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Deadpool 2

por Rei Bacalhau, em 20.05.18

O maior problema, para mim, de se ver uma sequela para um filme, ou mesmo um filme com um mesmo realizador ou actor de outro, é que ficamos com uma certa expectativa prévia, tanto para o melhor como para o pior.

 

É o caso de Deadpool, o filme sobre um herói cujo maior superpoder é conseguir irritar toda a gente igualmente. Este primeiro filme do Deadpool quebrou regras que já não eram quebradas num grande ecrã há alguns anos, algumas delas desde o Robin Hood, Heróis em Collants, provavelmente.

 As pessoas souberam apreciar a qualidade e a impertinência do filme e votaram com as suas carteiras, declarando o Deadpool como um dos grandes filmes de comédia recentes. Este foi, para mim, um caso em que a democracia funcionou, pois depois deste fenómeno, puseram-se logo a trabalhar no segundo filme.

Foi consequentemente com grande expectativa que fui ver o Deadpool 2, assumindo que iriam aplicar a mesma fórmula do primeiro filme.

 

No primeiro filme eles tinham o problema de que tinham de introduzir o personagem ao público que talvez não o conhecesse da banda desenhada, e como tal tiveram de estruturar o filme de modo a ter a história da origem do Deadpool. No segundo filme já nada disso interessa e pôde-se gastar muito mais tempo e dinheiro em piadas parvas e absurdas que um bom filme de comédia de paródia precisa. Tendo em conta que teve o dobro do orçamento do primeiro filme, os efeitos especiais foram sublimemente utilizados para a parvoíce caótica que caracteriza todo o filme.

Numa frase, poderia descrever o Deadpool 2 como um filme de acção intensa produzido por um Mel Brooks ordinário e rico.

 

Efectivamente, se eu ia com expectativas altas, posso afirmar confortavelmente que foram superadas, o que eu achava impossível. O argumento é adequado (tendo em conta que estamos a falar de um filme de super heróis), as personagens estão decentemente desenvolvidas e nota-se que alguns pontos de enredo foram meticulosamente calculados para levarem a algumas cenas que ficarão para a história do cinema.

Numa dessas cenas reparei num pormenor engraçado. Um dos personagens tem uma pistola bastante única e fiquei contente por a reconhecer: uma Arsenal AF2011, que são basicamente duas pistolas M1911 numa só, numa demonstração parva e inútil (mas fixe) de engenharia.

Um videozinho (educativo e responsável) sobre ela:

 

 

Não quero estragar muito o filme para potenciais espectadores, e por isso tenho omitido todos os detalhes importantes. O objectivo deste texto é apenas de exortar o pessoal a ir vê-lo por si só e de potencialmente obter alguma validação pessoal desse facto.

O Deadpool é, no entanto, conhecido pelo seu gosto de músicas lamechas dos anos 80 (e no geral), e por isso, respeitando a minha tradição dominical:

 

Phil Collins, com One More Night:

 

 

P.S.: as Aventuras de Ventura Lobo podem de certa forma ter sido influenciadas pelo Deadpool. Verifiquei, e a primeira aventura foi publicada apenas poucos meses depois do primeiro Deadpool. É evidente que o conceito da destruição da "quarta parede" não é novo, mas pronto.

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publicado às 20:45


Samapatti

por Rei Bacalhau, em 13.05.18

Admito que não percebo muito de música portuguesa, mesmo de tempos mais antigos, por onde as minha tendências musicais costumam pairar. Sendo um mercado bastante mais pequeno, não é de estranhar que existam muitas poucas bandas do estilo que eu aprecio em Portugal, e as que existem vieram bastantes atrasadas em relação às suas influentes (estou a pensar especificamente nos Trovante e nos Quinta do Bill).

Dos tempos antigos, acho que um dos artistas mais importantes é o Rui Veloso, já que não é toda a gente que tem a possibilidade de tocar com o B.B.King. A sua parceria com o Carlos Tê levou a algumas das músicas mais facilmente reconhecíveis do pop/rock português, a meu ver. Creio que posso dizer isto porque se eu, que não percebo muito de música portuguesa, ainda conheço um ou outro tema do Rui Veloso, então é porque alguma coisa ele fez bem.

Contudo, para tentar emendar a minha ignorância, decidi ouvir alguns álbuns dele onde encontrei um tema com um título invulgar, que me fez imediatamente pensar se seria uma referência a outro artista.

Efectivamente, era.

 

O tema chama-se Samapatti, e logo nos primeiríssimos segundos confirmei a minha suspeita, que referirei de seguida.

Rui Veloso, com Samapatti:

 

 

 

As referências directas ao Samba Pa Ti dos Santana são de pequena duração, mas são o suficiente para justificar partilhar essa música, tocada pelo líder epónimo da banda.

Carlos Santana, com Samba Pa Ti:

 

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publicado às 12:43


O Mestre

por Rei Bacalhau, em 10.05.18

Tenho uma noção de que toda a gente tem um mestre, não no sentido de outrem que seja controlador da nossa vida, mas alguém que teve uma influência educativa e quase paternal de alguma maneira. Alguém mais velho que não seja da família mas que tem ou teve uma imensa importância naquilo que somos hoje.

O Daniel-San teve o Sr. Miyagi.

O Edmond Dantès teve o Abade Faria.

O Luke Skywalker teve o Yoda.

 

Eu tive o Zé.

 

Chamo-lhe Zé porque não quero dizer o nome verdadeiro dele, pois não me parece nem apropriado nem relevante para o resto deste texto.

O Zé foi um dos professores que mais influenciou a minha vida profissional e académica e dele tirei igualmente outras lições de teor filosófico e de modo de estar na vida.

Soube recentemente que ele faleceu há relativamente pouco tempo depois de doença prolongada, contra a qual já lutava há alguns anos.

 

Apesar de não ter sabido a notícia atempadamente, não posso dizer que tenha ficado chocado. Era certo e sabido que o seu estado de saúde não era o mais optimista e acredito que poucas pessoas terão ficado surpreendidas com a morte dele. Curiosamente, ele morreu pela altura da Páscoa, numa altura em que foi mais fácil a notícia passar despercebida. De facto, passou tão despercebida que foi totalmente ao acaso que vim a saber, através de um contacto que mantenho na faculdade.

Não creio que ele apreciaria totalmente este texto em forma de dedicatória, mas sinto que o devo fazer, já que não me parece que mais alguém o tenha feito.

 

O Zé era um personagem bastante... único. Todos os professores universitários têm as suas manias, mas este tinha um conjunto de características que o destacava dos outros. Era um homem da velha guarda, mas tinha recorrentes momentos de falta de profissionalismo escandalosos, pelo menos em comparação com a austeridade e desinteresse típicos dos professores mais velhos do ensino superior. Ao dar as aulas em si não era particularmente diferente dos demais, ele lá rebobinava a matéria de trás para a frente como quem vira frangos. Ele era pouco organizado no quadro, e rapidamente ficava cheio de gatafunhos confusos que só era possível interpretar prestando a mais inabalável atenção ao que ele dizia, já que ele fazia explicações secundárias de algum assunto ao pé daquilo que estava a explicar na altura.

Ele era bastante impulsivo e uma vez ele ia explicar uma coisa ao quadro, agarrou no marcador e riscou a tela branca do projector (que ele não reparara que estava à frente do quadro). Tanto quanto sei, o risco nunca mais saiu de lá.

O Zé era verdadeiramente único no relacionamento que tinha com os seus alunos. Para já, conhecia-os quase todos de nome, o que é impensável no ensino superior. Igualmente impressionante era quando se falava com ele e via-se que ele tinha noção de quantas cadeiras já tínhamos feito e de que "turma" é que éramos. Ele seguiu muito pessoalmente o progresso de várias dezenas de alunos e mantinha vários ficheiros com estatísticas sobre diferentes "fornadas" de alunos.

Mas ele era sacana. Não no mau sentido, claro.

Era bastante frequente ele apanhar um qualquer colega meu e perguntar-lhe algo do género "então, quando é que te vejo fazer Álgebra?", ou "então, em que semestre andas perdido?", etc..

Uma das mais célebres ocorreu numa aula de modelação 3D. Eu tinha um colega que tinha modelado um Lamborghini ou um Ferrari (um dos dois, não me lembro, o que interessa é que tínhamos de modelar carros na altura). Ora, ele tinha passado uma grande quantidade de tempo a trabalhar nisto e estava bastante orgulhoso do resultado que tinha. O Zé era um homem brutalmente honesto e não tinha medo de ser mauzinho se soubesse que a vítima tiraria uma lição de humildade daí. O meu colega já tinha enviado a sua obra de arte e cometeu a imprudência de perguntar ao Zé no meio da aula o que é que ele achava do que tinha enviado. A resposta foi simplesmente, dito alto e a bom som:

"Jovem, em termos gerais, o teu carro está miserável."

(ele não disse "Jovem", mas sim o nome do aluno, que omito por razões óbvias)

Este tipo de comentários venenosos talvez não pareçam pedagógicos mas a verdade é que, como eu já disse, o Zé apenas queria o bem dos seus alunos (e raramente o pessoal levava a mal). Ele, sendo bastante proactivo e pouco burocrático, não tinha medo de mudar as regras de avaliação no meio do semestre se visse que os alunos estavam de modo geral a ficar para trás. Ele, sendo da velha guarda, não se conseguia impedir de estabelecer objectivos e termos de avaliação bastantes rígidos no início do semestre, termos esses que seriam sempre suavizados quando ele via que a turma ficaria em risco de chumbar toda. Este seu modo de trabalhar foi aproveitado por dois tipos de alunos extremistas: era inteiramente possível até para o mais preguiçoso dos alunos passar às suas cadeiras com 10, pois o Zé estabelecia regras lenientes para quem não tinha particular interesse no assunto daquela cadeira. Do outro lado estavam os interessados, aos quais o Zé aplicava padrões de qualidade exponencialmente elevados. Em termos de trabalho, a diferença entre um 10 e um 12 era infinitamente menor que a diferença entre um 18 e um 19.

Ele fazia isto porque ele não queria alunos presos ciclicamente na sua cadeira, mas também queria que os que tnham interesse se esforçassem a sério, pelo menos tanto quanto ele. Aliás, sobre isso, os materiais didácticos disponibilizados pelo Zé eram profundamente exaustivos e completos. Na cadeira de modelação 3D ele tinha lá todas as instruções necessárias sobre todos os elementos do software que usávamos, ao ponto de explicitar textualmente o clique com o botão esquerdo do rato.

 

Mas então, porque é que ele era tão especial para mim? Porque é que lhe atribuo o título de mestre?

Bom, confesso que quando há pouco falava dos dois tipos de alunos que se aproveitaram dele, falei por experiência, pois eu fui, em ocasiões diferentes, os dois. O Zé tem a particularidade de me ter dado um 10 a uma cadeira e um 20 numa outra, alguns anos depois. Compreendam que a grande transformação foi em mim, e não nele, mas acabámos por desenvolver uma certa cumplicidade apesar de eu, não gostando muito da ribalta, me ter sentido bastante pouco confortável quando ele começou a usar alguns trabalhos meus como base de tutoriais para novas iterações das suas cadeiras.

Resumindo e concluindo, ele acabou por ser o meu orientador de tese de mestrado. Por esta altura ele já andava doente e nunca o macei muito. Ele já por princípio não tinha muita paciência para ler relatórios e documentos e teses, portanto acabei por entregar a minha tese sem ter sido revista por ele. Tudo bem, tendo em conta tudo, acho que não o poderia censurar. Aprendi mais com ele em termos práticos do que em termos burocráticos, e sinceramente, sinto-me bastante feliz por isso.

Quando espalhei a notícia dos seu falecimento por alguns colegas meus da faculdade, a reacção de pesar foi bastante unânime, já que ele, apesar das suas muitas excentricidades, era um professor bastante apreciado pelos alunos de forma geral, especialmente (parece-me) pelos da minha geração.

 

Guardei a melhor história dele para o fim:

Estávamos todos na aula, putos de 18 anos ingénuos, fresquinhos, fresquinhos, no primeiro semestre. Estávamos a fazer uma maior azáfama do que era habitual na aula dele. Entretanto ele fartou-se, interrompeu a aula e começou um ligeiro sermão sobre o nosso comportamento. A certa altura ele disse, com aquele drama ao qual ainda não estava habituado, uma coisa que nunca me esquecerei e que me marcará para o resto da vida:

 

"Eu amo-vos!"

 

E supostamente era por isso que ele queria ver-nos a ter sucesso e tal. Mas a utilização do verbo mais poderoso da língua portuguesa, tipicamente reservado apenas para as ocasiões mais verdadeiras, abalou-me. Ele era brutalmente honesto, e foi brutalmente que confessou o seu amor pelo ensino e pelos alunos, por mais reguilas que fossem. É preciso coragem para dizer uma coisa destas perante uma multidão de adolescentes que não levariam as palavras dele a sério.

 

Encerro assim a dedicatória ao meu mestre. Ele não era espiritualista, portanto nem tentarei agradecer-lhe directamente (parece-me inapropriado), mas posso pelo menos afirmar independentemente que sinto gratidão pela influência dele em mim.

 

 

 

É estranho. É a primeira vez na minha vida que vou apagar um número de telemóvel da minha lista de contactos nestas circunstâncias.

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publicado às 21:55


Mamãe eu Quero (mais ou menos)

por Rei Bacalhau, em 29.04.18

Os irmãos Marx são conhecidos pelos seus vários talentos. Instrumentalmente, Chico Marx era conhecido pelo piano e Harpo Marx pela... harpa. Contudo, isto não implicava que tocavam apenas um instrumento.

Reza a lenda que a família deles apenas tinha dinheiro para dar lições de piano a um dos irmãos. O conteplado foi o mais velho, o Leonard, conhecido como Chico. No entanto, quando chegava a casa ele alegadamente ensinava ao segundo mais velho, Arthur Marx (Harpo), o que tinha aprendido nesse dia.

Como tal, Harpo Marx era também um decente tocador de piano. Pelo menos o suficiente para fazer um dueto fraternal.

 

Eis uma interpretação de Mamãe eu Quero no filme The Big Store, com dois dos Irmãos Marx:

 

 

 

Cada vez que eu revejo um filme deles não posso deixar de notar como tanto do meu humor físico vem do Harpo Marx (ou pelo menos parece-me que sim). As caretas divertidas que ele faz são um sucesso com crianças ainda hoje.

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publicado às 19:42


All You Need Is...

por Rei Bacalhau, em 22.04.18

Hoje vou muito directamente ao assunto, apetece-me ouvir Beatles, e é precisamente isso que irei partilhar!

 

The Beatles, na sua aparição no Ed Sullivan Show, com o tema I Want To Hold Your Hand:

 

 

 

Oi? Ups, devo ter-me enganado, isto não são os Beatles! The Rutles? O que raio é um Rutle? Esperem lá, vou tentar de novo.

 

The Beatles, com Get Back, famosamente filmado em cima de um edifício:

 

 

 

Ai... mau, enganei-me outra vez, peço imensa desculpa. Que raio, mas quem é que são os Rutles, e porque é que têm músicas tão parecidas às dos Beatles? Que mistério...

 

É evidente que vocês, caros leitores, se tiverem senso de humor, já terão compreendido que estou muito obviamente a gozar convosco. Sem ofensa. Em minha defesa, eu tinha de encontrar alguma maneira mais humorística para apresentar a mítica saga dos Rutles, uma banda de paródia aos Beatles envisionada por Eric Idle, membro dos Monty Python.

A ideia atrás da criação dos Rutles era apenas (tanto quanto percebi) de fazer um documentário a gozar com o percurso bastante controverso dos Beatles, mas posteriormente a banda continuou segundo a liderança de Neil Innes, que maior importância teve para a concepção da banda, sendo o compositor e letrista das músicas.

 

O "documentário", de nome All You Need is Cash, foi lançado em 1978, numa altura em que todos os Beatles ainda estavam vivos, com opiniões sobre o filme variadas.

 

Segue de seguida o tal documentário, e se prestarem atenção, poderão ver qual dos Beatles gostou mais do conceito. É uma horinha e pouco, mas vê-se bem e tem muita parvoíce à mistura.

 

All You Need is Cash, a história dos Rutles: 

 

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publicado às 23:06


Fui ao cinema sozinho

por Rei Bacalhau, em 15.04.18

A afirmação pode não ter grande importância para o comum mortal, mas para mim tal experiência é de dificuldade olímpica. Tenham em conta que nunca em qualquer altura da minha vida me meti numa aventura destas (aliás, esqueci-me das aspas, por isso, "aventura"). Estive sempre habituado em ir a todo o lado com alguém, mas desde que comecei a assimilar a ideia de solidão lupina a que estarei exposto a longo prazo que tenho procurado emendar alguns dos meus males, nomeadamente a minha aversão a fazer seja que actividade for sozinho.

 

Então fui ao cinema sozinho pela primeira vez. Quis ir ver o "Soldado Milhões", em homenagem ao significado cronológico desta semana. Tendo em conta o tema, não haverá melhor filme para se ver sozinho, já que não me parece que eu conseguisse convencer seja quem for a vir ver uma produção portuguesa sobre acontecimentos históricos comigo.

A minha falta de independência mental leva-me a que eu tenha um ligeiro estado de ansiedade sempre que vou algures sozinho, por razões que não consigo explicar devidamente, nem a mim próprio. Mas não! Tinha de ir. De hoje não escapa. Vou ao cinema sozinho! Toda a gente o faz, por isso 'tá-se bem, 'bora lá.

Cheguei à menina da bilheteira e pedi o bilhete para o filme.

"Tem algum cartão de desconto?" - inquiriu ela, simpaticamente.

Respondi um "sim!" triunfantemente, totalmente preparado para a pergunta (pois tinha fanado um cartão da NOS a um familiar).

A menina recebeu-o, algo confusa.

"Ah, é um menu, então?"

Ficámos a olhar um para o outro como se não estivessemos a falar a mesma língua? Menu? Mas isto é o MacDonalds?

Depois de uma troca de clarificações ela apunhalou-me onde mais me doía.

"Ah, você vem sozinho?"

Sim, essa agora, o que é que tem a ver com isso? Há algum problema? É evidente que não disse isso, simplesmente pensei. Na realidade respondi um simples "sim". Ela lá me clarificou pacientemente que aquele desconto só funcionava para duas pessoas.

 

Tudo bem, lição aprendida. O público alvo dos cinemas é as pessoas que têm alguém com quem ir. Hmm... ok.

Devo admitir, no entanto, que pessoalmente aprendi que ver o filme em si é basicamente a mesma coisa seja sozinho ou acompanhado. 

 

Agora, sobre o filme, "Soldado Milhões".

O meu interesse no filme era duplo: em primeiro, é sobre um assunto que me interessa, tendo em conta o meu ligeiro gosto por história (e recentemente a Primeira Guerra mundial); em segundo, tinha curiosidade em saber como é que uma produção nacional abordaria o tema e com que padrões de qualidade.

Ajudou que eu tenha ido com expectativas baixas, pois posso dizer que gostei bastante do filme no geral.

O filme é narrado através das memórias de Aníbal Augusto Milhais, o soldado epónimo do filme. O filme segue o estilo de flashbacks que levam o enredo de trás para a frente entre a Primeira Guerra Mundial e 25 anos depois. Não vou mentir ao dizer que achei que muitas cenas do filme estavam lá apenas para encher chouriço, mas sinceramente compreende-se, porque fazer cenas de batalha intensa é algo que custa dinheiro e neste tipo de produções presumivelmente limitadas podemos ser um bocadinho mais lenientes.

Contudo, as cenas de porrada que haviam estavam extremamente bem feitas. Em termos de escala vemos apenas a companhia de Milhais, mas a verosimilhança histórica era bastante alta. Os equipamentos usados pelos tugas eram todos ingleses, espingardas Lee-Enfield e metralhadoras ligeiras Lewis (que eu pensava que ainda eram arrefecidas a água, mas essas eram as Vickers, que o CEP não usou, acho eu). Foi dada alguma atenção ao detalhe nos uniformes e na construção do cenário. No entanto, o que mais me impressionou logo de início foram as tácticas que os alemães estavam a utilizar para atacar a trincheira portuguesa. Nesta altura da guerra os alemães estavam a utilizar tácticas de infantaria novas, focadas em ataques com homens rápidos e ligeiramente equipados, normalmente com pistolas, granadas e carabinas mais curtas, como explicado no vídeo a seguir:

 

 

 

Ora, no filme vê-se efectivamente os soldados alemães com pouco equipamento, maioritariamente granadas e pistolas, o que achei um pormenor extremamente gratificante.

 

Há, como em tudo, alguns pormenores que não pude deixar de notar (para o melhor e para o pior). Os pomenores que parecerem negativos só os digo mais por diversão do que por crítica séria:

  • a certa altura o Milhais está a despedir-se da namorada e vê-se perfeitamente vários furos pouco conservativos para a altura nas orelhas dela;
  • durante um ataque alemão, de repente o capitão português manda o pessoal subir da trincheira para se encontrar com o inimigo na terra de ninguém, o que me parece em todos os aspectos absurdo (não digo que não tenha acontecido, mas parece-me muito estranho que as tropas se expusessem tanto quando já estavam numa posição defensiva excelente);
  • um excelente pormenor bem caracterizado: ao que hoje conhecemos como stress pós traumático foi dado o nome de "melancolia", ou "saudades de casa". É um bom pormenor porque a Primeira Guerra Mundial foi das primeiras guerras onde esta condição foi mais visível, e na altura os médicos e oficiais não faziam ideia do que se tratava e davam-lhe outros nomes (nomeadamente "shell shock"). Aliás, outro vídeo sobre isso:

  • existe uma referência a que foram enviados 75000 homens para a Flandres. O número confundiu-me, porque não acho que tenham sido tantos, mas como as fontes de informação podem variar, hmm, vá, deixo passar;
  • Um zepelim. A baixa altitude. Só o vemos brevemente, mas isto só propaga a noção errada de que os zepelins eram usados "em combate", apesar de a realidade ser ligeiramente diferente.
  • o maior quebrador de imersão para mim: a existência de vegetação, terreno e clima português na Flandres. Acredito piamente que os produtores do filme poderiam ter aproveitado uma das muitas zonas ardidas em Portugal para filmar mais realisticamente um campo de batalha com menos pinheiros e mato seco tipicamente tuga. Consegui imaginar muitos putos a ver este filme e a ficarem confusos a perguntarem-se se a Flandres seria afinal em Portugal. Mesmo na trincheira, vê-se a terra profundamente branca e seca que nada tem a ver com a lama belga.
  • falando nisso, a trincheira portuguesa parecia estar em excelentes condições, o que me parece contraditório com os rumores de que as nossas trincheiras eram das piores da Entente.

Já achincalhei suficientemente o filme. Admiro imenso que tenha havido um esforço por parte de alguém para fazer um filme tão inovador (a meu ver) em Portugal. Espero que muita gente o vá ver (sabemos bem que não) para fomentar a criação de filmes semelhantes.

 

Talvez um sobre o Ultramar? A TVI anda lá sempre a fazer novelas para esses lados, portanto se calhar podiam aproveitar. Ui, se calhar a Operação Mar Verde, que tal?

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publicado às 19:26


A Quarta Batalha de Ypres (La Lys)

por Rei Bacalhau, em 09.04.18

Sou fã de um canal do Youtube chamado "The Great War", e poderão imaginar que fala da maior guerra de sempre, a Segunda Guerra Mundial.

Mas não.

 

Fala da Primeira Guerra Mundial, que na altura era conhecida mais por "A Grande Guerra" (para ser justo, foi a maior guerra até aquela altura, portanto, percebe-se; aliás, se quisessemos ser pedantes, até poderia argumentar que a Primeira Guerra Mundial não foi a primeira guerra mundial, tendo em conta a Guerra dos Sete Anos, mas pronto).

 

Eu não posso dizer que seja altamente conhecedor de História, mas este tipo de canais na Internet que substituíram o Canal História em termos de legitimidade educacional acaba por me dar uma melhor noção das causas, consequências, acções, dimensões e factos gerais sobre assuntos bélicos e geo-políticos, mesmo que no fundo esse conhecimento me seja pouco útil na prática.

 

Nós, portugueses, temos tendência a dar uma imensa relevância às nossas acções em assuntos internacionais devido à maldição de mediocridade que obtivemos durante os últimos... 150-200 anos, mais ou menos? Digamos que sim.

 

Dito isso, hoje faz 100 anos que começou a Quarta Batalha de Ypres, como se a terceira não tivesse sido suficiente (os Iron Maiden que o digam). Tipicamente chamamos-lhe a Batalha de La Lys, porque creio que era a zona onde o Corpo Expedicionário Português estava situado. Não quero desrespeitar quem lá lutou, mas esta batalha faz-me confusão, especialmente devido à noção que parecemos ter sobre a nossa intervenção na batalha. Quem ouve às vezes o pessoal a falar fica com a ideia de que os portugueses morreram às dezenas de milhar acumulados em montes de corpos, monumentos grotescos à martirização lusitana que tanto parecemos querer, com o Soldado Milhões a disparar de lá de cima.

Nada disso. O grande sacrifício português foi pouco relevante em termos estratégicos, e a batalha não é particularmente diferente de tantas outras ao longo da guerra em tantos outros teatros de operações. A enormíssima falta de recursos humanos, materiais e organizacionais do CEP não era nada de invulgar. Bastaria olhar para a frente italiana para se encontrarem dois exércitos inteiros a defrontarem-se ao mesmo nível de incompetência geral (e se acham estranho terem havido quatro batalhas em Ypres, recomendo irem ler sobre as Doze Batalhas do Isonzo).

Sim, morreram uns tugas. Sim, uma quantidade relativamente imensa de tugas foram capturados. Sim, foi uma derrota. Mas compreendam que para as outras grandes (e não só) nações que já andavam à porrada há tanto tempo, as nossas perdas são miseravelmente inferiores, e quem estuda História tem tendência a ficar dessensibilizado para os números catastróficos de perdas humanas, e então numa guerra como esta. (para colocarem em perspectiva, estima-se que a Sérvia, um dos catalisadores involuntários da guerra, perdeu um quarto da sua população, um pouco mais de um milhão de pessoas).

 

Sim, La Lys deve ser lembrada e os combatentes nela homenageados. Só gostaria que tivessem em conta que apesar de tudo fomos muito pouco relevantes na guerra, e ainda bem, para melhor ou para pior.

 

Eis um videozinho que explica o que eu quero dizer de maneira mais profissional:

 

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publicado às 15:02


Peacemaker Die

por Rei Bacalhau, em 08.04.18

No passado dia 4 fez 50 anos que o Martin Luther King foi assassinado.

 

É evidente que este tipo de datas simbólicas tem de ser aproveitado para fazer referências musicais relevantes.

 

No entanto, antes do momento musical, gostaria de fazer uma pequena reflexão sobre o sonho dele.

Não sei como é nos Estados Unidos ainda nos dias de hoje em termos da relação entre brancos e pretos (e certamente não vou acreditar no que as televisões dizem, isso é sempre perigoso). Gostaria era de falar um bocadinho do que eu observo em Portugal, e quem diz Portugal, diz Lisboa, porque toda a gente sabe que o resto do país só interessa na época dos incêndios.

Eu gosto de pensar que o Martin Luther King visitaria Portugal com agrado, pois ele veria parte do seu sonho concretizado. Eu moro numa zona de grande densidade de descendentes africanos e sempre estive habituado a valorizar mais as minhas amizades com pretos do que com brancos. Acho estranho em ouvir falar de racismo quando estou a andar pela minha cidade e vejo os velhotes a conversar amigavelmente com os pretos, apesar de tipicamente nos quererem levar a acreditar que as populações não se dão bem juntas.

 

Há cerca de um ano, se calhar menos, chegaram novos vizinhos aqui à casa do lado, uma família grande de pretos. Houve um certo sentimento de apreensão por parte de alguns membros da minha casa, e esses receios justificaram-se quando a música aos berros começou as fins de semana. Ora, eu pessoalmente admiro esse aspecto da cultura dos povos nominavelmente africanos (mesmo que nascidos em Portugal, que não é este caso). A minha família constantemente melancólica não consegue sequer conceptualizar o conceito de diversão e assume que as kizombas (ou sejam lá o que for, não sou culto nesse assunto) são postas propositadamente com volume alto para nos chatear.

As pessoas de senso comum sabem que isso não poderia estar mais longe da verdade. Antes pelo contrário, diria eu. Se eu fosse a diferenciar os pretos dos brancos, teria de ser positivamente. Um exemplo simples:

 

A MEO está sempre a chatear-me para eu aderir a um serviço de televisão deles. Não me interessa, nunca me interessou e não vejo que seja provável que me venha a interessar. No entanto, eles telefonam-me persistentemente, apesar de eu algo ironicamente dizer "ah, mas ainda na semana passada disse não". Todos os que me telefonam se identificam com um nome normal de branco e com um sotaque a condizer. Esta semana, contudo, aconteceu algo inédito. Estive ao telefone com um preto com um nome de preto e um sotaque de preto. A oferta era a mesma, e referi que há meros DOIS DIAS me tinham telefonado a dizer o mesmo (isto é absolutamente verdade). A reacção imediata deste santo foi dizer algo como "ah, ok, vou colocar aqui uma nota então para não voltar a ligar".

Nem acreditei, agradeci como nunca agradeci a alguém e assim que desliguei a chamada pensei logo no Denzel Washington a dizer "my nigga".

 

 

Igualmente, voltando um bocadinho atrás, umas conversas amigavéis com os meus vizinhos pretos sensibilizou-os para o respeito pela paz dos outros, e as coisas têm estado excelentes desde então. Há trocas de cumprimentos e até de produtos hortícolas e sinto-me no direito/dever de dar uma festinha nos cachorros deles.

No entanto, não acredito de modo algum que nada disto tenha a ver com a cor da pele.

Sempre achei que o pessoal liga mais ao racismo do que ele merece, e creio que muitas vezes acontece que confundem as acções de alguém de uma cor diferente como algo inerente à cor, e não à pessoa em si (porque pessoas parvas vêm em todos os formatos).

 

 

Para reflectir adicionalmente sobre isto, apresento uma música dos Extreme, que é extremamente violenta na sua letra e igualmente inteligente na utilização de ironia.

 

Peacemaker Die, dos Extreme:

 

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publicado às 00:00


Inominável nº 13

por Rei Bacalhau, em 06.04.18

Desta vez coube-me a mim fazer a secção do "Cá por Casa" da Revista Inominável, que vai agora na edição nº 13.

 

Adicionalmente introduzo brevemente um videojogo recente chamado Into the Breach.

 

Portanto, divirtam-se, inclusive e especialmente com os outros artigos. Há lá algo para todos.

 

Para ler AQUI ou no BLOG.

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publicado às 15:25


Behind Blue Eyes

por Rei Bacalhau, em 18.03.18

Behind Blue Eyes, dos The Who:

 

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publicado às 23:16



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