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O Mestre

por Rei Bacalhau, em 10.05.18

Tenho uma noção de que toda a gente tem um mestre, não no sentido de outrem que seja controlador da nossa vida, mas alguém que teve uma influência educativa e quase paternal de alguma maneira. Alguém mais velho que não seja da família mas que tem ou teve uma imensa importância naquilo que somos hoje.

O Daniel-San teve o Sr. Miyagi.

O Edmond Dantès teve o Abade Faria.

O Luke Skywalker teve o Yoda.

 

Eu tive o Zé.

 

Chamo-lhe Zé porque não quero dizer o nome verdadeiro dele, pois não me parece nem apropriado nem relevante para o resto deste texto.

O Zé foi um dos professores que mais influenciou a minha vida profissional e académica e dele tirei igualmente outras lições de teor filosófico e de modo de estar na vida.

Soube recentemente que ele faleceu há relativamente pouco tempo depois de doença prolongada, contra a qual já lutava há alguns anos.

 

Apesar de não ter sabido a notícia atempadamente, não posso dizer que tenha ficado chocado. Era certo e sabido que o seu estado de saúde não era o mais optimista e acredito que poucas pessoas terão ficado surpreendidas com a morte dele. Curiosamente, ele morreu pela altura da Páscoa, numa altura em que foi mais fácil a notícia passar despercebida. De facto, passou tão despercebida que foi totalmente ao acaso que vim a saber, através de um contacto que mantenho na faculdade.

Não creio que ele apreciaria totalmente este texto em forma de dedicatória, mas sinto que o devo fazer, já que não me parece que mais alguém o tenha feito.

 

O Zé era um personagem bastante... único. Todos os professores universitários têm as suas manias, mas este tinha um conjunto de características que o destacava dos outros. Era um homem da velha guarda, mas tinha recorrentes momentos de falta de profissionalismo escandalosos, pelo menos em comparação com a austeridade e desinteresse típicos dos professores mais velhos do ensino superior. Ao dar as aulas em si não era particularmente diferente dos demais, ele lá rebobinava a matéria de trás para a frente como quem vira frangos. Ele era pouco organizado no quadro, e rapidamente ficava cheio de gatafunhos confusos que só era possível interpretar prestando a mais inabalável atenção ao que ele dizia, já que ele fazia explicações secundárias de algum assunto ao pé daquilo que estava a explicar na altura.

Ele era bastante impulsivo e uma vez ele ia explicar uma coisa ao quadro, agarrou no marcador e riscou a tela branca do projector (que ele não reparara que estava à frente do quadro). Tanto quanto sei, o risco nunca mais saiu de lá.

O Zé era verdadeiramente único no relacionamento que tinha com os seus alunos. Para já, conhecia-os quase todos de nome, o que é impensável no ensino superior. Igualmente impressionante era quando se falava com ele e via-se que ele tinha noção de quantas cadeiras já tínhamos feito e de que "turma" é que éramos. Ele seguiu muito pessoalmente o progresso de várias dezenas de alunos e mantinha vários ficheiros com estatísticas sobre diferentes "fornadas" de alunos.

Mas ele era sacana. Não no mau sentido, claro.

Era bastante frequente ele apanhar um qualquer colega meu e perguntar-lhe algo do género "então, quando é que te vejo fazer Álgebra?", ou "então, em que semestre andas perdido?", etc..

Uma das mais célebres ocorreu numa aula de modelação 3D. Eu tinha um colega que tinha modelado um Lamborghini ou um Ferrari (um dos dois, não me lembro, o que interessa é que tínhamos de modelar carros na altura). Ora, ele tinha passado uma grande quantidade de tempo a trabalhar nisto e estava bastante orgulhoso do resultado que tinha. O Zé era um homem brutalmente honesto e não tinha medo de ser mauzinho se soubesse que a vítima tiraria uma lição de humildade daí. O meu colega já tinha enviado a sua obra de arte e cometeu a imprudência de perguntar ao Zé no meio da aula o que é que ele achava do que tinha enviado. A resposta foi simplesmente, dito alto e a bom som:

"Jovem, em termos gerais, o teu carro está miserável."

(ele não disse "Jovem", mas sim o nome do aluno, que omito por razões óbvias)

Este tipo de comentários venenosos talvez não pareçam pedagógicos mas a verdade é que, como eu já disse, o Zé apenas queria o bem dos seus alunos (e raramente o pessoal levava a mal). Ele, sendo bastante proactivo e pouco burocrático, não tinha medo de mudar as regras de avaliação no meio do semestre se visse que os alunos estavam de modo geral a ficar para trás. Ele, sendo da velha guarda, não se conseguia impedir de estabelecer objectivos e termos de avaliação bastantes rígidos no início do semestre, termos esses que seriam sempre suavizados quando ele via que a turma ficaria em risco de chumbar toda. Este seu modo de trabalhar foi aproveitado por dois tipos de alunos extremistas: era inteiramente possível até para o mais preguiçoso dos alunos passar às suas cadeiras com 10, pois o Zé estabelecia regras lenientes para quem não tinha particular interesse no assunto daquela cadeira. Do outro lado estavam os interessados, aos quais o Zé aplicava padrões de qualidade exponencialmente elevados. Em termos de trabalho, a diferença entre um 10 e um 12 era infinitamente menor que a diferença entre um 18 e um 19.

Ele fazia isto porque ele não queria alunos presos ciclicamente na sua cadeira, mas também queria que os que tnham interesse se esforçassem a sério, pelo menos tanto quanto ele. Aliás, sobre isso, os materiais didácticos disponibilizados pelo Zé eram profundamente exaustivos e completos. Na cadeira de modelação 3D ele tinha lá todas as instruções necessárias sobre todos os elementos do software que usávamos, ao ponto de explicitar textualmente o clique com o botão esquerdo do rato.

 

Mas então, porque é que ele era tão especial para mim? Porque é que lhe atribuo o título de mestre?

Bom, confesso que quando há pouco falava dos dois tipos de alunos que se aproveitaram dele, falei por experiência, pois eu fui, em ocasiões diferentes, os dois. O Zé tem a particularidade de me ter dado um 10 a uma cadeira e um 20 numa outra, alguns anos depois. Compreendam que a grande transformação foi em mim, e não nele, mas acabámos por desenvolver uma certa cumplicidade apesar de eu, não gostando muito da ribalta, me ter sentido bastante pouco confortável quando ele começou a usar alguns trabalhos meus como base de tutoriais para novas iterações das suas cadeiras.

Resumindo e concluindo, ele acabou por ser o meu orientador de tese de mestrado. Por esta altura ele já andava doente e nunca o macei muito. Ele já por princípio não tinha muita paciência para ler relatórios e documentos e teses, portanto acabei por entregar a minha tese sem ter sido revista por ele. Tudo bem, tendo em conta tudo, acho que não o poderia censurar. Aprendi mais com ele em termos práticos do que em termos burocráticos, e sinceramente, sinto-me bastante feliz por isso.

Quando espalhei a notícia dos seu falecimento por alguns colegas meus da faculdade, a reacção de pesar foi bastante unânime, já que ele, apesar das suas muitas excentricidades, era um professor bastante apreciado pelos alunos de forma geral, especialmente (parece-me) pelos da minha geração.

 

Guardei a melhor história dele para o fim:

Estávamos todos na aula, putos de 18 anos ingénuos, fresquinhos, fresquinhos, no primeiro semestre. Estávamos a fazer uma maior azáfama do que era habitual na aula dele. Entretanto ele fartou-se, interrompeu a aula e começou um ligeiro sermão sobre o nosso comportamento. A certa altura ele disse, com aquele drama ao qual ainda não estava habituado, uma coisa que nunca me esquecerei e que me marcará para o resto da vida:

 

"Eu amo-vos!"

 

E supostamente era por isso que ele queria ver-nos a ter sucesso e tal. Mas a utilização do verbo mais poderoso da língua portuguesa, tipicamente reservado apenas para as ocasiões mais verdadeiras, abalou-me. Ele era brutalmente honesto, e foi brutalmente que confessou o seu amor pelo ensino e pelos alunos, por mais reguilas que fossem. É preciso coragem para dizer uma coisa destas perante uma multidão de adolescentes que não levariam as palavras dele a sério.

 

Encerro assim a dedicatória ao meu mestre. Ele não era espiritualista, portanto nem tentarei agradecer-lhe directamente (parece-me inapropriado), mas posso pelo menos afirmar independentemente que sinto gratidão pela influência dele em mim.

 

 

 

É estranho. É a primeira vez na minha vida que vou apagar um número de telemóvel da minha lista de contactos nestas circunstâncias.

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publicado às 21:55


5 comentários

De Robinson Kanes a 10.05.2018 às 22:22

O "Zé" ficaria contente com estas palavras...

Robinson Kanes - Não consigo fazer "login"

De Rei Bacalhau a 10.05.2018 às 23:02

Bom, não sei, como eu disse, ele era um tipo peculiar, tanto poderia ficar muito contente como não

Vale a intenção, pelo menos :-)

De Maria Araújo a 12.05.2018 às 10:24

Sem palavras.

De O Pensador a 26.05.2018 às 23:28

Texto com bastante sentimento.
É difícil hoje em dia ver alunos a gostar assim de professores e até mesmo professores que gostam de ensinar como deviam gostar.
Quando alguém que nos é querido parte deixa para trás sempre uma tristeza e uma nostalgia. É sempre bom recordar velhos e bem passados momentos que nos marcam.
Que descanse em paz

De Rei Bacalhau a 27.05.2018 às 22:44

Quanto ao argumento de ser difícil ver alunos a gostar dos seus professores, não sei. A mim parece-me que há sempre um ou outro professor que os alunos gostam por unanimidade "porque é um gajo bacano". Admito que é muito mais provável haver a mesma unanimidade no ódio por um professor particularmente menos capaz.

Suponho que é mais fácil odiar do que amar. Daí a nossa dificuldade em usar este último verbo. E isto não se aplica apenas a professores, suponho eu.

Obrigado ;-)

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