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Shine On You Crazy Diamond

por Rei Bacalhau, em 04.03.18

A aleatoriedade tem destas coisas.

 

Começou a chover na segunda-feira, e eu, querendo evitar a cambada de assassinos que anda nas estradas em dias de chuva, decidi ir por um caminho mais longo, mas mais seguro porque não apanho nenhuma via rápida.

Ora, tendo o meu rádio com a minha lista personalizada de músicas, e estando num contexto de condução mais lânguida, rodeado de chuva espessa, estava mais ou menos à espera que o rádio, que escolhe a próximo tema a tocar aleatoriamente, me pusesse a tocar algo adequado. Pontos bónus se fosse a Riders on the Storm dos Doors ou então a It's Raining Again dos Supertramp, como manda o cliché.

Mas não.

De repente a música parou. E eu compreendi. Agradeci ao rádio pela escolha.

 

Não é que o rádio tenha ficado estragado. Era simplesmente o início de uma música dos Pink Floyd.

Numa altura de seca extrema, todas as gotas são deveras pequenos diamantes.

 

Shine On You Crazy Diamond, dos Pink Floyd, em homenagem a Syd Barrett:

 

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publicado às 23:42


O dia em que o MEO Music morreu

por Rei Bacalhau, em 01.03.18

Sinto que devo prestar uma pequena homenagem ao serviço do MEO Music que acabou hoje (ou melhor dizendo, ontem, suponho eu).

Tentei hoje fazer login através do programa do Windows, mas ele mandou-me dar uma volta. Crendenciais erradas e tal.

Por um lado não me admira que a Altice tenha olhado para os custos de suportar um "mini-Spotify" e tenha chegado à conclusão de que não valia a pena. Não faço ideia se assim foi, mas não me parece irrazoável pensar que suportar toda a infraestrutura e serviços necessários para o excelente funcionamento do conceito fosse bastante caro. O capitalismo é mesmo assim, e de certa forma, ainda bem.

A verdade é que o capitalismo aparentemente dá todo o poder à empresas, mas estas têm de ter noção que qualquer das suas acções poderá ter consequências na opinião dos seus clientes (e o dinheiro vem das carteiras deles, normalmente). A verdade é que a razão principal pela qual eu ainda sou da MEO é (era) o MEO Music, porque não gastava dados móveis e tornava-o extremamente conveniente para se ter um rádio personalizado no telemóvel.

Estou plenamente consciente de que existem alternativas ao MEO Music, disponibilizadas pela própria MEO, mas não são de todo apetecíveis, especialmente porque terei de pagar muito mais por elas.

Na prática, não acredito que o fim do MEO Music vá gerar uma vaga de descontentamento geral pelos clientes da MEO. Não acredito que houvesse assim TANTA gente a usar o serviço. No entanto, a nível pessoal já nada terei a prender-me à MEO, e talvez venha a mudar de operadora (e irritar toda a gente que me liga com a mensagem de "Este cliente agora pertence à não-sei-quê. Por favor aguarde.").

 

Por razões de simbolismo, decidi que a última música que ouviria no MEO Music seria a do costume (já la vamos). Ora, visto que no computador já não consigo, tentei, pela piada, aceder através do telemóvel. Facto engraçado: sou uma das 2 pessoas em Portugal que ainda tem um Windows Phone, apesar de na prática já estar obsoleto há muito. O MEO Music deixou de ser suportado para WP há vários meses (ou se calhar anos até, não me lembro), mas o serviço continuou a funcionar mais ou menos bem.

Pois bem, fiquei orgulhoso deste meu pedaço de plástico lascado quando ele conseguiu aceder ao MEO Music tranquilamente. Pesquisei músicas à vontade e aparentemente ainda funcionava tudo. Acho hilariante pensar que o Windows Phone é tão irrelevante que alguém no lado da MEO se esqueceu de desligar o serviço para esta plataforma (se calhar para Android e tal também ainda funciona, mas gosto de pensar que sou o último português a conseguir ouvir alguma coisa no MEO Music).

Contudo, querendo enterrar completamente o assunto de vez, naveguei para a música que eu queria e ouvi-a enquanto escrevi este texto (em horário laboral, ainda por cima, mas não faz mal, isto é mais importante... certo?).

 

Pela n-ésima vez neste blog, American Pie, de Don McLean:

 

 

 

Curioso que a morte de que a música fala também ocorreu em Fevereiro.

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publicado às 10:15


Red Headed Stranger

por Rei Bacalhau, em 25.02.18

Recentemente desenvolvi um gosto ligeiro pela música do Willie Nelson.

A sua voz e género musical predilecto embalam-nos enquanto ele nos conta as histórias normalmente trágicas que ocorrem nos fins do mundo rurais da América.

Há uma ocasião para todas as músicas, e hoje em particular estive grande parte do dia em actividades agrícolas amadoras, o que incluiu cortar uma árvore à machadada por falta de meios mais propícios à tarefa. Era uma laranjeira, mas também só tinha uma machadinha, o que no fundo significa que durante umas semanas não terei de ir a ginásio algum (não que eu alguma vez considerasse inscrever-me num ginásio, a ideia no geral parece-me um bocado parva, mas pronto).

Ora, as poucas músicas que já ecoam na minha mente do Willie Nelson fizeram-me companhia ao longo do dia, o que facilitou um bocado a tarefa, pois estive concentrado em tempos mais simples e duros. Ao escrever isto olho para a pele a sair dos calos nas minhas mãos e não posso deixar de pensar nos milhões de mãos que terão sofrido um estado semelhante e muito provavelmente pior ao longo de toda a história da Humanidade. No fundo, somos todos filhos de agricultores, de uma forma ou doutra.

 

Eis então uma música que me acompanhou hoje: conta-nos a história de um temível forasteiro no Velho Oeste atormentado pela morte recente da sua amada. Ele chega a uma cidade no seu garanhão preto, trazendo um outro cavalo consigo que pertencera à sua mulher.

Uma senhora da cidade ao ver o cavalo vazio decidiu roubá-lo, sem ninguém ter tempo de a avisar que tal acção poderia ter consequências muito graves. Assim que ela põe mão no cavalo alheio, o forasteiro alveja-a quase sem pensar, matando-a.

Ela é enterrada ao final do dia, e o forasteiro segue em liberdade, é claro, já que não se pode enforcar um homem por matar uma mulher que lhe está a tentar roubar o cavalo, como a própria letra da música explica.

 

A história não tem nenhuma moral ou significado escondido. É simplesmente isso, uma narrativa de um acontecimento quase banal tendo em conta a ambígua noção de lei no Velho Oeste.

 

Apesar de a música não ter sido escrita por ele (acho que poucas das que ele cantou foram), a interpretação de Willie Nelson da música Red Headed Stranger torna-a bastante agradável, ao contrário da tragédia que narra. Esta música é parte de um álbum com o mesmo nome, que se concentra à volta da história do Forasteiro. Recomendo o álbum todo, especialmente numa próxima viagem longa que façam, por exemplo pelo interior bucólico do nosso país.

Adicionalmente, existe um filme, também com o Willie Nelson (como actor), em torno deste álbum, mas não consegui achar uma maneira de o ver legalmente.

Eis então uma amostra. Red Headed Stranger, cantada por Willie Nelson:

 

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publicado às 20:25


The Sun Goes Down

por Rei Bacalhau, em 18.02.18

Falei há relativamente pouco tempo dos Thin Lizzy e da minha redescoberta desta banda.

Apesar de serem uma banda de rock mais animado, toda a gente sabe que há sempre "aquela" música diferente. No caso dos Thin Lizzy, um bom exemplo seria o tema The Sun Goes Down. O seu tom mais sombrio e ominoso poderia ser interpretado como uma espécie de despedida do Phil Lynott, que viria a falecer poucos anos depois com 36 anos, drogas e tal.

 

The Sun Goes Down, dos Thin Lizzy:

 

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publicado às 23:21


Inominável nº 12

por Rei Bacalhau, em 09.02.18

Eis que sai a edição nº 12 da Revista Inominável, onde desta vez falo muito superficialmente (e com pouca clareza) sobre o processo de criação de um videojogo.

 

Para ler, AQUI.

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publicado às 14:11


Orion

por Rei Bacalhau, em 04.02.18

Um concerto de heavy metal é, no fundo, uma má ideia, se pensarmos bem na coisa.

 

Digo isto na sequência do concerto recente que os Metallica deram cá na Quinta-Feira. Eu não queria realmente ir, mas ofereceram-me o bilhete e não tive possibilidade de dizer "não". Então lá fui.

Não era a primeira vez que ia a um concerto deles, portanto já sabia o que esperar. Notem desde já, nada tenho contra os Metallica, antes pelo contrário. Posso com confiança dizer que aprecio várias músicas deles, apesar de não estar familiarizado com os álbuns mais recentes. Tenho é algo contra todo o espírito que está por detrás de um concerto destes.

O meu bilhete era para a plateia em pé, já agora, o que só aumentou a minha reticência em ir (mas pronto 80€ são 80€). Passarei a explicar o problema.

 

Por alguma razão estes concertos atraem um género de indivíduos que não compreende o conceito de "espaço público" (como quem diz, espaço partilhado por outras pessoas), e muito menos compreendem o conceito de "ir a um espectáculo para apreciar o espectáculo e não arruiná-lo para os outros".

Começo com o problema mais evidente, que também aconteceria se estivesse descansadinho nas bancadas: o pessoal aproveita este tipo de eventos como um "Dia Nacional do Fumador" e toda a gente acha uma ideia fenomenal fumar para cima dos outros num espaço que, apesar de amplo, continua a ser fechado. Fumar por si só já me parece uma actividade intrisecamente estúpida, mas é tolerável enquanto não prejudicar outros. Agora... quando isso não acontece... 

Voltemos para o espaço horrendo conhecido como plateia. É um local que fica absolutamente inundado de cerveja e vómito mesmo antes de o concerto começar e torna a locomoção quase divertidamente difícil, pois temos de fazer um esforço adicional para arrancar o pé do lodo peganhento que se instalou entretanto. Adicionalmente, tendo em conta a pobre capacidade de coordenação motora média de um metaleiro, é bastante provável que uma boa parte de qualquer cerveja entornada não chegue ao chão, mas sim ao vestuário de pobres inocentes ali à volta (ou mesmo dos que estão longe; há quem atire copos de cerveja meio cheios numa direcção aleatória, só porque sim).

Quando o concerto em si começa, certas músicas mais queridas da população local exortam-na a formar pequenos conglomerados para realizar uma dança tribal chamada "moche". Estes moches são uma forma estranha de dançar em que alguns indivíduos, ou às vezes dezenas deles, começam a saltar uns contra os outros freneticamente, sem qualquer tipo de relação rítmica com o que a banda está a tocar. Desta vez tive azar que um destes moches se tivesse formado ao pé de mim e tive de empurrar de vez em quando um ou outro jovem em rota de colisão comigo. No entanto, nem tudo foi mau, pois quando eles se cansaram a área manteve-se relativamente vazia e tive uma muito melhor visão para o palco. Uma senhora que estava à minha frente não conhecia o conceito, provavelmente, pois quando levou com um dos ganzados em cima empurrou-o e deu-lhe um valente pontapé. A reacção estupefacta dele foi genuinamente hilariante, pois ele não tinha percebido até aquela altura que existiam outras pessoas ali à volta que não conheciam as regras implícitas dos concertos de metal.

 

"Então, mas não percebo. Então mas 'tás a dizer que um concerto de heavy metal é má ideia por causa das pessoas que lá vão? É que quase tudo o que descreves aqui acontece noutros espectáculos de géneros musicais diferentes!", pensam vocês, e bem, mas talvez um bocado apressadamente.

 

Um outro problema que detecto em concertos mais pesados é que nem sempre dá para se ouvir o que o vocalista está a dizer. A banda que abriu para os Metallica, por exemplo, tinha um daqueles vocalistas que anda aos berros e não se percebia patavina do que ele andava a dizer, especialmente sob os sons instrumentais. Quando os Metallica começaram a tocar, notei que o mesmo acontecia com as músicas que eu não conhecia, ou seja, eu só conseguia companhar liricamente as músicas se o meu conhecimento prévio conseguisse tapar as lacunas que não conseguia ouvir. 

Ora, isto é absolutamente horrível para os ouvintes (não necessariamente fãs) que lá estivessem arrastados por familiares ou amigos, pois é bastante provável que todas as músicas dos Metallica fossem exactamente iguais umas às outras para eles.

Concluindo, um concerto de heavy metal só começa a valer a pena se conhecermos mais ou menos bem a banda. 

 

"Ah, mas num concerto nem sempre interessa o que eles andam para lá a cantar!", argumentam vocês, furiosamente.

Pronto, não quero ofender. Se cantar não vos interessa, tomem lá com a Orion, dos Metallica:

 

 

(ironicamente a música que eles menos tocam ao vivo; uma veniazinha ao Cliff Burton)

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publicado às 19:26


Solitary Man

por Rei Bacalhau, em 28.01.18

Soube esta semana que o Neil Diamond vai reformar-se, por lhe ter sido diagnosticado o Parkinson.

 

É evidente que este tipo de notícias não são surpresa para alguém que gosta de música menos recente. Achei estranhíssimo quando o pessoal derreteu-se em lágrimas quando o vocalista dos Linkin Park morreu no ano passado. Se o pessoal não aguenta esse tipo de notícias sobre artistas que nem sequer conhecem pessoalmente, ui, daqui a uns 20 ou 30 anos vai estar toda a gente com depressão.

 

Não conheço exaustivamente o trabalho do Neil Diamond, admito-o. Sei, no entanto, que ele merece bastante respeito pelas suas capacidades de escrita de letras de músicas, sendo que "centenas" de artistas já fizeram versões de músicas dele (sabiam que o Red Red Wine dos UB40 é na verdade uma música original do Neil? Descobri isso a fazer pesquisa para este texto).

 

Não imagino que o Parkinson seja algo fácil de se lidar com. No entanto, o próprio Neil disse que planeia manter-se activo musicalmente, mesmo que tenha de ser fora dos palcos. Se alguma coisa, esta será apenas mais uma fase conturbada da sua vida preenchida. A música que gostaria de apresentar hoje é um tema que ele escreveu quando estava no início de carreira a esforçar-se para ser notado. Diz-se que ele próprio veio a admitir que foi uma obra autobiográfica inconsciente.

 

Solitary Man, de Neil Diamond. As melhoras e tal.

 

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publicado às 22:55


Fly Like An Eagle

por Rei Bacalhau, em 21.01.18

Recentemente fiz algo que nunca tinha feito na minha vida, ou pelo menos que me lembre: fui comprar música.

Anteriormente a esta experiência, toda a música que alguma vez possuí não era exactamente minha, como quem diz que os CD's não eram meus. Eram sempre o CD esquecido num móvel ou um CD que alguém me ofereceu ou um CD que alguém pirateou (apesar de andar a fazer esforços para legalizar a colecção física de música cá em casa). Poder-se-ia dizer que se alguém me ofereceu um CD, então ele seria efectivamente meu, e na prática concordo, mas no fundo, não fui eu que o tirei da prateleira da loja. Não fui eu quem o escolheu.

 

Determinado como ando em mudar vários aspectos da minha vida, agarrei nalguns cartões oferta que me têm dado ao longo do tempo (finalmente perceberam que é mais eficaz darem-me cartões do que objectos aleatórios que eu poderia nunca usar) e fui à Fnac trocá-los. Forreta como sou, andei à procura nas promoções e é surpreendente como se conseguem arranjar colectâneas do Barry White por 5€.

Andei precisamente à caça de músicas/artistas cujas músicas não conseguia obter "fisicamente", tendo apenas a alternativa de as ouvir no MEO Music ou no Youtube.

Os álbuns que acabei por "comprar" estavam todos mais ou menos na mesma faixa temporal dos anos 70 e 80. O que saiu mais fora deste padrão foi o álbum de colectânea do Seal, que é mais cronologicamente avançado.

 

Hoje apresentarei uma música desse álbum. Aparentemente, qualquer pessoa que já tenha visto o Space Jam (o filme) deverá saber que a música Fly Like an Eagle, cantada pelo Seal, era parte da banda sonora. Pessoalmente não me lembro disso, mas também não me apetece ver o filme só para confirmar o facto. O tema original é da autoria de uma tal Steve Miller Band, que supostamente tenho de conhecer a partir de agora, pois é uma banda "das antigas" e eu seria hipócrita se não lhe desse um bocadinho de atenção.

 

Algures na internet li o comentário de alguém a dizer que sempre pensou que era o Michael Jordan que cantava este tema.

E eis a dose diária recomendada de racismo passivo.

 

Fly Like An Eagle, cantada pelo Seal:

 

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publicado às 16:40


Someday Never Comes

por Rei Bacalhau, em 14.01.18

Uma breve reflexão.

 

Desde que comecei com a minha Reforma comecei a dar um maior valor ao meu tempo e à maneira como o gasto. Antes de me meter na cabeça que iria conseguir reformular a minha vida, eu tinha temp para tudo porque nunca tinha nada para fazer. Qualquer coisa que me aparecesse para fazer por influência de terceiros era-me relativamente indiferente porque não era que eu estivesse particularmente ocupado com fosse o que fosse. Agora, com ilusões de reforma vitais, faço planos, estabeleço horários e rotinas e nunca consigo fazer coisa alguma.

Eu já esperava isto, porque eu tinha consciência da minha vivência, só não esperava é que fosse tão impeditivo como tem sido. Exemplo rápido: hoje estava a planear começar a trabalhar num modelo de barco que tenho para construir. Fui dar uma corridinha, tomei banho e chegou-me o pedido de fazer de ama-seca à cadela de uma familiar.

Tudo bem, é um cão, obviamente que de bom grado aceito, mas tive de pôr de lado o barco, pela décima vez nas últimas duas semanas (se bem que às vezes também é culpa minha).

 

"Deixo para outro dia", vou pensando. Reflecti que esta expressão vai começar a ser bastante mais comum na minha mente, pois aqueles que querem fazer muito, seja por serem ambiciosos ou por quererem tornar-se assim, têm muitas vezes de lidar com as prioridades num dia-a-dia que exorta a que estas tenham de existir.

Contudo, sei que a expressão pode rapidamente tornar-se uma mentira, como muitas pessoas mais responsáveis e activas já certamente saberão. Pensarei nela muitas vezes, sabendo perfeitamente que nada poderei cumprir a não ser que exista um sentido de organização brutal e frio.

 

Não quero deixar coisas para outro dia, sabendo que um "outro dia" poderá nunca vir.

 

Creendence Clearwater Revival, com Someday Never Comes:

 

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publicado às 21:04


The Promised Land

por Rei Bacalhau, em 07.01.18

Um homem entrou pela porta dentro. O cabelo imenso e a barba espessa e maltratada deu a António uma primeira má impressão, mas a revelação do olhar inocente e quase infantilmente confuso do recém-chegado afastou pensamentos temerosos.

Ele chegou-se ao balcão, mas António é que deu início à conversa.

- Boas tardes, que deseja?

- Boa tarde, meu caro. DIga-me, ainda serve almoços a esta hora? Sei que é tarde, mas perguntar não custa. - respondeu o homem, ainda jovem, com um ligeiro sorriso afável.

- Ah, aqui almoços só por reserva, que não há clientela suficiente. Mas tenho ali uma boa sopa.

A face do homem iluminou-se e abriu-se num sorriso, mostrando uns dentes tímidos e brancos.

- Ah, óptimo, é mesmo o que preciso! Traga também uma sandes. Comerei aqui mesmo no balcão.

- Uma sandes de quê?

- O senhor já me deu uma boa surpresa, se calhar não é pedir muito que me dê outra. - rematou, sorrindo matreiramente.

António não era de compreensão lenta, mas achou mesmo assim estranha e críptica a maneira de falar do homem.

 

Trouxe-lhe o pedido. Uma sopa de legumes e uma sandes de ovo mexido. O homem agradeceu com uma ligeira vénia, e atacou de imediato a refeição.

A curiosidade de António aumentou-lhe a impertinência.

- Desculpe perguntar, mas o senhor é de cá da zona, ou está só a passar?

- Não, não, sou de Lisboa, mas arranco assim que acabar de comer. - respondeu, dando uma primeira dentada na sandes de ovo, pausando de seguida, aparentemente deliciado. - Desculpe, será que me pode fazer outra destas para levar? Embrulhada num papel ou algo do género?

- Claro, claro que sim, com licença.

- Ah, e uma garrafa de água, por favor.

- Fresca?

- Natural, por favor, obrigado.

 

Quando António voltou, encontrou o homem a olhar para um mapa em papel, algo estranhíssimo na era dos telemóveis. Entregou-lhe a nova sandes e a garrafa de água.

- Ah, obrigado.

- Precisa de ajuda para chegar a algum lado? Já não via alguém a usar um mapa a sério há algum tempo! O seu telemóvel está sem bateria?

- Ah, não, eu não tenho telemóvel. Não preciso de um. Também não preciso de ajuda, obrigado, estava só a explorar as estradas aqui à volta.

- Então, mas para onde é que o senhor vai?

O homem olhou António demoradamente e desviou a atenção para o lado, parecendo reflectir. Começou a levantar-se e a preparar-se para sair. Finalmente respondeu.

- Não sei, amigo. Obrigado por tudo!

Deixou duas notas de 20€ no balcão e saiu, sem dar tempo a António de sequer pensar no troco.

António apenas conseguiu vê-lo a arrancar num carro velho e desgastado de uma cor verde horrível, que se afastou deixando para trás uma música esvanescente.

 

Bruce Springsteen, com The Promised Land

 

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publicado às 22:37



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