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Palavras

por Rei Bacalhau, em 01.01.17

Às vezes farto-me do facto de ter escolhido este como o meu passatempo. Escrever. Não "escrever" no sentido poético e inspirador que lhe está tão associado, mas o simples acto de digitar letras num teclado ou de manuscrever, como fazia quando era pequeno. Nem estou a qualificar se escrevo bem ou mal, isso pouco me interessa. Apenas me interessa escrever.

Lembro-me perfeitamente de ter negativas nos testes de português na escola. Lembro-me igualmente que quando não tinha negativa o comentário geral das professoras era "só a composição é que te safou". E de vez em quando as professoras até diziam que a minha composição tinha sido a melhor. Se eu tivesse o que eu pudesse chamar um ego até poderia tê-lo enchido, mas esse tipo de elogios passou-me sempre ao lado. Os insultos, pelo contrário, enraizavam-se-me profundamente.

Certa vez tivemos um trabalho de casa. Escrever uma composição sobre um assunto (não me lembro qual, é uma memória reprimida, enfim). A professora gostou tanto que decidiu lê-la em voz alta para todos apreciarem na turma. Isto no 7º ou 8º ano é absolutamente fatal para um rapaz. Senti-me tão envergonhado que poucas lembranças tenho das consequências dessa leitura, mas conhecendo o pessoal como conheço, devo ter sido bem achincalhado nos tempos seguintes.

 

No secundário tudo apenas piorou.

 

Eu não tentava fazer boas composições. Eu não lia quase nada, e escrever muito menos. E no entanto, acumulava o respeito das professoras de português, apesar de ser horrível na gramática e na interpretação do parvalhão do Camões.

Cheguei à conclusão que escrever é uma maldição.

 

Ao longo dos anos fui progressivamente escondendo cada vez mais as minhas capacidades de escrita. Tinha, e tenho ainda, vergonha de dizer seja a quem for que escrevo. Sentia que teria que me justificar. Não era uma actividade socialmente aceitável no meu meio, ou pelo menos nunca o achei.

Hoje vejo o quanto é que este passatempo me prejudicou. Vejo-o especialmente através dos outros. Por exemplo, revi textos académicos de muitos colegas meus na faculdade e chocava-me a estranhíssima construção frásica e os erros gramaticais que eram cometidos.

Era como se estas pessoas nunca tivessem escrito na sua vida. E era evidente que nunca o tinham feito, senão por obrigação. Preferiram o futebol, a guitarra, os desportos radicais, as idas a bares e discotecas, e tantas outras actividades normais para seres humanos comuns. É ainda mais evidente que estas são as pessoas que acabaram por se desenvolver normalmente segundo os padrões da sociedade.

Tantas vezes que quis falar de textos meus que escrevi. Tantas vezes gostaria de tê-los enviado a colegas e amigos para apreciação. Mas o contexto não era certo. Seria impossível falar disso.

Admito que tive azar. Se eu, enquanto miúdo, tivesse conhecido algum par com o mesmo interesse pelo "escrever porque sim" já teria sido mais fácil localizar-me e validar-me como pessoa. Pensei que isso aconteceria quando me convidaram para participar no meu primeiro blog, há tantos, tantos anos atrás. Logo aí, pela falta de entusiasmo dos participantes, percebi que o meu zelo não era totalmente reciprocado.

 

Qualquer pessoa com um mínimo de senso comum teria rapidamente chegado à conclusão que escrever é uma actividade horrível, apenas para os velhos, e que provavelmente faria melhor figura a praticar escalada ou andebol ou fosse o que fosse. Mas mantive-me fiel às palavras, sendo que até comecei a ler. E ler apenas me fez querer escrever mais. 

Pouco a pouco, fui perdendo tudo. Todas as oportunidades que as pessoas têm por viverem e partilharem os seus passatempos foram por mim desperdiçadas. Pergunte-se a qualquer pessoa que me conheça o que é que eu faço nos meus tempos livres e a resposta geral será "não sei". Seria impossível saberem. Eu não o digo.

Digo-me tão fiel às palavras, mas ironicamente não as uso adequadamente em socialização.

 

Dito isto, devo referir que paradoxalmente ao que tenho vindo a dizer, não considero que as palavras sejam o aspecto mais importante de um Homem. Deveras, deve-se sempre julgar alguém pelo que faz, e nunca pelo que diz. Justifico isto dizendo que existem mestres das palavras, que as corrompem e distorcem para atingir certos objectivos. As palavras, com todo o significado que têm, ditas pela boca certa podem ser falsas. É mais difícil mentir pelas acções, apesar de admitir que não é impossível.

 

Eu gostaria de supor que se tenho tanto amor pelas palavras, que talvez eu pudesse usá-las a meu favor. Não tenho essa sorte. Parece-me infame usar palavras para a desonestidade. Não acredito que tenha sido para isso que elas tenham sido inventadas. Infelizmente, as palavras doem mais quando são usadas para a verdade.

É essa a maldição.

Não posso falar com alguém que abomino sem correr o risco de lhe dizer a pouca estima que lhe tenho.

Não posso falar com alguém que amo sem correr o risco de lhe dizer a infinita estima que lhe tenho.

Ambas as situações seriam horríveis para a pessoa que o ouvisse.

Porque ninguém gosta de palavras.

É essa a maldição.

 

Porque palavras é tudo o quanto tenho para dar.

 

 

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