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The Ballad of Hollis Brown

por Rei Bacalhau, em 08.05.16

Quatro figuras avançavam pelo pinhal denso na noite escura. Fugiam, olhando constantemente para trás. Eram milicianos. Haviam emboscado um camião inimigo de víveres, escoltado por uma quantidade considerável de soldados Inimigos. O assalto correu mal e o grupo miliciano separou-se, infiltrando-se para a protecção dos bosques em retirada.
O miliciano à frente levantou o braço. Comandou uma paragem, para descanso.
- Gabriel, faz um reconhecimento, e depois volta.
Gabriel partiu.
- Não viram mais ninguém connosco, pois não? - perguntou o comandante, o Sargento Oliveira, aos restantes.
Pedro ia começar a falar, mas o Sargento impediu-o.
- Olha Pedro, não comeces com as tuas merdas, não queremos que o Inimigo nos ouça, 'tá bem? Fala baixo.
- Foda-se, ia só a dizer que vi o Adérito e o Lucas a retirar para o Sul. no sentido da estrada. Os outros não vi, mas...
Ouviu-se uma rajada de tiros ao longe, respondida instantes depois com uma violência maior. Apesar disto, os três baixaram-se.
- Não é para nós. - disse Duarte, aliviado.
- Caralho! - resmungou o Sargento. - Como estamos de munições?
- Ainda tenho, - respondeu Pedro. - e sei que o Gabriel vasculhou alguns soldados, por isso deve ter também.
- Eu também apanhei alguma coisa. Aliás, tenho granadas a mais, tomem lá. - disse Duarte, entregando algumas.
- Óptimo, poderemos ter que chamar a atenção para nós para dar uma hipótese ao resto do pessoal, mas temos de encontrar um sítio estratégico.
Ouviram-se estalos e o remexer de folhagem. Gabriel voltara.
- Chefe, há uma fazenda naquela direcção. Lá ao pé também há um morro de penedos no meio do pinhal.
- Havia sinais de vida na fazenda?
- Não, parecia abandonada, há já algum tempo.
- Óptimo, vamos, 'bora.
Seguiram Gabriel, sempre atentos ao horizonte negro à procura de silhuetas ameaçadoras. Passaram pelo tal morro, que mais parecia uma pequena fortaleza natural.
- Ok, boa, isto pode servir, mas vamos à fazenda em primeiro.
De facto, dali já se via uma clareira a poucas dezenas de metros. Aproximaram-se e pararam na orla do pinhal.
Uma casa visivelmente deteriorada por negligência parecia lutar para se manter em pé. Os campos à volta estavam completamente secos, e nem as ervas daninhas pareciam subsistir. Uma carrinha ferrugenta, muito antiga estava completamente arruinada, rodeada por uma quantidade imensa de tralha e lixo.
- O que é que achas, Duarte?
- O morro parece-me uma melhor ideia como posição defensiva, mas uma casa assim tão aparentemente esquecida no meio de nenhures pode ser útil à Mílicia.
- Hmm... sim, gostaria de ir lá vê-la agora mesmo assim. Nunca se sabe o que poderemos encontrar.
O Sargento reflectiu.
- Pedro, Gabriel, vão para o morro e preparem-se. Façam sinal se algo acontecer. Acho que não nos demoramos muito.
Os dois milicianos deixaram o Sargento e Duarte. Estes começaram a avançar cautelosa e rapidamente pelo campo aberto. No meio da propriedade agacharam-se atrás de um poço, que estava completamente seco. Continuaram num ápice para a fazenda. Grande parte das persianas estavam abertas ou caídas. Os donos devem ter saído à pressa, ou então a casa já recebera visitantes posteriormente. No entanto, as janelas estavam relativamente intactas e fechadas. Subiram para o patamar que dava acesso à porta principal. Duarte empunhou e apontou a carabina enquanto o Sargento tentava abrir a porta.
Estava fechada à chave. O Sargento pegou na sua gazua e começou a trabalhar no fecho. Pouco depois a porta abria-se. A primeira coisa que notaram foi o cheiro nauseabundo que emanou imediatamente de lá de dentro, como se desesperado para ser libertado.
- Foda-se... já se 'tá mesmo a ver... - murmurou o Sargento.
- Pois...
Era habitual encontrarem-se casas em que velhotes isolados haviam morrido sem serem socorridos, e esse foi o primeiro pensamento que passou na mente dos dois milicianos. Colocaram máscaras cirúrgicas na cara e entraram calmamente, sabendo o que esperavam ver.
Apontado as lanternas, investigaram as primeiras divisões e ficaram admirados ao encontrar alguns brinquedos sujos e maltratados no chão. Os dois homens trocaram olhares confusos e ingénuos, não compreendendo a causa de tal facto. À medida que se aventuravam mais para dentro de casa, o cheiro ficava mais insuportável. Chegaram a um quarto, que tinha a porta entreaberta. Abriram-na lentamente para descobrirem dois cadáveres no chão, já quase totalmente esqueléticos. Duas manchas enormes à volta dos corpos sinalizavam os fluidos corporais que se haviam derramado no processo de decomposição. Alguns restos mortais de insectos vários também eram visíveis, mas o que chamou a atenção naquela cena macabra era uma espingarda caçadeira em cima de um dos corpos. O cadáver mais afastado estava dramaticamente caído poucos metros do corpo com a caçadeira, e tinha roupa colorida de mulher. Atrás dele, a parede estava coberta de uma mancha escura de sangue seco e buracos de chumbos. O outro corpo era claramente o de um homem, mas o seu crânio estava completamente despedaçado, especialmente a partir do maxilar.
A conclusão óbvia era que ele matara a mulher e suicidara-se a seguir.
- Foda-se, ò Duarte... Quando pensamos que já vimos de tudo... Vamos embora, não há aqui nada senão dor.
- Ainda podemos usar esta casa, Chefe, não é por ter dois cadáveres que deixa de ser relevante, por difícil que seja olhar para esta cena.
- Foda-se, ò Duarte... 'Tá bem, deixa-me pensar, ainda faltam umas divisões, a ver se têm provisões.
Saíram lugubremente do quarto.
A porta da divisão a seguir estava completamente aberta. Uma mancha de sangue era visível no chão no corredor, proveniente do quarto. Duarte olhou para o Sargento, apontando-lhe a mancha. Aproximaram-se lentamente, agora nervosos com o que iriam encontrar.
Iluminaram o quarto com as lanternas.
Era um quarto aparentemente pequeno, pelo facto de estar cheio de camas, uma delas um beliche, e outra um berço. O chão estava pegajoso e os milicianos temeram o pior, que era óbvio. Cada cama tinha algo por debaixo dos lençóis. Haviam no total 5 massas por debaixo dos lençóis rasgados pelos tiros claros de espingarda, a mesma que estava na divisão vizinha.
Duarte ia retirar os lençóis de uma das camas, para se certificar.
- Duarte... não. Não faças isso.
- Eles não se importam, com certeza, só quero certificar-me.
- Não é por eles que digo, mas por ti. Não faças isso.
Duarte compreendeu e hesitou. Não obstante a advertência do Sargento, elevou o lençol de modo a que apenas ele visse. Observou durante alguns segundos e voltou a pousar gentilmente o lençol.
- Vamos embora, Chefe.
O Sargento nada disse. Fecharam a porta ao sair. Andaram uns passos pelo campo aberto até que Duarte parou e vomitou.
- Que insanidade terá feito aquele homem cometer tal crime? Como é que é possível, Chefe? - perguntou, depois de se recompor minimamente.
O Sargento não respondeu.

Ouviram-se tiros. Estavam perto.
- 'Bora Duarte, o Pedro e o Gabriel precisam de nós, anda!
E mergulharam no pinhal rapidamente, mas não sem Duarte ter dado um último olhar para aquela casa onde sete pessoas morreram.

 

 

The Ballad of Hollis Brown, de Bob Dylan, interpretada lugubre e espectacularmente pelos Nazareth:

 

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