Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




The Promised Land

por Rei Bacalhau, em 07.01.18

Um homem entrou pela porta dentro. O cabelo imenso e a barba espessa e maltratada deu a António uma primeira má impressão, mas a revelação do olhar inocente e quase infantilmente confuso do recém-chegado afastou pensamentos temerosos.

Ele chegou-se ao balcão, mas António é que deu início à conversa.

- Boas tardes, que deseja?

- Boa tarde, meu caro. DIga-me, ainda serve almoços a esta hora? Sei que é tarde, mas perguntar não custa. - respondeu o homem, ainda jovem, com um ligeiro sorriso afável.

- Ah, aqui almoços só por reserva, que não há clientela suficiente. Mas tenho ali uma boa sopa.

A face do homem iluminou-se e abriu-se num sorriso, mostrando uns dentes tímidos e brancos.

- Ah, óptimo, é mesmo o que preciso! Traga também uma sandes. Comerei aqui mesmo no balcão.

- Uma sandes de quê?

- O senhor já me deu uma boa surpresa, se calhar não é pedir muito que me dê outra. - rematou, sorrindo matreiramente.

António não era de compreensão lenta, mas achou mesmo assim estranha e críptica a maneira de falar do homem.

 

Trouxe-lhe o pedido. Uma sopa de legumes e uma sandes de ovo mexido. O homem agradeceu com uma ligeira vénia, e atacou de imediato a refeição.

A curiosidade de António aumentou-lhe a impertinência.

- Desculpe perguntar, mas o senhor é de cá da zona, ou está só a passar?

- Não, não, sou de Lisboa, mas arranco assim que acabar de comer. - respondeu, dando uma primeira dentada na sandes de ovo, pausando de seguida, aparentemente deliciado. - Desculpe, será que me pode fazer outra destas para levar? Embrulhada num papel ou algo do género?

- Claro, claro que sim, com licença.

- Ah, e uma garrafa de água, por favor.

- Fresca?

- Natural, por favor, obrigado.

 

Quando António voltou, encontrou o homem a olhar para um mapa em papel, algo estranhíssimo na era dos telemóveis. Entregou-lhe a nova sandes e a garrafa de água.

- Ah, obrigado.

- Precisa de ajuda para chegar a algum lado? Já não via alguém a usar um mapa a sério há algum tempo! O seu telemóvel está sem bateria?

- Ah, não, eu não tenho telemóvel. Não preciso de um. Também não preciso de ajuda, obrigado, estava só a explorar as estradas aqui à volta.

- Então, mas para onde é que o senhor vai?

O homem olhou António demoradamente e desviou a atenção para o lado, parecendo reflectir. Começou a levantar-se e a preparar-se para sair. Finalmente respondeu.

- Não sei, amigo. Obrigado por tudo!

Deixou duas notas de 20€ no balcão e saiu, sem dar tempo a António de sequer pensar no troco.

António apenas conseguiu vê-lo a arrancar num carro velho e desgastado de uma cor verde horrível, que se afastou deixando para trás uma música esvanescente.

 

Bruce Springsteen, com The Promised Land

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:37


2 comentários

De Maria Araújo a 09.01.2018 às 16:38

Uma estória bela de homem que gosta de viver a solidão e vaguear por estradas longas que só a natureza lhe concede.
Gosto de mais da voz rouca de Bruce Springsteen.

De Rei Bacalhau a 09.01.2018 às 19:06

O Boss é dos músicos mais humanamente genuínos que conheço, e isso torna-se transparente nas suas letras e no geral na sua forma de ser.

Comentar post




calendário

Janeiro 2018

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D