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VIII

por Rei Bacalhau, em 07.06.14

Que criança alegre, energética,  e cheia de potencial era João!

 

Já tinha a sua rotina decorada: de manhã acordava, cedo, para ir para a escola. No início ainda o levavam à mão mas com o aproximar do final da escola primária isso deixou de ser necessário.

 

Chegava então cedo à escola, sempre a tempo e horas! Sentia-se mal ao ver os seus colegas a levarem um raspanete da professora por chegarem atrasados. Se dependesse dele, iria sempre garantir que isso não lhe aconteceria. Fosse por talento natural ou por algum tipo de preparação prévia, era facto que João se distinguia acima de grande parte dos seus colegas de turma. Aprendeu a desenhar cuidadosamente os símbolos do abecedário, tendo em atenção as curvas detalhadas de cada letra. Provou ter alguma capacidade artística, por muito básica que fosse, quando a professora colocou em exposição um dos seus trabalhos de plasticina. Articulava algo nervosamente as sílabas das palavras quando lhe mandavam ler uma frase e tentava proferi-las com a melhor dicção que lhe era possível. No recreios era criativo com as brincadeiras com os seus colegas, inclusive inventando ele próprios novas maneiras de jogar um jogo, como adicionar uma nova regra ao jogo normal da apanhada. Contudo, não se pode dizer que fosse o mestre do recreio, ou pelo menos não como o era dentro da sala de aula. A sua estatura magra dava-lhe a vantagem de conseguir correr mais que muitos, mas estava longe de o fazer invencível nesse tipo de jogos infantis.

 

Ah, que bons tempos!

 

Felizmente o sistema de ensino não mantia os alunos na escola o dia inteiro, e João tinha as tardes para gozar livremente. Vinham-no buscar, almoçava em casa e depois iria entreter-se com os seus brinquedos. Era verdade, no entanto, que por vezes ele tinha os mal-afamados trabalhos de casa que ele achava sempre tão desnecessários. Mal sabia ele...

 

De vez em quando haviam brincadeiras na rua e lá ia João timidamente juntar-se a elas. O treino intensivo dos recreios na escola provava nessas ocasiões ser eficaz nalguns dos jogos, excepto naqueles que envolviam algum objecto que tinha de ser manipulado, nomeadamente a forma básica de futebol que se jogava. Mas ao menos corria, e isso na altura era suficiente.

 

A infância de João teve mais uma componente muito importante no seu desenvolvimento: a religião. Era de noite e levaram João a um sítio que lhe parecia familiar. De facto já havia passado ali algumas vezes, quando levavam familiares à missa. Era a capela da paróquia local. João foi introduzido formalmente ao Catolicismo no mesmo ano em que entrou na escola primária e portanto este encontro inicial não foi muito diferente do da escola, mudando apenas os colegas novos que teria naquele contexto. Já ter ouvido falar muito de Deus. As suas avós especialmente avisavam-no quando cometia alguma patifaria que Deus não gostava dessas acções. Uma das suas avós inclusivé falavam-lhe de um sítio horrível onde se sofria muito, que era o Inferno. João TINHA, por consequência, de ser uma boa pessoa. A catequese ensinava-lhe mais ou menos o mesmo mas de uma forma mais suave. João só ouviu falar deste Inferno na catequese muito depois. Inicialmente, na catequese ensinavam-lhe quem era Jesus Cristo e Deus e todas as figuras importantes da religião. João era uma criança que sabia que os adultos tinham uma muito melhor compreensão de tudo no mundo, e por isso assimilou todos os dogmas que lhe eram proferidos, sem questionar. Isso contribuiu enormemente para que João se tornasse uma pessoa inerentemente Boa, prestável, amiga, simpática e alegre.

 

Nas suas brincadeiras à tarde era normal João ir para o quintal. Passava longos minutos a observar os insectos nas suas árduas tarefas de sobrevivência. Poderia pacientemente seguir um caracol durante muito tempo e, sentindo pena por demorar tanto tempo a chegar a qualquer sítio, colocava-o ao pé das couves para o ajudar a encontrar comida. Aliás, não o fazia apenas para caracóis. Todos os insectos estavam sujeitos a serem subitamente transportados para uma fonte de potencial comida, pelo menos segundo o entendimento de João. Gostava muito de fazer festas a cães e gatos, se bem que às vezes tinha um bocado de medo dos cães maiores.

 

 

João era uma criança feliz! 

 

 

Contudo, o mundo não estava feito para pessoas com estas características. João viria a descobrir e sofrer com este facto.

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publicado às 19:00


3 comentários

De meninaquenaosabenada a 27.06.2014 às 20:52

Excelente história aqui contada por ti. É verdade,hoje em dia cada vez há menos pessoas felizes e acredito que João tenha sofrido depois da sua infância,porque,se hoje em dia há pessoas felizes,essas,são,sem duvida,as crianças e os magnificos bebés com as suas doces maravilhas e travessuras!! É a minha opinião!!

De Rei Bacalhau a 27.06.2014 às 23:28

Discordo. Na verdade, creio que os seres mais improváveis de saberem o que é a felicidade são exactamente os mais jovens. Não têm experiência para saberem se são felizes ou não.

A felicidade é relativa, medida sempre em comparação.

Só aquele que já esteve na mais profunda das misérias é que saberá verdadeiramente o que é a felicidade. Como poderemos comparar as nossas vidas de país mais ou menos desenvolvido com as vidas dum bairro degradado da Índia?

De meninaquenaosabenada a 28.06.2014 às 05:31

Boa pergunta!! Acho que não há comparação possivel. Agora digo tambem que a felicidade está onde menos se encontra,eheh,beijinhos e fica com deus!!

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