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Salisbury

por Rei Bacalhau, em 17.02.19

Eu gosto de músicas grandes.

E gosto de tanques.

 

A vossa pergunta será, "como é que num raio é que ele irá associar estes dois conceitos tão aparentemente díspares?". Compreendo a pergunta, e admito que não me é muito fácil misturar os dois, mas cá me arranjarei.

 

Eu gosto de tanques não pela função que têm de desempenhar nas piores das possibilidades, mas por toda a técnica, engenharia, experiência e história necessária para a criação de um, sendo que todos os pormenores são importantes para o bom funcionamento de um no campo de batalha.

Ao longo da história os engenheiros e técnicos de várias nações tiveram de resolver problemas e criar inovações para chegar a um determinado objectivo para um modelo de um tanque. Pode fazer-se um tanque que seja impenetrável por todo o tipo de munições, mas isso aumenta-lhe o peso o que implica que têm de ter motores extremamente poderosos e gulosos, o que pode meter uma adicional preocupação logística numa nação que tenha poucos recursos. Para além disso, as pontes que o tanque irá usar provavelmente não aguentarão um tanque de 50 ou 60 toneladas, portanto alguns até têm de ser construídos de modo a atravessarem rios "a nado" em vez de se arriscarem numa ponte (usavam/usam uma espécie de máscara de mergulho, ou snorkel).

eis o que me parece ser um Tiger (PzKpfw VI) com um snorkel

 

Felizmente, como em tudo, existem fontes de informação convenientes para o leigo comum neste tipo de assuntos. O Museu de Tanques de Bovington tem um canal no Youtube chamado, muito apropriadamente, The Tank Museum, onde fazem vídeos sobre os variados tanques em exposição e os que estão em armazém, maioritariamente britânicos.

É possível aprender muito sobre história e psicologia com as experiências às vezes parvas que o pessoal na altura tinha. Digo psicologia porque muitos dos tanques apresentados vêm do desejo de indivíduos de meterem à força uma ideia qualquer em prática, mesmo que à partida pareça, à falta de melhor palavra, estúpida.

No entanto, uma das maiores atracções do museu não é um tanque, mas sim um humano. No canal do Youtube costuma aparecer um senhor já velhote chamado David Fletcher, e é especialista em duas coisas: tanques e comentários sarcásticos à britânica. Ele tem um aspecto desde já bastante característico (com um bigode que lhe tapa completamente a boca, o que lhe dá um ar bastante cómico), mas qualquer fã terá o maior respeito pelo senhor já que ele consegue manter-nos presos à história do tanque com o seu aspecto ligeiramente louco e o constante sardonismo.

Há quem o chame, e eu concordo, o David Attenborough dos tanques.

Eis o certamente afável David Fletcher, com um video exemplar da sua personalidade:

 

 

Voltemos ao início, o que é que num raio é que isto tem a ver com músicas grandes? Bom... nada. Ou não ainda.

No início dos anos 70, a época de ouro do rock progressivo/sinfónico os Uriah Heep lançaram o álbum Salisbury, cujo tema epónimo tem a duração de uns 16 minutos. Ora, Salisbury, tanto quanto sei, é o local na Inglaterra usado pelo exército para fazer exercícios e tal. Por alguma razão, a capa do álbum tem um tanque Chieftain em grande plano, rodeado de fumo. Contudo, a música em si não tem absolutamente nada a ver com nada disto, o que me deixa a perguntar que drogas teriam eles tomado quando tomaram essa decisão.

 

Eu por mim não me importo. Pelo menos deu-me um pretexto para falar de tanques! Confesso que é um sonho meu poder guiar um, só mesmo pela descarga de adrenalina e machismo que deve ser. É certo e sabido que todos os homens gostam de máquinas grandes, e quanto mais poluidoras melhor.

Eis então um outro vídeo do museu, a falar do tanque anteriormente referido, desta vez apresentado por David Willey:

 

E finalmente, para acabar, o épico tema Salisbury, dos Uriah Heep:

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publicado às 23:59


Bruno Ganz (1941-2019) e as paródias do Hitler

por Rei Bacalhau, em 16.02.19

Bruno quem? E quem é esse Hitler?

Se não conhecerem nenhum destes nomes vou assumir que vocês vivem num universo alternativo onde a Alemanha ganhou a primeira mundial.

Se conhecerem pelo menos o segundo, acho que poderão continuar a ler confortavelmente.

 

Em 2004 foi lançado o filme "A Queda" (Der Untergang no idioma original). É um filme histórico sobre as últimas horas da vida de Adolf Hitler, acocorado no seu bunker debaixo da chancelaria em Berlim, sob o fogo crescentemente intenso e ominoso dos soviéticos.

Há uma cena formidável e extremamente dramática no filme em que Hitler é informado de que um ataque por ele ordenado, que segundo ele salvaria Berlim, não pôde ser executado. O estúpido do General Felix Steiner decidiu, por estar numa desvantagem numérica meramente de 10 para 1, que o ataque ordenado não poderia ser concretizado.

Hitler, que não estava assim tão habituado a que as suas ordens não fossem rigidamente desobedecidas, passou-se e começou a barafustar com toda a gente, num desempenho absolutamente verosímil por parte de Bruno Ganz, o actor que o interpretou.

(liguem as legendas no leitor do Youtube)

O Youtube ainda não existia, mas a partir do momento em que o pessoal percebeu que poderia editar vídeos e colocar novas... digamos "perspectivas" sobre algum conteúdo original, começaram a aparecer vídeos a gozar com esta cena em específico, tanto pelo dramatismo quase exagerado da cena como pelo facto de ser falada em alemão, que é uma língua que ninguém percebe.

Nasceram assim as paródias do Hitler, em que gente com muito tempo nas mãos pegou nalgumas cenas do filme e adicionaram legendas parvas consoante a actualidade ou sobre outra coisa qualquer.

Para perceberem o conceito, eis um vídeo em que o Hitler descobre que foi banido da sua conta da XBox:

 

Também há em português:

 

E há outras cenas no filme com as quais se podem gozar:

 

Existem centenas destes vídeos, e há inclusivamente canais totalmente dedicados a fazer paródias novas, num esforço algo desnecessário de manter a piada viva.

 

Infelizmente, soube hoje da notícia do falecimento de Bruno Ganz, com 77 anos, um actor que dá vida à terrível personagem histórica que foi o Hitler (mas este gostava de animais pelo menos; costumo dizer que ele hoje seria do PAN, tanto que eu agora chamo-lhes Pessoas Animais e Nazis).

Não sei até que ponto é que ele percebia ser o foco desta piada, mas de certa maneira é um elogio à sua capacidade dramática, pois um desempenho de outro qualquer talvez não tivesse marcado um impacto tão grande ao ponto de pessoas de 15 anos começarem a fazer filmes com legendas parvas na Internet.

Aufwiedersehen, Bruno, e obrigado.

 

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publicado às 19:41


It's Only Love Doing Its Thing

por Rei Bacalhau, em 10.02.19

Ah sim... o Amor.

 

Estive a verificar e há já muito muito tempo que não escrevo aqui sobre este assunto, do Amor. Neste caso o conjugal ou de teor romântico. Aquele mais relevante na época do dia dos Namorados. Justifico a omissão consciente deste assunto pelo meu crescente compromisso interno de não escrever sobre coisas sobre as quais não sei nada ou muito pouco.

No entanto... estive a pensar.

Não será que a minha distância do assunto me permitiria falar pelo menos um bocadinho sobre Amor? A verdade é que um mero observador consegue mesmo assim aprender muito através da grande quantidade de experiências alheias a que está exposto no dia-a-dia. E não estou a falar de observação de comédias românticas de Hollywood ou novelas de argumento medíocre da TVI. Estou sim a falar de experiências reais e humanas que noto imparcialmente nas vidas dos outros.

Desde o simples e nervoso agarrar de mãos de um casal recente de adolescentes à discussão mesquinha entre um casal mais experiente sobre o correcto funcionamento do rádio do carro, percebo que todas as interacções de Amor circulam à volta da (re)descoberta, compreensão e adaptação de um dos cônjuges às parvoíces e idiossincrasias do outro. Bem vistas as coisas, determino que a meu ver é tão simples quanto isso. Suponho que no nosso processo de selecção uma das perguntas subconscientes que nos fazemos é "aprecio suficientemente as qualidades desta pessoa ao ponto de tolerar esta ou aqueloutra mania particularmente irritante dele/dela?", e enquanto a resposta for "sim", a coisa vai andando.

Claro que as qualidades de uma pessoa variarão conforme a percepção de observadores diferentes, e por isso é que parece haver pessoas santas que aguentam com alguém que supostamente deveria ser uma peste e surgem as perguntas no meio de mexericos tais como "não percebo o que é que ele/ela vê naquela pessoa".

"Uau, surpresa, o ser humano é subjectivo e invariavelmente parvo e tal. Grande descoberta.", pensais vós, com alguma razão.

Em minha defesa perante tais factos absurdamente óbvios como os que descrevi acima, devo dizer que estou só a escrever isto como exercício mental. No fundo sei que já quase toda a gente chegou à mesma conclusão, mas gosto de pensar que um dia, um jovem ingénuo encontrará este texto específico e aprenderá com ele uma grande lição e já estará mais bem preparado para quando a altura certa vier não mandar vir tanto com a sua cara metade por causa do rádio. Tudo bem que ela não perceba peva daquilo, mas talvez ela a mexer deseperadamente com os botões a tentar sintonizar a porcaria da M80 seja até divertido para nós, mesmo que ligeiramente irritante (já que o rádio está em modo USB, mas de nada vale tentar explicar isso).

Isso sim é Amor! Obter prazer das pequenas parvoíces e, mais dificilmente, dos grandes defeitos. Saber que mais ninguém no mundo aguentaria aquela pessoa num contexto do dia-a-dia, e vice-versa.

Saber que ambos se pertencem e se completam.

E sim, nisto até estou a incluir as pessoas que levam porrada dos cônjuges. É triste, mas também conta para o que quero dizer. Mas não nos lembremos disso.

 

Resumindo e concluindo, como o grande filósofo uma vez disse: "não sou esperto, mas sei o que é o Amor".

 

Ou pelo menos acho que sim. Mesmo que não saiba, foi engraçado escrever isto, para variar um bocadinho.

 

Aflige-me pensar que existam pessoas por aí a tentar celebrar o dia dos Namorados sem uma banda sonora adequada. Digo que me aflige porque a arte de se fazer uma boa música de amor é algo que se tem vindo a perder (diz o gajo que não ouve música conteporânea e não pode consequentemente ter base argumentantiva para fazer tal afirmação). Apesar de não poder dizer que exista uma fórmula explícita para se conseguir compor um bom tema romântico, identifiquei assim de cabeça dois factores que podem contribuir:

  1. uma boa letra;
  2. Barry White.

Hoje vou escolher a segunda opção. Eis o mestre, a Morsa do Amor, Barry White, com o tema It's Only Love Doing Its Thing, até porque dizem que a natalidade está em baixo. Marcelo, podes telefonar daqui a nove meses a agradecer.

 

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publicado às 01:00


American Pie

por Rei Bacalhau, em 03.02.19

Fez hoje 60 anos que morreu o Buddy Holly num acidente de aviação. Quer dizer, morreram outros dois músicos e ainda outras pessoas, mas o Buddy Holly é que interessava, porque era a super-estrela do momento.

Pessoalmente, o estilo musical do homem não é bem a minha cena, e só há uns anos é que percebi porque é que ele era tão importante. Não é que ele fosse um músico por aí além (ele morreu com 22 anos, o que não é tempo suficiente para se ser bom em seja o que for), mas os especialistas dizem que ele colocou as primeiras lajes sobre as quais a geração contemporânea pôde construir imediatamente a seguir uma nova direcção musical.

Para poucos a morte do Buddy Holly terá sido tão marcante como para um rapaz dos seus 15 anos, chamado Don McLean, que seria provavelmente um fã tão grande como qualquer outro do falecido artista.

Este rapaz foi crescendo e ao longo da década de 60 foi vendo e aprendendo as mudanças na indústria e nos artistas que a compunham, tanto para o melhor como o pior. Em 1971, provavelmente frustrado ao ver o que a música se havia tornado ao longo do tempo, de algo puro e entretenedor para algo globalmente e brutalmente comercial e activista, escreveu a sua magnum opus, American Pie, cheia de metáforas, eufemismos e simbolismos, imortalizando o dia de hoje como o dia em que a música morreu (há 60 anos).

Repito, não é que o Buddy Holly fosse um artista por aí além, mas o impacto que a morte dele teve permitiu uma geração inteira ir em direcções semelhantes e permitiu a uma só pessoa escrever uma epopeia que implicou que ele nunca mais teria de trabalhar na vida se quisesse, como o próprio Don McLean afirmou.

 

É das músicas a que faço mais referência neste blog por ter um tamanho simbolismo e relevância para mim, por achar que eu também penso que o melhor da Música já passou, apesar ser um pensamento completamente errado. Uma falsa perda de inocência, ou pelo menos mais falsa do que a música invoca.

 

Mais uma vez, Don McLean, com American Pie:

 

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publicado às 23:45


Um adeus à senhora de negro

por Rei Bacalhau, em 01.02.19

Suponho que não posso adiar mais este texto.

Eu e a Morte temos uma espécie de acordo. Se Ela me der tempo para me despedir de um ente querido não ficarei zangado com Ela. É só isso que peço.

 

A minha cadela morreu no passado Domingo depois de 14 anos de companheirismo. Sendo de porte relativamente grande, fomos abençoados pela longevidade vitalícia dela.

Não vou ser ingénuo ao ponto de pensar que sou o único que sofre com a morte de um elemento canídeo da família. Facilmente encontro muitos que concordariam comigo que os animais de estimação são uma parte integrante da família, do domícilio e da rotina diária banal. E no entanto todos pensamos "não, mas a minha era especial". 

Contudo, é difícil classificar um cão em termos de parentesco connosco. A minha cadela começou por ser a minha irmã mais nova, para depois ser simplesmente a minha irmã, para acabar sendo a minha irmã mais velha. E no entanto, mais do que uma irmã, era a minha companheira, aquela com quem realmente partilhava tudo, mesmo que não lhe dissesse por palavras.

Ela era sobretudo uma cadela de guarda, mas não guardava apenas o seu território físico, mas também o familiar. Ao longo dos tempos ela foi absorvendo a personalidade dos seus familiares e em muitos aspectos era fria e pouco dada a afectos, como quase todos cá em casa, mas ela sabia moderar a sua frieza quando realmente precisávamos.

Ela chegou-nos numa noite de Janeiro de 2005, com 2 meses de idade, feita peluche preta hiperactiva. Ela conheceu a família toda (mais numerosa na altura) nesse mesmo dia e ainda me lembro das primeiras noites de ganidos e frustrações devido ao ambiente novo em que se encontrava. Alguns de nós afeiçoaram-se mais rapidamente a ela e ela por sua vez afeiçoou-se mais imediatamente a certos elementos da família. No entanto, todos contribuiram para o esforço colectivo que era educar um bebé. 

Ela rapidamente aprendeu a identificar ameaças na rua e criou muito rapidamente o espírito de defesa que nem precisámos de lhe incutir, pois os transeuntes tratavam de a provocar. Felizmente, ao longo da sua vida ela só mordeu duas pessoas estranhas, que o mereceram.

 

Os primeiros anos da vida dela coincidiram com os meus piores e chegava muitas vezes consistentemente derrotado e humilhado a casa ansiando brincar com ela para espairecer e evitar ter de pensar no dia seguinte. Essa ajuda nunca lhe poderei repagar, mesmo que ela não o fizesse conscientemente.

Ela sempre foi leal, obediente e brutalmente inteligente. Nunca lhe ensinei truques, mas ela aprendeu naturalmente a ler a nossa linguagem corporal para perceber o que queríamos. Raramente a obriguei a ser obediente. Ela parecia perceber que existem certas alturas em que é melhor fazer o que pedíamos, mas num estado de brincadeira raramente devolvia a bola, por saber que aquele "dá a bola!" era uma ordem que ela poderia ludicamente ignorar. Para o final da sua vida, um simples gesto de cabeça era o necessário para ela vir ter connosco (o que deu jeito, já que ela ficou completamente surda nos últimos meses).

 

Apesar da sua longevidade aparente, ela não esteve livre de maleitas ao longo da sua vida. Tinha um sistema digestivo sensível e não se lhe podia dar de tudo, senão era certo e sabido que haveria consequências de uma ponta ou doutra do tracto gastrointestinal. Apesar disto era impossível impedir que alguém lhe desse coisas que ela não deveria comer, portanto as consequências referidas foram uma constante ao longo da sua vida. Fora disto, foi bastante saudável.

Excepto nos anos finais.

Ela não teve nenhuma doença terminal, mas a velhice implica que várias coisas nos cães começam a funcionar menos bem. A primeira maleita foram as artroses, que combatemos esporadicamente com comprimidos que continham... colagénio? Acho que é assim que se chama. Eu fui sempre horrível com termos médicos. Como eu sempre tive confiança absoluta na veterinária que a acompanhou a vida toda, bastava que me dissessem "dá este comprimido X vezes ao dia" e eu dava.

Depois foram as orelhas, que foram atacadas por uma bactéria qualquer que criava imensa porcaria e pus nos ouvidos, que tinham de ser limpos às vezes todos os dias. Ela queixava-se sempre e gania mesmo com todo o jeitinho que eu fizesse, mas nunca se acorbadava de ser tratada. Ela não gostava, mas certamente compreendia o objectivo daquele estranho ritual.

Concorrentemente, teve um problema de pele, algo como "malassezia" ou lá o que era. Chegou a perder todo o pêlo na barriga, apesar dos nossos esforços com cremes e toalhitas especiais para tratar aquilo. Acabámos por aniquilar o problema com algo bem mais simples, uns suplementos com ómegas ou algo do género que rapidamente reforçaram as defesas dela. Não imaginam a minha felicidade quando o pêlo recomeçou a crescer, apesar de ter ressurgido quase completamente branco (o que até lhe deu um certo charme). Oficialmente foram os cremes aplicados por outro familiar sem aprovação veterinária que a curaram, apesar de eu saber que não foi esse o caso, mas não me importam os louros de quem a curou. Apenas interessa que ela tenha ficado bem.

A certa altura ela pesou 38 quilos, o que lhe colocava maior pressão nas artroses. Determinou-se que a tiróide estava descompensada e começou-se a medicar isso também. Ela não poderia ser da nossa família se não tivesse problemas de tiróide.

Ela emagreceu.

Ao longo dos tempos vi que ela estava a perder forças nas patas de trás. Comecei, depois de tanto tempo, a passeá-la para ver se conseguia contra-atacar a atrofiação dos músculos.

 

Foi por volta desta altura, no início de 2018, que me comecei a despedir dela.

Eu sabia que ela já não poderia resistir muito mais. Os problemas continuavam a aparecer e apesar de ela não parecer estar em dor eu sabia que era apenas uma questão de tempo.

E então fui-me despedindo dela, aproveitando todas as alturas para a encher de festas, beijinhos e abraços (ela ficou fã destes últimos, especialmente no frio do Inverno). Tentei não a incomodar muito e não ralhar muito com ela se fizesse algum disparate. Fui fazendo preparativos mentais para quando ela partisse, pensando na melhor maneira de agir para minimizar a dor do resto da família.

 

Na sexta-feira passada ela atacou os restos descongelados de um perú de Natal que estavam no lixo. Ela comeu tanto que fiquei à espera o dia todo que as "consequências" gástricas ou intestinais viessem.

Não vieram.

A barriga dela fazia todo o tipo de barulhos quase humorísticos e fui-lhe dizendo "bem feita que é para aprenderes". No entanto, no final do dia é dado o alarme. O terraço tem várias gotas de sangue espalhadas por ali. Chegando ao local, é evidente que as gotas vieram da boca e confirmo isto quando a inspecciono. Não vejo feridas óbvias na boca, portanto assumi que o sangue viria de outro lado. A suspeita maior é que algum osso mais pequeno de perú tenha perfurado alguma coisa lá dentro.

Seguimos de urgência para a clínica veterinária, desrespeitando alguns semáforos. A médica não detecta nada de anormal à superfície e àquela hora tenho de ser eu a auxiliar a médica a tirar um raio-X. Visto uma bata estranha e levo gentilmente a minha pequena para a sala onde está a máquina. É preciso reposicioná-la, e apesar de ela naquele momento estar pouco colaborativa, faço o possível para a virar. Ao fazer, ela faz-me algo que nunca fez na sua vida.

Mordeu-me.

Sem gravidade e não me impediu de continuar. Compreendi que foi por reflexo portanto perdoei-a imediatamente. Depois de muitas festinhas, ela ficou menos ofegante, relaxou e tirámos o raio-X. O estômago ainda estava cheio de comida, mas nada indicava uma perforação ou algo de horrível. Para confirmar com uma ecografia fizemos uma pequena tournée pelos hospitais veterinários das redondezas. Esperámos algum tempo e finalmente entrei na sala com ela para ser tosquiada para a ecografia. Eu normalmente confio nela ao ponto de não a agarrar quando estou com pessoal veterinário, mas este descuido causou que ela mordesse umas das assistentes que a tosquiava. Também sem muita gravidade, mas pela primeira vez na vida dela (foi uma noite de estreias) tive de lhe pôr um açaime.

A ecografia acabou por não acusar nada. Viu-se umas massas que lá não deviam estar, algo a ver com super renais ou algo do género, mas nada de imediatamente preocupante, e certamente nada que causasse o sangramento alarmante de há pouco, que entretanto não voltou a ocorrer.

Fomos para casa num misto de preocupação e alívio.

No dia seguinte parecia tudo normal, ou pelo menos com nada de novo. A barriga dela ainda fazia barulhos, mas tinha feito xixi e cocó, portanto assumimos que o pior tinha passado. Estivemos o dia todo fora, mas deixámo-la em boas mãos. Começou-se um tratamento para limpar toda a porcaria lá dentro dela. Quando voltámos seguimos as instruções que nos foram deixadas e fomos dormir.

No dia seguinte ela não se conseguia levantar. Recusava-se a fazê-lo. Não era por fraqueza nas patas, mas provavelmente por algum tipo de dor ou desconforto interno e por esta altura provavelmente intestinal. Recomendei que a deixássemos estar e demos-lhe água através de uma seringa.

Sendo Domingo, estávamos a preparar-nos para começar o dia reservado para operações domésticas de limpeza. De repente ouço o "tic-tic-tic" que reconheceria a quilómetros de distância como sendo os passos dela. Ela levantou-se, subiu as escadas para o terraço e foi beber água por si só, e manteve-se ali um bocadinho. Rejubilámos. Ainda assim, pedimos-lhe que voltasse para a garagem onde ela costuma estar para que descansasse. Ela desceu as escadas com algum esforço, mas aquiesceu. Deitou-se e voltou a não querer levantar-se. "Deixem-na estar", repeti, e continuámos o nosso dia.

Ao limparmos a casota exterior dela, encontrámos os restos de uma colher de pau, desfeita como se tivesse sido devorada. Depois de uma indagações e reflexões, chegámos à conclusão que o sangue do outro dia deveria ter a ver com uma farpa da colher de pau e não estava relacionado com o desastre gástrico, o que explicaria porque é que só ao final do dia é que ele teria sangrado. Ela atacou a colher de pau por essa altura, certamente (tinha sido usada para cozinhar).

Mais aliviados, sabendo que provavelmente não existiria uma hemorragia interna ou algo do género, o resto do Domingo correu normalmente. Ela levantou-se e andou pouco de um lado para o outro, até se deitar na sua cama. Tapámo-la com a sua mantinha quente, metemos-lhe uma botija de água morna em cima da barriga para reduzir o desconforto, demos-lhe de comer e deixámo-la a dormir.

Por volta das 18 decidi ir lanchar. Abri a porta da garagem por instinto e por hábito para ver se estava tudo bem.

Mal entrei na garagem senti algo. Uma falta de alguma coisa. Olhei para ela. Tinha a boca aberta e descaída. Compreendi imediatamente. Aproximei-me e activei o modo frio para o qual me tinha preparado. Verifiquei a pulsação e a temperatura para confirmar. A barriga ainda estava relativamente quente. Teria morrido há cerca de meia hora.

Permiti-me um minuto final com ela.

Fechei-lhe a boca e tentei fechar-lhe os olhos, mas estava numa posição que não o permitia bem. Respiro fundo e vou espalhar a notícia, pessoa a pessoa. Tentei ser o mais pragmático possível, mas as minhas mãos tremiam quando tentei ligar a várias pessoas da família para lhe virem dar um mimo final. Não me permiti chorar, pois já o tinha feito ao longo do ano.

Reservei-me o direito de a preparar e limpar. Uma última demonstração de amor.

Apanhei as fezes que consegui e retirei-a da cama, que estava toda urinada. Pedi que fossem levar o colchão para o lixo. Limpei-lhe o rabo e o pêlo o melhor que pude e coloquei-a em posição vertical para tentar evacuar mais alguns resíduos (e isto é particularmente difícil numa cadela de 30 quilos com o qual ainda queremos ter cuidado). Uso alguns rolos de papel a fazer isto. Quando satisfeito, peguei num pedaço de papel, dobrei-o e coloquei-o no ânus para tentar impedir mais fezes de saírem durante a noite. Fomos buscar um outro colchão dela e colocámo-la de volta na sua cama. Prendi a boca com um elástico e fechei-lhe definitivamente os olhos. Tapei-a completamente.

Já nada podia fazer por ela. Agora era altura de tratar do resto da minha família.

 

 

No dia seguinte levantei-me e tomei calmamente o pequeno-almoço. Mais uma vez reservei para mim o dever de a levar para ser cremada. O meu carro estava mesmo ao lado dela, o que facilitaria a colocação dela lá dentro, para além do rigor mortis que já se tinha instalado há muito. Não reparei no entanto que durante a noite um líquido avermelhado lhe tinha escorrido da boca. O líquido ficou-me no casaco e cheirava a morte. Limpei-o o melhor que pude e coloquei uns papéis debaixo do focinho dela no meu carro. 

Iniciei então a viagem, com ela deitadinha como de costume. Se bem que às vezes ela ia sentada à janela. Quando era mais nova ela gostava até de pôr a cabeça de fora.

Liguei o rádio que tem uma pen com as minhas músicas. Só me lembro de ouvir a Heartbreaker dos Bee Gees. 

 

Cheguei à clínica. Só tenho sorte real com uma coisa na vida, e é a arranjar lugar para estacionar. Tinha um lugar mesmo em frente, à minha espera. Bati à porta. Vem a assistente porque a médica não está. Ela acabou de saber pela médica ao telefone que a minha pequena tinha partido e deve ter sido estranho ver-me a chegar imediatamente a seguir.

O consenso geral era que queríamos uma cremação individual. O senhor que trata dessas coisas viria buscá-la ainda naquela manhã. Transportei a minha cadela para a mesma marquesa onde lhe tinha feito um raio-X há menos de três dias. Pousei-a e desta vez ela não me mordeu.

 

 

 

Fiz-lhe uma festa final.

 

 

 

Ainda nos perguntaram se precisariamos de autópsia, mas rejeitei por iniciativa própria a proposta. Morreu de velhice, feliz, aconchegada e quentinha. Provavelmente a dormir. Uma morte invejável.

Voltei para casa e pus as mãos à obra. Deixei o carro com as janelas abertas para sair o cheiro. Mudei de roupa e mandei a que estava suja para lavar. Limpei o estofo do carro com uma escova. Comecei a coleccionar todos os objectos dela e a juntá-los num só sítio: comida, malgas, roupas, brinquedos, medicamentos, trelas, camas, etc.. Procurei por todo o lado e encontrei até coisas de quando ela era miúda. Objectos que andavam por ali há 13 ou 14 anos.

Desmontei a casota dela, desaparafusando os parafusos enferrujados. Coloquei estes objectos maiores num sítio escondido, pelo menos por agora. Limpei várias vezes a garagem, mas o cheiro dela e os pêlos ainda estavam um pouco por todo o lado.

Arrumei papéis e arranquei todos os indícios da existência dela na nossa casa

 

 

Se um objecto desaparecer de repente de um sítio, o ar à volta toma o seu lugar imediatamente. E isso aconteceu também com os objectos dela. Mas existe uma outra substância ali à volta, muito viscosa, que demora muito tempo a preencher o vácuo. A minha casa tem agora vários locais que estão muito lentamente a ser preenchidos por essa substância inominável. É como se tirássemos um retrato da parede para nos esquecermos de alguém, mas fica lá sempre a marca da sua presença, mesmo que a parede estivesse limpa.

Ao passar pela garagem ainda tenho o instinto de abrir a porta para lhe desejar boa noite ou para lhe dar os comprimidos da tiróide, das artroses e dos ómegas.

Ao chegar a casa ainda olho para o sítio onde ela ficava de guarda para ver se ela está lá a dormir.

Ontem entrei na garagem e vi uma mancha negra no chão, e assustei-me. Era um guarda-chuva.

Depois de lanchar abro o frigorífico sem me lembrar porquê, apercebendo-me que estaria à procura da lata da comida dela para lhe dar de comer.

Ainda tenho o reflexo de fechar as portas para ela não ir à cozinha.

 

Não estou triste. Ou não bem. Eu estava preparado. Prometi a mim próprio que não choraria a morte dela quando a altura viesse, e posso dizer que estou a cumpri-lo. Talvez um dia a chore, talvez não.

Sei que fiz tudo o que podia por ela e se alguma vez me considerei responsável por alguém, terá sido por ela.

Ainda não sabemos o que vamos fazer com as cinzas dela. Eu gostaria de plantar uma árvore com elas, mas tenho de respeitar os desejos emotivos da minha família também.

 

Um adeus à senhora de negro, que fez a minha vida mais brilhante.

 

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Fade To Black

por Rei Bacalhau, em 27.01.19

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Under The Blade

por Rei Bacalhau, em 13.01.19

Acho que a única altura em que falei dos Twisted Sister por aqui terá sido pela altura do Natal, tendo em conta o excelente álbum heavy metal de músicas de Natal que eles fizeram.

No entanto, supus recentemente que se calhar eles mereciam que eu os ouvisse adequadamente e foi precisamente isso que fiz.

Uma música que me chamou a atenção chama-se Under the Blade e discute o medo de operações cirúrgicas. Esta música entretanto deu que falar porque certas pessoas "importantes" (nomeadamente a mulher do Al Gore) interpretaram a letra da música como relatando algum tipo de actividade sado-masoquista, e isso era chocante e tal.

Não consigo imaginar o que aconteceria se a mesma senhora ouvisse uma música do Quim Barreiros.

 

Tentando então desviar-me um bocadinho das músicas mais universalmente conhecidas deles, eis Under The Blade, dos Twisted Sister:

 

https://youtu.be/h99GieQqhUU (o editor dos Blogs do Sapo está a armar-se em parvo e não me deixa meter aqui o vídeo; depois corrigirei quando ele me deixar)

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I Ran

por Rei Bacalhau, em 06.01.19

Apesar de a apelidada música dos anos 80 não ser bem a minha cena, já que prefiro a década anterior a essa, há uns tempos o Youtube decidiu sugerir-me um vídeo recente da banda Flock of Seagulls, cujo única música realmente conhecida é a I Ran (So Far Away):

 

 

Escusado será dizer que a qualidade do videoclipe deixa algo a desejar, mas temos de ter em conta que naquela altura os orçamentos para a produção de um videoclipe de música ainda não rivalizava com o PIB de um pequeno país africano. De certa forma existe um certo charme em conseguirmos ver a câmara de filmar reflectida nos painéis de fundo.

O tema será conhecido por vários motivos por gente diferente: há o grupo de pessoas que a conhece porque simplesmente viveu na década de 80 (que tecnicamente é o meu caso, mas não de forma consciente, diria eu); existem as pessoas que talvez a tenham ouvido na M80 quando esta ainda passava músicas desta época e finalmente existem os totós que a conhecem por terem jogado Grand Theft Auto (GTA): Vice City (o videojogo tinha variadas estações de rádio e uma delas andava à volta do new wave e tal).

É evidente que eu era um desses totós.

 

 

Voltemos ao início: estava então a dizer que o Youtube sugeriu-me um vídeo recente desta banda. O vídeo consiste nos quatro membros originais da banda reunidos de novo para ensinar as massas em como tocar correctamente a música de princípio ao fim. Naturalmente, o que me impressionou é que nos anos 80 ainda existiam artistas que realmente tocavam instrumentos e conseguiam com eles fazer efeitos manhosos e especiais que tipicamente associamos à electrónica. O tal vídeo diz, por exemplo, que o guitarrista usou (e usa) um penny inglês em vez de uma palheta normal, talvez para dar um som mais xpto, mas disso percebo pouco, portanto não sei.

E daí, se calhar estou a ser injusto, porque há outras bandas que caracterizaram os anos 80 que realmente sabiam tocar música. Vêm-me à cabeça os Toto, que aprecio bastante. Se calhar por ser totó, como referi.

Ainda sobre os Flock of Seagulls, estive a dar um espreitadela entretanto à discografia deles e vejo ali algumas possíveis influências da era do rock espacial, tanto liricamente como instrumentalmente (estou a pensar principalmente em Pink Floyd, obviamente, mas houve outros artistas que tiveram um ou outro tema nessa direcção... David Bowey, os Queen, os Uriah Heep, a malta do rock progressivo em geral, etc.). Bem vistas as coisas, se calhar até merecem um bocadinho de respeito, mesmo que não tenha ficado particularmente impressionado com as músicas deles (não se tem de gostar de tudo, não é verdade?).

 

Eis então, A Flock of Seagulls, já gordos, flácidos e no geral "veteranos", com I Ran (So Far Away):

 

 

P.S.: pontos bónus: o nome da banda foi aparentemente parcialmente influenciado pelo Fernão Capelo Gaivota.

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A New Day Yesterday

por Rei Bacalhau, em 30.12.18

No final do ano passado desafiei-me a reformar-me, não no sentido de deixar de trabalhar (ainda me faltam uns anos para isso, mas os brancos já aí estão), mas no sentido de me refazer como pessoa e tentar melhorar-me segundo alguns princípios e directrizes maioritariamente arbitrários.

 

A que conclusão cheguei, então? Que balanço faço da Grande Reforma?

 

Bom, para já relato que consegui atingir alguns pontos, mas no fundo não tive pachorra para cumprir o que me propus religiosamente. Inicialmente tentei várias coisas diferentes, mas muitas vezes parecia-me não estar a tirar prazer delas, ou não tanto como eu pensava que deveria. No entanto, adaptei-me  e tentei outras coisas (que devem permanecer ainda segredo, peço desculpa) e finalmente estava a fazer algo de produtivo com o meu tempo. Não era o que eu tinha em mente há um ano, mas deu para me melhorar como pessoa, e isso foi-me suficiente.

Contudo, apesar do tom relativamente pessimista acima, devo dizer que considero a minha Reforma um sucesso, pelo menos conceptualmente, se bem que não totalmente por mérito meu.

 

Aprendi muito sobre mim, e foi esse o meu sucesso. Sim, ainda não sei cozinhar, ou andar de bicicleta, ou validar a porcaria das facturas online, mas através de vários eventos que ocorreram nos últimos trezentos e tal dias passei a conhecer-me e a compreender-me muito mais bem, e isso é algo bem mais valioso do que saber cozer vegetais ou lá o que é.

 

Suponho que a grande razão pela qual eu achei necessidade de me tentar reformar foi a que eu sentia um certo "vazio", que, apesar de ser uma expressão dramática que perdeu o seu significado através da sua utilização excessiva em conteúdos culturais, caracterizava convenientemente o que eu sentia desde há muito tempo.

 

"Vazio."

 

E no entanto, aparentemente não deveria ter razão para isso. Tenho família, tenho amigos, tenho saúde, tenho estabilidade relativa na minha vida e sempre tive. Que mais posso pedir?

Estaria à procura de realização profissional? Acho que não. Felizmente sempre me dei ao luxo de procurar e arranjar o emprego que quero mesmo que as condições monetárias não fossem as melhores. Outrossim, sobrevivo com pouco dinheiro, portanto não preciso de um emprego que pague extremamente bem para me sentir realizado. Não seria isso que me preencheria o vazio.

Ah, já sei, estaria à procura de uma companheira, talvez? Alguém a quem pudesse pedir um belo de um cafuné depois de um dia longo? Acho que não. Quer dizer, há uns anos teria pensado nisso seriamente, mas creio que quando me propus fazer a Reforma não tinha isso em mente. Sempre fui um bocado cínico em assuntos românticos, com excepção de uma ou outra vez em que fui devidamente mordido por um bicho qualquer e me esqueci do meu celibato deliberado. Nunca tendo tido uma, sei no entanto que uma relação com outrem é extremamente difícil de manter e já há muito que me convenci não deveria ser algo a almejar, sob risco de dar em doido. Seja como for, uma companheira, seja em que termos for, é apenas mais uma pessoa no nosso círculo pessoal. Não seria certamente ela a preencher o vazio.

Restam poucas alternativas. Tenho tudo o que quero e não tenho aquilo que não preciso. Então não deveria haver vazio! Mas havia. É um paradoxo estranho, o que quer dizer que o problema estava em mim. Era EU o problema, intrinsecamente. Era EU que tinha de mudar. Mas é evidente! Eu nunca gostei de mim, portanto tenho de me melhorar e descobrir coisas novas para fazer para aprender a gostar de mim próprio.

Foi mais ou menos daqui que deve ter nascido o desejo de uma Reforma pessoal. Eu nunca tive estes pensamentos explicitamente, mas deviam andar pela minha cabeça confusa subconscientemente.

 

Contudo, e estranhamente, sempre que ao longo deste ano me tentei melhorar sentia que algo não estava certo. Que estava a investir energias e esforços incorrectamente.

 

Ora bem, posso afirmar que depois de um ano continuo a não gostar de mim próprio. Repudio-me ainda com todas as minhas forças e detestar-me-ei para todo o sempre. Calma! Eu percebo que possa parecer uma adolescente deprimida, mas na verdade estou contente em odiar-me. É uma coisa boa! Porque agora posso finalmente admiti-lo perante mim próprio e tirar este peso de cima de mim que me sobrecarrega há décadas. Não faz mal que eu não goste de mim próprio, pois posso transformar o que durante tanto tempo foi energia negativa em algo positivo, e felizmente este ano foi-me dada a oportunidade perfeita de melhorar a vida de outros directamente através do meu tempo e esforço.

 

Como um ou outro texto poderão ter dado a entender, estou agora a dar aulas na instituição que me formou e posso agora usar todo o meu ser a preparar miúdos e graúdos para que evitem certas ingenuidades da minha área profissional. Era o que eu precisava. Já não me sinto vazio. Antes pelo contrário: não tenho mãos a medir com tanta coisa que tenho de fazer, não para o meu melhoramento, mas para o dos outros.

E suponho que no fundo... isso também me melhora? Não sei.

Sei que pela primeira vez em muito tempo me aproximo do que posso considerar felicidade pessoal. Sim, com altos e baixos, certamente, como sempre, mas com uma base onde me possa agarrar quando tropeço.

 

Dou a Reforma por terminada. Ela deu-me exactamente o que eu queria. Como eu disse, não tive total mérito na "sorte" que tive, mas pelo menos estava com a mente aberta para a lição que ia aprender e que tentei explicar aqui. Dito isso, ainda há muitas coisas que tenho de fazer e que efectivamente gostaria de aprender, mas agora tenho o estado de espírito para que um dia, quando for propício, possa finalmente cozinhar e essas tretas todas. Vou tentar aproveitar o simbolismo das passagens de ano vindouras para me relembrar que ainda tenho de aprender a fazer X ou Y.

 

Falando nisso, vamos à música. Hoje escolhi um tema do início da carreira dos Jethro Tull que tem um título bastante adequado a este texto e a esta altura (apesar de a letra não ter nada a ver, mas quem é que liga a isso, não é verdade?). Se a certa altura o Ian Anderson não começasse a soprar a flauta dele, quase que pensaria que estava a ouvir uma música perdida dos Black Sabbath (falando em termos instrumentais). Suponho que não é de estranhar a semelhança, já que em 1969 as duas bandas tinham estilos muito semelhantes, só divergindo nos anos seguintes.

 

A New Day Yesterday, dos Jethro Tull:

 

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Merry Christmas Everybody

por Rei Bacalhau, em 23.12.18

Sabem, eu costumava "ser contra" o Natal, até quando era católico. Ficava sempre trombudo, por variadas razões (e tipicamente de ano para ano havia sempre uma diferente). No textos que estiverem a ler por estas alturas noutros sítios, se alguém listar uma razão pela qual o Natal é a pior altura do ano podereis apostar que eu próprio já terei pensado assim.

É certo e sabido que tenho tentado terminar a transformação do meu coração para pedra ao longo dos anos, mas parece-me que quando finalmente enrijeço uma parte que me tem andado a chatear, outra parte já solidificada ter-se-á tornado mole outra vez. Não pareço ter os recursos internos suficientes para completar a tarefa de uma vez por todas. Se calhar tenho de começar a tomar suplementos de sais minerais.

Desta vez, sem eu reparar, foi o espírito natalício que se soltou e até tenho adquirido prazer em observar e em fazer vários temas e assuntos desta quadra. Nesse aspecto estou contente que o Natal tenha uma parte não religiosa para que nós meros pagões hereges e blasfemos também possamos entrar no espírito e partilhar todos os sentimentos dignos da época.

Dou por mim a desejar as boas festas e os felizes natais a toda a gente com sincera satisfação. Dou por mim a assobiar melodias de Natal sem querer. Pela primeira vez na vida comprei uma prenda a alguém! 

Aquela última afirmação poderá elucidar-vos sobre a peste que eu era nesta altura antigamente.

 

Da minha parte, para aproveitar este surto de boa disposição, farei o possível para fazer este Natal o mais suportável (ou mesmo agradável) possível para os meus.

 

É não ironicamente então que partilho a música dos Slade, Merry Christmas Everybody:

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