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A Estátua - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 17.08.16

Parvoíces anteriores relevantes....

 

Um raio de Sol rastejava progressivamente pelo chão folheado e fofo, fresco com o orvalho calmo e brilhante da manhã que despertava ao ritmo dos milhões de seres que a habitavam. Este raio de Sol fora o único que penetrara as densas copas dos carvalhos seculares das Matas Míticas de Tamor, escapando-se sub-repticiamente ao bloqueio natural e aquecendo desprezavelmente o solo. O Sol ascendeu o suficiente para que este pequeno raio de Sol, ainda por obstruir, conseguisse atingir uma lâmina metálica, ligeiramente fora da sua bainha. Este choque lento e progressivo lançou o raio em inúmeras direcções, mas a principal reflexão incidiu sobre um homem que dormia ainda, embalado pela espécie de canção terna que a Natureza lhe cantava maternalmente como que para o chamar docemente para um novo dia. Este despertar privilegiado foi interrompido pelo raio matreiro, mas o homem, que acordou ofuscado, não se pareceu preocupar. Sentou-se. Elevou os braços aos céus, esticando-os ao ponto de parecer que poderiam soltar-se do seu corpo, ao mesmo tempo que inspirou fundo o ar imaculado das matas. Soltou o ar relaxadamente e com prazer visível, desenhando-se um leve sorriso de satisfação nos seus lábios finos e expressivos. Olhou com alguma atenção o seu campo improvisado. A armadura estava devidamente arrumada a um canto, dentro de uma sacola de cabedal, protegendo-a de possíveis intempéries súbitas e de outros elementos. A fogueira há muito que se apagara, mas ainda emitia uma muito subtil aura de calor, totalmente insuficiente para manter quente o resto da refeição da noite anterior: uma lebre gorda de Bomundo. O homem afastou o cobertor húmido com que se tapara e estendeu-o num arbusto. Com o seu punhal Qanif cortou uns lombinhos da carcaça fria da lebre assada. Acompanhou a carne com umas rodelas de pêssegos que apanhara no caminho. Agarrou numa fatia de pão e barrou-lhe reticentemente uma porção de manteiga de iaque de Buzul.
Enquanto mastigava distraidamente, pôs-se a observar o carvalhal ancião, plantado por um rei de outrora para esconder as ruínas de uma grande cidade inimiga que ele acabara de conquistar. Por entre os escuros matagais podiam-se identificar ainda algumas estruturas enegrecidas e erodidas, rodeadas de musgo, tombadas, vandalizadas e pilhadas vezes sem conta, invadidas pela fauna e flora. Inexplicavelmente, apenas as estradas dessa cidade esquecida sobreviviam à passagem dos séculos, lutando corajosa e desesperadamente contra as raízes profundas e grossas dos carvalhos. Os insectos começaram a sua árdua tarefa de sobreviver mais um dia, uns mais alegremente que outros. As formigas já procuravam e transportavam os alimentos para as suas colónias, as abelhas exploravam as milhares de flores à sua disposição, muitas das quais tinham evoluído, magica ou naturalmente, de modo a crescer na próprias árvores, possivelmente parasitando-as, ou pelo menos não se adivinhando simbiose alguma. De um carvalho caído brotavam imensos e grotescos fungos, digerindo lentamente a carcaça dura e resistente. Seria de supor que alguns daqueles cogumelos já ali estariam há várias dezenas ou mesmo centenas de anos, dado que as borboletas adoptaram as cores variadas de cada um para lá se camuflarem, sendo que cada carvalho caído criaria potencialmente o seu próprio ecossistema.
O homem olhou finalmente para o chão imediatamente ao seu lado. A espada Venceslau ainda reflectia o raio de luz solar. Ventura Lobo pegou na sua fiel espada e disse-lhe, amigavelmente:
- Olha lá, ò Venceslau, se calhar esta introdução absolutamente desnecessária já se prolongou demasiadamente. Se não nos pomos a andar, ele ainda há-de escrever mais uns quantos parágrafos. Olha, apareceu ali agora um pássaro! Vamos embora antes que ele repare e comece a descrever a sua bela plumagem.
Venceslau pareceu tremer ansiosamente, concordando.
Deveras, Ventura Lobo arrumou todo o seu equipamento e pôs-se a caminho, interrompendo grosseiramente a descrição completa do carvalhal e potencialmente do tal pássaro, cuja existência é impossível de comprovar na perspectiva de narrador ausente.
Em cada encruzilhada que lhe aparecia naquela floresta labiríntica, Ventura Lobo tomava sempre a direcção que o levasse para o Norte. O seu plano era dirigir-se às esquecidas montanhas-cidade da cordilheira Ruq. Pouco se sabia sobre essa área inóspita, mas havia um caminho próximo que era regularmente tomado por aventureiros e mercadores. Não existem muitos relatos de loucos que se tenham aventurado naquelas montanhas de pedra e que tenham conseguido voltar, o que imediatamente permite o leitor perceber que irá acontecer alguma coisa a Ventura Lobo que o obrigará a lá ir.
Depois de meio dia a andar, Ventura saiu finalmente do carvalhal, podendo apreciar uma planície que se inclinava progressivamente até ao horizonte próximo repleto de montanhas que rasgavam as nuvens no céu como as garras de um ser imenso. Decidiu descansar à sombra do último carvalho antes de prosseguir. Não foi com grande surpresa que pouco depois viu um cavaleiro surgir na estrada que vinha do Norte. Ventura desembainhou a espada como precaução, mas não se levantou, esperando calmamente até poder avaliar devidamente a situação.
Estranhou ao reparar que o cavaleiro tinha o aspecto de ser um Maglu, com os quais já tinha tido várias desavenças. É raríssimo vê-los tão perto das fronteiras do Reino, e muito mais raro, ou mesmo inédito, é ver um Maglu sozinho. Mesmo os batedores vêm sempre pelo menos aos pares. À medida que se aproximava, Ventura distinguiu o seu arco composto na sua mão, e decidiu levantar-se e aproximar-se do carvalho para se proteger. Notou, no entanto, que o Maglu não lhe prestou atenção, e parecia mesmo estar a fugir de alguém, pois olhou para trás várias vezes. Ventura decidiu arriscar-se e mostrar-se, com a espada virada para baixo.
O Maglu parou o cavalo e esticou uma flecha no arco, apontando certeiramente para o nosso herói, mas não disparou.
- Diz-me, nobre cavaleiro Maglu, de que foges!?
- Desplezível homem naligudo, voltal pala tlás. Cavaleilos maus. Ao fundo. Muito plóximos! Nolte, muito mau!
- Não, discordo, essa agora, ele é um bom actor, para aqueles papéis específicos que faz, obviamente.
- Não, bulo homem. Não Nick Nolte. Nolte! - e apontou para o Norte, onde se elevava uma ligeira poeira.
- Ah, Norte! Peço desculpa, meu caro.
- Não calo! Muito balato! Pleço especial, sim? - e abriu o casaco de peles para mostrar um conjunto de bugigangas inúteis.
Mesmo estando em perigo, é impressionante como a capacidade dos Maglus de fazer negócio nunca desvanece.
- Não estava a pedir que se calasse, e também não quero comprar coisa alguma, obrigado. Estou mais interessado em saber quem o persegue, se me puder dizer. Eu diria que deve ser a ASAE, se calhar?
- Não, polco impelialista. Selem cavaleilos maléficos. Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq!
- Quem? Como? Otto quem?
- Otto'Gháfiq! - respondeu, apontando para a nuvem de poeira, e mergulhando para o interior da floresta, desaparecendo.

A nuvem de poeira aumentou gradualmente, e Ventura percebeu que seria altura de se esconder, pois uma força claramente superior se aproximava, e não lhe podia adivinhar as intenções, mesmo que estivesse a perseguir um Maglu. Agarrou na sua sacola e retirou-se para um local ligeiramente mais profundo da floresta, mas ainda perto o suficiente para conseguir observar os cavaleiros vindouros. Escondido atrás de um arbusto, esperou.
Se era uma patrulha, era exageradamente grande. Muito mais provavelmente seria algum tipo de força de ataque. Algumas dezenas de cavaleiros, em filas de três, eram agora perfeitamente distinguíveis a percorrer a estrada. Não seriam mais de cem.
Pararam na orla da floresta ordeiramente. Pareciam falar uns com os outros. Ventura reparou que não estavam todos uniformemente vestidos, muito pelo contrário. Notava-se uma quantidade variada de culturas ali presentes, juntas sob um propósito misterioso. Contudo, todos partilhavam o uso de um símbolo, nitidamente visível num escudo de um dos guerreiros. Este símbolo tinha a forma de um polvo com nove tentáculos, sendo que cada tentáculo tinha um padrão de cores diferente, mas que era consistente com os símbolos que se espalhavam pela companhia.
- Oh diabo, espero que não seja alguma referência lovecraftiana, já há demasiadas dessas nos dias de hoje. - comentou Ventura Lobo.
Enquanto não se decidiam sobre o que fazer, Ventura reparou num cavalo não montado na traseira da companhia. A sua sela Maglu não deixava dúvidas: era o cavalo do companheiro do Maglu que Ventura abordara.
Subitamente, a companhia começou a mover-se, troteando cautelosamente para dentro da floresta. Qual seria a reacção do Rei ao ver esta força invasora a penetrar nas suas terras? Por pequena que fosse, não deixava de ser preocupante. Quando as últimas filas começavam a entrar no carvalhal, o cavalo Maglu relinchou em desespero e esperneou, puxando o outro cavalo a que estava preso e derrubando o cavaleiro. Ventura Lobo conseguiu imaginar as profanidades que o guerreiro lançou ao cavalo. É provável que estivesse suficientemente perto para as conseguir ouvir, mas desta vez é preferível assumir-se que não estava para evitar transcrever todo aquele vernáculo próprio de alguém que acabou de cair de forma humilhante de um cavalo.
Um cavaleiro chegou da dianteira e, não querendo perder tempo com um animal assustado, deu ordens para prendê-lo a uma árvore. Deveriam estar certamente com pressa para abandonar um animal tão magnífico.
Ventura Lobo não iria perder a oportunidade. Correu para a planície à procura de uma erva aromática muito apreciada por estes cavalos (e num guisado também não ficava mal). Demorou uns bons vinte minutos, sendo que o cavalo o observava confuso, pois só via um homem a correr de um lado para o outro na planície como se fosse insano. Quando finalmente a encontrou, aproximou-se calmamente do cavalo e ficou cinco minutos a olhar para o horizonte, parecendo ignorar a presença do equídeo. Simultaneamente, passou este tempo a esfregar as mãos com a erva que apanhara.
O cavalo já parecia habituado à presença daquele forasteiro, mas mantinha-se cauteloso, não obstante estar preso a uma árvore. Ventura Lobo começou a aproximar a mão perfumada do focinho do animal. Este, hipnotizado pelo aroma da erva, aparenta assentir o gesto.

De repente, Ventura Lobo puxa a mão atrás e dá uma valente bofetada no cavalo. Mas não uma bofetada qualquer. Uma bofetada que reuniu toda a força que Ventura conseguiu concentrar nos seus músculos. Pernas, ancas, abdominais, peito, ombro, braço e mão, todos usados em sintonia para criar a bofetada perfeita. Uma bofetada que fez os pássaros debandar das árvores, que fez os arbustos vibrar pelo impacto sónico, que fez todos os seres da família dos cavalos no mundo arrepiar-se, pois foi uma bofetada que trespassou as convencionais barreiras limitativas dos sentidos físicos de um só indíviduo, repercutindo-se quase telepaticamente por vastas áreas e por várias gerações. No passado, um cavalo terá sentido um arrepio aparentemente por razão nenhuma. Foi devido a esta bofetada que ultrapassou barreiras temporais. O mesmo acontecerá no futuro. Uma bofetada que não se poderá comparar a um Mongo vs cavalo, nem a um Conan vs camelo, nem a um Bud Spencer vs "mau da fita genérico", nem a um Manel GT vs Esticlapisso, nem a qualquer outra referência obscura que se possa imaginar da cultura popular e de culto televisiva ou cinematográfica.
Coloquialmente falando, uma bofetada do caralho.

A agressão, aparentemente exagerada, é um passo necessário para o cavalo adoptar um novo dono. Seria fútil reflectir que tipo de psique submissiva e masoquista aquela espécie devia ter para justificar ritual tão estranho, mas felizmente Ventura Lobo conhecia-o e pôde colocá-lo em prática como já vira ser feito. Agora era uma questão de esperar que o animal reanimasse, pois caiu pesadamente no chão, relinchando de uma forma que mais parecia um balido ténue.
Ventura Lobo não gostava particularmente de magoar animais inocentes ou indefesos (a não ser para o seu próprio sustento), mas chegou à conclusão que seria melhor para os dois prosseguirem viagem juntos, em vez de deixar o corcel à mercê de alguém atado a uma árvore, humilhado.
Quando o cavalo acordou, já Ventura o tinha desatado e apanhara umas maçãs pequenas duma macieira que reparou estar ali próxima. Ventura também tinha descoberto mais algumas informações, através da investigação relativamente exaustiva do animal e do seu equipamento. Faça-se uma correcção desde já, pois o cavalo era na realidade uma égua. O seu nome estava inscrito na sela no estranho abecedário dos Maglu.

"Sa Rah"

Ventura Lobo sabia ler alguma coisa da língua escrita, mas sabia pouco sobre o significado de cada símbolo.
- Suponho que te vou chamar Sara e pronto, apesar de não me parecer muito próprio. - comentou ele na altura.
A pequena sela típica dos Maglu estava suja de sangue e tinha ainda o arco, as flechas, a lança e a espada do seu dono anterior, bem como os mantimentos e utensílios gerais de um batedor. Existia também uma sacola com capas de telemóvel baratas. Seria de supor que teria sido vítima de um ataque cobarde por parte dos estranhos cavaleiros, o que maior confusão ainda causou a Ventura Lobo, pois os Maglu não eram conhecidos pela sua indulgência e tal acto seria certamente vingado.
Lembrou-se da sua primeira aventura nos Planatos Analfabetos, onde adquirira as suas botas muito confortáveis. Tinha sido contratado por um chefe de uma aldeia que se situa na fronteira com as terras do Norte. Apesar da protecção do Rei, não era totalmente incomum que incursões Maglu se arriscassem a atacar os pontos menos defendidos. Numa dessas incursões, os atacantes levaram uma jóia, um anel, sem grande valor prático, mas de enorme valor sentimental para o chefe. Ventura Lobo foi encarregado de o recuperar. Encontrou o campo dos invasores nesse mesmo dia, à noite. Sob a protecção de um luar inexistente, conseguiu aproximar-se sem ser visto e evadiu as sentinelas que tentavam regatear o preço de um guarda-chuva cor-de-rosa.
O campo estava numa confusão completa, com todos os Maglus distraídos a vender uns aos outros os produtos que tinham pilhado. Ventura notou ao seu lado um Maglu adormecido, encharcado de vinho. Roubou-lhe o capacete e outras peças de armadura. As botas, em particular, tinham um aspecto extremamente confortável e Ventura, assim que as colocou, decidiu imediatamente levá-las consigo.
Agora estava suficientemente disfarçado para poder passar despercebido. Vasculhou o campo mais ou menos à vontade, tirando uma ou outra interpelação por parte de um ou outro Maglu a querer vender chinelos coloridos ou alguidares. De repente, nota uma pequena briga entre dois guerreiros. Pelo que percebeu, ambos afirmavam que uma certa peça do saque lhes pertencia. Um deles tinha a mão em punho, como se lá dentro escondesse algo e o outro berrava e apontava para ela. Os Maglu começaram a tomar partidos e a discutir fervorosamente entre eles.
Quando o primeiro soco voou, já há muito que Ventura se tinha escondido, percebendo que a situação iria descambar para a pancadaria ou, pior ainda, para uma troca intensa de insultos. A partir daí, teve a vida facilitada. Ventura imaginou que, pelo que tinha visto, o saque não tinha sido grande coisa, e mesmo um anel aparentemente inútil teria um valor relativamente maior. Pressupôs assim que o objecto da disputa seria o tal anel. Ventura viu o Maglu com o punho fechado fugir para os arredores do campo.
Agarrou numa pedra e apontou-a para a cabeça do fugitivo. Arremessou-a. Acabou por lhe acertar na perna. O Maglu caiu, catapultando a pedra verticalmente. Ainda tentou levantar-se para continuar, mas a pedra acertou-lhe em cheio na cabeça, amolgando-lhe o capacete e atordoando-o. Ventura aproximou-se rapidamente, abriu com dificuldade a mão do Maglu, roubou-lhe o anel e escapou-se na escuridão da noite.
Quando o devolveu ao chefe da aldeia, este pegou nele e refugiou-se imediatamente em casa, esquecendo-se de pagar a Ventura Lobo, murmurando algo sobre o "seu Querido".
- Pronto, já despachei a referência obrigatória ao Senhor dos Anéis. Voltemos à história principal. - comentou, suspirando levemente.

Deveras, Ventura Lobo nem reparara que Sara já se tinha levantado e o olhava expectantemente, se bem que ainda um tanto esgazeadamente. Preparou-se, arrumou o equipamento no parco espaço da sela e montou Sara, não sexualmente. Aliás, se não for dito o contrário, doravante nunca se poderá assumir que o verbo "montar" tenha conotações sexuais.
Ventura Lobo seguiu estrada fora, não obstante aos ziguezagues, devido ao estado mental não totalmente recuperado de Sara.

Com o passar das horas, o nosso herói aproximava-se a um bom passo das montanhas, tanto que a estrada se tornara incrementalmente mais íngreme. Como já se referiu anteriormente, estas montanhas continham estranhas cidades das quais nunca ninguém voltara. Ventura estava agora numa estrada na base de um vale estreitíssimo. Se por acaso fosse emboscado ali, só poderia escapar para a esquerda, subindo o vale em direcção do local das montanhas-cidade. Obviamente, como se poderia adivinhar, é precisamente neste momento que Ventura Lobo ouve o barulho galopante de cascos a bater contra a estrada maltratada. Não consegue perceber de que direcção o barulho vem, mas sabe pelo menos que o melhor é sair da estrada.
Como não podia deixar de ser, Ventura comanda Sara para subir a encosta à esquerda para se esconderem. Ao chegarem com dificuldade ao cimo (Ventura desmontou antes de lá chegar para poupar Sara), esconderam-se atrás de um penedo enorme e colocaram-se a observar a estrada lá em baixo.
Pouco depois, aparece um grupo de cavaleiros em tudo semelhantes aos que Ventura vira no carvalhal. Se não se tivesse escondido, teria ido ao encontro directo deles.
Galopavam o mais rapidamente que podiam, e pareciam não ter fim. Centenas de cavaleiros multiculturais passaram, todos ostentando o símbolo do polvo de nove tentáculos. Subitamente, Ventura começou a ouvir o ruído crescente de um exército a marchar. Esperou ansiosamente mais uns minutos e até já ouvia os cânticos de soldados.
Finalmente. Um pequeno grupo de cavaleiros surgiu, em passo lento, liderado por um homem de cabelo grisalho, mas do qual poucas mais características se podiam adivinhar àquela distância sem a ajuda injusta de um narrador omnipresente. Seguia-lhes um exército de infantaria de tamanho considerável. Ventura contou cento e noventa e nove linhas de dez homens por cada regimento, o que era uma organização muito peculiar. Entendia algumas palavras que diziam, mas outras soavam-lhe estranhamente. No entanto, conseguiu indiscutivelmente separar o tema principal dos vários cânticos.

- Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq!

Era o mesmo nome que o Maglu perseguido tinha referido. Seria certamente alguma espécie de líder desta facção misteriosa ou um grito de guerra. Fosse como fosse, não era problema seu, ou não imediatamente.
Tinha de prosseguir para o Norte, em direcção ao Abade. Em direcção ao Livro.
O exército continuava a marchar e Ventura não poderia assumir garantidamente a sua hospitalidade. Decidiu abandonar a estrada principal e explorar as cidades-montanha atrás de si por outra passagem para o Norte.
Dito isso, virou-se.

A paisagem era árida e rochosa. Pouco parecia crescer ali, para além de um ou outro raro arbusto colocado esporadicamente na espécie de planalto em que Ventura se encontrava. Verdadeiramente, a característica mais impressionante daquele triste espectáculo eram as montanhas em si, que estavam longe de ter um aspecto natural. Eram formadas por imensos penedos que se elevavam no ar e se acumulavam uns em cima dos outros. Estes penedos não eram uniformes na sua forma, mas tinham consistência na estrutura que pareciam formar, como se tivessem ali sido colocados por um arquitecto.
Ventura Lobo dirigiu Sara na direcção de uma destas montanhas, para a investigar mais detalhadamente. Começou a notar umas incisões negras nos vários penedos, como se fossem pequenas grutas. Ventura ainda não vira vivalma, mas pensou que seria prudente desmontar e prosseguir pelo terreno acidentado a pé. Prendeu Sara atrás de uma pedra e desembainhou Venceslau. Depois de subir o que parecia uma escadaria irregular imensa, verificou que as incisões que vira eram de facto entradas para o interior dos penedos, que na verdade eram ocos. Outros buracos pareciam servir de janelas. Olhando em volta reparou em mais lances de escadas largas, que serpenteavam montanha acima até ao cume. Continuou a sua ascensão, pensando que do cume teria uma excelente visão para procurar uma passagem pelas montanhas.
Já estava quase à espera de ser surpreendido por um dos Flintstones, mas nos degraus deparou-se subitamente com uma estátua, ligeiramente maior que ele. Era a estátua de um guerreiro, com uma lança e escudo enferrujados. O seu estilo estético contrastava totalmente com o resto da cidade, pois a pedra parecia polida e suave, e os contornos faciais e musculares estavam perfeitamente definidos. O cabelo era feito de fios de cobre, meticulosamente colocados uns ao pé aos outros de modo a simular cabelo real. Estranhamente, os olhos haviam sido esculpidos de forma a estarem fechados. Se tal facto era algum tipo de aviso ou mensagem, Ventura Lobo desconhecia. A estátua aparentava, apesar de tudo, estar em bom estado de conservação, com uma excepção: o que estaria na sua zona genital tinha sido vandalizado, ou melhor dizendo, completamente retirado, notando-se o que pareciam ser várias marcas de um cinzel.
- Nem quero imaginar do que é que era feito para terem querido tirar-to, ò amigo! - disse Ventura à estátua, futilmente. - Realmente não há decência no mundo.
Foi com menor surpresa que Ventura Lobo encontrou outras estátuas ao longo da escadaria. Algumas dentro das casas, encostadas aos parapeitos das janelas, outras sentadas pensativamente nos degraus, outras em pé, olhando melancolicamente o horizonte para todo o sempre. Todas pareciam profundamente aborrecidas e todas tinham os olhos fechados.
- Quem esculpiu estas estátuas estava a ter um dia mesmo mau, com mil diabos!
As estátuas tornaram-se mais numerosas à medida que Ventura Lobo se aproximava do cume. Uma multidão de dezenas delas esperava impacientemente à volta de uma espécie de pirâmide cortada que formava o pico daquela montanha específica. Ventura escalou estes últimos degraus íngremes e apenas encontrou duas outras estátuas, ambas sentadas num banco de pedra largo mesmo no meio da praceta que a pirâmide cortada formava.
Ventura Lobo embainhou finalmente a espada Venceslau. Olhou para o horizonte e viu que as outras montanhas estavam construídas similarmente a esta. A área era verdadeiramente inóspita, mas Ventura não percebia o que é que causava os aventureiros a vir aqui e nunca voltar.
Perscrutou o Norte, procurando uma passagem possível.

- Que procuras, forasteiri? Nesti terri há pouqi para se encontrar. - disse uma voz profunda e lenta.
- Ventura Lobo virou-se dramaticamente, fazendo o seu cabelo voar como num anúncio genérico de champô, preparando a espada, mas não viu pessoa alguma.
- Quem falou!?
- Fui eu, forasteiri, nem tudo está morti aqui. - uma das estátuas que estavam sentadas no banco levantou-se. Era a primeira estátua que Ventura via com os olhos abertos e verdadeiramente não reparara se já o estavam anteriormente ou não. Coincidente e paradoxalmente, era a primeira vez que via uma estátua mexer-se de todo.
Ventura largou a sua espada, que deslizou de volta para a bainha. Já deveria ter percebido há muito que os habitantes daquela cidade tão esquisita eram as próprias estátuas. A que falou não parecia ser agressiva, o que assegurou Ventura.
- Perdão, meu caro, mas nunca tinha falado com um ser de pedra, nem tão pouco sabia que existiam.
O ser aproximou-se lentamente, parecendo carregar um imenso fardo invisível às suas costas. Era uma criatura significativamente maior que Ventura, em termos de altura e largura. Os olhos eram uma espécie de rocha negra muito polida, que conseguiam mesmo assim revelar uma quantidade imensa de emoção. Em tudo o resto era semelhante às outras estátuas, ou melhor, aos outros seres. Os seus cabelos metálicos eram longos, e balançavam de um lado para o outro como cabelo humano. Os genitais aparentavam ter sido removidos também.
A criatura apresentou-se num discurso longo e enrolado, como se não falasse há muitos anos.
- Eu chamo-me Riq, e sou i últimi dis Ruqi que dão i nome a estis montanhis. É rari que venham cá forasteiris, e quando vêm é normalmente ai procuri de tesouris. Diz-me entã, foreasteiri, que razã tens para subir ai cume de Ruquru, i minhi cidadi? Aviso-te já que nã há cá tesouris. Is que há estã nis montanhis mais para i interior, portanto, se is quiseres, tens de continuar caminhi.
Com tanto erro ortográfico, Ventura assumiu que a sua espada Venceslau estaria exasperadamente ofendida, mas para sua surpresa, estava perfeitamente calma.
- Saudações, Riq, o último dos Ruqi. Sou Ventura Lobo, aventureiro em missão real. Devo dizer que a sua cidade gerou uma quantidade de perguntas na minha mente que teria dificuldade em responder sem o auxílio de um habitante. Mal sabia eu que conhecer um dos habitantes traria ainda mais questões! Sem ofensa, compreenda.
- Is Ruqi há muiti que foram esquecidis. Já nã me admira que passem por aqui e fiquem admiradis peli triste espectáculi que é i minhi casi. Há muiti que não falo com alguém, se quiseres fazer perguntas, estás ai vontade, estrageiri.
- Agradeço a disponibilidade, meu caro. Devo dizer que o assunto que me mete mais impressão neste momento é a sua forma particular de falar, pois mais parece estar a falar uma má versão de italiano.
Riq fez uma exalação estranha, podendo ser um riso, um choro, um suspiro, ou uma combinação dos três.
- Para compreenderes i minhi maneiri de falar, teria de te contar muiti. Vem sentar-te comigui, se i tui interesse for genuíni.
Ventura aceitou o convite, não detectando qualquer tipo de má intenção. Sentou-se entre Riq e o outro Ruqi, parecendo uma criança no meio dos dois.
- Vou começar nim ponti em que seja fácil para ti compreenderes. Is Ruqi habitam esti cordilheiri desde quase sempre e através dis váris gerações estabelecemos uma sociedade muiti estável e prósperi, nã sem muitis erris peli caminhi, obviamente. Quando is montanhis passaram a ser insuficientes para i nossi populaçã, começámos a construir novis montanhis di nadi, e i cordilheiri cresceu. Is nossis polítiqis tinham tã pouqis problemis que começaram a arranjá-lis onde nã existiam. A certi alturi achou-se que deveria haver igualdade de direitis para is dois géneris de Ruqi, cujis termis já me esqueci. Aceitámos que todis tivessem is mesmis direitis e deveres.
- Mas isso até faz sentido. Ou pelo menos parece-me que sim... - interrompeu delicadamente Ventura.
- A nós também nos pareceu, mas i igualdade de direitis e deveres só se pode aplicar a seres mineralogicamente iguais.
- Mineralogicamente? Como assim?
- Biologicamente, ni casi dis seres glandulares.
- Ah, compreendo. Continue.
- Se nã existe homogeneidade em todis is indíviduis de umi sociedade, nã se pode aplicar is mesmis regris a todis. Nã vimos essi faláci a tempi. Consequentemente, leis bizarris começaram a ser aprovadis. Umi dis primeiris foi i fim dis casis de banhi públiqis separadis. De seguida foi i mudanci di modi de falar e escrever. Existiam tantis palavris que diferenciavam entre is géneris, algumas dis quais já disseste hoje, aventureiri, e que já me tinha esquecidi. Entã arranjaram-se formis neutris para fomentar i igualdade nis palavris.
"Por isso é que Venceslau não está aos saltos em agonia. A espada percebeu logo que Riq está a falar uma espécie de dialecto e a forma incorrecta das palavras é simplesmente um sotaque." - pensou Ventura.
- Por isto é que tens dificuldade em compreender-me, aventureiri, tal como eu nã te compreendo perfeitamente.
- Mas imagino que tais medidas tenham tido consequências mais graves? Imagino que houvessem equívocos constantes no dia-a-dia?
- Is equívoqis nã eram i pior. I pior foi que is pessois, inebriadis com i espíriti di igualdade total, deixaram de ter Ruqinhis pequeninis, porque apesar de serem necessáris dois Ruqi para gerar um Ruqinhi, ambis is partes tinham um papel diferente... se bem que nã me lembro exactamente quais eram...
- Um seria a mãe e o outro o pai, suponho?
- Nã conheço essis palavris. Ou nã me lembro. Nã sei. Sei apenas que is Ruqinhis deixaram de aparecer. Mas a situaçã ainda piorou mais. Is pessois simplesmente nã se conseguiam esquecer que eram diferentes enquanto houvessem provis visíveis de que realmente i eram. Por todi i ladi viam-se... nã me lembro i nome... i que tínhamos aqui... - e apontou para a virilha.
- Espera lá, Riq. Está a dizer-me que vocês removeram os vossos próprios genitais propositadamente em nome da igualdade?
- "Genitais", sim, é isso. É essi i nome. E sim, fizemo-lo, e tínhamos de i fazer váris vezes, pois elis cresciam de volti, como se i nossi própri corpi soubesse que i igualdade total é umi ilusã.

Instalou-se um silêncio desconfortável enquanto Ventura Lobo tentava digerir a informação que recebera.
- Diga-me, Riq, você lembra-se sequer o que era antes? Suponho que... o seu... enfim... o seu orgão tenha tentado crescer de novo...?
- Nã, nã me lembro i que eu era. Só me lembro que i Ruqi ai tui ladi era i miu esposi, mas também nã sei i que eli era. Não me lembro. E i mui "genitais" já parou de tentar crescer, desde i iníci di Grande Depressã.
- Uma crise económica?
- Nã, literalmente umi grande depressã social, que contagiou todi i populaçã. Quando nos tornámos totalmente iguais exaltámos i utopi que criáramos, mas pouqi depois percebemos que tínhamos perfurado umi vazi enorme ni nossi ser. I nossi existênci deixou de ter qualquer significadi se nã podíamos manter i cicli normal de umi vidi Ruqiani. Para quê trabalhar se nã tínhamos umi famíli para sustentar? Para quê tentar seduzir alguém, se era impossível gerar Ruqinhis? I sociedade ruiu, e tornámo-nos individualistas, e cada umi isolou-se ni sui casi, cada umi ni sui canti. Compreende, Ventura Lobi, que somos feitis de pedri por fori, mas por dentri somos tã emocionais como qualquer outri ser, ou talvez mais. Is Ruqi, deprimidis, começaram a... enfim, morrer nã é i palavri certi. Começaram a fechar is olhis, para nunca mais is abrirem, apesar de nã estarem realmente mortis. Simplesmente nã têm razã de viver e desligaram-se di mundi, criando umi cemitéri vivi de estátuis, como is pouqis visitantes que cá vêm dizem.
- Então todas as montanhas-cidade no horizonte estão assim? Mortas? Ou melhor, desligadas?
- Sim. Nis tempis finais, is Ruqi que restavam perceberam que nã queriam ficar sozinhis e começaram a juntar-se aqui. De pouqi lhes valeu, pois só se aperceberam ainda mais rapidamente i quão fútil tudi era. Fecharam quase todis is olhis ai mesmi tempi. Eu estava aqui, nesti síti exacti. I mui esposi juntou-se-me aí onde eli está agora. Nem me disse umi palavri. Só suspirou e fechou is olhis. Fiquei sozinhi desde aí.
- Bolas, isto está a ser um texto muito mais sério do que imaginei que seria...

Novo silêncio contemplador.

- Isso foi há quanto tempo? - perguntou Ventura, como se o silêncio nunca tivesse ocorrido.
- Nã sei, mas já vi is fumis de centenis de guerris e batalhis ni horizonti. Já vi torris imensis a ser construídis e abalroadis. Testemunhei todi i tipi de catástrofes. Observei is minhis queridis cidadis a deteriorar-se com i passar dis eris, atacadis por chuvis, ventis e pilhantis.
- Riq?
- Sim?
- E você?
- Como assim?
- Porque é que ainda não fechou os olhos?
As esferas negras que eram os olhos de Riq pareceram humedecer-se.
- Nã sei. Nunca soube como é que is outris i fizeram. Já tentei váris vezes, mas pareço estar presi numi espécie de maldiçã. Há algo que me mantém vivi. Algo que me diz que i mui trabalhi ainda nã acabou.
- É esperança, se calhar?
Riq abanou negativamente a cabeça gigante.
- Culpi.
- Culpa? Porquê?
- Porque fui eu quem propôs is primeiris ideis de igualdade total. Eu sou i responsável peli morti dis Ruqi, e suponho que me mantenho aqui para avisar is civilizações presentes ou futuris dis periguis de tais ideis, se levadis ai extremi.
- As minhas aventuras normalmente envolvem uma boa quantidade de parvoíce, e acho que é a primeira vez que lidei com uma situação tão séria. Posso apenas esperar que isto seja uma partida monumental e que o Riq me aponte para o sítio onde estão as câmaras dos apanhados, para depois aparecer na SIC.
- Estás com azar, aventureiri.
- Nada do género, então?
- Nada.

Ventura Lobo reflectiu durante um momento. Subitamente, levanta-se energicamente.
- Diga-me, Riq, já tentou acordar os seus compatriotas do seu torpor?
- Todis is dias, de todis is formis que me vêm ai cabeci. Umi vez até contratei umi Magui poderosi que procurava umi Demóni qualquer, mas eli pouqi pôde fazer, pois disse que is Ruqi nã tinham vontade de serem acordadis.
- Essa agora... E ele deu alguma sugestão sobre onde se poderia ir buscar essa vontade?
- Eli era umi individui misteriosi e vagui. Apenas respondeu que i soluçã está ni Bem.
- Com "B" grande?
- Creio que sim.
- Parece-me estranho, pois aqui não há grande possibilidade de fazer o Bem.
- Isso foi i que eu lhe disse. Eli aconselhou-me paciênci, pois i dia viria.
- Ou seja, esse Mago era maluco.
- Nã sei, aventureiri.

O Sol começara a descer, e as sombras das montanhas enegreciam as planícies áridas de Ruq.
- Começa a ficar tarde, Riq. Acha que me permitiria passar aqui a noite para retomar caminho amanhã?
- Claro que sim, aventureiri, até agradeço i companhi.
- Já que estamos no assunto, poderia também perguntar se....
Ventura Lobo interrompeu-se ao ouvir um barulho galopante. Aproximou-se dos degraus da pirâmide e surpreendeu-se ao ver Sara a subir agilmente a cidade. Parecia alarmada.
- Que se passa, bicha? Qual é a pressa? E como é que num raio é que te soltaste!?
Sara não precisou de responder, não que o pudesse. Olhando para baixo, Ventura viu que um conjunto de cavaleiros se reunira no sopé da montanha-cidade de Ruquru.
- Riq! Conhece-los!?
Riq abeirou-se placidamente dos degraus e olhou longamente para os homens lá em baixo.
- Sim, sã is serventes de Otto'Gháfiq. Já cá apareceram umis vezes, a querer converter is habitantes daqui para i culti delis, com pouqi sucessi. Pessoalmente, nã gosti muiti delis, nem nunca lhes dirigi i palavri, pois nã gosto de pensar ni mui povi subjugadi por umi culti estúpidi.
- Um culto? Essa agora...
- Sim, umi culti. Estranhamente, elis parecem saber que is Ruqi estã vivis, pois os cultistas vêm falar com elis algo futilmente. Eu deixo-is falar ai vontade pois pode ser que consigam acordar algumi delis. Devo dizer que nunca vieram cá armadis, i que me deixa numi novi nível de preocupaçã.
Riq olhou para o olhar expectante de Ventura.
- Elis estã aqui por tui causi, Ventura Lobi? Que fizeste?
- Poderei ter roubado um cavalo que eles roubaram a um Maglu. Em minha defesa, devo dizer que eles abandonaram o cavalo na orla de uma floresta.
- Abandonaram umi cavali Maglu? Parece-me duvidosi...
- Ela recusou-se a entrar na floresta e eles abandonaram-na. Digo a verdade, Riq.
- Nã preciso de tautologismis. Eu acredito em ti. Só espero que nada de mal ocorra a Ruquru.
Dito isso, Riq desceu as escadas e pegou um velho escudo de ferro maciço e um martelo pesadíssimo. Colocou-se em sentido, mantendo-se perfeitamente imóvel, parecendo simplesmente mais uma “estátua”.

Ventura Lobo mandou Sara subir os degraus. Desembainhou Venceslau. Virou-se para a escadaria donde os cultistas viriam.

E esperou.

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A Espada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 31.07.16

Anteriormente...

 

Ventura Lobo sabia que precisaria do seu amigo Abade Fazia se quisesse encontrar o Livro. Devido às suas aventuras, há já muito que concordara com as palavras do Abade. Assumindo que o Livro continha a salvação esperada das pessoas, cada vez mais lhe dava uma maior importância; importância esta que o povo ignorava quase completamente. No entanto, nunca fez por procurar o Abade. Nunca achou que precisasse, em parte porque não queria ter que admitir que o velho insano tinha razão.
Agora precisava, pois estava incumbido com uma missão real. Não poderia falhar, senão esta seria uma história bastante menos interessante, a não ser que Ventura Lobo fosse um anti-herói ou um personagem cómico secundário.
A demanda, mesmo antes de começar, apresentava-se complicada, pois Ventura Lobo sabia que teria de se aventurar nas perigosas terras do Norte, onde as piores escumalhas monstruosas se aterrorizavam umas às outras num estado de guerra civil inter-clã fantástico e constante. Bem vistas as coisas, ainda bem que tal acontecia, pois as boas pessoas do mundo podiam respirar de alívio.
Ventura Lobo começou a preparar-se para a sua aventura. Levantou-se da cama de palha, mordiscou umas fatias de pão barradas com manteiga de iaque da Cratera de Buzul, bastante nutritiva, apesar de Ventura Lobo preferir não se lembrar do processo de ordenha dos iaques. Para contextualizar, os executores da ordenha são o povo nobre dos Pigmeus de Buzul, de cabeças ainda mais minúsculas que o resto do corpo. Por contraste, os iaques da região são animais milenares gigantescos. É impossível imaginar que ideia terá passado pelos pigmeus para tentar ordenhar um animal centenas de vezes maior que eles próprios (e milhares de vezes maiores que as suas cabecinhas), mas a verdade é que fizeram do feito uma arte. Como as suas cabecinhas são mesmo muito pequeninas, têm ampla envergadura de ombros disponível, o que lhes permite colocarem-se em cima uns dos outros, não sem habilidade, formando uma espécie de escada vertical humana, não totalmente incomparável a um número de circo. Assim, escalando-se comicamente uns aos outros, conseguem chegar à única teta que uma iaque buzuliana fêmea tem. Tragicamente, os pigmeus buzulianos não têm a fama de ser inteligentes nem de terem a vista apurada, e já têm confundido uma iaque com um iaque, o que origina um erro que apenas demasiadamente tarde descobrem. Existem rumores que nada é desaproveitado, mesmo assim.
Com este pensamento, Ventura Lobo pousou a fatia de pão lentamente, senão com um toque de nojo. Foi ao estalajadeiro e pediu-lhe para preparar um bom banho. Voltou ao seu quarto e começou a fazer os seus exercícios matinais, não para se preparar para a missão vindoura, mas com o objectivo de manter o físico sensual, não totalmente prático, para impressionar as miúdas, humanas ou não. Outrossim, sabendo que ia para o Norte, pensou em fazer um atalho pelas terras das fadas Aa'a-a-A'a, as mais belas das Fadas Vogais, já que tinha uma particular atracção por elas. Note-se que esta atracção existe em termos puramente sexuais, claro, pois de forma alguma um aventureiro de renome como Ventura Lobo poderia envolver-se em sentimentalismos. Obviamente que não, não seria digno de um herói a sério. Nem seria digno de um homem de todo, essa agora.
Ventura Lobo interrompeu as suas flexões (ainda só ia na milésima tricentésima trigésima sétima) para arrotar e praguejar grosseiramente, só para demonstrar ao mundo a sua masculinidade aparente, não fosse algum leitor de mentes estar à escuta. Bateram à porta e Ventura Lobo colocou-se numa pose ridícula dominante, pensando que poderia ser a filha do estalajadeiro.
- Entre! - ordenou Ventura Lobo, completamente suado e arfante.
Não era a filha. Era o próprio estalajadeiro, cujo bigode enorme, grisalho e sujo foi a primeira coisa que Ventura viu. Na verdade, não era muito diferente do da filha, se bem que o dela era louro claro, perfeitamente exemplar dos humanos de Aguard dos quais fazia parte.
- O seu banho 'tá pronto, chefinho.
Ventura Lobo escorregou para a banheira de madeira, que em tempos havia sido um enorme barril de vinho azedo de Pútúíl. A fragrância desagradável ainda tinha uma presença forte no barril, como se estivesse embebido ainda da substância nefasta (que, inexplicavelmente, é amplamente apreciada e consumida ou pelos muito pobres, ou pelos incrivelmente ricos). Como não queria sair do banho a cheirar como uma estrela de rock do final dos anos 60 (dos nossos anos 60, claro; ainda não é clara a cronologia neste mundo imaginário), Ventura Lobo aplicou uma pitada de sais de banho dos ufanos habitantes das Cidades Voadoras, os Kamil. A água agitou-se, borbulhou, fervilhou e subitamente acalmou-se, convergindo para uma superfície ligeiramente espumosa e convidativa. Rodeado de aromas mágicos e sempre desconhecidos, Ventura Lobo pegou num espelho flutuante, outra prenda por parte dos Kamil depois de ele ter afugentado das Cidades Voadoras uma excursão de turistas H'hultianos vulgaríssimos, começou cuidadosamente a fazer a barba, arrancou os pêlos que teimavam a reaparecer na glabela, evitando assim uma monocelha, cortou as unhas com uma pequena navalha, limpou os poros do seu nariz acentuado, puxou dolorosamente os pêlos que espreitavam pelas narinas, passou champô pelo longo e ondulado cabelo castanho-dourado, como o cabelo típico de um mosqueteiro dos filmes, tipo o Jeremy Irons.
Espera lá. O champô se calhar não existia neste contexto. Felizmente, aqui pode-se inventar seja o que for para colmatar falhas de coerência:
Ventura Lobo aplicou então a substância semelhante a seiva que adquiriu de um mercador Xesparatuq, proveniente das selvas cor de fogo das Montanhas Xsantinuq. A substância, a que o mercador chamava Sxam'Poh, como já se referiu, fazia maravilhas a tudo o que fosse pêlo ou cabelo (e os Xesparatuq devia precisar de quantidades massivas do produto, tendo em conta que eles são essencialmente bolas de pêlo andantes). O mercador insistiu veementemente que Ventura levasse o frasco de Sxam'Poh gratuitamente. Quando inquirido sobre o porquê da oferta, o Xesparatuq simplesmente disse:
- Porque você merece.
A resposta enigmática ainda assola a mente do nosso herói de vez em quando.

Ventura Lobo presenteava-se com todos estes luxos e vaidades pois sabia que só daí a muito tempo é que voltaria a civilização. Levantou-se finalmente da banheira. A água tornou-se magica e imediatamente fria. Ventura sentia-se completamente revigorado. Passeou pelo quarto até se conseguir cobrir decentemente. Para não ofender sensibilidades, deve-se referir que os seus pudendos estavam visualmente censurados, mesmo que isso seja impossível e ridículo de demonstrar numa narrativa.
Vestiu-se com uma roupa leve e voltou para o seu próprio quarto. Tinha pedido ao estalajadeiro para mandar limpar a sua armadura e esta já o esperava em cima de uma velha mesa de madeira. Começou pelas pernas, onde enfiou umas calças de cabedal reforçado de iéti. Ou eram calças de cabedal de iéti reforçado? Já se esquecera, mas não interessava. Calçou as botas muito confortáveis e resistentes que roubou a um pilhante Maglu nos Planaltos Analfabetos. Reflectiu durante uns segundos o porquê de se usar o verbo calçar para botas mas não para calças. Equipou a armadura de malha que se ajustou ao seu corpo, apertando-o apenas ligeiramente, não lhe retirando qualquer agilidade aos movimentos. Arranjou-a no Decathlon, porque queria uma versão desportiva, daquelas que respiram bem, como se costuma dizer. Aplicou as joelheiras, as ombreiras e as manoplas, todas ricamente decoradas com padrões nas suas componentes metálicas quase brancas com bordas douradas, já se notando, no entanto, algum desgaste óbvio nas porções de cabedal das mesmas. Finalmente, vestiu um colete leve e prendeu-o na cintura com um cinto, cuja fivela tinha relevado o símbolo de um lobo. Na verdade, para se ser correcto, o símbolo representava um cão pastor belga, mas da mesma maneira que um leitor desta história não sabe onde é que é a Cratera de Buzul, os habitantes deste mundo também não sabem o que raio é a Bélgica, portanto diz-se que é um lobo e isso satisfaz todos os intervenientes, reais ou imaginários.

Só lhe faltava um conjunto de coisas. As suas armas. Tinha vários punhais, cada um mais exótico que o outro, uma soqueira no colete, uma besta guardada de lado com os respectivos dardos numa aljava pequena presa na perna e um sabre Ahtem. Contudo, a sua arma preferida chamava por ele. Uma arma com que Ventura Lobo tinha derrotado incontáveis inimigos e que no fundo era a única companheira constante dele. Uma espada de lâmina de metal branco e reluzente. O cabo, por contraste, era negro como ébano e findava no pomo que era na verdade uma espécie de pedra preciosa translúcida surpreendentemente pesada. O mesmo género de pedra encontrava-se nas duas pontas da guarda da mão. A lâmina não parecia estar desgastada de todo e estava gravada com vários símbolos que reluziam um azul muito leve. Estes símbolos pertenciam ao alfabeto dos Tçuchulshuxuz, uma civilização antiquíssima que se perdeu para sempre, depois de sucessivas guerras civis brutais e devastadoras, todas relacionadas com a discussão sobre a correcta pronúncia do seu próprio nome. Felizmente, o pouco conhecimento que sobreviveu dessa civilização permitiu a tradução das inscrições da espada, que revelaram o seu nome:

Venceslau.

Esta espada já tinha tido inúmeros donos, mortais e imortais, humanos e monstros, sendo que a lenda dizia que ela tinha vontade própria e continha um poder imenso, não se sabendo com que fim. Se tal fosse verdade, a sua permanência com Ventura Lobo não seria coincidente e ela auxiliava-o porque assim o queria.
Ventura Lobo pegou na espada, que pareceu tremer de expectativa. Enfiou-a na bainha e lembrou-se do dia em que tomou posse de Venceslau.

O sol estava a pôr-se. A noite aproximava-se depressa nas planícies áridas de Kukula, o Deserto Limitado. Ventura Lobo seguia rapidamente pela estrada mercantil, esperando chegar ao oásis deslumbrante de Virik Katal, o centro exacto de Kukula e do Império Comercial Kataliano. A estrada eximiamente construída contrastava com a pobreza das terras secas e fendidas pelas quais serpenteava. Eis que Ventura observa uma montada no horizonte, com alguém a seu lado. Estavam parados. À medida que se aproximou, discerniu claramente um cavalo dourado, como os que os katalianos usam na sua Guarda Imperial e Comercial. No entanto, a criatura ao lado do cavalo estava longe de ser um dos homens morenos de Katal. Subitamente, o cavalo larga a fugir, obviamente aterrorizado com algo, e galopa na direcção de Ventura Lobo, passando como um relâmpago por ele sem parar. A criatura ainda o tentou apanhar, mas voltou atrás depois de uma curta perseguição, não notando que era observada pelo recém-chegado.
Ventura Lobo, agora ainda mais próximo, reconheceu a criatura como sendo um Vyx, um monstro humanóide raro que normalmente só causa problemas. Era verde e a sua pele nunca tinha um estado a que se pudesse chamar sólido, mas era sim uma espécie de líquido viscoso em constante movimento. Na sua cabeça, em vez de ter cabelo, dançavam uns tentaculinhos pequenos, como os de um mau penteado de jogador de futebol. O seu olhar, também verde, era uniforme e vazio de expressão. Normalmente encontravam-se em ambientes mais húmidos, onde pudessem sugar líquidos para manter o seu corpo saudavelmente medonho e pegajoso.
Não obstante serem incomuns, não era a primeira vez que Ventura Lobo lutaria com um Vyx. Imaginou que estivesse a absorver todos os líquidos do anterior dono do cavalo, e supôs que estaria mais disposto que tudo a defender a sua presa.
Desembainhou a sua espada, que na altura era o seu excelente sabre de origem Ahtem, e fez por apanhar a criatura de surpresa. Como não podia deixar de ser nestas situações, tropeçou numa pedra e chamou imediatamente a atenção do Vyx. Este virou-se repentinamente, exprimindo surpresa com a linguagem corporal. Ventura observou o espectáculo triste à sua frente. Um soldado kataliano estava quase completamente ressequido no chão, de armadura destruída e roupas esfarrapadas.
Ventura Lobo aproximou-se, agora sem subtileza. O Vyx pegou na bela espada do soldado e preparou-se para o combate.
- Boa tarde, ou quase boa noite, amigo Vyx. Devo dizer que as autoridades katalianas não deverão olhar com bons olhos o assassinato de um dos seus soldados, mesmo que seja para o sustento directo de outrem.
- Não me interessa, tinha sede, muita sede, precisava de beber. - respondeu maliciosamente o Vyx.
- Bom, permita-me que me apresente: Ventura Lobo, aventureiro a caminho de Virik Katal. Peço-lhe que me obsequie com o seu nome.
O Vyx riu-se sardonicamente.
- Eu tenho o nome de "Demolidor Implacável" na minha língua, que com a pronúncia correcta se diz... - fez uma pausa dramática. - Fernando...
- Pois claro, agradeço-lhe. Precisava do seu nome para o reportar às autoridades competentes, quando estivesse a relatar a sua derrota vindoura.
- Podes tentar, Ventura Lobo, o Aventureiro... - e Fernando elevou a sua espada branca numa pose estranha de combate, não desconhecida do seu adversário, felizmente. - Anda cá, se 'tiveres pronto!
Dito isto, a espada branca caiu sobre o seu próprio manuseador, atingindo-o de chapa na cara, atordoando-o. Ventura Lobo, pensando que era um truque para o distrair, apenas redobrou a sua guarda.
- Que raio? Mas esta treta escapasse-me da mão sem mais nem menos?
Subitamente, o Vyz desfere um golpe com o pomo da espada na própria barriga.
- Mas à alguma maldição nesta espada?
Fernando desferiu um novo golpe em si próprio, desta vez cortando um pedaço da nhanha verde e purulenta que era a sua pele. Acreditando que a espada estaria amaldiçoada, o Vyx arremessou-a contra o adversário, esperando feri-lo para logo a seguir o atacar com as suas pútridas garras. A espada voou e cortou sibilantemente o ar, mas caiu pacificamente na terra seca à frente de Ventura Lobo. Este, curioso, não conseguiu deixar de pegar e admirar uma tão bela peça. Fernando, vendo que a maldição estava nas mãos inimigas, lançou-se ao ataque, surpreendendo Ventura.
- Agora vais morrer, humano!
Ventura Lobo conseguiu bloquear o ataque, levantando a espada agilmente, e tentou de seguida separar-se para se recompor.
- Esta é uma boa espada, Fernando. Não se devia ter separado dela. Agora, preparese, pois é a minha vez de atacar.
Não era não, pois o nosso herói levou igualmente com a espada de chapão na bochecha, para imenso gozo trocista do Vyx.
- Ah, vês? Uma espada que ataca quem a usa não pode servir para muito. Deve ter um feitiço sobre ela.
- Bom, na verdade, - respondeu Ventura Lobo, enquanto analisava os estragos inexistentes à sua cara. - bem vistas as coisas, até mereci, porque me esqueci do hífen na frase ameaçadora que disse. Enfim, acontece. Ah... mas será que? Deixe-me experimentar uma coisa.
Ventura Lobo falou para a espada.
- "O Fernando é bonito!"
Todos os presentes estranharam a afirmação, mas mais nada aconteceu. Ventura Lobo continuou:
- "O Fernando é bunitu!"
Imediatamente a espada caiu em cima do pé do seu portador, resultando num ror de pragas. Quando Ventura Lobo se acalmou, explicou finalmente a Fernando:
- Pois, é meu caro, creio que esta espada leva demasiadamente à letra a expressão de "corrector ortográfico", pois parece atacar quem comete calinadas no que diz.
- Então ela consegue ver textualmente o que nós dizemos?
- Fantástico, não é? Bom, podemos retomar o nosso combate, se calhar? Desta vez, mais silenciosamente, não queremos ofender aqui esta espada.
- 'Bora.
Ventura Lobo atacou, desviando-se das garras de Fernando movendo-se para a direita, o que lhe deu a abertura para desferir um golpe certeiro na sua lateral. Fernando, aparentemente imune à dor, arranhava futilmente o ar, pois Ventura conseguia sempre ou evadir o golpe ou deflecti-lo. Em cada ataque falhado, Ventura cortava mais uma camada da pele peganhenta e chutava-a para longe, para que não pudesse ser reabsorvida. Relembra-se que esta não era a primeira vez que lutava contra um Vyx, portanto a estratégia já estava definida mesmo antes do combate ser iniciado.
Depois de alguns minutos desta dança mortal, o Vyx estava magríssimo, e em desespero tentava absorver humidade do próprio ar, mas de nada lhe valeu.
- Misericórdia, Ventura Lobo! Imploro-te! Fugirei para uma caverna qualquer, não causarei mais problemas!
Ventura Lobo, com um esgar malicioso na cara, apenas disse:
- Sabe, os olhos de Vyx são muito procurados e valiosos nos dias de hoje.
- Não! Por favor! Peço te!
Foi a gota de água para a espada. Sem Ventura querer, ela lançou-se sobre o pescoço de Fernando e este desfez-se completamente, ficando apenas duas grandes esmeraldas que haviam sido os olhos de Fernando.
Ventura Lobo encontrou o cavalo do soldado e usou-o para compensar o tempo perdido para chegar a Virik Katal, não sem antes enterrar o irreconhecível guarda kataliano. Decidiu levar a espada dele como prova do que ocorrera ali. Pôs-se a galope pelas planícies, continuando a seguir a estrada.
Quando chegou à cidade imperial de Virik Katal, requereu uma audiência com as imperatrizes e apresentou-lhes a arma do soldado caído, contando-lhes o que se sucedera. Foi com desgosto que reagiram.

- Esta espada branca chama-se Venceslau. - disseram as duas em uníssono. - Era a espada de um dos nossos melhores guerreiros, Fil Lin Ot Lau.
- É horrível pensar que a espada partilhava parte do nome com ele, e que agora não terá o mesmo significado.
- Na nossa cultura, um verdadeiro guerreiro adopta parte do nome da sua espada, e não o contrário. Esta espada já tinha uma história milenar antes de pertencer a Fil Lin Ot. É deveras impressionante que tenha conseguido trazê-la de todo, pois Fil Lin Ot dizia que ela escolhia os seus mestres e não se deixaria usar por ninguém desmerecedor.
As imperatrizes, subitamente, começaram a murmurar uma para a outra numa linguagem que apenas elas compreendiam.
- Aventureiro, propomos-te um negócio, se estiveres interessado.
- Estarei interessado em ouvir, pelo menos.
- Sabemos que tens os valiosos olhos do Vyx. Propomos uma troca desses olhos pela espada, já que, apesar de tudo, a espada não é tua.
- Perdoai-me a impertinência, Majestades, mas tal acordo não seria uma desonra à memória de Fil Lin Ot Lau?
Riram-se levemente.
- Não, aventureiro, seria, muito pelo contrário, uma honra enorme. Ele era um kataliano que representava perfeitamente o espírito da nação, e saber que a sua morte resultou num negócio de valor tão grande seria tudo o quanto ele poderia almejar. Se quiser, para melhorar o negócio, oferecemos também o Fil, o cavalo dourado de Fil Lin Ot.
Assim persuadido, Ventura Lobo aquiesceu e nunca mais se separou de Venceslau.

Fil, o cavalo, perdeu-se tragicamente na fortaleza negra de Ung Bodun, muito tempo depois. Mas isso é outra história.


Relembrada a história de Venceslau, a espada, Ventura Lobo fez-se à estrada.
- Vamos, Venceslau, em direcção ao norte!
E levou uma traulitada na perna por se esquecer da maiúscula.

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publicado às 17:05


O Abade - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 28.06.16

Anteriormente...

 

Sinceramente, Ventura Lobo não fazia ideia de como iniciar a sua busca pelo Livro, importante o suficiente nesta epopeia para merecer ser tratado como um substantivo próprio. Ele soube da sua existência há muito tempo, mas mencioná-lo publicamente só lhe trouxera complicações, especialmente porque os saloios incultos com que se cruzava não sabiam o que era um livro sequer, quanto mais O Livro dos livros. Escoraçavam-no dos povoados, alegando feitiçaria, bruxaria e elitismo literário.
- Expulsem-no! Daqui a nada começa a envagelizar o Zé Saramago e a Agustina Bessa-Luís.
Ventura Lobo tentava explicar em vão que não era esse o seu objectivo (muito menos começar por esses autores, c'um catano!). Pretendia convencer os enraivecidos cidadãos ignorantes que o interpelavam que existe um livro que beneficiaria todos quantos o lessem, ou assim rezava a lenda, pelo menos.
A resposta normal por parte dos camponeses era a tentativa de converter Ventura Lobo numa salada requintada, atirando-lhe comida estragada e exoticamente temperada, como o cliché obriga. Ventura tinha tanto de modesto como tinha de astuto, e por isso começou a enervar camponeses de propósito quando lhe apetecia uma refeição frugal e barata.

Voltando ao Livro, ele lembrou-se que a primeira vez que ouviu falar no Livro foi numa altura no início das suas aventuras, quando ele vagueava aleatoriamente pela serras do Norte, não porque procurasse o tesouro de um monstro viscoso, mas simplesmente porque se perdera depois de se ter ido aliviar a um arbusto e ter notado que o resto da caravana mercantil com que seguia o deixara para trás.
Foi a última vez que pediu boleia a um camião do Pingo Doce.
Seja como for, na sua deambulação pelas serras, deparou-se repentinamente com uma espessa neblina que lhe bloqueava toda a visão. Veio a saber depois que a neblina aparentemente mágica foi o resultado de um convívio de feiticeiros, cuja sardinhada correra catastroficamente mal pois cada um tinha uma opinião diferente de como melhor assar as sardinhas. Ventura Lobo andou tropegamente pelo fumo, subindo o que parecia ser uma espécie de monte.
Subitamente, caiu num buraco.
A queda foi surpreendentemente inofensiva, por duas razões: em primeiro, não se pode aleijar seriamente o herói de uma saga, senão temos de ficar uma data de tempo à espera que ele se cure decentemente, para o sindicato não se queixar; em segundo, o facto de ele ter caído em cima de um velhote esquelético, mas estranhamente fofo, ajudou imenso.

- Ah, atacam-me? Mas como? Estou completamente sozinho! Há tantos anos que o estou! Será a minha mente que finalmente vacila sob o peso destes anos de prisão miserável? Será o fim da minha existência subterrânea, libertando-me desta vida terrena e levando-me para outros planos de existência?
O velho tinha o aspecto de poder ser utilizado por agências de publicidade no Natal, ou em adaptações amadoras do Senhor dos Anéis. A cara enrugada, barba comprida, olhar ligeiramente maníaco, o cheiro a alguma espécie de água-de-colónia que nunca ninguém tem coragem de dizer que "cheira muita mal". Tudo contribuía para descrever um personagem tão típico num ambiente fantasioso medieval.
- Perdão, meu senhor, mas receio ter de o informar que não o venho libertar de nada, excepto de uma aparente solidão enlouquecedora. Permita-me que me apresente: Ventura Lobo, aventureiro amador e futuro herói de uma série de histórias que um gajo há-de criar no futuro.
Ajudou o velho a levantar-se, verificando se lhe partira mais do que uma dezena de ossos. Menos do que isso é admissivelmente ignorável.
- Pois aventureiro, és louco em vires meter-te aqui! Estarás para sempre preso como eu! - berrou o velho exasperadamente, mas rapidamente se acalmou e apresentou-se. - Sou o Abade Fazia.
- Fazia o quê?
- É o meu nome!
- Fazia o seu nome? Deixou de o fazer? Ah, eu só fiz o meu nome uma vez. Aliás, nem isso, porque o meu nome fizeram-no por mim, o que me parece algo injusto.
- Idiota, o meu nome é Abade Fazia!
- Ahh! Peço desculpa, nunca conheci ninguém com esse nome, daí a confusão. Só espero que nunca se torne abade, porque senão seria ridículo pensar que a combinação do seu título com o seu nome ficaria Abade Abade Fazia, que mais parece um nome possível para um personagem irritante da Guerra das Estrelas.
- Mas Abade é já o meu título!
- Então já se pode tratar por Abade Abade Fazia?
- Não! É apenas Abade Fazia.
- Então... Abade Apenas Abade Fazia? Já mais parece um provérbio popular.
O velho de nome invulgar fez uma pausa, coçou a cabeça impacientemente, e tentou de novo.
- Chamo-me Abade Fazia, que é a combinação do meu título, "Abade", e do meu nome próprio, Fazia.
- Ah, claríssimo. Cristalino, mesmo. Que faz aqui, se me fizer o obséquio de explicar?
- Fui aqui preso há muitos anos por autoridades invejosas, injustamente!
- Obviamente, como é que o leitor poderia empatizar com a sua personagem se algo de horrível não lhe tivesse acontecido?
- Pois claro.
- Deveras. Deve-me perdoar por perguntar, Abade Fazia, mas agora que penso, o seu nome é-me algo familiar, e parece-me que apenas grandes fãs do Richard Harris é que vão perceber a referência.
- Sim, talvez, mas há pelo menos três maneiras que eu saiba de chegar à referência que eu sou.
- Algumas são obscuras, talvez?
- Admito que sim. E tu foste lembrar-te logo da mais obscura de todas!
- É um bom filme.
- Mas não é uma adaptação fiel do livro.
- Continuemos, meu caro Abade, este não me parece o sítio para discutir cinema fora de contexto. - disse Ventura Lobo, olhando em volta. - Nunca tentou sair daqui? É verdade que apenas vejo aquele buraco por onde caí como saída, mas esta espécie de gruta há-de ter outra escapatória.
- Não, jovem, não tem. Mas não é por isso que eu tenha desistido de tentar. Comecei a escavar um túnel quase no mesmo dia em que cá cheguei. Já avancei vários metros.
- Ah sim? Mostre-me o túnel, talvez o possa ajudar. Seremos dois, por isso o trabalho avançará mais rapidamente.
- Mas jovem, tu estás no túnel!
Ventura Lobo não compreendeu imediatamente, ficando pensativo e confuso.
- Desculpe, mas está a tentar dizer-me que esta gruta é o seu túnel?
- É isso mesmo.
- Escavou-a toda?
- Todinha.
- Mas onde é que arranjou os materiais para o fazer?
- Fui aproveitando os materiais da minha cela.
- Mas qual cela? Não vi nenhuma!
- Então jovem, a que está em cima do monte! De onde tu caíste!
- Mas não estava lá nada!
- Agora não, é claro que não, não me estás a ouvir! À medida que ia escavando o túnel ia arrancando as tábuas do chão, retirava as barras de ferro das grades, lascava as pedras das paredes até não restar nada. Enfim, tive de sacrificar a minha cela para fazer o túnel. Infelizmente, a cela já não me dá os materiais de escavação necessários e o trabalho ficou mais lento nos últimos anos.
- Bom, bem vistas as coisas, nada impede o senhor de ir à cidade mais próxima buscar mais materiais, já que a cela não existe.
- Mas estás doido, jovem? Eu estou preso!
Ventura Lobo olhou para o Abade, perplexo. Quando se propôs tornar aventureiro sabia que iria encontrar estranhas criaturas e situações impossíveis, mas esta desafiava toda a lógica.
- O senhor nunca pensou em escavar lateralmente em vez de verticalmente?
- Claro que sim! Mas sempre que escavo para o lado começo a encontrar raízes, e não continuo para não chatear as plantas, já que uma vez, quando era miúdo, pus a mão numa urtiga e decidi que nunca mais importunaria uma planta a não ser que tivesse a certeza que ela não me atacaria. Ora, vendo apenas a raíz, sei lá o que poderá estar à superfície.
- Então o senhor continuou a escapar por medo a urtigas?
- Precisamente.
- Faz sentido. Felizmente, eu não partilho esse medo.

Num gesto dramático, Ventura Lobo desembainhou a sua poderosa espada e num golpe único e forte atacou as paredes da gruta. Desabaram imediatamente, e a poeira da terra misturou-se com a neblina fumarenta e fresca de origens ictióides. A luz invadiu a gruta imensa que o Abade Fazia escavara.
Não se via nem uma urtiga. Aliás, não se via nada, pois a poeira ainda não assentara. Lentamente, Ventura Lobo e o Abade começaram a ver um vulto a surgir divinamente através da poeira e fumo. Tinha um aspecto feroz e na mão parece trazer uma arma mortal, talvez um machado.
É óbvio que vem aí mais uma tentativa de piada inesperada, pois o vulto revela-se como sendo nada mais nada menos que Xico dos Cavalos, um camponês sujo das redondezas, armado com uma enxada, famosa e amplamente conhecido num raio de dois quilómetros como o homem que não aprendeu a letra "a".
- Que signific isto? Quem fez este burco? I, s minhs couves! Bndidos! Gtunos! Fscists! Gbirus!
- Acalme-se, meu caro, este buraco tem razão de ser pois estamos a devolver uma alma à sua liberdade roubada. Tenha um bocado de compreensão!
O camponês inicialmente assustou-se, exclamando um "H", e agitando a enxada.
- Eu dou-vos com minh enxd!
Ventura Lobo respondeu razoavelmente, apresentando-lhe vigorosamente a sua espada luminosa e afiada. Xico dos Cavalos, ou Xico dos Cvlos, como ele preferia ser tratado, aquiesceu enfim ao sentimento de indulgência pedido.
- Bom, no nos chteemos, enfim, bons senhores! No vos quero ml, ms nos dis de hoje, qundo vemos um pedço de terr desprecer noss frente, é motivo pr ficr preocupdo. - e dito isto, fez uma leve pausa ao olhar para o Abade, que só agora começava a ser reconhecível depois de se sacudir da poeira. - Ms é o Bde Fzi! No sbi que ind er vivo!
- Pois é Xico, mas eu muitas vezes pedi ajuda e nunca ninguém veio, e afinal estavas aqui mesmo ao pé!
- H, sbe, é que eu psso muito mis tempo cuidr ds minhs bnns e dos meus nnses, que esto um quilómetro nquel direcço. Ms fico contente por o ver vivo!
- Dos seus quê?
- Bnns e nnses! Li, pr o ldo onde tenho s nons.
- Pá, inicialmente ainda 'tava a perceber, mas agora já não apanho patavina. Ó Ventura, o que é que ele disse?
- Bnns e nnses e tal. Depois acho que falou em francês.
- Ess gor! Ento porque eu no consigo dizer um letr do becedrio vocês j se sentem todos superiores? É sempre mesm cois. Todos se chm doutores porque no tive mesm educço. É sempre, ò Xico, diz l o teu nome, e eu digo, Xico dos Cvlos, e desmnchm-se rir. Sbem que mis? Vou-me embor, s minhs bnns e os meus nnses precism de mim, e no vou gstr o meu tempo convosco! Vo pr o crlho!
Ventura Lobo guarda a espada, troca um olhar com o Abade, e diz-lhe sorridentemente:
- Era mesmo francês. Ele teve a amabilidade de dizer que se seguirmos a estrada chegaremos a uma aldeia.
- Ele disse isso?
- Foi o que eu percebi, pelo menos.

Instalou-se um curto silêncio. A neblina mágica começava a dissipar. Observavam-se agora os belos montes verdes decorados com flores campestres em toda a força da pujança primaveril, preenchidos aqui e ali por pequenos e densos bosques embalados por uma leve brisa proveniente das serras altas tocadas de neve. A vida animal recomeçara o seu ciclo de sobrevivência. O nobre falcão retomou a sua vigia mortal dos céus, atento a uma próxima refeição. A refeição, na forma de coelhinhos alegres, saltitava escondida de erva em erva e de flor em flor, atrasando irremediavelmente o seu destino natural. As borboletas esvoaçavam aleatoriamente, os pássaros improvisavam uma melodia, os camponeses sulcavam as terras, os dragões pequeninos jogavam à bola...
- Para onde vai agora, Abade Fazia? - perguntou Ventura Lobo, interropendo rudemente a descrição da cena, coa breca!
- Vou continuar o trabalho da minha vida. Aquilo pelo qual fui preso.
- Que é o quê, especificamente?
- Encontrar o Livro!
- O Livro? Com maiúscula?
- Oh sim, o Livro. O Livro que acabará com toda a infelicidade do nosso modo de ser, que trará um novo olhar e um novo falar e um novo escrever!
- Parece interessante, ou quase.
- Quase!? Como te atreves a duvidar do Livro!? Ah, és jovem, claro, não compreendes... Um dia virá em que precisarás do Livro, profetizo-te isso! Aí saberás vir ter comigo! Aí saberás respeitar o Livro!
- O único livro que preciso para viver é o livro de reclamações para fazer bluff com os empregados de uma loja com mau atendimento. Fora disso, acho que não preciso de mais.
- Então é aqui que separamos caminhos, Ventura Lobo. Agradeço-te teres-me libertado, por isso estar-te-ei sempre grato. Quando a altura vier, saberás vir ter comigo, e ajudar-te-ei.
- Está bem, de acordo, meu caro, suponho eu.
Apertaram a mão e seguiram caminhos diferentes.

Espera lá, acho que gastei demasiado texto neste segmento contextualizador não totalmente necessário. Bom, as aventuras de Ventura Lobo continuarão para a próxima.

Sem urtigas, couves, bnns ou nnses à mistura.

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publicado às 15:39


As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 18.05.16

- Majestade, trago-lhe aqui um criminoso para ser julgado!
O Rei olhou com algum enfado para o seu Capitão da Guarda Real, perguntando:
- Fiel Capitão, porque trazeis tal indivíduo à minha presença? Olvidastes que apenas os mais miseráveis bandidos serão julgados directamente pela minha justiça divina? Este que observo não tem o aspecto perigoso de outros que já estiveram no seu lugar.
- Majestade, o crime é traição!
- Traição! Traição! Ah, deveras, miserável aquele que trai o Reino e Rei! Se assim é, exímio Capitão, procederei a um interrogatório, em nome do Reino, cuja defesa é minha função.
- Bravo, Majestade!
- Deveras! Deveras... Dizei-me o teu nome e ocupação, traidor, e se mereceis a dita acusação.
O traidor olhou em volta, confuso. Depois de alguma hesitação, decidiu finalmente responder, num tom firme.

- Sou Ventura Lobo, Majestade, caminhante e aventureiro. Afirmo que rejeito as acusações de traição, assumindo que a sua infinita indulgência o permita. Adiciono ainda, apesar de perceber que não o perguntou, que acredito que toda esta situação não passa de uma hiperbolização de um reparo inocente.
- Ah, um caminhante de língua afiada, mas será pérfida, pergunto-me? Devo ter cautela. Meu excelente Capitão, antes de prosseguir com a minha inquirição devo informar-me sobre quais os factos assistidos pela minha fiável Guarda. Reportai.
Ventura Lobo tomou a palavra.
- Perdão? Quem? Nós os dois?
- Silêncio, traidor! - rugiu o Capitão. - Sabereis quando Sua Majestade se referir a vós.
- Essa agora, mas quem?
- Silêncio!
Ventura Lobo encolheu os ombros em frustração, mas calou-se.
- Se me permitirdes, começarei o meu relatório.
- Por mim tudo bem, esteja à vontade. - rematou Ventura.
- Ninguém lhe perguntou nada!
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Silêncio!
- Capitão, comece a sua explicação, cujo início, a meu ver, já está atrasado. - pediu o Rei, calmamente, senão ligeiramente divertido com a impertinência do aparente criminoso.
- Com certeza, Sua Majestade. Eu estava a fazer uma patrulha pessoalmente pelas ruas da cidade. Estavam a ser afixados os cartazes que continham o seu discurso glorioso à nação depois da derrota do exército das Fadas Vogais. Eu queria presenciar a alegria e o orgulho das pessoas ao lerem as boas novas, especialmente escritas pelo seu grande líder.
- Evidentemente, continuai.
- Num dos ajuntamentos percepcionei uma voz que disse uma blasfémia. Teve a ousadia de questionar a qualidade do discurso de Sua Majestade. Pois bem, esse larápio teve azar, pois prendi-o imediatamente e ei-lo na presença da Sua justiça.
- Ah, mas meu eficaz Capitão, o que é que ele disse em específico? Em que ponto duvidou ele da minha escrita perfeita?
- Tenho temor em dizê-lo, Sua Majestade, mas se insiste, devo dizer que este miserável fez um reparo à última frase no cartaz.
- Ah sim, um maravilhoso "Glória há Nação!". Como é que uma frase tão simples pode causar desconcerto numa mente simples?
- Perdoe-me a interrupção (e o Capitão confirmará isto), mas eu apenas disse que "à" está mal escrito. Deveria ser "à", ou seja, apenas um "a" com acento grave.
- Silêncio, patife! - o capitão desembainhou a espada. - Mais um atrevimento desses e sofrereis as consequências.
- Isso não é ir longe demais? O Rei não precisa de sofrer nada, creio. Bem vistas as coisas, nem eu, já que estou inocente.
- Enlouquecestes? Já nem fazeis sentido nas palavras corrompidas que proferis!
Ventura Lobo olhou outra vez em volta, confuso.
- Ainda não percebi bem com quem é que o senhor Capitão está a falar.
Enquanto a discussão prosseguia, o Rei reflectia na acusação feita ao seu texto. Finalmente levantou-se e dirigiu-se lentamente a Ventura Lobo.
- Reflecti. Cheguei à conclusão que o senhor Ventura poderá ter razão, mas não tenho a certeza. Capitão, não obstante a sua lealdade, achais que a acusação não terá justificação?
- Impossível, Sua Majestade! Se Sua Majestade o escreveu, tem de estar correcto!
- Sem dúvida, mas gostava de ter a sua opinião sincera.
O pobre Capitão, apanhado fora do seu elemento, desviou o olhar.
- Perdoe-me, Majestade, mas não sei.
- Não sabeis se a acusação deste homem é legítima?
- Não, Majestade, perdoe-me.

- Chamai o Mago, ele saberá.
- Chamem o Mago! - gritou Ventura repentinamente.
- Silêncio! Mas quem lhe disse que podia chamar o Mago!?
- Essa agora, foi o próprio Rei mesmo agora.
- Sua Majestade falava comigo, seu pulha.
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Calai-vos, vil criatura!
- Mas o Senhor Capitão ouça-me, acho que há aqui uma falha de comunicação.

Na confusão, o Mago veio. Entrou desalmadamente, pisando e tropeçando várias vezes na própria barba grisalha longuíssima.
- Muís D'Latos, meu grande feiticeiro de poderes tremendos e incomparável sabedoria, tenho um desafio para lhe apresentar.
- Ah, Majestade, apanhou-me num momento crucial da minha investigação sobre a etimologia da palavra "etimologia". Peço-lhe que reúna toda a sua generosidade e que não me dê nenhuma tarefa demasiado longa.
- É simples, na verdade. Capitão, dê-lhe o cartaz. Leia, meu caro.
Muís D'Latos leu de uma ponta a outra a informação do cartaz.
- Derrotámos as infames Fadas Vogais!? Ah, poderemos certamente respirar fundo de alívio! Mas, Majestade, não compreendo qual o desafio.
- Notastes alguma coisa de estranho no texto? Alguma coisa mal escrita?
O mago estranhou a pergunta, pensando que seria alguma armadilha. O Rei notou esta preocupação.
- Não se preocupe, amigo Muís. Dizei-me com sinceridade. Não é um teste à sua lealdade, que considero inabalável.
O mago releu o texto. Hesitou na última frase. Olhou infantilmente à volta.
- Bom... se quer que seja sincero...
- Sim, exorto-o a sê-lo.
- Quando eu era muito novo, quando não tinha um único pêlo na cara, o meu mestre forneceu-me uma quantidade de conhecimentos há muito perdidos que ele adquirira de uma maneira muito especial. Um dos conhecimentos que me foi passado foi... enfim... que existe uma diferença gramatical entre a palavra "há" e "à" que tem imenso impacto na semântica da frase.
- Mas então, a última frase do texto está incorrecta?
- Bom, enfim, não. Sim... Não. Depende. Por um lado, está gramaticalmente correcta, mas na sua forma actual, parece que Sua Majestade está a informar alguma senhora chamada Glória sobre o facto de existir uma Nação. Se me permite, para ser diligente, faltaria ainda uma vírgula para a frase ter esse sentido. Se o objectivo for apenas de dar esta informação a uma Glória específica no Reino ou a todas as Glórias, posso argumentar que o objectivo foi cumprido. Por outro lado, se o propósito era engrandecer a nossa Nação com exaltações de glória... - fez uma curta pausa, acompanhada de uma careta. - devo... dizer... que deveria ter usado "à".
- "Há"?
- Não, "à".
- "Ah"?
- "à".
- Ah!
- Não, "à".
- Ai!
- "à", Majestade!
- Eu sei.
- Perdão?
- Há majestade, claro, senão não estaríamos aqui, mas não é isso que estamos a discutir, meu caro Muís D'Latos.
- Não, Majestade, não nos confundamos, eu quero dizer que a forma correcta é "à".
- "Há"?
- "à".
- "Ah"?
- "à".
- STAYING ALIVE! STAYING ALIVE! - berrou Ventura Lobo.

Um silêncio absoluto instalou-se no salão perante as caras estupefactas dos presentes, que olhavam Ventura com um olhar de preocupação sobre a sua saúde mental.

Muís D'Latos arriscou insistir.
- Sua Majestade, talvez seja mais fácil que eu escreva.
- Sim, concordo.
O feiticeiro teve uma ideia e olhou para cima.
- Aliás, nem preciso. Se Sua Majestade olhar para cima verá que no nosso diálogo está a forma correcta.
- Ah, tendes razão, teria sido mais simples. Mas não achais que é algo subreptício usar tal método para chegarmos a tal conclusão?
- Talvez seja, Majestade, mas não apeteceu ao autor deste texto descrever uma cena em que escreveríamos a forma semanticamente correcta da palavra em questão.
- Então, ao invés de descrever um simples gesto de escrever num papel ele preferiu criar um diálogo desnecessariamente complexo em que nos tornamos conscientes que somos personagens de ficção?
- Artistas, Majestade, como poderemos alguma vez entendê-los?

O Rei virou-se para Ventura Lobo.
- Senhor Ventura, aparentemente o senhor tinha razão. Como é que sabíeis da diferença entre as duas palavras se me dizem que é um conhecimento há tanto tempo perdido?
- Aprendi na escola.
- Na escola? Como? Este é um mundo fictício baseado em fantasia medieval. Há magos e fadas. Normalmente neste tipo de contextos não existe ensino público, nem do mais básico.
- Então como é que as pessoas são supostas conseguir ler os cartazes que são afixados?
- Entre todos os meus poderes divinos por direito, a omnisciência não é um deles. Apenas posso responder que ou esse facto é uma incoerência que o autor deste texto não pensou ou então os cidadãos nunca realmente leram os cartazes e simplesmente gostam de olhar para os desenhos. Seja como for, começo a achar que o Senhor Ventura tem mais que se lhe diga sob essas tristes roupas de campónio que trazeis.
- Bom, devo ter subido imenso na consideração de Sua Majestade para me tratar como mais do que uma pessoa. Ou isso ou está aqui mesmo alguém invisível que apenas eu não me apercebo.
- Não compreendo. Explicai-vos.
- Majestade, com quem é que está a falar? Sei que me inclui, mas não sei com quem mais é que fala.
O Rei olhou para o Capitão e para o Mago. Ambos fizeram uma careta de confusão e encolheram os ombros.
- Não sei quanto ao outro indivíduo invisível, chamemos-lhe Joel, mas se ele não se quiser juntar à minha explicação como Sua Majestade requeriu terei o maior prazer em explicar-me sozinho. Tenho estado este tempo todo confuso com a vossa maneira de falar, pois usais a segunda pessoa do plural para se referirem apenas a uma pessoa. Quem tem uma aproximação mais pragmática sobre a língua que fala tem em conta estes pormenores. Devo perguntar: o Joel existe?
- Não sei de que falais. - respondeu o Rei.
- Sim, não compreendo o que dissestes - concordou o Mago.
- Lá está, devo estar maluco. Tenho impressão que só eu é que falei, e no entanto, vós implicais pela forma verbal usada que houve outra pessoa além de mim que falou. O tal Joel. Podereis explicar-me porque falais assim?
- Quem? Eu ou o Muís?
- Vós!
- Mas qual de nós?
- VÓS! Os dois! Segunda pessoa do plural! Ambos falais assim e isso confunde-me.
- Então, mas dê um exemplo de como deveríamos falar!
- É simples, não usai formas verbais com os "eis" e os "ais" no final quando falais com uma só pessoa.
- Mas vós estais a usá-los!
- Mas vós sois dois! Eu sou apenas um!
- Eu sou dois? Isso não faz sentido.
- Ai ai ai ai ai... Ouvi-me por um momento!
- O senhor ouviu-se por um momento? É normal.
- Não, é o imperativo!
- Ouviu o imperativo?
Ventura Lobo começava a ficar impaciente.
- Se eu tivesse aqui um certo Livro mostrar-vos-ia...
- Qual Livro? 
- Um Livro que tiraria todas as dúvidas que pudéssemos ter sobre a forma como falamos e escrevemos.
- Mas tal Livro existe? - perguntou o Rei excitado.
O Mago forneceu a resposta.
- Sim existe. Ou existiu, pelo menos. Foi de um tal Livro que o meu mestre aprendeu tudo. Ele não me passou todos os seus conhecimentos. Ele dizia que a viagem para obter o livro ensinava tanto quanto o livro em si. Nunca me propus procurar o Livro. Entretanto caí num buraco metafórico onde todos os sonhos e vontades se extinguem.
- Que terrível, Muís D'Latos! Como caiu nesse buraco?
- Tornei-me funcionário público, como bem sabe, Majestade.

- Tenho uma ideia! - exclamou o Rei. - Uma ideia que fará o enredo avançar. Muís D'Latos, meu competente controlador de elementos, e se enviássemos este jovem aventureiro em busca desse fabuloso Livro? Ele poderá trazê-lo e guardá-lo-íamos como um tesouro real!
- É uma ideia esplêndida, Majestade.
O Capitão discordou.
- Majestade, perdoe-me, mas quereis enviar um desconhecido numa demanda tão importante para o Reino? Porque não confiais na Guarda para o fazer?
- Olha, agora já estou todo confuso com os "ais" e "eis" também. Já nem consigo falar de maneira toda pipi. Envio um desconhecido nesta missão porque os argumentos de maior parte dos livros medíocres e filmes de Hollywood parecem safar-se com isso e até ter sucesso. Para além disso, é preciso que esta história tenha um mau da fita, e se eu meter inveja ao meu querido Capitão da Guarda, ele certamente fará tudo para sabotar os esforços de Ventura Lobo.
Voltou-se para Ventura.
- Que me diz, Ventura Lobo? Quer aceitar esta aventura e desbravar os recantos perigosos do Reino na sua busca? Escalar os Montes dos Adjectivos de Grau Superlativo, explorar as Selvas de Narrativas Densas, atravessar os Pântanos de Palavras Obsoletas, correr pela Planície da Dicção? Aceita enfrentar os perigos que certamente encontrará?
Ventura Lobo empertigou-se e respondeu orgulhosamente.
- Claro que sim, Majestade. Farei tudo pelo enredo.

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publicado às 12:15
editado por José da Xã às 22:50



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