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A New Day Yesterday

por Rei Bacalhau, em 30.12.18

No final do ano passado desafiei-me a reformar-me, não no sentido de deixar de trabalhar (ainda me faltam uns anos para isso, mas os brancos já aí estão), mas no sentido de me refazer como pessoa e tentar melhorar-me segundo alguns princípios e directrizes maioritariamente arbitrários.

 

A que conclusão cheguei, então? Que balanço faço da Grande Reforma?

 

Bom, para já relato que consegui atingir alguns pontos, mas no fundo não tive pachorra para cumprir o que me propus religiosamente. Inicialmente tentei várias coisas diferentes, mas muitas vezes parecia-me não estar a tirar prazer delas, ou não tanto como eu pensava que deveria. No entanto, adaptei-me  e tentei outras coisas (que devem permanecer ainda segredo, peço desculpa) e finalmente estava a fazer algo de produtivo com o meu tempo. Não era o que eu tinha em mente há um ano, mas deu para me melhorar como pessoa, e isso foi-me suficiente.

Contudo, apesar do tom relativamente pessimista acima, devo dizer que considero a minha Reforma um sucesso, pelo menos conceptualmente, se bem que não totalmente por mérito meu.

 

Aprendi muito sobre mim, e foi esse o meu sucesso. Sim, ainda não sei cozinhar, ou andar de bicicleta, ou validar a porcaria das facturas online, mas através de vários eventos que ocorreram nos últimos trezentos e tal dias passei a conhecer-me e a compreender-me muito mais bem, e isso é algo bem mais valioso do que saber cozer vegetais ou lá o que é.

 

Suponho que a grande razão pela qual eu achei necessidade de me tentar reformar foi a que eu sentia um certo "vazio", que, apesar de ser uma expressão dramática que perdeu o seu significado através da sua utilização excessiva em conteúdos culturais, caracterizava convenientemente o que eu sentia desde há muito tempo.

 

"Vazio."

 

E no entanto, aparentemente não deveria ter razão para isso. Tenho família, tenho amigos, tenho saúde, tenho estabilidade relativa na minha vida e sempre tive. Que mais posso pedir?

Estaria à procura de realização profissional? Acho que não. Felizmente sempre me dei ao luxo de procurar e arranjar o emprego que quero mesmo que as condições monetárias não fossem as melhores. Outrossim, sobrevivo com pouco dinheiro, portanto não preciso de um emprego que pague extremamente bem para me sentir realizado. Não seria isso que me preencheria o vazio.

Ah, já sei, estaria à procura de uma companheira, talvez? Alguém a quem pudesse pedir um belo de um cafuné depois de um dia longo? Acho que não. Quer dizer, há uns anos teria pensado nisso seriamente, mas creio que quando me propus fazer a Reforma não tinha isso em mente. Sempre fui um bocado cínico em assuntos românticos, com excepção de uma ou outra vez em que fui devidamente mordido por um bicho qualquer e me esqueci do meu celibato deliberado. Nunca tendo tido uma, sei no entanto que uma relação com outrem é extremamente difícil de manter e já há muito que me convenci não deveria ser algo a almejar, sob risco de dar em doido. Seja como for, uma companheira, seja em que termos for, é apenas mais uma pessoa no nosso círculo pessoal. Não seria certamente ela a preencher o vazio.

Restam poucas alternativas. Tenho tudo o que quero e não tenho aquilo que não preciso. Então não deveria haver vazio! Mas havia. É um paradoxo estranho, o que quer dizer que o problema estava em mim. Era EU o problema, intrinsecamente. Era EU que tinha de mudar. Mas é evidente! Eu nunca gostei de mim, portanto tenho de me melhorar e descobrir coisas novas para fazer para aprender a gostar de mim próprio.

Foi mais ou menos daqui que deve ter nascido o desejo de uma Reforma pessoal. Eu nunca tive estes pensamentos explicitamente, mas deviam andar pela minha cabeça confusa subconscientemente.

 

Contudo, e estranhamente, sempre que ao longo deste ano me tentei melhorar sentia que algo não estava certo. Que estava a investir energias e esforços incorrectamente.

 

Ora bem, posso afirmar que depois de um ano continuo a não gostar de mim próprio. Repudio-me ainda com todas as minhas forças e detestar-me-ei para todo o sempre. Calma! Eu percebo que possa parecer uma adolescente deprimida, mas na verdade estou contente em odiar-me. É uma coisa boa! Porque agora posso finalmente admiti-lo perante mim próprio e tirar este peso de cima de mim que me sobrecarrega há décadas. Não faz mal que eu não goste de mim próprio, pois posso transformar o que durante tanto tempo foi energia negativa em algo positivo, e felizmente este ano foi-me dada a oportunidade perfeita de melhorar a vida de outros directamente através do meu tempo e esforço.

 

Como um ou outro texto poderão ter dado a entender, estou agora a dar aulas na instituição que me formou e posso agora usar todo o meu ser a preparar miúdos e graúdos para que evitem certas ingenuidades da minha área profissional. Era o que eu precisava. Já não me sinto vazio. Antes pelo contrário: não tenho mãos a medir com tanta coisa que tenho de fazer, não para o meu melhoramento, mas para o dos outros.

E suponho que no fundo... isso também me melhora? Não sei.

Sei que pela primeira vez em muito tempo me aproximo do que posso considerar felicidade pessoal. Sim, com altos e baixos, certamente, como sempre, mas com uma base onde me possa agarrar quando tropeço.

 

Dou a Reforma por terminada. Ela deu-me exactamente o que eu queria. Como eu disse, não tive total mérito na "sorte" que tive, mas pelo menos estava com a mente aberta para a lição que ia aprender e que tentei explicar aqui. Dito isso, ainda há muitas coisas que tenho de fazer e que efectivamente gostaria de aprender, mas agora tenho o estado de espírito para que um dia, quando for propício, possa finalmente cozinhar e essas tretas todas. Vou tentar aproveitar o simbolismo das passagens de ano vindouras para me relembrar que ainda tenho de aprender a fazer X ou Y.

 

Falando nisso, vamos à música. Hoje escolhi um tema do início da carreira dos Jethro Tull que tem um título bastante adequado a este texto e a esta altura (apesar de a letra não ter nada a ver, mas quem é que liga a isso, não é verdade?). Se a certa altura o Ian Anderson não começasse a soprar a flauta dele, quase que pensaria que estava a ouvir uma música perdida dos Black Sabbath (falando em termos instrumentais). Suponho que não é de estranhar a semelhança, já que em 1969 as duas bandas tinham estilos muito semelhantes, só divergindo nos anos seguintes.

 

A New Day Yesterday, dos Jethro Tull:

 

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Merry Christmas Everybody

por Rei Bacalhau, em 23.12.18

Sabem, eu costumava "ser contra" o Natal, até quando era católico. Ficava sempre trombudo, por variadas razões (e tipicamente de ano para ano havia sempre uma diferente). No textos que estiverem a ler por estas alturas noutros sítios, se alguém listar uma razão pela qual o Natal é a pior altura do ano podereis apostar que eu próprio já terei pensado assim.

É certo e sabido que tenho tentado terminar a transformação do meu coração para pedra ao longo dos anos, mas parece-me que quando finalmente enrijeço uma parte que me tem andado a chatear, outra parte já solidificada ter-se-á tornado mole outra vez. Não pareço ter os recursos internos suficientes para completar a tarefa de uma vez por todas. Se calhar tenho de começar a tomar suplementos de sais minerais.

Desta vez, sem eu reparar, foi o espírito natalício que se soltou e até tenho adquirido prazer em observar e em fazer vários temas e assuntos desta quadra. Nesse aspecto estou contente que o Natal tenha uma parte não religiosa para que nós meros pagões hereges e blasfemos também possamos entrar no espírito e partilhar todos os sentimentos dignos da época.

Dou por mim a desejar as boas festas e os felizes natais a toda a gente com sincera satisfação. Dou por mim a assobiar melodias de Natal sem querer. Pela primeira vez na vida comprei uma prenda a alguém! 

Aquela última afirmação poderá elucidar-vos sobre a peste que eu era nesta altura antigamente.

 

Da minha parte, para aproveitar este surto de boa disposição, farei o possível para fazer este Natal o mais suportável (ou mesmo agradável) possível para os meus.

 

É não ironicamente então que partilho a música dos Slade, Merry Christmas Everybody:

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Go to the Mirror

por Rei Bacalhau, em 16.12.18

Não gosto de ir a médicos. Como qualquer homem decente, ir a um, seja ele qual for, é admitir um problema, o que é essencialmente o mesmo que admitir uma fraqueza. E toda a gente sabe que homem que é homem não admite fraquezas pois isso reduz o seu estatuto social.

No fundo é preferível ter um ataque cardíaco de macho do que ser considerado maricas por ir ao cardiologista.

No entanto, esta semana cedi e fui ao oftalmologista. Vou começar a usar óculos (aliás, já os tenho), só para trabalhar e tal, que de resto a minha visão é fixe, coloquialmente falando.

 

"Para além de maricas agora é caixa de óculos! Deve ser para ver se consegue ver o dito cujo melhor!", pensais vós todos, certamente.

Tudo bem, gozai à vontade, estais no vosso direito depois de eu me ter rebaixado de forma consciente ao nível de humano mortal (dantes estava naquele patamar ingénuo e superior de ser humano imortal e despreocupado).

Coincidentemente ou não, esta semana ocorreu-me algo... único.

 

Estava no metro em hora de ponta, a ler o meu livrinho quase encostado à porta (em pé, claro). Estava a ler um livro bastante descritivo da Primeira Guerra Mundial e a certa altura comecei a sentir-me mal disposto. Pensei que era devido à natureza bastante invocadora da narrativa, que envolve tripas, membros decepados e doenças de trincheira e então deixei de ler e respirei fundo.

Mas a sensação continuou e de repente começou a invadir-me o corpo inteiro como se fosse algum tipo de ultra vírus instantâneo. Senti-me frio e com formigueiros em todo o lado. Já só me faltavam duas estações para poder sair. Subitamente comecei a sentir-me claustrofóbico e quis sair mesmo uma estação antes da desejada, mas mantive-me hirto, um homem tem de conseguir lidar com isto, essa agora.

A caminho da última estação a estranha sensação já me afectava o corpo inteiro e comecei a bater levemente com o pé no chão e a abrir e a fechar a mão para me conseguir manter consciente. Sei que a certa altura tudo ficou negro e desfocado, mas fiz um último esforço para me manter acordado e não desmaiar no meio do metro. Havia de ser bonito.

Mal abriu a porta agarrei na minha mochila com uma mão meio dormente e saí como se nada fosse, esperando reactivar a circulação sanguínea, o que felizmente consegui fazer depois de subir um ou outro lance de escadas. Depois disso fiquei normal e prossegui o dia como se nada fosse. Contudo, não deixou de ser um aviso para... algo.

A interpretação com que fiquei é que tenho de continuar a evitar médicos! Claramente quando eu vou a um o meu corpo fica a pensar que pode começar a queixar-se! Nem pensar!

 

Misturando os dois temas que falei hoje, veio-me um tema específico à cabeça, pois fala de médicos e de espelhos.

Go to the Mirror, do eterno álbum Tommy, dos The Who:

 

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On the Border

por Rei Bacalhau, em 09.12.18

Finalmente consegui acabar de escrever mais uma aventura do Ventura Lobo, já publicada (aparentemente o último episódio foi publicado há mais de um ano).

 

Eu nem sempre escrevo em silêncio. Se o texto o justificar, poderei colocar uma musicazinha no fundo só para acompanhar, especialmente se for necessário que eu esteja bem disposto para o texto resultar bem (o que no caso do Ventura Lobo tem de ser, porque não posso escrever algo tentativamente humorístico se estiver em baixo).

Fui então à procura de algo que fosse leve de se ouvir e que tivesse uma aura positiva. Andando à pesquisa, veio-me a mente o Al Stewart, artista do qual só conhecia a Year of the Cat e que já havia prometido a mim próprio explorar mais um bocadinho, especialmente depois de ter lido algures que ele tem muitos temas centrados liricamente à volta de assuntos históricos.

Tipicamente quando exploro um artista superficialmente tento encontrar uma compilação para ficar com uma noção das várias fases/estilos do artista. Fiquei agradado com a música do Al Stewart no geral e investigarei mais sobre ele (coincidentemente, ele teve álbuns produzidos pelo Alan Parsons, de quem falei por aqui há pouco tempo).

Os anos 70 são mesmo outra coisa.

 

Enfim, uma músicazinha alegre centrada no que me parece a guerra civil espanhola ou a ditadura do Franco, algo por aí.

 

On the Border, de Al Stewart:

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publicado às 22:07


O Antagonista - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 09.12.18

Um trilho leve de poeira erguia-se ao longo das vastas estepes a Norte do Reino. Um cavaleiro fulminante dava todo o uso à sua montada Maglu de porte pequeno, perfeitamente adequada à geografia local. Ia apressadamente. Já gastara demasiado tempo nos problemas de outros. Ele tinha uma demanda a completar, em nome da aventura, em nome da honra e em nome do Reino. Ele seguia em direcção aos Sete Mares de Re'ai, um local que já tinha ouvido falar, não só por ser referente a uma música dos Queen. Não se lembrava onde é que já ouvira o nome.
Se apenas ele tivesse alguma maneira de ler as suas aventuras anteriores...
Pouco surpreendentemente, tendo em conta que quase todos os episódios começam com uma descrição de um homem não imediatamente identificado que acaba sempre por ser o mesmo, é evidente que se fala de Ventura Lobo, o aventureiro, que cavalgava velozmente pelas estepes secas e planas, depois de uma paragem irritante na Nuvem e da sua intervenção na Batalha do Pilar.
Efectivamente, Ventura achava que o enredo estava a desfocar-se do objectivo principal de encontrar o Livro ou o Abade Fazia, já que a probabilidade de encontrar um implicaria a presença próxima do outro. No entanto, é verdade que o Abade Fazia seria apenas útil para chegar ao Livro, e como tal, se Ventura, por ventura, chegasse ao Livro em primeiro, o Abade tornar-se-ia irrelevante para a história. Já se está mesmo a ver que o Abade vai provavelmente ser encontrado antes, para não tornar este arco da narrativa um tanto desnecessário. É certo e sabido que é preciso haver uma quantidade imensa de palha para dar ao leitor uma ilusão de que está a ler muito e consequentemente a tornar-se mais culto. Tome-se o Tolstoy por exemplo: é quase certo que a única razão pela qual a sua obra mais conhecida ainda é lida é para os leitores se poderem gabar "Ah, olha, eu li o Guerra e Paz, lê-se bem, nada de especial".
Como qualquer história de fantasia medieval, ignorar-se-ão todos os aspectos que fazem de viagens a cavalo uma tarefa mais árdua do que parece. É evidente que Sara, a égua Maglu montada por Ventura Lobo, consegue suportar longuíssimos períodos de tempo em galope para percorrer distâncias inimagináveis em poucos dias com poucas paragens para descanso, ignorando também os equipamentos extra de Ventura, já para não falar da própria armadura de metal.

Evidentemente, já não se fazem cavalos como antigamente.

É após um deste períodos de esforço equino que Ventura se depara com a aproximação de um conjunto de montes onde já se notavam algumas árvores mais altas. Era visível o princípio de uma estrada que serpenteava através deles. Ao longo da estrada espalhavam-se algumas quintas compostas de casas pequenas ou mesmo barracas.
Era pouco, mas era civilização, e Ventura suspirou de alívio ao ver indícios de actividade agricultural. Poderia repousar, comprar mantimentos e obter direcções.
Aproximou-se de uma casa humilde, onde trabalhava arduamente no campo um camponês de meia idade (o que em tempos medievais significaria um homem de vinte e cinco anos, provavelmente, mas neste caso imagine-se um com mais de quarenta, assumindo que a esperança média de vida era ligeiramente maior).

- Bons dias, amigo! - cumprimentou entusiasticamente Ventura.
O homem virou-se ligeiramente sobressaltado, pois não notara a chegada do aventureiro.
- Bom dia, senhor! Desculpe, não o tinha visto. Em que o posso ajudar?
- Acabei de percorrer as estepes e a minha montada precisa de descansar. O senhor importa-se que lhe peça para partilhar a sua água?
- Claro que não, ora essa, esteja à vontade. O senhor vem de longe? Não tem aspecto de um Maglu.
- Ah, pois, imagino que o senhor esteja familiarizado com esse povo. - respondeu, enquanto desmontava Sara. - Na verdade, venho mais do Sul, do reino apenas conhecido como Reino nesta história.
- Sim, de vez em quando passam por cá uns quantos dessas terras. Então o senhor nunca esteve a norte da Maglúria?

Venceslau, a espada aparentemente sapiente de Ventura, gemeu.

- Exactamente. Como poderá imaginar, não conheço estas paragens tão bem. Sabe-me dizer um bom povoamento onde eu possa arranjar provisões?
O homem tinha nas feições uma careta ligeiramente assustada quando Ventura acabou de falar.
- Desculpe, amigo, passa-se alguma coisa?
- Se... se quer provisões, encontrará tudo o que precisa na cidade de Áórnta... a norte daqui, seguindo os trilhos.
- A Norte?
- A norte daqui! A norte daqui! Vá!
O camponês fugiu repentinamente para dentro da sua casa e fechou a porta bruscamente.
- Ora eis um sentimento de hospitalidade ambígua que nunca tinha visto. Bom, vamos andando, Sara. Esperemos que a cidade não seja muito longe.

Decidiu ser cauteloso e não deixou Sara beber da água do camponês. Partiu.
Como a geografia local já era ligeiramente mais acidentada, não lhe foi demasiadamente difícil encontrar um ribeiro. Desmontou Sara e deixou-a descansar, aproveitando para tomar uma refeição ligeira também.
Um grupo de crianças contentes apareceu para brincar no ribeiro. Certamente as suas mães estariam a lavar a roupa mais a jusante, se é que nesta altura as pessoas se preocupavam com isso.
As crianças, ao verem um aventureiro armado, ao invés de terem medo, correram excitadamente na direcção de Ventura, talvez na esperança de ouvir alguma aventura recente e épica.
Ventura aprendera a ser cuidadoso ao lidar com crianças desde a terrível situação no mortífero orfanato de Uzh Huqukucu, suficientemente macabra para dar pesadelos ao Mengele.
Contudo, estas crianças pareciam ter menos partes insectóides do que as dessa ocasião, portanto Ventura recebeu-as efusivamente.

- Oh não, Sara! Bandidos para nos tirarem os nossos tesouros! Ah, eu defender-me-ei! Vinde. - e pegou num pequeno e fino pau e colocou-se em pose comicamente desafiante.
Desembainhar a espada Venceslau para esta situação teria sido má ideia, provavelmente.
Os rapazes, corajosos, pegaram em paus por sua vez para derrotarem o aventureiro. As meninas, em concordância com o seu estatuto cultural de criaturas indefesas, deixaram-se ficar para trás, observando entusiasticamente e soltando gritinhos de apoio pelos seus guerreiros.
Sara deixou-se estar placidamente sossegada a mastigar alguma erva fresca, contrastando completamente o estado de espírito do seu dono, para desapontamento deste.
- Bolas, sempre poderias entrar um bocadinho na coisa, ò Sara...

Os rapazes deram início ao seu assalto, motivados pela brincadeira que o próprio aventureiro tivera a iniciativa de começar.
- Ah ah! Sois muitos mas não grande coisa! Vinde pois e confrontai Ventura Lobo, grande guerreiro de muitas batalhas, e óptimo actor amador em confrontos infantis!
Os pequenos, ao ouvir esta última frase firmaram-se como se tivessem batido contra uma parede invisível. Olharam uns para os outros com dúvida nos olhos. Depois de uns ligeiros murmúrios entre eles, perante um Ventura Lobo estupefacto, a pequenada pôs-se em debandada, deixando as meninas para trás, confusas e aterradas por momentos, mas que os seguiram pouco depois.
- Essa agora... Esta gente é toda doida.
Largou o pauzinho, montou Sara e prosseguiu caminho para Norte.

Não obstante os recentes episódios com os habitantes locais, Ventura Lobo apreciava o ambiente bucólico das fazendas e povoamentos pequenos por onde passava. As pessoas pareciam ser afáveis e acolhedoras, pelo menos enquanto Ventura se mantivesse calado, aparentemente. Isto resultou durante várias horas de caminho, em que um misterioso e silencioso cavaleiro solitário percorreu os campos pacíficos de camponeses, uns mais atarefados que outros, como é normal.
Ventura viu várias patrulhas de aspecto militar enquanto percorria os trilhos em direcção ao Norte. Os camponeses pareciam estar habituados àquelas andanças, e por isso continuavam contentemente o seu trabalho. Uma das patrulhas, formada de um pequeno conjunto de cavaleiros, passou mesmo ao lado de Ventura sem lhe ligar muito.

A meio da tarde Ventura finalmente avistou uma cidade de tamanho improvável. Não era enorme, mas certamente contrastava com os campos agriculturais humildes à sua volta. Estava rodeada de uma paliçada reforçada. No centro estava um reduto mais devidamente fortificado, de aspecto arquitectónico rudimentar. Era evidente que esta cidade começou por ser uma fortaleza de algum reino antigo, e havia há muito sido alvo de imigração excessiva, o que expandiu toscamente as defesas exteriores. Tendo tudo em conta, especialmente a curta distância a tribos de pilhantes Maglu, não deixava de ser estranho que esta cidade tivesse o aspecto de não esperar qualquer ataque.
Seria muito provavelmente a tal cidade de Áórnta.
Existia imenso movimento tanto para dentro como para fora da cidade. Carroças recheadas de mercadorias entrecruzavam-se nos portões apertados e vários insultos trocavam-se entre os condutores.

- Algumas coisas serão sempre iguais, claramente. - comentou Ventura.

Aproximou-se de um dos portões principais da cidade, onde dois mercadores estavam a discutir sobre quem tinha prioridade para passar. Ventura notou um estábulo de aspecto decente e decidiu deixar Sara lá, ela já bem merecia o descanso. Quando voltou ao portão, ainda lá estavam os dois homens a discutir. Um deles fartou-se e encaminhou a carroça para o lado, sabendo perfeitamente que a carroça iria passar por cima de um pedregulho redondo que brotava naturalmente da terra. A carroça não só raspou a carroça adversária como também acabou por destruir a roda no rochedo. As mercadorias rolaram todas para o chão, esbarrando ruidosamente contra o solo.
Três soldados que guardavam o portão correram imediatamente para o incidente e afastaram potenciais ladrões de ocasião. Ventura Lobo ficou algo admirado ao ver que a carroça ia cheia de armas e armaduras, bastante uniformes umas com as outras. Um capacete rolou esquecido na direcção de Ventura. Ele apanhou-o, com a intenção de o devolver, mas depois notou uma inscrição familiar gravada na testa alta do capacete.

Um polvo com nove tentáculos. O símbolo do Culto de Otto'Gháfiq.

- Oh diabo...

Ventura nem pensou duas vezes. Colocou imediatamente o capacete na cabeça, sem ninguém reparar, aparentemente. Percebeu que sem querer tinha vindo parar no meio de uma operação em larga escala do culto. Ao contrário do que os conteúdos da carroça poderia fazer inferir, os soldados tinham ainda todos equipamentos muito pouco uniformizados e por isso Ventura pensou que se poderia misturar na cidade apenas com um capacete adequado. Era evidente que o aventureiro não poderia deixar de meter o nariz onde não era chamado.
Compreendia agora a razão pela qual os camponeses reagiam mal às suas palavras. Certamente estaria a usar algumas das palavras proibidas do Concorde de Otto'Gháfiq e não a forma "correcta" já indoutrinada nas populações locais, o que essencialmente tornava o aventureiro num criminoso naquela zona.
Ele, nunca tendo lido o Concorde e não sabendo realmente que palavras eram proibidas, decidiu manter-se o mais mudo possível enquanto explorava a cidade de Áórnta. Perante as queixas agitadas da espada Venceslau, Ventura Lobo atravessou os portões, exortado pela sua curiosidade em aproveitar esta oportunidade única para estudar uma facção misteriosa com a qual, bem vistas as coisas, não tinha razão para ser amigável.
Como qualquer cidade medieval típica, Áórnta era um labirinto de ruas estreitas e sujas, cujos cidadãos estavam todos cobertos de lama e roupas esfarrapadas e pobres. O céu estava permanentemente cinzento e inúmeras tochas estavam acessas de dia, num desperdício impressionante de combustível.
Pede-se ao leitor que ignore a última frase, é apenas uma referência a alguns clichés. Segue-se a descrição real da cidade.
Como qualquer cidade medieval típica, Áórnta era um labirinto de ruas pouco organizadas, que evidentemente estavam efectivamente sujas com dejectos vários, mas os seus habitantes usavam vestidos coloridos para tornar o seu dia-a-dia mais animado. Era uma cidade repleta de actividade. Por todo o lado ouviam-se os berros de mercantes a publicitar ludibriosamente os seus produtos de alta qualidade, os sons de crianças em correrias gritantes e irritantes, os tilintares das armaduras de soldados a marchar organizadamente em coluna, as discussões entre velhas inimigas mexeriqueiras, o recitar lírico do trovador local e o tão comum rugido dos autocarros da Carris a arrancar.
Ventura tinha noção de que estava em território não amigável, mas a primeira impressão que Áórnta lhe deu foi que era uma cidade exactamente igual a tantas outras pela qual tinha passado em termos de dinâmica popular.
A grande diferença era a quantidade excessiva de símbolos do culto que adornavam a cidade, símbolos esses que não eram de modo algum visíveis do exterior das muralhas, como se fosse propositado.
Com o barulho quase ensurdecedor da praça principal do mercado, Ventura Lobo não conseguia ouvir demasiado dos que os traseuntes diziam, mas a espada Venceslau estava bem mais atenta e bem mais irritada. Ventura percebeu que a sua espada poderia vir a ser um problema quando começou a tomar melhor atenção às conversas e ao que os letreiros diziam em cada mercador.
Facilmente se percebia que a pêra, o fruto, tinha um imenso significado naquela cidade e talvez mesmo para o culto inteiro, pois parecia ser dos frutos mais disponíveis para compra.
- Olha a pera deliciosa! Prontinha a comer! - diziam todos, em incontáveis variações da mesma frase.
Fora de frutas, o mercado apresentava uma variedade extraordinária de artigos para venda, provavelmente para quase todos os gostos. Por cada passo que Ventura dava sentia-se incrementalmente estupefacto com o que lia e ouvia, e igualmente receoso pela reacção potencialmente colérica de Venceslau, que ele nem sempre conseguia controlar devidamente. Viu ourives com joias sublimes, artesãos de gaitas de foles e alfaiates a mostrar polos exuberantes e anacrónicos. Viu anúncios a pedir mão de obra noturna, e um outro a publicitar um medicamento para a disfunção erétil.
Ventura arrancou discretamente este último anúncio do boletim e guardou-o.
As conversas confusas entre os clientes e os vendedores estavam também repletas de palavras que preocupavam Ventura.

- Olhe, quanto é que custa aquele pão de lá?
- Qual? Este pão de ló?
- Não, aquele de lá!
- Aquele pão de ló de lá?
- Não, o pão de lá que não é o pão de ló!
- Ah, com certeza...

- Vinde todos! Olhai para estas belas peças de arte do neoexpressionismo. Estão séculos à frente de qualquer outra obra de arte contemporânea.
- O que é o neoexpressionismo?
- Ah... bom, não sei, mas dá para ter uma ideia só olhando para a pintura.
- Ah, isso é uma pintura? Não tinha percebido. Como é que isso se diz? Ne-oexpressionismo? Ou é neoex-pressionismo? Ou neo-...
- Cuidado com o que vai dizer, senhor!
- Ah, sim, obrigado, obrigado, tem razão!

- Desculpe, boa tarde, vejo que vende sopinhas de massa.
- É verdade, quantos deseja?
- Quero apenas um prato, se fizer o favor.
- Um prato? Um prato de quê?
- Então, mas o senhor não vende sopinhas de massa?
- Vendo, mas não são literalmente sopas de massa, mas sim pessoas que são sopinhas de massa.
- Então, mas não acha que isso assim fica ambíguo?
- Que quer? A única opção seria juntar a expressão de alguma forma... Aliás, pensando bem, é melhor calar-me antes que diga uma blasfémia.

- Bom dia, o que é que o senhor vende? Não compreendo que objecto é este.
- Ah, bom dia, vendo quididades.
- Quidiquê? Que raio é uma quididade?
- Exactamente.
- Como? Não percebo.
- Olhe, nem me diga nada. Só me disseram hoje que era para trazer alguma coisa para vender e eu não tinha nada, mas como o Autor ainda me despede como figurante se eu não tiver nada para vender, fui ao dicionário e encontrei uma coisa qualquer.
- Ah, brilhante. Quanto custa?
- Exactamente.

A atenção de Ventura Lobo foi de repente chamada por um rumor crescente de gritos alegres de pessoas. Impelido pela curiosidade e pela multidão, aproximou-se de uma rua muito mais larga, que dava acesso directo ao reduto central. Marchando pela avenida acima vinha um exército, estranhamente familiar a Ventura. Os habitantes de Áórnta acumularam-se pelas ruas pequenas perpendiculares à avenida, bradando gritos de vitória e felicidade, e distribuindo pêras pelos soldados visivelmente cansados, mas contentes.
O foco da atenção aproximava-se, e a multidão excitava-se exponencialmente. Encimando um poderoso cavalo de guerra vinha o presumível líder daquele exército e daquele culto, não fossem as constantes invocações do nome dele.

- Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq! Otto'Gháfiq!

O homem tinha feições surpreendentemente afáveis e se fosse político numa nação democrática, seria certamente eleito. Tinha cabelo grisalho e a sua estrutura facial rectangular contrastava com vários elementos curvos e alegres da sua cara. A vida claramente corria-lhe bem. Imediatamente atrás dele vinham três homens amarrados, sem dúvida prisioneiros de guerra.
Ventura seguiu no cortejo que se formara entretanto atrás da parada militar. A confusão era tanta que o aventureiro não reparou que as joias, ai perdão... as jÓias da espada Venceslau já tinham começado a iluminar-se com um tom amarelado. Infelizmente, este tipo de marchas demoram sempre imenso tempo e Ventura teve de ficar impacientemente à espera até que o enredo avançasse. Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o exército parara numa grande praça à frente do portão do reduto antigo. Tinham montado uma plataforma em que estavam preparados três baraços. Ventura chegou à conclusão aritmética de que os três prisioneiros de guerra iriam ser enforcados.

O aparente líder subiu à plataforma e colocou-se naquela pose dramática que indica ao público que vai começar um discurso.

- Fiéis irmãos, - começou ele. - Como veem, chegámos agora de um curto e vitorioso cerco a uma cidade na orla do Reino. Declaro que capturámos mais uma cidade para expandirmos o sonho de espalhar e aplicar o concorde por todos os falantes do mundo! Restabeleceremos as nossas forças e prepararemos a próxima expansão. Portanto rejubilem e celebrem a nossa vitória, mas não demasiado, pois outras virão.
Fez uma pausa e moveu-se em direcção aos três prisioneiros que esperavam a sua presumível execução.
- Estes trastes são hereges! Recusaram-se a converter em pleno ao concorde de Otto'Gháfiq e foram então trazidos para servirem de exemplo a quem ainda poderia ter dúvidas do poderio do concorde.
Aproximou-se dos prisioneiros, abordando cada um deles. Ventura Lobo reflectia sobre o que fazer, pois o seu instinto moral não lhe permitia aceitar três prisioneiros de guerra a serem executados sem razão aparente. Não notou a excitação furiosa crescente da espada Venceslau, que aparentemente estava particularmente mais zangada com as palavras de Otto'Gháfiq do que com as de qualquer outro plebeu.
- Como te chamas, verme!? - disparou Otto'Gháfiq ao primeiro prisioneiro.
- Chamo-me... chamo-me Fulano, senhor. - murmurou hesitantemente o homem perante uma multidão chocada.
- Ah, seu traste! Não respeitas o concorde! Converte-te e adopta o nome correto de fulano, e tudo será perdoado!
- Mas não posso, senhor, os nomes próprios começam sempre por letra maiúscula, não faz sentido mudar o meu nome efectivo por causa disso.
- Blasfémia, atrás de blasfémia! Não há esperança para ti.
Passou ao próximo.
- E tu, como te chamas!?
- Sicrano... Sicrano...
- Ah, mas diz o teu nome no meio de uma frase, para que possamos perceber se és herético ou não.
- O... o meu nome... o meu nome é Sicrano...
- Renuncia ao teu nome, seu sacana! Infiel! Blasfemo! Passarás a chamar-te sicrano!
- Então mas teria de usar a minúscula se eu começar uma frase com o meu nome?...
- Esta gente não percebe nada, estão todos tão confusos, coitados. Não há esperança mesmo...
Dirigiu-se ao último prisioneiro.
- E tu? Diz o teu nome!
- Sou o beltrano, mestre Otto'Gháfiq, chamo-me beltrano, renuncio ao meu nome, não me mate!
- Herege! Os nomes próprios começam com maiúscula! Nenhum de vós se safa, claramente!

O líder do culto virou-se para a multidão que estava em polvorosa e ansiava pelas execuções.

- Queridos fiéis, é altura de entrarmos em ação!

- Ação! - repetiu a multidão, entusiasticamente.

"Oh não" - pensou Ventura, olhando para a sua espada, que emanava um vermelho raivoso incandescente, ofuscado pelo mar de pessoas que rodeavam o aventureiro.

- Ação! - repetiu Otto'Gháfiq, e puxou pessoalmente a alavanca que controlava o cadafalso de Fulano, precipitando-o para um pescoço partido.

- Ação!

Ventura deixou de ter controlo total de si próprio, inebriado pela raiva transferida de Venceslau, raiva essa que nada tinha a ver com a morte injustificada de prisioneiros, mas sim com a falta de uma ou outra letra ou acento. Verdadeiramente, o comportamento de espadas demoníacas é caótico e arbitrário.

- Ação! - gritou outra vez Otto'Gháfiq, libertando a alavanca de Sicrano, libertando-o do seu fôlego.

- Ação! - berrou a multidão.

- Acção... - murmurou Ventura.

Ventura Lobo respirava entre dentes. Alguns cidadãos à sua volta aperceberam-se da aura vermelha de fúria que o próprio aventureiro começou a emanar, sendo que apenas uma pequena réstia da sua mente estava a conseguir impedi-lo de desembainhar a espada. Ventura Lobo sabia o desejo da sua espada, e sabia que havia apenas uma coisa que saciaria a sua sede de vingança. Ventura não o permitiria. Estava apenas a tentar ganhar tempo para que as pessoas se conseguissem afastar.

- Ação! - exclamou de novo Otto'Gháfiq, executando Beltrano.

- Ação! - repetiu a multidão, festejando.

- Acção! - vociferou uma voz mais alta que todas as outras. Muitos olharam em volta.
- Acção! - rugiu a voz ainda mais alto, de forma quase sobrenatural. Até Otto'Gháfiq conseguiu ouvir, perante seu espanto.
- Acção! - ecoou a voz pela cidade, numa explosão sonora que fez várias pessoas literalmente voar, catapultadas pela onda de choque.

A meio da praça estava agora um guerreiro possante. A sua armadura era de um material que parecia reflectir simultaneamente lampejos de rubi escarlate e de esmeralda prásina. Dos seus olhos brotavam chamas amarelas, como se fosse um homem possuído por um demónio. Na sua mão segurava uma espada branca como pérola com gemas incandescentes. Respirava furiosamente, e por cada exalação bufava chamas e fumo.
- Quereis acção? - ribombou uma voz desnatural e estranhamente calma do homem.

Não disse mais nada, e encaminhou-se lentamente na direcção dos cadafalsos, onde Otto'Gháfiq o observava com uma mistura de diversão e curiosidade. Este começou a descer para se encontrar com o demónio. Nenhum dos inúmeros soldados do culto fez algo para proteger o seu líder. Esperou pela chegada do adversário temível e furibundo.
Ventura Lobo, nesta sua estranha forma de demónio ortográfico nacionalista, lançou-se de repente a toda a velocidade contra Otto'Gháfiq. Este fez um mero gesto e Ventura extinguiu-se, caindo redondo no chão.

 

Ventura Lobo acordou ofegante, como se estivesse a suster a respiração há horas. Estava desprovido da sua armadura e das suas armas, mas estranhamente não parecia estar preso. Encontrava-se numa sala luxuosamente decorada e mobilada, com objectos exóticos vindos dos confins do mundo. Colocou-se numa posição sentada no sofá confortável onde repousara sabe-se lá quanto tempo. Procurou uma janela e verificou que era de noite. Talvez tivessem apenas passado umas horas desde...
"Desde o quê?" - interrogou-se o aventureiro, que não se lembrava de nada do que ocorrera depois da sua bizarra transformação.
Não teve tempo para investigar melhor a sala ou elaborar um plano para escapar. Uma porta velha mas bem preservada abriu-se com algum dramatismo e Ventura reconheceu o homem que entrava, sozinho, como sendo nada mais nada menos que o próprio Otto'Gháfiq.
- Ah, estou a ver que deve ser um daqueles maus-da-fita que se julga todo pipi por fazer-se de anfitrião educado dos seus inimigos capturados.
Ventura Lobo ia continuar a sua zombaria normal, mas silenciou-se ao ver Venceslau, queixosa, na mão do líder cultista.
- Estava à espera de mais da sua parte, senhor Ventura, - começou Otto'Gháfiq jocosamente. - aventureiro e caminhante de todas as estradas, não é verdade? É deveras impressionante que alguém de tão baixo estatuto tenha acesso a uma das espadas do Caos, mas admito que é difícil compreender as suas escolhas de qualquer maneira. Não deixa de ser um artefato impressionante visto que...
Venceslau não gostou, e incendiou-se espontaneamente nas mãos que a seguravam. Otto'Gháfiq libertou-a desastradamente, surpreendido pela reacção.
- Ahhgh... - queixou-se, sacudindo as mãos, não parecendo ter ficado ferido. - É deveras fascinante, nunca tinha visto algo assim.
Pegou delicadamente na espada e pousou-a sobre um longo pedestal de pedra polida.
- Deixemo-la aqui para que não cause mais danos. - disse, virando-se de seguida para Ventura com um sorriso. - Espero que tenha dormido bem?
- Não o poderia afirmar como um facto, receio.
- Ah... ai, ai... recusa-se a aceitar o concorde mesmo, dá para ver. Creio que faz mal, meu caro, pois o concorde é o futuro, e pouco há que possa fazer quanto a isso. É meu desejo que o concorde se propague pelas terras de todo o mundo, seja por meios naturais e pacíficos, seja por persuasão.
Ventura não se sentia particularmente divertido pela conversa.
- E na sua persuasão inclui o linchamento de prisioneiros e inocentes?
- É lamentável para mim ter de o fazer, mas não posso permitir que a corrução... - e hesitou brevemente, parecendo pensar. - ... sim, que a corrução do que era antigo se possa manter em indivíduos. Todos têm de aprender o futuro!
- Seria de supor que cada pessoa deveria ter direito de decidir por si própria.
- Não! Todos têm de ser iguais e consistentes! Todos têm de me seguir. Todos serão parte da utopia, comigo na sua liderança.
- Certo, porque nunca ninguém tentou isso antes e nunca ninguém falhou miseravelmente no processo. Certo. - ironizou Ventura.
- Ah, mas tem de perceber, meu simples aventureiro, que eu tenho algo que outros não tinham.
Otto'Gháfiq afundou a sua mão nas suas vestimentas sedosas e retirou de lá um objecto rectangular.

Um livro.

Ventura Lobo esbugalhou os olhos, esperando que aquilo que estava agora perante si não fosse o que estava a pensar.

- O Livro... - murmurou.
O cultista devolveu-lhe um olhar curioso e surpreendido.
- Este é um livro, de facto. O senhor sabe dos livros como? Agora estou genuinamente curioso.
- Bom, sinto que não deveria dizer, mas já que me está a divulgar tanta coisa que não deveria sobre si, suponho que não faz mal reciprocar um pouco. Eu estou numa missão em nome do Reino, em busca precisamente do Livro, que aparentemente já está na sua posse.
Otto'Gháfiq riu-se rudemente.
- É evidente que nem sequer sabe do que é que está à procura. O livro de que fala já não existe, foi esquecido e destruído! Este é o novo livro, que eu próprio criei, com um bocadinho de ajuda.
- Ajuda? De quem?
- Um velho louco chamado Fazia. Era monge ou algo do género.
- O Abade Fazia! Que raio? Por que carga de água é que ele o haveria de ajudar?
- Não deixa de me surpreender! Afinal é mais viajado e bem ligado do que eu pensava. Realmente devo pedir-lhe desculpa por o subestimar, caro Ventura Lobo. Sim, a certa altura também eu procurei o Livro, para usufruir do seu poder para mim próprio. Nas minhas buscas encontrei o Abade Fazia nas longínquas terras de Lusca.
- Lusca? Nunca ouvi falar. - mentiu Ventura, pois Xico dos Cavalos já lhe referira esse local.
- Muitos poucos sabem o que é, pois é um local esquecido, mas consegui lá chegar. Encontrei lá o Abade a balbuciar frases insanas, mas consegui perceber o suficiente para utilizar o poder do Livro para criar um novo... este. - disse, elevando para a sua mão.
- O Abade? Louco? Não compreendo, nada disto faz sentido.
- Para mim foi sorte que ele estivesse lá, senão teria demorado muito mais tempo a decifrar os mistérios do Livro, e se se calhar teria ficado louco no processo também.

Ventura curvou-se pensativamente. Terminara então assim a sua busca pelo Livro? Poderia ele acreditar na palavra do antagonista? Seria este o último episódio desta sua grande aventura? Ele tinha ainda tantas perguntas...
A sua reflexão foi interrompida por Otto'Gháfiq.
- Percebo pelo seu silêncio que ficou perturbado pelas minhas revelações. No entanto, tem de perceber que há alguns assuntos que temos de discutir. Mas antes disso, joguemos pelo seguro: Guardas!
Entraram de imediato, mas calmamente, dois homens perfeitamente invisíveis por debaixo das suas armaduras uniformizadas.
- Levem esta espada para o salão das relíquias. Tenham cuidado. Não toquem nela e não falem ao transportá-la. Vão.
Os soldados embrulharam a espada num pano, inseriram-na na sua bainha e levaram-na silenciosamente.

- Enfim, verdadeiramente sós, meu caro. - continuou o líder cultista. - Não pense que eu o deixaria apanhar a espada para tentar escapar, e mesmo que o fizesse, facilmente o derrotaria, como antes. Contudo, já vi que é um homem cheio de surpresas e é preferível não arriscar, não acha? Bem vistas as coisas, o meu caro aventureiro derrotou uma companhia inteira de cavalaria do meu exército.
- Isso foi em auto-defesa...
- Ao tentar proteger uma peça de literatura herege! Não há defesa possível nisso!
- Ao tentar defender aquilo que outros não podem! Os seus homens começaram a danificar os habitantes da cidade de Ruquru!
- O que me relataram é que os gigantes de pedra também se recusavam a obedecer o concorde, apesar de várias tentativas nossas, portanto não considero uma ofensa que os meus soldados os tenham considerado descartáveis.
- O senhor poderá estar agora na mó de cima, mas um dia encontrá-lo-ei em circunstâncias diferentes, e prometo que aí será você o descartável.
Otto'Gháfiq riu-se jocosamente.
- Precisamente como? Estou agora mais poderoso do que alguma vez estive e por cada pessoa que se junta ao meu culto cresce também o meu potencial. Não se lembra do que se passou na praça quando se transformou?
- Não, por acaso não me lembro. A espada apoderou-se de mim de uma forma que eu nunca tinha sentido.
- Pois bem, saiba que eu o derrotei com um simples gesto, tamanho é o poder do concorde.
- Não acredito em si. Venceslau tem um imenso poder dentro dela, muitas vezes incompreendido por mim próprio. Seria ridículo se a tivesse derrotado tão facilmente.
- Se não acredita, posso provar-lho amanhã. Combata comigo de novo. Se me conseguir derrotar, quebrarei o meu culto e retirar-me-ei para algures tranquilo. Que tal?
- É que nem hesito! Claro que aceito, mas precisarei dos meus equipamentos, incluindo a espada.
- Com certeza, é apenas razoável que peça isso. Direi aos guardas para lhe trazer tudo isso, com a excepção da espada Venceslau. Certamente terá alguma honra em não querer escapar desta fortaleza antes de amanhã, certo?
- Prometo-lhe que nunca sairia daqui sem a minha espada, isso lhe garanto. E quando prometo uma coisa, cumpro-a, mesmo que seja a um canalha.
- Vá, vá, não é preciso falar nesses termos. Muito bem então, vou manter a sua espada num dos sítios mais bem guardados deste forte, só para que não mude de ideias entretanto. Amanhã falaremos melhor. Vou mandar organizar um ringue na praça para poder divertir a população e fazer de si mais um exemplo.
- Mal posso esperar. - respondeu Ventura sem se sentir intimidado.
- Boa noite então, Ventura Lobo.

Na verdade, Ventura Lobo não tinha efectivamente razão para se sentir ameaçado. Otto'Gháfiq não tinha uma aparência guerreira e não parecia ser inteligente o suficiente para ter poderes mágicos. Ele não se lembrava de facto de que o cultista havia derrotado o seu corpo possuído por Venceslau como se nada fosse e consequentemente estava confiante que poderia colocar um fim a este tirano aparente e talvez até lhe roubar o Livro que ele tinha.

Trouxeram-lhe a sua armadura, suja e de aspecto chamuscado, e todas as suas armas e provisões. Ventura agradeceu aos guardas, que estavam nervosos por estarem a armar um prisioneiro, mas Ventura nada tentou. Ainda assim, por precaução, deixaram um soldado de guarda dentro do quarto com Ventura para o vigiar. Ventura não se incomodou com isto e deixou-se dormir para descansar um pouco para o combate do dia seguinte.


A noite estava banhada de prata pelo luar intenso de uma lua sublimemente cheia. O silêncio reinava pela cidade de Áórnta com a excepção de uma ou outra conversa banal entre soldados de vigia nas pobres muralhas circundantes. De vez em quando uma leve brisa resfolegava subtilmente algumas folhas no chão, o que quebrava a monotonia confortável instalada.
A fortaleza, parcialmente em ruínas e parcialmente restaurada, erguia-se no centro mais alto da cidade contemplando e desafiando a lua a cobri-la com a sua suave luz. Era neste espectáculo alumiado que se notava um ponto preto a trepar pelas muralhas de pedra cinzenta. Seria preciso uma pessoa de imensa agilidade para sequer considerar o desafio de subir uma muralha tão velha e íngreme. E no entanto, lá subia o ponto. Aproximou-se de uma varanda e saltou o parapeito. Dois olhos ferozes perscrutavam agora o quarto a que a varanda dava acesso. Um homem dormia tranquilamente num sofá. Um outro estava ao pé da porta, lendo um pequeno livro, iluminado apenas por uma pequena vela. Era um soldado, mas tinha retirado alguns elementos da sua armadura para estar mais confortável. O vulto negro entrou de rompante no quarto, dando passos leves e quietos e assaltou o soldado com um punhal no pescoço. Este nem teve tempo para reagir ou dar o alarme.

O atacante aproximou-se então do homem que dormia. Olhou em volta para se certificar que tudo estava bem e agitou o homem para que este acordasse.

- Ventura! Acorda, raios! - disse uma voz felina e rosnenta.
Ventura Lobo tem um sono pesado e não é necessariamente sempre fácil acordá-lo, especialmente se ele se sentir confortável, mas depois de alguma agitação lá começou a abrir os olhos resmungões.
- O quê? Já é hora? Mas... espera lá, eu conheço-te... Mirama? O que estás aqui a fazer? Não foste deixada no episódio anterior para seres esquecida na narrativa? Pensava que eras uma personagem secundária.
- Pára de dizer parvoíces! Eu segui-te desde a Nuvem, mas isso não é importante agora. Temos de nos ir embora!
- Essa agora! Porquê? Amanhã tenho uma excelente oportunidade de acabar com este culto maldito, pois vou combater com o Otto'Gháfiq.
- Aquele líder cultista? Depois do que aconteceu hoje? Estás doido!? Tens sorte em estar vivo!
- Como assim? Empunharei Venceslau com toda a habilidade que tenho e certamente derrotarei o tipo!
- Não te lembras? Tu transformaste-te nalguma coisa, eu vi... mas depois o cultista tirou um livro de dentro do robe e tu voltaste ao normal e ficaste desmaiado.
- Ah? O quê? Não me lembro de nada disso. Tens a certeza que era eu?
- Sim, tenho, raios! Levanta-te, e vamos embora. Morrerás se defrontares esse tal Otto'Gháfiq.
Ventura reflectiu momentaneamente no assunto. Apesar de tudo tinha feito uma promessa em como não sairia dali sem Venceslau, mas nunca referiu nada sobre a altura em que o faria.
- Sim, evidentemente. - Ventura levantou-se rapidamente e começou a equipar a sua armadura. - Temos de ir buscar a minha espada. Não me posso ir embora sem ela.
- Como é que tens isso tudo aí? - perguntou Mirama, referindo-se aos equipamentos de Ventura. - E porque é que a espada não está contigo..?
- Lá está, como dizes, isso não é importante agora, e posso contar-te fora da narração principal. Eles aparentemente levaram Venceslau para um salão qualquer cá na fortaleza... Como é que chegaste aqui?
- Trepei as muralhas, mas acho que não conseguirás fazer o mesmo.
- Pois... estão dois guardas lá fora em princípio... se calhar mais. Se forem poucos conseguiremos lidar com eles, mas teremos de combater pela fortaleza para encontrar o tal salão.
- Não percamos tempos então, o dia não está longe e fugiremos mais facilmente na escuridão.
- Estou pronto. Vamos.

Ventura Lobo equipou-se num tempo recorde, impossível realisticamente, mas felizmente a cultura popular habituou as pessoas a que este tipo de coisas sejam muito rápidas de fazer.

O par de guerreiros aproximou-se da porta velha de madeira que dava para o corredor escuro da fortaleza. Mirama tinha uma melhor visão nocturna, ou pelo menos ela dizia que sim, e abriu a porta de modo a ter apenas uma pequena brecha para observar o exterior. Viu um guarda adormecido numa cadeira e mais ninguém. Abriu a porta e lançou-se como um predador ao homem. Ventura saiu também, desembainhando o seu sabre Ahtem. O corredor estava mais iluminado do que o esperado e ele pôde finalmente ver toda a figura de Mirama.
- Olha lá! Estás despida!
Mirama lançou-lhe um olhar confuso. Era verdade que ela não tinha qualquer armadura ou vestimenta como tinha na Nuvem.
- Como assim? Mas tu achas que nós precisamos sempre de roupas como vocês?
- Pronto, desculpa, parece estranho, mais nada. Faz-me lembrar os gnomos de...
Antes que Ventura pudesse começar a descrever uma aventura passada dele, ouviram, para alívio de Mirama, um grito de dor e sons súbitos de alguma escaramuça a ocorrer dentro da fortaleza.

- Um ataque? - estranhou Mirama.
- Não sei, investiguemos, pode ser que aprendamos alguma coisa.

O aventureiro e a mulher-pantera deslocaram-se pelos corredores simples da fortaleza, atraídos pelos sons de combate. Chegaram a um patamar debaixo do qual estava um salão com imensas armaduras e armas exóticas e até artefactos de aspecto mágico. No centro, rodeado de corpos, estava um homem a combater contra vários soldados. O homem estava parcialmente mutilado, sendo visíveis várias feridas horríveis e ensanguentadas, mas isto não o parecia afectar, pois combatia ainda como um animal encurralado. Este homem emanava uma luz escarlate. Foi aí que Ventura viu que o homem empunhava a sua espada Venceslau. Perante uma observação mais cuidada, Ventura também percebeu que aquele homem era simplesmente um soldado normal do culto.

- Porque é que aquele homem está a matar os seus companheiros? - perguntou Mirama, até ela surpreendida.
- Creio que compreendo porquê. Já deves ter percebido que Venceslau não é uma espada qualquer. Tem uma personalidade própria e não é qualquer um que tem a fortaleza de espírito exigida para a controlar, especialmente quando ela fica... zangada. É difícil perceber porque é que ela escolhe certos possuidores em vez de outros, mas neste caso tenho quase a certeza que ela escolheu um soldado qualquer porque eles atreveram-se a falar na presença dela de forma incorrecta, e ela precisava de se vingar.

O soldado possuído trespassou dois dos seus colegas, apesar de estes lhe golpearem o tronco e os braços. Várias partes do corpo dele já estavam desfeitas ao ponto de se verem vários ossos a brotar do que mais facilmente se chamaria um saco de carne do que uma pessoa.
Mirama, aventureira e guerreira experiente, hesitou continuar perante a descoberta deste tipo de características da espada demoníaca.
- Como vês Mirima, este é o poder da espada. Se tu me dizes que o Otto'Gháfiq conseguiu derrotá-la no seu maior estado de fúria facilmente, então ele deverá ser realmente poderoso.
Mirima estava habituada a um Ventura Lobo zombador e imaturo, mas agora ele tinha uma feição bastante grave, reveladora que ele sabe a responsabilidade que ele tem em manter a espada em sua posse.
- Ajuda-me a recuperá-la. Estão ali umas escadas. Tentemos limpar o salão de inimigos e depois foquemo-nos em Venceslau.
Mirama seguiu-o sem dizer nada, implicando o seu assentimento.

Os aventureiros vêem uma espadada acertar no soldado maldito, arrancando-lhe uma porção significativa da cara, mas este nem se queixou, sendo agora pouco mais do que uma carapaça sob o controlo de Venceslau.
Eles desceram a escada. Ventura começou a combater sem grande desafio com um guarda distraído pela carnificina. Mirama saltava de um lado para o outro, atacando os pescoços selvaticamente dos vários inimigos confusos e aterrados. Pouco depois restavam apenas vários montes de cadáveres de expressão horrorizada. No centro, agora imóvel, um único corpo erecto e desfeito, seco de todo o sangue.
Ventura e Mirama colocaram-se à frente do temível e aparentemente imbatível inimigo, preparados para um combate titânico. O possuído olhou para Ventura Lobo com o olho que lhe restava. Pegou na espada e lançou-a suavemente para os pés do aventureiro. A aura vermelha desapareceu e as gemas de Venceslau extinguiram-se da sua fúria. O soldado foi libertado da sua maldição e pôde finalmente descansar, tombando pesada e instantaneamente, pois há muito que estava morto.
Ventura Lobo encontrou a bainha da sua espada, apanhou-a do chão sem hesitar e guardou-a, perante um olhar preocupado e apreensivo de Mirama, que eriçou ligeiramente o pêlo.

- Bom, não gostaria nada de ser eu a ter de limpar isto. Imagina se alguma vez fizerem uma adaptação para filme desta aventura! A maquilhagem e efeitos especiais que terão de usar só para este soldado coitado.
Ventura parecia ter voltado ao normal, agora reunido com a sua espada. Mirama respirou de alívio, pressupondo que agora estariam em segurança da raiva de Venceslau.
- Vamos, Mirama? A fortaleza parece ter sido bastante esvaziada, mas não quero ficar à espera de reforços.
- Sim... vamos. Fui buscar o teu cavalo. Está à nossa espera já fora das muralhas, ao pé de uma cabana abandonada.

Antes de saírem, Ventura notou no chão um punhal com um cabo feito de osso. Nele estava embutido o desenho exímio de um lobo a uivar. Pensou em ficar com ele devido à sua beleza e simbolismo, mas teve uma ideia melhor. Viu o emblema do Concorde de Otto'Gháfiq, um polvo com nove tentáculos, num escudo de um soldado morto. Colocou o escudo em cima de uma prateleira no centro do salão e cravou o punhal lupino no escudo, perfurando o símbolo do polvo.

- Espero que ele perceba a mensagem. Vamos, Mirima.

Pouco depois conseguiram sair da cidade através de uma secção em ruínas das muralhas exteriores. Rapidamente encontraram Sara, a égua Maglu, acompanhada de uma outra criatura que se assemelhava a uma gazela enorme que certamente seria a montada de Mirama.

O dia raiou assim que começaram a galopar em direcção ao Norte. De longe, furioso, Otto'Gháfiq observava as duas figuras a afastarem-se no horizonte.

- Capitão, já sabe o que fazer. Não falhe desta vez!

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