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Deadpool 2

por Rei Bacalhau, em 20.05.18

O maior problema, para mim, de se ver uma sequela para um filme, ou mesmo um filme com um mesmo realizador ou actor de outro, é que ficamos com uma certa expectativa prévia, tanto para o melhor como para o pior.

 

É o caso de Deadpool, o filme sobre um herói cujo maior superpoder é conseguir irritar toda a gente igualmente. Este primeiro filme do Deadpool quebrou regras que já não eram quebradas num grande ecrã há alguns anos, algumas delas desde o Robin Hood, Heróis em Collants, provavelmente.

 As pessoas souberam apreciar a qualidade e a impertinência do filme e votaram com as suas carteiras, declarando o Deadpool como um dos grandes filmes de comédia recentes. Este foi, para mim, um caso em que a democracia funcionou, pois depois deste fenómeno, puseram-se logo a trabalhar no segundo filme.

Foi consequentemente com grande expectativa que fui ver o Deadpool 2, assumindo que iriam aplicar a mesma fórmula do primeiro filme.

 

No primeiro filme eles tinham o problema de que tinham de introduzir o personagem ao público que talvez não o conhecesse da banda desenhada, e como tal tiveram de estruturar o filme de modo a ter a história da origem do Deadpool. No segundo filme já nada disso interessa e pôde-se gastar muito mais tempo e dinheiro em piadas parvas e absurdas que um bom filme de comédia de paródia precisa. Tendo em conta que teve o dobro do orçamento do primeiro filme, os efeitos especiais foram sublimemente utilizados para a parvoíce caótica que caracteriza todo o filme.

Numa frase, poderia descrever o Deadpool 2 como um filme de acção intensa produzido por um Mel Brooks ordinário e rico.

 

Efectivamente, se eu ia com expectativas altas, posso afirmar confortavelmente que foram superadas, o que eu achava impossível. O argumento é adequado (tendo em conta que estamos a falar de um filme de super heróis), as personagens estão decentemente desenvolvidas e nota-se que alguns pontos de enredo foram meticulosamente calculados para levarem a algumas cenas que ficarão para a história do cinema.

Numa dessas cenas reparei num pormenor engraçado. Um dos personagens tem uma pistola bastante única e fiquei contente por a reconhecer: uma Arsenal AF2011, que são basicamente duas pistolas M1911 numa só, numa demonstração parva e inútil (mas fixe) de engenharia.

Um videozinho (educativo e responsável) sobre ela:

 

 

Não quero estragar muito o filme para potenciais espectadores, e por isso tenho omitido todos os detalhes importantes. O objectivo deste texto é apenas de exortar o pessoal a ir vê-lo por si só e de potencialmente obter alguma validação pessoal desse facto.

O Deadpool é, no entanto, conhecido pelo seu gosto de músicas lamechas dos anos 80 (e no geral), e por isso, respeitando a minha tradição dominical:

 

Phil Collins, com One More Night:

 

 

P.S.: as Aventuras de Ventura Lobo podem de certa forma ter sido influenciadas pelo Deadpool. Verifiquei, e a primeira aventura foi publicada apenas poucos meses depois do primeiro Deadpool. É evidente que o conceito da destruição da "quarta parede" não é novo, mas pronto.

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publicado às 20:45


Fui ao cinema sozinho

por Rei Bacalhau, em 15.04.18

A afirmação pode não ter grande importância para o comum mortal, mas para mim tal experiência é de dificuldade olímpica. Tenham em conta que nunca em qualquer altura da minha vida me meti numa aventura destas (aliás, esqueci-me das aspas, por isso, "aventura"). Estive sempre habituado em ir a todo o lado com alguém, mas desde que comecei a assimilar a ideia de solidão lupina a que estarei exposto a longo prazo que tenho procurado emendar alguns dos meus males, nomeadamente a minha aversão a fazer seja que actividade for sozinho.

 

Então fui ao cinema sozinho pela primeira vez. Quis ir ver o "Soldado Milhões", em homenagem ao significado cronológico desta semana. Tendo em conta o tema, não haverá melhor filme para se ver sozinho, já que não me parece que eu conseguisse convencer seja quem for a vir ver uma produção portuguesa sobre acontecimentos históricos comigo.

A minha falta de independência mental leva-me a que eu tenha um ligeiro estado de ansiedade sempre que vou algures sozinho, por razões que não consigo explicar devidamente, nem a mim próprio. Mas não! Tinha de ir. De hoje não escapa. Vou ao cinema sozinho! Toda a gente o faz, por isso 'tá-se bem, 'bora lá.

Cheguei à menina da bilheteira e pedi o bilhete para o filme.

"Tem algum cartão de desconto?" - inquiriu ela, simpaticamente.

Respondi um "sim!" triunfantemente, totalmente preparado para a pergunta (pois tinha fanado um cartão da NOS a um familiar).

A menina recebeu-o, algo confusa.

"Ah, é um menu, então?"

Ficámos a olhar um para o outro como se não estivessemos a falar a mesma língua? Menu? Mas isto é o MacDonalds?

Depois de uma troca de clarificações ela apunhalou-me onde mais me doía.

"Ah, você vem sozinho?"

Sim, essa agora, o que é que tem a ver com isso? Há algum problema? É evidente que não disse isso, simplesmente pensei. Na realidade respondi um simples "sim". Ela lá me clarificou pacientemente que aquele desconto só funcionava para duas pessoas.

 

Tudo bem, lição aprendida. O público alvo dos cinemas é as pessoas que têm alguém com quem ir. Hmm... ok.

Devo admitir, no entanto, que pessoalmente aprendi que ver o filme em si é basicamente a mesma coisa seja sozinho ou acompanhado. 

 

Agora, sobre o filme, "Soldado Milhões".

O meu interesse no filme era duplo: em primeiro, é sobre um assunto que me interessa, tendo em conta o meu ligeiro gosto por história (e recentemente a Primeira Guerra mundial); em segundo, tinha curiosidade em saber como é que uma produção nacional abordaria o tema e com que padrões de qualidade.

Ajudou que eu tenha ido com expectativas baixas, pois posso dizer que gostei bastante do filme no geral.

O filme é narrado através das memórias de Aníbal Augusto Milhais, o soldado epónimo do filme. O filme segue o estilo de flashbacks que levam o enredo de trás para a frente entre a Primeira Guerra Mundial e 25 anos depois. Não vou mentir ao dizer que achei que muitas cenas do filme estavam lá apenas para encher chouriço, mas sinceramente compreende-se, porque fazer cenas de batalha intensa é algo que custa dinheiro e neste tipo de produções presumivelmente limitadas podemos ser um bocadinho mais lenientes.

Contudo, as cenas de porrada que haviam estavam extremamente bem feitas. Em termos de escala vemos apenas a companhia de Milhais, mas a verosimilhança histórica era bastante alta. Os equipamentos usados pelos tugas eram todos ingleses, espingardas Lee-Enfield e metralhadoras ligeiras Lewis (que eu pensava que ainda eram arrefecidas a água, mas essas eram as Vickers, que o CEP não usou, acho eu). Foi dada alguma atenção ao detalhe nos uniformes e na construção do cenário. No entanto, o que mais me impressionou logo de início foram as tácticas que os alemães estavam a utilizar para atacar a trincheira portuguesa. Nesta altura da guerra os alemães estavam a utilizar tácticas de infantaria novas, focadas em ataques com homens rápidos e ligeiramente equipados, normalmente com pistolas, granadas e carabinas mais curtas, como explicado no vídeo a seguir:

 

 

 

Ora, no filme vê-se efectivamente os soldados alemães com pouco equipamento, maioritariamente granadas e pistolas, o que achei um pormenor extremamente gratificante.

 

Há, como em tudo, alguns pormenores que não pude deixar de notar (para o melhor e para o pior). Os pomenores que parecerem negativos só os digo mais por diversão do que por crítica séria:

  • a certa altura o Milhais está a despedir-se da namorada e vê-se perfeitamente vários furos pouco conservativos para a altura nas orelhas dela;
  • durante um ataque alemão, de repente o capitão português manda o pessoal subir da trincheira para se encontrar com o inimigo na terra de ninguém, o que me parece em todos os aspectos absurdo (não digo que não tenha acontecido, mas parece-me muito estranho que as tropas se expusessem tanto quando já estavam numa posição defensiva excelente);
  • um excelente pormenor bem caracterizado: ao que hoje conhecemos como stress pós traumático foi dado o nome de "melancolia", ou "saudades de casa". É um bom pormenor porque a Primeira Guerra Mundial foi das primeiras guerras onde esta condição foi mais visível, e na altura os médicos e oficiais não faziam ideia do que se tratava e davam-lhe outros nomes (nomeadamente "shell shock"). Aliás, outro vídeo sobre isso:

  • existe uma referência a que foram enviados 75000 homens para a Flandres. O número confundiu-me, porque não acho que tenham sido tantos, mas como as fontes de informação podem variar, hmm, vá, deixo passar;
  • Um zepelim. A baixa altitude. Só o vemos brevemente, mas isto só propaga a noção errada de que os zepelins eram usados "em combate", apesar de a realidade ser ligeiramente diferente.
  • o maior quebrador de imersão para mim: a existência de vegetação, terreno e clima português na Flandres. Acredito piamente que os produtores do filme poderiam ter aproveitado uma das muitas zonas ardidas em Portugal para filmar mais realisticamente um campo de batalha com menos pinheiros e mato seco tipicamente tuga. Consegui imaginar muitos putos a ver este filme e a ficarem confusos a perguntarem-se se a Flandres seria afinal em Portugal. Mesmo na trincheira, vê-se a terra profundamente branca e seca que nada tem a ver com a lama belga.
  • falando nisso, a trincheira portuguesa parecia estar em excelentes condições, o que me parece contraditório com os rumores de que as nossas trincheiras eram das piores da Entente.

Já achincalhei suficientemente o filme. Admiro imenso que tenha havido um esforço por parte de alguém para fazer um filme tão inovador (a meu ver) em Portugal. Espero que muita gente o vá ver (sabemos bem que não) para fomentar a criação de filmes semelhantes.

 

Talvez um sobre o Ultramar? A TVI anda lá sempre a fazer novelas para esses lados, portanto se calhar podiam aproveitar. Ui, se calhar a Operação Mar Verde, que tal?

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publicado às 19:26



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