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Dragões, provavelmente.

por Rei Bacalhau, em 17.10.17

Admito-o, sou um leigo em quase todos os aspecto da vida política, social, económica, industrial, comercial, sexual e cultural do nosso país. No entanto, gosto de pensar que quando não percebo alguma coisa haverá sempre algures algo a explicar o que não sei.

No outro dia disseram-me, "ah, o nosso azeite é muito bom, tem 4 décimos". Ah, boa, pensei, ainda bem, apesar de não fazer a mínima ideia do que isso significava na prática. Dito isso, fui ao Google, fiz uma pesquisa rápida e encontrei um site que me explicou o que era a acidez do azeite e a partir de quando é que é virgem, extra virgem ou mesmo Steve Carell.

Fiquei satisfeito por ter a ilusão de que já percebia mais alguma coisa do assunto.


Mudemos de assunto.

 

Admito-o, sou um leigo em quase todos os aspecto da vida política, social, económica, industrial, comercial, sexual e cultural do nosso país. No entanto, gosto de pensar que quando não percebo alguma coisa haverá sempre algures algo a explicar o que não sei.

No outro dia disseram-me, "ah, morreram mais umas 30 pessoas em incêndios descontrolados por Portugal fora". Ah, mau, pensei, ora bolas!, apesar de ser absolutamente absurdo pensar que isso poderia acontecer outra vez. Dito isso, fui ao Google, fiz uma pesquisa rápida e encontrei centenas de milhares de notícias, vídeos, publicações e comentários que não me conseguiram explicar concretamente como é que chegámos outra vez a esta situação.

Fiquei insatisfeito por não ter a ilusão de que já percebia mais alguma coisa do assunto.

 

Pode parecer ridículo comparar detalhes bem estudados sobre azeite com os detalhes aparentemente desconhecidos sobre a causa dos incêndios. Em verdade vos digo que à partida concordaria com tal pensamento. No entanto, parece-me igualmente ridículo que a espécie humana tenha evoluído de modo a saber coisas tais como os triglicéridos e as glicerinas e os antioxidantes e os fenólicos (o tirosol e hidroxitirosol) e essas tretas todas do azeite, MAS não conseguimos de forma alguma olhar para um certo outro problema recorrente e observável e arranjar soluções.

"Espera lá, mas isso é o que toda a gente anda a dizer! Daqui a nada 'tás-te a candidatar p'ó Governo, não?", pensais vós, com toda a razão.

Volto ao início. Sou um leigo. Não percebo nada de incêndios. Quer dizer, percebo um bocadinho, porque uma vez causei um incêndiozinho pequenino numa queimadazinha numa propriedade da família. Não ardeu grande coisa, mas consegui ter a ilusão de compreender o quão fácil é um fogo descontrolar-se. Iludi-me igualmente de perceber o quão difícil é lutar contra um (quero com isto dizer que não se pode comparar um micro-incêncio aos incêndios apocalípticos que destruiram o mato e floresta "impunemente").

Falemos de causas e soluções então! Assumindo que as queimadas negligentes não são a causa única dos incêndios, então temos de investigar mais aprofundadamente. Contudo, a única ferramenta que tenho para isso é mais uma vez o Google, mas certamente alguém saberá responder. No meio das secções de comentários dos fóruns online e dos sítios de notícias haverá alguém mais iluminado que todos os outros. Um S. Sebastião que aparecerá num dia de fumo, e que erradicará todos os nossos males ígneos. Provavelmente vestido de bombeiro.

Os rumores e explicações para as causas e factores que provocam os incêndios que já vi e li vão do mais absurdo ao mais verosímil, mas sabe-se lá qual deles será a verdade. Listemos (juro que não percebo porque é que os pontos brancos não estão avançados, mas pronto):

  • mão criminosa:
    • empresas maléficas de celulose, madeira, pasta de papel e coisas assim;
    • empresas de meios aéreos de combate ao fogo;
    • negligência (queimadas, cigarros, churrascos, lixo, foguetes, etc.);
    • os próprios bombeiros voluntários a atear fogos;
    • as bombas de gasolina que lucram com a lavagem de carros depois destes ficarem cheios de cinza;
    • pessoal de direita a atear fogos para desacreditar a esquerda no poder;
    • pessoal maluco da cabeça;
    • terrorismo;
  • causas naturais:
    • relâmpagos;
    • combustão espontânea;
  • negligência humana/governamental:
    • cabos de electricidade a causar incêndios;
    • meteorologistas incompetentes;
    • falhas de comunicação a vários níveis;
  • "o Governo é uma merda" (resume basicamente metade das coisas que leio na net):
    • colocação de "amigos" em posições importantes;
    • falta de limpeza de... tudo;
    • leniência exagerada para com os criminosos "apanhados";
    • incompetência dos ministros e afins (deviam demitir-se, essa agora, e tal);
  • "os bombeiros são uma merda" (calma, não sou eu que o digo, estou só a tentar resumir o sentimento que percepciono):
    • má organização geral;
    • falta de bombeiros profissionais;
    • falta de equipamento;
  • desertificação populaconal:
    • terrenos ao abandono;
    • falta de meios humanos locais;
    • falta de infraestrutura de combate a fogos;
  • "Portugal é uma merda":
    • inércia da população portuguesa para exigir explicações e responsabilizações.

 

O eucalipto merece um parágrafo só para ele, pois é moda aparente odiar esta espécie invasora. Consigo imaginar o pessoal de extrema direita a pensar "os eucaliptos deviam de voltar p'á terra deles, raios partam os pret... erm... os eucaliptos".

As soluções apresentadas pela mente nacional são igualmente inconsistentes e variadas:

  • demissões a torto e a direito;
  • criação de um corpo profissioal de bombeiros;
  • utilização de desempregados/presos/soldados para limpar terrenos;
  • apropriação de terrenos privados abandonados;
  • reformas e mais reformas de... tudo;
  • queimar os responsáveis(?) pelos incêndios em praça pública (sim, a sério);
  • prevenção ao longo de todo o ano;
  • manifestações.


Admito-o, sou um leigo, e continuo a sê-lo. Ao vasculhar a internet à procura de respostas só fiquei mais confuso, mais mergulhado no caos de revolta e tristeza que as palavras dos portugueses transferem. Pode parecer estranho, mas admito que não posso censurar realmente o Governo por não saber o que fazer. Apontamos culpas para todo o lado e as soluções que julgamos ter demoram tempo a implementar e nem sabemos se resolvem seja o que for. Não há ninguém com força política e pessoal para fazer frente a um desafio destes em termos estratégicos. Há uma data de perguntas que têm de ser feitas cujas respostas são difíceis de obter, e a inércia natural portuguesa leva a que não se faça pressão suficiente, e mesmo quando se faz, a culpa é sempre doutro qualquer.

Nem o Sexta às 9 conseguiria resolver isto.

 

Um último pensamento: o pessoal achou estranho que houvesse alguém supostamente importante a dizer que os civis deveriam ajudar a combater os fogos. Isso não me parece escandaloso. Há muito que todos os que vivem em localidades de risco já deveriam ter aprendido que estão mais ou menos por sua própria conta.

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publicado às 13:19


"É mandá-los para dentro do fogo!"

por Rei Bacalhau, em 11.08.16

Incêndios.

 

São uma indisposição imensa que me avassala diariamente. No entanto, já devia estar habituado, porque todos os anos é a mesma coisa.

Na prática, a destruição de imensas áreas de floresta não afecta directamente o cidadão comum. Certamente também não afecta significativamente a Natureza, pois ao longo de milénios, a Terra já sofreu bem pior, e ainda cá está. Não percebo grande coisa de economia, mas se calhar estes incêndios até são bons para certos niches económicos.

Calma, ainda não acabei de escrever, continuem a ler antes de fazerem juízos.

 

Felizmente ou infelizmente, o ser humano não é só um animal prático, mas também extremamente social. Dito isso, nestas alturas o melhor e o pior da sociedade vem ao de cima. Sendo uma pessoa negativista, eu tenho tendência a dar mais importância ao pior que vejo.

 

Vejo pessoas a defender a pena de morte aos incendiários, e isto mete-me confusão. Existe uma quantidade infernal de ódio gerada pelos eventos dos últimos tempos, comparável na sua proporção apenas aos próprios incêndios em si.

Ainda compreendo mais ou menos o pessoal que diz que se devia obrigar os incediários a replantar florestas e limpar matas, mas há obviamente quem exagere e que queira obrigar os criminosos a trabalhos forçados.

Às vezes pergunto-me se quem diz isto sabe realmente o que a expressão "trabalhos forçados" quer dizer? Pergunto-me se estas pessoas sabem o que quer dizer MATAR alguém?

Vi pessoas a dizer que se deviam mandar os pilantras para dentro dos fogos, em praça pública! Sei que estamos num país tradicionalmente católico e consequentemente algumas ideias de Inquisição ainda pairam por aí, aparentemente, mas parece-me um retrocesso civilizacional sequer propôr tais extremos. Pergunto-me se teriam coragem de pegar numa torcha, olhar o criminoso nos olhos e acender pessoalmente o lume que o mataria?

 

Não me interpretem mal, eu não estou a pedir indulgência para esses piromaníacos, interesseiros ou negligentes que ateiam os fogos. Apenas me revolta um bocado a reacção violenta com que as pessoas continuam a ter com uma situação que já deveria ser banal.

Chamem-me o que quiserem, mas todos nós sabemos que isto nunca mudará. Os incêndios são o nosso terrorismo, no sentido de ser já um FACTO tomado como garantido e impossível de combater. Não temos força social/política/judicial/económica/não-sei-quê para acabar com este problema. Temos de nos aperceber que estaremos perpetualmente a lutar contra os sintomas, e nunca contra as causas.

 

Concluindo, portanto, da próxima vez que sentirdes um ódio de morte imenso dentro de vós, reflecti nesta pergunta:

Who made you God to say "I'll take your life from you"?

 

 

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publicado às 13:00



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