Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A Visita

por Rei Bacalhau, em 10.06.18

Um homem estava sentado ao computador, a dar fim a mais um dia de existência. Ele digitou habilmente as últimas instruções e ordenou que o computador se desligasse.
- Ah, actualizações do Windows. Sim, vá, instala lá, até amanhã. - murmurou ele, personificando o dispositivo afetuosamente.
Saiu do escritório, apagou a luz e foi deitar-se enquanto o computador instalava furiosamente as actualizações do seu sistema operativo.
Não se ouvia nada mais senão o leve rumor das ventoinhas do aparelho.

- É agora, pessoal, 'bora! Au! Sim, já sei que não gostas de abreviaturas, está quieta! Despachemo-nos!

A aparente ausência de vida do escritório, aumentada pela escuridão e pelo silêncio relativo, era enganadora, pois ninguém pode saber o que acontece algures se lá não estiver alguém.
Das estantes repletas de obras literárias que preenchiam a parede setentrional começaram a surgir rumores e vultos e movimentos e discussões, todos minúsculos em comparação aos livros de onde se materializaram. Isto era conveniente, pois o espaço físico era limitado e todos os livros têm dezenas de personagens e rapidamente a multidão de pessoas, animais, máquinas sencientes e monstros vários de ficção ocuparam as estantes onde lhes era disponível.
Como seria de esperar, alguns conflitos e amizades acabariam por ocorrer entre tantas personalidades tão diferentes e tão iguais e tão contrastantes e tão coincidentes, todas acumuladas tão compactamente.


À volta de uma fogueira estavam dezenas de soldados, todos vestidos de formas diferentes e representantes de nações e facções distintas: alemães, espanhóis, americanos, franceses, portugueses, britânicos e tantos outros a partilhar as suas histórias de guerra, todas com tragédia, horror e dor, mas também com alegria, camaradaria e até humor. Ali não se estavam a matar, pois no fundo eram todos irmãos de armas.
Noutro local podia-se ver Papillon e Robison Crusoe a partilhar as suas aventuras um com o outro com respeito mútuo, já que ambos a certo ponto se encontraram em circunstãncias semelhantes, mas por razões e com desfechos completamente diferentes.
À volta de um cadáver estavam uma míriade de detectives e investigadores, discutindo entre eles vários factos e deduções sobre o acontecimento sem grande unanimidade. Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Phillip Marlowe, Porto Brandão, entre muitos outros, debatiam-se mais ou menos dramaticamente consoante a sua personalidade sobre as suas conclusões e métodos de investigação.Mal sabiam eles que o assassino estava entre eles. Com excepção do próprio assassino. Esse sabia-o.
Sentados em sofás confortáveis e luxuosos estavam Edmond Dantès, Carlos da Maia e Pierre Bezukov, a partilhar entre si as várias tragédias que lhes haviam acontecido, apesar de cada um deles ser uma prova que até o pior dos dramas consegue ser sarado, seja por vontade própria ou não.
- A felicidade é relativa. - concluia um deles.

Eventualmente, um conjunto de forasteiros aproximou-se das estantes e dos livros. Haviam feito a longa travessia entre o computador e os móveis do outro lado do escritório. No fundo, apesar de não terem origem num livro, consideravam-se personagens de ficção tão válidos como qualquer outro, independentemente de o seu criador não lhes ter feito justiça narrativa de qualidade.

Os membros deste grupo olhavam em volta como se estivessem a entrar numa cidade desconhecida e no entanto tão familiar. Cada um deles via algo que os atraía.

- Couve, este passeio já está a demorar demasiado, não achas que é altura de atacar!? O flanco inimigo está enfraquecido!
- Com todo o respeito, meu General, devo afirmar que não estamos aqui por razões bélicas.
- Disparate, Cenoura, isso é o que um traidor diria! Diz-me, Curgete, és um traidor?
- Clarifico que não me considero um, meu General.
- Não, Abacate! Devias ter dito "Curgete, és um traidor" com tom interrogativo! Não sabes seguir ordens simples!? Eu nem sabia que te chamavas Curgete, ò Alface.
- Efectivamente, relembro como de costume que o meu nome é....
- Romã, olha ali um soldado! Deve ser o inimigo, vai lá apanhá-lo! Em frente! Atacar! MARCHE!
O ajudante de campo do General aparentemente louco aproximou-se de um homem de aspecto simpático e quase infantil, vestido num uniforme do império Austro-Húngaro.
- Boa noite cavalheiro, queira seguir-me. O meu General deseja que o leve à presença dele.
- Declaro com obediência que será com prazer que o seguirei.
O ajudante voltou com o soldado capturado, pronto para interrogatório.
- Quem és? Donde vens? Para onde vais!?
- Declaro com obediência que sou o soldado Švejk, venho de Praga e irei com todo o prazer para onde o meu ilustre General me enviar.
- Ah, seu traste, bandido, gabiru! Batata, que espécie de inimigo é este que capturaste?
- Relato que foi o meu General que me ordenou que o apanhasse.
- E porque é que ele fala de maneira estranha como tu!?
- Receio informar que não sei.
- E que raio de nome parvo é Švejk? Diz-me soldado, tu és parvo?
- Declaro com obediência, meu General, que sou efectivamente parvo.
- Eu já nem sei quem está a falar. Levar-vos-ei todos ao tribunal militar! Desertores! Traidores! Gabirus!

Entre a enumeração de vários insultos, o General e o seu ajudante de campo ficaram para trás, esquecidos pelo resto do grupo de recém-chegados.

Uma folha voou para o meio do grupo de visitantes. Um deles, um mais barbudo e de feições graves, apanhou a folha e leu de relance frases escritas à máquina sobre bêbados e sexo, numa linguagem real e honesta. Intrigado, separou-se do grupo e seguiu um rasto de folhas semelhantes até encontrar um homem sentado com uma máquina de escrever numa secretária.
- Isto é seu?
O homem, de aspecto desgastado e ressacado, tirou-lhe a folha da mão e leu brevemente.
- Sim, é.
- Tem aí linguagem forte. Não tem medo que os cabrões do politicamente correcto vejam isto?
- Não sei do que estás a falar, amigo. - respondeu despreocupadamente enquanto mamava uma cerveja. - Se alguém tiver problemas com o que escrevo podem ir para o caralho.
- Bom, a mim intrigou-me.
- Ah é? Olha, estou a escrever uma história sobre um preto canibal com uma piça enorme. Queres ler?
- Partilhas uma cerveja?
- Já só tenho vinho.
- Ainda melhor, serve uma rodada. Sou o Carlos.
- Estou-me a cagar para o teu nome. Senta-te.

A maior percentagem dos elementos restantes do grupo parou subitamente ao passarem defronte da fogueira rodeada de soldados. Pararam sob o comando do gesto de um deles, que aparentava ser o seu líder. Eram nove no total: o Chefe e mais Oito.
- Passa-se alguma coisa, Chefe?
- Não, Adérito, nada, queria só que vocês olhassem bem para uma cena algo comovente.
- Foda-se, Chefinho, não temos tempo para isto, o Inimigo anda por aí, de certeza.
- Calma, Pedro. Olhem bem para estes soldados todos, unidos sob a camaradagem da nossa profissão. Ali estarão muitos que no campo de batalha seriam inimigos, mas que aqui sabem respeitar-se mutuamente. Creio que poderíamos aprender muito deles. Proponho que nos juntemos a eles.
- Não é a falar que vamos libertar o nosso país, Chefinho... - queixou-se novamente Pedro.
Lucas, outro dos Oito, sem dizer nada, colocou a espingarda ao ombro e sentou-se num espaço disponível na fogueira e ficou a ouvir. Todos com excepção de Pedro, que se manteve afastado, seguiram-lhe o exemplo.
- Conas, todos eles... - murmurou ainda Pedro entre dentes.

Restavam quatro membros do grupo original. Cinco, se contássemos a égua que um deles montava. Seis, se contarmos com a espada que este último possuía.
Seguiam placidamente pelas estantes quando foram interrompidos pelo trovoar de cascos galopantes. Milhares de cavaleiros faziam os móveis tremer perante a sua aterradora marcha. O cavaleiro do grupo dos visitantes olhou embasbacado perante o que estava a ver. Milhares e milhares de personagens de livros de fantasia dirigiam-se em fromação para algum campo de batalha imaginário e longínquo.
- Os Rohirrim de Rohan! Os Dúnedain do Norte! Ah! Está ali o Conan, o Cimério! E mais atrás o Michael Kane, acompanhado do... Elric! Elric de Melniboné! Ah, mas eu tenho de ir atrás desta gente, vai ser certamente uma daquelas batalhas todas épicas como se vê nos filmes! Eia, Sara, minha fiel égua. Desembainhemos a espada Venceslau e esperemos que o nosso inimigo tenha pobres capacidades ortográficas para libertar o seu poder total!
O cavaleiro seguiu excitantemente a galope atrás do exército, deixando apenas uma nuvem de poeira imaginária.

Restavam três.

Iam os três em passo lânguido, dois deles à frente e o outro esquecido atrás.
- Verdadeiramente há aqui tanta gente que não conheço... - disse o Bom. - Pergunto-me se seria possível ler tantos livros em tempo útil.
- Só não lês porque não queres. - rematou o Mau. - O tempo que gastas com videojogos e vídeos no Youtube poderia ser mais bem dispendido aqui.
- Ah, essa agora, então, sê razoável, há que haver moderação em tudo, tem de haver um bocadinho de tempo para tudo.
- Limitei-me a responder à tua pergunta. Queres ler estes livros todos? Óptimo, mas tens de sacrificar alguma coisa.
- Lá estás tu, resmungão como sempre. Olha, queres ir ali à banda desenhada? Quero ver se vejo o Lucky Luke a fazer equipa com as Tartarugas Ninja, deve ser divertido.
- Hmm... creio que não. Sinto-me um bocado vazio sem o meu acesso ubíquo ao Wikipédia. Se calhar vou ver se encontro algo de interessante na zona das enciclopédias ou dos livros mais técnicos. Essa gente será certamente mais interessante do que ir ver o Astérix pela n-ésima vez.
- Ah, vá lá, desmancha prazeres, até parece que....

O Bom e o Mau continuaram a falar e a avançar estante fora. No entanto, o Feio, concentrado nos seus pensamentos, pouco ligava à actividade toda que decorria à sua volta. Olhou de relance para o meio do escritório, para longe de todas as atenções, para se tentar desligar da algazarra toda.


E então viu-o.


Ao longe, afastado de tudo e todos, a voar lá em cima e subitamente a cair a pique contra o chão para num gesto ágil subir de novo. Logo de seguida repetiu o processo, parecendo aumentar ligeiramente a sua velocidade por cada iteração.

O Feio sentou-se e ficou a observá-lo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:50


4 comentários

De anacb a 10.06.2018 às 13:22

Absolutamente delirante! Adorei!

De Rei Bacalhau a 10.06.2018 às 15:47

Sem demasiados erros gramaticais/ortográficos, espero :-)

Obrigado, bom fim de semana!

De Narciso Baeta a 10.06.2018 às 19:43

O que seria da auto-imagem de alguém se descobrisse que o seu único criador era uma mulher de meia-idade que pintasse o cabelo de azul e jogasse ténis, ou um recém formado com uma obsessão por padel?

De Rei Bacalhau a 11.06.2018 às 08:07

Quanto à auto-imagem não sei, mas lá que faria sentido enveredar numa carreira do desporto lá isso sim.

Ping-pong, talvez, para não fugir muito ao padrão.

Comentar post




calendário

Junho 2018

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D