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Um conto de Natal

por Rei Bacalhau, em 20.12.15

- Até p'á semana, Carlos!
- Olha... - resmungou Carlos. - essa agora, mas são três da tarde! Vidinhas dessas também quero eu.
- O chefe deu a tarde a todos. Não sabias? Olha lá, faz sentido, é véspera de Natal e tal, o pessoal vai fazer as compras e os jantares e tal.
- Ah e tal e tal, não... e o projecto? Já 'tamos atrasados e ainda vamos ter uma folgazita? Eu já não gosto muito do António, mas agora é que ele chalupou de vez.
- Ò Carlos, - murmurou repentinamente o colega, receoso. - não fales tão alto, maluco deves estar tu, porra, o chefe ainda te ouve! Então o pessoal não ia celebrar o Natal? Tu não vai celebrar?
- Ah, eu vou, certamente, - respondeu Carlos, com um sorriso trocista nos lábios parcialmente escondidos pela barba espessa e maltratada - mas vou celebrar à minha maneira, e só no final do dia.
- É? Então? - balbuciou nervosamente o colega. Conhecendo o temperamento bastante aberto e grosseiro com que Carlos se expressava, preparou-se para receber uma resposta que já se adivinhava... original.
Carlos olhou-o, desfez o sorriso, tomou as feições mais sérias que conseguia e disse num tom mais alto do que seria aceitável:
- Provavalmente vou às putas.
O colega riu à gargalhada, enrubescendo perante situação tão simultaneamente hilariante e embaraçosa, nem querendo olhar em volta para verificar se mais alguém tinha ouvido aquilo.
- Só tu para dizeres uma coisa dessas! Bom, 'tá bem, bom Natal para ti e para os teus!
Carlos não respondeu, fazendo apenas uma careta arqueando o canto da boca.


Um a um, os colegas de Carlos abandonavam os locais de trabalho e iam para as suas famílias e para as suas festas. "Boas Festas", diziam os mais politicamente correctos. "Bom Natal", diziam os outros. Trocavam-se comentários acerca dos doces, as filhoses, as rabanadas, as tartes, os bolos, os chocolates; das comidas, os bacalhaus, as carnes, os legumes; das prendas, as electrónicas, os livros, as roupas, os brinquedos; do espírito, os Pais Natal, as árvores, os enfeites, as magias, as publicidades, as solidariedades; da família, os encontros, os avós, os tios e primos, os bebés, os cãezinhos.
Falava-se do Natal, portanto. Andavam todos contagiados pelo simbolismo de tal época. Até os descrentes viam nela uma altura de paz e humanidade pela qual se parece ansiar subconscientemente durante o ano inteiro.
Há muitos anos que tal evento passava ao lado de Carlos. Família só tinha aquela muito afastada lá na terrinha. Os pais já haviam morrido há 20 anos, quando ele tinha apenas 25. A irmã havia emigrado para os confins do mundo e por lá ficara. Há muito tempo que perdera todo o contacto com ela. O único amigo humano que tinha morrera há uns meses atrás, com um cancro qualquer. Só lhe restava um amigo de longa data, que iria cumprimentar assim que todos os seus colegas saíssem.
- Carlos! Ainda ficas? - perguntou uma rapariguinha novita, brutalmente feia, mas simpática.
- Sim, menina, pode ir, esteja à vontade, eu fecho aqui isto. - respondeu, sem olhar.
- Ok! - disse sorrindo, mostrando um dente podre. - Já tenho ali o meu namorado à espera! Boas festas! Kisses!
- Foda-se, deve ter bom gosto o homem, irra... - murmurou baixinho quando ela já desaparecera.

 


Enfim só. Nem pensou uma vez. A mão atirou-se imediatamente e sofregamente à mochila onde trouxera o almoço. A embalagem de cervejas fez um estrondo ao aterrar violentamente em cima da mesa, mas Carlos já nem controlava o tremelique nervoso que tinha ao rasgar apressadamente o plástico que unia as latas. Agarrou numa, mas a sua sofreguidão causou que escorregasse e caísse para o chão, rolando lentamente para longe.
- FODA-SE!
Nem se preocupando com a primeira lata, pegou logo noutra, mais disponível. Lançou o dedo para a argolinha que permitia abrir a lata. O dedo escapou-lhe duas vezes. Finalmente, no máximo de frustação, conseguiu soltar a argola, puxou-a e o magnífico barulho borbulhante ecoou orgasmicamente pelo espaço vazio e silencioso.
Carlos deu vários golos exagerados, ao ponto de ter cerveja a escorrer-lhe barba abaixo para a camisola. Nesses segundos sentiu-se livre. Livre de todas as preocupações. Livre de todos os seus compromissos. A sua atenção era totalmente dedicada àquela lata e ao seu conteúdo. Não era enorme apreciador de cerveja, mas foi o mais transportável que conseguiu arranjar. Agora, no entanto, pensou que poderia trazer uma garrafa de vinho. Levantou-se num ápice, fechou as portas e dirigiu-se ao Pingo Doce ali ao pé. Pensou em comprar duas garrafas, mas decidiu-se por três, do mais barato que houvesse lá. No caminho de volta passou por um Pai Natal que fazia alguma publicidade a uma instituição de solidariedade. O Pai Natal falou-lhe, mas Carlos ignorou-o.
De volta ao local de trabalho, Carlos atirou-se para mais uma lata e roubou uns aperitivos de um colega de um sítio que este ainda assumia que se mantinha secreto. Rapidamente mudou de ideia quanto à cerveja, puxando do canivete e abrindo a primeira garrafa de vinho. Bebeu directamente do gargalo, já que não contava partilhá-la com ninguém. Os primeiros golos deslizaram suavemente pela boca de Carlos, mas logo de seguida voltou o exagero e mais uma vez a barba ficou inundada, desta vez de vinho. Carlos limpou-a despreocupadamene com a manga da camisola.
Carlos compreendeu que de nada valeria tentar continuar a trabalhar, não necessariamente pelo facto de que o álcool começaria a fazer efeito, pois já mais que uma vez tinha trabalhado sob condições anabólicas semelhantes, mas mais pelo facto de não ter nenhum colega ali para maltratar. Para Carlos, essa era uma fonte essencial de divertimento, e trabalhar sem estar divertido não lhe era muito aceitável.
- Amigo Dionísio, aventuremo-nos de novo na noite que se aproxima! - exclamou dramaticamente para a garrafa de vinho.
Colocou as cervejas restantes e o vinho na mochila, desligou as luzes, ligou o alarme, fechou o escritório, e mergulhou no lusco-fusco da cidade. Ali, no Cais do Sodré, a azáfama era ainda total, mas não era comparável às de dias reais de trabalho. Nos dias de trabalho a sério não se vêem pessoas a sorrir. As compras que levam normalmente são as necessidades do dia-a-dia que os magros ordenados permitem. Não há uma moeda para o sem-abrigo que está lá sempre com os pés tortos.
Hoje era diferente. Lia-se nas feições das pessoas aquela expectativa misteriosa que preenche todos num dia tão especial. Os sorrisos eram visíveis, mesmo para pessoas que estavam a voltar para casa sozinhas, pois sabiam que daí a umas horas estariam em alegria com os seus adorados. Essa mesma aura reservava uma moedita para o sem-abrigo, o dos pés tortos, que faz o maior esforço para ter o olhar mais doloroso num dia em que as pessoas são tão facilmente sensibilizadas.
Carlos observava todas aquelas pessoas, tão preocupadas para chegar a casa, para terem a sua Noite Feliz. Estava sentado num banco de jardim. Deu mais um golo de vinho. Os transeuntes olhavam-no com alguma confusão ou até mesmo receio, pois apesar de não estar totalmente mal vestido, a restante aparência dava-lhe um aspecto de deliquente temível. Carlos levantou-se e foi na direcção do passeio marítimo, atravessando sem grandes preocupações a estrada bastante movimentada. Um carro guincha ao travar a fundo para não o atropelar. Buzina furiosamente. Carlos dá um golo de vinho e cospe-o para cima do capô, olha para o condutor, que estava agora aterrado, e desafia-o com o olhar a sair do carro, empunhando com agressividade a garrafa de vinho ainda não totalmente vazia. Pelo contrário, o condutor faz marcha-atrás e contorna Carlos rapidamente. Este prosseguiu o seu caminho.
Passou outra vez pelo Pai Natal de há pouco. Este teve a ideia infeliz de se dirigir a Carlos outra vez (é razoável pensar que ele não se podia lembrar de todas as caras desse dia). Carlos desta vez olhou para ele, parou, retirou algo do saco e deu-lhe.
- Toma lá estas cervejinhas, dá umas à Mãe Natal e pode ser que se divirtam logo à noite. Em vez de montares as renas, montas a gaja! Bom Natal e o caralho! Fica bem!
Carlos nunca olhava para trás quando fazia este tipo de coisas. Nestes momentos achava-se num estado de alma superior a todos. Sentia que todos estariam a olhar para ele, e conseguia imaginar as caretas cómicas de desprezo e nojo (e se calhar algumas de divertimento) que lhe deveriam estar a fazer.
Um grupo de jovens divertidos estava agrupado a tirar uma selfie. Todos tinham gorros de Natal e todos tinham um enorme sorriso ou uma fantástica careta que queriam imortalizar. Carlos não hesitou e imortalizou-se também, colocando-se no fundo com as calças para baixo numa pose triunfante. Os jovens não repararam atempadamente, e quando estavam a verificar como a foto tinha ficado procuraram em vão o homem que tão descaradamente lhes tinha arruinado, ou glorificado, dependendo da perspectiva, a foto. Curiosamente, nem se preocuparam em tirar outra fotografia.
Carlos passou pelo sem-abrigo dos pés tortos. Gemia por caridade a cada um que passava. Invocava a época, solidariedade e argumentos semelhantes. Carlos observou-o à distância por um momento, com a garrafa de vinho eternamente presente. Carlos decidiu-se.
- Porque não? Vai dar para rir, e estas pessoas poderão aprender alguma coisa.
Deu o golo final da primeira garrafa, mas não a deitou fora. Aproximou-se do pedinte em passo alargado, propositadamente a querer adquirir a atenção dele.
- Jovem! Começa a fugir! - berrou, assustando todos à volta.
O pedinte, escandalizado, não percebeu inicialmente que era para ele que aquele louco falara.
- Foda-se! Começa a fugir! Olha que levas com isto! - gesticulou violentamente a mão que segurava a garrafa.
Plenamente convencido que de facto era ele o alvo daquele discurso, o pedinte ainda hesitou, não sabendo o que fazer. Era tarde demais para agarrar nas suas coisas. Carlos estava a escassos metros do pedinte. Começou a levantar a mão para lhe atingir com a garrafa. Um homem saiu da multidão para tentar impedir aquele ataque maníaco.
Qual não foi a surpresa de (quase) todos quando o pedinte se levanta e se escapa agilmente à fúria de Carlos. Milagrosamente, os pés aparentavam estar totalmente funcionais. Depois de um silêncio embaraçoso, o pedinte enche Carlos dos mais coloridos e originais insultos que este já ouvira. Carlos responde dando um gigantesco pontapé no baldezinho cheio de moedas, soltando uma enorme gargalhada, apesar de se ter aleijado, pois o balde estava mais denso que previra.
Carlos foi-se embora a coxear ligeiramente, começando a cambalear pelo efeito do álcool. Comprou um chocolate numa máquina pois o segurança não o deixou entrar no supermercado. Dirigiu-se para o passeio marítimo. Já era noite total. Não se ouvia vivalma. Ao longo de todo o passeio viam-se pouquíssimas pessoas. Nem os habituais corredores passavam por ali. Carlos sentou-se num degrau, virado para o Tejo. Abriu a mochila, sacou do canivete e ainda teve perícia mais que suficiente para abrir a segunda garrafa de vinho. Estava frio, por isso não demorou muito tempo até começar a sorver aquele vinho de má qualidade.

 

A noite estava fria, nublada e húmida. Ninguém diria que nem uma hora havia passado desde o pôr-do-sol, considerando a diferença brutal de temperatura que se notava naquela Véspera de Natal. Se não se viam as luzes estreladas no céu, estas eram satisfatoriamente substituídas pela míriade de luzes artificiais que preenchiam o horizonte escuro. Os barcos que atravessavam morosamente o Tejo reflectiam lampejos multicoloridos nas ondulações calmas do rio. Na outra margem brilhavam as povoações costeiras e os estaleiros navais. O Cristo-Rei abraçava generosamente o ar do seu Portugal, confuso e estranhamente satisfeito pela combinação da maresia do estuário e dos gases dos escapes dos automóveis incessantes. A sua iluminação dava-lhe um aspecto de um farol, não naval, mas cristão. Talvez nem cristão. Talvez humano. Um farol para todos. Uma salvaguarda. Um símbolo de força e esperança subconsciente. Talvez por isso o seu par tão aparentemente contrastante, a ponte, seja na verdade a companhia perfeita. Ela, a ponte, também um símbolo de força, de passagem, de altruísmo. Ambos seguram e ligam Portugal. Um fisicamente, o outro espiritualmente. A ponte transbordava de vida. O seu sangue, também luminoso, fluía nas duas direcções sem padrão aparente, no caos habitual do trânsito rodoviário. A certa distância, aquela veia portuguesa pareceria um cenário de algum contexto de ficção científica, com carros aparentemente voadores no escuro, não fosse pela luzes fortes que percorrem a estrutura de lés a lés. Na margem Norte, o espectáculo era menos apreciável para quem lá estivesse. A iluminação nocturna comum não permitia um tão grande contraste com os enfeites luminosos. Não era possível a um observador nesta margem apreciar o mesmo que um outro observador apreciaria na margem Sul ao olhar para Norte. O primeiro observador estaria na margem que quer observar, e não lhe consegue ver a beleza que só a distância permite. Daí a magnificência da ponte e do Cristo-Rei para quem estivesse em Lisboa. Daí a exuberância de Lisboa para quem estiver no Cristo-Rei. É tudo relativo. Observar uma luz de perto revelaria uma lâmpada, de filamento ou de LED, balançando de um fio de plástico. Assim inspecionada é uma monstruosidade electromecânica. Mas afaste-se uns metros e essa luzinha, acompanhada com outras dezenas, ilumina suavemente uma árvore de Natal. E de repente é bela. Conclui-se assim que a beleza, se não é exactamente observável por alguém, pode ser sempre existente nos olhos de outrém.
Os sons de uma cidade que adormece lentamente pairavam no ar, ou melhor dizendo, não pairavam. As buzinas deixavam-se de se ouvir. As pessoas desapareciam. Até o próprio Éolo, tão frequentemente presente, parecia ter-se retirado sem deixar uma única brisa para trás. O rio, sossegado, era mesmo assim o único que interrompia o silêncio, mas essa interrupção era constante e cacofónica e consequentemente ignorável. Para quem se mantinha em Lisboa à beira do rio numa noite tão importante, apenas via luzes e não conseguia ouvir coisa alguma.
Era o caso dele.
- Foda-se...
Era a expressão que escolhera para concluir a sua longa e inebriada reflexão. Se o seu pensamento atingia níveis mais aceitáveis de filosofia, o mesmo não se pode dizer da sua linguagem vocal, que se mantinha obscena, nem que fosse apenas para esconder o seu "lado intelectual", como ele próprio lhe chamava. O álcool estimulava-lhe tais sequências de pensamentos e reflexões, que eram variavelmente exercícios puros de raciocínio ou dissertações melancólicas ou um combinação das duas. Bebeu mais um golo. A segunda garrafa já ia a meio. Carlos tentou levantar-se. Desiquilibrou-se. Caiu. Praguejou furiosamente. O álcool que tanto lhe estimulara o cérebro havia-o desgastado. O orgão, exausto, já não poderia controlar adequadamente o corpo. Tentou levantar-se outra vez. Caiu uma segunda vez, e desta vez foi a rebolar pelos degraus, girando e rindo, divertido.
- He he he! Ai! Hehehehe! Ena! Bop bop bop bop... - exclamava com alegria as onomatopeias por cada degrau que dolorosamente descia.
Imagine-se o choque que apanhou quando entrou em contacto com a água gelada.
- Ai! Ai ai ai ai foda-se, ai ai ai aiaiaiai foda-se foda-se foda-se!
Felizmente, apenas as calças se molharam significativamente, apesar de ter sido ainda relativamente complicado dar os primeiros passos (se bem que desta vez o erguer foi instantâneo e bem sucedido em igual medida).
Subiu os degraus largos devagar, um a um, passo a passo. Para seu imenso horror, a garrafa de vinho havia caído e estava agora horizontal. A perda não foi total, considerando que grande parte do conteúdo da garrafa já tinha sido transferido para dentro de Carlos, mas este ainda gemeu um bocadinho a trágica perda do líquido. Depois, como é absolutamente normal nestas alturas, pôs-se a rir. Partiu. Os sapatos, completamente encharcados, rangiam comicamente com cada passo dado, o que ainda mais divertiu Carlos, não obstante a falta de sensibilidade que começara a notar nos pés.
- Schlip! Schlop! - pausou brevemente, como que para dar ênfase ao seu próximo gesto. - Schlip! - Mais um passo. Mais uma pausa. - Schlop! - sorriu em volta, para uma audiência ausente, como que a pedir aplausos.
A demência schlip-schlopiana continuou durante algum tempo, auxiliada pelo vinho. Carlos nem ligava aos olhares e risos que as pessoas lhe lançavam quando passava por locais mais públicos, mas de vez em quando parava para pedir aplausos. Nessas alturas costumava cair, mas levantava-se logo a seguir, rindo maniacamente. E tragava outro golo. Um grupo de jovens mais gozões aproximou-se dele com uma cerveja na mão e ofereceu-lhe-a. Carlos, sem pestanejar, arrancou violentamente o copo de plástico, que transbordou boa parte da bebida para cima dele, e bebeu-o totalmente de uma só vez. Como recompensa, disse, com algumas palavras incompreensíveis, que iria fazer o seu maior truque de sempre. Preparou-se. Colocou-se de cócoras. Saltou verticalmente e aterrou nos dois pés ao mesmo tempo e gritou, orgulhosamente:
- Schlip-schlop!
Risada geral por parte dos jovens, que inclusive já se tinham dado ao trabalho de começar a filmar no telemóvel o magnífico Carlos. Pediram bis, e Carlos aquiesceu, dobrando-se cortesmente.
Preparou-se. Colocou-se de cócoras. Permaneceu nesta posição uns momentos para criar drama. Saltou verticalmente e estatelou-se no chão ao aterrar. Os jovens, depois de se rirem mais um bocado, aproximaram-se quando viram que Carlos não se mexia. Um deles tocou-lhe no ombro, abanando-o preocupadamente.
Carlos acordou, levantou-se e desferiu um imenso soco no jovem, que aterrou quase insconsciente.
- Vândalos, a querer roubar-me! Ladrão! Filho da puta! - berrou enquanto deu mais um pontapé ao inimigo confuso.
À primeira vista, esta situação poderia desenrolar-se de duas maneiras diferentes: ou os jovens pegariam no seu amigo ferido e fugiriam apressadamente, ou vingá-lo-iam, se fossem desse espírito. Infelizmente para Carlos, estes jovens eram na verdade arruaceiros, e não ficaram particularmente satisfeitos ao verem o seu camarada a cair redondo no chão.
A polícia apareceu depois de uns minutos, alertada pela população da cena de pancada selvagem que Carlos estava a ser alvo. Alguns agentes ainda perseguiram os arruaceiros, mas não os apanharam. Outros agentes ficaram a tomar conta de Carlos, notando alguns ferimentos bastante visíveis, e notando também o terrível odor a álcool. Carlos olhava para tudo com uma mistura de divertimento, confusão e dor. Para aliviar a situação, bebeu mais uns golos da garrafa de vinho, que felizmente não se partira.
Um agente reparou no vinho.
- Ó chefe, não acha que já chega disso? Vá, deixe-me lá tirar-lhe isso enquanto esperamos pela ambulância. - e dito isto, dobrou-se para lhe tirar a garrafa da mão, que Carlos apertava com uma força hérculea.
- Não! - rosnou ferozmente Carlos.
Tinha um fio de sangue a escorrer-lhe cabeça abaixo. Tinha os dentes vermelhos do ferimentos bocais. O olho direito começara a inchar. Sentia dores em todos os membros, e talvez tivesse ferimentos internos mais graves. Não obstante estes factos todos, ao ver a sua carga preciosa ser ameaçada por mãos alheias, levantou-se, empurrou a ameaça para longe, pegou na mochila e usou todas as suas forças para fugir, escapando-se desequilibradamente pelos becos do Bairro Alto.

 

Pouco depois, Carlos deambulava pelas ruas de Lisboa, sem rumo. Feito traça, era atraído pelas luzes que embelezavam as ruas. O vinho mantinha as dores num grau controlado. Outras pessoas evitavam-no ou lançavam-lhe olhares assustados, pois tinha um aspecto terrível. Carlos ignorava este facto, pois a sua atenção prendia-se nas luzes brilhantes e epilépticas.
Bebeu mais um golo, deixando apenas um resto na garrafa.
Subitamente, abstraído de todas as preocupações, dores, normas, emoções e tudo o resto, começou a trautear uma cantiga. O trautear da melodia durou algumas ruas. Despejou o resto da garrafa para dentro de si, e deitou-a fora. Agora, com maior confiança, começou a cantar baixinho.

Adeste... fidelis....
na na triumfantum...
venite... veni-i-te... belém!
natum videte... regem nhó nhó nhóóó nhó

Venite adoremos, venite adoremos,
VENITE adoremos o Dóóó-óóó-minó

- Ai o nosso querido D. João IV, deve estar a rebolar no Panteão dos Braganças. Desculpe lá, sua Excelência, não lhe faço justiça à sua composição. Espere lá que eu ainda me hei-de lembrar da puta da letra.
Carlos continuou a massacrar a música tão emblemática da época com a sua voz rouca e inconsistente, falhando miseravelmente nos graves e agudos, para não falar da corrupção hedionda da letra, misturando português com latim sem explicação aparente.
- Como é que era? É "Adeste fidelis", sim, de certeza, e depois acaba em "triunfante" ou algo do género...
Uma campainha estridente acordou-o da reflexão. Estava a vaguear no meio da linha do eléctrico, e um comboio que se aproximava teve de travar bruscamente. Carlos precipitou-se para o passeio, acabando sem querer por dar uma espécie de mergulho depois de tropeçar, aterrando pesadamente no chão. O eléctrico seguiu. A mente de Carlos não parou.
- Ai, mas como é que era?

- Adeste fidelis, ... - recomeçou.

.... regem triumphantes,
Venite, venite in Bethlehem
Natum videte, Regem angelorum

 

 

O som, parecendo intervenção divina de alguém que estava farto de o ouvir chacinar a música, veio exactamente detrás de Carlos. Ao virar-se percebeu que a voz coral que estava a ouvir provinha da Basílica da Estrela que estava mesmo à sua frente. Não se lembrava como é que ele havia chegado ali, mas a basílica, imponente, atraía-o magneticamente, embalado pelas vozes que tão delicadamente lhe haviam completado o verso desconhecido.

Venite adoremus, venite adoremus,
venite adoremus Dominum

Era a Missa do Galo. Muitas pessoas estavam cá fora e tentavam contemplar o interior, esticando futilmente as cabeças para cima e para os lados. Algumas velhotas baixinhas que tinham chegado atrasadas resignavam-se a observar vagamente o casaco da pessoa à sua frente. Talvez estas, conseguindo apenas ouvir, pudessem apreciar a música na mesma magnitude de Carlos, que se encontrava hipnotizado. Como por magia, a letra voltou-lhe naturalmente à mente, como se a tivesse acabado de aprender, mesmo depois daqueles anos todos. Cá fora, ao frio, afastado e isolado da multidão, começou a cantar com o coro.

Cantet nunc io, Chorus angelorum
Cantet nunc aula caelestium
Gloria, gloria, in excelsis Deo

A sua voz perdeu o timbre descontrolado e bêbado, tornando-se suave, macia, eloquente e enternecedora. Algumas pessoas olharam para trás ao perceberem que tal voz não vinha do interior da igreja. O aspecto aterrador de Carlos era agora insignificante em comparação à aura angelical que a sua voz aparentemente treinada parecia gerar.

Venite adoremus, venite adoremus,
venite adoremus Dominum

Carlos cantava dramaticamente, fazendo movimentos exagerados com a boca, deixando a dúvida se seriam necessários para o som. Gesticulava as mãos ao ritmo embalador da melodia. Cantava de olhos fechados, parecendo sugar com prazer todas as pequenas notas da instrumentação que acompanhava a letra. Cantava sorrindo, honestamente e verdadeiramente e ternamente e nostalgicamente, como não o fazia há muito tempo. Sorria como o fez quando cantou a mesma música para a sua família pela primeira vez.

Ergo qui natus, Die hodierna
Jesu, tibi sit gloria,
Patris aeterni, Verbum caro factus

Via os seus pais, sentados à mesa, enternecidos, de mãos apertadas. Via a sua irmã, pegando o filhote ainda bebé, com aquele sorriso largo de mãe, direcionando o olhar do benjamim para o tio dele, que proferia o latim incompreensível, mas belo. O cunhado, homem de muito valor, tocava habilmente a melodia no pobre mas funcional teclado que havia lá em casa.

Venite adoremus, venite adoremus,
venite adoremus Dominum

Uma única lágrima escorreu. Carlos já nem se lembrava que o seu corpo produzia tal substância. Abriu os olhos quando a música acabou, sentido-se temporariamente aliviado de algum peso desconhecido que o esmagava. Deu por si rodeado de pessoas que se aproximaram para o ouvir cantar. Uma senhora deu uma nota à sua criança e mandou-a entregar a Carlos, confundindo-o por alguém com esse tipo de necessidades (compreenda-se, o aspecto e o cheiro actuais de Carlos permitiam tirar conclusões aparentemente prováveis, não obstantes serem erradas). A menina, pequenina, tímida, de uns grandes olhos, que apesar de estarem dilatados, ainda se percebiam serem de um azul profundo, aproximou-se relutantemente. Entregou a Carlos uma nota de 10 euros. Fugiu, lançando um gritinho irritante e alegre ao voltar para os braços da mãe. Carlos olhou para a senhora. Não tinha aspecto de ser nova, teria já perto de 40 anos. Estava envolvida num sobretudo de aspecto caro. O cabelo, louro, era pintado, notando-se as raízes escuras no cabelo. As jóias, das quais estava bem guarnecida, cintilavam nos pulsos. O cachecol que lhe protegia o pescoço tapava semelhantes vestígios de luxo, exceptuando um crucifixo dourado que se prendera no cachecol, ficando à mostra. No meio de uma indivídua que ele tomaria como uma snob de alta sociedade ele recebeu mais que aqueles 10 euros. Pois ele olhou-a, e ela a ele. E nesse olhar ele recebeu um sorriso de aprovação de uma boca impecavelmente tratada e de uns olhos profundos e calmos como um lago. Ele não sentia aprovação por parte de ninguém há tanto tempo, nem do seu falecido amigo. E eis uma estranha total a dar uma faísca de sentido à vida daquele traste.
Carlos manteve o olhar durante o que lhe pareceu muito tempo, boquiaberto, confuso, aturdido. Observou vorazmente a nota limpa e quase perfumada que lhe havia sido dada. Olhou para a menina, que se escondia atrás da mãe. Na igreja recomeçaram os murmúrios ritualescos, o que despertou Carlos do seu transe.
Algo encavacado, sem dizer uma palavra, meteu a nota ao bolso e partiu bamboleantemente, agora que se relembrou que estava bêbado.
Olhou uma última vez para trás, e a mulher graciosa ainda o observava de longe.


Vagueou durante algum tempo, silenciosa e pensativamente.


Andou tanto tempo que perdeu noção de onde estava. Já se sentia mal-disposto há algum tempo e o chocolate que comprara recentemente (o segundo da noite) deve ter-lhe caído mal no estômago, pois encostou-se a uma parede no meio de uma rua qualquer e vomitou. Enquanto os sucos gástricos escorriam pelo passeio abaixo, Carlos, exausto, decidiu sentar-se nuns degraus próximos. Abriu a terceira garrafa de vinho, que apenas por milagre sobrevivera tanto tempo. Bebeu sofregamente para limpar o sabor do vómito, entornando vinho para a barba mais uma vez. Bebeu metade da garrafa. Adormeceu. Não parou de pensar na mulher da igreja.


- Desculpe...? Senhor? O senhor está acordado? Boa noite!....
Carlos abriu os olhos. À sua frente apresentava-se uma rapariga de um rosto singularmente belo, que o fitava com uma mistura de curiosidade e receio. Era um rosto redondo, límpido, branco e de linhas suaves. Os cabelos eram encaracolados e fartos, e a iluminação pública realçava os seus tons castanhos brilhantes. Os olhos grandes e prescrutadores eram de um âmbar muito incomum, que se tornava mais belo que os olhos azuis e verdes, pois era uma cor quente e convidativa. Quando a rapariga viu que Carlos acordara, o rosto branco enrubesceu-se facilmente de expectativa e nervosismo, o que a tornou ainda mais docemente bonita pois toda ela transbordava emoção.
- Boa noite! Desculpe termos acordá-lo, mas achámos que precisaria de alguma coisa... Estamos a distribuir comida e cobertores e vimo-lo aqui e viemos ajudá-lo!
Agora mostrou o sorriso, cheio, branco, enorme, de dentes perfeitos e longos que constrastavam perfeitamente com o escuro da noite e este mesmo sorriso tornou as bochechas coradas mais redondas e queridas. Carlos, enfeitiçado, não percebeu que não estava a sonhar e não sabia que podia responder.
Normalmente os sem-abrigo tinham alguns pontos onde iriam receber este tipo de apoio em circunstâncias sazonais semelhantes. Neste caso, no entanto, um grupo de jovens, que voltava para casa depois de um serviço de voluntariado com os sem-abrigo, notou um homem isolado no meio de uma rua deserta. Era um local estranho para um sem-abrigo, mas apesar do cansaço, o sentido de dever reinou e pararam o carro onde seguiam. Ao aproximarem-se do indivíduo, não puderam não ficar surpreendidos pelo seu aspecto, apesar de tudo o que já tinham visto nessa mesma noite. O cabelo grande, solto e despenteado, a barba espessa e maltratada, a garrafa de vinho meio cheia, o casaco esfarrapado em vários pontos, as calças ainda molhadas e fedorentas (da queda no rio), tudo dava indícios razoáveis que permitiam a conclusão ingenuamente fácil de que aquele homem era, se não sem-abrigo, pelo menos algo parecido. O homem cheirava mal, a barba tinha pedaços de vómito e tresandava a álcool, roncava profundamente, apesar de tremer de frio. Quando se decidiram acordá-lo, não sabiam como reagiria.
Carlos percebeu que falavam realmente com ele e que não sonhava.
- Mas que queres? - Carlos ainda apenas reparara na rapariga que o acordara. - Essa agora! Onde é que eu estou? - reparou enfim nos outros dois jovens que o fitavam. - Mau!, mais pessoal? Qué isto? Há problema?
Carlos tentou levantar-se, mas vacilou e caiu imediatamente. Só agora é que ele mostrara a face direita, cujo olho estava agora muito inchado e onde o fio de sangue já secara, sem que a ferida fosse tratada.
- Oh meu Deus, ele está ferido! Vai buscar o estojo de primeiros socorros, se faz favor! Ouça, - continuou a rapariga, tentando tranquilizar Carlos - acalme-se que vamos tratar de si, não lhe viemos fazer mal...
- Vândalos! Gatunos! Ainda dou cabo de vocês! - interrompeu Carlos, gesticulando vagarosamente com os punhos fechados.
- Senhor, acalme-se! - a rapariga colocou a mãozinha delicada no ombro sujo de Carlos. Confrontado com um olhar tão doce, não pôde senão aquiescer e enrolar-se no degrau, submisso.
O jovem voltou com o estojo de primeiros socorros e um dos cobertores que tinham sobrado. A medo, colocou o cobertor sobre os ombros do homem, que apenas lhe devolveu um olhar estranho, ligeiramente agradecido. Carlos enroscou-se automaticamente no cobertor. Limparam-lhe o sangue da cara e a ferida, e trataram de a desinfectar. Usaram uma lata de refrigerante para combater o inchaço. Limparam-lhe o rosto com uma toalha. Entretanto iam-lhe fazendo perguntas que Carlos respondia o melhor que podia.
- Como é que o senhor se chama?
- Dionísio. - respondeu depois de reflectir um instante, esboçando um sorriso.
- Não, - disse a rapariga, rindo. - esse é o nome desse seu amigo aí - e apontou para a garrafa de vinho. - Diga-me lá o seu nome, vá lá!
- Surpreende-me, menina, não estava à espera que o meu subterfúgio fosse tão facilmente detectado. Também não são todos que percebem de mitologia grega. Suponho que merece uma resposta mais digna. Chamo-me Carlos.
- Ah, obrigada! O que é que o senhor faz?
- Bebo.
- Não, não! Que ocupação tem?
- Ah! - exclamou, seguindo-me uma pequena pausa. - Tenho a ocupação de bêbado.
- Não tem profissão, então? O senhor vive onde?
- Tenho profissão sim, mas não é com ela que ocupo mais o tempo. Vivo em casa. - disse seguidamente, respondendo criteriosamente às perguntas, não obstante a vagueza das respostas.
- Posso-lhe perguntar como é que arranjou estas feridas? - rematou um dos jovens que tinha ficado de lado na conversa. Carlos não respondeu nem deu a entender que tivesse ouvido a pergunta.
Depois de um silêncio desconfortável, em que os voluntários se entreolharam, a rapariga arriscou a mesma pergunta.
- Não sei se ouviu, mas gostaríamos de saber quem o pôs neste estado. É que o senhor devia ir para o hospital.
- Foram uns malandros que me queriam saquear da minha riqueza. Como quando os Godos saquearam Roma. Pensando que eu estava frágil. Mas estes bárbaros enganaram-se, pois as minhas defesas resistiriam até ao último homem e até à última pedra! Mas eles eram muitos. A vantagem numérica era demasiado avassaladora. Caí. Roma caiu... - calou-se, triste e soturno, depois de uma tão enigmática descrição de eventos. Carlos gostava de misturar desnecessariamente eventos históricos ao narrar algo, o que confundia imensamente qualquer pessoa que estivesse fora do assunto relacionado.
Carlos compreendeu o ar confuso dos seus ouvintes. Explicou-se melhor.
- Quiseram roubar-me o vinho. Debati-me. Levei porrada. - resumiu sucintamente.
- Pelo que percebi, o senhor não é sem-abrigo então? É simplesmente... err... - a rapariga engasgou-se e hesitou, não querendo acabar a frase.
- Sou simplesmente um bêbado que levou porrada na véspera de Natal, sim.
- Pois... não era isso que eu queria dizer... desculpe.
- Ora essa, é o que eu sou, um monte de merda humano! - levou a mão à boca, chocado - Ai, desculpe-me, não queria dizer uma asneira à sua frente.
- Ah, não faz mal. - a rapariga olhou os seus colegas, não disfarçando um sorriso. Continuou. - Diga-me, para quem é que posso telefonar da sua família? O senhor precisa mesmo de ir ao hospital.
- Ninguém.
- Não é altura de estar com vergonha, deverão estar preocupados consigo.
- Acho improvável, estão todos mortos ou do outro lado do mundo.
A rapariga mordeu o lábio, embaraçada, mas voltou à carga.
- Tem algum amigo que possa contactar?
- Não.
- Nem um?
- O único humano que me restava bateu as botas há uns tempos.
- Não tem ninguém?
- Ninguém. - confirmou Carlos.
- Mulher? Filhos?
Carlos olhou a rapariga com uns olhos lúcidos e penetradores. Eram uns olhos onde se lia uma dor extrema, que aumentara à medida que o questionário se prolongava, crescendo progressivamente com todas aquelas perguntas que Carlos receava.
- Menina, - começou. - tenho 45 anos. Há quase 20 que não vejo ninguém da minha família. A única amizade que me manteve são durante os últimos anos desapareceu para sempre. Nunca nada me correu bem, e a solidão cortante caracteriza-me quase toda a vida. Ao longo dos anos tornei-me incrementalmente mais amargo em relação à Humanidade, por todas as lições que fui aprendendo. Quando era mais novo, ainda tentei quase desesperadamente arranjar uma companheira, mas nunca satisfiz os requisitos de nenhuma mulher. "És um gajo muita simpático, mas..." é uma frase que ouvi tantas tantas vezes que me enoja tentar contar. Quando atingi os 30, soube que estava tudo perdido... Se eu, no auge da juventude não consegui nada, como é que iria convencer uma mulher com "M" grande a ter como companhia um virgem romântico e sexual de 30 anos? Depois de mais umas rejeições, decidi desistir. Desisti do mundo. Desisti da Humanidade. Desisti de mim mesmo. Deixei de ser o "gajo simpático". Passei a estar-me nas tintas para tudo, tornando-me insuportável em todos os ambientes. Um palerma autêntico. Já tive dezenas de empregos, por nunca ser submisso e correcto para com os colegas e com os chefes. Tornei-me violento, e ainda consegui piorar esse facto quando comecei a encontrar refúgio nos copos. Pergunta-me se tenho alguém. Alguém! - exclamou, emocionado, com a voz tremida e seca. - Quem me dera ter tido alguém. Quem me dera não ser tão geneticamente incapaz de atrair o sexo oposto. Quem me dera estar neste momento numa cama quente, enroscado a alguém, esperando os gritos alegres de crianças a querer abrir os presentes. Quem me dera ser útil para alguém.
Carlos parou de falar por instantes. Os olhos humedeceram-se-lhe. Os voluntários estavam boquiabertos com tal discurso e tal personagem, que parecia ser tão brutalmente injusto consigo próprio. Não sabiam o que dizer, mas não precisaram de dizer coisa alguma, pois Carlos continuou, num tom mais baixo.
- E no entanto... - continuou, como se não tivesse parado. - nesta noite, mágica por simbolismo, aconteceu-me uma coisa tão incomum. Inédita, mesmo. De alguma forma fui parar a uma igreja, não sei qual, e lá, por algum capricho de alma, cantei o "Adeste Fidelis" em conjunto com o magnífico coro. Depois da minha actuação, uma criança deu-me uma nota, e a mãe dela... A mãe dela... Olhou-me... com um olhar que nunca tinha visto numa mulher... - os olhos de Carlos estavam vidrados num ponto invisível, como se apenas visse o que lhe passava na memória. - Um olhar terno, completo, vivificante. Não um olhar sensual, de luxúria, nem um olhar de divertimento nem de solidariedade... Era um olhar de aprovação. Um olhar que ultrapassava barreiras sociais, religiosas, etárias... Um olhar humano. O olhar que eu precisaria todos os dias para ser alguém melhor.
Carlos, que agora chorava, conduzia o raciocínio dele sem oposições da audiência, que também não saberia o que dizer se interrompesse aquela dissertação. Carlos reflectiu durante mais uns instantes e deverá ter chegado a uma conclusão genial, pois a sua cara mostrou aquele terror que uma pessoa sente quando faz uma descoberta imensamente óbvia. Meteu a mão ao bolso e tirou-a de novo.
- É claro agora. Agora é o momento para eu mudar. Não tenho de viver assim. É claro! - começou a levantar-se, desta vez com solidez nas pernas.
- Não! Onde é que o senhor vai? Não se levante a não ser que concorde ir para o hospital.
- Isso não interessa agora, há algo mais importante para fazer! Não vos desejo bom Natal, porque sou Pastafariano, mas desejo-vos Boas Festas. Obrigado! - e saiu disparado rua abaixo.
- Pastafariano? O quê? Mas..? Ouça! Mas vai fazer o quê?
Carlos respondeu já longe, gritando a todos os pulmões.
- Salvar-me!
E fugiu.


Quando chegou ao seu destino, já tinha raiado o dia há muito e já lá estava o homem, como sempre. As pessoas passavam e a maioria ignorava-o. Carlos aproximou-se dele. O homem reconheceu-o e ia-se levantando, assustado, mas Carlos parou-o. Disse-lhe baixinho.
- Peço desculpa pelo que lhe fiz.
Meteu a mão ao bolso, pegou na nota de 10 euros e deu-a ao homem dos pés tortos. Depois partiu e foi para casa.

 

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A prenda perfeita

por Rei Bacalhau, em 25.12.14

"Obrigado pelo dia, mas faz-se tarde e se calhar devíamos ir para casa", disse ele.
Ela, sorridente e brilhante, respondeu afirmativamente, e adicionou:
"Para a semana é Natal, sabes? Já pensaste que prenda vais dar-me?" A pergunta foi feita com alguma terna malícia, sendo que ela mordiscou os lábios excitadamente enquanto esperava ansiosa por uma resposta dele.

A pergunta abalou-o, pois não tinha sequer pensado em tal coisa ainda. Permaneceu pensativo durante uns instantes, mas os olhares expectantes dela forçaram-no a fabricar rapidamente uma resposta. Finalmente:

"Mas tu esperas que te dê alguma coisa é?", respondeu então de sorriso aberto e jocoso, evadindo temporariamente a pergunta, colocando-a em ainda maior suspense. "Pronto, vá, posso apenas dizer que vais gostar do que te vou dar, de certeza!"

Ambos coraram, permanecendo imóveis, intercruzando fixamnete os olhares, sorrindo parvamente, babados pelos sentimentos e pela química emocional óbvia que se mostrava quase palpável entre os dois. Despediram-se timidamente, faltando aos dois as palavras belas que a situação aclamava por. Ainda lançaram uns olhares furtivos pelo meio das ruas à medida que se afastavam um do outro.

Ele havia mentido. Não tinha pensado em prenda alguma para lhe dar, mas não quis ser apanhado na situação embaraçosa que a verdade implicava. Seja como for, teria uma semana para pensar na prenda perfeita para ela. Seria com certeza tempo suficiente para descobrir alguma coisa no universo quase infinito de possibilidades.

A semana passou-se muito mais rapidamente do que ele imaginou que seria possível. Deu-se consigo a dois dias do Natal sem ainda ter uma prenda adequada para ela, sendo que ele queria impressioná-la com algo verdadeiramente inesquecível. O assunto não lhe havia saído da mente durante todo aquele período de tempo, mas sempre que tinha uma ideia, alguma voz na sua cabeça dizia-lhe porque é que poderia não resultar. E então hesitava. No seu desespero, aproveitou a folga do dia 23 para ir a um centro comercial rapidamente.

Nada lhe parecia original. Nada lhe parecia belo, Nada lhe parecia divertido. Nada lhe parecia interessante, Nada lhe parecia inesquecível. Nada lhe parecia ser merecedor do título de prenda para ela. Derrotado e assustado, arrastou-se pensativamente para casa, preocupado com o que lhe iria dizer daí a dois dias.

Véspera de Natal. O pensamento nela iluminava-lhe a mente, mas também o relembrava do dia imediatamente posterior, em que tinha combinado com ela um bocado antes do almoço para a tal rápida mas significativa troca de prendas. Ele olhava e procurava nervosamente no computador, por uma ideia, por qualquer coisa, qualquer pensamento, qualquer objecto, mesmo que simples, que fosse digno. No limite de desistir, encosta a cabeça à secretária e fecha os olhos por um momento.

Quando os volta a abrir, visualiza imediatamente um caderno com uma quantidade de rascunhos e folhas brancas, por escrever. Intrigado, começa a congeminar uma ideia. Ele pega no caderno e coloca-o à sua frente, passando-lhe a mão por cima como que para o aquecer e preparar. Dançando habilidosamente uma caneta pelos dedos, contempla por uns bons minutos a folha branca expectante e nervosa.

Subitamente, começa a escrever.

Não compreendeu que sentimento o levou a escrever aquele texto, mas serviria como uma prenda perfeita, ou melhor dizendo, "a" prenda perfeita. Como será que ela reagiria?

Natal. A manhã foi alegre com a família a abrir os presentes: as roupas, os sapatos, os livros, as músicas, as electrónicas variadas, as luxúrias, os doces, e afins... Pouco antes do almoço lá sai ele ao encontro dela. Não moram muito longe um do outro, por isso decide ir a pé. A mente vai-lhe perturbada, mas o envelope guardado religiosamente no bolso dá-lhe algum conforto. O texto lá estava, passado a limpo na sua letra redonda e bonita para a de um homem.

"Lá está ela."

O coração ruge num bater mais acelerado, e ele teme que a voz lhe trema ao proferir o discurso preparado, apesar das inúmeras vezes que foi ensaiado na sua cabeça. Ela aguardava no outro lado da estrada, naquele jeito gentil que ele tanto lhe admirava. Cruzou a estrada. Pegou-lhe corajosamente nas mãos e beijou-as, para enorme embaraço dela, que não conseguiu disfarçar um sorriso de pura felicidade. Tentado reganhar o controlo, ela faz a pergunta temida:

"Então a minha prenda?"

Um estrondo enorme acorda a vizinhança num sobressalto. O condutor de um carro adormeceu por um piscar de olhos e ao acordar deparou-se com alguém na passadeira. Desvia-se para o passeio instintivamente, em vez de travar. Nele, um casal cumprimentava-se, não se apercebendo imediatamente do perigo em que estavam. O rapaz pega rapidamente na rapariga e afasta-a, empurrando-a para fora do perigo, não tendo ele próprio tempo para se escapar. O carro ceifou-o.

A dor não lhe era muito perceptível. Nestes seus últimos momentos a sua preocupação era em procurá-la, querendo garantir o seu bem-estar. Alegra-se quando a vê mexer-se no meio do caos dos destroços criados pela passagem do automóvel, aparentemente ilesa. Esboça um sorriso com dificuldade. "Tanto tempo andei à procura de uma prenda, e afinal acabei por dar-lhe aquela que ela não se conseguirá mesmo esquecer."

"Dei-lhe a minha vida."

Num último esforço, coloca a mão no bolso e desastradamente retira o envelope. Hesita por um instante, e solta-o no ar, misturando-se rapidamene com o lixo na rua.

"Já não és preciso. Afinal não eras a prenda perfeita."

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