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Working On a Dream

por Rei Bacalhau, em 07.07.18

Estamos todos, mesmo que não o queiramos admitir.

 

Bruce Springsteen, com Working On a Dream:

 

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publicado às 23:35


Son Of Mr Green Genes

por Rei Bacalhau, em 24.06.18

Sempre ouvi falar do Frank Zappa, mas nunca lhe prestei a devida atenção devido ao facto de que é preciso quebrar uma certa barreira para se começar a apreciar o artista.

Consequentemente, decidi finalmente lançar-me feito parvo para a discografia dele e fui ao Youtube e pesquisei simplesmente "frank zappa". Apareceu-me imediatamente uma coleção de três horas e meia de músicas dele. Tendo em conta que ele em vida editou dezenas e dezenas de álbuns, não é de surpeender que uma "selecção" dos temas dele seja mesmo assim relativamente longa.

Três horas e meia depois fiquei na dúvida de se o homem era insano ou um génio, mas agora sei que era simplesmente um músico que acreditava na sua liberdade artística para tocar da maneira que bem lhe apetecesse.

 

Eu gosto de músicas grandes. Acho que já o tenho dito de vez em quando. Ora, o Frank Zappa tem o hábito de fazer as suas composições bastante alargadas com secções instrumentais absurdas (e ele nem era grande fã de drogas, aparentemente, portanto toda a maluquice é dele mesmo).

 

Como os conteúdos líricos dele podem ser às vezes... "desconfortáveis para o público geral", digamos, decidi partilhar um tema instrumental que me agradou particularmente, mas ficais a saber que é apenas uma gota num oceano.

 

Frank Zappa, com Son Of Mr Green Genes:

 

 

Já agora, o álgum desta música, Hot Hats, foi extremamente pioneiro em termos técnicos e foi dos primeiros a utilizar novas tecnologias para fazer do estúdio um instrumento por si só, como "certas" bandas viriam a fazer daí a uns anos.

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publicado às 00:00


Lookin' Out My Back Door

por Rei Bacalhau, em 17.06.18

Quando eu chego a casa do trabalho ou depois de ter estado muito tempo ao computador costumo ir para a janela da minha casa para olhar um bocadinho para o horizonte. É este um dos meus sítios predilectos para a actividade simples de pensar. Pensar no quê? Seja no que for, todo o tipo de pensamentos Bons, Maus... e Feios.

Falando em particular dos pensamentos Bons, é nestas alturas de reflexão profunda que me vêm à cabeça as ideias mais parvas e potencialmente humorísticas. Uma boa parte das minhas contribuições para a Revista Inominável foram arquitectadas naquela janela, pois a paisagem relativamente ociosa composta de blocos de cimento dá asas ao que nós poderíamos chamar de imaginação.

As aventuras de Ventura Lobo são um outro exemplo de parvoíces que me vieram à cabeça enquanto perscrutava (tenho sempre dificuldade em escrever este verbo) os confins urbanos.

 

É bom de vez em quando estar num estado de espírito alegre mesmo depois de um dia cansativo e chato. Às vezes, sem real razão aparente. Outras vezes porque fomos inspirados pela música certa.

 

Lookin' Out My Back Door, dos Creendence Clearwater Revival:

 

 

Bother me tomorrow, today I'll buy no sorrow

Doo, doo doo, lookin' out my back door...

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publicado às 22:55


A Visita

por Rei Bacalhau, em 10.06.18

Um homem estava sentado ao computador, a dar fim a mais um dia de existência. Ele digitou habilmente as últimas instruções e ordenou que o computador se desligasse.
- Ah, actualizações do Windows. Sim, vá, instala lá, até amanhã. - murmurou ele, personificando o dispositivo afetuosamente.
Saiu do escritório, apagou a luz e foi deitar-se enquanto o computador instalava furiosamente as actualizações do seu sistema operativo.
Não se ouvia nada mais senão o leve rumor das ventoinhas do aparelho.

- É agora, pessoal, 'bora! Au! Sim, já sei que não gostas de abreviaturas, está quieta! Despachemo-nos!

A aparente ausência de vida do escritório, aumentada pela escuridão e pelo silêncio relativo, era enganadora, pois ninguém pode saber o que acontece algures se lá não estiver alguém.
Das estantes repletas de obras literárias que preenchiam a parede setentrional começaram a surgir rumores e vultos e movimentos e discussões, todos minúsculos em comparação aos livros de onde se materializaram. Isto era conveniente, pois o espaço físico era limitado e todos os livros têm dezenas de personagens e rapidamente a multidão de pessoas, animais, máquinas sencientes e monstros vários de ficção ocuparam as estantes onde lhes era disponível.
Como seria de esperar, alguns conflitos e amizades acabariam por ocorrer entre tantas personalidades tão diferentes e tão iguais e tão contrastantes e tão coincidentes, todas acumuladas tão compactamente.


À volta de uma fogueira estavam dezenas de soldados, todos vestidos de formas diferentes e representantes de nações e facções distintas: alemães, espanhóis, americanos, franceses, portugueses, britânicos e tantos outros a partilhar as suas histórias de guerra, todas com tragédia, horror e dor, mas também com alegria, camaradaria e até humor. Ali não se estavam a matar, pois no fundo eram todos irmãos de armas.
Noutro local podia-se ver Papillon e Robison Crusoe a partilhar as suas aventuras um com o outro com respeito mútuo, já que ambos a certo ponto se encontraram em circunstãncias semelhantes, mas por razões e com desfechos completamente diferentes.
À volta de um cadáver estavam uma míriade de detectives e investigadores, discutindo entre eles vários factos e deduções sobre o acontecimento sem grande unanimidade. Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Phillip Marlowe, Porto Brandão, entre muitos outros, debatiam-se mais ou menos dramaticamente consoante a sua personalidade sobre as suas conclusões e métodos de investigação.Mal sabiam eles que o assassino estava entre eles. Com excepção do próprio assassino. Esse sabia-o.
Sentados em sofás confortáveis e luxuosos estavam Edmond Dantès, Carlos da Maia e Pierre Bezukov, a partilhar entre si as várias tragédias que lhes haviam acontecido, apesar de cada um deles ser uma prova que até o pior dos dramas consegue ser sarado, seja por vontade própria ou não.
- A felicidade é relativa. - concluia um deles.

Eventualmente, um conjunto de forasteiros aproximou-se das estantes e dos livros. Haviam feito a longa travessia entre o computador e os móveis do outro lado do escritório. No fundo, apesar de não terem origem num livro, consideravam-se personagens de ficção tão válidos como qualquer outro, independentemente de o seu criador não lhes ter feito justiça narrativa de qualidade.

Os membros deste grupo olhavam em volta como se estivessem a entrar numa cidade desconhecida e no entanto tão familiar. Cada um deles via algo que os atraía.

- Couve, este passeio já está a demorar demasiado, não achas que é altura de atacar!? O flanco inimigo está enfraquecido!
- Com todo o respeito, meu General, devo afirmar que não estamos aqui por razões bélicas.
- Disparate, Cenoura, isso é o que um traidor diria! Diz-me, Curgete, és um traidor?
- Clarifico que não me considero um, meu General.
- Não, Abacate! Devias ter dito "Curgete, és um traidor" com tom interrogativo! Não sabes seguir ordens simples!? Eu nem sabia que te chamavas Curgete, ò Alface.
- Efectivamente, relembro como de costume que o meu nome é....
- Romã, olha ali um soldado! Deve ser o inimigo, vai lá apanhá-lo! Em frente! Atacar! MARCHE!
O ajudante de campo do General aparentemente louco aproximou-se de um homem de aspecto simpático e quase infantil, vestido num uniforme do império Austro-Húngaro.
- Boa noite cavalheiro, queira seguir-me. O meu General deseja que o leve à presença dele.
- Declaro com obediência que será com prazer que o seguirei.
O ajudante voltou com o soldado capturado, pronto para interrogatório.
- Quem és? Donde vens? Para onde vais!?
- Declaro com obediência que sou o soldado Švejk, venho de Praga e irei com todo o prazer para onde o meu ilustre General me enviar.
- Ah, seu traste, bandido, gabiru! Batata, que espécie de inimigo é este que capturaste?
- Relato que foi o meu General que me ordenou que o apanhasse.
- E porque é que ele fala de maneira estranha como tu!?
- Receio informar que não sei.
- E que raio de nome parvo é Švejk? Diz-me soldado, tu és parvo?
- Declaro com obediência, meu General, que sou efectivamente parvo.
- Eu já nem sei quem está a falar. Levar-vos-ei todos ao tribunal militar! Desertores! Traidores! Gabirus!

Entre a enumeração de vários insultos, o General e o seu ajudante de campo ficaram para trás, esquecidos pelo resto do grupo de recém-chegados.

Uma folha voou para o meio do grupo de visitantes. Um deles, um mais barbudo e de feições graves, apanhou a folha e leu de relance frases escritas à máquina sobre bêbados e sexo, numa linguagem real e honesta. Intrigado, separou-se do grupo e seguiu um rasto de folhas semelhantes até encontrar um homem sentado com uma máquina de escrever numa secretária.
- Isto é seu?
O homem, de aspecto desgastado e ressacado, tirou-lhe a folha da mão e leu brevemente.
- Sim, é.
- Tem aí linguagem forte. Não tem medo que os cabrões do politicamente correcto vejam isto?
- Não sei do que estás a falar, amigo. - respondeu despreocupadamente enquanto mamava uma cerveja. - Se alguém tiver problemas com o que escrevo podem ir para o caralho.
- Bom, a mim intrigou-me.
- Ah é? Olha, estou a escrever uma história sobre um preto canibal com uma piça enorme. Queres ler?
- Partilhas uma cerveja?
- Já só tenho vinho.
- Ainda melhor, serve uma rodada. Sou o Carlos.
- Estou-me a cagar para o teu nome. Senta-te.

A maior percentagem dos elementos restantes do grupo parou subitamente ao passarem defronte da fogueira rodeada de soldados. Pararam sob o comando do gesto de um deles, que aparentava ser o seu líder. Eram nove no total: o Chefe e mais Oito.
- Passa-se alguma coisa, Chefe?
- Não, Adérito, nada, queria só que vocês olhassem bem para uma cena algo comovente.
- Foda-se, Chefinho, não temos tempo para isto, o Inimigo anda por aí, de certeza.
- Calma, Pedro. Olhem bem para estes soldados todos, unidos sob a camaradagem da nossa profissão. Ali estarão muitos que no campo de batalha seriam inimigos, mas que aqui sabem respeitar-se mutuamente. Creio que poderíamos aprender muito deles. Proponho que nos juntemos a eles.
- Não é a falar que vamos libertar o nosso país, Chefinho... - queixou-se novamente Pedro.
Lucas, outro dos Oito, sem dizer nada, colocou a espingarda ao ombro e sentou-se num espaço disponível na fogueira e ficou a ouvir. Todos com excepção de Pedro, que se manteve afastado, seguiram-lhe o exemplo.
- Conas, todos eles... - murmurou ainda Pedro entre dentes.

Restavam quatro membros do grupo original. Cinco, se contássemos a égua que um deles montava. Seis, se contarmos com a espada que este último possuía.
Seguiam placidamente pelas estantes quando foram interrompidos pelo trovoar de cascos galopantes. Milhares de cavaleiros faziam os móveis tremer perante a sua aterradora marcha. O cavaleiro do grupo dos visitantes olhou embasbacado perante o que estava a ver. Milhares e milhares de personagens de livros de fantasia dirigiam-se em fromação para algum campo de batalha imaginário e longínquo.
- Os Rohirrim de Rohan! Os Dúnedain do Norte! Ah! Está ali o Conan, o Cimério! E mais atrás o Michael Kane, acompanhado do... Elric! Elric de Melniboné! Ah, mas eu tenho de ir atrás desta gente, vai ser certamente uma daquelas batalhas todas épicas como se vê nos filmes! Eia, Sara, minha fiel égua. Desembainhemos a espada Venceslau e esperemos que o nosso inimigo tenha pobres capacidades ortográficas para libertar o seu poder total!
O cavaleiro seguiu excitantemente a galope atrás do exército, deixando apenas uma nuvem de poeira imaginária.

Restavam três.

Iam os três em passo lânguido, dois deles à frente e o outro esquecido atrás.
- Verdadeiramente há aqui tanta gente que não conheço... - disse o Bom. - Pergunto-me se seria possível ler tantos livros em tempo útil.
- Só não lês porque não queres. - rematou o Mau. - O tempo que gastas com videojogos e vídeos no Youtube poderia ser mais bem dispendido aqui.
- Ah, essa agora, então, sê razoável, há que haver moderação em tudo, tem de haver um bocadinho de tempo para tudo.
- Limitei-me a responder à tua pergunta. Queres ler estes livros todos? Óptimo, mas tens de sacrificar alguma coisa.
- Lá estás tu, resmungão como sempre. Olha, queres ir ali à banda desenhada? Quero ver se vejo o Lucky Luke a fazer equipa com as Tartarugas Ninja, deve ser divertido.
- Hmm... creio que não. Sinto-me um bocado vazio sem o meu acesso ubíquo ao Wikipédia. Se calhar vou ver se encontro algo de interessante na zona das enciclopédias ou dos livros mais técnicos. Essa gente será certamente mais interessante do que ir ver o Astérix pela n-ésima vez.
- Ah, vá lá, desmancha prazeres, até parece que....

O Bom e o Mau continuaram a falar e a avançar estante fora. No entanto, o Feio, concentrado nos seus pensamentos, pouco ligava à actividade toda que decorria à sua volta. Olhou de relance para o meio do escritório, para longe de todas as atenções, para se tentar desligar da algazarra toda.


E então viu-o.


Ao longe, afastado de tudo e todos, a voar lá em cima e subitamente a cair a pique contra o chão para num gesto ágil subir de novo. Logo de seguida repetiu o processo, parecendo aumentar ligeiramente a sua velocidade por cada iteração.

O Feio sentou-se e ficou a observá-lo.

 

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publicado às 00:50


Legs

por Rei Bacalhau, em 03.06.18

Há certas bandas que nunca falham, mesmo naqueles dias de baixa inspiração para partilhar alguma coisa. 

 

ZZ Top, com Legs, num dos videoclipes mais confusos e divertidos de sempre, que junta todos os elementos típicos dos vídeos dos ZZ Top: os "Tres Hombres" a aparecer e desvanecer, o Eliminator (o carro), e várias míudas giras e magrinhas a fazer avançar o enredo, que involve sempre alguém que está em baixo e que depois fica na mó de cima.

 

 

Os anos 80 eram definitivamente mais simples.

 

Já agora, tenho quase a certeza que um dos "maus da fita" ao longo do videoclipe entrou também no "Profissão: Duro".

 

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publicado às 23:54


Inominável nº 14

por Rei Bacalhau, em 01.06.18

É precisamente num dia tão simbólico que nasce uma nova edição da Revista Inominável!

Quer dizer, na verdade foi um acaso que a primeira sexta-feira de Junho fosse por acaso no dia um. Ah e tal, mas as coincidências têm um significado muito profundo.

 

Bom, na coluna 2D3D, para além de fazer comentários pouco sensíveis, abordo um tema relacionado com videojogos que qualquer progenitor deveria ter em conta em relação aos seus infantes, especialmente se forem daquele tipo de pais que não consideram os miúdos simplesmente mais uma despesa.

 

Sem mais demoras, eis a hiperligação para a REVISTA em si e um outro para o BLOG da revista.

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publicado às 14:45


How Does It Feel

por Rei Bacalhau, em 27.05.18

Há alguns anos atrás escrevi um texto ao qual eu gostaria de fazer alusão. No entanto, é um texto que é prévio à criação deste blog e está consequentemente perdido, sendo-me impossível lembrar-me do que escrevi lá.

Sei, contudo, que fiz uma pergunta a mim próprio, na altura com uma música a acompanhar.

Basicamente, perguntei ao "eu" futuro, agora o "eu" presente, como me sentia tantos anos depois. A construção frásica é estranha, mas creio que compreendem o conceito.

 

Como me sinto? No fundo, sou quase a mesma pessoa, tanto a nível mental como a nível físico. Tive alguns progressos académicos e profissionais, apesar de toda a gente que eu conheço detestar o emprego que eu tenho e de eu detestar o emprego que toda a gente queria que eu tivesse. Nisso, acho que o "eu" passado teria ficado contente, por não ter sido corrompido pelas maquiavélicas mentiras das empresas de consultoria.

 

A nível pessoal, o "eu" passado ficaria de rastos ao saber do percurso que a nossa vida tomou para me levar a decidir tornar num mal-afamado lobo solitário. Apesar do tom melodramático da expressão fazer com as pessoas não a levem a sério (e é evidente que eu não me classifico publicamente como tal), a aparente submissão a este estilo de vida levou a que me tornasse muito mais despreocupado no meu dia-a-dia, por saber que já não tenho de impressionar ninguém e que há certos eventos sociais que posso escolher não fazer porque as pessoas já sabem que "ele é simplesmente assim".

Adicionalmente, com a actual implementação da Reforma, estou lentamente a habituar-me a ser e a existir sozinho, se bem que ainda há muito para fazer.

 

Aprendi imenso. Mesmo sendo uma pessoa pouco activa, é impressionante o quanto se consegue aprender sobre tantos aspectos da vida em relativamente pouco tempo. Muitas das lições foram difíceis, especialmente em termos de amor (aliás, chamemos-lhe romance) e de identidade pessoal. Tenho agora uma perspectiva mais triste e mais sábia da minha vida, mas admito que ainda me faltam limar umas arestas.

De qualquer forma, existirão sempre arestas a limar. A vida é mesmo assim. Existirão sempre novos problemas e novos ensinamentos e posso apenas esperar que a experiência me permita lidar convenientemente com eles.

 

Apesar de não notar demasiadas diferenças em mim, o mesmo não posso dizer naqueles que estão à minha volta. Noto que estão a ficar gordos, velhos, queixosos, fracos, doentes e alguns até moribundos. Sinto em particular uma pessoa muito próxima de mim a perder as forças de dia para dia, apesar dos meus maiores esforços para a manter saudável.

Creio que nos próximos anos o meu maior desafio será tentar balançar as minhas responsabilidades para com os que me são próximos com a minha responsabilidade egoísta de também me melhorar.

 

É caso para perguntar-me de novo, ao "eu" de aqui a muitos anos.

E agora? Como te sentes?

 

Para reflectir sobre o assunto, partilharei a mesma música brilhante e fenomenalmente composta que partilhei da primeira vez, em tempos esquecidos.

 

Os Slade, com How Does It Feel:

 

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publicado às 23:50


Deadpool 2

por Rei Bacalhau, em 20.05.18

O maior problema, para mim, de se ver uma sequela para um filme, ou mesmo um filme com um mesmo realizador ou actor de outro, é que ficamos com uma certa expectativa prévia, tanto para o melhor como para o pior.

 

É o caso de Deadpool, o filme sobre um herói cujo maior superpoder é conseguir irritar toda a gente igualmente. Este primeiro filme do Deadpool quebrou regras que já não eram quebradas num grande ecrã há alguns anos, algumas delas desde o Robin Hood, Heróis em Collants, provavelmente.

 As pessoas souberam apreciar a qualidade e a impertinência do filme e votaram com as suas carteiras, declarando o Deadpool como um dos grandes filmes de comédia recentes. Este foi, para mim, um caso em que a democracia funcionou, pois depois deste fenómeno, puseram-se logo a trabalhar no segundo filme.

Foi consequentemente com grande expectativa que fui ver o Deadpool 2, assumindo que iriam aplicar a mesma fórmula do primeiro filme.

 

No primeiro filme eles tinham o problema de que tinham de introduzir o personagem ao público que talvez não o conhecesse da banda desenhada, e como tal tiveram de estruturar o filme de modo a ter a história da origem do Deadpool. No segundo filme já nada disso interessa e pôde-se gastar muito mais tempo e dinheiro em piadas parvas e absurdas que um bom filme de comédia de paródia precisa. Tendo em conta que teve o dobro do orçamento do primeiro filme, os efeitos especiais foram sublimemente utilizados para a parvoíce caótica que caracteriza todo o filme.

Numa frase, poderia descrever o Deadpool 2 como um filme de acção intensa produzido por um Mel Brooks ordinário e rico.

 

Efectivamente, se eu ia com expectativas altas, posso afirmar confortavelmente que foram superadas, o que eu achava impossível. O argumento é adequado (tendo em conta que estamos a falar de um filme de super heróis), as personagens estão decentemente desenvolvidas e nota-se que alguns pontos de enredo foram meticulosamente calculados para levarem a algumas cenas que ficarão para a história do cinema.

Numa dessas cenas reparei num pormenor engraçado. Um dos personagens tem uma pistola bastante única e fiquei contente por a reconhecer: uma Arsenal AF2011, que são basicamente duas pistolas M1911 numa só, numa demonstração parva e inútil (mas fixe) de engenharia.

Um videozinho (educativo e responsável) sobre ela:

 

 

Não quero estragar muito o filme para potenciais espectadores, e por isso tenho omitido todos os detalhes importantes. O objectivo deste texto é apenas de exortar o pessoal a ir vê-lo por si só e de potencialmente obter alguma validação pessoal desse facto.

O Deadpool é, no entanto, conhecido pelo seu gosto de músicas lamechas dos anos 80 (e no geral), e por isso, respeitando a minha tradição dominical:

 

Phil Collins, com One More Night:

 

 

P.S.: as Aventuras de Ventura Lobo podem de certa forma ter sido influenciadas pelo Deadpool. Verifiquei, e a primeira aventura foi publicada apenas poucos meses depois do primeiro Deadpool. É evidente que o conceito da destruição da "quarta parede" não é novo, mas pronto.

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publicado às 20:45


Samapatti

por Rei Bacalhau, em 13.05.18

Admito que não percebo muito de música portuguesa, mesmo de tempos mais antigos, por onde as minha tendências musicais costumam pairar. Sendo um mercado bastante mais pequeno, não é de estranhar que existam muitas poucas bandas do estilo que eu aprecio em Portugal, e as que existem vieram bastantes atrasadas em relação às suas influentes (estou a pensar especificamente nos Trovante e nos Quinta do Bill).

Dos tempos antigos, acho que um dos artistas mais importantes é o Rui Veloso, já que não é toda a gente que tem a possibilidade de tocar com o B.B.King. A sua parceria com o Carlos Tê levou a algumas das músicas mais facilmente reconhecíveis do pop/rock português, a meu ver. Creio que posso dizer isto porque se eu, que não percebo muito de música portuguesa, ainda conheço um ou outro tema do Rui Veloso, então é porque alguma coisa ele fez bem.

Contudo, para tentar emendar a minha ignorância, decidi ouvir alguns álbuns dele onde encontrei um tema com um título invulgar, que me fez imediatamente pensar se seria uma referência a outro artista.

Efectivamente, era.

 

O tema chama-se Samapatti, e logo nos primeiríssimos segundos confirmei a minha suspeita, que referirei de seguida.

Rui Veloso, com Samapatti:

 

 

 

As referências directas ao Samba Pa Ti dos Santana são de pequena duração, mas são o suficiente para justificar partilhar essa música, tocada pelo líder epónimo da banda.

Carlos Santana, com Samba Pa Ti:

 

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publicado às 12:43


O Mestre

por Rei Bacalhau, em 10.05.18

Tenho uma noção de que toda a gente tem um mestre, não no sentido de outrem que seja controlador da nossa vida, mas alguém que teve uma influência educativa e quase paternal de alguma maneira. Alguém mais velho que não seja da família mas que tem ou teve uma imensa importância naquilo que somos hoje.

O Daniel-San teve o Sr. Miyagi.

O Edmond Dantès teve o Abade Faria.

O Luke Skywalker teve o Yoda.

 

Eu tive o Zé.

 

Chamo-lhe Zé porque não quero dizer o nome verdadeiro dele, pois não me parece nem apropriado nem relevante para o resto deste texto.

O Zé foi um dos professores que mais influenciou a minha vida profissional e académica e dele tirei igualmente outras lições de teor filosófico e de modo de estar na vida.

Soube recentemente que ele faleceu há relativamente pouco tempo depois de doença prolongada, contra a qual já lutava há alguns anos.

 

Apesar de não ter sabido a notícia atempadamente, não posso dizer que tenha ficado chocado. Era certo e sabido que o seu estado de saúde não era o mais optimista e acredito que poucas pessoas terão ficado surpreendidas com a morte dele. Curiosamente, ele morreu pela altura da Páscoa, numa altura em que foi mais fácil a notícia passar despercebida. De facto, passou tão despercebida que foi totalmente ao acaso que vim a saber, através de um contacto que mantenho na faculdade.

Não creio que ele apreciaria totalmente este texto em forma de dedicatória, mas sinto que o devo fazer, já que não me parece que mais alguém o tenha feito.

 

O Zé era um personagem bastante... único. Todos os professores universitários têm as suas manias, mas este tinha um conjunto de características que o destacava dos outros. Era um homem da velha guarda, mas tinha recorrentes momentos de falta de profissionalismo escandalosos, pelo menos em comparação com a austeridade e desinteresse típicos dos professores mais velhos do ensino superior. Ao dar as aulas em si não era particularmente diferente dos demais, ele lá rebobinava a matéria de trás para a frente como quem vira frangos. Ele era pouco organizado no quadro, e rapidamente ficava cheio de gatafunhos confusos que só era possível interpretar prestando a mais inabalável atenção ao que ele dizia, já que ele fazia explicações secundárias de algum assunto ao pé daquilo que estava a explicar na altura.

Ele era bastante impulsivo e uma vez ele ia explicar uma coisa ao quadro, agarrou no marcador e riscou a tela branca do projector (que ele não reparara que estava à frente do quadro). Tanto quanto sei, o risco nunca mais saiu de lá.

O Zé era verdadeiramente único no relacionamento que tinha com os seus alunos. Para já, conhecia-os quase todos de nome, o que é impensável no ensino superior. Igualmente impressionante era quando se falava com ele e via-se que ele tinha noção de quantas cadeiras já tínhamos feito e de que "turma" é que éramos. Ele seguiu muito pessoalmente o progresso de várias dezenas de alunos e mantinha vários ficheiros com estatísticas sobre diferentes "fornadas" de alunos.

Mas ele era sacana. Não no mau sentido, claro.

Era bastante frequente ele apanhar um qualquer colega meu e perguntar-lhe algo do género "então, quando é que te vejo fazer Álgebra?", ou "então, em que semestre andas perdido?", etc..

Uma das mais célebres ocorreu numa aula de modelação 3D. Eu tinha um colega que tinha modelado um Lamborghini ou um Ferrari (um dos dois, não me lembro, o que interessa é que tínhamos de modelar carros na altura). Ora, ele tinha passado uma grande quantidade de tempo a trabalhar nisto e estava bastante orgulhoso do resultado que tinha. O Zé era um homem brutalmente honesto e não tinha medo de ser mauzinho se soubesse que a vítima tiraria uma lição de humildade daí. O meu colega já tinha enviado a sua obra de arte e cometeu a imprudência de perguntar ao Zé no meio da aula o que é que ele achava do que tinha enviado. A resposta foi simplesmente, dito alto e a bom som:

"Jovem, em termos gerais, o teu carro está miserável."

(ele não disse "Jovem", mas sim o nome do aluno, que omito por razões óbvias)

Este tipo de comentários venenosos talvez não pareçam pedagógicos mas a verdade é que, como eu já disse, o Zé apenas queria o bem dos seus alunos (e raramente o pessoal levava a mal). Ele, sendo bastante proactivo e pouco burocrático, não tinha medo de mudar as regras de avaliação no meio do semestre se visse que os alunos estavam de modo geral a ficar para trás. Ele, sendo da velha guarda, não se conseguia impedir de estabelecer objectivos e termos de avaliação bastantes rígidos no início do semestre, termos esses que seriam sempre suavizados quando ele via que a turma ficaria em risco de chumbar toda. Este seu modo de trabalhar foi aproveitado por dois tipos de alunos extremistas: era inteiramente possível até para o mais preguiçoso dos alunos passar às suas cadeiras com 10, pois o Zé estabelecia regras lenientes para quem não tinha particular interesse no assunto daquela cadeira. Do outro lado estavam os interessados, aos quais o Zé aplicava padrões de qualidade exponencialmente elevados. Em termos de trabalho, a diferença entre um 10 e um 12 era infinitamente menor que a diferença entre um 18 e um 19.

Ele fazia isto porque ele não queria alunos presos ciclicamente na sua cadeira, mas também queria que os que tnham interesse se esforçassem a sério, pelo menos tanto quanto ele. Aliás, sobre isso, os materiais didácticos disponibilizados pelo Zé eram profundamente exaustivos e completos. Na cadeira de modelação 3D ele tinha lá todas as instruções necessárias sobre todos os elementos do software que usávamos, ao ponto de explicitar textualmente o clique com o botão esquerdo do rato.

 

Mas então, porque é que ele era tão especial para mim? Porque é que lhe atribuo o título de mestre?

Bom, confesso que quando há pouco falava dos dois tipos de alunos que se aproveitaram dele, falei por experiência, pois eu fui, em ocasiões diferentes, os dois. O Zé tem a particularidade de me ter dado um 10 a uma cadeira e um 20 numa outra, alguns anos depois. Compreendam que a grande transformação foi em mim, e não nele, mas acabámos por desenvolver uma certa cumplicidade apesar de eu, não gostando muito da ribalta, me ter sentido bastante pouco confortável quando ele começou a usar alguns trabalhos meus como base de tutoriais para novas iterações das suas cadeiras.

Resumindo e concluindo, ele acabou por ser o meu orientador de tese de mestrado. Por esta altura ele já andava doente e nunca o macei muito. Ele já por princípio não tinha muita paciência para ler relatórios e documentos e teses, portanto acabei por entregar a minha tese sem ter sido revista por ele. Tudo bem, tendo em conta tudo, acho que não o poderia censurar. Aprendi mais com ele em termos práticos do que em termos burocráticos, e sinceramente, sinto-me bastante feliz por isso.

Quando espalhei a notícia dos seu falecimento por alguns colegas meus da faculdade, a reacção de pesar foi bastante unânime, já que ele, apesar das suas muitas excentricidades, era um professor bastante apreciado pelos alunos de forma geral, especialmente (parece-me) pelos da minha geração.

 

Guardei a melhor história dele para o fim:

Estávamos todos na aula, putos de 18 anos ingénuos, fresquinhos, fresquinhos, no primeiro semestre. Estávamos a fazer uma maior azáfama do que era habitual na aula dele. Entretanto ele fartou-se, interrompeu a aula e começou um ligeiro sermão sobre o nosso comportamento. A certa altura ele disse, com aquele drama ao qual ainda não estava habituado, uma coisa que nunca me esquecerei e que me marcará para o resto da vida:

 

"Eu amo-vos!"

 

E supostamente era por isso que ele queria ver-nos a ter sucesso e tal. Mas a utilização do verbo mais poderoso da língua portuguesa, tipicamente reservado apenas para as ocasiões mais verdadeiras, abalou-me. Ele era brutalmente honesto, e foi brutalmente que confessou o seu amor pelo ensino e pelos alunos, por mais reguilas que fossem. É preciso coragem para dizer uma coisa destas perante uma multidão de adolescentes que não levariam as palavras dele a sério.

 

Encerro assim a dedicatória ao meu mestre. Ele não era espiritualista, portanto nem tentarei agradecer-lhe directamente (parece-me inapropriado), mas posso pelo menos afirmar independentemente que sinto gratidão pela influência dele em mim.

 

 

 

É estranho. É a primeira vez na minha vida que vou apagar um número de telemóvel da minha lista de contactos nestas circunstâncias.

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