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Fui ao cinema sozinho

por Rei Bacalhau, em 15.04.18

A afirmação pode não ter grande importância para o comum mortal, mas para mim tal experiência é de dificuldade olímpica. Tenham em conta que nunca em qualquer altura da minha vida me meti numa aventura destas (aliás, esqueci-me das aspas, por isso, "aventura"). Estive sempre habituado em ir a todo o lado com alguém, mas desde que comecei a assimilar a ideia de solidão lupina a que estarei exposto a longo prazo que tenho procurado emendar alguns dos meus males, nomeadamente a minha aversão a fazer seja que actividade for sozinho.

 

Então fui ao cinema sozinho pela primeira vez. Quis ir ver o "Soldado Milhões", em homenagem ao significado cronológico desta semana. Tendo em conta o tema, não haverá melhor filme para se ver sozinho, já que não me parece que eu conseguisse convencer seja quem for a vir ver uma produção portuguesa sobre acontecimentos históricos comigo.

A minha falta de independência mental leva-me a que eu tenha um ligeiro estado de ansiedade sempre que vou algures sozinho, por razões que não consigo explicar devidamente, nem a mim próprio. Mas não! Tinha de ir. De hoje não escapa. Vou ao cinema sozinho! Toda a gente o faz, por isso 'tá-se bem, 'bora lá.

Cheguei à menina da bilheteira e pedi o bilhete para o filme.

"Tem algum cartão de desconto?" - inquiriu ela, simpaticamente.

Respondi um "sim!" triunfantemente, totalmente preparado para a pergunta (pois tinha fanado um cartão da NOS a um familiar).

A menina recebeu-o, algo confusa.

"Ah, é um menu, então?"

Ficámos a olhar um para o outro como se não estivessemos a falar a mesma língua? Menu? Mas isto é o MacDonalds?

Depois de uma troca de clarificações ela apunhalou-me onde mais me doía.

"Ah, você vem sozinho?"

Sim, essa agora, o que é que tem a ver com isso? Há algum problema? É evidente que não disse isso, simplesmente pensei. Na realidade respondi um simples "sim". Ela lá me clarificou pacientemente que aquele desconto só funcionava para duas pessoas.

 

Tudo bem, lição aprendida. O público alvo dos cinemas é as pessoas que têm alguém com quem ir. Hmm... ok.

Devo admitir, no entanto, que pessoalmente aprendi que ver o filme em si é basicamente a mesma coisa seja sozinho ou acompanhado. 

 

Agora, sobre o filme, "Soldado Milhões".

O meu interesse no filme era duplo: em primeiro, é sobre um assunto que me interessa, tendo em conta o meu ligeiro gosto por história (e recentemente a Primeira Guerra mundial); em segundo, tinha curiosidade em saber como é que uma produção nacional abordaria o tema e com que padrões de qualidade.

Ajudou que eu tenha ido com expectativas baixas, pois posso dizer que gostei bastante do filme no geral.

O filme é narrado através das memórias de Aníbal Augusto Milhais, o soldado epónimo do filme. O filme segue o estilo de flashbacks que levam o enredo de trás para a frente entre a Primeira Guerra Mundial e 25 anos depois. Não vou mentir ao dizer que achei que muitas cenas do filme estavam lá apenas para encher chouriço, mas sinceramente compreende-se, porque fazer cenas de batalha intensa é algo que custa dinheiro e neste tipo de produções presumivelmente limitadas podemos ser um bocadinho mais lenientes.

Contudo, as cenas de porrada que haviam estavam extremamente bem feitas. Em termos de escala vemos apenas a companhia de Milhais, mas a verosimilhança histórica era bastante alta. Os equipamentos usados pelos tugas eram todos ingleses, espingardas Lee-Enfield e metralhadoras ligeiras Lewis (que eu pensava que ainda eram arrefecidas a água, mas essas eram as Vickers, que o CEP não usou, acho eu). Foi dada alguma atenção ao detalhe nos uniformes e na construção do cenário. No entanto, o que mais me impressionou logo de início foram as tácticas que os alemães estavam a utilizar para atacar a trincheira portuguesa. Nesta altura da guerra os alemães estavam a utilizar tácticas de infantaria novas, focadas em ataques com homens rápidos e ligeiramente equipados, normalmente com pistolas, granadas e carabinas mais curtas, como explicado no vídeo a seguir:

 

 

 

Ora, no filme vê-se efectivamente os soldados alemães com pouco equipamento, maioritariamente granadas e pistolas, o que achei um pormenor extremamente gratificante.

 

Há, como em tudo, alguns pormenores que não pude deixar de notar (para o melhor e para o pior). Os pomenores que parecerem negativos só os digo mais por diversão do que por crítica séria:

  • a certa altura o Milhais está a despedir-se da namorada e vê-se perfeitamente vários furos pouco conservativos para a altura nas orelhas dela;
  • durante um ataque alemão, de repente o capitão português manda o pessoal subir da trincheira para se encontrar com o inimigo na terra de ninguém, o que me parece em todos os aspectos absurdo (não digo que não tenha acontecido, mas parece-me muito estranho que as tropas se expusessem tanto quando já estavam numa posição defensiva excelente);
  • um excelente pormenor bem caracterizado: ao que hoje conhecemos como stress pós traumático foi dado o nome de "melancolia", ou "saudades de casa". É um bom pormenor porque a Primeira Guerra Mundial foi das primeiras guerras onde esta condição foi mais visível, e na altura os médicos e oficiais não faziam ideia do que se tratava e davam-lhe outros nomes (nomeadamente "shell shock"). Aliás, outro vídeo sobre isso:

  • existe uma referência a que foram enviados 75000 homens para a Flandres. O número confundiu-me, porque não acho que tenham sido tantos, mas como as fontes de informação podem variar, hmm, vá, deixo passar;
  • Um zepelim. A baixa altitude. Só o vemos brevemente, mas isto só propaga a noção errada de que os zepelins eram usados "em combate", apesar de a realidade ser ligeiramente diferente.
  • o maior quebrador de imersão para mim: a existência de vegetação, terreno e clima português na Flandres. Acredito piamente que os produtores do filme poderiam ter aproveitado uma das muitas zonas ardidas em Portugal para filmar mais realisticamente um campo de batalha com menos pinheiros e mato seco tipicamente tuga. Consegui imaginar muitos putos a ver este filme e a ficarem confusos a perguntarem-se se a Flandres seria afinal em Portugal. Mesmo na trincheira, vê-se a terra profundamente branca e seca que nada tem a ver com a lama belga.
  • falando nisso, a trincheira portuguesa parecia estar em excelentes condições, o que me parece contraditório com os rumores de que as nossas trincheiras eram das piores da Entente.

Já achincalhei suficientemente o filme. Admiro imenso que tenha havido um esforço por parte de alguém para fazer um filme tão inovador (a meu ver) em Portugal. Espero que muita gente o vá ver (sabemos bem que não) para fomentar a criação de filmes semelhantes.

 

Talvez um sobre o Ultramar? A TVI anda lá sempre a fazer novelas para esses lados, portanto se calhar podiam aproveitar. Ui, se calhar a Operação Mar Verde, que tal?

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publicado às 19:26


A Quarta Batalha de Ypres (La Lys)

por Rei Bacalhau, em 09.04.18

Sou fã de um canal do Youtube chamado "The Great War", e poderão imaginar que fala da maior guerra de sempre, a Segunda Guerra Mundial.

Mas não.

 

Fala da Primeira Guerra Mundial, que na altura era conhecida mais por "A Grande Guerra" (para ser justo, foi a maior guerra até aquela altura, portanto, percebe-se; aliás, se quisessemos ser pedantes, até poderia argumentar que a Primeira Guerra Mundial não foi a primeira guerra mundial, tendo em conta a Guerra dos Sete Anos, mas pronto).

 

Eu não posso dizer que seja altamente conhecedor de História, mas este tipo de canais na Internet que substituíram o Canal História em termos de legitimidade educacional acaba por me dar uma melhor noção das causas, consequências, acções, dimensões e factos gerais sobre assuntos bélicos e geo-políticos, mesmo que no fundo esse conhecimento me seja pouco útil na prática.

 

Nós, portugueses, temos tendência a dar uma imensa relevância às nossas acções em assuntos internacionais devido à maldição de mediocridade que obtivemos durante os últimos... 150-200 anos, mais ou menos? Digamos que sim.

 

Dito isso, hoje faz 100 anos que começou a Quarta Batalha de Ypres, como se a terceira não tivesse sido suficiente (os Iron Maiden que o digam). Tipicamente chamamos-lhe a Batalha de La Lys, porque creio que era a zona onde o Corpo Expedicionário Português estava situado. Não quero desrespeitar quem lá lutou, mas esta batalha faz-me confusão, especialmente devido à noção que parecemos ter sobre a nossa intervenção na batalha. Quem ouve às vezes o pessoal a falar fica com a ideia de que os portugueses morreram às dezenas de milhar acumulados em montes de corpos, monumentos grotescos à martirização lusitana que tanto parecemos querer, com o Soldado Milhões a disparar de lá de cima.

Nada disso. O grande sacrifício português foi pouco relevante em termos estratégicos, e a batalha não é particularmente diferente de tantas outras ao longo da guerra em tantos outros teatros de operações. A enormíssima falta de recursos humanos, materiais e organizacionais do CEP não era nada de invulgar. Bastaria olhar para a frente italiana para se encontrarem dois exércitos inteiros a defrontarem-se ao mesmo nível de incompetência geral (e se acham estranho terem havido quatro batalhas em Ypres, recomendo irem ler sobre as Doze Batalhas do Isonzo).

Sim, morreram uns tugas. Sim, uma quantidade relativamente imensa de tugas foram capturados. Sim, foi uma derrota. Mas compreendam que para as outras grandes (e não só) nações que já andavam à porrada há tanto tempo, as nossas perdas são miseravelmente inferiores, e quem estuda História tem tendência a ficar dessensibilizado para os números catastróficos de perdas humanas, e então numa guerra como esta. (para colocarem em perspectiva, estima-se que a Sérvia, um dos catalisadores involuntários da guerra, perdeu um quarto da sua população, um pouco mais de um milhão de pessoas).

 

Sim, La Lys deve ser lembrada e os combatentes nela homenageados. Só gostaria que tivessem em conta que apesar de tudo fomos muito pouco relevantes na guerra, e ainda bem, para melhor ou para pior.

 

Eis um videozinho que explica o que eu quero dizer de maneira mais profissional:

 

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publicado às 15:02


Miguel I da Roménia

por Rei Bacalhau, em 05.12.17

"A morte de um homem é uma tragédia. A morte de milhões é uma estatística."

 

Esta citação é normalmente atribuída ao Estaline, mas tanto quanto sei tal atribuição é historicamente incorrecta.

O que não é historicamente incorrecto é que o Estaline conheceu e galardoou a certa altura um miúdo novito romeno, de vinte e poucos anos, muito convicto de si próprio e que ajudou a derrotar os Nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Este miúdo chamava-se Miguel I, Rei da Roménia. Morreu hoje com 96 anos. Era a última pessoa viva que tinha liderado uma das nações beligerantes da Guerra.

Ele tinha um bocadinho de sangue português (era descendente de D.Maria II) e o pai dele morreu no Estoril em exílio.

 

michael_I_young_old.png

 

Eu tenho algum interesse pela Segunda Guerra Mundial e acho interessantíssimo que ainda até hoje existissem alguns dos políticos desses tempos conturbados. Miguel I foi especialmente importante porque acelerou o fim da Guerra, derrubando o regime de extrema direita vigente com um golpe de estado e permitindo que os soviéticos tomassem (mais) facilmente controlo absoluto da Roménia.

O Miguel lá conseguiu juntar-se oficialmente aos Aliados depois de um armistício, imitando um bocadinho a Itália em termos de andar sempre a mudar de lado. É evidente que os soviéticos eventualmente pediram-lhe com jeitinho para abdicar e deixar a Roménia seguir o caminho natural do comunismo forçado, mas pronto, isso é outra conversa.

Estamos a falar de um homem que se encontrou pessoalmente com figuras relativamente conhecidas na época, tipo o Hitler, o Mussolini, o Estaline e o Truman. Efectivamente, era um dos últimos pontos de ligação vivos a pelo menos quatro dos grandes monstros da Guerra.

Como é que ele não morreu de desgosto há mais tempo nunca perceberei.

 

Em homenagem a este jovem, vou fazer um joguinho como a Roménia no videojogo Hearts of Iron IV, só para mostrar ao Hitler, ao Estaline e a gajos mais locais tipo o Antonescu e o Codreanu alguma boa educação.

 

20171205203344_1.jpg

 

(Nota engraçada, nem reparei, mas comecei a escrever este texto às 19:45, vou manter só pela piada)

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publicado às 19:45



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