auxílio ao Rei em caso de novo ataque do Concorde. Os Ruqi garantiram que mesmo com imensos números, seres glandulares teriam terrível dificuldade em derrubar um só Ruqi, quanto mais dezenas deles.
Ventura arrumou as suas coisas nos alforges de Sara. Montou-a. Ao afastar-se da cidade-montanha renascida de Ruquru, olhou para trás, desembainhou Venceslau e elevou-a triunfantemente como gesto final de despedida.

 

- Quase que me apeteceu fazer uma pose mais à Zorro, mas se calhar já seria abusar. Eia Sara! Avante! E esperemos não apanhar a atenção de comunistas!

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publicado às 20:32


O Rapto - Parte VII

por Rei Bacalhau, em 20.07.16

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Quando Adrien, cumpridor da sua tarefa, abriu a porta do quarto na sua inspecção periódica, estranhou que estivesse tudo escuro. Pelo feixe de luz que invadiu o quarto, discerniu uma massa humana debaixo dos lençóis da cama. Mariana já estaria a dormir. O processo repetia-se mais ou menos a cada meia hora.

Obviamente que Mariana não estava realmente a dormir. Sendo de sono leve, cada vez que Adrien abria a porta acabava sempre por acordar. Isto teve o benefício de permitir que Mariana controlasse que horas eram. Quando se aproximasse da meia noite, manter-se-ia acordada para esperar pelo suposto extinguir das luzes exteriores. Certamente Adrien, ou outrem, faria uma outra verificação nessa altura. Mariana só se aventuraria depois.
Adrien entrou outra vez. Mariana acordou e olhou para o relógio. Faltavam 10 minutos para a meia noite no despertador velho. Quando Adrien saiu, Mariana começou a despir a camisa de noite que a D.Dina lhe emprestara e vestiu as suas roupas. Deitou-se outra vez e ficou ansiosamente à espera, alternando a visão entre os números lentos do relógio e a iluminação lá fora. Ouviu vozes fora do seu quarto. Reconheceu a rudeza grave da voz de Adrien a falar com outro homem. Estranhamente, a voz de Adrien afastara-se. Poderia estar a ser rendido? Mariana não se podia dar ao luxo de ter estas dúvidas agora. O relógio marcava 23:56.
Subitamente, as luzes públicas exteriores apagaram-se. Na verdade, não se poderia esperar que o relógio fosse coerente com o desligar das luzes, e Mariana sentiu-se um bocado estúpida ao não ter pensado nisso. Não teve tempo para pensar na sua autocomiseração, pois alguém abriu a porta, mas Mariana conseguiu perceber através de uma brecha nos lenções estrategicamente colocada que o miliciano não era Adrien. A porta foi cuidadosamente fechada.
Ouviram-se passos que se afastavam.
Mariana levantou-se num ápice, catapultando os lençóis para longe. Pegou na sua mala, colocou-a ao ombro, aproximou-se da janela e notou que o apagão era total. Nenhuma luz estava acesa nas ruas da vila inteira. Dois guardas estavam a vigiar a rua no outro lado da estrada. O apagão não parecia incomodá-los.
Mariana abriu a janela o mais gentilmente que lhe era possível, não obstante as mãos lhe tremerem vigorosamente. Uma nuvem no céu bloqueou a muito ténue luz lunar. Mariana não notou isto, por isso foi apenas coincidência que ela tenha começado a transposição nervosa da janela nesse preciso momento. Colocou o pé no parapeito, testando a sua integridade. Foi progressivamente tentando colocar mais peso até finalmente trazer o outro pé. Agora estava em pé em cima do parapeito. Existiam saliências decorativas ao longo das paredes velhas que Mariana teve facilidade em usar para escalar lateralmente para o edifício vizinho. Olhou para trás corajosamente para determinar se havia sido vista. Os dois guardas continuavam impávidos e serenos. Um deles verificava algo no telemóvel. Mariana continuou, respirando de alívio. Estava quase a chegar à primeira janela, que de facto já conseguia observar que estava parcialmente aberta. A sua transferência pouco ortodoxa foi imensamente mais fácil do que teria suposto. Nem a decisão de questionável razoabilidade de levar a sua mala consigo tinha dificultado significativamente a tarefa. A única dificuldade que ainda lhe afligia a mente era exactamente quem é que esperava por ela naquele quarto.
Chegou à janela, abriu-a devagar, colocou delicadamente o joelho na janela para começar a trepar.
Qual não é o seu terror quando é repentinamente agarrada no pulso. Paradoxalmente, foi a surpresa que a impediu de gritar, sendo que quase desmaiou com o surto de adrenalina.
- Ai, Jesus, agarre-se, moça - disse uma voz baixinho. - Vá, entre lá.
Mariana galga a janela e entra. Uma velhinha baixinha fazia-lhe festas na mão.
- Vá, agora está tudo bem, mas temos de ir, moça.
- D.Dina? Mas, foi a senhora que...?
- Sim, já temos tempo para explicar tudo, mas por amor de Deus vamos andando. Temos de nos pôr em segurança.
A D.Dina falava aos soluços, e o seu nervosismo parecia ser desproporcionalmente maior do que o de Mariana. A sua respiração era ofegante e fazia um certo ruído sibilante ao expirar.
- Vá, vamos. - repetiu a D.Dina.
- Eu sigo-a, obrigada.
O que poderia ter sido uma fuga impecável foi prematuramente impedida. Quando a D.Dina abriu a porta do apartamento, tinha vários homens à espera dela, entre eles o Chefe e Adrien.
A D.Dina caiu para trás e lançou uma exalação indescritível de susto. Mariana tentou apanhá-la como pôde, mas acabaram por tombar as duas.
- Pessoal, façam favor de ajudar as senhoras. - pediu o Chefe.
Cinco milicianos entraram no apartamento de rompante, mas apenas dois ficaram a ajudar. Os restantes foram investigar as divisões. A D.Dina foi sentada numa cadeira. Mariana fora afastada para um canto. Nenhuma das mulheres foi magoada.
O Chefe puxou um banco pequeno que encontrara por ali. Sentou-se à frente de D.Dina, esfregando a cara com as palmas da mão, num tom de desilusão. Suspirou, enquanto a D.Dina chorava.
- Júlio, vai ver se temos calmantes.
Adrien adiantou-se.
- A Mariana tem na mala dela.
Era verdade, mas Mariana, aterrada com o que poderia acontecer agora que fora apanhada, nem pensou como é que ele sabia isso. Adrien arrancou-lhe algo bruscamente a mala da mão. Acendeu a luz para encontrar o calmante. Júlio já diligentemente trouxera entretanto um copo de água. Ambos foram dados à D.Dina.
O Chefe falou-lhe num tom indulgente.
- Vá D.Dina, a última pessoa que eu esperava que fizesse uma coisa destas era a senhora. Posso assumir que teve boa razão para ajudar a Mariana a fugir? Posso pedir-lhe que me conte, nem que seja por descargo de consciência?
Entre baba, soluços, ranho e demais hesitações, a explicação de D.Dina traduz-se de seguida:
- Ai, valha-me Deus. Desculpe Sr. Chefe, desculpe, mas não tive escolha. Eles sabiam da minha família. Sabiam onde eles estavam. Se eu não colaborasse eles disseram que os matariam. Eles sabiam que isto era um refúgio para vocês. Ameaçaram-me para lhes informar sempre que viessem cá.
- Há quanto tempo é que fez esse pacto com eles? - perguntou o Chefe gravemente.
- Há um ano, quando veio cá um inspector.
- Está bem, diga-me o que é que lhes contou.
- Ai, meu Deus, eu telefonei-lhes hoje de manhã depois de vocês chegarem. Assim que falei na Mariana, eles disseram que viriam imediatamente.
- Imediatamente? Passou um dia todo e nada aconteceu...
A D.Dina continuou a falar, mas o Chefe não a ouvia, estando em reflexão. Subitamente, levantou-se e falou para o ar.
- Adi, Adi, vamos ter companhia. Pede relatórios à orla exterior. Lança o drone. Prepara o pessoal. Equipamento completo. - virou-se para os milicianos presentes. Pessoal, vão preparar-se, eu fico aqui com o Adrien. Manos, um de vocês que traga o nosso equipamento. Tragam um tamanho pequeno a mais, não completo.
Os milicianos saíram.
- Adrien, vai pôr este copo à cozinha.
O Chefe lançou um olhar estranho a Adrien. Este questionou-o com uma careta, parecendo duvidar do que lhe era pedido. O Chefe confirmou com um aceno. Adrien saiu.
- D.Dina, eles vão aproveitar o facto das luzes municipais se desligarem à noite para atacar, não é?
- Não sei, não sei, ai meu Deus.
- Eles sabem quantos somos?
- Eu disse-lhes que eram pelo menos dez.
- Está bem. Não lhes soube dizer mais nada? Sobre equipamento e coisas do género?
- Não sei, Sr. Chefe, não perguntaram.
- A D.Dina tem provas que eles têm a sua família?
A D.Dina olhou desesperada para o Chefe.
- Eles disseram que sim, que remédio tinha eu senão acreditar?
- Poderia ter falado connosco, ora essa. Poderíamos ter ajudado. Não se preocupe, eu vou fazer os possíveis para garantir que a sua família esteja são e salva.
- Ai, obrigado, Sr. Chefe, o senhor é tão bom! A pensar que ia fazer um erro tão grande ao ajudar a moça a fugir. Ainda bem que descobriu, no fim de contas.
- Não sei se estou de acordo que é "ainda bem". Descobrir foi sorte, já que o Adrien teve a boa ideia de colocar um transmissor na mala de Mariana. Quando notámos que estava em movimento achámos estranho. Mandei uma mensagem ao guarda no exterior, que ficou surpreendido por de facto estar uma mulher a tentar alcançar o edifício ao lado. Disse-lhe para deixar estar, que tomaríamos conta do recado. Agora, a verdade é que a senhora fez um erro, e já não pode voltar atrás. A senhora, melhor que muitos, sabe o que fazemos aos colaboradores.
- Ai, valha-me Deus, ai Jesus, ai nossa Senhora, não, tenha piedade, Sr. Chefe. Piedade.
Adrien voltara. Trazia uma faca da cozinha, um papel e uma caneta. Deu a faca ao Chefe.
- Ai valha-me nossa Senhora, piedade Chefe, piedade, não me faça mal, por amor de Deus.
- Eu não vou ter prazer em fazer isto D.Dina, mas tem de ser pelo bem nacional.
- Vocês estão doidos? Seus monstros, vão matá-la sem mais nem menos!? - reagiu instintivamente Mariana. - Nem pensem!
- Mariana lançou-se corajosamente contra o Chefe, mas Adrien apanhou-a e levou-a para fora do apartamento, aos gritos.
- Dina Flores, é acusada pela Milícia Nacional Geral dos crimes contra a Pátria de traição e colaboracionismo. A sua confissão prova-o. A Pátria, por mim representada, considera-a culpada, e a sentença é execução imediata. Contudo, pelo serviço prestado às milícias e pelas circunstâncias que levaram à traição, a Milícia Nacional Geral compromete-se a salvaguardar a sua família dentro das suas possibilidades e a absolvê-las de qualquer tipo de cumplicidade implícita de que pudessem ser alvo. Adicionalmente, todos os objectos de relevância cultural serão confiscados e guardados. Numa nota pessoal, devo dizer que me deprime imenso ter de aplicar a sentença.
Dito isso, perante um grito de terror de D.Dina, o Chefe perfurou-lhe o peito com a faca. Pouco depois, Dina Flores expirava.
O Chefe limpou o sangue das mãos e começou a escrever uma nota. Colocou-a ao pé do corpo de Dina.
Lá fora, Mariana chorava profusamente, agarrada por Adrien.
O Chefe aproximou-se, e ela soltou-se e começou a bater-lhe, cega de fúria. Adrien ia intervir, mas o Chefe fez um gesto a impedi-lo. Ele preferia que Mariana soltasse toda a sua raiva, não fazendo grandes esforços para se defender. Depois de alguns momentos, Mariana, cansada e ofegante, parou e encostou-se à parede.
- Está tudo a acontecer outra vez... Porque é que vocês tinham de voltar. Porque é que toda a gente tem de morrer?
O Chefe não respondeu.
- Porque é que vocês têm de arrastar tanta gente nessa vossa sede de destruição? Até as velhinhas mais doces são afectadas e brutalmente mortas, assassinadas. Assassino! Monstro!
O Chefe manteve-se a ouvir, cabisbaixo, admitindo, pelo menos em parte, a razão de Mariana.
- Tudo bem que ela seja uma colaboradora, mas só o fez para salvar a família, para salvar aquilo que é realmente importante!
O Chefe fez uma careta ironicamente compreensiva. Teve de responder:
- Sabes, houve uma vez em que um colaborador me disse uma história parecida à da D.Dina. Eu deixei-o ir. Tendo em conta o que ele fez depois, nunca mais tive misericórdia para com qualquer colaborador, independentemente do contexto. – fez uma pausa dramática. - Queres saber o que é que esse colaborador fez? Queres saber o que ele fez depois de o libertar?
Mariana não respondeu, mas o Chefe contou-lhe à mesma.
- Ele matou o teu irmão Quim duas semanas depois.
Mariana abriu a boca, atónita.
- Pensa bem se realmente o que eu faço não é pelo bem das famílias de tantas outras pessoas.

Um miliciano chegou carregadíssimo.
- Ah, obrigado Leonardo. Trouxeste o pequeno também?
- T'á aqui, Chefe.
Enquanto se equipava, o Chefe ia falando.
- Mariana, tens muito em que pensar, mas agora não é a altura. A qualquer momento poderá chegar o Inimigo. Coloca este colete e este capacete. O Adrien vai ficar contigo e proteger-te. Adrien, explica-lhe como usar o rádio do capacete, nunca se sabe. O colete é pesado, mas é necessário.
Adrien ajudou Mariana, que estava inerte, a colocar o colete e o capacete.
- Vamos para fora, o Adérito já lá deve estar.

Passaram pela porta do apartamento, e Mariana recomeçou a chorar, imaginando a cena macabra que estaria lá dentro. Adrien quase que a arrastava, tão apático era o estado dela. Desceram as escadas lentamente. Lá fora ouvia-se um pequeno rebuliço de homens a falar. A rua estava completamente escura. O luar ainda não voltara. Finalmente, discerniu-se um grupo de homens no cruzamento ao pé do prédio de D.Dina. Esperavam ansiosamente a chegada do Chefe para receberem as suas ordens.
- Adrien, fica aí com a Mariana, já venho falar contigo.
Aproximou-se de Adérito e de Lucas, que presidiam o grupo reunido. Todos estavam armados e equipados até aos dentes. Os capacetes cobriam-lhes grande parte da cabeça, incluindo as orelhas e boca, assemelhando-se a capacetes de motociclismo. Tendo rádio integrado, com comunicação poderosamente cifrada, os milicianos não precisavam de os tirar para comunicar uns com os outros, podendo alternar entre falar apenas com companheiros próximos ou enviar uma mensagem global. Na zona dos olhos um pequeno visor retráctil permitia dar informação adicional ao utilizador, seja na forma de mensagens textuais, apresentação geográfica de informação sobre aliados e inimigos identificados e outras utilidades largamente desaproveitadas no decurso de uma batalha, já que quando se está sobre fogo intenso, a última coisa que se quer é mais informação visual para processar. O capacete também tinha uma câmara e uma ligação directa com o telemóvel, apesar de este não ser necessário para o funcionamento normal do capacete. Em caso de ataque químico, também tinha um filtro suficientemente eficaz para a maioria das ameaças intermédias. O traje adicional consistia num colete pesado à prova de bala para o tronco. Para além das joelheiras, os restantes membros também tinham protecções mais leves entranhadas no tecido, oferecendo mais um bocado de protecção sem reduzir drasticamente a agilidade de um utilizador em boa forma física. O colete e o cinto estavam repletos de apetrechos, colocados de forma a estarem eficazmente acessíveis. Variando de miliciano para o outro, estes apetrechos podiam ser qualquer combinação de: uma faca, munições para a carabina e para a pistola, lanternas, binóculos, granadas letais e não letais, foguetes de sinalização, cantis de água e até barras nutritivas. A maior parte dos milicianos tinha apenas uma carabina automática e uma pistola como armas de fogo. Outros tinham direito a armas mais especializadas a certos contextos. Um tinha um lança granadas, alguns tinham uma caçadeira de curto alcance. Quase todas as armas tinham integração de informação com os capacetes e com os sistemas geográficos, dando a possibilidade de um utilizador marcar locais de presença inimiga ou de relevância táctica simplesmente apontando a arma e utilizando um pequeno botão modular na lateral da arma, acessível ao polegar da mão de suporte. Obviamente que todas as engenhocas necessitavam de uma imensa prática para serem efectivamente usadas. Infelizmente, os milicianos receberam estes equipamentos recentemente, cortesia de algum dos vários contactos externos do Chefe e consequentemente não tinham tido ampla oportunidade para se familiarizarem com a sua complexidade.
Nas janelas alguns habitantes observavam boquiabertos a comoção toda que ia naquela rua. No entanto, a maioria já se apercebera que não se aproximavam boas notícias e fizeram os possíveis para sair de casa e fugir, levando as famílias e pouco mais.
O Chefe, não preocupado com este facto, começou a falar.
- Pessoal, sei que é difícil, mas tentemos pelo menos ter os capacetes a funcionar. Teste. Teste. Quem me ouviu levante o braço. Júlio, o Artur não ouviu, ajuda-o.... Já ouves? Óptimo. Façamos a contagem. Um.
Os números foram sendo ditos sequencialmente. Vinte e dois. Conferia.
- Pessoal, arranjem objectos para barricadas, mas não os coloquem ainda, ponham-nos só cá fora.
Os milicianos dispersaram, entrando nos edifícios circundantes. O Chefe falou para o rádio.
- Drone, drone, que contas?
- Nada de significativo, Chefe.
- Olhos, olhos, reportem.
- Olho 1, nada a reportar.
- Olho 2, vejo luzinhas azuis, mas estão paradas, não sei se será um acidente, mas o trânsito parece cortado.
- Olho 3, nada a reportar.
- Olho 4, nada a reportar.
- Drone, auxilia o Olho 2.
O Chefe virou-se para Adérito.
- Acidente uma ova, vai buscar a Berta. Eles vêm de Norte, da avenida. Lucas, ajuda-o.
Partiram os dois.
- Pessoal, barricada a norte, depressa, mas montem nas esquinas. Não quero que eles vejam nada de anormal antes de chegarem aqui. Quero duas metralhadoras ligeiras nos flancos, dentro dos edifícios. Grupos de três.
- Chefe, Chefe, Drone a reportar.
- Conta.
- A polícia está a bloquear o trânsito. Ao fundo vejo um comboio a descer a avenida.
- Consegues detalhar?
- A aproximar-me.... Conto seis veículos... jipes... correcção, quatro jipes, dois camiões.
- São dos novos? Ou são os de biodiesel?
- Creio que são dos velhos, de facto.
- Obrigado, mantém-te atento.
- Pessoal, mudança de plano. Eles vão atacar em força. Eles pensam que somos menos do que realmente somos. Ponham a barricada a cobrir a rua, é o que eles esperam. Cinco minutos. Despachem-se.
O Chefe correu na direcção de Adrien. Passou pelos Manos, que transportavam a veterana arca frigorífica da falecida D.Dina.
Mariana parecia estar mais viva e alerta que anteriormente, pois prestava atenção aos movimentos atarefados da rua.
- Adrien, tenho uma missão para ti. Preciso que te movas para o ponto de fuga Um com a Mariana. Vou dizer ao observador que está lá perto para te ir esperar.
- Quem é?
- É o Pedro Mendonça.
- Está bem.
- Se encontrares o Inimigo, esconde-te - concluiu, frisando a última parte. - Não te esqueças da carga preciosa que levas. - disse, apontando para Mariana. - Parte já, que isto vai ficar feio.
Adrien partiu, segurando Mariana que parecia algo ridícula com o capacete e o colete vestidos.
Um camião rolou silenciosamente pelo Chefe. Era Adérito no camião eléctrico.
- Onze a Dezasseis, Onze a Dezasseis, venham ajudar com a Berta.
Seis milicianos rapidamente se apresentaram. Descarregaram a Berta para a rua e posicionaram-na diligentemente.
A Berta era uma metralhadora pesada com disparo assistido por computador, com um alcance inimaginável. Ainda não tinha sido usada numa situação a sério.
- Simão, sincroniza-te com o drone.
Simão era o operador do aparelho e do drone, e estava num apartamento numa vila vizinha, a vários quilómetros de distância.
O Drone transferiu as coordenadas exactas dos veículos para a Berta.
- Irmãos patriotas, ouvi-me. Estes com quem lutaremos hoje não são filhos da nossa pátria. São mesmo o Inimigo. Não tenhais dó. Tenho dito.
O Chefe aproximou-se do arsenal montado no meio da rua. Pegou na sua carabina. Pegou no seu machado.
- Simão, fogo.

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O Rapto - Parte VI

por Rei Bacalhau, em 13.07.16

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No início da noite, Mariana estava no seu quarto a reflectir na sua situação quando foi informada de que não teria companhia para o jantar, pelo que a D.Dina trouxe o jantar numa bandeja estranhamente silenciosamente.
Durante a tarde, Mariana fingira ler um livro para não dar a entender que a sua mente estava exclusivamente concentrada na sua potencial fuga. Adrien entrava periodicamente no quarto, mas encontrava-a sempre no mesmo cadeirão, aparentemente a ler.
Mesmo agora a jantar, sozinha, não podia deixar de assimilar tudo o que aprendera sobre a estranha organização que a raptara.
Parte dela estava disposta a acreditar neles. A maior parte do que lhe haviam dito fazia sentido segundo o que já sabia dos tempos de Milícia do pai dela. A cara simpática de Adérito pareceu-lhe cada vez mais familiar, o que corroboraria que ela já conhecera alguns destes milicianos no tal dia em que a Milícia dos Oito passou pela casa dela, como o Chefe referira no princípio do dia. No entanto, Adérito não era o único que reconhecera. Os olhos frios e arrepiantes de Lucas também lhe causaram uma sensação desagradável que já sentira antes. Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.
Outrossim, todo o discurso sobre a preservação cultural parece demasiadamente absurdo para ser preocupação de uma milícia, o que paradoxalmente é um argumento a favor da veracidade da sua causa, porque ninguém que queira enganar outrem inventa uma história tão disparatada.
Contudo, nada assegurava a Mariana a sua segurança no meio daquele manicómio. A única pessoa que a poderia ajudar era exactamente a pessoa cuja localização não poderia revelar: o seu pai. Só escapando e comunicando com ele é poderia estar verdadeiramente segura. Explicar isto aos milicianos não seria inteligente, pois seria a prova que eles precisariam para afirmar que de facto Mariana sabia como contactar o pai, algo que até agora ela ainda não admitira. Se o fizesse, nunca se livraria do seu estado de sequestrada.
Mas como fugir? O pátio com as hortas estava claramente constantemente sob vigia. As duas possibilidades de fuga que tinha por lá seriam impossíveis, mesmo que conseguisse chegar à cozinha para aceder ao pátio indetectada. Era possível usar as janelas do seu quarto para chegar a um estreitíssimo parapeito a partir do qual talvez conseguisse atingir o prédio vizinho. Infelizmente, a quantidade de riscos era demasiado grande para sequer se considerar essa ideia: em primeiro, Mariana poderia simplesmente escorregar do parapeito; em segundo, um dos sentinelas exteriores poderia muito provavelmente vê-la a sair da janela e a efectuar a sua translação; por último, nada lhe garantia que o edifício vizinho não estaria ocupado também, tendo em conta que as milícias tinham estes edifícios à disposição delas. Pensou, em desespero, de alguma forma adquirir uma arma de um dos milicianos e ser mais agressiva na sua fuga. Apesar de saber usar uma boa quantidade de armas, nunca tinha efectivamente usado uma numa situação bélica ou semelhante. Estaria em desvantagem numérica contra milicianos experientes, mesmo que em princípio eles não lhe pudessem fazer mal.
Decidiu que poderia tentar uma combinação de várias opções. Ela notara que os milicianos deixaram as suas carabinas no escritório, encostadas a um pequeno sofá. O escritório tinha uma pequena janela para a varanda que ela poderia trepar para escapar, em vez de percorrer a casa inteira em direcção à cozinha. Se conseguisse pegar numa arma e escapulir-se pela janela, teria de atravessar o pátio em direcção ao edifício abandonado do outro lado. A partir daí tentaria chegar à rua, onde poderia mais facilmente desaparecer, numa perspectiva optimista. Se os milicianos se aproximassem muito, dispararia uns tiros de aviso para os obrigar a esconder-se.
Curiosamente, todo este pensamento foi em vão. Mariana, ao acabar de jantar, notou uma folha de papel debaixo do pires da fruta. Estranhou, mas não hesitou em abrir a folha, esquecendo-se até de verificar se alguém a observava.
Algumas frases, escritas sem habilidade caligráfica, diziam:

 


Há meia noite as luzes desligão se. Saia pela janela para a esquerda. A primeira janela esta aberta. Ajuda vem a caminho.

 

Mariana escondeu imediatamente a folha. Apesar dos erros deploráveis de ortografia, a mensagem era clara. Alguém aparentava querer ajudar Mariana.
Quem? Porquê? Que ajuda vinha a caminho? Como teriam conseguido fazer a folha passar na bandeja? Os milicianos teriam um traidor? Que luzes se desligariam à meia noite?
Reflectiu longamente na proposta inesperada e misteriosa. Percebeu que, como a sua própria ideia anterior, nada tinha a perder. Decidiu que se à hora marcada as luzes efectivamente se desligassem, ela arriscar-se-ia no parapeito.
Mas e se a janela fizesse barulho ao abrir?
Mariana levantou-se, aproximou-se da janela e abriu-a o mais cuidadosamente possível. O mecanismo rangeu mas a janela em si rodou suavemente para dentro. Fingiu estar a apanhar ar descontraidamente quando Adrien entrou, alertado pelo ruído.
- Não tens um cigarro, só por acaso? - troçou Mariana.
Adrien resmungou alguma coisa e saiu, deixando a porta aberta. Voltou depois de poucos instantes e para surpresa de Mariana, ele trazia a mala dela, que pensava estar esquecida ainda no bar. Atirou-a de qualquer maneira para cima da cadeira ao pé de Mariana. Ela agradeceu, quase envergonhada.
Tirou um cigarro, acendeu-o e fumou-o com prazer, relaxando por um momento num dia que ainda estava longe de terminar. Adrien estava encostado à soleira da porta, vigiando.
- Desculpe, Adrien, só lhe tenho dado maçadas. Não precisa de ficar aí a ver-me, eu vou só acabar e fecho já a janela.
- Deixa-te de merdas e acaba lá isso. - rosnou Adrien.
Uma voz abafada e desaprovadora ouviu-se da sala.
- Adrien! Então? Respeitinho, vá.
- P'ó caralho para isso. - murmurou.
Mariana estava prestes a acabar o cigarro e precisaria de fechar a janela sem a trancar sem que Adrien se apercebesse.
- ADRIEN, és tu a jogar! - berrou alguém da sala.
Adrien virou-se momentaneamente para praguejar na direcção do grito. Foi a oportunidade que Mariana precisava. Fechou a janela e tossiu enquanto fingia que a trancava e afastou-se imediatamente em direcção à porta. Mariana pensava que já tinha visto de tudo, mas agora era o cúmulo.
Um grupo de milicianos, incluindo o Chefe, estava entretido com um jogo de tabuleiro na sala. Parecia ser o Monopólio. Mariana levou as mãos à cara, aterrada.
- Vocês são mesmo doidos...
Adrien correu para a sala.
- FODA-SE! Passaste pelas minhas casas! Toca a pagar!
- Não 'tavas cá, não tenho culpa. Ardeu, béu béu!
- Vai p'ó caralho, Júlio, foda-se, sempre os mesmos filhos da puta vocês! Dêem-me a merda dos dados, puta que pariu.
Risada geral. Até Mariana esboçou um sorriso. Adérito notou que tinham uma observadora.
- Então Mariana? Queres jogar? Podes jogar pelo Adrien que ele já está prestes a desistir, como de costume.
Mariana sorriu e recusou a oferta, abanando o dedo energicamente.
- Vá lá, que ele ainda por cima é a bota de mulher.
- Preto de merda!, mil caralhos ta fodam! - vociferou Adrien.
Mariana recusou de novo e voltou para trás, fechando a porta, duvidando ou a sanidade deles ou a sua própria.
Ou ambas.

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publicado às 19:30


O Rapto - Parte V

por Rei Bacalhau, em 06.07.16

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O Chefe voltou para dentro e, surpreendentemente, apanhou Mariana a conversar com Adérito no escritório, onde uma humilde biblioteca de livros velhos lhes fornecia tema de conversa.
Adérito tinha a palavra e apontava para uma série de livros similarmente coloridos.
- Estes aqui devem ser bons, são policiais. Eu gosto de policiais, especialmente aqueles com detectives sem papas na língua. Se calhar, se a D. Dina não se importar, vamos levar uns quantos connosco, E aproveito e “roubo” uns para ler. Olhe estes aqui, ainda estão dentro do plástico, nunca foram lidos. Espero que ela deixe levá-los.
- Já conhecem a senhora há muito tempo? - perguntou Mariana, hipnotizada pela amabilidade de Adérito.
- Ah, já, há já uns anos. Quando Macelada foi ocupada, ela começou a ajudar as milícias da melhor maneira que podia, preparando refeições e dando um tecto a quem precisasse. Ela também é dona do andar de cima, que era o apartamento do filho dela, aquele que foi embora. Dormimos lá muitas vezes. É também a senhoria do edifício ao lado.
- Não percebo. Ela não vos ajuda sem mais nem menos. Ninguém faz isso. Mesmo no tempo em que as milícias existiam, normalmente os civis eram recompensados.
O Chefe, que ainda não tinha sido notado, meteu-se na conversa:
- Eu diria que as milícias ainda existem, mas admissivelmente com menos força que antigamente. De resto, a D. Dina é bastante bem "recompensada", como dizes, pelos serviços fantásticos que nos está a prestar e que já nos prestou. Há certas utilidades materiais às quais ela não tem acesso, devido ao racionamento cruel a que o nosso povo é submetido. Por isso, trazemos-lhe sempre alguma coisa agradável, seja comida, medicamentos, sabonetes ou até roupa quente para o Inverno. Seja como for, acredito que o maior presente que lhe damos é a companhia, pois ela adora conversar.
Um miliciano abriu a porta de entrada e sussurou algo ao ouvido do Chefe.
- Agora?
O miliciano acenou que sim.
- Tenho de me ausentar. Adérito, vê lá se propões um bom livro à Mariana. E dá um ao Adrien também, ele anda preguiçoso nas leituras.
E saiu.
- O Chefe ilude-se. O Adrien quase nunca acaba um livro, está sempre a resmungar que não tem paciência.
- Não parece ter paciência para muita coisa. - disse mordazmente, mas baixinho, não querendo espicaçar desnecessariamente a fera que estava no quarto contíguo.
Adérito riu-se, iluminando a divisão com o seu sorriso largo.
- Pois é, somos todos um bocado rudes e malucos, mas também, nesta vida que levamos, como poderíamos não o ser? - baixou subitamente o tom de voz. - E tens de perceber, Mariana, que alguns de nós já fizemos coisas muito más e começamos às vezes a esquecer-nos do que é conviver normalmente.
- Bom, você não parece ser como os outros, porque é que os outros não podem ser como você?
Adérito lançou-lhe um olhar inteligente, e sorriu.
- Nem tudo o que parece é. Consegues imaginar o teu pai a matar alguém?
Mariana engoliu em seco. Não respondeu.
- Pois, exactamente. No entanto, sabes que ele já o fez.
Mariana ficou pensativa durante um longo momento. Adérito, percebendo que tinha sido inapropriado ao falar no pai dela, pediu desculpa.
- Ah, não, não faz mal, eu percebo o que quer dizer... É só que...
- Mudemos de assunto, - interrompeu Adérito. - que temos coisas mais interessantes à nossa frente. Escolhe um livro. O que é que gostas?
- Eu não leio muito. Na capital não existem quase livros nenhuns na nossa língua. Aliás, admira-me que ainda exista uma colecção de livros tão grande como esta na nossa língua.
- Ainda existem algumas, mas são pequenas e poucas. É apenas por sorte que nenhum inspector cultural se tenha lembrado ainda de fazer uma rusga neste bairro.
- Inspectores culturais?
- Não sabes o que são?
- Nunca ouvi falar.
- Mas então não deves 'tar na capital há muito tempo, porque principalmente depois do fim oficial da Guerra, haviam imensos inspectores a virar a cidade do avesso. Eles não têm o título oficial de "inspectores culturais", e se calhar por isso é que não os conheces por esse nome. Basicamente, eles são oficiais Inimigos que fazem rusgas a certas casas e bairros sob um pretexto qualquer. As rusgas são feitas para identificar casas que tenham livros. Pouco tempo depois, aparece uma notícia a dizer que certa casa ardeu ou outra tragédia qualquer aconteceu.
- De facto, esse tipo de notícias acontecia muito. Dizia-se que era por causa das instalações de gás, que tinham ficado danificadas.
- Olha, eu não sabia que o pessoal na capital não sabia a verdade. Não me admira, a máquina de controlo mediático deles é bastante forte.
- Então, não há nenhum sítio com livros no nosso país? Bibliotecas? Livrarias? Pensava que isso só acontecia na capital.
- Não, ardeu tudo. Aliás, por exemplo, na batalha de Alvim eles lançaram bombas incendiárias à biblioteca principal, apesar de não estar nem defendida nem fortificada. Desde então, depois de se aperceber qual o objectivo deles, o Chefe tem andado a reunir todos os livros possíveis, apesar de ser cada vez mais raro encontrar um que não tenhamos ainda.
- Onde é que os guardam? Não andam com eles de um lado para o outro, certamente?
Adérito sorriu matreiramente, indicando com o silêncio que não poderia responder à pergunta.
- Está bem, posso perguntar então qual é o objectivo deles?
- É a nossa morte cultural, como tantos outros invasores tentaram fazer com os povos que conquistam. A nossa cultura é a única coisa que nos resta e portanto é a única coisa que lhes falta destruir para passarmos a ser "deles".
- E salvar os livros vai ajudar?
Uma voz vinda de trás respondeu de repente.
- O dia virá em que eles serão necessários, para reeducar o nosso nobre povo. - afirmou o Chefe, em tom dramaticamente heróico. - Estamos a fazer tudo para o Momento venha.
- O momento? - perguntou Mariana, confusa. - Que momento será esse?
- Saberás quando ocorrer, se ainda cá estiveres para o ver. Se quiseres ajudar, tens essa possibilidade, sabes?
Mariana não respondeu. Já sabia onde é que a conversa iria dar.

Depois de um curto silêncio, o Chefe falou com Adérito.
- Olha, Adérito, A D.Dina continua a não querer dar livro algum. Se queres ler algum desses aproveita agora.
- Então!? - inquiriu Adérito, indignado.
- São os livros do filho. Não se podem mexer, apesar de estarem mais seguros connosco. Enfim, não a podemos obrigar, não é?
- Não podemos falar com o filho?
- Nem ela consegue! Eu bem pensei nisso também, mas a D.Dina não faz ideia onde é que ele está. Havemos de tentar procurá-lo quando as coisas acalmarem um bocado.

O resto do dia, não deixando de ser no mínimo bizarro para Mariana, passou-se sem algum acontecimento relevante. Mariana almoçou na companhia do Chefe, de D.Dina, Adérito e Adrien. Este último não disse palavra à refeição, enquanto que a D.Dina, pelo contrário, relatou com imenso pormenor a história de como uma vez apanhou um peixe-gato com as próprias mãos quando foi ao estrangeiro.
Lucas não quis almoçar.

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