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How Does It Feel

por Rei Bacalhau, em 27.05.18

Há alguns anos atrás escrevi um texto ao qual eu gostaria de fazer alusão. No entanto, é um texto que é prévio à criação deste blog e está consequentemente perdido, sendo-me impossível lembrar-me do que escrevi lá.

Sei, contudo, que fiz uma pergunta a mim próprio, na altura com uma música a acompanhar.

Basicamente, perguntei ao "eu" futuro, agora o "eu" presente, como me sentia tantos anos depois. A construção frásica é estranha, mas creio que compreendem o conceito.

 

Como me sinto? No fundo, sou quase a mesma pessoa, tanto a nível mental como a nível físico. Tive alguns progressos académicos e profissionais, apesar de toda a gente que eu conheço detestar o emprego que eu tenho e de eu detestar o emprego que toda a gente queria que eu tivesse. Nisso, acho que o "eu" passado teria ficado contente, por não ter sido corrompido pelas maquiavélicas mentiras das empresas de consultoria.

 

A nível pessoal, o "eu" passado ficaria de rastos ao saber do percurso que a nossa vida tomou para me levar a decidir tornar num mal-afamado lobo solitário. Apesar do tom melodramático da expressão fazer com as pessoas não a levem a sério (e é evidente que eu não me classifico publicamente como tal), a aparente submissão a este estilo de vida levou a que me tornasse muito mais despreocupado no meu dia-a-dia, por saber que já não tenho de impressionar ninguém e que há certos eventos sociais que posso escolher não fazer porque as pessoas já sabem que "ele é simplesmente assim".

Adicionalmente, com a actual implementação da Reforma, estou lentamente a habituar-me a ser e a existir sozinho, se bem que ainda há muito para fazer.

 

Aprendi imenso. Mesmo sendo uma pessoa pouco activa, é impressionante o quanto se consegue aprender sobre tantos aspectos da vida em relativamente pouco tempo. Muitas das lições foram difíceis, especialmente em termos de amor (aliás, chamemos-lhe romance) e de identidade pessoal. Tenho agora uma perspectiva mais triste e mais sábia da minha vida, mas admito que ainda me faltam limar umas arestas.

De qualquer forma, existirão sempre arestas a limar. A vida é mesmo assim. Existirão sempre novos problemas e novos ensinamentos e posso apenas esperar que a experiência me permita lidar convenientemente com eles.

 

Apesar de não notar demasiadas diferenças em mim, o mesmo não posso dizer naqueles que estão à minha volta. Noto que estão a ficar gordos, velhos, queixosos, fracos, doentes e alguns até moribundos. Sinto em particular uma pessoa muito próxima de mim a perder as forças de dia para dia, apesar dos meus maiores esforços para a manter saudável.

Creio que nos próximos anos o meu maior desafio será tentar balançar as minhas responsabilidades para com os que me são próximos com a minha responsabilidade egoísta de também me melhorar.

 

É caso para perguntar-me de novo, ao "eu" de aqui a muitos anos.

E agora? Como te sentes?

 

Para reflectir sobre o assunto, partilharei a mesma música brilhante e fenomenalmente composta que partilhei da primeira vez, em tempos esquecidos.

 

Os Slade, com How Does It Feel:

 

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publicado às 23:50


Deadpool 2

por Rei Bacalhau, em 20.05.18

O maior problema, para mim, de se ver uma sequela para um filme, ou mesmo um filme com um mesmo realizador ou actor de outro, é que ficamos com uma certa expectativa prévia, tanto para o melhor como para o pior.

 

É o caso de Deadpool, o filme sobre um herói cujo maior superpoder é conseguir irritar toda a gente igualmente. Este primeiro filme do Deadpool quebrou regras que já não eram quebradas num grande ecrã há alguns anos, algumas delas desde o Robin Hood, Heróis em Collants, provavelmente.

 As pessoas souberam apreciar a qualidade e a impertinência do filme e votaram com as suas carteiras, declarando o Deadpool como um dos grandes filmes de comédia recentes. Este foi, para mim, um caso em que a democracia funcionou, pois depois deste fenómeno, puseram-se logo a trabalhar no segundo filme.

Foi consequentemente com grande expectativa que fui ver o Deadpool 2, assumindo que iriam aplicar a mesma fórmula do primeiro filme.

 

No primeiro filme eles tinham o problema de que tinham de introduzir o personagem ao público que talvez não o conhecesse da banda desenhada, e como tal tiveram de estruturar o filme de modo a ter a história da origem do Deadpool. No segundo filme já nada disso interessa e pôde-se gastar muito mais tempo e dinheiro em piadas parvas e absurdas que um bom filme de comédia de paródia precisa. Tendo em conta que teve o dobro do orçamento do primeiro filme, os efeitos especiais foram sublimemente utilizados para a parvoíce caótica que caracteriza todo o filme.

Numa frase, poderia descrever o Deadpool 2 como um filme de acção intensa produzido por um Mel Brooks ordinário e rico.

 

Efectivamente, se eu ia com expectativas altas, posso afirmar confortavelmente que foram superadas, o que eu achava impossível. O argumento é adequado (tendo em conta que estamos a falar de um filme de super heróis), as personagens estão decentemente desenvolvidas e nota-se que alguns pontos de enredo foram meticulosamente calculados para levarem a algumas cenas que ficarão para a história do cinema.

Numa dessas cenas reparei num pormenor engraçado. Um dos personagens tem uma pistola bastante única e fiquei contente por a reconhecer: uma Arsenal AF2011, que são basicamente duas pistolas M1911 numa só, numa demonstração parva e inútil (mas fixe) de engenharia.

Um videozinho (educativo e responsável) sobre ela:

 

 

Não quero estragar muito o filme para potenciais espectadores, e por isso tenho omitido todos os detalhes importantes. O objectivo deste texto é apenas de exortar o pessoal a ir vê-lo por si só e de potencialmente obter alguma validação pessoal desse facto.

O Deadpool é, no entanto, conhecido pelo seu gosto de músicas lamechas dos anos 80 (e no geral), e por isso, respeitando a minha tradição dominical:

 

Phil Collins, com One More Night:

 

 

P.S.: as Aventuras de Ventura Lobo podem de certa forma ter sido influenciadas pelo Deadpool. Verifiquei, e a primeira aventura foi publicada apenas poucos meses depois do primeiro Deadpool. É evidente que o conceito da destruição da "quarta parede" não é novo, mas pronto.

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publicado às 20:45


Samapatti

por Rei Bacalhau, em 13.05.18

Admito que não percebo muito de música portuguesa, mesmo de tempos mais antigos, por onde as minha tendências musicais costumam pairar. Sendo um mercado bastante mais pequeno, não é de estranhar que existam muitas poucas bandas do estilo que eu aprecio em Portugal, e as que existem vieram bastantes atrasadas em relação às suas influentes (estou a pensar especificamente nos Trovante e nos Quinta do Bill).

Dos tempos antigos, acho que um dos artistas mais importantes é o Rui Veloso, já que não é toda a gente que tem a possibilidade de tocar com o B.B.King. A sua parceria com o Carlos Tê levou a algumas das músicas mais facilmente reconhecíveis do pop/rock português, a meu ver. Creio que posso dizer isto porque se eu, que não percebo muito de música portuguesa, ainda conheço um ou outro tema do Rui Veloso, então é porque alguma coisa ele fez bem.

Contudo, para tentar emendar a minha ignorância, decidi ouvir alguns álbuns dele onde encontrei um tema com um título invulgar, que me fez imediatamente pensar se seria uma referência a outro artista.

Efectivamente, era.

 

O tema chama-se Samapatti, e logo nos primeiríssimos segundos confirmei a minha suspeita, que referirei de seguida.

Rui Veloso, com Samapatti:

 

 

 

As referências directas ao Samba Pa Ti dos Santana são de pequena duração, mas são o suficiente para justificar partilhar essa música, tocada pelo líder epónimo da banda.

Carlos Santana, com Samba Pa Ti:

 

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publicado às 12:43


O Mestre

por Rei Bacalhau, em 10.05.18

Tenho uma noção de que toda a gente tem um mestre, não no sentido de outrem que seja controlador da nossa vida, mas alguém que teve uma influência educativa e quase paternal de alguma maneira. Alguém mais velho que não seja da família mas que tem ou teve uma imensa importância naquilo que somos hoje.

O Daniel-San teve o Sr. Miyagi.

O Edmond Dantès teve o Abade Faria.

O Luke Skywalker teve o Yoda.

 

Eu tive o Zé.

 

Chamo-lhe Zé porque não quero dizer o nome verdadeiro dele, pois não me parece nem apropriado nem relevante para o resto deste texto.

O Zé foi um dos professores que mais influenciou a minha vida profissional e académica e dele tirei igualmente outras lições de teor filosófico e de modo de estar na vida.

Soube recentemente que ele faleceu há relativamente pouco tempo depois de doença prolongada, contra a qual já lutava há alguns anos.

 

Apesar de não ter sabido a notícia atempadamente, não posso dizer que tenha ficado chocado. Era certo e sabido que o seu estado de saúde não era o mais optimista e acredito que poucas pessoas terão ficado surpreendidas com a morte dele. Curiosamente, ele morreu pela altura da Páscoa, numa altura em que foi mais fácil a notícia passar despercebida. De facto, passou tão despercebida que foi totalmente ao acaso que vim a saber, através de um contacto que mantenho na faculdade.

Não creio que ele apreciaria totalmente este texto em forma de dedicatória, mas sinto que o devo fazer, já que não me parece que mais alguém o tenha feito.

 

O Zé era um personagem bastante... único. Todos os professores universitários têm as suas manias, mas este tinha um conjunto de características que o destacava dos outros. Era um homem da velha guarda, mas tinha recorrentes momentos de falta de profissionalismo escandalosos, pelo menos em comparação com a austeridade e desinteresse típicos dos professores mais velhos do ensino superior. Ao dar as aulas em si não era particularmente diferente dos demais, ele lá rebobinava a matéria de trás para a frente como quem vira frangos. Ele era pouco organizado no quadro, e rapidamente ficava cheio de gatafunhos confusos que só era possível interpretar prestando a mais inabalável atenção ao que ele dizia, já que ele fazia explicações secundárias de algum assunto ao pé daquilo que estava a explicar na altura.

Ele era bastante impulsivo e uma vez ele ia explicar uma coisa ao quadro, agarrou no marcador e riscou a tela branca do projector (que ele não reparara que estava à frente do quadro). Tanto quanto sei, o risco nunca mais saiu de lá.

O Zé era verdadeiramente único no relacionamento que tinha com os seus alunos. Para já, conhecia-os quase todos de nome, o que é impensável no ensino superior. Igualmente impressionante era quando se falava com ele e via-se que ele tinha noção de quantas cadeiras já tínhamos feito e de que "turma" é que éramos. Ele seguiu muito pessoalmente o progresso de várias dezenas de alunos e mantinha vários ficheiros com estatísticas sobre diferentes "fornadas" de alunos.

Mas ele era sacana. Não no mau sentido, claro.

Era bastante frequente ele apanhar um qualquer colega meu e perguntar-lhe algo do género "então, quando é que te vejo fazer Álgebra?", ou "então, em que semestre andas perdido?", etc..

Uma das mais célebres ocorreu numa aula de modelação 3D. Eu tinha um colega que tinha modelado um Lamborghini ou um Ferrari (um dos dois, não me lembro, o que interessa é que tínhamos de modelar carros na altura). Ora, ele tinha passado uma grande quantidade de tempo a trabalhar nisto e estava bastante orgulhoso do resultado que tinha. O Zé era um homem brutalmente honesto e não tinha medo de ser mauzinho se soubesse que a vítima tiraria uma lição de humildade daí. O meu colega já tinha enviado a sua obra de arte e cometeu a imprudência de perguntar ao Zé no meio da aula o que é que ele achava do que tinha enviado. A resposta foi simplesmente, dito alto e a bom som:

"Jovem, em termos gerais, o teu carro está miserável."

(ele não disse "Jovem", mas sim o nome do aluno, que omito por razões óbvias)

Este tipo de comentários venenosos talvez não pareçam pedagógicos mas a verdade é que, como eu já disse, o Zé apenas queria o bem dos seus alunos (e raramente o pessoal levava a mal). Ele, sendo bastante proactivo e pouco burocrático, não tinha medo de mudar as regras de avaliação no meio do semestre se visse que os alunos estavam de modo geral a ficar para trás. Ele, sendo da velha guarda, não se conseguia impedir de estabelecer objectivos e termos de avaliação bastantes rígidos no início do semestre, termos esses que seriam sempre suavizados quando ele via que a turma ficaria em risco de chumbar toda. Este seu modo de trabalhar foi aproveitado por dois tipos de alunos extremistas: era inteiramente possível até para o mais preguiçoso dos alunos passar às suas cadeiras com 10, pois o Zé estabelecia regras lenientes para quem não tinha particular interesse no assunto daquela cadeira. Do outro lado estavam os interessados, aos quais o Zé aplicava padrões de qualidade exponencialmente elevados. Em termos de trabalho, a diferença entre um 10 e um 12 era infinitamente menor que a diferença entre um 18 e um 19.

Ele fazia isto porque ele não queria alunos presos ciclicamente na sua cadeira, mas também queria que os que tnham interesse se esforçassem a sério, pelo menos tanto quanto ele. Aliás, sobre isso, os materiais didácticos disponibilizados pelo Zé eram profundamente exaustivos e completos. Na cadeira de modelação 3D ele tinha lá todas as instruções necessárias sobre todos os elementos do software que usávamos, ao ponto de explicitar textualmente o clique com o botão esquerdo do rato.

 

Mas então, porque é que ele era tão especial para mim? Porque é que lhe atribuo o título de mestre?

Bom, confesso que quando há pouco falava dos dois tipos de alunos que se aproveitaram dele, falei por experiência, pois eu fui, em ocasiões diferentes, os dois. O Zé tem a particularidade de me ter dado um 10 a uma cadeira e um 20 numa outra, alguns anos depois. Compreendam que a grande transformação foi em mim, e não nele, mas acabámos por desenvolver uma certa cumplicidade apesar de eu, não gostando muito da ribalta, me ter sentido bastante pouco confortável quando ele começou a usar alguns trabalhos meus como base de tutoriais para novas iterações das suas cadeiras.

Resumindo e concluindo, ele acabou por ser o meu orientador de tese de mestrado. Por esta altura ele já andava doente e nunca o macei muito. Ele já por princípio não tinha muita paciência para ler relatórios e documentos e teses, portanto acabei por entregar a minha tese sem ter sido revista por ele. Tudo bem, tendo em conta tudo, acho que não o poderia censurar. Aprendi mais com ele em termos práticos do que em termos burocráticos, e sinceramente, sinto-me bastante feliz por isso.

Quando espalhei a notícia dos seu falecimento por alguns colegas meus da faculdade, a reacção de pesar foi bastante unânime, já que ele, apesar das suas muitas excentricidades, era um professor bastante apreciado pelos alunos de forma geral, especialmente (parece-me) pelos da minha geração.

 

Guardei a melhor história dele para o fim:

Estávamos todos na aula, putos de 18 anos ingénuos, fresquinhos, fresquinhos, no primeiro semestre. Estávamos a fazer uma maior azáfama do que era habitual na aula dele. Entretanto ele fartou-se, interrompeu a aula e começou um ligeiro sermão sobre o nosso comportamento. A certa altura ele disse, com aquele drama ao qual ainda não estava habituado, uma coisa que nunca me esquecerei e que me marcará para o resto da vida:

 

"Eu amo-vos!"

 

E supostamente era por isso que ele queria ver-nos a ter sucesso e tal. Mas a utilização do verbo mais poderoso da língua portuguesa, tipicamente reservado apenas para as ocasiões mais verdadeiras, abalou-me. Ele era brutalmente honesto, e foi brutalmente que confessou o seu amor pelo ensino e pelos alunos, por mais reguilas que fossem. É preciso coragem para dizer uma coisa destas perante uma multidão de adolescentes que não levariam as palavras dele a sério.

 

Encerro assim a dedicatória ao meu mestre. Ele não era espiritualista, portanto nem tentarei agradecer-lhe directamente (parece-me inapropriado), mas posso pelo menos afirmar independentemente que sinto gratidão pela influência dele em mim.

 

 

 

É estranho. É a primeira vez na minha vida que vou apagar um número de telemóvel da minha lista de contactos nestas circunstâncias.

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publicado às 21:55



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