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A New Day Yesterday

por Rei Bacalhau, em 30.12.18

No final do ano passado desafiei-me a reformar-me, não no sentido de deixar de trabalhar (ainda me faltam uns anos para isso, mas os brancos já aí estão), mas no sentido de me refazer como pessoa e tentar melhorar-me segundo alguns princípios e directrizes maioritariamente arbitrários.

 

A que conclusão cheguei, então? Que balanço faço da Grande Reforma?

 

Bom, para já relato que consegui atingir alguns pontos, mas no fundo não tive pachorra para cumprir o que me propus religiosamente. Inicialmente tentei várias coisas diferentes, mas muitas vezes parecia-me não estar a tirar prazer delas, ou não tanto como eu pensava que deveria. No entanto, adaptei-me  e tentei outras coisas (que devem permanecer ainda segredo, peço desculpa) e finalmente estava a fazer algo de produtivo com o meu tempo. Não era o que eu tinha em mente há um ano, mas deu para me melhorar como pessoa, e isso foi-me suficiente.

Contudo, apesar do tom relativamente pessimista acima, devo dizer que considero a minha Reforma um sucesso, pelo menos conceptualmente, se bem que não totalmente por mérito meu.

 

Aprendi muito sobre mim, e foi esse o meu sucesso. Sim, ainda não sei cozinhar, ou andar de bicicleta, ou validar a porcaria das facturas online, mas através de vários eventos que ocorreram nos últimos trezentos e tal dias passei a conhecer-me e a compreender-me muito mais bem, e isso é algo bem mais valioso do que saber cozer vegetais ou lá o que é.

 

Suponho que a grande razão pela qual eu achei necessidade de me tentar reformar foi a que eu sentia um certo "vazio", que, apesar de ser uma expressão dramática que perdeu o seu significado através da sua utilização excessiva em conteúdos culturais, caracterizava convenientemente o que eu sentia desde há muito tempo.

 

"Vazio."

 

E no entanto, aparentemente não deveria ter razão para isso. Tenho família, tenho amigos, tenho saúde, tenho estabilidade relativa na minha vida e sempre tive. Que mais posso pedir?

Estaria à procura de realização profissional? Acho que não. Felizmente sempre me dei ao luxo de procurar e arranjar o emprego que quero mesmo que as condições monetárias não fossem as melhores. Outrossim, sobrevivo com pouco dinheiro, portanto não preciso de um emprego que pague extremamente bem para me sentir realizado. Não seria isso que me preencheria o vazio.

Ah, já sei, estaria à procura de uma companheira, talvez? Alguém a quem pudesse pedir um belo de um cafuné depois de um dia longo? Acho que não. Quer dizer, há uns anos teria pensado nisso seriamente, mas creio que quando me propus fazer a Reforma não tinha isso em mente. Sempre fui um bocado cínico em assuntos românticos, com excepção de uma ou outra vez em que fui devidamente mordido por um bicho qualquer e me esqueci do meu celibato deliberado. Nunca tendo tido uma, sei no entanto que uma relação com outrem é extremamente difícil de manter e já há muito que me convenci não deveria ser algo a almejar, sob risco de dar em doido. Seja como for, uma companheira, seja em que termos for, é apenas mais uma pessoa no nosso círculo pessoal. Não seria certamente ela a preencher o vazio.

Restam poucas alternativas. Tenho tudo o que quero e não tenho aquilo que não preciso. Então não deveria haver vazio! Mas havia. É um paradoxo estranho, o que quer dizer que o problema estava em mim. Era EU o problema, intrinsecamente. Era EU que tinha de mudar. Mas é evidente! Eu nunca gostei de mim, portanto tenho de me melhorar e descobrir coisas novas para fazer para aprender a gostar de mim próprio.

Foi mais ou menos daqui que deve ter nascido o desejo de uma Reforma pessoal. Eu nunca tive estes pensamentos explicitamente, mas deviam andar pela minha cabeça confusa subconscientemente.

 

Contudo, e estranhamente, sempre que ao longo deste ano me tentei melhorar sentia que algo não estava certo. Que estava a investir energias e esforços incorrectamente.

 

Ora bem, posso afirmar que depois de um ano continuo a não gostar de mim próprio. Repudio-me ainda com todas as minhas forças e detestar-me-ei para todo o sempre. Calma! Eu percebo que possa parecer uma adolescente deprimida, mas na verdade estou contente em odiar-me. É uma coisa boa! Porque agora posso finalmente admiti-lo perante mim próprio e tirar este peso de cima de mim que me sobrecarrega há décadas. Não faz mal que eu não goste de mim próprio, pois posso transformar o que durante tanto tempo foi energia negativa em algo positivo, e felizmente este ano foi-me dada a oportunidade perfeita de melhorar a vida de outros directamente através do meu tempo e esforço.

 

Como um ou outro texto poderão ter dado a entender, estou agora a dar aulas na instituição que me formou e posso agora usar todo o meu ser a preparar miúdos e graúdos para que evitem certas ingenuidades da minha área profissional. Era o que eu precisava. Já não me sinto vazio. Antes pelo contrário: não tenho mãos a medir com tanta coisa que tenho de fazer, não para o meu melhoramento, mas para o dos outros.

E suponho que no fundo... isso também me melhora? Não sei.

Sei que pela primeira vez em muito tempo me aproximo do que posso considerar felicidade pessoal. Sim, com altos e baixos, certamente, como sempre, mas com uma base onde me possa agarrar quando tropeço.

 

Dou a Reforma por terminada. Ela deu-me exactamente o que eu queria. Como eu disse, não tive total mérito na "sorte" que tive, mas pelo menos estava com a mente aberta para a lição que ia aprender e que tentei explicar aqui. Dito isso, ainda há muitas coisas que tenho de fazer e que efectivamente gostaria de aprender, mas agora tenho o estado de espírito para que um dia, quando for propício, possa finalmente cozinhar e essas tretas todas. Vou tentar aproveitar o simbolismo das passagens de ano vindouras para me relembrar que ainda tenho de aprender a fazer X ou Y.

 

Falando nisso, vamos à música. Hoje escolhi um tema do início da carreira dos Jethro Tull que tem um título bastante adequado a este texto e a esta altura (apesar de a letra não ter nada a ver, mas quem é que liga a isso, não é verdade?). Se a certa altura o Ian Anderson não começasse a soprar a flauta dele, quase que pensaria que estava a ouvir uma música perdida dos Black Sabbath (falando em termos instrumentais). Suponho que não é de estranhar a semelhança, já que em 1969 as duas bandas tinham estilos muito semelhantes, só divergindo nos anos seguintes.

 

A New Day Yesterday, dos Jethro Tull:

 

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4 comentários

De Helena Carona a 02.01.2019 às 09:18

Antes de mais, muitos parabéns e felicidades para o teu trabalho de professor! Contribuirá para a tua felicidade e, consequentemente, para a tua confiança ;)
Escolher fazer bem aos outros por prazer é espetacular!
Parabéns por teres chegado a uma conclusão!!
No entanto, considero que ainda te falta enumerar (para ti próprio pelo menos) o que considero bastante importantes para poderes saber resolver o "problema", dado que dizes "E suponho que no fundo... isso também me melhora? Não sei". Admitirmos que há um problema é o primeiro passo (check), depois identificá-lo (check), agora é preciso especificá-lo. Tens de saber do que é que não gostas em ti para poderes melhorar!! Caso contrário, vais simplesmente fazendo coisas à toa e continuar à deriva. Aconselho-te a fazeres duas listas:
- o que tu gostas em ti
- o que tu não gostas em ti
Por esta ordem especificamente.
Ter consciência de nós próprios é importante e valorizar-nos é a mais bela coisa que podemos fazer por nós próprios!
Boa sorte!
Bom ano,
Beijinhos

De Rei Bacalhau a 02.01.2019 às 12:10

Bons dias. Obrigado pelo comentário :-)

Já não considero de todo que eu tenha um "problema". Tenho neste momento tudo o que preciso para viver a minha vida tranquilamente. Não considero que precise de fazer esforços explícitos para me melhorar, já que aprendi que esse tipo de melhoramentos virá naturalmente consoante as minhas futuras vivências.

Eu sei perfeitamente o que é que gosto em mim e o que é que não gosto, e neste momento essas duas listas contribuem para a minha situação de serenidade pessoal actual.

Claro que tudo pode mudar de um momento para o outro, mas não estou preocupado com isso agora!

Obrigado mais uma vez :-)

De Maria Araújo a 03.01.2019 às 22:56

Quando cheguei aqui " felizmente este ano foi-me dada a oportunidade perfeita de melhorar a vida de outros directamente através do meu tempo e esforço.", lembrei do post sobre o seu professor.
Fui ver, e lá está.
Muito bom e positivo saber que está a fazer o que gosta, que lhe dá prazer, que " ele passou-lhe a pasta" e pelo que me parece está correndo muito bem.
Parabéns por se ter reformado, o resto virá por acréscimo.
Tudo na vida se recompõe.
Felicidades e um Bom Ano.

De Rei Bacalhau a 04.01.2019 às 11:16

Gosto de pensar que vou ser para o meus alunos aquilo que eu gostava que tivessem sido comigo: não aquilo que eles merecem, mas aquilo que eles precisam, tipo à Batman.

Discutirei o que quero dizer com isto um dia mais à frente, talvez :-)

Obrigado e um bom ano!

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